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<journal-title>Revista da Abralin</journal-title>
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        <article-title>A HERANÇA CULTURAL DA CAPITANIA DE SÃO PAULO: RITUAIS, COSTUMES E EXPRESSÕES PAULISTAS</article-title>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">
          <italic id="italic-f962538d2fddfca6e8b920ca4b27b822">Este artigo tem por objetivo traçar um panorama cultural da São Paulo na virada do século XIX para o XX, como pano de fundo para as transformações que repercutem nos modos de expressão e pensamento, via registros históricos. São analisados alguns trechos de um Diário de Dom José de Camargo de Barros, décimo-primeiro bispo de São Paulo, paulista. Além do </italic>
          <italic id="italic-c8f072a62b98f313c16e94b279d66869">entorno cultural da província de São Paulo, suas viagens em direção aos confins da província, atuais estados do Paraná e Santa Catarina, revelam dados linguísticos e toponímicos que </italic>
          <italic id="italic-94b47a81d618f672708de5dd1192c81a">ilustram o homem culto nesse período de transição. Para fins de cotejo, as Cartas de Álvares de Azevedo à sua mãe, escritas na mesma época, também são usadas.</italic>
        </p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="_paragraph-2">
          <italic id="italic-1">This paper aims to show a cultural landscape of São Paulo at the late XIX century to the XX as backdrop for changes in thoughts and linguistic expression, through historical documents. The authors analyze some excerpts of Diaries written by the 11th Bishop of São Paulo, Dom José de Camargo de Barros. Besides the cultural environment of São Paulo’s province, the Diaries show his travels to the boundaries of the province, nowadays the states <italic id="italic-f3c60183a2df4c80c23ac3d58d7b4b83">of Paraná and Santa Catarina. The Diaries also show linguistic and toponymic data, </italic><italic id="italic-2">revealing the cultivated man of the transition period. Just for comparison purposes we use </italic><italic id="italic-3">Álvares de Azevedo’s letters to his mother, written at the same historic period.<italic id="italic-4"/></italic></italic>
        </p>
      </abstract>
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        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-5844b7186b220e3dbadd973c1ae6457a">Social history</italic>
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          <italic id="italic-f69fa33ad03c4148b5f1f5d47fffc791">Paulista expansion</italic>
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          <italic id="italic-526c414b3c780ed1fd4573cc1f1959ed">Diaries</italic>
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    <sec id="heading-1">
      <title>Introdução<xref id="xref-acdc4c0527073147bbd12211247fee64" ref-type="fn" rid="footnote-fb8d9cdcc758208e2e3389af9285f076">1</xref> <xref id="xref-bcf884831ead6bfe692954ac395b0fd6" ref-type="fn" rid="footnote-e204e9f57ad07f0fb7131d25595cab63">2</xref></title>
      <p id="paragraph-2">Compreender o início do século XX e as formas de interação remanescentes das grandes mudanças sociais ocorridas na cidade de São Paulo pede a reconstituição da história da língua portuguesa da passagem da cidade “sem-graça” para a “cidade atrativa”. O estopim dessa grande mudança está centrado na passagem do XIX para o XX, o que torna imprescindível costurar os fatos sociais relatados e documentados ao longo do primeiro período para, somente então, compreender os contextos e preconceitos herdados – e ainda surpreendidos – no português do século XX. Em outras palavras, consideramos que as mudanças do século XIX cristalizadas no imaginário social do paulistano foram gravadas durante os eventos de mudança de estatuto da cidade de São Paulo principalmente no século XIX. O crescimento acelerado da vila, cuja área urbana não passou de meia dúzia de ruas estreitas, vielas e travessas malcheirosas durante quase três séculos, transforma-a de pequena a cidade grande já do fim do século XIX, gênese da metrópole do século XXI. A antiga Província de São Paulo, contudo, abarcava territórios mais extensos.</p>
