Resumo

Este artigo tem por objetivo traçar um panorama cultural da São Paulo na virada do século XIX para o XX, como pano de fundo para as transformações que repercutem nos modos de expressão e pensamento, via registros históricos. São analisados alguns trechos de um Diário de Dom José de Camargo de Barros, décimo-primeiro bispo de São Paulo, paulista. Além do entorno cultural da província de São Paulo, suas viagens em direção aos confins da província, atuais estados do Paraná e Santa Catarina, revelam dados linguísticos e toponímicos que ilustram o homem culto nesse período de transição. Para fins de cotejo, as Cartas de Álvares de Azevedo à sua mãe, escritas na mesma época, também são usadas.

Introdução1 2

Compreender o início do século XX e as formas de interação remanescentes das grandes mudanças sociais ocorridas na cidade de São Paulo pede a reconstituição da história da língua portuguesa da passagem da cidade “sem-graça” para a “cidade atrativa”. O estopim dessa grande mudança está centrado na passagem do XIX para o XX, o que torna imprescindível costurar os fatos sociais relatados e documentados ao longo do primeiro período para, somente então, compreender os contextos e preconceitos herdados – e ainda surpreendidos – no português do século XX. Em outras palavras, consideramos que as mudanças do século XIX cristalizadas no imaginário social do paulistano foram gravadas durante os eventos de mudança de estatuto da cidade de São Paulo principalmente no século XIX. O crescimento acelerado da vila, cuja área urbana não passou de meia dúzia de ruas estreitas, vielas e travessas malcheirosas durante quase três séculos, transforma-a de pequena a cidade grande já do fim do século XIX, gênese da metrópole do século XXI. A antiga Província de São Paulo, contudo, abarcava territórios mais extensos.

Na antiga Capitania de São Paulo3, as freguesias foram sendo erigidas a troco de grande trabalho de bispos e vigários, isso sabemos. O que não se sabe com clareza é em que contexto interativo essas cenas ocorreram de fato. Que língua portuguesa era essa? Que conceitos e preconceitos rondavam as cenas interativas? Ao tomar contato com os diários do bispo Dom José de Camargo Barros, com as cartas de Álvares de Azevedo enviadas a sua mãe ou mesmo com relatos dispersos escritos por viajantes ou por habitantes de então, conseguimos recolher histórias cotidianas ocorridas em espaços pretéritos, ações comuns e incomuns, objetos utilizados e preteridos e espaços frequentados ou rejeitados, os quais ainda hoje guardam resquícios dos rituais, costumes, expressões e, principalmente, conceitos, preconceitos e pensamentos que circulavam à época.

Ações cotidianas, tais como presentear o bispo com animais e alimentos, dar o anel a beijar, ou mesmo segredar sobre comportamentos sociais do outro são ótimos instrumentos para análise. Além disso, é oportuno tratar da configuração e organização do espaço de então, o qual se desenhava como um ambiente multicultural e rico em cenas de usos vernaculares interessantes. Também entender as queixas e lamúrias registradas em termos das dificuldades enfrentadas por desbravadores de um território ainda distante da urbanidade é o que permite lidar com esses manuscritos como fonte de herança cultural. Essas informações nos servirão de mote para tratar da história social e linguística que se consubstanciam como um retrato da história cotidiana herança paulista. Também serão essas as informações relevantes para reconstruirmos o quadro geográfico percorrido tanto pelos desbravadores católicos em busca de inaugurar espaços em que a voz cristã seria a tônica do século que se anunciava quanto pelos visitantes que, previamente ambientados em província mais europeizada, demonstravam estranhar os hábitos e os modos paulistas.

No entanto, adentrar espaços sócio-históricos remotos requer uma dose a mais de cuidados por parte do linguista, pois as dinâmicas sociais instauradas, apesar de se desenvolverem holisticamente, apresentam-se nos documentos somente por fragmentos de cenas. Descrevê-las é uma tarefa que pressupõe banir generalizações, ao mesmo tempo em que se preserva uma dinâmica caleidoscópica. Cada cena surpreendida é capaz de produzir arranjos sociointerativos que permitem reconstituir formatos e coloridos sociais. Nesse sentido, GOODY e WATT (2006[1963]) alertam para o fato de que não será possível ler essa dinâmica sem se considerarem três fatores distintos envolvidos: (a) a planta material, em que se incluem as fontes naturais disponíveis; b) os meios padronizados de atuação (alimentação, cultivo de plantas e formas de educação de crianças); e c) as palavras e o conjunto particular de sentidos e de atitudes, os quais alimentam os símbolos verbais.

Analisando o trabalho do linguista e considerando essa perspectiva, é preciso alertar que somente a descrição linguística não é suficiente para reconstituir espaços e dinâmicas. As evidências, embora recolhidas por meio do registro linguístico, sobrevivem em elementos que compõem o pensamento de uma época, pois, embora as palavras possam ser, em sua maioria, idênticas, o sentido e a orientação que assumem no espaço- tempo diverso é o que compõe a visão de mundo de então.

É certo, igualmente, que muitos dos sentidos, na passagem da oralidade para a escrita, se perdem, pois

o sentido de cada palavra é ratificado em uma sucessão de situações concretas, acompanhadas por inflexões vocais e gestos físicos, os quais se combinam para particularizar sua denotação específica e seus usos conotativos aceitos (GOODY e WATT, 2006[1963]: 14),

mesmo porque camada semântica da língua se faz com a repetição de intercompreensões e de êxitos sociais4. O reconhecimento desses êxitos não é compatível se colocamos em linha grupos letrados e não letrados, porque, se são reconhecidas diferenças gritantes na forma de interação, certamente o distanciamento não permitirá, por uma das partes, a ratificação e equalização de sentidos. No entanto, mesmo a ideia formada pelo grupo letrado sobre o não-letrado será repercutida inevitavelmente nas descendências desses grupos, embora, como defenderam GOODY e WATT (2006:16), a ‘racionalização’ entrará como ruído nessa transmissão:

Em cada geração, portanto, a memória individual será mediada pela herança cultural, de tal maneira que seus novos constituintes se ajustarão aos antigos pelo processo de interpretação que Barle chamou “racionalização” ou “empenho após o sentido”; e quaisquer partes dele que tenham parado de ter relevância nesse momento são provavelmente eliminadas pelo processo de esquecimento.

O período a que este texto remete ainda se constitui como um momento em que papel, lápis, caneta e borracha eram prioridades na atividade de escrita. E se a escrita reestrutura a consciência (ONG, 1998), não é certamente por sua existência em si, mas porque do escrevente é exigido um exercício de antecipação das lacunas de conhecimento de seu leitor e porque do leitor é exigido um exercício de aproximação contextual, em que se aproxima, ao máximo grau de suas capacidades e habilidades, de um momento em que não esteve presente, cercando-se das pistas cifradas5. Isso faz com que, mesmo ao redigir um diário ao qual somente o próprio escrevente supostamente terá acesso, ainda assim precisará se cercar de cuidados, tais como a construção de uma ficção de quem serão seus destinatários (id., p. 119).

Embora já estivéssemos num período em que a escrita guardava sua autonomia em relação ao contexto, diversamente do que se espera para a língua falada, muitos elementos não estão, no entanto, suficientemente claros, pois algumas outras barreiras se interpõem entre o papel e o leitor, dentre as quais o contexto histórico tão diverso. As palavras precisam ser analisadas e os contextos precisam ser lidos e estudados com toda a cautela, porque as palavras podem ecoar sentidos diversos em épocas distintas, e às vezes o sentido ecoado pode não se identificar com outro de momento historicamente diferente.

Começamos, assim, por tratar do contexto histórico para poder ir devagar inserindo o leitor deste texto na ideia encerrada com o emprego de Capitania. Não guardam equivalência com as unidades geográficas brasileiras presentes no século XX, ou seja, aquela geografia introjetada no cotidiano individual desde os momentos de mais tenra escolarização não encontram paralelo sociopolítico no período sob análise.

Por isso mesmo, algumas informações preliminares são necessárias antes de iniciarmos o estudo propriamente dito. Uma delas é que capitania não equivalia ao que hoje é estado, cidade ou bairro. Nem o dicionário de língua portuguesa auxilia muito na compreensão do que significa a Capitania de São Paulo no contexto brasileiro dos séculos XVIII e XIX. HOUAISS e VILLAR (2001:611), por exemplo, definem o termo como “unidade sob o comando de um capitão-mor, resultante da primeira divisão administrativa do Brasil (1532)”, o que denuncia apenas a hierarquia de poderes da colônia. Sucedeu à Capitania a Província de São Paulo, mas tanto sobre um período quanto sobre outro muito pouco oferece de conhecimento sobre a organização dos povos, os costumes e seus hábitos comunicativos de então. Para desvendar essa história cotidiana, recorreremos a materiais escritos em dimensões distintas, tais como os diários de um bispo da Província de São Paulo (e do Paraná).

Uma segunda informação importante é entender a que fins serviam esses diários, pois se tornou lugar comum considerar esses materiais cada vez mais ligados ao gênero feminino e a uma faixa etária de instabilidades, como é o caso da adolescência. É preciso saber que o registro em diário era uma exigência da Igreja para historicizar informações imprescindíveis à administração eficiente dos espaços em que a Igreja ia erigindo suas freguesias. Informações pessoais dos habitantes, dos párocos e também de encaminhamentos eclesiásticos se misturavam sem cerimônia alguma, daí constituírem-se documentos ricos em informações da história cotidiana. Contudo, os diários do bispo não se enquadram somente nesse tipo de registro eclesiástico; incluem-se num gênero comum no século XIX e nos anteriores, o dos diários de viagem. São tipos de crônicas preciosas, que tentam englobar o olhar do outro na análise de fatos, lugares, gente, animal, enfim, todos os componentes da viagem6. Nele registra-se, além do cotidiano de sua vida eclesiástica, também suas impressões dos lugares, das pessoas, seus sentimentos perante as homenagens ou a ausência delas.

