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<journal-title>Revista da Abralin</journal-title>
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        <article-title>O <italic id="italic-a1e594e5dcdc4dceab319b7b45b9337d">infans</italic> e o <italic id="italic-bc4fb861de266aae9d8a9f07c0512ea3">alter</italic></article-title>
        <subtitle>A alteridade na constituição da criança como falante</subtitle>
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      <issue-title>Resenhas Abralin ao Vivo</issue-title>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">A mesa redonda aqui resenhada aborda a relação entre a aquisição da linguagem e a alteridade a partir de perspectivas interacionistas, discursivas e enunciativas. Cada convidada procede a tal abordagem elegendo um tema específico como observatório da relação criança-outro: a multimodalidade (Marianne Cavalcante), o humor (Alessandra Del Ré) e o preenchimento de lugar enunciativo (Carmem Luci da Costa Silva). À luz de construtos teóricos ancorados na interação, no dialogismo e na enunciação, as pesquisadoras em aquisição ilustram seus trabalhos com a análise de dados naturalísticos e longitudinais. Todas e cada uma das exposições dão testemunho da relação fundante entre o <italic id="italic-ae00a96fe0a12cee52e7b5af24d79a91">infans</italic> e o <italic id="italic-79873d13394ca4e0fa06d0fad67283cd">alter</italic>.</p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Résumé</title>
        <p id="paragraph-9ea35d3ae857109840741f2b12c03440">La table ronde ici rapportée a discuté le rapport entre l’acquisition du langage et l’altérité à partir de perspectives interacionistes, discursives et énonciatives. Pour y parvenir, chaque invitée a choisi un sujet spécifique comme observatoire du rapport enfant-autre : la multimodalité (Marianne Cavalcante), l’humour (Alessandra Del Ré) et le remplissage de lieu énonciatif (Carmem Luci da Costa Silva). À partir d’apports théoriques fondés sur l’interaction, le dialogisme et l’énonciation, les trois chercheuses en acquisition ont illustré leurs travaux à travers l’analyse de données naturelles et longitudinales. Tous et chacun des exposés font preuve du rapport fondateur entre l’<italic id="italic-08215716923d941b178f5d0f0837791f">infans</italic> et l’<italic id="italic-be8b473a3e3de1fcc210bb5d992ac7fb">alter</italic>.</p>
      </abstract>
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        <kwd content-type="">Enunciação</kwd>
        <kwd content-type="">Humor</kwd>
        <kwd content-type="">Multimodalidade</kwd>
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    <sec id="heading-3a1b8b1a4b73fa438dc66d2f30146371">
      <title>Texto</title>
      <p id="paragraph-8eda6921a3638952201a0728e3728ba0">A mesa redonda <italic id="italic-1">A aquisição da linguagem e a alteridade em debate</italic><xref id="xref-705d91b71ea0a6cfb7728d3f8891b0b9" ref-type="bibr" rid="webpage-ref-7db469295c672a27e76c93740d0c8943">[1]</xref>, realizada no dia 23 de maio de 2020, é parte da programação do evento <italic id="italic-2">Abralin Ao Vivo – Linguists Online</italic>, da Associação Brasileira de Linguística (Abralin). Com mediação de Ester Scarpa (Unicamp), a mesa foi constituída por Marianne Cavalcante (UFPB/CNPq), Alessandra Del Ré (Unesp/CNPq) e Carmem Luci da Costa Silva (UFRGS). As convidadas, com base em perspectivas interacionistas, discursivas e enunciativas, abordaram o tema da alteridade na aquisição da linguagem. Como contextualiza o resumo da mesa, a alteridade é concebida, no campo aquisicional, como um dos princípios centrais de explicação da passagem da criança de um estado X na linguagem para um estado Y, de modo que trabalhar com essa noção envolve um olhar para a relação criança-outro em uma realidade discursiva dialética que produz mudanças e deslocamentos no vir a ser falante.</p>