      <p id="paragraph-59f5e9d7c472cdf9ee3e0adc069fdaaf">Na antiga Capitania de São Paulo<xref id="xref-13facd3bee6b7705a1cc70cd846a2d9b" ref-type="fn" rid="footnote-81372778c9dea7a323d6ec0de9326fdc">3</xref>, as freguesias foram sendo erigidas a troco de grande trabalho de bispos e vigários, isso sabemos. O que não se sabe com clareza é em que contexto interativo essas cenas ocorreram de fato. Que língua portuguesa era essa? Que conceitos e preconceitos rondavam as cenas interativas? Ao tomar contato com os diários do bispo Dom José de Camargo Barros, com as cartas de Álvares de Azevedo enviadas a sua mãe ou mesmo com relatos dispersos escritos por viajantes ou por habitantes de então, conseguimos recolher histórias cotidianas ocorridas em espaços pretéritos, ações comuns e incomuns, objetos utilizados e preteridos e espaços frequentados ou rejeitados, os quais ainda hoje guardam resquícios dos rituais, costumes, expressões e, principalmente, conceitos, preconceitos e pensamentos que circulavam à época.</p>
      <p id="paragraph-3">Ações cotidianas, tais como presentear o bispo com animais e alimentos, dar o anel a beijar, ou mesmo segredar sobre comportamentos sociais do outro são ótimos instrumentos para análise. Além disso, é oportuno tratar da configuração e organização do espaço de então, o qual se desenhava como um ambiente multicultural e rico em cenas de usos vernaculares interessantes. Também entender as queixas e lamúrias registradas em termos das dificuldades enfrentadas por desbravadores de um território ainda distante da urbanidade é o que permite lidar com esses manuscritos como fonte de herança cultural. Essas informações nos servirão de mote para tratar da história social e linguística que se consubstanciam como um retrato da história cotidiana herança paulista. Também serão essas as informações relevantes para reconstruirmos o quadro geográfico percorrido tanto pelos desbravadores católicos em busca de inaugurar espaços em que a voz cristã seria a tônica do século que se anunciava quanto pelos visitantes que, previamente ambientados em província mais europeizada, demonstravam estranhar os hábitos e os modos paulistas.</p>
      <p id="paragraph-f814cfee7e2f34530a808bd58ed59e55">No entanto, adentrar espaços sócio-históricos remotos requer uma dose a mais de cuidados por parte do linguista, pois as dinâmicas sociais instauradas, apesar de se desenvolverem holisticamente, apresentam-se nos documentos somente por fragmentos de cenas. Descrevê-las é uma tarefa que pressupõe banir generalizações, ao mesmo tempo em que se preserva uma dinâmica caleidoscópica. Cada cena surpreendida é capaz de produzir arranjos sociointerativos que permitem reconstituir formatos e coloridos sociais. Nesse sentido, GOODY e WATT (2006[1963]) alertam para o fato de que não será possível ler essa dinâmica sem se considerarem três fatores distintos envolvidos: (a) a planta material, em que se incluem as fontes naturais disponíveis; b) os meios padronizados de atuação (alimentação, cultivo de plantas e formas de educação de crianças); e c) as palavras e o conjunto particular de sentidos e de atitudes, os quais alimentam os símbolos verbais.</p>
      <p id="paragraph-d899dfba07e24031f0fb20427af18259">Analisando o trabalho do linguista e considerando essa perspectiva, é preciso alertar que somente a descrição linguística não é suficiente para reconstituir espaços e dinâmicas. As evidências, embora recolhidas por meio do registro linguístico, sobrevivem em elementos que compõem o pensamento de uma época, pois, embora as palavras possam ser, em sua maioria, idênticas, o sentido e a orientação que assumem no espaço- tempo diverso é o que compõe a visão de mundo de então.</p>
      <p id="paragraph-4">É certo, igualmente, que muitos dos sentidos, na passagem da oralidade para a escrita, se perdem, pois</p>
      <p id="paragraph-6">o sentido de cada palavra é ratificado em uma sucessão de situações concretas, acompanhadas por inflexões vocais e gestos físicos, os quais se combinam para particularizar sua denotação específica e seus usos conotativos aceitos (GOODY e WATT, 2006[1963]: 14),</p>
      <p id="paragraph-e6a75ae9e24b9b8f044178708d2f5910">mesmo porque camada semântica da língua se faz com a repetição de intercompreensões e de êxitos sociais<xref id="xref-0bd5f6c268acd4e943be15a6c3684fd3" ref-type="fn" rid="footnote-7c036fd4530c5260209569888c65107f">4</xref>. O reconhecimento desses êxitos não é compatível se colocamos em linha grupos letrados e não letrados, porque, se são reconhecidas diferenças gritantes na forma de interação, certamente o distanciamento não permitirá, por uma das partes, a ratificação e equalização de sentidos. No entanto, mesmo a ideia formada pelo grupo letrado sobre o não-letrado será repercutida inevitavelmente nas descendências desses grupos, embora, como defenderam GOODY e WATT (2006:16), a ‘racionalização’ entrará como ruído nessa transmissão:</p>
