Resumo

Este artigo tem como objetivo analisar a presença ou a ausência de nomes eufêmicos para a chuva de granizo registrados nos atlas linguísticos desenvolvidos no Paraná e em Minas Gerais, em épocas anteriores ao Atlas Linguístico do Brasil (ALiB), e compará-los com as ocorrências coletadas para este atlas nacional, nos três estados: Paraná, São Paulo e Minas Gerais. Apresenta-se inicialmente uma síntese de alguns trabalhos geolinguísticos de várias naturezas como forma de situar o propósito deste texto, procedendo-se, na sequência, à análise dos dados obtidos, demonstrando como essas formas eufêmicas estão em processo de extinção na fala popular. 

Apresentação

A Geolinguística no Brasil tem oferecido farto material para pesquisas de natureza variada, sobretudo no nível lexical. Dentre as dezenas de trabalhos publicados, citamos Cardoso (1994, 2010), Aguilera (2010, 2015), Razky et al. (2010), Romano (2012b), Doiron (2016), Aguilera e Silva (2015), entre outros.

Esses trabalhos, percorrendo caminhos teóricos e metodológicos distintos, exploram o léxico coletado em pesquisas geolinguísticas com objetivos os mais variados, tais como o de: (i) delimitar áreas de isoléxicas; (ii) demonstrar a importância da sócio-história na inserção de certas variantes em dadas áreas geográficas; (iii) comparar o acervo lexical em sincronias distintas; (iv) comparar itens lexicais em diferentes línguas e modalidades de línguas; (v) demonstrar a dicionarização ou a sua ausência nas obras lexicográficas mais utilizadas no Brasil; e (v) verificar a motivação semântica na escolha da variante.

Sobre a delimitação das áreas de isoléxicas e da influência dos fatores sociais, Razky et al. (2010), numa perspectiva geossociolinguística, analisam as variantes para cigarro de palha a partir dos dados coletados pelo ALiB em 25 capitais. Na dimensão espacial, observam que a variante cigarro de palha é a mais frequente e caracteriza o português brasileiro, atestada em todas as capitais pesquisadas. Na dimensão geográfica regional, a variante porronca concentra-se na Região Norte, mais especificamente em Boa Vista, Macapá, Manaus e Belém. Quanto às dimensões sociais, concluíram que os fatores idade e sexo não são relevantes para distinguir os falantes desses grupos, ao contrário da escolaridade em que os dados indicaram que cigarro de palha é mais recorrente entre os falantes do nível superior e porronca o é na fala dos de nível fundamental.

Quanto à importância da sócio-história na inserção de certas variantes em determinadas áreas geográficas, Aguilera (2010) analisa as cartas de oito dos dez atlas até então publicados, em especial os que trazem as variantes para arco-íris, cambalhota, chuva de granizo, dente-do-siso, estilingue e osso-do-joelho e discute a importância da história social na distribuição espacial das variantes, uma vez que o estudo apontou “indícios suficientes para traçar o caminho dos homens que transportaram essas variantes ao longo de mais de 400 anos e, ao mesmo tempo, fazendo a história do português brasileiro” (AGUILERA, 2010: 86). Acredita a autora que “O papel mais importante coube aos bandeirantes paulistas na expansão das fronteiras territoriais e linguísticas, levando o português popular e rural que ainda subsiste e pode ser comprovado, pelo menos, nos estados que já fizeram seu atlas linguístico”. Aguilera (2010: 86) reconhece, porém, que

nem todas as variantes coletadas e mapeadas permitem localizar sua origem ou rastrear o caminho de cada uma delas, nem mesmo associá-las a um movimento histórico, pelo menos por ora. Exemplificamos com marraio para a bolinha-de-gude, em Sergipe (CARDOSO, 2005, carta 97), boldando para cambalhota, na Paraíba (MENEZES; ARAGÃO, 1984, carta 131), e quiquio, na Bahia (ROSSI et al., 1963, carta 58 R), para axilas. Isto porque, ora são formas já incorporadas à linguagem padrão do português brasileiro, portanto comuns a diversas regiões, ora são vestígios tão pequenos e localizados que, na ausência de atlas nos demais estados, os rastros se tornam descontínuos e esgarçados.