De tudo o que presenciamos nas cenas desenhadas nos diários, o que verificamos é a intenção de se incluírem no cotidiano da Província rituais de separação de gêneros, o que permitiria um controle futuro satisfatório da população. A estratégia é relevante para que os que se incluem na freguesia se sintam superiores aos que não aderem à prática. Nesse sentido, fomenta-se a tomada de consciência de posição social para que uma preocupação com estatuto social e adesão a regras seja satisfeita: “assim revelada uma enorme preocupação com a posição social e uma tremenda consciência de todas as regras (e recursos) relativos à manutenção, perda ou ameaça dessa posição” (DAMATTA, 1997: 188), mesmo porque os costumes e hábitos absorvidos por essa classe acolhedora servirão de modelo às demais, convertendo os usos opcionais em obrigações no correr dos tempos7: “Assim as regras de polidez formam um complexo sistema de legislação, difícil de ser dominado perfeitamente, mas do qual é perigoso para qualquer um desviar-se[...]” (Alexis de TOCQUEVILLE, apud DAMATTA, 1997: 188). O poder que a igreja assumiu em toda Portugal vai também se espraiando, segundo os mesmos moldes, pela colônia brasileira8, numa atitude hierarquizante que visa a diferenciar os iguais, mas segundo critérios dos superiores, o que cega e torna a consciência sobre o processo em si pouco inimaginado.

Para nossa sorte, quando a língua muda, ela deixa suas pistas. São mais visíveis. Quando a língua muda, é porque os contextos sociais mudaram também. Esses são menos nítidos. De todo modo, essas pistas são fortuna entre os linguistas, que usam suas técnicas para reconhecer as camadas de sentido. Como arqueólogos, seguem descobrindo fósseis e, com eles, suas funções sociais.

É justamente por reconhecer essa dinâmica que novas leituras precisam ser continuamente recompostas para que a base empírica das interpretações se suceda. LUCCHESI (2002) indica duas frentes de trabalho para isso: (i) lidar com a diversidade linguística registrada, se houver, e se não houver, primariamente registrá-la urgentemente; (ii) vasculhar com empenho e persistência o material de que se dispõe. Concordamos com esse pesquisador em que só por meio de dados históricos teremos as condições fundamentais para a compreensão do atual panorama do país, porque muito pouco do que se aprende sobre esse panorama nas escolas durante o século XX condiz com o que está assentado em documentos históricos, que nunca trazem uma história una, mas, se houver um corpus diversificado, muitas histórias neles suspiram à espera de leituras.

Mesmo a história do português culto ainda continua misturada à história do português normativo imposto nos moldes portugueses. A Academia Brasileira de Letras, criada no século XIX, manteve-se por anos e anos dividida entre considerar o português brasileiro uma língua deturpada e erradia ou reconhecer seu valor como língua nascida dos movimentos socioculturais de um povo brasileiro. Esse movimento foi lento e arrastado, a ponto de, somente na segunda metade do século, universidades públicas verem seus filhos legítimos ocupando as cátedras.

1. Reconstituindo os espaços: da Capitania à Província de São Paulo

A história geográfica de São Paulo justifica a índole resiliente de seu povo. Desde 1554, quando foi fundado o pequeno colégio jesuítico próximo à aldeia de Piratininga (CAMPOS, 2006) – o que gerou o conhecido nome do povoado, da vila, dos campos e da região, São Paulo de Piratininga –, a cidade foi um espaço de conquistas em favor da diversidade. Daquele momento até o que nos restringimos neste texto, o século XIX, esse espírito de resistência em um conjunto diversificado foi se revelando.

Um espaço pouco relevante no que se refere às decisões tomadas até o ano de 1763 pelo governo situado na Bahia, começa, com a chegada da família real (1808), a sentir ares de novidade por perto. A introdução da cultura do café e sua importância para a economia global trazem consequências dramáticas para o ritmo da cidade e para o número de habitantes cada vez mais se avolumando. Nesse período, não era o futebol o grande interesse, mas

o bilhar, praticado em diversos hotéis do Centro, e o jogo de peteca no Largo da Forca. A partir de 1870, também o hipismo tornou-se mais interessante, iniciando-se nessa época a prática de corridas de cavalo, como meio indireto de propagação em São Paulo do gado cavalar de raça. (LUCIANO et alii, 2001: 31).

Com as sequenciadas perdas territoriais pela Capitania de São Paulo muitas outras capitanias foram sendo firmadas9. A parte mais meridional da Capitania de São Paulo foi desmembrada, entre 1738 e 1742, para se criar a Capitania de Santa Catarina, e a Comandância Militar do Rio Grande de São Pedro, que daria origem, posteriormente, à Capitania de São Pedro do Rio Grande. No entanto, parte do atual estado de Santa Catarina continuou pertencendo a São Paulo, até 1820, quando Dom João VI, de Portugal, por alvará de 09.09.1820, transferiu o termo da Vila de Lages, criada em 1766, para a Capitania de Santa Catarina.

Em 1765, o terceiro Morgado de Mateus (Luís António de Sousa Botelho Mourão) recuperou a autonomia de São Paulo e iniciou a criação de vilas. Em 1821, capitanias tornam-se províncias. A província era tão descuidada que, em 1829, somente vinte e quatro lampiões a azeite iluminavam-na. Certamente, a população de vinte mil habitantes não usufruía igualmente desse benefício: a distância demandada entre os lampiões deixava a penumbra tomar conta e o efeito, segundo um habitante,

difundia uma claridade mortiça, que só alumiava um pequeno espaço, projetando longas sombras movediças, quando o vento balançava os lampiões10 [...] As noites eram, pois, trevosas, quando não havia lua, acontecendo algumas vezes pisar-se em sapos, que, ocultos durante o dia nos quintais, de noite vinham para a rua tratar da vida, saindo pelos canos de esgotos das águas pluviais. (KAREPOVS, 2006:13)

Enquanto a Capitania e depois Província de São Paulo passava por esse inacabável “litígio” administrativo, a vila homônima dormitava. Chácaras e fazendas, gêneses de atuais bairros do centro expandido e da atual periferia, eram a maior parte do território. Os caminhos eram precários: várias estradas da época são “bisavós” de grandes artérias atuais, como as avenidas Corifeu de Azevedo Marques, antiga Estrada Real de Itu, a Avenida Diógenes Ribeiro de Lima, ou Estrada da Boiada, e ainda a Estrada de Sapopemba, atual Avenida Sapopemba. Inventários e testamentos do período colonial atestam que a vila era tosca, religiosa e considerada inculta.

Essa situação começa a mudar no século XIX, com o paulatino ultrapassar das barreiras naturais. Os principais rios (Tietê, Anhangabaú, Tamanduateí, Pinheiros) ganham pontes e o melhor acesso facilita a integração entre espaços da cidade. Isso irá transformar a cidade radicalmente até o final do século, com a retificação do rio Tamanduateí, e no início do século XX, com a retificação dos rios Tietê e Pinheiros, aproveitando-se suas áreas de várzea sempre encharcadas para novos empreendimentos, sobretudo imobiliários.

A cidade, contudo, apresentava as mesmas mazelas de outras cidades do século XIX, como a carência de saneamento básico (o que fazia da várzea do Carmo um depósito de dejetos), a deficitária iluminação pública, o comércio ambulante das quitandeiras e verdureiras, muitas dessas mazelas ligadas ao crescimento do espaço de circulação, “modelo de espaço público defendido ideologicamente pelo poder público” (FREHSE, 2005:174). Higiene, seguida de conforto, passa a ser artigo de necessidade.

Costuma-se dizer, no Brasil, que só depois que as necessidades básicas de um povo são curadas é que se começa a pensar em elementos culturais e estéticos. Analisando a preocupação com a reserva cultural em São Paulo, verificamos que, em 1862, já havia instâncias cidadãs impondo suas demandas junto à Assembleia Legislativa Provincial de S. Paulo. No exemplo que segue, Joaquim Augusto Ribeiro de Souza, do Teatro Dramático, solicita subvenção com a seguinte argumentação:

São Paulo, ao passo que cresce em população e comércio, cresce nas dificuldades da vida, e é já quase fabuloso o preço por que se pode obter uma habitação regular, e o necessário para a subsistência. É pois mister que o artista tenha um tal ordenado que faça ao menos face a estas duas indeclináveis necessidades. (apud KAREPOVS, 2006:93)

Ao descrever o Teatro de Ópera ou Casa de Ópera, KAREPOVS (2006) o faz da seguinte maneira:

Situado no Pátio do Colégio, era um sobrado de taipa, pintado de vermelho, com janelas de gelosia, pintados de preto, e uma porta larga ao centro e duas comuns nas laterais. Tinha 28 camarotes e sua plateia possuía bancos de madeira e era frequentado apenas por homens. Sua lotação era de 350 lugares. O repertório do teatro era bastante variado e, segundo relatos de viajantes do início do século XIX, as artistas eram, em boa parte, negros ou mulatos e as atrizes eram ‘mulheres públicas’. (apud KAREPOVS, 2006: 94)

É provável que fosse o único lugar de espetáculos da cidade. O depoimento de SPIX E MARTIUS, naturalistas alemães em passagem por São Paulo em 1817, retrata o seguinte:

Também não faltavam, então, espetáculos dramáticos em São Paulo. Assistimos, no teatro construído em estilo moderno11, à representação da opereta francesa Le Déserteur, traduzida para o português. [...] O conjunto de atores, pretos ou de cor, pertencia à categoria daqueles aos quais Ulpiano ainda dá levis notae maculam. O primeiro ator, um barbeiro, conseguiu comover profundamente o auditório. O fato da música andar também quase caoticamente, perdida de seus elementos primitivos, não era para estranhar, visto como, fora do violão, preferido no acompanhamento das cantigas, quase nenhum outro instrumento musical é tocado assiduamente. (1981: 141)

Nesse mesmo período, mais precisamente entre 1889 e 1892, uma obra de vulto muda a paisagem de São Paulo. Foi construído o Viaduto do Chá, obra que trouxe grande alegria à população, mas esse sentimento durou muito pouco, dando lugar ao descontentamento tão logo se começou a sentir o peso do pedágio de “três vinténs”, cobrado até 1896. A interrupção da cobrança não veio por vontade política de beneficiar o povo, mas, sim, por forte demanda popular formalizada em abaixo-assinado contendo 3.636 assinaturas de paulistanos.