      <p id="paragraph-9672f67228defc4723d0e65598d834f6">Em cada geração, portanto, a memória individual será mediada pela herança cultural, de tal maneira que seus novos constituintes se ajustarão aos antigos pelo processo de interpretação que Barle chamou “racionalização” ou “empenho após o sentido”; e quaisquer partes dele que tenham parado de ter relevância nesse momento são provavelmente eliminadas pelo processo de esquecimento.</p>
      <p id="paragraph-5">O período a que este texto remete ainda se constitui como um momento em que papel, lápis, caneta e borracha eram prioridades na atividade de escrita. E se a escrita reestrutura a consciência (ONG, 1998), não é certamente por sua existência em si, mas porque do escrevente é exigido um exercício de antecipação das lacunas de conhecimento de seu leitor e porque do leitor é exigido um exercício de aproximação contextual, em que se aproxima, ao máximo grau de suas capacidades e habilidades, de um momento em que não esteve presente, cercando-se das pistas cifradas<xref id="xref-675a1f02037f1ce8807540d90dc991a2" ref-type="fn" rid="footnote-d95278daa6d64e697dc09d94f3a527c3">5</xref>. Isso faz com que, mesmo ao redigir um diário ao qual somente o próprio escrevente supostamente terá acesso, ainda assim precisará se cercar de cuidados, tais como a construção de uma ficção de quem serão seus destinatários (id., p. 119).</p>
      <p id="paragraph-c666a416f0909f4d0d84acaa235d68f1">Embora já estivéssemos num período em que a escrita guardava sua autonomia em relação ao contexto, diversamente do que se espera para a língua falada, muitos elementos não estão, no entanto, suficientemente claros, pois algumas outras barreiras se interpõem entre o papel e o leitor, dentre as quais o contexto histórico tão diverso. As palavras precisam ser analisadas e os contextos precisam ser lidos e estudados com toda a cautela, porque as palavras podem ecoar sentidos diversos em épocas distintas, e às vezes o sentido ecoado pode não se identificar com outro de momento historicamente diferente.</p>
      <p id="paragraph-2f2766f17f18b275ddf40c90094dc503">Começamos, assim, por tratar do contexto histórico para poder ir devagar inserindo o leitor deste texto na ideia encerrada com o emprego de <italic id="italic-581c7ab4236f213f1043c299eead5f2e">Capitania</italic>. Não guardam equivalência com as unidades geográficas brasileiras presentes no século XX, ou seja, aquela geografia introjetada no cotidiano individual desde os momentos de mais tenra escolarização não encontram paralelo sociopolítico no período sob análise.</p>
      <p id="paragraph-6b48e4ba907f778b45227cc4a693e78e">Por isso mesmo, algumas informações preliminares são necessárias antes de iniciarmos o estudo propriamente dito. Uma delas é que <italic id="italic-35882cbaf6045ba65ffd9f159c9d1309">capitania </italic>não equivalia ao que hoje é estado, cidade ou bairro. Nem o dicionário de língua portuguesa auxilia muito na compreensão do que significa a Capitania de São Paulo no contexto brasileiro dos séculos XVIII e XIX. HOUAISS e VILLAR (2001:611), por exemplo, definem o termo como “unidade sob o comando de um capitão-mor, resultante da primeira divisão administrativa do Brasil (1532)”, o que denuncia apenas a hierarquia de poderes da colônia. Sucedeu à Capitania a Província de São Paulo, mas tanto sobre um período quanto sobre outro muito pouco oferece de conhecimento sobre a organização dos povos, os costumes e seus hábitos comunicativos de então. Para desvendar essa história cotidiana, recorreremos a materiais escritos em dimensões distintas, tais como os diários de um bispo da Província de São Paulo (e do Paraná).</p>
