Resumo

A presente resenha parte da fala de Ester Scarpa, que versa sobre o papel da prosódia na aquisição da linguagem. A palestrante concebe a prosódia como um espaço privilegiado de interface entre os níveis linguísticos; dessa forma, os fatos prosódicos são vistos como recursos linguísticos na fase de aquisição da linguagem, estágio de recursos léxico-gramatical limitados. Assim, a prosódia se constitui como espaço de engajamento da criança na subjetivação, no discurso e no diálogo, e é também via de organização das formas linguísticas. A fala contempla três principais tópicos: (i) apresentação dos primeiros sistemas entoacionais de duas crianças; (ii) discussão em torno da prosódia e de disfluências; e (iii) primórdios da coesão entoacional e da narratividade. São apresentados dois conjuntos de dados: um referente ao uso da prosódia em narrativas iniciais e outro referente a hesitação e disfluências.

Texto

A fala aqui resenhada, intitulada Prosódia e Aquisição da Linguagem[1], foi proferida pela professora doutora Ester Scarpa, no dia 25 de julho de 2020 para o evento Abralin Ao Vivo –Linguists Online, promovido pela Associação Brasileira de Linguística (Abralin), com mediação de Marianne Carvalho Bezerra Cavalcante. Ester Scarpa é professora aposentada da Universidade Estadual de Campinas e tem experiência na área de aquisição da linguagem com ênfase em aspectos prosódicos e psicolinguística.

Scarpa inicia a sua fala trazendo uma citação de Tatit (2020[2]), para quem a entonação é o único jeito de se falar. A partir disso, a palestrante complementa o que diz o referido autor defendendo que a prosódia é um espaço privilegiado de interação entre os diferentes níveis linguísticos. De tal forma, é a prosódia responsável por ser ponte entre a organização formal da fala e o potencial significativo da linguagem durante a fase de aquisição da linguagem.

Sobre o papel da prosódia na aquisição da linguagem, faz-se importante destacar dois pontos da concepção de Scarpa: (i) é via primordial para a orientação de formas fônicas, atuando na apreensão de sistemas de ritmo e entoação das línguas; (ii) é espaço do engajamento da criança nos processos de subjetivação, na dialogia, no discurso, nos processos de alteridade constitutiva do sujeito. Sobre esse último aspecto, Scarpa destaca a atuação dos parâmetros de contorno, velocidade da fala, tessitura, duração e intensidade da voz. Ainda sobre o papel da prosódia na aquisição da linguagem, a palestrante defende que essa é uma via coerente para segmentar, configurar, delimitar a cadeia sonora.

Ao apresentar os primeiros sistemas entoacionais das duas crianças, a professora identifica semelhanças significativas, como curva descendente baixa para falas introspectivas, degraus ascendentes para vocativos e curva ascendente de entonação baixa para média para enumeração. Aponta-se, então, o fato de que as notações se mostram relevantes tanto para significados gramaticais, quanto pragmáticos. Além disso, destaca-se que as crianças produzem tons relativamente maduros, que a configuração desses tons é a mesma encontrada em final de frases assertivas de línguas românicas e que os sistemas apresentados são sensíveis a uma queda final postônica, o que é bastante característico da fala do PB.

Apoiada no conceito de domínio prosódico, estabelecido por Nespor e Vogel (1986[3]), além de usar ideias advindas da Fonologia Prosódica e da Fonologia Entoacional, Scarpa apresenta a díade fluência e disfluência. A fluência da fala em língua materna traduz em si o ideal de escrita, de leitura – ao menos a ensaiada – e de fala, sendo esta ensaiada e objetivada; é o termo não marcado, é fruto de uma construção sócio-histórica. Por outro lado, a disfluência é o termo marcado e pressupõe uma deficiência ou dificuldade linguísticas e psicolinguísticas – como, por exemplo, o acesso lexical – e se traduz naquilo que é descartável, desviante, problemático. No tocante a esses conceitos, Scarpa coloca que, para aqueles que trabalham com oralidade, é desafiante encontrar uma definição para fala fluente que seja além do ideal de fala neutra que atenda aos fins de pesquisa. Uma solução possível comentada pela palestrante é encarar a díade como faces de uma mesma moeda, encarando as condições de distribuição entre disfluência e fluência.