Em 1889, com a proclamação da República, a São Paulo província torna-se estado. O interessante é que a maior parte da população não tinha a menor ideia de que algo ocorrera, pois a distância dos fatos políticos era enorme, sendo os participantes ativos somente os profissionais liberais, os cafeicultores e os militares. Estes últimos comandaram a República, em sua primeira fase12. Este é o contexto sociopolítico em que os documentos por nós estudados se enquadram.

Os diários – é relevante enfatizar – remetem a uma produção realizada por representantes católicos, a qual se encontra sob a guarda da Cúria de São Paulo. Saber sobre o papel eclesiástico naquele contexto é, assim, um imperativo. Torna-se pertinente ressaltar que a Igreja Católica, por experimentar alguns revezes durante o período colonial, logrou afastar-se de um modelo luso-brasileiro para uma proposta mais ligada à Santa Sé de Roma apenas no século XIX. Igreja e Estado eram figura única durante o período colonial e também durante parte do Império, já que a separação viria a ocorrer apenas com a promulgação da primeira constituição brasileira, em 1831. Segundo SOUZA (2004: 405),

[...] inspirava-se no modelo norte americano: república federativa liberal. O texto constitucional consagrou o direito à liberdade, à segurança individual e à propriedade dos brasileiros e estrangeiros residentes no país extinguiu a pena de morte; e estabeleceu a separação entre Estado e Igreja. Com isso, deixou de existir uma religião oficial no Brasil. A República passou a reconhecer apenas o casamento civil e os cemitérios passaram a ser responsabilidade da administração municipal.

A atuação da Igreja, nesse quadro, demandou outras necessidades surgidas do crescimento da cidade:

Os problemas típicos da urbanização acelerada não tardaram a aparecer. Dentre esses problemas destaca-se o dos menores abandonados. Para resolvê-lo, articulou-se um grandioso projeto de formação religiosa e profissional desses jovens desamparados. Saladino de Aguiar, leigo católico da Conferência de São Vidente de Paulo, fundou o primeiro liceu de artes, ofícios e comércio em São Paulo, que mais tarde passou a ser dirigido pelos padres salesianos e se tornou o atual Liceu Coração de Jesus, situado no bairro de Campos Elíseos. (SOUZA, 2004: 406)

Além disso, a própria chegada de estrangeiros como imigrantes causa mudanças dentro do próprio corpo da Igreja Católica, incorporando em São Paulo, exemplificativamente, os “padres seculares italianos”.

Nesse período do fim do século XIX, atuaram, em São Paulo, bispos que antecederam a Dom José de Camargo Barros13: ainda no período imperial, Dom Antônio Joaquim de Melo (primeiro bispo nascido na Província de São Paulo14), que introduziu reformas como a criação do Seminário Episcopal. Foi nesse Seminário que o autor dos diários internou-se para estudos em 1877, sendo ordenado presbítero pelo sucessor de Dom Antônio, Dom Lino Deodato (1873-1894). No início do período republicano, foram bispos em São Paulo Dom Joaquim Arcoverde Albuquerque Cavalcanti (1894-1897) e Dom Antônio Cândido Alvarenga (1899-1903).

As fontes consultadas iluminam tanto a São Paulo cidade quanto província sob a perspectiva pessoal dos dois autores, Dom José, e, apenas comparativamente, Álvares de Azevedo, duas personalidades diametralmente opostas que partilham a erudição e o português culto. A próxima seção destina-se a apresentar as fontes, sobretudo os diários de Dom José – material inédito editado por nós.

1.1 Os documentos: anotações diárias manuscritas e as epístolas de um filho

São dois os livros que integram os diários pessoais do décimo- primeiro bispo da Província de São Paulo15. Os diários editados respondem ao critério de seleção da mudança sociopolítica e econômica que se implantava no Brasil, com reflexo em São Paulo. Totalizam-se vinte e um registros do século XIX e vinte e quatro do século XX. Esse período corresponde a uma época conturbada em que conflitos se instalavam entre federalistas e maragatos. Esses eventos representavam uma ameaça à jovem República e é nesse período que José de Camargo Barros realiza viagens, muitas vezes em lombo de burro, para chegar aos recantos mais afastados de seus domínios episcopais.

Há de se lembrar que, nessa época, a divisão eclesiástica do território havia recentemente sido separada das divisões seculares, com o advento da República. E, assim, a freguesia eclesiástica, a antiga filli eclesia dos portugueses, cujo modelo foi transposto para o Brasil e para outras colônias, passou a ser substituída paulatinamente pela paróquia, e os antigos fregueses se tornaram os paroquianos. Outro dado relevante diz respeito à exclusão social do povo, fazendo com que grandes massas vivessem na pobreza (cf. MORAES, 1998), inclusive suscitando algumas revoltas, como a da classe operária, não somente pelas condições de trabalho, mas também de vida.

Todos os registros dos diários assumem um mesmo formato, iniciados, algumas vezes, pelo local do registro e sempre contendo a datação. Alguns documentos são encabeçados, à margem superior, pela localização geográfica. Como um relato diário, a percepção do bispo é o que prevalece inclusive quanto aos interesses de sua carreira, desde os atos mais simples e cotidianos como celebrações católicas (missas, crismas, encomendações, etc.) até observações mais particulares, como a preocupação dos habitantes em receber tal dignidade, além dos cuidados (adornos e saudações) e ações para que houvesse uma boa recepção ao bispo, bem como avaliações que refletiriam em seu conforto pessoal, por exemplo.

De um modo sucinto, a crônica das viagens do bispo passa a adquirir importância de vulto por alguns motivos. Em primeiro plano, o período em que os relatos se produzem corresponde exatamente aos primórdios da República, quando velhos conceitos vinham pouco a pouco sendo substituídos por novos – o que não significa, de modo algum, o abandono de velhos hábitos culturais e linguísticos do povo. Em segundo plano, a morte trágica do bispo um ano após esses registros, ainda jovem – e, possivelmente, de posse de seus últimos registros – traz aos diários pessoais um interesse todo especial para que se possa reconstituir a História Social de um Brasil transitório, que, apesar de nominalmente republicano e independente, ainda se demorava em práticas tipicamente coloniais e conservadoras.

Ainda há de se adicionar a questão linguística, que poderá ser abordada sob diversos aspectos. Um deles é a análise de antigos topônimos, hoje substituídos por outros, também auxilia nessa reconstrução do passado. Ilustração disso é Desterro16, antiga denominação de Florianópolis17 (Nossa Senhora do Desterro, popularmente denominada pelo seu título ou invocação – a forma espontânea de encurtar um longo nome), presente nos documentos.

O missivista, consultado apenas com fins comparativos, é o já mencionado poeta Manuel Antônio Álvares de Azevedo. Sua visão nos interessou porque mesmo nascido na província de São Paulo seu olhar era peculiar, quase um estrangeiro em casa18. Igualmente letrado mas despido das preocupações eclesiásticas, o jovem estudante fornece um olhar do filho à mãe, que, em termos de gênero, diferencia-se dos diários: tanto a epístola quanto o diário podem assumir tons intimistas, mas em graus distintos.

2. Ações e gestos cotidianos, pistas de uma história social

Assim como o espaço paulista vai sendo fragmentado em benefício de sua administração mais ‘coerente’, separando grupos e instituindo uma nova ordem de conduta social, de fato, o espaço desde então já não era, em centros ‘urbanos’ uma extensão do círculo familiar. Embora a ideia geral é que organizemos grupos para que uma integração e um conhecimento interno seja possível, na verdade, dos grupos dominantes nenhuma de suas intenções se aproxima disso, nem mesmo, como afirmou Buarque de Holanda (1995:141), “uma gradação”, mas, sim, “uma descontinuidade e até uma oposição”.

A explicação é que historicamente são consideradas gradações contínuas rompidas pela instauração de novas ordens, ainda que ingenuamente permaneçam sendo entendidas como continuidades. Nesse sentido, conforme defende Buarque de Holanda, as crises que afetam a estrutura da sociedade compõem o cerne do que é história social. Para esse autor, um estudo das formas sintáticas em documentos históricos traria “revelações preciosas” sobre as condutas que, entre os brasileiros, seriam mais humanizadas e menos ritualizadas (id., p. 149), posição com a qual concordamos.

Exemplos dessas descontinuidades podem ser surpreendidos em diferentes espaços geográficos e também sociais. Situando um desses espaços em 1844, encontramos Álvares de Azevedo já cursando Direito na cidade de São Paulo. O ilustre escritor, então estudante, escreve à sua mãe relatando cenas e fatos daquela que era uma pequena e irrelevante cidade comparada à cidade do Rio de Janeiro, onde morava com a família. Analisemos algumas dessas cenas aos olhos de um indivíduo já habituado com a dinâmica do Rio de Janeiro:

[...] Segunda feira fui a hum baile dado pelo Snr. Souza Queiroz. Todas as sallas estavão com lustre, o ar embalsamado de mil cheiros tanto de flores como de essencias, mas comtudo S.Paulo nunca será como o Rio. Alli estavão o ~q chamão cá moças bonitas. (Carta de Azevedo, 30. agosto.1844)

O estranhamento do paulista, radicado no Rio de Janeiro, também alcançou uma instância de tradição na Corte, a adesão aos eventos religiosos. É sabido que com a constituição de 1824, o catolicismo passa a figurar como religião oficial do Brasil. Uma das consequências disso foi o estabelecimento da prática do Padroado (cf. nota 8), indicação e remuneração dos membros da hierarquia religiosa pelo Estado, com ratificação de Roma.