      <p id="paragraph-bc70d5a52080262026e80973a9a24853">Uma segunda informação importante é entender a que fins serviam esses diários, pois se tornou lugar comum considerar esses materiais cada vez mais ligados ao gênero feminino e a uma faixa etária de instabilidades, como é o caso da adolescência. É preciso saber que o registro em diário era uma exigência da Igreja para historicizar informações imprescindíveis à administração eficiente dos espaços em que a Igreja ia erigindo suas freguesias. Informações pessoais dos habitantes, dos párocos e também de encaminhamentos eclesiásticos se misturavam sem cerimônia alguma, daí constituírem-se documentos ricos em informações da história cotidiana. Contudo, os diários do bispo não se enquadram somente nesse tipo de registro eclesiástico; incluem-se num gênero comum no século XIX e nos anteriores, o dos <italic id="italic-ada506e2ed6001619ed7dbb6d76ffbd5">diários de viagem</italic>. São tipos de crônicas preciosas, que tentam englobar o olhar do outro na análise de fatos, lugares, gente, animal, enfim, todos os componentes da viagem<xref id="xref-0160e4895b9bd92bbb33f874af9bda74" ref-type="fn" rid="footnote-d78ed467012b6b6e82e50c87b4cc0f5e">6</xref>. Nele registra-se, além do cotidiano de sua vida eclesiástica, também suas impressões dos lugares, das pessoas, seus sentimentos perante as homenagens ou a ausência delas.</p>
      <p id="paragraph-84483838853ac1a40614971c61e22230">De tudo o que presenciamos nas cenas desenhadas nos diários, o que verificamos é a intenção de se incluírem no cotidiano da Província rituais de separação de gêneros, o que permitiria um controle futuro satisfatório da população. A estratégia é relevante para que os que se incluem na freguesia se sintam superiores aos que não aderem à prática. Nesse sentido, fomenta-se a tomada de consciência de posição social para que uma preocupação com estatuto social e adesão a regras seja satisfeita: “<italic id="italic-9b95b494e7e6a3903b1caf8491929b11">assim revelada uma enorme preocupação com a posição social e uma tremenda consciência de todas as regras (e recursos) relativos à manutenção, perda </italic><italic id="italic-3d00302c88cba964dc0a80994e9e7451">ou ameaça dessa posição</italic>” (DAMATTA, 1997: 188), mesmo porque os costumes e hábitos absorvidos por essa classe acolhedora servirão de modelo às demais, convertendo os usos opcionais em obrigações no correr dos tempos<xref id="xref-5a2ccb4b4ca9461bfc63bbd3746a276d" ref-type="fn" rid="footnote-0ac0d28601f60d34f42310225bbc3ea6">7</xref>: “<italic id="italic-91ee8c9d83bb936f6e537ea3592dd3cb">Assim as regras de polidez formam um complexo sistema de </italic><italic id="italic-4247277e0fb27e1614e7fc805d66781e">legislação, difícil de ser dominado perfeitamente, mas do qual é perigoso para qualquer </italic><italic id="italic-5">um desviar-se</italic>[...]” (Alexis de TOCQUEVILLE, <italic id="italic-6">apud </italic>DAMATTA, 1997: 188). O poder que a igreja assumiu em toda Portugal vai também se espraiando, segundo os mesmos moldes, pela colônia brasileira<xref id="xref-be3d7dd819b974b6c36c0d26a203e303" ref-type="fn" rid="footnote-50777653a1c746365104d00c20b4e627">8</xref>, numa atitude hierarquizante que visa a diferenciar os iguais, mas segundo critérios dos superiores, o que cega e torna a consciência sobre o processo em si pouco inimaginado.</p>
      <p id="paragraph-697e30055ab6b2368f5d9f6215fe0295">Para nossa sorte, quando a língua muda, ela deixa suas pistas. São mais visíveis. Quando a língua muda, é porque os contextos sociais mudaram também. Esses são menos nítidos. De todo modo, essas pistas são fortuna entre os linguistas, que usam suas técnicas para reconhecer as camadas de sentido. Como arqueólogos, seguem descobrindo fósseis e, com eles, suas funções sociais.</p>
      <p id="paragraph-b41834a3cf90095b8c481dbd3c6e26f0"> É justamente por reconhecer essa dinâmica que novas leituras precisam ser continuamente recompostas para que a base empírica das interpretações se suceda. LUCCHESI (2002) indica duas frentes de trabalho para isso: (i) lidar com a diversidade linguística registrada, se houver, e se não houver, primariamente registrá-la urgentemente; (ii) vasculhar com empenho e persistência o material de que se dispõe. Concordamos com esse pesquisador em que só por meio de dados históricos teremos as condições fundamentais para a compreensão do atual panorama do país, porque muito pouco do que se aprende sobre esse panorama nas escolas durante o século XX condiz com o que está assentado em documentos históricos, que nunca trazem uma história una, mas, se houver um <italic id="italic-f731cbe828a59ac68fd3643d7838e8ff">corpus </italic>diversificado, muitas histórias neles suspiram à espera de leituras.</p>