      <p id="paragraph-f4bf2f26dd0bdf2d5d9cc5eab65944fb">Marianne Cavalcante, em sua fala intitulada <italic id="italic-47f568957ff0708fe84d1efd9b40e533">“Ora (direis), ouvir bebês?”: alteridade na matriz gesto-vocal</italic>, brinda-nos com uma madura reflexão sobre a integração das manifestações vocais e gestuais na relação inicial da criança com a língua e com o outro. Comparecem, em sua discussão, a proposta multimodal de estudiosos como Kendon e McNeill (com foco na noção de língua como <italic id="italic-1029dbe3c9d0442db6b501111502ff94">sistema plurissemiótico</italic>, do qual a produção vocal e a gesticulação são modalidades que coatuam na interação); o interacionismo de De Lemos (notadamente, os pressupostos ligados à díade mãe-bebê como matriz dialógica/relacional, à sustentação interpretativa e à suposição do infante como falante pelo outro, bem como à emergência simultânea do sistema linguístico e do sujeito); os estudos de Scarpa sobre a prosódia como guia para a língua (em especial, as configurações prosódicas do manhês enquanto fala que, dirigida ao bebê, convoca-o ao diálogo); as pesquisas sociocognitivas de Tomasello (em particular, a noção de <italic id="italic-3">atenção conjunta</italic> entre a criança como <italic id="italic-4">eu</italic> e o outro como <italic id="italic-5">tu</italic> em relação ao mundo como <italic id="italic-6">ele</italic>). Frente a essa heterogeneidade teórica, Cavalcante produz uma leitura própria dos aparatos conceituais mobilizados, inclusive tomando distanciamento de alguns pressupostos destes. É o caso da centralidade, nos estudos de Tomasello, dos primados da intencionalidade e da prontidão perceptual para a alteridade por parte da criança, aos quais a pesquisadora da UFPB não adere, visto conceber a percepção como mediada pelo linguístico, que, estruturado, é alçado pela interpretação materna. Com base nesse quadro heteróclito, Cavalcante analisa dados de Vitória em seus primeiros meses de vida, focalizando, no diálogo dessa criança com sua mãe, <italic id="italic-7">cenas de alteridade manifesta</italic>, nas quais se integram o arcabouço prosódico (melodia, ritmo, <italic id="italic-8">falsetto</italic>, fala enfática) e o arcabouço gestual (gesto dêitico de apontar, gesto de cabeça indicando “negação”, face indicando “humor”).</p>
      <p id="paragraph-8e64506db460f228fca7ba72844b0a01">Alessandra Del Ré, sob o título <italic id="italic-6a094ce1ccb4bffaf36d9dc148e7e716">O papel do outro na abordagem bakhtiniana: um olhar para o humor infantil, </italic>assume uma perspectiva dialógico-discursiva para abordar o tema do humor. A convidada situa essa temática em relação aos princípios do Círculo de Bakhtin e em relação aos autores que dialogam com esta abordagem, como Vygotsky e Brunner. Del Ré também destaca os trabalhos de Frédéric François e Anne Salazar Orvig, autores que se valem da perspectiva dialógica discursiva no campo dos estudos de aquisição da linguagem. Nessa perspectiva, a noção de <italic id="italic-fc065aa91d1f5a24ba17ce31a503e2ab">língua</italic> é assumida como um organismo vivo com significações ideológicas constituídas histórica e socialmente, e a enunciação é vista como parte do diálogo, numa corrente ininterrupta de comunicação, uma vez que um enunciado é sempre resposta a outro enunciado. A participante reafirma o compromisso dessa abordagem com as relações sociais, históricas e ideológicas, nas quais o outro é peça fundamental. Numa relação dialética com a linguagem, a criança a constitui e é constituída por ela, num jogo em que o <italic id="italic-8c9e9ae50ddffebc4c97b761147ef300">eu</italic> e o <italic id="italic-fd6f40a76849fbaadfb118bc3e64bf9a">outro</italic> são indissociáveis. Com esse olhar, os fenômenos particulares, resultado das experiências socioculturais vivenciadas pela criança em microculturas, ganham relevância. Dentre esses fenômenos, encontra-se o humor, entendido como um traço compartilhado em diferentes situações, gêneros, esferas, sempre em dependência da relação com o outro. Del Ré analisa dois dados naturalísticos de G. (no primeiro, a criança está na faixa etária dos 5 meses; no segundo, ela tem 3 anos e 6 meses), pertencentes ao <italic id="italic-11e47fdd92925cc4418b580924388a57">corpus</italic> do