Romano (2012b), estudando a variação lexical em Londrina em duas sincronias, propôs uma comparação entre os dados coletados por Aguilera (1987), entre os anos 1985 e 1986 e os coletados pelo autor, entre 2010 e 2011, tendo como objeto de suas reflexões as variantes para chuva de granizo. A título de conclusão, o autor salienta que as cartas lexicais analisadas apontam

para uma mudança linguística em progresso. O estudo em tempo real e tempo aparente, no que se refere ao nível lexical, constatou que as áreas de isoléxicas não mais se definem como na década de 80, ou seja, a região sul (de Londrina) já não se diferencia tão significativamente da região norte, conforme detectou Aguilera (1987). A variação e a mudança linguística em Londrina são de caráter diageracional (...) e se referem menos ao aspecto diatópico. (ROMANO, 2012: 322)

Dentre os trabalhos que visam a comparar itens lexicais em diferentes línguas e modalidades de línguas, selecionamos o de CARDOSO (2010) e o de AGUILERA e SILVA (2015). A primeira comparou itens lexicais referentes ao mundo rural, tais como cauda de animais, boi ou cabra sem chifres e cria da ovelha em duas modalidades da língua portuguesa: em dados do Atlas Linguístico-Etnográfico dos Açores (FERREIRA et al., 2001), do Atlas Prévio dos Falares Baianos (ROSSI et al., 1963) e do Atlas Linguístico de Sergipe (FERREIRA et al., 1987).

Cardoso (2010:122) conclui que

Açores e Brasil selecionam, como de uso mais representativo, os mesmos itens lexicais para os três conceitos e tais itens são os de maior índice de ocorrência na área continental, embora nesta, e para alguns casos, haja variedade maior de usos, como sucede com o que se registra para cria da ovelha e para sem chifre.

O artigo de Aguilera e Silva (2015) diz respeito às convergências lexicais observadas no Atlas Lingüístico Galego e no Atlas Linguístico do Paraná, sobre a área dos olhos. Ao final, as autoras observam que

determinadas variantes, ainda vigentes na fala rural paranaense, estão ligadas a formas galegas e que alguns processos metonímicos e de criação lexical atuam da mesma forma nas duas línguas. Ademais, constatamos que as tendências sociais referentes ao item lexical capela foram processadas de forma similar nos três contextos linguísticos, ou seja, galego, português europeu e dialeto paranaense. (AGUILERA e SILVA, 2015:17).

Sobre a dicionarização de variantes populares, vários autores, ao lado das discussões teóricas específicas, costumam incluir informações sobre a presença e a ausência de lemas nos dicionários. Isquerdo (2007: 539), por exemplo, para explicar a origem e significados de bodoque através dos tempos, busca respaldo em dicionários antigos e atuais e conclui que

pode-se perceber que a lexia bodoque recebeu sentidos distintos nas diferentes fases da sua história, ou seja, primeiro designou um tipo de bola de argila cozida que se arremessava com um tipo de besta (arma antiga), passou a designar o arco com que se atirava essas bolas, nomeia também uma arma de guerra e na atualidade designa um tipo de brinquedo.

Finalmente sobre a motivação semântica na escolha de variantes, Doiron (2016:106) analisa a motivação que subjaz às designações do redemoinho de vento no Atlas Linguístico do Estado de Alagoas e finaliza esperando ter confirmado, primeiramente, a hipótese de que toda criação lexical é motivada na origem. Nesse processo, ela pode passar por um ciclo evolutivo que compreende: a) motivação; b) perda do conhecimento da motivação (opacidade da designação); c) caráter arbitrário; d) re- motivação.