É de maneira semelhante ao que foi supracitado que foneticistas em geral abordam essa questão: esses traços de disfluências da fala são gerados para garantir o fluir da fala. Dessa forma, a própria dinâmica da fala é responsável por gerar fluência e disfluência. A palestrante aponta para o conceito de que essa alternância pode se dever ao jogo de equilíbrio (tensão) gerado entre o princípio da simplificação articulatória e o princípio de contraste perceptual. Já para Merlo e Barbosa (2012[5]), também mencionados por Scarpa, em sua fala, a disfluência é requerida para que haja a fluência, uma vez que é necessária para que o falante (re)organize seu texto oral. A palestrante se vale do que diz Scarpa e Fernandes-Svartman (2012a[4]) para defender que a disfluência assinala a ocupação de determinados espaços na hierarquia prosódica. Ao apresentar os contextos em que a disfluência ocorre mais frequentemente, chega-se à conclusão de que essa tende a aparecer mais no começo dos domínios prosódicos do que ao final das unidades rítmicas e entoacionais.

No que diz respeito à relação entre prosódia e aquisição da linguagem, Scarpa propõe a seguinte pergunta: pode-se pensar numa tendência à distribuição entre fluência e disfluência na fala infantil? Ao expor sua hipótese, ela responde esse questionamento apontando que as disfluências na fala do infante não são imunes aos princípios que regem a estruturação prosódica do enunciado.

A palestrante coloca que trechos tidos como fluentes se fazem presentes em pares adjacentes ritualizados, enunciados estereotipados, familiares, congelados, muitas vezes em situação de especularidade imediata, em expressões que exibem maior estabilidade, enquanto trechos disfluentes parecem se valer do padrão encontrado na fala do adulto, ou seja, tendem a ocorrer em partes não cabeça das frases entoacionais, por exemplo. A professora ainda destaca que há diferenças entre as hesitações dos infantes e dos adultos: as crianças tendem a apresentar variação na velocidade da fala e movimentos inspiratórios audíveis, além de inserirem na sua fala sons preenchedores de lugares prosódicos e oclusivas glotais.

Scarpa defende que a disfluência hesitativa – ajuste e reajuste rítmicos – faz parte do processo natural de aquisição da linguagem, trazendo marcas próprias da oralidade e da dinâmica da fala. Sendo assim, na fala adulta essa “gagueira” não se dissolveria como colocam outras áreas de estudo. Tal disfluência é parte da aquisição de fronteira de palavras fonológicas dentro do enunciado prosódico. Essa também se revela ao serem elaboradas construções mais complexas e longas – do ponto de vista semântico, sintático e pragmático – do que em fases anteriores.

A pesquisadora destaca ainda que a disfluência não é um resíduo nem da fala do infante nem da fala do adulto. É um fenômeno inerente à produção e à compreensão da linguagem; sendo assim, não é percebida como anormal pelos participantes do diálogo. Apesar de ser tratada muitas vezes como resíduo quando se estuda a aquisição de linguagem, pode, em verdade, fornecer pistas ao pesquisador(a) interessado(a) sobre as interfaces dos componentes da gramática.

A respeito do tópico Narratividade e Coesão Prosódica, Scarpa coloca que as tentativas de encadeamento prosódico de enunciados sucessivos de vocábulos podem anteceder a linearidade de sentenças mais complexas no processo de aquisição da linguagem. É destacado pela pesquisadora o conceito de macroestruturas entoacionais, de Couper-Kuhlen (1993; 1998[6,7]), no qual grupos tonais são combinados para formar unidades maiores, chamadas de sequências de tons, sequências de altura ou paratons. A prosódia do texto oral pressupõe que a entoação gera gestalts fonológicos; tal processo tem como resultado uma unidade experienciada inteiramente e coesiva como um todo.

