Resumo

O objetivo deste artigo é mostrar a importância da hipótese da relexificação para se explicar o processo de formação dos crioulos, dos pidgins e das línguas mistas em geral que emergem em uma situação de contato de línguas. Os seus proponentes partiram do conceito de relexificação que já era conhecido desde a década de 60, criado para tentar explicar a evolução dessas línguas a partir de um ancestral comum, no contexto da árvore genealógica. A HR inseriu-o no arcabouço da gramática gerativa (versão princípios e parâmetros), e mostrou que pelo menos alguns aspectos da formação dessas línguas são previsíveis, ou seja, que se associam propriedades semânticas e sintáticas dos itens lexicais das línguas de substrato ao significante dos itens lexicais mais próximos da língua de superstrato. A hipótese tem sustentação histórica e sociológica.

Introdução

Os estudos crioulos têm dado contribuições a diversas áreas da lingüística. Algumas dessas áreas são aprendizagem de segunda língua (intimamente associada à pidginização), lingüística histórica, sociolingüística e planejamento lingüístico, entre outras. De um ponto de vista conceitual, uma outra contribuição muito interessante é a questão da relexificação, ou seja, substituição total ou parcial do léxico de uma língua pelo de outra. Os motivos e o como isso se dá são bastante complexos, mas, geralmente, têm a ver com o contato de línguas e com a relação de força (econômica, política, militar, de prestígio) existente entre elas. O fato da substituição do léxico é conhecido há muito tempo, mas o termo relexificação para designá-lo foi cunhado por Stewart (1962)[1]. Na época estava em voga a chama-da monogênese portuguesa dos crioulos e pidgins de base européia, como veremos na seção 2.

No início da década de oitenta, Pieter Muysken retomou o concei-to para explicar casos de línguas mistas que têm o léxico originário de uma fonte e a gramática de outra, como o da chamada media lengua do Equador, de gramática quéchua e léxico espanhol (Muysken, 1981)[2]. Sua proposta foi a de que no dialeto quéchua em questão, manteve-se a gramática original, mas se substituiu o léxico pelo do espanhol. O chamorro, das ilhas Marianas, também manteve a gramática malaio-polinésia original, mas substituiu pelo menos 60% do vocabulário pelo do espanhol. Há diversos outros casos pelo mundo afora, como se pode ver em Bakker & Mous (1994)[3].

Vejamos como se estrutura o presente artigo. Na seção 2, discuto a chamada teoria da relexificação monogenética no contexto da lusomonogênese dos crioulos e pidgins de base européia. Na seção 3, apresento a hipótese da relexificação propriamente dita. Uma vez que essa hipótese tem sido testada quase sempre com dados dos crioulos franceses, sobretudo o haitiano, na seção 4 mostro que também no crioulo português da Guiné-Bissau temos dados para confirmá-la, talvez até com mais força do que com os do hai-tiano. Uma vez que os dois componentes fundamentais da língua são o léxico e a gramática (ou componente computacional), discuto na seção 5 o reverso da relexificação, ou seja, a possibilidade de regramaticalização. Como veremos, parece haver uma certa relutância em aceitá-la. Na seção 6, discuto algo que aparentemente nada teria a ver com relexificação, o chamado sincretismo cultural. Na verdade, ele parece ser o equivalente cultural da relexificação. Na seção 7, discuto algumas aplicações da teoria da relexificação. Por fim, temos as conclusões, na seção 8.

1. A teoria da relexificação monogenética

Praticamente todos os manuais de introdução aos estudos crioulos têm um capítulo dedicado à chamada teoria da relexificação monogenética. Entre eles podemos citar Mühlhäusler (1986)[4], Holm (1988)[5], Couto (1994)[6] e Sebba (1997)[7]. Talvez devido à visão da árvore genea-lógica de Schleicher, no início dos estudos crioulos sempre se conside-rava esse tipo de língua como uma evolução (para pior) das línguas européias, daí a chamada teoria da evolução (Evolutionstheorie), segun-do a qual os crioulos portugueses pertenceriam à mesma família que o português, os franceses à mesma que o francês e assim por diante (Bollée, 1977)[8]. O problema é que os estudiosos começaram a notar que os crioulos tinham mais traços comuns entre si do que com as respectivas línguas lexificadoras da Europa, o que invalidava a teoria da evolução. Para não se abandonar a idéia de árvore genealógica, tão arraigada na lingüística, foi necessário propor-se uma nova teoria que desse conta dessas semelhanças. Foi aí que surgiu a teoria da relexificação monogenética.

Em sua versão radical, a teoria monogenética afirmava que todos os crioulos de base européia tinham origem em uma única língua, no caso um proto-crioulo, pidgin, proto-pidgin ou língua franca portuguesa que teria se formado ao longo da costa oeste-africa-na a partir de meados do século XV e se propagado pelo resto do mundo então explorado por europeus. Assim, salvava-se a filiação européia dos crioulos.

Em geral se considera Whinnom (1956)[9], Taylor (1956)[10] e Thompson (1961)[11] como os iniciadores dessa teoria, embora a idéia em si recue pelo menos até Hesseling (1933). Reportando-se a um trabalho de Voorhoeve de 1953, em holandês, Taylor (1956)[10] salienta as semelhanças no sistema verbal existentes entre diversos crioulos do Caribe. Para ele, isso só se explicaria devido a um ancestral comum, que teria mantido o essencial da gramática e substituído o léxico original pelo do inglês, pelo do francês e assim por diante. Thompson (1961)[11] mostra, com exemplos, que semelhanças existem até mesmo com crioulos do oriente, como se vê em (1), para o aspecto progressivo, embora o macaísta tenha também o aspecto perfectivo (ele ja ven ‘ele veio’).

