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        <article-title>Disfluência e narratividade</article-title>
        <subtitle>A importância do olhar prosódico sobre a aquisição da linguagem</subtitle>
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      <issue-title>Resenhas Abralin ao Vivo</issue-title>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-3">A presente resenha parte da fala de Ester Scarpa, que versa sobre o papel da prosódia na aquisição da linguagem. A palestrante concebe a prosódia como um espaço privilegiado de interface entre os níveis linguísticos; dessa forma, os fatos prosódicos são vistos como recursos linguísticos na fase de aquisição da linguagem, estágio de recursos léxico-gramatical limitados. Assim, a prosódia se constitui como espaço de engajamento da criança na subjetivação, no discurso e no diálogo, e é também via de organização das formas linguísticas. A fala contempla três principais tópicos: (i) apresentação dos primeiros sistemas entoacionais de duas crianças; (ii) discussão em torno da prosódia e de disfluências; e (iii) primórdios da coesão entoacional e da narratividade. São apresentados dois conjuntos de dados: um referente ao uso da prosódia em narrativas iniciais e outro referente a hesitação e disfluências. </p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="paragraph-dd1efacd5da10a89418a60b62e85746a">The present review is part of Ester Scarpa's speech, which deals with the role of prosody in language acquisition. The speaker conceives prosody as a privileged space for interface between linguistic levels; thus, prosodic facts are seen as linguistic resources in the language acquisition phase, stage of limited lexical-grammatical resources. Therefore, prosody is a space for the child's engagement in subjectivation, discourse and dialogue, and it is also a way of organizing linguistic forms. The speech contemplates three main topics: (i) the presentation of the first intonation systems of two children; (ii) the discussion about prosody and disfluencies; and (iii) the beginnings of intonational cohesion and narrativity. Two sets of data are presented: one referring to the use of prosody in initial narratives and the other referring to hesitation and disfluencies.</p>
      </abstract>
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        <kwd content-type="">Prosódia</kwd>
        <kwd content-type="">Aquisição de Linguagem</kwd>
        <kwd content-type="">Entoação</kwd>
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    <sec id="heading-79e4d4387473d10b38aff632a025a59c">
      <title>Texto</title>
      <p id="paragraph-cac6670f37671c3b4de3f6076635f505">A fala aqui resenhada, intitulada <italic id="italic-b57300911b7cc08959823122d0e9d7ed">Prosódia e Aquisição da Linguagem</italic><xref id="xref-09d4e1b4d88a21f3eacee1aa1b8e2a2f" ref-type="bibr" rid="webpage-ref-b69fa3980416bcc50ef79889621e4e15">[1]</xref>, foi proferida pela professora doutora Ester Scarpa, no dia 25 de julho de 2020 para o evento <italic id="italic-2">Abralin Ao Vivo –Linguists Online</italic>, promovido pela Associação Brasileira de Linguística (Abralin), com mediação de Marianne Carvalho Bezerra Cavalcante. Ester Scarpa é professora aposentada da Universidade Estadual de Campinas e tem experiência na área de aquisição da linguagem com ênfase em aspectos prosódicos e psicolinguística. </p>
      <p id="paragraph-2">Scarpa inicia a sua fala trazendo uma citação de Tatit (2020<xref id="xref-f5efa04c49cc92e5d54b4ddf9f81a2cc" ref-type="bibr" rid="webpage-ref-fa8a4adf0aadadde97599f4e1402435c">[2]</xref>), para quem a entonação é o único jeito de se falar. A partir disso, a palestrante complementa o que diz o referido autor defendendo que a prosódia é um espaço privilegiado de interação entre os diferentes níveis linguísticos. De tal forma, é a prosódia responsável por ser ponte entre a organização formal da fala e o potencial significativo da linguagem durante a fase de aquisição da linguagem. </p>
      <p id="paragraph-3">Sobre o papel da prosódia na aquisição da linguagem, faz-se importante destacar dois pontos da concepção de Scarpa: (i) é via primordial para a orientação de formas fônicas, atuando na apreensão de sistemas de ritmo e entoação das línguas; (ii) é espaço do engajamento da criança nos processos de subjetivação, na dialogia, no discurso, nos processos de alteridade constitutiva do sujeito. Sobre esse último aspecto, Scarpa destaca a atuação dos parâmetros de contorno, velocidade da fala, tessitura, duração e intensidade da voz. Ainda sobre o papel da prosódia na aquisição da linguagem, a palestrante defende que essa é uma via coerente <italic id="italic-3">para segmentar, configurar, delimitar a cadeia sonora</italic>.</p>
      <p id="paragraph-4">Ao apresentar os primeiros sistemas entoacionais das duas crianças, a professora identifica semelhanças significativas, como curva descendente baixa para falas introspectivas, degraus ascendentes para vocativos e curva ascendente de entonação baixa para média para enumeração. Aponta-se, então, o fato de que as notações se mostram relevantes tanto para significados gramaticais, quanto pragmáticos. Além disso, destaca-se que as crianças produzem tons relativamente maduros, que a configuração desses tons é a mesma encontrada em final de frases assertivas de línguas românicas e que os sistemas apresentados são sensíveis a uma queda final postônica, o que é bastante característico da fala do PB.</p>
