Resumo

Esta resenha destaca os principais pontos que foram abordados por Mufwene na sua conferência que se encaixa no quadro dos estudos de pidgins e crioulos. Ao relatar as condições de emergência dos pidgins e crioulos, o autor vem questionando teses amplamente difundidas nesta área, tal como o fato de que os crioulos têm uma filiação com os pidgins. De acordo com Mufwene, crioulos nasceram antes dos pidgins e não teriam necessariamente uma relação com eles, uma vez que teriam condições de emergência distintas. A conferência foi seguida de um debate que permitiu aprofundar as reflexões acerca da criação e da evolução dos pidgins e crioulos.

Texto

No dia 7 de maio de 2020, o professor Salikoko S. Mufwene, linguista da Universidade de Chicago e especialista em pidgins e crioulos, deu uma conferência on-line no site da Abralin, Associação Brasileira de Linguística, com o título How Pigins emerged? Not as we have been told1[1]. O professor ofereceu uma releitura convincente do contexto histórico no qual surgiram os pidgins e convidou o público a repensar os vínculos, ou a sua inexistência, entre crioulos e pidgins.

O professor primeiro ressaltou que a narrativa clássica sobre o nascimento de pidgins e de crioulos está marcada por contra-verdades e afirmações sem fundamentos. De acordo com muitos linguistas, os pidgins teriam nascido de intercâmbios comerciais entre europeus e não europeus entre os séculos XIV e XIX. Sua origem estaria no fato de os europeus não terem aprendido as línguas locais e de os diferentes povos não compartilharem uma língua de contato. Essa narrativa sugere a existência de feiras semelhantes a “bazares”, onde qualquer um poderia ter trocado bens e nos quais os pidgins teriam nascido. Uma outra ideia comum que o professor descarta é o fato de os crioulos terem vindo dos pidgins. De fato, essa ideia é muito difundida nos estudos linguísticos dos pidgins e crioulos, como o atesta, por exemplo, a explicação de Holm (2010)[2]: “Por definição, um crioulo tem um pidgin – ou um jargão pré-pidgin sem normas – na sua ascendência”2. Mufwene vai de encontro a essa posição e estipula que os pidgins e crioulos seriam processos paralelos, e não necessariamente ligados. Eles simplesmente se dariam em contextos ecolinguísticos diferentes.

Em oposição a essas concepções comuns, Mufwene relembra que as feiras de tipo “bazar” nunca existiram na África. As mercadorias (armas, escravos, metais, etc.) eram trocadas por companhias poderosas, tais como a East India Company, que faziam transações financeiras significativas pelo intermédio de corretores. Essas companhias trocavam bens comercias com poderosos Estados africanos, tais como os impérios da África ocidental ou os Estados bantus, e não com indivíduos quaisquer em praça pública. Nesse sentido, antes do século XIX e da criação de colônias, tratava-se de relações comerciais igualitárias, comparáveis ao que acontece hoje em dia no mundo globalizado.

Mufwene salienta o fato de que, nessas condições, a criação de pidgins não se deu na África porque ela não era necessária. As trocas entres as companhias europeias e os Estados africanos foram mediadas por intérpretes que desempenharam um papel fundamental entre os séculos XIV e XIX. Assim sendo, Mufwene assinalou a importância de demonstrar honestidade intelectual e admitir que não se sabe exatamente quando e em que língua se deram os primeiros contatos entre portugueses e africanos. O fato de as primeiras trocas comerciais terem começado tempos depois dos primeiros encontros sugere que houve necessidade de um tempo de adaptação, a fortiori linguística, para se poder estabelecer uma comunicação suficientemente consistente e se desenvolver uma confiança comercial. O que se sabe é que membros de famílias africanas foram para a Europa, incialmente para Portugal, para obter educação formal e, no sentido contrário, exilados europeus (desertores, exilados religiosos, etc.) foram buscar refúgio na África. Estes indivíduos aprenderam as línguas dos outros por imersão e desempenharam um papel-chave no estabelecimento de relações comerciais. O comércio entre África e Europa se deve em maior grau à intervenção de intérpretes do que à formação de pidgins. Além do mais, sabe-se que o português atuou como língua franca na região até pelo menos o século XVIII, sendo descartada a necessidade de um pidgin para se comunicar. Apoiando-se nesses fatos históricos, Mufwene recorda que o nascimento dos pidgins não está necessariamente ligado à emergência de relações comerciais internacionais e ao início da “aventura” colonial, como foi frequentemente assumido.