(1) mwê ka mâje ‘eu estou comendo’ (crioulo francês da Dominica)

mi a go ‘eu estou indo’(crioulo inglês da Jamaica)

sol ta subi ‘o sol está subindo’ (crioulo português de Macau)

Na página 110, Thompson mostra que as marcas de progressi-vo, perfectivo e irrealis (que compreende “potencial”, “futuro” e “contingente”) dos crioulos portugueses de Cabo Verde, das costas da Índia e da Malaca seguem o mesmo padrão das dos crioulos espanhóis das Antilhas Holandesas (papiamentu) e das Filipinas, das dos crioulos ingleses da Jamaica e do Suriname bem como das dos crioulos franceses do Haiti e da ilha Dominica. Além disso, ele salienta itens lexicais como a preposição na, que ocorre nos crioulos portugueses, nos espanhóis (inclusive no afro-espanhol de Cuba e de Porto Rico), no sranan, no negerhollands, no haitiano, no crioulo francês de Trinidad e, possivelmente, no jamaicano. Vale a pena ser reproduzida a sua conclusão: “Este jargão [o pidgin português formado no noroeste africano], sem dúvida muito influenciado pelo substrato oeste-africano, pode ter sido o padrão para todos os cri-oulos das Índias Ocidentais assim como dialetos crioulos portugue-ses do mundo oriental e do Pacífico, muito conhecidos de europeus de diversas nacionalidades, podem ter fornecido os modelos para os dois grandes ramos do pidgin inglês, o da costa da China e o neomelanésio” (Thompson 1961: 113)[11].

Como notou Voorhoeve (1973: 133)[12], “uma origem monogenética só pode ser aceita se acompanhada da teoria da relexificação”, idéia que já estava latente em Whinnom (1956)[9] e em Taylor (1956)[10]. Para o primeiro, o crioulo espanhol das Filipinas é derivado do pidgin português de Ternate, ilhas Molucas, que foi levado para a região de Manila no século XVII. Entretanto, quem propôs o conceito foi, como vimos, Stewart (1962: 45-47)[1]. Ele mostrou que a semelhança estrutural e a divergência de vocabulário que se notam nos crioulos do Caribe e de outras partes do mundo se devem a um processo de substituição do vocabulário de um ancestral comum, que poderia ser o pidgin português mencionado acima, pelo da língua da nova potência colonizadora. A essa substituição o autor deu o nome de relexificação que, segundo ele, seria o contrário de reestruturação (restructuralization).

Voorhoeve (1973)[12] apresentou evidências internas e externas em prol da relexificação monogenética. Segundo ele, o pidgin português original da costa africana foi relexificado pelo inglês no caso do sranan, do saramacca, do krio e outros, bem como pelo holandês no caso do negerhollands e do afrikaans (ver Valkhoff 1966)[13] e pelo espanhol no caso do chabacano, do papiamentu e assim por diante. Enfim, como ficou claro a partir de um congresso realizado na Jamaica em 1959 (ver Le Page 1962)[14], a monogênese e a relexificação passaram a ser uma das idéias mais atrativas da crioulística. A tal ponto que se chegou a sugerir que não apenas os crioulos de base lexical européia, mas todos os crioulos do mundo, seriam descendentes do pidgin português oeste-africano. Além do mais, como já fora sugerido por Whinnom (1956)[9] e reafirmado por Whinnom (1965)[15], o próprio pidgin português seria uma continuação (relexificação) da língua franca mediterrânea, idéia aceita por autores como Granda (1977)[16] e outros. Todd (1990: 37)[17] chegou a sugerir uma árvore genealógica que partiria da língua franca, via “proto-pidgin português”, e se bifurcaria em pidgin português atlântico e pidgin português indo-pacífico. A partir desses dois se originariam os crioulos portugueses bem como, via relexificação, os espanhóis, os ingleses, os franceses, os holandeses e as-sim por diante. Um estudioso do tok pisin, crioulo inglês da Papua-Nova Guiné, menciona a proposta de Whinnom sem rejeitá-la (Laycock 1974)[18]. Com efeito, nessa língua pelo menos as palavras kalabus (prisão), pikinini (criança) e save (saber) provêm do pidgin português. Valkhoff (1966)[13] também é um entusiasta dessa teoria, sobretudo no que concerne à região da Malásia e da África do Sul. Como sabemos, tanto no malaio quanto no indonésio (bahasa indonesia) atuais existe uma grande quantidade de palavras de origem portuguesa. Para um apanhado geral do assunto, pode-se consultar Lopes (1969)[19].

