Resumo

A conferência proferida por Silvia Rodrigues Vieira aponta os olhos dos linguistas para a escola, abordando o ensino de gramática. A partir de uma reflexão sobre o contexto atual em que nos encontramos enquanto professores de língua portuguesa, a autora propõe três eixos para o ensino: uma abordagem científica e reflexiva da gramática; o papel da gramática na construção de sentidos, que relaciona a gramática com a leitura e produção textual; e a consideração de uma língua heterogênea, que contribui para o desenvolvimento do respeito linguístico por parte dos alunos. Além disso, a conferencista ressalta a importância do professor-pesquisador e da formação continuada de docentes.

Texto

Em meio a um contexto pandêmico, a Associação Brasileira de Linguística (ABRALIN), juntamente com outras associações internacionais1, promoveu um evento integralmente online, que conta, desde maio, com lives, mesas redondas e diálogos que partem de linguistas e chegam em nossas casas através do YouTube. Dessa forma, linguistas, professores, acadêmicos e interessados pela linguagem têm acesso a conteúdos de qualidade que promovem discussões, trocas e até publicações acadêmicas.

Entre muitos outros nomes, uma das convidadas para proferir uma fala foi a pesquisadora Silvia Rodrigues Vieira, renomada investigadora na área de ensino de gramática. Autora do livro Gramática, variação e ensino: diagnoses e propostas pedagógicas (VIEIRA, 2018[1]) e uma das organizadoras do livro Ensino de Gramática: descrição e uso (BRANDÃO; VIEIRA, 2011[2]), Silvia Rodrigues Vieira propõe três eixos para o ensino de gramática, que buscam atingir o raciocínio científico, práticas de letramento significativas e o respeito linguístico.

Todavia, antes de falarmos sobre os três eixos e demais apontamentos feitos pela pesquisadora, apresentaremos brevemente a estrutura do conteúdo a ser apresentado nesta resenha: faremos um breve resumo da fala de Vieira (2020[3]), relacionando-a com a nossa visão de ensino de gramática, que provém de um mestrado em andamento no Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGLin/UFSC) e considera principalmente as contribuições da Teoria e Análise Linguística e que está bastante relacionada à fala da pesquisadora, principalmente ao primeiro eixo que a autora menciona, que defende a abordagem reflexiva e científica da gramática nas escolas.

Além desse primeiro eixo, que leva em consideração os conhecimentos que o falante já tem da própria língua materna para desenvolver o pensamento científico em cima de construções gramaticais, a conferencista também traz o eixo 2, que diz respeito ao ensino de gramática e produção de sentidos, reconhecendo a gramática como ferramenta importante na produção de sentidos e possibilitando um bom trabalho com atividades de leitura e produção de texto, e o eixo 3, o ensino de gramática, variação e normas, que auxilia na reflexão sobre o preconceito linguístico, por tratar a língua como algo heterogêneo, mas também possibilita ao aluno reflexões sobre estruturas que ele não conhece, por pertencerem à variedade que ele não domina, como é, muitas vezes, o caso da norma de referência (FARACO, 2020[4]) em contextos de produção escrita.

Ao iniciar a fala, Silvia Rodrigues Vieira levanta as sugestões dos documentos oficiais que norteiam a educação, tais como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) (BRASIL, 1998[5]) e Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (BRASIL, 2019[6]), para o ensino de gramática, que no primeiro documento são acompanhadas por uma discussão que não diz respeito a ensinar ou não, mas como ensinar a gramática, e no segundo, reúne nesse assunto questões de análise linguística/semiótica, produção textual, oralidade e leitura.