De outra mão, assume-se que as bulas papais devem ser ratificadas pelo imperador, que, por sua vez, deve determinar ampla divulgação ao país. Como se pode facilmente depreender, Igreja e Estado desenvolvem uma relação integrada em decisões. Alguns conflitos vão decorrer e confundir, tais como os que envolvem instâncias militares19. O povo paulistano, afastado de toda essa tradição, no entanto, não se revelava muito habituado a práticas religiosas:

Hontem vi a procissão de cinza que sahiu da Igreja com 12 andores entre os quaes havião alguns que tinhão 4 ou 5 estatuas a saber S.Francisco ensinando. S.Franco a recebendo as chagas de No Snr. . No Snr. recebendo os raios de N. Snra com Frades ajoelhados embaixo. [...] Admirei-me20 de ver apenas huma ou 2 famílias na Sé, na quarta feira de cinzas O temps ó moeurs! Se fosse pa hum fogo, para huma iluminação, estes hoje apelidados fieis para la irião! (Carta de Azevedo, 05.fevereiro.1845).

Apesar disso, nas cidades mais afastadas, ao sul da Província de São Paulo, como aquelas percorridas pelo então bispo do Paraná (hoje algumas são parte do estado do Paraná e outras de Santa Catarina), as pessoas tentavam demonstrar um apreço e uma reverência, compatível com o que um bispo poderia considerar uma verdadeira reverência a Deus:

Missa às 8 ½; chrismas às 10 e as | 4; assistencia a novenas, na qual pre | gou o Padre Rossi. Quando aqui chegamos | para desembarcar da canoa na praia fomos | carregados. Tenho recebido muitos presen | tes: 4 gallinhas, uma perua, uma bandeja | de doces, um bocão de suspiros. Depois | do jantar, fui à pé até o cemiterio e | passeei um pouco pela praia (Diário, 13.4.1895)21

Aqui fo| mos recebidos por todo o povo, ao som | de uma banda de musica (Imaruhy) e | ao estourar de muitos foguetes. Como as | nossas malas vinham no carro de boi | só podemos fazer a entrada solenne ás 5 | horas da tarde. Tomamos os parametros | na residencia, que é ao lado direito da | egreja e precedido de meninas e | homens de opas, de diversas cores (Diário, 18.4.1895)

Na estação daqui tivemos boa | recepção, pelo Vigario da parochia, Padre Au | ling, que de Tubarão tinha vindo a meu | chamado, 2 bandas de musica e um | povo immenso, foguetes pelas casas par | ticulares e repiques de sino, flores | pelas ruas em frente das casas ala| medas de palmito em frente as resi | dencias, no largo de matriz e illumina | ção a noite. Chegados na residencia | mandei o Padre Alberto agradecer a | recepção e avisar que a entrada se | ria ás 5 ½ da tarde. Com effeito nes | sa hora fizemos. Precedido de perto por | 100 virgens, das 4 irmandades (opa | branca, verde, roxa e vermelha) debaixo | do pallio, carregado por 6 homens de | casaca e luvas brancas, acompanhado | das 2 bandas de musica e de um | povo enorme fomos para egreja | com toda a solennidade. (Diário, 20.04.1895)

Dia da partida para Jagua- | runa. Celebrei às 8 horas e | depois da missa fiz a encom- | mendação solenne das almas. | Sahiu bem solenne; porque foi | muito bem cantada pelos Padres Ber- | nardo e Chiliuki. As 10 | hora almoçamos. As 11 | acompanhado de um povo enor- | me, João Cabral, Juiz de Direito, | Medico; Advogado [as] prin- | cipaes pessoas e autorida- | des, Zeladoras, as moças etc | etc, fomos al pé até um cer- | to ponto. Aqui o João Cabral | me levantou um brinde, dei | a bençam a todo o povo, que | a recebeu de joelhos em | plena rua. Dahi em compa- | nhia do Frei Salano, João Cabral | Dr. João (juiz de Direito) (Diário, 21.6.1902)

Nas cidades, as mesuras e os atos de polidez da metrópole ganhavam ecos desde as formas de tratamento que indicavam cortesia até o modo de retribuição ao gesto de uma visita:

No dia de anno bom fiz uma saúde a minha tia Mariana. (Carta de Azevedo, 05.janeiro.1845) (grifo nosso)

Desejo que Vmcê tenha passado bem assim como todos de casa a qm Vmcê me recommendará. (Carta de Azevedo, 05.fevereiro.1845) (grifo nosso)

Sobre o Capítulo relações minhas em S.Paulo – tenho a dizer-lhe q. o Dr. Pacheco veio visitar-me e q. paguei- lhe a visita – mas não achei-o em casa. (Carta Azevedo, 12.maio.1848) (grifos nossos)

Fazer saúde, recomendar e pagar visitas são expressões em desuso, completamente deslocadas na atual época sem-cerimônia do século XXI, que, em seu primeiro quartel, parece ainda mais distante que os reais cento e setenta e poucos anos. Segundo BLUTEAU E MORAES (1755- 1824), recomendar, em uma de suas acepções mais usadas (“Recommendar alguém a outrem”), significava “inculcar-lho como benemérito, e digno de mercê, pedindo que lha faça” (v. 2, p. 297). Os autores não registram a expressão fazer saúde.

Expressões linguísticas denunciavam a forma como o indivíduo se dirigia a seu superior hierárquico. Na contramão disso, também se podem recolher formas referidas aos subalternos, pelos que se sentiam superiores:

Diga-lhe mais q. tive mto praser em saber do nascimento da minha futura noiva – e q. emqto aos presentes estou esperando o tempo das formigas de asas (içás) porq. na minha terra só ha formigas e . . . . . . caypiras – (Contudo (riscado) Alem das formigas ha um presente ms. q. se pode fazer da Illma. patria dos Tyberiçás, Buenos, e Bobadellas, e é o doce – condicção essencial – sine qua non das formigas (Carta de Azevedo, s.d.) (grifos nossos)

Qdo. eu digo unica casa fallando da do Dr. Claudio não se entende q. eu não tenha pago visita á D. Maria do Rodrigo á D. Anna Vicencia e m.mo às Gomides – A essa ultima casa fiz cruz na porta pois não é das melhores nem ms louvaveis – pelo contrario é bem nodoada a reputação dessasSnras. q. comtudo vão a todos os bailes etc. !! (Carta de Azevedo, 12. maio.1848) (grifo nosso)

Se poder mandar-me algumas luvas do Rio mande porq. aqui as q. vendem são de montar a cavallo – luvas Inglezas – e são todas de M para cima qdo. eu calço F. (Carta de Azevedo, 26.maio.1848) (grifo nosso)

Emqto. as luvas agradeço-lhas muito, porq. as q. aqui ha são de mto ruim pellica – ou antes couro – e q.do se recebe fica-se em duvida se são para os pés ou se para as mãos – e além disso vendem-se pela ninharia de 2$600 rs. – p.a estallarem as costuras logo ao calçar-se apesar de serem tão largas q. se em lugar de ser a minha mão fosse o Pão d’Assucar q. se quizesse acommodar nelas pouco lhe custaria o capricho [...] (Carta de Azevedo, 04.junho.1848) (grifo nosso)

Este mez tem havido pr. aqui – uma sucia de bailes de meia tigela em uma palavra de S.Paulo. – Houve um (o 1º ) Philharmonico – o q. a fallar a verdade não é baile – o outro (2) da Assembléa Paulistana – ao qual não fui pr. q. Tio João esqueceu-se de mandar-me o convite – outro (3) o da Concordia no qual estive, (assim como na Philharmonica) – O elogio desse baile se pode resumir em bem poucas palavras – ainda se dança com cartas – (Carta de Azevedo, 26. maio.1848) (grifos nossos)

É singular que n’uma terra onde o céo é tão bonito as cazas sejão tão pardacentas e as mulheres tão......... (sic) (Carta de Azevedo, 17.abril.1851)

As indicações e associações espontâneas por afinidades e interesses específicos conduziam a vida dos indivíduos, mesmo em situações hoje consideradas inusitadas, como é o caso do casamento:

Desejo q. gose saude assim como todos lá de casa – Como vai a Marianinha com sua dor de olhos? – Como vai a minha Sinhá Maria Francisca? Como está o Nhonhô com seus olhos azues, e seus cabellos louros? Como vai a Carlotinha? A proposito de sogro – como vai a minha noiva? Noiva? dentro de desaseis annos Ora, Mamãe, Vmcê hade concordar q. isto é esperar mto (Carta de Azevedo, 05.maio.1848) (grifo nosso)

Se nas vilas cada evento realizado pela Igreja assumia um estatuto de potencial lazer familiar capitaneado pelas esposas e mães, nos espaços urbanos sinalizava-se maior segregação entre gêneros, pois os homens desfrutavam de um maior leque de opções. Um exemplo disso era a interdição feminina ao teatro. À exceção do teatro, pouco havia o que se fazer em São Paulo. Dentro da cidade, Spix e Martius (1981: 141) apontam o jogo e as danças como comuns: “Mais raro que nas demais capitanias, o jogo de cartas é aqui o animador do entretenimento, sendo, porém, um tanto mais alta a conversa, alternada com danças e cantigas.”.