Feita uma síntese de alguns trabalhos geolinguísticos direcionados por objetivos e metodologias as mais diversas, passa-se ao objetivo principal deste texto que é o de analisar a presença ou a ausência de tabus linguísticos acerca das denominações populares para chuva de granizo registradas nos atlas linguísticos realizados no Paraná e em Minas Gerais, em épocas anteriores ao Atlas Linguístico do Brasil, e compará- las com os dados coletados para este atlas nacional, nos três estados: Paraná, São Paulo e Minas Gerais. Como é possível observar, são pouco explorados os temas voltados para o tabu linguístico e o eufemismo em dados geolinguísticos, razão pela qual se justifica este trabalho.

1. A chuva de granizo de ontem nos atlas linguísticos paranaenses e mineiro.

Dos atlas paranaenses, de caráter local, isto é, com pesquisa circunscrita a apenas um município, concluídos no período de 1987 a 2010, o Esboço de um atlas linguístico de Londrina – EALLO - (AGUILERA, 1987), na carta 7, além de chuva de pedra, granizo, granito, gelo e neve, registrou: chuva de flor, chuva de rosa, chuva de sal, chuva de milho e florzinha, documentadas em seis das 12 localidades investigadas.

Para o Atlas Geossociolinguístico de Londrina, Romano (2012a) seguiu a metodologia do Atlas Linguístico do Brasil (ALiB), e se propôs a comparar os dados da fala londrinense em duas sincronias. Para isso, o autor percorreu as mesmas localidades de Aguilera (1987) e procedeu a uma investigação em tempo real e tempo aparente.

Romano (2012a) constatou que as variantes eufêmicas para chuva- de-granizo, praticamente, desapareceram da linguagem cotidiana dos londrinenses, mantidas apenas no vocabulário passivo. As únicas respostas obtidas foram chuva de pedra e granizo. Ao serem indagados por “outros nomes” para o fenômeno atmosférico, os informantes comentaram (ROMANO, 2012b: 320-323):

(1) pedra, mas eu não falo pedra, não. Tem gente que fala pedra, minha mãe não deixava nóis falá pedra, porque pedra é pedra e aquele lá é uma coisa que vem lá do céu, que tá caindo, que Deus tá mandano. (...) Flores. É granizo, mas a minha mãe não deixava nóis falá pedra, não, nós nem falava granizo, era pra falar “tá... tá choveno flor”, pra não vim forte (Inf. 04/4).

(2) Antigamente (não) falava chuva de pedra. Turma tinha medo de falá chuva de pedra. Turma falava quando vinha “ah, mai tá dano uma chuva de fror (Inf. 10/3).

No Atlas linguístico de Centenário do Sul – ALCS – PIZOLATO (1997), ao lado das variantes chuva de pedra, chuva de gelo, chuva de granito, granizo, também registrou: chuva de flor, chuva de rosa, chuva de maravilha1. AGUILERA, no Atlas Linguístico de Ortigueira (inédito), na carta 15, registrou a variante chuva de flor na fala dos homens e das mulheres nos pontos 7 (Bairro dos Franças) e 8 (Vista Alegre) e na fala da mulher do bairro Andradina.

Essas variantes eufêmicas se distribuem pelas localidades do Norte do Paraná, onde, entre o final do século XIX e quase todo o século XX, predominava a lavoura cafeeira cultivada, sobretudo, por mineiros e paulistas.

No Atlas Linguístico do Paraná (AGUILERA, 1994), há três cartas sobre as variantes para chuva de granizo: da Carta 24, constam: chuva de pedra, granito, pedreira e na Carta 26: tormenta, tempestade, neve, gelo. A carta 25 traz as formas eufêmicas: chuva de flor, chuva de rosa, chuva de milho, distribuídas por 24 dos 65 pontos da rede do ALPR, conforme apresenta a figura 1.

Figure 1.

FIGURA 1: Carta para Chuva de Pedra (designações eufêmicas)

Fonte: AGuILERA, Vanderci de Andrade. Atlas Linguístico do Paraná. Curitiba: Imprensa Oficial, 1994, p.73.