A versão radical da relexificação monogenética já não é aceita por praticamente nenhum crioulista. Para Maurer (1987)[20], nem sua versão restrita consegue explicar os morfemas temporais do papiamentu e do palenquero. No entanto, Granda (1977)[16], Perl (1982)[21] e até autores mais jovens como Armin Schwegler acham que ela tem uma certa validade. Schwegler (1999)[22], que cita diversos outros monogeneticistas, argumenta no sentido de que uma série de pronomes de terceira pessoa (ou marcas de pessoa/número) existentes em diversas variedades de espanhol da América (Colômbia, Cuba, Porto Rico) é reflexo do pronome afro-português ele. No final, ele afirma que a negação dupla estaria no mesmo caso (NO hablo inglés NO). Por fim, houve uma polêmica no Journal of pidgin and creole languages entre Goodman (1987, 1988)[23,24], Naro (1988, 1993)[25,26] e Clements (1992, 1993)[27,28] que, basicamente, girou em torno dessa teoria. Quando lembramos que os portugueses deixaram vestígios de sua língua nos quatro cantos do mundo, como se pode ver em Vasconcelos (1970)[29] e Lopes (1969)[19], até parece que a teoria tem uma certa dose de verdade. Além da preposição na, há outras palavras de origem portuguesa que se propagaram para diversas línguas crioulas e não-crioulas. Poderíamos acrescentar às já mencionadas, palabra ‘contenda’ (até no afrikaans), blai ‘cesto’ (no krio da Serra Leoa) e outras. Relexificações parciais podem ser constatadas a todo instante. Segundo Mühlhäusler (1986)[4] o kriol do norte da Austrália pode ser uma relexificação de um pidgin macassarês; alguns crioulos da Ásia podem ser relexificação de um árabe comercial; o hiri motu da Papua Nova Guiné é relexificação do neo-melanésio (tok pisin).

No início de 80, Pieter Muysken (1981)[2] retomou o conceito para explicar o que se passava no que chamou de media lengua (ML), falada na província equatoriana de Cotopaxi. A ML seria basicamente quéchua na gramática, mas com cerca de 90% do vocabulário substituído pelo do espanhol. Esse artigo foi o ponto de partida para a proposta da hipótese da relexificação, meu objetivo central. Por isso, ele será retomado na seção seguinte.

2. A hipótese da relexificação

De um modo geral, parece que os crioulistas consideram o processo de formação das línguas crioulas e pidgins como inteiramente aleatório e caótico. A hipótese da relexificação visa justamente a mostrar que isso não é verdade. Ela prevê que os formadores dessas línguas, em situação de multilingüismo, pegam o significante (ou parte dele) da língua dominante e o associam a significados e possibilidades combinatórias de suas próprias línguas. Como reconhece a principal proponente dessa hipótese, Claire Lefebvre, da Universidade de Quebec, Montreal (UQAM), quem a formulou primeiro em termos formais foi Peter Muysken.

Muysken (1981)[2] havia mostrado que o que chamou de media lengua era uma variedade de quéchua que teve o vocabulário substituído pelo do espanhol, num processo que ele denominou relexificação, seguindo a proposta original de Stewart (1962)[1]. A gramática permaneceu a do quéchua. Partindo dessa constatação, Lefebvre (1986)[30] iniciou um programa de comparação sistemática da gramática do crioulo francês do Haiti com o que considera a principal língua de substrato, ou seja, a variedade fon (ou fongbe) do grupo de línguas kwa. Como ela declara explicitamente, o objetivo principal é investigar o papel do substrato africano na formação desse crioulo. O arcabouço teórico é o da versão dos princípios e parâmetros da gramática gerativa. Aliás, todos os praticantes da teoria da relexificação são gerativistas, área em que são independentemente bem conhecidos. A partir daí, surgiu uma equipe de pesquisa sob a liderança de Claire Lefebvre (depois, também de John Lumsden) na UQAM que vem atuando até hoje de modo bastante produtivo. Além das diversas publicações, o grupo tem promovido seminários e mesas-redondas. Para se ter uma idéia, em 1994 houve um simpósio no MIT sobre o papel da relexificação na gênese dos crioulos. Em Lefebvre (1998)[31] e em Lefebvre & Lumsden (1994)[32], pode-se ver um pequeno histórico dessa proposta.

Nas palavras da própria autora, “a relexificação é um processo mental que cria entradas lexicais copiando entradas lexicais de um léxico pré-existente, substituindo suas representações fonológicas por representações derivadas de outra língua”. No caso, o léxico pré-existente é o da L1 dos formadores do crioulo, e o outro o da L2, às vezes chamada de língua alvo. É importante notar que desde a proposta inicial de Muysken, a relexificação é direcionada pela semântica. Para que ela ocorra, é necessário que as entradas lexicais de L1 e de L2 tenham algo em comum semanticamente. Com isso, a hipótese da relexificação prediz que as entradas lexicais dos crioulos (e dos pidgins) terão as propriedades semânticas e sintáticas do substrato e uma representação fonológica derivada da língua de superstrato, também chamada de língua lexificadora. Vejamos o exemplo (2), tirado de Lefebvre (1997)[33].

(2) M vle gwo sila a (haitiano)

N jló kló éló é (fon)

Eu querer grande este/aquele Det

‘Eu quero aquele grande’

Como se vê, os itens lexicais haitianos têm forma fonológica tirada do francês (vle

No caso de (2), a comprovação da hipótese foi com termos demonstrativos. Ao longo de cerca de 20 anos, Lefebvre e colaboradores têm demonstrado esse paralelismo semântico-gramatical entre fon e haitiano em diversas áreas da gramática. Vejamos o caso de concordância no interior de AGRP-S de (3). De novo, pode-se ver que os itens lexicais são derivados do francês, mas a gramática e a semântica são africanas (fon), inclusive o determinante de frase.

(3) Nèg la vòle machin (nan) an (haitiano)

Súnù ò fin mótò (ó) ó (fon)

homem Det roubar carro Det Det

‘O cara roubou um/o carro’

Koopman (1986)[34], que não pratica mais a teoria da relexificação, mostrou que no âmbito dos complementos de orações, dos verbos modais e outros, o haitiano se emparelha com as línguas africanas, não com o francês, mesmo tendo a forma fonológica das entradas lexicais tiradas dessa língua. Lumsden (1999b)[35] mostrou, entre outras coisas, que o verbo montre (mostrar) tem a estrutura argumental recipiente/tema, como o fongbe e contrariamente ao francês, que tem a estrutura tema/alvo. Em (4) vemos seus exemplos.

