Resumo

Apresentação do volume temático Contribuições da Teoria Gerativa e da Psicolinguística para a educação linguística

Texto

Este número da Revista da Abralin reúne pesquisas sobre as Contribuições da Teoria Gerativa e da Psicolinguística para a educação linguística. Sabemos que a linguagem é uma característica definidora da singularidade humana e que, por esse motivo, os fundamentos cognitivos, motores e neurais que caracterizam as línguas têm sido foco de pesquisas nas ciências sociais e biológicas há muito tempo.

No âmbito dos estudos linguísticos, desde a década de 1950, com o surgimento da Teoria Gerativa de Noam Chomsky, inúmeras pesquisas têm sido feitas sobre as propriedades das línguas humanas na mente/cérebro dos seres humanos, tanto sob a perspectiva teórica quanto sob a experimental. Nesse momento fundador das Ciências Cognitivas, na década de 1950, a Linguística Teórica e a Psicolinguística se reinventaram em colaborações interdisciplinares que estabeleceram um novo paradigma nos estudos da linguagem. Fundou-se ali, verdadeiramente, a Sintaxe Experimental, muito provavelmente iniciada com o trabalho pioneiro de Miller & Selfridge (1950), que demonstrou um efeito robusto da estrutura sintática no recall de cadeias de palavras. No início da década de 60, o psicolinguista George Miller publicou um artigo com Noam Chomsky, selando emblematicamente a fascinante cooperação entre as duas áreas1.

A hipótese inicial dos estudos da Linguística Teórica e da Psicolinguística é que os seres humanos são dotados de uma Faculdade da Linguagem - uma capacidade biológica que lhes permite adquirir línguas, de forma natural, bastando para isso a interação entre sua Gramática Universal (estado inicial da Faculdade da Linguagem) e os dados do meio ambiente. E o insight fundamental de George Miller foi crucial para o empreendimento cognitivista que revolucionou a linguística: complexidade estrutural e perceptual não são isomórficas, mas devem correlacionar-se.

Nos últimos 70 anos, muitas pesquisas foram desenvolvidas e atualmente muito já se sabe sobre a organização da gramática na mente dos falantes e sobre o processamento das línguas naturais. Todavia, ao mesmo tempo em que se atesta o aprofundamento de discussões dessa natureza, há pouca utilização das descobertas e dos conhecimentos advindos da Teoria Gerativa e da Psicolinguística em documentos oficiais e curriculares da educação básica e na formação de professores. Há também poucos debates sobre possibilidades de transposições didáticas, necessárias para adequar aspectos de pesquisa básica para o ensino. Mais recentemente, tanto pesquisadores da Psicolinguística, quanto os da Linguística Teórica têm procurado explorar de modo mais efetivo as possibilidades de translação para a educação de suas teorias e técnicas. Por isso, também consideramos esta publicação importante para estreitar o diálogo entre os pesquisadores destas áreas.

Iniciamos este volume da Revista da Abralin com duas entrevistas feitas por nós, editores deste número. A primeira entrevista foi feita com a Professora Doutora Leonor Scliar Cabral, da Universidade Federal de Santa Catarina, e a segunda com Professora Doutora Maria José Foltran, da Universidade Federal do Paraná. As duas professoras nos ofereceram contribuições relevantes para o avanço na compreensão acerca das relações entre educação, linguística teórica e psicolinguística.

Em seguida, apresentamos um squib, especialmente escrito pela Professora Mary Kato (Unicamp) para esta publicação. No squib intitulado “Português Brasileiro: ‘Última flor do Lácio, inculta e bela’”, Kato retoma sua proposta sobre a Gramática do Letrado (2011/2013), em que se postula que a escrita é um processo de aquisição/ aprendizagem que se assemelha à aquisição de uma segunda língua. A autora discute como essa proposta explica o fenômeno de aquisição/ aprendizagem dos clíticos de terceira pessoa, que, segundo ela estão “perdidos na diacronia, mas preservados na norma escrita”.

Dando sequência às publicações deste volume, apresentamos a resenha, elaborada por Marcio Leitão (UFPB/CNPq) e José Ferrari Neto (UFPB), do livro Psicolinguística e Educação (2018).

Na seção de artigos, adotou-se um princípio temático de organização. Os seis primeiros artigos trazem temas relacionados a questões linguísticas e gramaticais na sala de aula e os três últimos discutem processamento psicolinguístico e leitura.