Os comentários dos informantes demonstram a crença na força da palavra capaz de alterar os fenômenos da natureza, bem como é capaz de se confrontar com o poder de um Deus implacável, que não pode ser ofendido. A palavra deve ser amenizada, dulcificada, para ficar em consonância com a natureza e a força divina. É o que podemos observar em alguns excertos extraídos do ALPR (AGUILERA, 1994, p. 72), pois, “num é bom falá chuva de pedra (Inf. 1A)”. Se “a gente falá :: deu uma chuva de pedra aí a gente tá... tá brigando com Deus, né, tá chamando mais. Então a flor.., a flor é um troço cheroso, um troço da terra, né (Inf. 11B).”

Corroborando a crença do conterrâneo, o informante 12A, diz que “nói(s) fala rosinha”... “porque diz que não presta, né.., um fala granizo, né, otos fala rosinha, nóis fala rosinha.”

Apesar de documentada em 37% dos pontos linguísticos do ALPR (1994) e, mesmo sendo um atlas rural, as formas eufêmicas já estavam perdendo a força na fala dos mais jovens, no final da década de 80 do século passado, conforme indicam os depoimentos dos informantes paranaenses:

(3) é :: chuva de pedra, né. Uns fala chuva de pedra otos fala chuva de flor”. Perguntou-se quem costumava usar este nome: “(...) geralmente pessoa mai(s) velha falando, né, diz que incrusive falava que num pudia falá chuva de pedra, tinha que falá chuva de flor que Deus num gosta que falava chuva de pedra” (Inf. 2B).

(4) O informante observou que chuva de flor só é registrada em pessoas “mais antigas”. No entanto, sua esposa, de 37 anos, respondeu espontaneamente: “chamo chuva de flor (Inf. 14B).

Quanto à distribuição diatópica das formas tabuizadas, no ALPR, é importante lembrar que elas se concentram nos pontos da região norte do Estado que se notabilizou pela presença maciça de mineiros e paulistas atraídos pelo cultivo do café durante a primeira metade do século XX. Nas palavras de Aguilera (2010: 81), a chuva de granizo por ser altamente nociva para a cafeicultura, “sobretudo na época da florada, produziu uma forma de defesa contra as forças da natureza pelo uso de eufemismos a fim de abrandar as intempéries e, ao mesmo tempo, agradar a Deus”.

Olhando para os dados do Esboço de um Atlas Linguístico de Minas Gerais – EALMG (RIBEIRO et al, 1977), conforme traz a carta de número 12 (Figura 2), verifica-se que a variante chuva de flor concentra- se na região Norte de Minas Gerais, no Alto Médio São Francisco, compreendendo as cidades de Janaúba (1A), Porteirinha (1B), Mato Verde (1C), São Romão (4), Pirapora (5), Jequitaí (6), Capitão Enéas (8) e Bocaiúva (10). Já, chuva-de-rosa circunscreve-se ao Oeste e ao Campo das Vertentes, nas localidades de Piumhi (51), Divinópolis (61), Formiga (73) e Oliveira (74), Caxambu (88) e Lavras (89).

Segundo Aguilera (2010), o ponto de irradiação de chuva de flor parece ter sido o Alto Médio São Francisco, percorrido pelos paulistas dos séculos XVII e XVIII. A arealização de chuva de rosa, por sua vez, parece indicar a presença dos bandeirantes no auge do ciclo da mineração, circundados por pontos periféricos para onde se irradiaram as formas eufêmicas.

Figure 2.

FIGURA 2: Carta para Chuva de Pedra (EALMG)

Fonte: RIBEIRO, José et.al. Esboço de um Atlas Lingüístico de Minas Gerais. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1977, carta 12.

1.2 A chuva de granizo hoje no Atlas Linguístico do Brasil (ALiB) em dados paranaenses, paulistas e mineiros

Nos dados do ALiB, coletados nos 16 pontos do interior e na capital do Paraná, foram registradas: chuva de pedra, granizo, chuva de gelo e granito. Duas únicas referências a chuva de flor ocorreram na voz das duas falantes femininas de Nova Londrina, somente depois de inquiridas sobre se conheciam por outro nome:

(5) Ai, quando eu era pequena falava chuva de pedra ... chuva de flor (...) Num sei (se mudou)... sei lá... a gente fala mais chuva de flor, né... chuva de granizo (...) geralmente as mais velhas (é que falam) (Inf. 2-Nova Londrina).