Tomando esse norte como base, a pesquisadora afirma que já temos certos avanços se compararmos com contextos mais antigos, mas eles aconteceram de formas muito variadas, deixando alguns problemas. Entre eles, o fato de a abordagem de gramática que se tem ser uma polissemia causada pelas várias concepções de gramáticas adotadas pelos professores (e, infelizmente, muitas vezes a mais adotada ainda é a tradicional, que é trabalhada de uma maneira que promove o preconceito linguístico e até sensos anticientíficos); o objeto de trabalho que, segundo Vieira, se prende a limites – por exemplo: ou é texto, ou é frase. Ou é gênero, ou é gramática da sentença. Ou é descrição, ou é norma – mesmo podendo abraçar todos esses conteúdos; e afirmativas categóricas sem composição científica, como a ideia de que o trabalho com gramática não auxilia na leitura e na escrita ou de que não devemos trabalhar com termos técnicos em sala de aula. Após essa introdução reflexiva, a conferencista começa a falar sobre os três eixos do ensino de gramática citados acima.

Vieira, para ilustrá-los, apresenta a imagem de um banco:

Figure 1.

Concepções de língua/gramática que interessam ao ensino (metáfora do banco)

A ideia é apresentar essas três concepções como necessárias no ensino de gramática, porque se tirarmos uma delas, o banco não se sustenta. A conferencista reconhece, entretanto, que são práticas que variam de acordo com a perspectiva teórica, mas defende que devem ser igualmente tratados nas aulas de gramática na educação básica.

A partir dessa metáfora, três reflexões são propostas: (i) que elementos os alunos devem saber? (ii) qual a relação entre gramática e produção de sentidos? (iii) a gramática é variável? Essas reflexões se relacionam, respectivamente, com os eixos 1, 2 e 3 propostos pela pesquisadora.

Os três eixos levantados por Vieira consideram aquilo que o aluno falante de português brasileiro já traz para a escola, tomando isso como ponto de partida para um trabalho efetivo com leitura e produção de textos e promovendo o respeito à diversidade linguística. A ideia de uma abordagem mais reflexiva da gramática está fortemente relacionada à proposta de Pires de Oliveira e Quarezemin (2016; 2020[7,8]), que julgam importantíssima a consideração da gramática internalizada dos alunos para que, a partir dela, seja possível (re-/des-)construir gramáticas através de uma metodologia científica que instigue o aluno a construir hipóteses e analisar dados sobre a língua que fala.

É claro que, ao propor um ensino mais científico de gramática, não defendemos que os mesmos moldes da universidade sejam adotados em aulas da educação básica (QUAREZEMIN, 2017[9]), mas reconhecemos que o trabalho com a metodologia científica permite que, nas aulas de gramática, seja desenvolvido o pensamento crítico e a criatividade dos alunos, além de promover o interesse pela ciência. Também assumimos que considerar o que o aluno traz para escola como falante é importante para este trabalho, uma vez que é dessa gramática internalizada que partirão hipóteses e intuições linguísticas, e servirão de ponto de partida para o trabalho com gramática, mesmo que a gramática “alvo” seja a norma de referência. Podemos dizer que o professor de gramática que não considera o que o aluno traz para a escola como falante pode ser comparado a um hipotético professor de educação física que não considera que os alunos já chegam à escola com a capacidade de correr.

Como os três eixos levantados pela pesquisadora devem estar correlacionados, também é importante mencionar que esse trabalho científico contribui para que o aluno compreenda e produza textos com mais tranquilidade, por entender como a língua funciona dentro dos mais variados contextos, o que já está relacionado com as sugestões dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) (BRASIL, 1998[5]) e também com as sugestões da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (BRASIL, 2019[6]), como dito anteriormente. Além disso, um dos primeiros passos para entender a língua como um objeto científico é acreditar que ela não é algo pronto e muito menos único, que é o que defende o terceiro eixo, reforçando a importância do trabalho com a variação linguística em sala de aula.

Estudiosos como Bagno (2007[10]), Bortoni-Ricardo (2004[11]), defendem uma abordagem pluralizada no trabalho com língua materna. Estes e muitos outros autores entendem a relevância de trabalhar com conceitos sociolinguísticos em sala de aula para o desenvolvimento de uma consciência linguística que compreenda e respeite as mais diversas variantes linguísticas e contextos de fala.

