Resumo

A mesa redonda aqui resenhada aborda a relação entre a aquisição da linguagem e a alteridade a partir de perspectivas interacionistas, discursivas e enunciativas. Cada convidada procede a tal abordagem elegendo um tema específico como observatório da relação criança-outro: a multimodalidade (Marianne Cavalcante), o humor (Alessandra Del Ré) e o preenchimento de lugar enunciativo (Carmem Luci da Costa Silva).  À luz de construtos teóricos ancorados na interação, no dialogismo e na enunciação, as pesquisadoras em aquisição ilustram seus trabalhos com a análise de dados naturalísticos e longitudinais. Todas e cada uma das exposições dão testemunho da relação fundante entre o infans e o alter.

Texto

A mesa redonda A aquisição da linguagem e a alteridade em debate[1], realizada no dia 23 de maio de 2020, é parte da programação do evento Abralin Ao Vivo – Linguists Online, da Associação Brasileira de Linguística (Abralin). Com mediação de Ester Scarpa (Unicamp), a mesa foi constituída por Marianne Cavalcante (UFPB/CNPq), Alessandra Del Ré (Unesp/CNPq) e Carmem Luci da Costa Silva (UFRGS). As convidadas, com base em perspectivas interacionistas, discursivas e enunciativas, abordaram o tema da alteridade na aquisição da linguagem. Como contextualiza o resumo da mesa, a alteridade é concebida, no campo aquisicional, como um dos princípios centrais de explicação da passagem da criança de um estado X na linguagem para um estado Y, de modo que trabalhar com essa noção envolve um olhar para a relação criança-outro em uma realidade discursiva dialética que produz mudanças e deslocamentos no vir a ser falante.

Marianne Cavalcante, em sua fala intitulada “Ora (direis), ouvir bebês?”: alteridade na matriz gesto-vocal, brinda-nos com uma madura reflexão sobre a integração das manifestações vocais e gestuais na relação inicial da criança com a língua e com o outro. Comparecem, em sua discussão, a proposta multimodal de estudiosos como Kendon e McNeill (com foco na noção de língua como sistema plurissemiótico, do qual a produção vocal e a gesticulação são modalidades que coatuam na interação); o interacionismo de De Lemos (notadamente, os pressupostos ligados à díade mãe-bebê como matriz dialógica/relacional, à sustentação interpretativa e à suposição do infante como falante pelo outro, bem como à emergência simultânea do sistema linguístico e do sujeito); os estudos de Scarpa sobre a prosódia como guia para a língua (em especial, as configurações prosódicas do manhês enquanto fala que, dirigida ao bebê, convoca-o ao diálogo); as pesquisas sociocognitivas de Tomasello (em particular, a noção de atenção conjunta entre a criança como eu e o outro como tu em relação ao mundo como ele). Frente a essa heterogeneidade teórica, Cavalcante produz uma leitura própria dos aparatos conceituais mobilizados, inclusive tomando distanciamento de alguns pressupostos destes. É o caso da centralidade, nos estudos de Tomasello, dos primados da intencionalidade e da prontidão perceptual para a alteridade por parte da criança, aos quais a pesquisadora da UFPB não adere, visto conceber a percepção como mediada pelo linguístico, que, estruturado, é alçado pela interpretação materna. Com base nesse quadro heteróclito, Cavalcante analisa dados de Vitória em seus primeiros meses de vida, focalizando, no diálogo dessa criança com sua mãe, cenas de alteridade manifesta, nas quais se integram o arcabouço prosódico (melodia, ritmo, falsetto, fala enfática) e o arcabouço gestual (gesto dêitico de apontar, gesto de cabeça indicando “negação”, face indicando “humor”).

Alessandra Del Ré, sob o título O papel do outro na abordagem bakhtiniana: um olhar para o humor infantil, assume uma perspectiva dialógico-discursiva para abordar o tema do humor. A convidada situa essa temática em relação aos princípios do Círculo de Bakhtin e em relação aos autores que dialogam com esta abordagem, como Vygotsky e Brunner. Del Ré também destaca os trabalhos de Frédéric François e Anne Salazar Orvig, autores que se valem da perspectiva dialógica discursiva no campo dos estudos de aquisição da linguagem. Nessa perspectiva, a noção de língua é assumida como um organismo vivo com significações ideológicas constituídas histórica e socialmente, e a enunciação é vista como parte do diálogo, numa corrente ininterrupta de comunicação, uma vez que um enunciado é sempre resposta a outro enunciado. A participante reafirma o compromisso dessa abordagem com as relações sociais, históricas e ideológicas, nas quais o outro é peça fundamental. Numa relação dialética com a linguagem, a criança a constitui e é constituída por ela, num jogo em que o eu e o outro são indissociáveis. Com esse olhar, os fenômenos particulares, resultado das experiências socioculturais vivenciadas pela criança em microculturas, ganham relevância. Dentre esses fenômenos, encontra-se o humor, entendido como um traço compartilhado em diferentes situações, gêneros, esferas, sempre em dependência da relação com o outro. Del Ré analisa dois dados naturalísticos de G. (no primeiro, a criança está na faixa etária dos 5 meses; no segundo, ela tem 3 anos e 6 meses), pertencentes ao corpus do grupo de pesquisa interinstitucional Núcleo de Estudos em Aquisição da Linguagem (NALíngua/CNPq). Os dados revelam os ingredientes considerados necessários para o que o humor seja compartilhado: a ruptura na continuidade do discurso, a qual precisa ser reconhecida pelos participantes e que produz uma espécie de recuo, além de um querer dizer por parte do locutor em relação ao outro. Esse querer dizer, no caso da criança, é acessado a partir de pistas multimodais, reveladas na prosódia e na gestualidade, e a partir do outro, já que não há como se ter certeza do que realmente a criança quis dizer. A análise dos dados comprova que o outro, um verdadeiro “cúmplice linguageiro”, é peça fundamental na constituição da subjetividade da criança e dos seus discursos na microcultura do seio familiar. É na comunhão entre o eu e o outro que a criança, de maneira singular e dialógica, assume o humor na aquisição da linguagem.