(6) Ó tem gente que fala chuva de flor, mai eu conheço mesmo é por chuva de pedra (...) Já ouvi falar, chuva de flor, minha sogra memo ela é da Bahia, ela falava chuva de flor (Inf. 4 - Nova Londrina).

Os dados coletados nos 37 pontos do interior e na capital paulista revelam a presença de chuva de pedra, chuva de granizo/granizo, chuva de granito, chuva de gelo e as hápax legomena chuva de pedregulho, chuva de neve e chuva nevada. A variante chuva de flor apresentou dez ocorrências e chuva de rosa, apenas uma. Os diálogos de 7 a 16, a seguir, sobre a chuva de flor, foram extraídos das falas dos informantes. Os dados entre parênteses dizem respeito à localidade e ao perfil do informante:

(7) INQ.- O senhor chama chuva de flor, por quê?

INF.- Ah, pra num falá que é, quanto mais fala caiu pedra, caiu gelo, cai mais, né, então cê dá uma desviada na conversa, pessoal já entende (151. Votuporanga- homem idoso).

(8) INF.- Chuva de gelo, o quê mais?

INF.- E chuva de flor . É porque a gente não fala chuva de gelo que num pode, éh, povo antigo fala que num pode né, mais a gente chama, chama de flor.

INQ.- E por que não pode?

NF.- Ah... os povo antigo fala que num pode, porque aí vem mais ainda, aí vem mais pedrona (155. Andradina-mulher jovem).

(9) INQ.- Quem mais fala chuva de flor?

INF.- É, esse aí é mais é o... o povo antigo né, que já vem daquela geração antiga que fala (...). Parece que tem medo de falá de pedra né, então fala chuva de flor. Tudo dos antigo, de pessoa mais antiga, que fala chuva de flor.

INQ.- Os mais jovens...?

INF.- Os mais jovens (riso) já amodernô tudo, já... é chuva de pedra, um fala chuva de pedra, ou chama tudo de granito. Ah, o mais antigo é chuva de flor. Principalmente os católico né, mania de falá que as coisa é errada. (155. Andradina-homem idoso).

(10) Né, aquelas pequenininha eles falam chuva de rosa, minha mãe falava é pra acalmá a chuva. Então num podia falá chuva de pedra, falá chuva de pedra dizem que chovia mais. Você tá entendeno? Por isso que a gente falava chuva de rosa. (159. Ibitinga – mulher jovem).

(11) INF.- Minha vó falava que era chuva de flor.

INQ.- Você sabe porque ela falava assim?

INF.- Porque ela falava que num podia falá que era chuva de gelo

senão Deus castigava.

INQ.- E você, fala que é o quê?

INF.- Eu falo chuva de flor. Quando chove essas pedrinha assim de gelo, eu não falo gelo, eu falo chuva de flor (162. Adamantina- mulher jovem).

(12) INQ.- Tem outros nomes?

INF.- Chuva de gelo cai a... choveu flor.

INQ.- Por que fala assim?

INF.- O povo aqui tem uma história, que fala assim que num pode falá que é granizo né, porque diz que se a gente fala que é granizo, se é gelo, diz que aí que cai mais, então a mania que o povo tem de falá assim:” Ah tá chovendo flor né, pra aumentá, pra diminuí. Então é crendice né? (162. Adamantina, mulher idosa).

(13) INQ.- E onde você ouviu falar chuva de flor? É um nome bonito.

INF.- A chuva de flor? Nossa, quando eu era pequena assim tem, tinha menina que falava que era chuva de flor, as mães falava pra ela que aquilo era chuva de flor.

INQ.- Hoje as pessoas não falam?

INF.- Não, hoje as pessoas num fala. Quando a gente era pequena que... às vez chovia então... uns falava: “É chuva de pedra”, oto: “É chuva de granizo.”, “Não, minha mãe falô que é chuva de flor” (164 Teodoro Sampaio, mulher idosa).