(4) M montre Pòl liv la (haitiano)

Un xwlé Pólù wémà ó (fongbe)

Eu mostrar Paul livro Det

J’ai montré le livre à Paul (francês)

‘Eu mostrei o livro a Paul’

Em (4) temos de novo sintaxe fon e léxico com significante derivado do francês. Outros colaboradores de Lefebvre e Lumsden testaram a hipótese em outras áreas. Assim, Brousseau (1989)[36] mostrou que as palavras compostas do haitiano seguem os mesmos padrões das línguas de substrato africanas, mesmo que o significante dos elementos componentes sejam derivados do francês (relexificação). Em (5) temos alguns exemplos

(5) Haitiano

pye-bannan (pé/banana); pye-palmis (pé/palma); twu-nen (buraco/nariz)

fongbe

kwékwé-tin (pé/banana); dè-tin (banana/pé); àòntín-dó (naris/buraco)

francês

'bananier' 'palmier' 'narine'

Essa mesma autora investigou também os reflexos da relexificação na fonologia (Brousseau 1994)[37]. Entre outras coisas, ela constatou que o inventário de vogais do haitiano é exatamente paralelo ao do fongbe e diferente do do francês. O mesmo vale para o quadro de consoantes, inclusive os processos fonológicos haitianos são semelhantes aos do fongbe (cf. Lefebvre & Lumsden 1994: 75-76)[32]. Interessantemente, fato não explicitado por Brousseau, pelo menos o crioulo português da Guiné-Bissau e o crioulo inglês da Papua-Nova Guiné (tok pisin) parecem ter estruturas silábicas mais próximas da língua lexificadora do que das línguas de substrato. Com isso, teríamos uma situação diametralmente oposta ao que ocorre na relexificação vista até aqui, ou seja, o aspecto gramatical da fonologia (padrões silábicos) se aproxima do superstrato enquanto que o aspecto “lexical” (inventário de fonemas) se aproxima do substrato. No que tange aos suprassegmentais (entoação, acento, tom, etc.), o crioulo tende a seguir as línguas de substrato. Esse assunto merece uma investigação mais aprofundada.

A hipótese da relexificação tem sido alvo de muitas críticas. Entre elas poderia citar Bickerton (1988)[38], Spears (1991)[39], Hazaël-Massieux (1992)[40], Calvet (1994)[41], Chaudenson (1994)[42], Fournier & Wittmann (1994)[43] e DeGraff (1999a)[44]. A maioria dessas críticas se deve ao fato de os autores não serem versados em gramática gerativa, portanto, partirem de outros princípios. As únicas exceções seriam Bickerton e DeGraff. O segundo é professor de sintaxe no MIT. No entanto, ele faz críticas severas apenas no que tange ao aspecto empírico, ou seja, quanto à validade de uns poucos dados, não à solidez da base teórica. Tanto que em DeGraff (1994)[45] e até certo ponto em DeGraff (1999b)[46], ele tece rasgados elogios à hipótese da relexificação. No número 14,2 (1999) do Journal of pidgins and creole languages houve um intenso debate entre, de um lado, DeGraff, e, de ouro, Lefebvre e Viviane Déprez.

Mais importante do que essas críticas é o fato de a hipótese vir sendo testada (e confirmada) há cerca de 20 anos, em sucessivos projetos apoiados pelas agências financiadoras canadenses. Ademais, tanto Lefebvre quanto Lumsden são reconhecidos sintaticistas (gerativistas), que têm publicações nos mais renomados órgãos de divulgação científica do mundo, e não apenas textos relexificacionistas, inclusive o fechado MIT (ver a mesa-redonda que aconteceu lá e DeGraff 1999b)[46]. Mais importante é o fato de se tratar de uma hipótese testável (refutável, falseável). Basta encontrar-se uma língua crioula que apresente uma quantidade razoável de fenômenos que a refute para ela ter que ser descartada. Até agora, porém, ela vem sendo confirmada com um fenômeno atrás do outro no haitiano. Na seção seguinte, vemos que o guineense também a confirma em diversos fenômenos examinados até agora, por mim e por outros autores.

Existem alguns problemas com a teoria, fato apontado pelos seus proponentes. Um deles é a (não) relexificação de categorias funcionais (Lumsden 1999a)[47]. Deve-se observar, porém, que se tudo no crioulo resultasse de relexificação de L1 por entradas lexicais de L2, teríamos uma prova para uma concepção de língua como nomenclatura, o que Saussure já rechaçara.

O cenário em que se dá a crioulização mediante relexificação prevê a presença de mais de duas línguas. Do contrário, pode acontecer o que se deu na media lengua e no chamorro ou na aprendizagem de L2 pelos falantes de L1. Na situação de multilingüismo, como não há uma língua comum, é necessário que se forje pelo menos um vocabulário comum, ou seja, um jargão, para se ter pelo menos uma comunicação precária. Como o contato com a língua dominante é precário, as matrizes fonéticas dos itens lexicais do superstrato são captadas fragmentariamente, não na íntegra. Preenchidos pelos padrões semânticos, sintáticos e fonéticos das línguas de substrato, esse jargão inicial permite um entendimento mínimo. O contrário não funcionaria. A relexificação reduz a diversidade: a substituição de significados de substrato (manifestado em significantes diferentes em diversas línguas) pelo de uma única língua (a lexificadora) fornece aos falantes dessas línguas um léxico comum.