Explorando o papel da prosódia na coerência e coesão textual, pode se dizer que traços multimodais estão envolvidos para que coesão e coerência se verifiquem no discurso; dessa forma, o outro não procura sentido apenas no que é indexado lexicalmente. Como exemplo para sua argumentação, a palestrante se dirige ao próprio estudo, que mostra a relevância de marcadores discursivos ao integrar o que a pesquisadora chamou de “(macro-)estrutura de ‘contar história’”. A respeito dos marcadores discursivos, Scarpa destaca que esses não participam do conteúdo proposicional do discurso. O marcador discursivo selecionado pela díade em questão citado pela pesquisadora é então, que revela caráter sequencial, anafórico, coesivo e continuativo.

Com esse exemplo, a palestrante apresenta semelhanças no uso do referido marcador discursivo por uma mesma criança aos um ano e dez meses e aos três anos. É importante destacar que Scarpa aponta que não há narrativa stricto sensu em se tratando dos moldes labovianos sobre esse gênero textual, porém também frisa que há, na primeira interação, (i) referências a figuras conforme aparecem no livro que está sendo utilizado como motivador de interação, (ii) o verbo “achei”, no passado, ao qual, apesar de não ter relação semântica com os nomes a que o infante se referia, atribui-se o mesmo paratom, (iii) a contribuição pragmática por meio do uso comum de um paratom narrativo, tanto de introdução – através do marcador “então” – quanto de fechamento, com entoação descendente. O curioso é que, por volta dos três anos, quando a criança já constrói frases mais longas e complexas, esse marcador continua sendo empregado com a mesma função perante o “jogo de narrar”, como refere-se a professora.

Entende-se que a importância da fala de Scarpa para a conferencia é imensa, não só por se tratar de uma pioneira nos estudos de entonação, sendo responsável inclusive por traduzir o termo para a língua portuguesa, como ela mesma comenta, mas também por se tratar se um momento único de compartilhamento do conhecimento, tendo em vista o acesso fácil e democrático que o evento oferece, o que contribui muito para a popularização da linguística. Fica clara a necessidade de estudos de interface para o vasto campo da aquisição de linguagem, já explorados em outras conferências desta série, como A aquisição da linguagem e a alteridade em debate[8], por exemplo.

Referências

  1. A aquisição da linguagem e a alteridade em debate. Mesa redonda apresentada por Marianne Cavalcante, Alessandra Del Ré e Carmem Luci da Costa Silva, com mediação de Ester Scarpa [s.l., s.n.], 2020. 1 vídeo (2h 24min 35s). Publicado pelo canal da Associação Brasileira de Linguística https://www.youtube.com/watch?v=XgK1asrbOac.2020.
  2. English speech rhythm: Form and function in everyday verbal interaction COUPER-KUHLEN E. John Benjamins Publishing; 1993.
  3. On Prosody in Conversational Reported Speech COUPER-KUHLEN E. InLiSt: Interaction and Linguistic Structures.1998;(1).
  4. Séries temporais de pausas e de hesitações na fala espontânea Merlo Sandra, Barbosa Plínio Almeida. Cadernos de Estudos Lingüísticos.2012;54(1). CrossRef
  5. Prosodic Phonology Nespor M, Vogel I. Foris Publications; 1986.
  6. PROSÓDIA e aquisição da linguagem. Conferência apresentada por Ester Scarpa. [s.l, s.n], 2020. 1 video (1h 46mim 0s). Publicado pelo canal da Associação Brasileira de Linguística https://www.youtube.com/watch?v=SWKzXyyF9KI&t=3951s.2020.
  7. A estrutura prosódica das disfluências em português brasileiro Scarpa Ester Mirian, Fernandez-Svartsman Flaviane. Cadernos de Estudos Lingüísticos.2012;54(1). CrossRef
  8. SEMIÓTICA do pouco a pouco. Conferência apresentada por Luiz Tatit. [s.l., s.n], 2020. 1 video (1h 38min 35s). Publicado pelo canal da Associação Brasileira de Linguística https://www.youtube.com/watch?v=o0t8ne-mlPM.2020.