grupo de pesquisa interinstitucional Núcleo de Estudos em Aquisição da Linguagem (NALíngua/CNPq). Os dados revelam os ingredientes considerados necessários para o que o humor seja compartilhado: a ruptura na continuidade do discurso, a qual precisa ser reconhecida pelos participantes e que produz uma espécie de recuo, além de um querer dizer por parte do locutor em relação ao outro. Esse querer dizer, no caso da criança, é acessado a partir de pistas multimodais, reveladas na prosódia e na gestualidade, e a partir do outro, já que não há como se ter certeza do que realmente a criança quis dizer. A análise dos dados comprova que o outro, um verdadeiro “cúmplice linguageiro”, é peça fundamental na constituição da subjetividade da criança e dos seus discursos na microcultura do seio familiar. É na comunhão entre o <italic id="italic-86ed5337da4081425801b84d9a4de5c9">eu</italic> e o <italic id="italic-fe1af7e63f21c3cd0b3b6514b4accfab">outro</italic> que a criança, de maneira singular e dialógica, assume o humor na aquisição da linguagem.</p>
      <p id="paragraph-5b281bec4ae7b7ebbe1587d30a3c0707">Carmem Luci da Costa Silva, com o título <italic id="italic-95a8e0fdb7931d1ca0acdb0ae2ded3e8">O preenchimento de lugar enunciativo para a instauração da criança em sua língua materna: espaço de alteridade, </italic>aborda a questão do preenchimento do lugar enunciativo pela criança. Silva desloca aspectos teóricos da abordagem enunciativa de Émile Benveniste para a pesquisa em aquisição da linguagem e convoca a noção de <italic id="italic-9314f44060dadcb7bdd22ba6ebabdc6d">escuta</italic> de Barthes, para discorrer acerca de duas questões: Como a criança convoca e implanta o outro para estabelecer a interlocução? Na relação criança-outro, que modos de enunciação do outro asseguram a presença da criança na linguagem e permitem a emergência de formas vocais/fônicas e sentidos singulares em seus primeiros onze meses de vida? No centro da questão, encontram-se as relações de subjetividade, intersubjetividade e referência, conforme concepção enunciativa benvenistiana. Essas relações fundamentam os dois princípios enunciativos para a aquisição apresentados pela convidada: a criança instaura-se nos valores linguísticos e sociais de sua língua materna e se determina como um sujeito de linguagem nas relações de escuta e emissão com o outro em diferentes modos de enunciação; a criança é constituída pela língua com os valores distintivos de suas unidades formais e com os valores de cultura da sociedade nela impregnados, mas também constitui sentidos particulares a partir do duplo aparato que lhe é dado – a língua e a sociedade. Assim, o preenchimento de lugar enunciativo pela criança está relacionado à intersubjetividade da enunciação e caracteriza-se pela passagem de convocada pelo outro à convocação do outro. Nessas relações de alteridade, formas e sentidos são engendrados e possibilitam a entrada singular da criança em sua língua materna. A partir da observação de fatos de linguagem produzidos por G. nos primeiros onze meses de vida, dados também pertencentes ao <italic id="italic-d22016ccc9fa31d4f3b2f4f51d7e03fc">corpus</italic> do grupo NALíngua, Silva destaca o aspecto vocal/fônico da enunciação nas relações da criança com o outro como lugar de acesso à língua. No centro dessa experiência, encontra-se a vivência da dupla natureza da linguagem – individual e social –, tanto nas escutas como nas emissões, o que permite à criança evocar elementos sociais e individuais, em movimentos de conjunção e de disjunção entre o <italic id="italic-2bb667c37a38a809190eb52cd85ec7df">eu</italic> e o <italic id="italic-a1f2238195c5c414b54bdc281afcaf30">outro</italic>. A pesquisadora da UFRGS conclui que é nas práticas familiares em exercício, em especial pelo modo de enunciação de formas fônicas poéticas e melódicas, que a criança preenche seu lugar enunciativo. Assim, as relações de alteridade possibilitam mudanças da criança na linguagem que levam à sua instauração na língua materna.</p>