Se a opção tivesse sido pegar matrizes fonéticas das línguas de substrato e as preencher com conteúdos do superstrato, não haveria entendimento entre os falantes das diversas línguas de substrato. Com efeito, para a comunicação o léxico é muito mais importante do que a sintaxe. Por exemplo, se um estrangeiro falante de uma língua OSV dissesse a um brasileiro *Você eu vejo, poderia ser entendido melhor do que um falante de uma outra língua que dissesse Ich sehe dich, na mesma ordem que o português Eu vejo você.

Do ponto de vista da proposta de Lefebvre e colaboradores, a relexificação é o principal processo na formação das línguas crioulas, mas não o único. Outros processos que entram em ação com ela são a reanálise e o nivelamento dialetal. Reanálise é um processo mental que estende ou transfere a representação fonológica de uma categoria lexical (substantivo, verbo, adjetivo e preposição) para a uma categoria funcional (determinante, marcador de caso, de tempo ou de aspecto e complementizador) em uma mesma língua. É o caso da forma guineense na que, além do significado preposicional já presente no étimo português na (em+a) é também o marcador de caso locativo. Isso pode ser visto em frases como i sai na si kasa ‘ele saiu [de] sua casa’, por oposição a i sta na si kasa ‘ele está em (sua) casa’. O nivelamento dialetal, contrariamente aos processos mentais de relexificação e de reanálise, é um processo social, e consiste numa negociação entre os falantes de diversas línguas de substrato sobre qual forma adotar. Ele visa a reduzir a variação entre os léxicos produzidos pela relexificação de diferentes léxicos substratais. Os traços que são comuns a um grande número de línguas de substrato serão preferidos. Tem sido demonstrado que as línguas do oeste africano têm muitos traços em comum.

Enfim, a hipótese da relexificação explica, adicionalmente, porque os pidgins e crioulos tendem a ser línguas isolantes. Quase todas suas categorias são formadas pelo processo de relexificação de itens lexicais da língua lexificadora. Com isso, até mesmo algumas categorias gramaticais, como tempo-modo e número-pessoa das línguas indo-européias, são expressas lexicalmente. Em (8b), abaixo, pode-se ver que o aspecto progressivo (Comrie, 1976)[48] é expresso por um item lexical, na, sendo que em português esse aspecto é indicado pela flexão ndo.

3. A relexificação no crioulo guineense

Kihm (1989)[49] salientou a importância da hipótese da relexificação, embora nos crioulos exógenos (formados fora do território dos falantes das línguas de substrato) ela seja difícil de ser comprovada, e o haitiano é um deles. Para ele, crioulos endógenos como o tok pisin da Papua-Nova Guiné e o guineense são uma área de testagem muito mais interessante. As línguas de substrato (e adstrato) continuam convivendo com o crioulo. Kihm mostra que o guineense confirma a hipótese no que concerne à negação, aos pronomes, ao sistema temporal e aos complementizadores. Vejamos o exemplo (6), para a primeira.

(6) Nau, N ka oja-l ‘Não, eu não o vi’

NEG1 1PS NEG2 ver 3PS

No crioulo, a negação sentencial é ka e a negação de predicado é nau, ao passo que em português só há uma forma para ambas. Kihm mostrou que muitas línguas de substrato têm duas ou mais formas de negação. Em (7) temos exemplos do mancanha, com duas.

(7) (a) man dika ro wul ‘eu não o farei’ (b) bu kats telar ‘eles já não se entendem’

EU NEG-U fazer ELE ELES não ouvir-um-ao-outro

Couto (a sair) mostra que a entrada lexical na tem duas funções no crioulo, a de preposição (8a) e a de partícula aspectual de imperfectividade, no caso, seu subtipo chamado progressivo (8b).

(8) (a) Jon sta na si kasa ‘João está em sua casa’ (b) Jon na fuma ‘João está fumando’

João estar em dele casa João IMP fumar

No exemplo de (8), o crioulo pegou o significante do português (em+a) e lhe atribuiu o valor semântico e sintático das línguas de substrato. Em mandinga, por exemplo, kaN tem as duas funções (9).

(9) A be taama kaN bedoo kaN ‘Ele está caminhando na rua’

ELE estar caminhar kaN rua kaN

Em sua segunda ocorrência em (9), kaN é partícula que indica progressivo (ndo); na primeira, é preposição (em).

Diga-se de passagem que o mandinga é a língua africana que mais influência teve na formação do guineense. Em Doneux & Rougé (1993)[50] temos muitos outros exemplos. O importante é que diversas outras línguas da região apresentem esse traço, ou seja, a multifuncionalidade do equivalente de “em”. Enfim, grande parte das estruturas crioulo-guineenses resultaram de um processo de relexificação de estruturas das línguas africanas por formas do português.