Percebemos, dessa forma, as contribuições que correntes teóricas, como o Gerativismo (cf. KENEDY, 2013[12]), a sociolinguística, entre outras, trazem para o ensino de língua(s), assim como consideramos importantes as pesquisas que descrevem propostas para o trabalho científico da gramática em sala de aula (FRANCHI, 2006; CASTILHO, 2010[13]; PERINI, 2010[14]; PIRES DE OLIVEIRA; QUAREZEMIN, 2016[7]; PILATI, 2017[15]; HOCHSPRUNG; ZENDRON DA CUNHA, 2019[16]; PIRES DE OLIVEIRA; QUAREZEMIN, 2020[8]; AVELAR, 2017[17]; entre outros).

Com isso, já entramos em outro ponto levantado por Vieira ao final da sua fala: a importância de um professor-pesquisador. A conferencista defende um trabalho científico para o professor, também, para que este desenvolva pesquisas que incluam os próprios alunos, através de, por exemplo, diagnósticos que permitem que o professor compreenda as necessidades da turma e melhores abordagens para o ensino de gramática naquele contexto que está inserido. Entretanto, também levantamos que é fundamental que o professor seja um constante estudante, que procure por conteúdos e busque sempre se atualizar das discussões que ocorrem entre os estudiosos. Assim, a tão desejada ponte entre o meio acadêmico e a educação básica se fortalece cada vez mais.

Portanto, compreendendo os pontos levantados pela conferencista, recomendamos fortemente a live para linguistas, professores de língua (materna ou estrangeira), acadêmicos do curso de Letras, assim como mestrandos e doutorandos que olham para o trabalho com gramática em sala de aula no contexto da educação básica.

Referências

  1. ENSINO de gramática em três eixos: uma questão de ciência, cidadania e respeito linguístico por Silvia Vieira Rodrigues [s.l., s.n], 2020. 1 vídeo (2h 02min 45 s). Publicado pelo canal da Associação Brasileira de Linguística https://www.youtube.com/watch?v=ypVJ2tVT3Yw.2020.
  2. Saberes gramaticais: formas, normas e sentidos no espaço escolar Avelar J. O. São Paulo: Parábola Editorial; 2017.
  3. Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação lingüística Bagno M. São Paulo: Parábola Editorial; 2007.
  4. BASES por uma pedagogia da variação linguística. Conferência apresentada por Carlos Alberto Faraco [s.l., s.n], 2020. 1 vídeo (1h 9min 15s). Publicado pelo canal da Associação Brasileira de Linguística https://www.youtube.com/watch?v=3kS-RHie0Zw.2020.
  5. Educação em língua materna Bortoni-Ricardo S. M. São Paulo: Parábola Editorial; 2004.
  6. Ensino de gramática: descrição e uso Brandão S. F, Vieira S. R. São Paulo: Editora Contexto; 2011.
  7. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Básica. Base nacional comum curricular BRASIL . Brasília, DF 2019.
  8. Ministério da Educação e do Desporto. Parâmetros Curriculares Nacionais BRASIL . SEF. Brasília: MEC/SEF 1998.
  9. Nova gramática do português brasileiro Castilho A. São Paulo: Contexto; 2010.
  10. Que gramática se ensina na escola? Uma análise das classes de palavras em livros didáticos Hochsprung V, Zedron da Cunha K. Miguilim-Revista Eletrônica do Netlli.2019;8(2).
  11. Possíveis contribuições da Linguística Gerativa à formação do professor de Língua Portuguesa Kenedy E. Revista de Letras.2013;1(32).
  12. Gramática do português brasileiro Perini M. São Paulo: Parábola Editorial; 2010.
  13. Linguística, gramática e aprendizagem ativa Pilati E. São Paulo: Pontes; 2017.
  14. Gramáticas na escola Pires de Oliveira R, Quarezemin S. Petropólis: Vozes; 2016.
  15. Artefatos em Gramática: Ideias para aulas de Língua Florianópolis: Dados Eletrônicos; 2020.
  16. Ensinar Linguística na Escola: um confronto com a realidade Quarezemin Sandra. Working Papers em Linguística.2018;18(2). CrossRef
  17. Gramática, variação e ensino Vieira S. R. Editora Blucher; 2018.