Carmem Luci da Costa Silva, com o título O preenchimento de lugar enunciativo para a instauração da criança em sua língua materna: espaço de alteridade, aborda a questão do preenchimento do lugar enunciativo pela criança. Silva desloca aspectos teóricos da abordagem enunciativa de Émile Benveniste para a pesquisa em aquisição da linguagem e convoca a noção de escuta de Barthes, para discorrer acerca de duas questões: Como a criança convoca e implanta o outro para estabelecer a interlocução? Na relação criança-outro, que modos de enunciação do outro asseguram a presença da criança na linguagem e permitem a emergência de formas vocais/fônicas e sentidos singulares em seus primeiros onze meses de vida? No centro da questão, encontram-se as relações de subjetividade, intersubjetividade e referência, conforme concepção enunciativa benvenistiana. Essas relações fundamentam os dois princípios enunciativos para a aquisição apresentados pela convidada: a criança instaura-se nos valores linguísticos e sociais de sua língua materna e se determina como um sujeito de linguagem nas relações de escuta e emissão com o outro em diferentes modos de enunciação; a criança é constituída pela língua com os valores distintivos de suas unidades formais e com os valores de cultura da sociedade nela impregnados, mas também constitui sentidos particulares a partir do duplo aparato que lhe é dado – a língua e a sociedade. Assim, o preenchimento de lugar enunciativo pela criança está relacionado à intersubjetividade da enunciação e caracteriza-se pela passagem de convocada pelo outro à convocação do outro. Nessas relações de alteridade, formas e sentidos são engendrados e possibilitam a entrada singular da criança em sua língua materna. A partir da observação de fatos de linguagem produzidos por G. nos primeiros onze meses de vida, dados também pertencentes ao corpus do grupo NALíngua, Silva destaca o aspecto vocal/fônico da enunciação nas relações da criança com o outro como lugar de acesso à língua. No centro dessa experiência, encontra-se a vivência da dupla natureza da linguagem – individual e social –, tanto nas escutas como nas emissões, o que permite à criança evocar elementos sociais e individuais, em movimentos de conjunção e de disjunção entre o eu e o outro. A pesquisadora da UFRGS conclui que é nas práticas familiares em exercício, em especial pelo modo de enunciação de formas fônicas poéticas e melódicas, que a criança preenche seu lugar enunciativo. Assim, as relações de alteridade possibilitam mudanças da criança na linguagem que levam à sua instauração na língua materna.

Acima de suas diferenças epistemológicas, Cavalcante, Del Ré e Silva convergem nos seguintes pontos:

  • O papel constitutivo do diálogo: o infans e o alter são tomados a partir de uma relação fundante, que não se reduz à função veicular da comunicação, sendo antes – e sobretudo – o lócus da constituição do infante como falante de uma língua e indivíduo de uma sociedade, constituição esta mediada por diferentes outros (o linguístico, o discursivo, o social).
  • O duplo compromisso do campo aquisicional: há o compromisso com o teórico (o ponto de vista descritivo-explicativo) e o compromisso com o empírico (a manifestação linguageira da criança eleita como dado de análise), o duplo compromisso que é marca distintiva dos pesquisadores de aquisição da linguagem.
  • A primazia dos dados naturalísticos e longitudinais: os corpora de análise são constituídos por cenas de diálogo entre crianças e os outros de seu convívio (notadamente, os pais), cenas estas filmadas em sessões de coleta naturalísticas (sediadas em ambiente doméstico, sem controle de variáveis nem aplicação de testes padronizados) e longitudinais (realizadas periodicamente, ao longo de anos, a fim de se acompanhar as mudanças sofridas pela fala da criança).
  • O interesse pela língua viva: os fenômenos da multimodalidade, do humor e do preenchimento de lugar enunciativo via escutas e emissões são assumidos como observatórios da relação criança-outro e convertidos em objetos de estudo a partir de pontos de vista teóricos que investigam a língua em ato, atualizada em atividades humanas e práticas sociais, no ventre das quais germinam um sistema linguístico e um sujeito de linguagem.
  • Com seus distintos percursos teórico-analíticos, as participantes da mesa redonda aqui resenhada nos fornecem amostras da complexidade e da diversidade que caracterizam a aquisição da linguagem tanto como campo de estudos quanto como devir do infans enquanto ser falante.

    Referências

    1. A aquisição da linguagem e a alteridade em debate. Mesa redonda apresentada por Marianne Cavalcante, Alessandra Del Ré e Carmem Luci da Costa Silva [s.l., s.n.], 2020. 1 vídeo (2h 24min 35s). Publicado pelo canal da Associação Brasileira de Linguística https://www.youtube.com/watch?v=XgK1asrbOac.2020.