      <p id="paragraph-5">Apoiada no conceito de domínio prosódico, estabelecido por Nespor e Vogel (1986<xref id="xref-48486817f7da27c8f4872e024feef1bb" ref-type="bibr" rid="book-ref-3aa0b9cc263858a85aef98adc6015264">[3]</xref>), além de usar ideias advindas da Fonologia Prosódica e da Fonologia Entoacional, Scarpa apresenta a díade fluência e disfluência. A fluência da fala em língua materna traduz em si o ideal de escrita, de leitura – ao menos a ensaiada – e de fala, sendo esta ensaiada e objetivada; é o termo não marcado, é fruto de uma construção sócio-histórica. Por outro lado, a disfluência é o termo marcado e pressupõe uma deficiência ou dificuldade linguísticas e psicolinguísticas – como, por exemplo, o acesso lexical – e se traduz naquilo que é descartável, desviante, problemático. No tocante a esses conceitos, Scarpa coloca que, para aqueles que trabalham com oralidade, é desafiante encontrar uma definição para fala fluente que seja além do ideal de fala neutra que atenda aos fins de pesquisa. Uma solução possível comentada pela palestrante é encarar a díade como faces de uma mesma moeda, encarando as condições de distribuição entre disfluência e fluência.</p>
      <p id="paragraph-6">É de maneira semelhante ao que foi supracitado que foneticistas em geral abordam essa questão: esses traços de disfluências da fala são gerados para garantir o fluir da fala. Dessa forma, a própria dinâmica da fala é responsável por gerar fluência e disfluência. A palestrante aponta para o conceito de que essa alternância pode se dever ao jogo de equilíbrio (tensão) gerado entre o princípio da simplificação articulatória e o princípio de contraste perceptual. Já para Merlo e Barbosa (2012<xref id="xref-cab36cf22a00a685a064a23b4a0f206d" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-2c9e7383286ccedaeab1154fd1df4432">[5]</xref>), também mencionados por Scarpa, em sua fala, a disfluência é requerida para que haja a fluência, uma vez que é necessária para que o falante (re)organize seu texto oral. A palestrante se vale do que diz Scarpa e Fernandes-Svartman (2012a<xref id="xref-a1860e72e11ca154f66e48fa003f6a0a" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-fd9d89b48c09cd01ce03b1cf717a99e7">[4]</xref>) para defender que a disfluência assinala a ocupação de determinados espaços na hierarquia prosódica. Ao apresentar os contextos em que a disfluência ocorre mais frequentemente, chega-se à conclusão de que essa tende a aparecer mais no começo dos domínios prosódicos do que ao final das unidades rítmicas e entoacionais. </p>
      <p id="paragraph-7">No que diz respeito à relação entre prosódia e aquisição da linguagem, Scarpa propõe a seguinte pergunta: <italic id="italic-4">pode-se pensar numa tendência à distribuição entre fluência e disfluência na fala infantil?</italic> Ao expor sua hipótese, ela responde esse questionamento apontando que as disfluências na fala do infante não são imunes aos princípios que regem a estruturação prosódica do enunciado. </p>
      <p id="paragraph-8">A palestrante coloca que trechos tidos como fluentes se fazem presentes em <italic id="italic-5">pares adjacentes ritualizados, enunciados estereotipados, familiares, congelados, muitas vezes em situação de especularidade imediata, em expressões que exibem maior estabilidade</italic>, enquanto trechos disfluentes parecem se valer do padrão encontrado na fala do adulto, ou seja, tendem a ocorrer em partes não cabeça das frases entoacionais, por exemplo. A professora ainda destaca que há diferenças entre as hesitações dos infantes e dos adultos: as crianças tendem a apresentar variação na velocidade da fala e movimentos inspiratórios audíveis, além de inserirem na sua fala sons preenchedores de lugares prosódicos e oclusivas glotais. </p>
      <p id="paragraph-9">Scarpa defende que a disfluência hesitativa – ajuste e reajuste rítmicos – faz parte do processo natural de aquisição da linguagem, trazendo marcas próprias da oralidade e da dinâmica da fala. Sendo assim, na fala adulta essa “gagueira” não se dissolveria como colocam outras áreas de estudo. Tal disfluência é parte da aquisição de fronteira de palavras fonológicas dentro do enunciado prosódico. Essa também se revela ao serem elaboradas construções mais complexas e longas – do ponto de vista semântico, sintático e pragmático – do que em fases anteriores. </p>
      <p id="paragraph-10">A pesquisadora destaca ainda que a disfluência não é um resíduo nem da fala do infante nem da fala do adulto. É um fenômeno inerente à produção e à compreensão da linguagem; sendo assim, não é percebida como anormal pelos participantes do diálogo. Apesar de ser tratada muitas vezes como resíduo quando se estuda a aquisição de linguagem, pode, em verdade, fornecer pistas ao pesquisador(a) interessado(a) sobre as interfaces dos componentes da gramática. </p>