      <p id="paragraph-4b799b24ae8e7f9b82b04a92fa0ff420">Acima de suas diferenças epistemológicas, Cavalcante, Del Ré e Silva convergem nos seguintes pontos:</p>
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        <list-item>
          <p><italic id="italic-9441790b0bc6633c203a1e814100af4c">O papel constitutivo do diálogo</italic>:<bold id="bold-1"> </bold>o <italic id="italic-d718615ee4496c9ceebc145b327f3665">infans</italic> e o <italic id="italic-90e5dab3bcb0e28253ad5c7b695e5099">alter </italic>são tomados a partir de uma relação fundante, que não se reduz à função veicular da comunicação, sendo antes – e sobretudo – o <italic id="italic-a74bd946a9235df0a17a13bc62c57bbb">lócus </italic>da constituição do infante como falante de uma língua e indivíduo de uma sociedade, constituição esta mediada por diferentes <italic id="italic-fb5a3034259d36964c0994f5d25e1cb4">outros</italic> (o linguístico, o discursivo, o social).</p>
        </list-item>
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      <p id="paragraph-2" />
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        <list-item>
          <p><italic id="italic-28ea2cdbcea373120b7d4bb84b6615bb">O duplo compromisso do campo aquisicional</italic>:<bold id="bold-2"> </bold>há o compromisso com o <italic id="italic-8bc34845c9e1f5b25a75b6a273a07765">teórico</italic> (o ponto de vista descritivo-explicativo) e o compromisso com o <italic id="italic-f59a8aae05e4de598456cc48d2432e80">empírico</italic> (a manifestação linguageira da criança eleita como dado de análise), o duplo compromisso que é marca distintiva dos pesquisadores de aquisição da linguagem. </p>
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      </list>
      <p id="paragraph-4" />
      <list list-type="bullet" id="list-78bdda24fb85802f5c58d82fe46729f3">
        <list-item>
          <p><italic id="italic-9">A primazia dos dados naturalísticos e longitudinais</italic>: os <italic id="italic-10">corpora </italic>de análise são constituídos por cenas de diálogo entre crianças e os outros de seu convívio (notadamente, os pais), cenas estas filmadas em sessões de coleta <italic id="italic-11">naturalísticas</italic> (sediadas em ambiente doméstico, sem controle de variáveis nem aplicação de testes padronizados) e <italic id="italic-12">longitudinais </italic>(realizadas periodicamente, ao longo de anos, a fim de se acompanhar as mudanças sofridas pela fala da criança).</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-6" />
      <list list-type="bullet" id="list-2f3f586368ee851cb2b1b521b45f746b">
        <list-item>
          <p><italic id="italic-13">O interesse pela língua viva</italic>: os fenômenos da multimodalidade, do humor e do preenchimento de lugar enunciativo via escutas e emissões são assumidos como observatórios da relação criança-outro e convertidos em objetos de estudo a partir de pontos de vista teóricos que investigam a língua <italic id="italic-14">em ato</italic>, atualizada em atividades humanas e práticas sociais, no ventre das quais germinam um sistema linguístico e um sujeito de linguagem. </p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-903f881fecc230561f2a7b516df26cc6" />
      <p id="paragraph-be11797dae8c600f976a72c97a4d5e8f">Com seus distintos percursos teórico-analíticos, as participantes da mesa redonda aqui resenhada nos fornecem amostras da complexidade e da diversidade que caracterizam a aquisição da linguagem tanto como campo de estudos quanto como devir do <italic id="italic-da792bfcf6af6e720bcb65dce26acc80">infans </italic>enquanto<italic id="italic-2012e9545b4c2aff944077b97c92db05"> </italic>ser falante. </p>
    </sec>
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          <article-title>A aquisição da linguagem e a alteridade em debate. Mesa redonda apresentada por Marianne Cavalcante, Alessandra Del Ré e Carmem Luci da Costa Silva [s.l., s.n.], 2020. 1 vídeo (2h 24min 35s). Publicado pelo canal da Associação Brasileira de Linguística</article-title>
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