O primeiro artigo é “Linguística Formal como ensino de ciência na escola básica: uma experiência nas aulas de português”, de Edsel Rodrigues Teles (Embrapa, Campinas) e Ruth E. V. Lopes (Unicamp/ CNPq). Nesse artigo, os autores apresentam uma proposta sobre o trabalho com a gramática e o aprendizado do fazer científico. Já no artigo “O verbo e o substantivo em livros didáticos: contribuições da gramática gerativa às aulas de português”, de Aquiles Tescari Neto (IEL- UNICAMP) e Mariana Perigrino (IEL- UNICAMP), os autores avaliam os critérios utilizados para a conceituação das classes de palavras substantivo e verbo em três livros didáticos do Ensino Médio. Há também o artigo “O papel da língua na resolução de enunciados matemáticos”, com autoria de Jessica Barcellos (PUC-Rio), Érica dos Santos Rodrigues (PUC-Rio) e Cilene Rodrigues (PUC-Rio) em que as pesquisadoras investigam a interface entre língua e matemática e analisam se as dificuldades encontradas pelos alunos em situações específicas de divisão podem estar relacionadas à complexidade linguística dos enunciados.

Ainda sob a temática da gramática na sala de aula, com ênfase no ensino de português para estrangeiros, há o artigo, “Ser e Estar em sentenças locativas: observações voltadas à formação de professores de PLE” de Jovania Maria Perin Santos (UFPR) e Maria Cristina Figueiredo Silva (UFPR/CNPq). As autoras discutem a definição tradicional desses verbos, definidos como portadores de características “permanentes” e “não permanentes”, e mostram que são comuns usos que não correspondem a essas classificações, criando “situações que oferecem dificuldades tanto para o ensino quanto para a aprendizagem” do português como língua estrangeira.

No que se refere ao tema da influência do processo de escolarização e aprendizagem da escrita padrão e de novas variedades linguísticas, há mais dois artigos. O primeiro intitulado “Sobre concordância verbal, aprendizagem da escrita e gramáticas múltiplas” de Stefânia Zandomênico (SEEDF) e Eloisa Pilati (UnB/ CNPq), em que as autoras defendem que, no que se refere ao uso da concordância verbal em textos escritos, a hipótese das gramáticas múltiplas é a mais adequada (cf. Roeper,1999). E o segundo intitulado “Sujeito gramatical e objeto direto: gramática da fala versus ‘gramática’ da escrita no português brasileiro”, em que as autoras Telma Magalhães (UFAL) e Claudia Roberta Tavares Silva (UFPE), após analisarem narrações de estudantes do Ensino Fundamental e dados de produção oral espontânea produzidos por uma criança brasileira, monolíngue, defendem a hipótese de que, no se refere aos conhecimentos sobre sujeito e objeto, a hipótese teórica mais adequada é a da Gramática do Letrado, tal como proposto por Kato (1999, 2005).

Apresentando discussões sobre as relações entre a leitura e processamento linguístico, há os artigos “Repensando as habilidades de leitura no ensino superior sob a ótica da psicolinguística experimental” de Joana Angélica de Souza (UFF) e Eduardo Kenedy (UFF/CNPq), que, por meio da técnica de Cloze, avalia as habilidades de leitura dos ingressantes no ensino superior do curso de uma universidade pública federal e estabelece comparações entre o nível de proficiência na leitura de estudantes ingressantes pelo sistema de ações afirmativas com o de ingressantes por ampla concorrência. Em seguida, no artigo “Considerações sobre o ensino de leitura em inglês como L2 a partir de um estudo experimental do reconhecimento visual de palavras”, Ricardo Augusto de Souza (UFMG/CNPq) e Eduardo Moreira Dias (UFMG) apresentam as observações de dois experimentos com tarefas de decisão lexical e discutem a viabilidade do ensino da leitura em língua adicional sem apoio da aprendizagem da oralidade.

Por fim, fechando a publicação, apresentamos o artigo “Neurophysiology of grapheme decoding: the N170 as a predictive and descriptive tool“ de Marije Soto (UERJ), Juliana Novo Gomes (UFRJ), Aniela Improta França (UFRJ) e Aline Gesualdi Manhães (CEFET-Rio). Esse artigo analisa a especialização do processamento visual subjacente ao processamento de grafemas e palavras por meio de um experimento eletrofisiológico realizado em um grupo de alunos do 8º ano de uma escola pública. Destacamos que esse artigo pode ser considerado o primeiro feito no Brasil sobre o processamento de grafemas usando a metodologia de extração de Potenciais Cerebrais Relacionados a Eventos (EEG-ERP), para coletar e analisar o componente N170 (uma assinatura neurofisiológica sensível ao processamento de grafemas e palavras escritas).

Esperamos, com essa publicação, contribuir para promoção e divulgação de pesquisas sobre translações entre teoria linguística, estudos psicolinguísticos e educação básica, fomentar o debate sobre questões teóricas e práticas e promover o diálogo entre universidade e escola. Desejamos a todos uma ótima leitura.

Eloisa Pilati 2 e Marcus Maia 3