4. Regramaticalização

Partindo do pressuposto de que léxico e gramática são os dois componentes da língua como sistema, seria de se esperar que na dinâmica das línguas houvesse não apenas relexificação, mas também regramaticalização. O próprio criador do conceito de “relexificação” (Stewart 1962)[1] reconheceu isso, ao afirmar que ele é a contraparte de regramaticalização (que ele chamou de restructuralization). Ele chegou a aventar a possibilidade de os pidgins resultarem de uma reestruturação rápida da gramática (logo, regramaticalização) básica de uma língua, mantendo o vocabulário básico relativamente intacto (p. 45). Hall (1978)[51] foi um dos primeiros a usar o termo regramaticalização. Mas, para ele, regramaticalização é a alma da mudança de língua em geral, sem ela não há mudança de afiliação genética. Ele estava preocupado com a árvore genealógica. Thomason & Kaufman (1988)[52] distinguem três graus de “substituição gramatical”, que seria outro nome para regramaticalização: empréstimos estruturais (a) moderados, (b) fortes e (c) maciços. Em (a) se enquadrariam, entre outros, o romanche (com empréstimos do alemão suíço), o estoniano (empréstimos alemães) e mongol (empréstimos do chinês). Em (b) entrariam o dialeto chinês wutun, com empréstimos do tibetano; o brahui, com empréstimos do balochi; e o grego da Ásia Menor, influenciado pelo turco. A (c), ou seja, à substituição maciça de traços gramaticais devido a uma pressão cultural massacrante, e de que pode resultar morte da língua, pertenceriam o anglo-romani, que manteve parte do vocabulário romani original usado no arcabouço da gramática do inglês; o ma’a ou mbugu (da Tanzânia), que mantém parte do léxico e um pouco da gramática cuxíticos originais em uma gramática em grande parte tomada de empréstimo às línguas bantus; o michif (língua algonquiana), que tomou de empréstimo ao francês a morfologia nominal e a sintaxe nominal, além de alguns substantivos; o aleuta da ilha de Mednyj, que substituiu toda a morfologia dos verbos finitos pela do russo; e o árabe de Kormakiti (de Chipre), influenciado pelo grego local. Em (10) dou um exemplo do anglo-romani (a) e um do calão (calon) português, que está no mesmo caso, só que com gramática espanhola:

(10) (a) The rackli chored the luvva ‘A menina furtou o dinheiro’

(b) El jambo se camela rumandiñar ‘O homem quer casar-se’

Poderíamos acrescentar ainda, pelo menos, o shelta, falado por grupos de nômades da Irlanda e da Escócia. Embora haja muitas incertezas sobre a origem dessa linguagem, o fato é que ela mantém um vocabulário oriundo do gaélico, do romani e do jargão (cant) inglês, que é usado no contexto da gramática inglesa. Não se trata de uma língua natural como as demais. O shelta surgiu como linguagem doméstica, para manter segredo e intimidade (Grant 1994)[53].

Praticamente todos os defensores da hipótese da relexificação subscrevem a afirmação de que os crioulos são línguas de vocabulário do superstrato e gramática do substrato. Isso me levou a sugerir o conceito de anticrioulo, pois linguagens como a de Cafundó invertem essa fórmula, ou seja, elas constam de um vocabulário pelo menos parcialmente original (substrato) usado no contexto da gramática local (superstrato). A linguagem de Cafundó tem pelo menos parte do vocabulário africano original, usado com a gramática do português local (Vogt & Fry 1978)[54]. O objetivo é resistência cultural (Couto 1994: 85-88 e 2002)[6,55]. Ulteriormente, vários outros casos foram acrescentados, como os já mencionados anglo-romani, shelta, calão, ma’a e outros. O que ficou claro é que sempre se tratava de povos que viviam como enclave no território de outro povo, ou de nômades, sempre com o objetivo de se distinguirem da sociedade envolvente (resistência). Como houve muita crítica ao conceito de anticrioulo, talvez possamos usar o de regramaticalização em seu lugar. Para mais detalhes sobre anticrioulo, pode-se consultar Couto (2002)[55].

Considerando o conceito de regramaticalização como uma alternativa a anticrioulo, podemos opô-lo ao de relexificação como aplicado à media lengua (ML) por Muysken (1981)[2]. Os usuários da ML estavam em seu próprio território. Eles se aproximaram do espanhol porque queriam distanciar-se de sua origem quéchua rural. Quanto aos usuários da língua regramaticalizada, geralmente estão no território dos falantes da língua alvo. Sua língua se regramaticaliza porque não conseguem manter sua língua original na íntegra, mesmo opondo resistência à massacrante força constritora da língua da sociedade envolvente. Apesar dessa resistência, o que conseguem manter é apenas parte do léxico original, mesmo assim só por algum tempo. Ao fim e ao cabo, sobrevém a morte de sua língua (glototanásia).

Como o léxico é o componente da língua que mais diretamente reflete a sociedade, a atitude dos usuários perante ela pode levar a resultados diferentes, no caso de mudança induzida pelo contato. Se a atitude for de afirmação da identidade, pode-se prever uma maior probabilidade de regramaticalização do que de relexificação. Não havendo essa atitude e, sobretudo se houver um desejo de se assemelhar aos falantes da língua alvo, haverá maior probabilidade de se dar relexificação do que regramaticalização.

O objetivo é sempre a comunicação. Nos casos em que houve relexificação, havia necessidade de comunicação intergrupal, entre povos falantes de línguas mutuamente ininteligíveis. Nos casos em que houve regramaticalização, isso se deveu a uma necessidade de comunicação intragrupal sem que o falante seja entendido pelos de fora, o que implica resistência e desejo de demarcar a própria identidade.

Enfim, o conceito de regramaticalização merece um lugar ao sol, a despeito das objeções que alguns estudiosos têm a ele. O crioulista Peter Bakker, especialista em michif e anglo-romani, não o aceita (Bakker, 1997: 205, 210)[56]. Ele prefere incluir as línguas que aqui são consideradas regramaticalizadas no que chama de “línguas entrelaçadas” (intertwined languages). O problema é que essa categoria inclui todo tipo de língua que tem o léxico de uma fonte e a gramática de outra, mesmo quando isso tenha sido resultado de um processo de relexificação, como aconteceu com o chamorro das ilhas Marianas e com a ML. Quem aceita o conceito sem reservas é Anthony Grant. De acordo com ele, o shelta “é um fenômeno raro, uma língua que apresenta ‘regramaticalização’”. Melhor ainda, em sua opinião ela passou por um duplo processo de regramaticalização: de uma língua desconhecida para o irlandês e desse para o inglês (Grant 1994: 144-145)[53].