Por conseguinte, Mufwene se opõe às teorias que apresentam os pidgins como ancestrais dos crioulos. De acordo com o professor, o primeiro documento que atesta a existência de um pidgin dataria do século XIX e se refere ao gullah americano. Ele questiona vários argumentos fornecidos como prova da existência antiga dos pidgins por linguistas. Mufwene vai de encontro às provas que Dillard (1992) traz para assinalar a existência de um pidgin inglês no século XVII. O pesquisador também declara que as provas são insuficientes para falar de um pidgin árabe nas rotas comerciais preexistentes ao comércio afro-europeu, enquanto Holm (2010)[2] apresenta, ao contrário, o pidgin árabe como o primeiro exemplo conhecido de pidgin, no século XI. No que se refere à emergência precoce de pidgins, Mufwene deduz que “a ausência de provas é uma prova da ausência”. Sublinhando que os primeiros casos atestados de pidgins datam do século XIX, enquanto a palavra “crioulo” já aparece desde o século XVI, o autor sugere que os crioulos podem ter existido antes dos pidgins, o que descarta a ideia de os crioulos se formarem a partir dos pidgins. Para reforçar o seu argumento, ele usa o exemplo dos pidgins ingleses da Nigéria e dos Camarões, que são uma ramificação do krio, língua falada em Serra Leoa, que teria por sua vez emergido do crioulo jamaicano um século antes. Nesse caso, um crioulo teria dado à luz um pidgin.

De acordo com Mufwene, ambos, pidgins e crioulos, decorrem do fenômeno de basilectalização, ideia que ele compartilha com Chaudenson (2003)[3], autor segundo o qual crioulos se formaram a partir de aproximações sucessivas de línguas europeias. Assim, a diferença entre pidgins e crioulos se deve principalmente às condições de emergência diferenciadas. Os crioulos são mais característicos de colônias de povoamento, onde a população europeia não é majoritária, mas onde o contato com a língua-fonte é frequente. Os pidgins servem de línguas francas em lugares onde o uso de línguas europeias é mais ocasional. Em lugares onde os pidgins são falados, geralmente ocorre a presença de outras línguas.

Observa-se também a relativa ausência de pidgins franceses, portugueses ou holandeses, de modo que os pidgins parecem ser uma peculiaridade da língua inglesa. O professor ressaltou a importância de explicar a razão dessa especificidade da língua inglesa, mas não chegou a aprofundar muito o assunto, provavelmente em decorrência da falta de tempo. No entanto, ele propôs linhas de interpretações desse fenômeno em outras publicações (MUFWENE, 2012)[4].

As perguntas dos participantes ajudaram também a enriquecer a reflexão sobre o assunto. Foi notadamente levantada a questão da chegada massiva de refugiados à Europa como possível ocasionadora da criação de crioulos. Perante essa pergunta, o professor alertou sobre a importância de permanecer prudente ao usar os termos crioulo ou pidgin, já que qualquer classificação carrega consigo um viés. Assim, seria possível qualificar quase todas as línguas do mundo como crioulos. Contudo, afirmamos que a aparição de crioulos decorrente das línguas de refugiados na Europa é pouco plausível, na medida em que os filhos dos refugiados muito provavelmente se tornarão locutores nativos das línguas europeias. Algumas palavras ou estruturas linguísticas certamente irão influenciar línguas europeias, como já é o caso da língua árabe no “argot” francês, mas não é o suficiente para falar de crioulo.

Vale evocar a participação de Michel Degraaf, especialista do crioulo haitiano, que perguntou sobre casos locais de evolução de pidgins para crioulos, como o sugere, por exemplo, Bickerton (1981)[5], usando o caso do pidgin inglês haitiano como uma demonstração de evolução de um pidgin para um crioulo. Contudo, Mufwene rejeita essa hipótese e defende que, no Havaí, como em outras regiões, o pidgin e o crioulo evoluíram paralelamente em lugares diferentes. A particularidade do caso haitiano consistiria apenas no fato de que o crioulo foi praticado na cidade e o pidgin, na plantação, ao contrário do que ocorreu nas Antilhas.

Por fim, podemos afirmar que a conferência proposta por Mufwene foi extremamente rica. Além de abordar um campo de estudos específico, o dos crioulos e pidgins, e conceitos teóricos ainda pouco difundidos no Brasil, o professor também pôs em xeque algumas das concepções que sustentam esse campo de estudos. Dessa forma, ele relembrou a todos a importância de demonstrar rigor e honestidade intelectual em qualquer desdobramento intelectual. Vale ressaltar a pertinência desse campo de estudos no Brasil, país onde se encontraram línguas de vários povos em um contexto de colonização e, portanto, que apresenta características ecolinguísticas semelhantes à de territórios onde nasceram crioulos, tais como as Antilhas. Se o português brasileiro não é considerado um crioulo por muitos linguistas, é certamente um caso de contato linguístico que merece continuar sendo pesquisado.

Referências

  1. HOW pidgins have emerged. Not has we have been told. Conferência apresentada por Salikoko S. Mufwene [s.l., s.n], 2020. 1 vídeo (1h 19min 11s). Publicado pelo canal da Associação Brasileira de Linguística https://www.youtube.com/watch?v=9nsTHFxq-9w.2020.
  2. Roots of language Bickerton D. Ann Arbor: Karoma Publishers; 1981.
  3. La créolisation: théorie, applications, implications Chaudenson R. Paris: L’Harmattan; 2003.
  4. Contact and Change: Pidgins and Creoles Holm J. In: Hickey R, ed. The Handbook of language Contact. Oxford: Blackwell; 2010 .
  5. Globalisation économique mondiale des XVIIe-XVIIIe siècles, émergence des créoles et vitalité langagière Salikoko M. Actes du XIIIè colloque du comité international de études créoles.2012.