Sendo a cidade pequena, os arredores já eram considerados zona rural: “São belos os arredores de São Paulo; entretanto, de aspecto mais campestre que os do Rio de Janeiro. [. ] outeiros e vales, matos ralos e suaves prados verdejantes, oferecem todos os encantos da amável natureza.” (SPIX E MARTIUS, 1981: 144). Assim, parece natural que uma das atividades realizadas por homens fosse a caça na região de Carapicuíba22 e em outras áreas rurais da cidade, onde a flora e a fauna eram riquíssimas:

Tio José partiu hontem para Carapicuiba a caçar veados – e eu p.a lá vou amanhã levar o Nhôsinnho (Alfredo) q. Tio José mandou me pedir q. levasse comigo no cavallo em q. vou. (Carta de Azevedo, 11. junho.1848) (grifos nossos)

Adeus e viva q. não ha mais nada digno de contar-se senão q. a Cidade ainda não deixou de ser S.Paulo – o q. quer dizer m.ta cousa – entre as quaes tedio e aborrecim.to (Carta de Azevedo, 11.junho.1848) (grifo nosso)

Estivemos na caçada 2 dias – Isto é – ella durou 3 mas eu só lá estive dous – N’um dia matárão-se 4 veados e 1 no ultimo dia. Além disso matou-se uma paca, uma perdiz, uma juriti e um nhambú quasi da porta. |O que eu senti forão os carrapatos q. deixaram-me inchados os lugares onde me morderão q. ainda me dóem. (Carta de Azevedo, 19.junho.1848) (grifo nosso)

Os bailes e festas continuavam sendo a melhor forma de apresentar moças e moços23. Em São Paulo, os bailes iam até meia noite e os pares eram escolhidos com todo o critério, e o rodízio de damas era comum entre os rapazes para que as oportunidades pudessem ser tecidas.

Vejamos os relatos de Álvares de Azevedo:

Emqto. no Rio reluzem esses bailes á mil e uma noutes, com toda a sua magia de fulgências e luzes, por aqui arrasta-se o narcótico e cinico baile da Concordia Paulistana – Nunca vi lugar tão insipido, como hoje está S.Paulo – Nunca vi cousa mais tediosa e mais inspiradora de spleen – Se fosse eu só o que o pensasse, dir-se-hia q. seria molestia – mas todos pensão assim – A vida aqui é um bocejar infindo| Nem ha passeios q. entretenhão, nem bailes, nem sociedades – parece isto uma cidade de mortos – não ha nem uma cara bonita em janella, só rugosas caretas desdentadas – e o silencio das ruas só é quebrado pelo ruido das bestas sapateando no ladrilho das ruas. (Carta de Azevedo, 12.junho.1849) (grifos nossos)

Essa impressão de Álvares de Azevedo justifica-se pela forma alienada com que as paulistanas acabavam sendo criadas. O ingresso à escola não admitia a presença feminina, apesar de, em 1847, a Assembleia Legislativa Provincial (Lei n.5, de 16.02.1847) já ter aprovado a criação da Escola Normal para a formação primária do sexo feminino24.

O clima, apesar de ser considerado ameno na opinião de SPIX E MARTIUS (1981: 145), poderia ser responsável tanto por doenças quanto mortes. Apesar de estar na zona temperada, a São Paulo do início do século XIX era fria, entre 15º e 23ºC. Tanto doenças quanto mortes justificavam-se também pela falta de um atendimento médico razoável à população, mesmo a mais abastada. O jovem Álvares de Azevedo depõe sobre algumas cenas da gélida cidade, comentando doenças e mortes decorrentes da baixa temperatura:

Além disto, voltamos de noute, e chegamos gelados do frio – A geada foi tão forte nessa noute – a mais fria que tem havido este anno – q. aqui no quintal achou- se uma pedra de gelo do tamanho de uma mão – Um negro (d’um fulano Cantinho) q adormeceu bebado na varzea do Carmo, amanheceu morto (Carta de Azevedo, 19.junho.1848)

Apesar de não ser doentio S.Paulo ha por aqui bastantes doentes – Em casa do Claudio somente ha 5 pessoas de cama – e alem disso a Olympia q. é talvez a mais doente – porq. é a q. hade morrer qdo. menos se pensar. É raro o dia q. aqui não ha enterro – Hontem houverão 3 (Carta de Azevedo, 26.julho.1849)

Notemos que os rituais fúnebres, tão comuns até a primeira metade do século XX, nesse período distinguiam classes sociais. Percebamos o caso relatado por Azevedo, em que a filha de um conde tem seu féretro acompanhado com toda a “pompa e circunstância”, arrastando uma multidão pelas ruas de São Paulo, como era hábito – a morte, também ela, era lazer:

Morreu a linda criancinha de um ataque de convulsões na madrugada da 2ª. feira, e nessa noite enterrou-se, com a maior pompa possivel em S.Paulo. |Era de ver como estava bonito o anginho com sua coroa de flores na testa branca como jaspe, com suas mãosinhas postas no peito apertando friaszinhas uma plama de frocos verdes, alvas como as roupas candidas bordadas de oiro, vião-se as dobras da capaca de velludo azul bordada tambem a fio de oiro. A criança era o retrato mais perfeito possivel da mãi – é aquella testa erguida, aquelle nariz arrebitado um pouco etc. O conde está inconsolável, segundo dizem. Apesar da chuva, houve mta gente. |Para torna-lo mais solemne, fizerão ir ter o enterro do Acú ao Carmo – isto é de um dos extremos da cidade ao outro Houverão bandas de musica etc. |(Carta de Azevedo, 19.julho.1849) (grifo nosso)

Quando lemos hoje as impressões de visitantes da época sobre comportamentos cidadãos, como os de moças ‘casadoiras’, verificamos que um dos fatos que muito incômodo traz aos vindos da Corte era a presença de uma língua vernácula paulistana nas rodas de elite. Assim avalia Álvares de Azevedo:

A terra de S.Paulo tirando-se 4 ou 5 fam.as pode chover- lhes o diluvio de grandissima injustiça – só com essas fam. as danço eu – Pela morte da D. Joanna – a saber, do Claudio, as Xavieis e as Milliets não irão a bailes tão cedo – e ir a bailes p. a dançar com essas bestas minhas patricias q. só abrem a bocca p. a dizer asneiras acho q. é tolice – Não julgue Vmcê q. fallo com exageração – a moça senão a mais bonita, a estatua mais perfeita em tudo uma Belisaria (Mineria) é uma estupida q. diz – Nós não sabe dança poquê, etc. e comtudo é uma belleza mas é uma estátua estúpida e sem vida – como diz o soneto do Octaviano. Por isso resolvi-me a não ir ao baile – mas comtudo m.to agradeço as luvas porq. se p.a esse não servirão pr. a outra vez servirão. (Carta de Azevedo, 4.agosto.1848) (grifo nosso)

Se antes desse período a Igreja geria os contratos nupciais, com a proclamação da República, Estado e Igreja dissociam-se legalmente e surge o casamento civil. Em consequência disso, a Assembleia Provincial e a Câmara Municipal foram desativadas. No lugar desta última, surge, em 15 de janeiro de 1890, o Conselho de Intendência Municipal, com muitas responsabilidades, dentre as quais administrar os registros do casamento civil, uma novidade vista com certo receio pela sociedade paulistana:

Por aqui nada de novo, excepto o proximo casamento de tio João. Tenho medo da boneca, senão ahi lhe diria q. casa com a filha de um Major Joaquim Antonio – a moça, p.a meu gosto, senão a mais bonita – das mais bonitas ao menos de Santos – É de feição do genero da Chiquinha Xavier – Mais alta que baixa, cabellos e olhos negros, morena – Tudo isso dourado com os reflexos de um dote de 50 contos para cima – Digo reflexos porque o pai da moça é um grandissimo ginja, um tipo de Dr. Sovina, que nem deu dote à 1ª que casou – Com esta veremos. (Carta de Azevedo, 06.outubro.1849) (grifos nossos)

Como depreendemos do excerto anterior, agrega-se às novas práticas o antigo costume25. A partir de então, a novel forma de casamento (civil) passa a coexistir com o ritual religioso e com a prática de dotes. A tradição paulista torna-se mais complexa, portanto.

2.1 Os costumes e hábitos locais

Por meio da análise dos diários, tomamos contato com registros que podem enaltecer o comportamento dos habitantes locais, mas também podemos nos surpreender com a repulsa a outras práticas que se distanciam do que era considerado modelar entre as pessoas vindas de ‘metrópoles’. Surpreendente é reconhecer, pelas escritas do próprio bispo, tanto sua percepção sobre algumas ações quanto suas intenções ao adotar medidas de repúdio. Estamos, por assim dizer, conhecendo por dentro os mecanismos sociopragmáticos de condutas que devem guiar as práticas cotidianas entre os povos visitados.