5. Sincretismo cultural

Pelo menos um aspecto do que se tem chamado de sincretismo cultural poderia ser considerado como uma contraparte cultural da relexificação. Vimos que a hipótese da relexificação prevê que as entradas lexicais das línguas crioulas e de outras línguas mistas, como se pode ver em Muysken (1981)[2], copiam os traços semânticos e sintáticos das L1 dos falantes e os associam a matrizes fonéticas derivadas da L2. Em termos grosseiros, isso já fora formulado como sendo vocabulário europeu e gramática africana.

No caso da Jamaica, não só a língua associou significantes europeus a significados africanos. Na religião e na música isso se deu também. Pelo menos após a chegada dos missionários cristãos, os escravos puderam dar continuidade a seus costumes religiosos camuflados de cristianismo. Como Alleyne (1989: 93-96)[57] mostrou, o ritual conservador chamado convince “representa um estágio de desenvolvimento em que nomes cristãos entraram no panteão local, mas os atributos das deidades e as atitudes em relação a elas dão continuidade a padrões africanos”. Isso porque as deidades européias compartilhavam muitas qualidades com as africanas, exatamente como no caso da relexificação, que só se dá quando a entrada lexical do superstrato e a do substrato que a relexifica têm algumas propriedades semânticas em comum. A música jamaicana também segue o mesmo princípio, ou seja, mesmo quando a superfície lembra a Europa, a forma interna é de base africana. Por exemplo, mesmo quando o “tema” de uma canção é local (americano em geral ou caribenho), as inflexões tonais e o ritmo freqüentemente remetem à África.

As culturas africanas são muito abertas a empréstimos externos, e essa tolerância ao que é do outro faz com que sejam muito permeáveis. Na África sub-saariana já existia um tipo de sincretismo entre traços tradicionais e islamismo, por um lado, e entre traços tradicionais e cristianismo, por outro lado. O que se deu na América foi simplesmente a continuidade de uma mentalidade que já existia na base africana (Alleyne, 1989)[57].

Há diversos estudos sobre o sincretismo cultural. Para uma primeira abordagem, pode-se consultar Carvalho (1993)[58] e Bastide (1960)[59]. O segundo deles salienta o caráter de resistência desse fenômeno. Para ele, “parece seguro afirmar que o fenômeno dos quilombos representa a resistência de uma civilização que se recusava a morrer (luta em que a religião africana exerceu um papel chave) bem como um protesto direto contra a instituição da escravidão” (Bastide, 1979: 198)[59]. Para aqueles que afirmam que o sincretismo é uma espécie de aculturação, ele afirma que esses conceitos são relevantes apenas em certo nível de abstração. De certo modo, sincretismo é sempre ‘contra-aculturação’ e aculturação sempre ‘sincrética’” (p. 199) (cf. 3.6 para mais detalhes).

Em suma, quando membros dos grupos africanos estavam cantando e/ou ajoelhados diante uma imagem de São Jorge, na verdade estavam reverenciando aguê (jeje), oxóssi (nagô) ou matacuzambê (angola). Diante da imagem de santa Bárbara, homenageavam calé (jeje) ou iansã (nagô). Só a materialização era européia. A essência, o sentido ou função a que ela remetia era africana.

6. Algumas aplicações da hipótese da relexificação

A aplicação mais importante da HR se dá na formação dos pidgins e crioulos. Ela mostra que o processo de formação do léxico dessas línguas a partir de traços de diversas outras não é aleatório nem muito menos caótico. Ela prevê que se copiam aspectos do significante da língua dominante, que são associados ao significado e propriedades semânticas das línguas de substrato. Mas há outras áreas em que ela pode lançar luzes.

A primeira é a aprendizagem de segunda língua (AL2). De acordo com a HR, os aprendizes de uma segunda língua se apropriam de um novo vocabulário associando palavras e frases de suas L1 a palavras e frases de L2, uma a uma, freqüentemente ignorando os contextos lingüísticos e pragmáticos em que são originariamente usadas. Essa associação facilita a aprendizagem de L2 em situações de pouco acesso à L2. O que é mais, a relexificação se torna mais acessível ao aprendiz à medida que ele vai ficando mais velho, assim como, na aquisição de L1, quanto mais a criança cresce, menos é capaz de adquirir naturalmente as estruturas de sua própria língua. Se passar o período crítico (aproximadamente 7 anos), poderá nunca mais aprender uma língua plenamente.

Os anglófonos que vão aprender francês em Quebec costumam dizer *écouter à (ouvir), relexificando a forma de sua L1, que é to listen to. Há muitos outros exemplos, como *regarder à (to look at), *payer pour (to pay for), *chercher pour (to look for) e outras (Lumsden, 1999a: 130-133)[47].