(14) INQ.- Tem outro nome? INF.- Chuva de flor.

INF.- De flor. Faiz tempo que eu num iscuto isso. (...) Eh, eu aprendi acho que foi c’a minha mãe. Minha mãe, c’a minha vó. Foi c’a... acho que foi c’a minha mãe e c’a minha vó. E faiz tempo que eu num... iscuto isso e alembrei agora (165 Presidente Prudente,homem jovem).

(15) INQ.- Tem um outro nome, mais antigo, que a sua mãe usava? INF.- De flor. É, fora chuva de pedra... é porque... eh, assim, minha vó falava né que num presta falá que é chuva de pedra que vinha mais forte. Então falava que é chuva de flor né. Mas eh... acho que é só conversa né. Se tivé que vim...

INQ.- E você hoje, quando vai falar um nome, você fala chuva...

INF.- Chuva de flor eu falo pr’os meus filhos. (165 Presidente

Prudente, mulher jovem).

(16) INF.- Tem gente que fala que é a chuva de flor, né.

INQ.- E você chama como? INF.- Chuva de flor, eu falo.

INQ.- É e a mãe falava porque que tinha...

INF.- Falava... Num sei, de primeiro ela falava pra mim que era pecado falá que era gelo que ‘tava caino (168. Marília-mulher idosa).

O léxico eufêmico, como se pode observar, foi adquirido por transmissão oral, geralmente por meio da mãe ou da avó. É a figura feminina que veicula este tabu linguístico por não conseguir uma explicação racional para a chuva de granizo. Os informantes paulistas, também, remetem essas variantes à fala das pessoas “antigas” influenciadas por fatores religiosos. Como já não fazem parte do mundo rural, onde a lavoura era destruída pela chuva de granizo, eles acreditam que essas designações estão atreladas à “crendice” dos mais velhos e que, nos dias atuais, a denominação “amodernô”. Esses fatores, possivelmente, influenciam a baixa frequência das variantes eufêmicas registradas em somente oito das 38 localidades visitadas. Pode-se afirmar que está em curso uma mudança em progresso.

Nos 22 pontos do interior de Minas Gerais e na capital, o ALiB documentou granito/granizo, chuva de granito, chuva de granizo, chuva de pedra, chuva de gelo, pedra de gelo, neve e uma ocorrência de geada. As designações eufêmicas apareceram em apenas quatro localidades, a saber: chuva de rosa, três ocorrências em Lavras, uma em Belo Horizonte e em Formiga (nesta última também se registrou chuva de flor), totalizando cinco ocorrências. Já, em Passos, foram obtidas chuva de flor, caindo flor e choveu florzinha.

Também em Minas Gerais, os informantes atribuíram essas denominações à fala de pessoas de mais idade e, ao mesmo tempo, ao medo das forças da natureza, como pode ser verificado na fala da informante da segunda faixa etária de Formiga:

(17) INF.- (...) As pessoa antiga tinha medo de falá chuva de pedra, aí elas fala chuva de flor. (...) Porque achava que se falasse chuva de pedra, podia a chuva vir mais forte, essas coisa. Então, ela falava que quando era chuva de pedra ela falava chuveu flor.

Quanto à distribuição dessas formas nos três estados, conforme ilustra a Carta Linguística elaborada pelas autoras (figura 3), as variantes chuva de flor e chuva de rosa, concentram-se no Oeste de São Paulo, atingindo Nova Londrina, cidade paranaense limítrofe ao estado, abrangendo, ainda, as cidades mineiras de Lavras (Campo das Vertentes), Passos (Sul/ Sudoeste), Formiga (Oeste) e Belo Horizonte (Região Metropolitana).

Como se sabe, o Oeste paulista circunscreve-se recentemente na história do estado de São Paulo e sua ocupação efetiva teve início na década de 1920, estendendo-se até 1970. Está marcada pela imigração e, igualmente, pelo grande fluxo de migrantes, sobretudo, de nordestinos, mineiros e fluminenses que vieram em grande número trabalhar nas construções da malha ferroviária e na lavoura de algodão. Esse contexto histórico pode ajudar a explicar a presença das variantes eufêmicas na região. Conjectura-se que sua resistência, embora pouco expressiva, esteja ligada possivelmente a essa migração.