      <p id="paragraph-11">A respeito do tópico <italic id="italic-6">Narratividade e Coesão Prosódica, </italic>Scarpa coloca que as tentativas de encadeamento prosódico de enunciados sucessivos de vocábulos podem anteceder a linearidade de sentenças mais complexas no processo de aquisição da linguagem. É destacado pela pesquisadora o conceito de macroestruturas entoacionais, de Couper-Kuhlen (1993; 1998<xref id="xref-13b69e27bc944e875735babef7a51357" ref-type="bibr" rid="book-ref-6b0c226a2b6c25b97d7aed030a9c6525 journal-article-ref-0c52d6538112ef4f683122752830ee13">[6,7]</xref>), no qual grupos tonais são combinados para formar unidades maiores, chamadas de sequências de tons, sequências de altura ou paratons. A prosódia do texto oral pressupõe que a entoação gera <italic id="italic-7">gestalts </italic>fonológicos; tal processo tem como resultado uma unidade experienciada inteiramente e coesiva como um todo. </p>
      <p id="paragraph-12">Explorando o papel da prosódia na coerência e coesão textual, pode se dizer que traços multimodais estão envolvidos para que coesão e coerência se verifiquem no discurso; dessa forma, o outro não procura sentido apenas no que é indexado lexicalmente. Como exemplo para sua argumentação, a palestrante se dirige ao próprio estudo, que mostra a relevância de marcadores discursivos ao integrar o que a pesquisadora chamou de “(macro-)estrutura de ‘contar história’”. A respeito dos marcadores discursivos, Scarpa destaca que esses não participam do conteúdo proposicional do discurso. O marcador discursivo selecionado pela díade em questão citado pela pesquisadora é <italic id="italic-8">então</italic>, que revela caráter sequencial, anafórico, coesivo e continuativo. </p>
      <p id="paragraph-13">Com esse exemplo, a palestrante apresenta semelhanças no uso do referido marcador discursivo<italic id="italic-9"> </italic>por uma mesma criança aos um ano e dez meses e aos três anos. É importante destacar que Scarpa aponta que não há narrativa <italic id="italic-10">stricto sensu</italic> em se tratando dos moldes labovianos sobre esse gênero textual, porém também frisa que há, na primeira interação, (i) referências a figuras conforme aparecem no livro que está sendo utilizado como motivador de interação, (ii) o verbo “achei”, no passado, ao qual, apesar de não ter relação semântica com os nomes a que o infante se referia, atribui-se o mesmo paratom, (iii) a contribuição pragmática por meio do uso comum de um paratom narrativo, tanto de introdução – através do marcador “então” – quanto de fechamento, com entoação descendente. O curioso é que, por volta dos três anos, quando a criança já constrói frases mais longas e complexas, esse marcador continua sendo empregado com a mesma função perante o “jogo de narrar”, como refere-se a professora.</p>
      <p id="paragraph-14">Entende-se que a importância da fala de Scarpa para a conferencia é imensa, não só por se tratar de uma pioneira nos estudos de entonação, sendo responsável inclusive por traduzir o termo para a língua portuguesa, como ela mesma comenta, mas também por se tratar se um momento único de compartilhamento do conhecimento, tendo em vista o acesso fácil e democrático que o evento oferece, o que contribui muito para a popularização da linguística. Fica clara a necessidade de estudos de interface para o vasto campo da aquisição de linguagem, já explorados em outras conferências desta série, como <italic id="italic-4092c5d46d2a60fd0b9d1ff23414d1ff">A aquisição da linguagem e a alteridade em debate</italic><xref id="xref-3550e6b4f59c896b59ee4f2b561ba1b2" ref-type="bibr" rid="webpage-ref-7db469295c672a27e76c93740d0c8943">[8]</xref>, por exemplo.</p>
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          <article-title>A aquisição da linguagem e a alteridade em debate<bold id="bold-1">.</bold> Mesa redonda apresentada por Marianne Cavalcante, Alessandra Del Ré e Carmem Luci da Costa Silva, com mediação de Ester Scarpa [s.l., s.n.], 2020. 1 vídeo (2h 24min 35s). Publicado pelo canal da Associação Brasileira de Linguística</article-title>
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              <surname>Scarpa</surname>
              <given-names>Ester Mirian</given-names>
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              <surname>Fernandez-Svartsman</surname>
              <given-names>Flaviane</given-names>
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          <source>Cadernos de Estudos Lingüísticos</source>
          <article-title>A estrutura prosódica das disfluências em português brasileiro</article-title>
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          <year>2020</year>
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          <article-title>SEMIÓTICA do pouco a pouco<bold id="bold-1c906eb83074da31ea38fde2fa7b5f15">.</bold> Conferência apresentada por Luiz Tatit. [s.l., s.n], 2020. 1 video (1h 38min 35s). Publicado pelo canal da Associação Brasileira de Linguística</article-title>
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