Os empréstimos que as línguas tomam de outras também passam por um processo parecido com o de relexificação. Por exemplo, em inglês não se usa a palavra outdoor exatamente como no Brasil. Na verdade, nós tomamos apenas a matriz fonológica da entrada lexical inglesa e a associamos a um conteúdo brasileiro, ou seja, algo como “cartaz”. Se isso for válido, o português estará passando por um incipiente processo de relexificação pelo inglês. Haja vista a quantidade maciça de empréstimos dessa língua que estão sendo feitos por nós, muitos deles inteiramente desnecessários. Nós não oferecemos nenhuma resistência a isso, pelo contrário, estamos inteiramente abertos a novas intromissões de palavras inglesas no português. É tido como chique introduzir o máximo de americanismos em nossa fala.

É bem provável que a relexificação tenha algo a ver com as diversas más traduções que temos por aí, mesmo que sob a forma de imagem especular. Nesses casos, o tradutor simplesmente copia as entradas lexicais da língua alvo da tradução e as preenche com propriedades semânticas e, às vezes, até sintáticas da língua de origem. Para dar um exemplo relativamente recente do âmbito de nossa disciplina, poderia citar a palavra “otimalidade”. Ao usar essa forma, estamos simplesmente adotando a entrada lexical inglesa optimality e adaptando-a a nossos usos. O componente morfológico da gramática do português exigiria que se combinasse “idade” com “ótimo”, o que daria a forma vernácula “otimidade”. Se o assunto fosse estudado pelos especialistas em tradução dessa perspectiva, creio que teríamos descobertas interessantes, pois relacionaríamos a área com formação de novas línguas (crioulos e pidgins) e com aprendizagem de segunda língua.

Creio que ninguém tocou no assunto, mas parece que o que se dá na chamada descrioulização (reaproximação do crioulo à língua dominante, após formada) também teria algo a ver com relexificação. Quando não, pelo simples fato de ela ser basicamente uma tomada de empréstimos da língua dominante, lexificadora. Um parecerista anônimo argumentou que isso não seria verdade, uma vez que o léxico do crioulo já provém da língua dominante. Devo salientar, no entanto, que o fato de o léxico crioulo provir da língua dominante, chamada por isso mesmo de língua lexificadora, não significa que seu léxico seja idêntico ao dela, mesmo porque o que proveio da língua lexificadora é apenas a forma, não o conteúdo. O léxico português provém do latim, em sua maioria, porém, não dizemos que o léxico português é o léxico latino. Em síntese, o léxico crioulo é autônomo relativamente ao da língua lexificadora e, por ter identidade própria, pode perdê-la, via descrioulização, por exemplo.

7. Conclusão

Gostaria de concluir ressaltando a ironia que se nota na existência da hipótese da relexificação. O conceito de relexificação surgiu no contexto da teoria da monogênese para explicar a origem dos crioulos sem a participação das línguas de substrato (africanas e outras), no que foi chamado por alguns de teoria da evolução. Pois bem, ele passou a ser usado por Lefebvre e seguidores em um sentido diametralmente oposto, ou seja, justamente para explicar o papel das línguas de substrato na formação dos crioulos. Por outras palavras, em sua origem o conceito visava a explicar a europeidade dessas línguas, ao passo que na nova visão ele tem por objetivo explicar o seu africanismo ou, de modo mais geral, o substratismo da sintaxe e da semântica das línguas crioulas. Tudo isso no contexto de uma hipótese testável, mesmo porque baseada em um modelo formal de longa tradição, a gramática gerativa.

Não é para menos que essa hipótese é uma das poucas, talvez a única, existentes que têm mostrado que o processo de emergência de uma língua mista em uma situação de contato de línguas não é caótico nem de resultados inteiramente imprevisíveis, como se pode ver nas diversas teorias elencadas em Holm (1988)[5] e em Couto (1996)[60]. Pelo contrário, há diversas direções prováveis. Uma delas é a de que os usuários partem das propriedades sintáticas e semânticas de suas L1 e as associam ao significante do item lexical mais próximo da língua dominante.

Os resultados sincrônicos e formais da nova teoria da relexificação são amplamente corroborados por fatores extra-lingüísticos. Assim, sabe-se que as línguas que mais contribuíram na formação do haitiano foram as línguas kwa, analisadas pela equipe da UQAM. Pois bem, Claire Lefebvre tem mostrado que a maioria dos escravos levados para o Haiti provinham justamente da região onde se falam línguas kwa. No caso da Guiné-Bissau, a língua que mais presença teve na formação do crioulo foi o mandinga. Não é por acaso que esse crioulo pareça um vocabulário tirado do português com gramática mandinga, como transparece de Barros (1900)[61]. O que é mais, devido à grande unidade em estrutura profunda entre as línguas africanas (Alleyne, 1989)[57], o crioulo parece uma língua franca com gramática local e vocabulário de origem portuguesa (Doneux & Rougé, 1993)[50]. Os cultos chamados sincréticos afro-brasileiros também seguem o mesmo princípio defendido pela teoria lingüística. No caso da religião, segundo Alleyne (1989)[57], mesmo quando se usam imagens cristãs (forma externa) o que se venera são entidades africanas (forma interna).

Para terminar, gostaria de lembrar que a despeito de a hipótese da relexificação ser de cunho gerativista, o aspecto “comunicação” não é inteiramente ignorado. A própria Lefebvre ressalta que, ao relexificarem seus léxicos por formas fonéticas tiradas da língua de superstrato, os falantes das línguas de substrato estão criando condições para a comunicação deles mesmos entre si. Com efeito, suas línguas são mutuamente ininteligíveis, mas compartilham vastos sistemas culturais (Alleyne, 1989)[57]. A comunicação entre eles só não era possível porque esses conteúdos culturais comuns eram expressos por significantes (léxicos) diversos. Relexificar seria juntar os conteúdos comuns a um significante único, que passa a ser comum a todos.

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