Uma delas é evidenciada pela deferência devida a personalidades da Igreja naquele momento do século XIX:

Montamos a cavallo; o meu | tinha cabeçada e | peitoral, redeas, laso e | estribos prateados. Aqui | chegamos às 4 horas. Apeamos | na estrada de villa junto a pauta | do rio Sangão. De outro lado da | ponte nos esperavam um grupo | de meninas e moças vestidas | de branco, muitos homens e | senhoras. Viemos a pé até | a residencia, que é na casa | da familia do Senhor Julio de | Souza Avila. Em nossa pas- | sagem, de diversas casas ||[fl.2v.] Jaguaruna|particulares soltaram muitos | foguetes e foguetões. As | ruas todas e a praça da | egreja estão magnífica- | mente ornados com densas | alamedas de palmeiras, | muitos, bellos e enfeitados | arcos, diversas (as mui | tas inscripções, uma em la- | tim) com saudações a mi- | nha pessoa, bandeirinhas | em numero crescidissimo | acompanhando e cubrindo| as ruas. Lá na chegada | as meninas me jogaram | flores e o Padre Pizzio fez | uma curta saudação. | Em frente a casa do Senhor | Joaquim Coelho, no topo de | duas colunnas estavam | coloccadas duas meninas | ricamente vestidas, que|| [fl.3r.] Jaguaruna|me jogaram flores. Á noite | a illuminação da egreja e | das casas particulares foi | geral e bonita. A egreja | tambem está bem enfeita | da tem um bom salio, com | 2 degraus, cadeira de braço | espaldar e docel. (Diários, 21.6.1902)

As formas de saudação e de demonstração de apreço do povo com a chegada do bispo são circunstanciadas desde os espaços da vila até o interior da igreja. A presença destacada de meninas e moças vestidas de branco, do cavalo ajaezado que destoa dos demais, por um lado, e as flores, os arcos e os foguetes, por outro, indiciam um momento de exceção na rotina da vila (inclusive com um arco inscrito em latim) e, ao mesmo tempo, regozijo em nome da Igreja, usufruído pelo Bispo. Outros trechos passam ao leitor imagens de uma ritualística festiva católica, mesclando o que GUENTER SUESS (apud CARVALHINHOS, 2005: 85) rotula de Catolicismo Popular Ritual e Catolicismo Popular Festivo26:

Neste chrisma, descobrimos 3 ou | 4 pessoas que iam se chrismar | sem confessar, pelo que passei | uns pitos enérgicos. (Diário, 13.4.1895)

Como até aqui se | tem desprezado um pouco os | meus avisos a respeito da con | fissão para o chrisma, aqui co- | meçamos a dar os bilhetes da | confissão e a fazer o chrisma | de portas fechadas, e o facto é que | tem ocorrido magnificantemente bem. (Diário,16.04.1895)

Alguns comportamentos e atitudes dos populares eram fortemente reprimidos pela Igreja. Um deles equivale a suprimir passos do ritual de crismas. Com o fim de coibir essas práticas, bilhetes de confissão eram distribuídos. Ao mesmo tempo, essa prática coercitiva visava a doutrinação de seus fieis.

É possível reconstruir alguns rituais católicos por meio da leitura de alguns excertos. Nos que seguem, reconhecemos um costume aparentemente em desuso (o beijar o anel ao bispo), com o qual convivem outros sacramentos e rituais, tais como crisma, missas, ladainhas e encomendação de almas:

Em Garopaba, ce-| lebrei às 4 horas, depois da missa, | chrismei ainda algumas pessoas | e dei o anel a beijar àquelles que | entravam na egreja. (Diário, 15.4.1895)

Fizemos a entrada solene às 6 ½ | horas da tarde, debaixo do pa | lio, com os paramentos pontifi | caes e com todas as cerimonias | do costume. Alem de 9 irmãos | do Santíssimo que nos precediam nin | guem absolutamente nos acom | panhava. Quando entramos na | egreja, não havia uma só pessoa | Cantamos Ave Maria Ladainha, no fim | da qual fiz uma prática do altar | mesmo. (Diário, 15.4.1895)

No Merim hoje celebrei as 4 horas da ma | nhã. Acabei a missa fiz a encomendação | das almas, como de costume e no fim | desta chrismei ainda muitas pessoas e | depois fiz a pratica de despedida e dei o | annel a beijar a umas 600 e tantas pessoas (Diário, 18.4.1895)

Em outro nicho social, o progresso já se evidenciava desde 1872, quando a Companhia Carris de Ferro pôde inaugurar o sistema de transporte coletivo inédito, qual seja, veículos puxados por animais, os quais rodavam em trilhos (daí o nome bonde). Isso contrastava com o que ocorria nas cidades menores e nas pequenas vilas, onde os trajetos percorridos pelo bispo tinham no cavalo a melhor opção. Trajetos mais longos eram realizados por trem ou mesmo, de acordo com a topografia, por barco ou canoa.

Sahimos de Ga- | ropaba, a cavallo, ao meio dia, a- | companhado de uns 40 cavalleiros, | entre os quais o Vigario Padre Faraco, | o dr. Thiago, o David do Amaral | o Cascaes etc. nos acompa- | nharam até a Santa Cruz que | tem aquem da divisa (benta pelo | Vigário de Garopaba) pertende ao | Merim. Um pouco para cá en- | contramos os cavallos que | daqui nos enviaram. Muda- | mos de animaes. Aqui chega- | mos sem ser esperados, as 3 ½ | [espaço] da tarde . (Diário, 15.4.1895) Padre Rossi e o Francisco vieram | de canoa e carro de boia. Aqui fo| mos recebidos por todo o povo, ao som | de uma banda de musica (Imaruhy) e | ao estourar de muitos foguetes. (Diário, 18.4.1895) Ás 11 ½ partimos para o embarque na | estrada de ferro, sendo acompanhado | por quase todo o povo. Como a ma- | china trazia lá um ferro quebrado, | tivemos de voltar a Imbituba e | assim tivemos a opportunidade | de vêr esta estação o porto, e a | officina. (Diário, 20.04.1895)

Aqui tomei | um cavallo ao meio dia e | segui para o porto da Ilhota, | acompanhado dos meus com | panheiros, dos Padres Bernardo | Frederico, Chiliuski e de | perto de 50 cavalleiros. Às | 12 e 40 chegamos ao porto | da Ilhota. Aqui com uma | boa canoa nos esperava | Padre Miguel Pizzio e os | cidadãos Luiz Francisco Pere- | reira, Luiz Nicolau e João Schmidt. | Embarcamos e às 3 horas, | com feliz viagem estivemos| do outros lado da lagoa Jagua- | runa. Descendo o braço des- | ta lagoa, vimos 3 bonitas ||[fl.2r.] Jaguaruna | garças brancas e um sabiá | do pantano; é preta com o pesço- | co e cabeça vermelhos.(Diário, 22.7.1895)

Além do relato filtrado pela visão de um homem da religião cuja realidade era o meio sociocultural de fins do século XIX, esses diários revelam ao leitor o íntimo de um homem cujas palavras denotam preocupação (pelo menos aparentemente) com seu papel social e com que seus sentimentos prejudiquem sua posição ou seus propósitos:

Hoje extranhei | que ninguem, absolutamente ninguem me | tivesse vindo visitar-me, Por que || [fl.7v.] Laguna| será? Ó doce Coração de Jesus, | não permittaes que a autorida | de episcopal, de que me acho in | dignissimamente revestido seja | menosprezada por causa dos meus | pecados e de minha ignoran | cia. Não, não. Antes morrer do que | concorrer para que vosso [nome] santo | seja vilipendiado por causa dos | meus defeitos. | Hontem [duas] horas antes de | nós aqui chegou o vapor Lagu | na, que faz a viagem até o Des | terro, tres vezes por mez (Diário, 21.04.1895)

Missa 8½; antes da missa, confessei | 4 moças Às 11 e 5 horas chrismei. | Ás 2 horas, recebi visitas do Juiz | de Direito, dr. Pedro Celestino, do Con | selho municipal e do Commercio| representado por 9 individuos, | em nome dos quaes fallou o phar- | maceutico Miguel. Ladislau Aranha | Dantas (bahiano). Tenho extranhado | muito o retrahimento do povo desta (Diário, 22.7.1895)

A uma legua | de distancia, fomos encon- | trado pelo vigario Ludovico | Coccolo e padre João Cananico e uns 12 cavalleiros | e depois mais seis. | Chegamos ás 4 ¾ da tarde | Tomamos café e de murça27 | fomos a egreja. Depois de | 3 Pai Nosso cantados pelos fieis | fiz uma pratica e somente (Diário, 25.6.1902)

[...] um pouco contrariado, montei | no cavallo do Vigario, fiz o frei | Florianoe o Padre Cananico mon- | tarem e parti sem acompa- | nhamento. Apezar disto den- | tro em breve me alcançaram | perto de 40 cavalleiros, que | vieram até a casa do Brigido | Joaquim de Almeida, (um pardo- | negociante rico) que nos | deu hospitalidade. (Diário, 21.6.1902)

3. Pistas sociolinguísticas

3.1 As formas de tratamento e a polidez

Em geral, prenomes e apelidos de família podem oferecer vários indícios como origem, classe socioeconômica ou mesmo outras influências, sobretudo se considerados aspectos que impactam na escolha de um nome. O título que precede um nome pode expressar distância ou respeito, além de particularização.

No caso dos diários, os antropônimos vão dando o tom ao leitor ao revelarem a forte presença alemã, e mais ainda italiana, nas regiões visitadas pelo bispo. São diversos os modos de referir-se aos cidadãos que vão aparecendo nos relatos, sejam citados pelo prenome, pelo nome completo: Senhor Julio de Souza Avila e Senhor Joaquim Coelho, ou no trecho “os | cidadãos Luiz Francisco Pere- | reira, Luiz Nicolau e João Schmidt.” (Diário, 22.7.1895) ou mesmo por comentários que individualizam a pessoa citada, sempre indicando a visão de mundo do autor dos diários. O prenome indica mais proximidade do autor: “Em | casa do Clemente tivemos bom tes- | tamento, mas por falta de colchões | na localidade o Elisiario dormiu | numa cama de vento28 e o Fran- | cisco no assoalho.” (Diário, 16.4.1895)

Parece também indicar proximidade o que consideramos alcunha, Cascaes: “o Cascaes etc. nos acompa- | nharam até a Santa Cruz que | tem aquem da divisa (benta pelo | Vigário de Garopaba) pertende ao | Merim”. Cascaes poderia ser uma identificação pelo apelido familiar, mas o autor usa sistematicamente o modelo prenome seguido de apelido em todas as demais ocorrências. Às vezes, acompanha o nome um comentário: “vieram até a casa do Brigido | Joaquim de Almeida, (um pardo- | negociante rico)”, ou: “estamos no Me | rim, hospedados em casa do Senhor | Merim | Clemente Pacheco da Silva, primeiro comerciante | do lugar [...]”. (Diário, 15.4.1895)

Os títulos são importantes para o autor. Alguns indivíduos são particularizados por sua profissão: “do Juiz | de Direito, dr. Pedro Celestino”, “o phar- | maceutico Miguel. Ladislau Aranha | Dantas (bahiano)”. Também particularizado pela profissão, não há deferência nesta identificação: “o Comissario | de Policia, um tal Gabriel.”

