Demonstrativos de kinds: sobre alguns usos de “aquele/aquela” no português brasileiro
Resumo
Este artigo tem como objetivo discutir usos de demonstrativos do Português Brasileiro ainda não analisados na literatura, os demonstrativos de kinds (DK), da forma “aquele(a) N”. Esses itens se diferenciam dos usos anafóricos e dêiticos dos demonstrativos, além dos usos NDNS (WOLTER, 2006; KING, 2001), indefinidos (WOLTER, 2006; ABBOTT, 2010; PRINCE, 1981;), emotivos (WOLTER, 2006; LAKOFF, 1974) e dêitico-discursivos (ROBERTS, 2002) por se referirem a kinds, isto é, a espécies ou a tipos indicados pelo nominal. Desse modo, o que é compartilhado por ambos os interlocutores é um tipo, espécie ou kind expresso pelo nominal e não um referente único determinado. Isso resulta do fato de os DKs não preservarem familiaridade no nível dos indivíduos, mas sim no nível dos kinds, e por isso podemos considerar DKs como definidos. Além disso, os DKs se referem a kinds altos na escala, isto é, a exemplos exemplares de kinds. Assim, DKs se referem a kinds que (i) não apresentam unicidade e familiaridade no nível dos indivíduos ordinários, e (ii) não se referem a qualquer instanciação do kind referido, mas sim a instanciações que, para um dado interlocutor, são exemplares e, por isso, estão posicionadas no alto na escala de bons exemplos do kind relevante.
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