Figure 3.

FIGURA 3. Carta linguística para chuva de flor e chuva de rosa , em Minas Gerais, São Paulo e Paraná: dados do ALiB.

Como se constrói o tabu linguístico sobre a chuva de pedra?

Os dados analisados neste estudo demonstram que a interdição a expressões ofensivas se dá mediante a recorrência (i) a elementos da flora: flor, florzinha, rosa, maravilha, milho. Desses, os quatro primeiros estão no campo das flores, lembrando a beleza, o perfume e a suavidade; o milho, talvez, pela associação ao barulho que um punhado da semente poderia fazer se atirado no telhado das casas, além de conotar positivamente como alimento de amplo uso na culinária brasileira; (ii) a práticas religiosas: ave-maria; (iii) a elemento da natureza tradicionalmente dotado de poder sobrenatural: o sal.

O sal é o elemento que encerra uma significativa simbologia no imaginário popular. É citado em várias passagens bíblicas, pois, tendo a propriedade de impedir a decomposição, passou a representar a estabilidade e a permanência. Está, também, presente nas crendices populares, as chamadas simpatias, pois, atirado no fogo, é um recurso eficaz para se livrar de uma visita demorada ou inconveniente; além disso, permite identificar o vizinho que se transforma em lobisomem quando ele vier pedir um pouco do sal no dia seguinte ao de sua transformação.

Assim, para afastar a chuva de granizo, segundo alguns informantes do ALPR, é bom atirar sal no fogo e, além disso, se referir a ela como chuva de sal, como forma de buscar a pacificação e o equilíbrio das forças da natureza.

Conclusões

Conforme foi demonstrado, a presença das variantes eufêmicas para chuva de granizo diminuiu significativamente no Paraná e em Minas Gerais. A análise do ALPR, publicado em 1994, mostra que, dos 65 pontos, 24 apresentam alguma designação suavizada. Já, nos dados do ALiB, recolhidos entre 2001 e 2004, apenas Nova Londrina, cidade do Noroeste do PR, preserva o item chuva de flor. A mesma tendência decrescente é documentada no estado mineiro, haja vista que, no EALMG, (1977) as variantes chuva de flor e chuva de rosa encontram-se distribuídas por 11 localidades. No acervo do ALiB, por sua vez, apenas nas cidades de Passos, Formiga, Lavras e Belo Horizonte as variantes em questão se fazem presentes.

Em São Paulo, não é possível fazer a mesma afirmação, pois não há um atlas do estado que possibilite comparar os resultados. Todavia, os relatos dos informantes indicam que as lexias eufêmicas estão fadadas, a médio prazo, ao esquecimento, por fazerem parte da fala de pessoas de mais idade.

As mudanças sociais, a urbanização, o acesso aos meios de comunicação e à escolaridade, dentre outros fatores, levam os indivíduos a não temer a chuva de granizo, dispensando a necessidade de suavizar seu significante. Além disso, o esclarecimento de dogmas religiosos, hoje postos à prova em uma sociedade mais aberta e laica, não leva mais ao medo de Deus. Em outros termos, já não é mais necessário dulcificar a linguagem com o receio de ofendê-Lo, culminando na desmistificação do tabu linguístico. Acredita-se que todos esses fatores somados a outros que, nesta oportunidade, podem ter passado despercebidos, permitem afirmar que não chovem mais flores no Paraná, em Minas Gerais e em São Paulo ou, pelo menos, que essas flores diminuíram no falar e no imaginário dos falantes dessas regiões. Todavia, neste artigo, elas se encontram eternizadas na forma de um álbum com retratos envelhecidos de uma geração amedrontada diante de fenômenos naturais que não conseguiam explicar racionalmente.

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Recebido em 10/10/2016 e aceito em 06/12/2016