Muitos títulos são eclesiásticos. O autor parece reconhecer seus colegas de batina pela hierarquia: Padre Alberto, Padre Auling, Padre Topp, Vigário Padre Faraco, vigário Ludovico Coccolo, padre João Cananico, frei Salano, Padre Miguel Pizzio. Quando não, apenas o cargo identifica o indivíduo, como em que cita o “Vigário de Garopaba”.

3.2 Os topônimos nos diários

Um topônimo tem por função precípua a identificação. Marca, contudo, elementos linguísticos característicos de determinado período, bem como elementos arcaizantes, processos de gramaticalização, realizações fonológicas antigas, traços sintáticos, etc.

Quanto mais antigo o nome de lugar, maior é a possibilidade de se encontrar elementos fossilizados, ou seja, preservados na estrutura do nome. A escolha também revela a cosmovisão do denominador, seus valores, crenças e interesses individuais ou em grupo. No Brasil, contudo, o tempo ainda não exerceu grandes transformações linguísticas em topônimos de filiação portuguesa, salvo por alterações ortográficas. Em termos de identificação, usam-se na comunicação tanto topônimos oficiais ou reconhecidos pelos poderes públicos como elementos com valor locativo, que exercem a função de topônimo no ato de fala e identificam um lugar.

O roteiro da viagem de D. José em fins de século XIX e depois em início do século XX mostra, pelos topônimos citados, um Brasil em período de transição política, do regime imperial para o republicano. A cada página, o local onde escreve aparece em destaque, no cabeçalho:

Figure 1.

FIGURA 1: Excerto de página do Diário (livro 2), “Laguna”, registro entre 1895 e 1897.

Também a transição entre partida de um lugar e chegada a outro no mesmo dia fica registrada com a presença de dois topônimos no cabeçalho, como em 20.4.1885, cujo cabeçalho mostra a estrutura Villa Nova Laguna, ponto de partida e de chegada no dia registrado.

O primeiro espaço retratado em diário, do final do século XIX, está próximo à atual cidade paranaense de Paranaguá, conduzindo o leitor por um percurso que passa por Garopaba, Merim, Villa Nova (e a lagoa de Villa Nova), Laguna, Imbituba, Desterro. Além disso, é citada a Lagoa de Imaruhy (hoje Imaruí).

O outro diário, já em 1902, destaca uma porção mais ao sul do território: Tubarão, Jaguaruna, porto da Ilhota, Rio Sangão, Urussunga velha, Araranguá (rio e villa), Cresciúma (antiga grafia de Crisciúma), Nova Veneza, Bellino e Urussunga, além de Florianopolis.

A descrição dos percursos acusa o uso dos topônimos oficiais, necessários à comunicação tanto em um registro mais formal quanto informal – independente, portanto, de outras variáveis como classe social ou gênero. O que se pode destacar, de modo bem geral, é a provável espontaneidade de nomeação como em Merim, provável aproveitamento do Rio Sahy Merim, em oposição ao Rio Sahy Guassu. A vila ou o povoado de Merim não mais existe, pois provavelmente foi incorporada a Garopaba ou mesmo a Laguna. A forma homônima aparece registrada, bem como outros nomes, em mapa de 1863:

Figure 2.

FIGURA 2: Excerto do Mappa da Provincia de Santa Catharina do Imperio do Brazil (1863) 29

Por outro lado, o lapso curto de tempo entre os dois registros, um a fins do século XIX e outro em princípios do século XX, é o suficiente para apresentar a mudança que se impõe na passagem do regime político, ilustrada em Santa Catarina mas presente em São Paulo e em todo o Brasil: a substituição de nomes de lugares. Assim, a antiga Desterro aparece cambiada em Florianopolis:

Hontem [duas] horas antes de | nós aqui chegou o vapor Lagu | na, que faz a viagem até o Des | terro, tres vezes por mez (6=11 e 21) (Diário, 21.7.1895)

[...] À noite bella, geral|e profusa illuminação da|egreja, praça, rua, e casas|particulares, como no pri-|meiro dia. Passei um tele-|gramma as Consul italiano,|Florianopolis, agradecendo | saudações pela chegada em | Urussanga [...] (Diário, 14.7.1902)

Os topônimos e todos os locativos são elementos democráticos, pois por fazerem parte de um importante esquema conceitual e cognitivo interno de cada indivíduo costumam ser únicos entre uma comunidade, seja ela grande ou pequena, relativizando e equalizando diferenças que podem ser percebidas em outros tipos de manifestações linguísticas. O uso toponímico, aqui presente em registro escrito por indivíduo letrado, não seria diferente entre pessoas do povo ou mesmo analfabetas.

3.3 Quantificadores

Uma variedade de expressões codificadoras de quantidades imprecisas ou indefinidas é empregada pelos padres.

Tenho recebido muitos presen | tes: 4 gallinhas, uma perua, uma bandeja | de doces, um bocão de suspiros. Depois | do jantar, fui à pé até o cemiterio e | passeei um pouco pela praia (Diário, 13.4.1895)

Missa às 8 ½ - chrismas às 10 e as 5, | em seguida visita da egreja e | assistência a novena, na qual | prégou o Padre Alberto. Acabada a | reza, nos tres (eu em casa e os | dois na egreja) confessamos até | 11 horas da noite. Hoje chegou | muito povo. A egreja completa | mente cheia e muita gente fora. | Tempo explendido claro e fresco. (Diário, 16.4.1895)

Não fui assistir | por estar um pouco cansado. O Merim está a mar | gem da Lagoa, Villa Nova está a margem do mar | grosso. Estamos hospedados na residencia pa | rochial que aqui chamam ((casa do passal)) (Diário, 18.04.1895)

Na Villa-Nova, celebrei às 4 horas e em | seguida fiz a encomendação das al- | mas que commoveu algum tanto o povo. (Diário, 20.04.1895)

A esta hora, cada um no seu quarto. Ho- | je foi para nós um dia deserto. Celebrei ás | 8 ½; havia na egreja muito pouca gente.(Diário, 21.4.1895)

3.4 Nomes comuns

Ao longo dos diários, nomes comuns chamam a atenção pelo arcaísmo ou desuso com relação aos usos atuais, como é o caso dos elementos canastra e cama de vento. Também um elemento natural se destaca, palmito, que assume a acepção de palma ou palmeira30, e não a de miolo comestível. Por outro lado, termos ligados à prática e ao dia a dia do religioso também aparecem, como opas, genuflexorio e pallio. Também chama a atenção o termo esmolas, substituído, nos dias atuais, por donativo, doação, contribuição e, em alguns núcleos religiosos, dízimo.

As canastras vieram | em carro de boi que só chegou | as 4 horas da noite. Soltaram al | guns foguetes na hora da chega | da, na entrada e no fim da reza. (Diário, 15.4.1895)

É preciso não | esquecer do casamento, em que | quiz metterme o Comissario | de Policia, um tal Gabriel. Em | casa do Clemente tivemos bom tes- | tamento, mas por falta de colchões | na localidade o Elisiario dormiu | numa cama de vento e o Fran- | cisco no assoalho. (Diário, 16.4.1895)

Tomamos os parametros | na residencia, que é ao lado direito da | egreja e precedido de meninas e | homens de opas, de diversas cores (Diário, 18.4.1895)

A egreja | tambem está bem enfeita | da tem um bom salio, com | 2 degraus, cadeira de braço | espaldar e docel. Ha um | genuflexorio faguerio, | mas muito bem enfeitado. | Como a bagagem chegou ás | 6 horas da tarde, somente | á noite, podemos fazer a | entrada solemne. Tinha muito | povo. Observamos todas as | cerimonias da entrada solem | ne e no fim eu mesmo fiz | pratica de abertura. Volta | mos para a casa processual | mente (como fomos) debaixo | do pallio e precedido da | Irmandade de Nossa Senhora das Dores. (Diário, 21.6.1895)

Celebrei ás 8 ½, assisti a pra -| tica feita pelo frei Salano e | em seguida celebrou o Padre Mi- | guel Pizzio. Durante a mis- | sa delle, eu mesmo expli- | quei a missa. Ás 2 horas | chrismei 35 pessoas, esmolas | 35000. (Diário, 22.6.1902)

Como preparos, aqui há apenas | palmitos, plantados na frente da | egreja e na minha residência. (Diário, 15.4.1895)

Destaca-se, também, a forma egreja (mais próxima ao ecclesia latino), presente ao longo de todo o texto. Há nomes próprios aplicados a edifícios (Capella do Senhor Bom Jesus de Colunna), e ainda a um barco, em: “[... ] aqui chegou o vapor Lagu | na [...]”.

Pode-se dizer, à guisa de conclusão, que a seleção lexical dos nomes, comuns ou próprios, é tributo e patrimônio da época de sua enunciação.

Alguns nomes aqui abordados não mais são usados, evidenciando que são elementos de relevo na contextualização de uma época.

Considerações finais

As mudanças nos usos – costuma-se afirmar – são sempre muito tênues e imperceptíveis, mas, para reconhecê-las em sua dinamicidade de uso, nada melhor do que ter acesso aos registros históricos que guardam alguma distância dos tempos atuais. Neste texto, recorremos a cartas e diários manuscritos do século XIX cujo teor permite distinguir duas realidades de um mesmo espaço sociocultural.

No caso dos diários, esta realidade é ecoada nas brechas que não somente guardam a distância de um religioso que registra fatos cotidianos de sua prática religiosa, bem como o olhar estrangeiro de alguém alçado à elite por sua situação eclesiástica, que ora se maravilha e ora percebe atitude inusitadas para a realidade que ele projeta.

Já nas Cartas de Álvares de Azevedo à sua mãe, identificamos um jovem que sente estrangeiro em sua própria terra, estranhando costumes e hábitos provavelmente ultrapassados para a realidade da avançada Rio de Janeiro. A riqueza que se extrai desses documentos permite ratificar a tese de que a história de São Paulo não é uma só, homogênea e contínua nos espaços, embora sejam histórias concomitantes não são coincidentes, são realidades paralelas que compõem uma parte da história de São Paulo, um espaço descontínuo. Pretendíamos – e conseguimos –, na verdade, apresentar a relevância do contexto para a produção de enunciados. E o contexto não pode ser reconstruído senão pela linguagem, ou seja, refazendo um percurso de ideias que já foram submetidas a um filtro da escrita e das limitações de toda a informalidade.

Além da peculiar condição do autor dos diários, eclesiástico, com formação acadêmica superior a muitos de seus coetâneos, todo o contexto ao redor contribui para suas emissões: o político, em transição republicana; o geográfico, que o situa em regiões menos urbanizadas com as quais se habituara; o econômico, que fica evidente na relevância que o autor dos diários dá a profissionais que o recebem com pompa em suas viagens, entre outros.

Resta dessa incursão a ideia de que São Paulo não era uma unidade, mas um conjunto de espaços fragmentados e pouco coesos quanto a comportamentos. Além disso, o contexto e a circunstância assim como a proximidade a indivíduos de regiões diversas, tais como os estrangeiros em contato com o povo da terra e o costume produziu um entorno atípico para a nova cidade. Esses dois elementos talvez possam ser considerados a raiz de sua atual multiculturalidade.

Esta abordagem não prevê o esgotamento do assunto com a consulta de uma base documental. Na verdade, ela coloca a nu que toda base documental é descontínua e que o contexto é que dá relevância aos fatos. E o contexto não pode ser reconstruído senão pela linguagem, ou seja, refazendo um percurso de ideias que já foram submetidas a um filtro da escrita e das limitações de toda a informalidade via referendação documental.

Nesse sentido, todo o contexto ao redor contribui para interpretar realidades que emergem em ambientes em vários níveis. Trata-se de aproveitar a perspectiva da História Social e da Micro-História31 para entender melhor o impacto do meio nos indivíduos.

Fontes

BIBLIOTECA DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS. Cartas de Álvares de Azevedo. Volume 1. São Paulo, 1976.

CARVALHINHOS, Patricia; LIMA-HERNANDES, Maria Célia; MATHIAS, José Roberto. Diários de Bispos de São Paulo do século XIX. São Paulo: FFLCH, 2016 (em preparação).

Referências

AMARAL, Antônio Barreto do. Dicionário da História de São Paulo. Coleção Paulística. São Paulo: IMESP, 2008.

BACELLAR, Carlos de Almeida Prado. O processo de povoamento do território paulista, séculos XVI a XX. In: OLIVEIRA, Marilza (org.) Língua Portuguesa em São Paulo: 450 anos. São Paulo: Humanitas, 2006 (pp. 19-37).

BAGNOLI, Ítalo. Os calabreses misturavam-se com negros, espanhóis e portugueses, todos unidos para trabalharem para o progresso do bairro. In: Memória Urbana: a Grande São Paulo até 1940. São Paulo: Arquivo do Estado/EMPLASA/Imprensa Oficial, 2001, v. 1. (pp.81-84).

BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez e latino. 1712 – 1721. Disponível em: http://dicionarios.bbm.usp.br/pt-br/dicionario/ edicao/1 Acesso em: 25 out. 2015.

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

BUARQUE DE HOLANDA, Sérgio. O homem cordial. In: Raízes do Brasil. 5ª edição, revista. Prefácio de Antônio Cândido. Coleção Documentos Brasileiros. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1969.

CABRAL DOS SANTOS, Marco Antônio. Criança e Criminalidade no início do século. In: DEL PRIORE, Mary (org.) História das crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 1999, pp.210-230.

CAMPOS, Eudes. A vila de São Paulo do Campo e seus caminhos. In: Revista do Arquivo Municipal, volume 204, São Paulo: Arquivo Municipal, São Paulo. Pág. 11-34.

CARVALHINHOS, Patricia. Hierotoponímia portuguesa. De Leite de Vasconcelos às atuais teorias onomásticas. Estudo de caso: as Nossas Senhoras. São Paulo: USP, 2005. 231 fls. Tese Doutorado em Linguística, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.

_____ . Memoria toponomástica de São Paulo: el barrio Tatuapé. In: XXIV Congrés Internacional d’ICOS sobre Ciències Onomàstiques, 2014, Barcelona. Actes del XXIV Congrés Internacional d’ICOS sobre Ciències Onomàstiques. Annex. Barcelona: Generalitat de Catalunya | Departament de Cultura | Direcció General de Política Lingüística, 2011. V. 1. P. 1033-1046.

_____; LIMA-HERNANDES, Maria Célia; MATHIAS, José Roberto. Diários de Bispos de São Paulo do século XIX. São Paulo: FFLCH, 2016 (no prelo).

_____ ; LIMA-HERNANDES, Maria Célia. Movimentos políticos em São Paulo na segunda metade do século XX e no século XXI: Dossiê DEOPS e alterações toponímicas em São Paulo. (A sair na Coleção História do Português Paulista), 2016.

CATAPANO, Ângelo; SALGADO, Benedito; SANTOS, Cecília Rodrigues dos. O centro de aglutinação dos trabalhadores não era o clássico sindicato de resistência, mas as ligas operárias de bairro. In: Memória Urbana: a Grande São Paulo até 1940. São Paulo: Arquivo do Estado/EMPLASA/Imprensa Oficial, 2001, v. 1 (pp. 69-74).

DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: Para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

DELL’ERBA, Miguel. As festas campestres eram realizadas pelo Grupo Pé de Porco. In: Memória Urbana: a Grande São Paulo até 1940. São Paulo: Arquivo do Estado/EMPLASA/Imprensa Oficial, 2001, v. 1. (pp.91-94)

FAUSTO, Boris. Trabalho urbano e conflito social (1890-1920). Coleção Corpo e Alma do Brasil. Rio de Janeiro: DIFEL, 1977.

FREHSE, Fraya. O tempo das ruas na São Paulo de fins do império. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2005.

GINZBURG,C.; PONI, C.; e CASTELNUOVO, Enrico. A micro-história e outros ensaios. Lisboa: Diefel,1991.

GOODY, Jack; WATT, Ian. As consequências do letramento. São Paulo: Paulistana, 2006[1963].

HOUAISS, Antonio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

HUGON, Paul. Demografia Brasileira. In: Memória Urbana: a Grande São Paulo até 1940. São Paulo: Arquivo do Estado/EMPLASA/Imprensa Oficial, 2001, v. 1 (pp.47-54).

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Biblioteca. Documentação Territorial do Brasil. Disponível em: http://biblioteca.ibge.gov.br/ Acesso em: 10 mai. 2016.

KAREPOVS, Dainis. São Paulo: a imperial cidade e a Assembleia Legislativa Provincial. São Paulo: Assembleia Legislativa, Divisão de Acervo Histórico, 2006.

LUCCHESI, Dante. Grandes territórios desconhecidos. Lingüística (14), Publicação da Associación de Lingüística y Filología de la América Latina (ALFAL), 2002, pp. 191-222.

LUCIANO, Eugênio; MARTIRE, Lybio; PONCHIROLII, Riccieri Eugênio. Bairro operário, como se o operário não fosse a força e o fulcro da ordem societária. In: Memória Urbana: a Grande São Paulo até 1940. São Paulo: Arquivo do Estado/EMPLASA/Imprensa Oficial, 2001, v. 1. (pp.59-63).

MORAES, José Geraldo Vinci de. Caminhos da civilização: História integrada geral e Brasil. São Paulo: Atual Editora, 1998.

MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de (Org.). Vida cotidiana em São Paulo no século XIX: memórias, depoimentos, evocações. 2ª Ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2013, p.9.

ONG, Walter J. Oralidade e cultura escrita: a tecnologização da palavra. Campinas: Papirus, 1998.

PEREIRA, Lauro Ávila. Memória Urbana: A Grande São Paulo até 1940. São Paulo: Arquivo do Estado/EMPLASA/Imprensa Oficial, 2001, volume 1, 2 e 3.

RODRIGUES, Jaime Janeiro. Em janeiro de 1907, resolveram acabar com a situação no braço. In: Memória Urbana: a Grande São Paulo até 1940. São Paulo: Arquivo do Estado/EMPLASA/Imprensa Oficial, 2001, v. 1. (pp.97-100)

SCHULZ, Woldermar O’BYRN, Barão. Mappa da Provincia de Santa Catharina do Imperio do Brazil. Escala 1: 1.000.000. Dresda, 1863. Huntington Digital Library. Disponível em: http://hdl.huntington.org/ cdm/ref/collection/p15150coll4/id/7152. Acesso em: 10 mai. 2016.

SILVA, Antônio de Morais. Diccionario da lingua portugueza composto pelo padre D. Rafael Bluteau, reformado, e accrescentado por Antonio de Moraes Silva natural do Rio de Janeiro. 1755-1824. Disponível em: http://www.brasiliana.usp.br/handle/1918/00299210#page /1/ mode/1up. Acesso em: 25 out. 2015.

SOUZA, Ney de (org). Catolicismo em São Paulo -450 anos da presença da Igreja Católica em São Paulo – 1554-2004. São Paulo: Ed. Paulinas, 2004.

SPIX, Joahnn Baptis von; MARTIUS, Carl Friedch Philipp von. Viagem pelo Brasil: 1817-1820. Trad. Lúcia Furquim Lahmeyer. Belo Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1981. Vol.1.

Recebido em 10/10/2016 e aceito em 06/12/2016