      <p id="paragraph-8879cc4b44d8c7fb79dd0635e2fb4abd">Mesmo a história do português culto ainda continua misturada à história do português normativo imposto nos moldes portugueses. A Academia Brasileira de Letras, criada no século XIX, manteve-se por anos e anos dividida entre considerar o português brasileiro uma língua deturpada e erradia ou reconhecer seu valor como língua nascida dos movimentos socioculturais de um povo brasileiro. Esse movimento foi lento e arrastado, a ponto de, somente na segunda metade do século, universidades públicas verem seus filhos legítimos ocupando as cátedras.</p>
    </sec>
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      <title>1. Reconstituindo os espaços: da Capitania à Província de São Paulo</title>
      <p id="paragraph-c640f50df901b826d7726fa4c31363ca">A história geográfica de São Paulo justifica a índole resiliente de seu povo. Desde 1554, quando foi fundado o pequeno colégio jesuítico próximo à aldeia de Piratininga (CAMPOS, 2006) – o que gerou o conhecido nome do povoado, da vila, dos campos e da região, São Paulo de Piratininga –, a cidade foi um espaço de conquistas em favor da diversidade. Daquele momento até o que nos restringimos neste texto, o século XIX, esse espírito de resistência em um conjunto diversificado foi se revelando.</p>
      <p id="paragraph-a636486ce5f88f5fe0edf279bf6d0c4e">Um espaço pouco relevante no que se refere às decisões tomadas até o ano de 1763 pelo governo situado na Bahia, começa, com a chegada da família real (1808), a sentir ares de novidade por perto. A introdução da cultura do café e sua importância para a economia global trazem consequências dramáticas para o ritmo da cidade e para o número de habitantes cada vez mais se avolumando. Nesse período, não era o futebol o grande interesse, mas</p>
      <p id="paragraph-08b1e2996a5d8ab48f3532e9243c2abd">o bilhar, praticado em diversos hotéis do Centro, e o jogo de peteca no Largo da Forca. A partir de 1870, também o hipismo tornou-se mais interessante, iniciando-se nessa época a prática de corridas de cavalo, como meio indireto de propagação em São Paulo do gado cavalar de raça. (LUCIANO et alii, 2001: 31).</p>
      <p id="paragraph-7">Com as sequenciadas perdas territoriais pela Capitania de São Paulo muitas outras capitanias foram sendo firmadas<xref id="xref-b6966f271ec1e792afb9922e421c6849" ref-type="fn" rid="footnote-c2cf06d1b12d4ed5c499303e7e264f44">9</xref>. A parte mais meridional da Capitania de São Paulo foi desmembrada, entre 1738 e 1742, para se criar a Capitania de Santa Catarina, e a Comandância Militar do Rio Grande de São Pedro, que daria origem, posteriormente, à Capitania de São Pedro do Rio Grande. No entanto, parte do atual estado de Santa Catarina continuou pertencendo a São Paulo, até 1820, quando Dom João VI, de Portugal, por alvará de 09.09.1820, transferiu o termo da Vila de Lages, criada em 1766, para a Capitania de Santa Catarina.</p>
      <p id="paragraph-1d18baed179bf9df344bbbab7cfeeca8">Em 1765, o terceiro Morgado de Mateus (Luís António de Sousa Botelho Mourão) recuperou a autonomia de São Paulo e iniciou a criação de vilas. Em 1821, capitanias tornam-se províncias. A província era tão descuidada que, em 1829, somente vinte e quatro lampiões a azeite iluminavam-na. Certamente, a população de vinte mil habitantes não usufruía igualmente desse benefício: a distância demandada entre os lampiões deixava a penumbra tomar conta e o efeito, segundo um habitante,</p>
      <p id="paragraph-716424acdac3e0c876e42a6b655041db">difundia uma claridade mortiça, que só alumiava um pequeno espaço, projetando longas sombras movediças, quando o vento balançava os lampiões<xref id="xref-16a2995042f44131188f689b33c3d8e6" ref-type="fn" rid="footnote-ecac11286b985691d6cbdebf72767698">10</xref> [...] As noites eram, pois, trevosas, quando não havia lua, acontecendo algumas vezes pisar-se em sapos, que, ocultos durante o dia nos quintais, de noite vinham para a rua tratar da vida, saindo pelos canos de esgotos das águas pluviais. (KAREPOVS, 2006:13)</p>
      <p id="paragraph-71af03a5d8de055c4d4a5db4967e1ab1">Enquanto a Capitania e depois Província de São Paulo passava por esse inacabável “litígio” administrativo, a vila homônima dormitava. Chácaras e fazendas, gêneses de atuais bairros do centro expandido e da atual periferia, eram a maior parte do território. Os caminhos eram precários: várias estradas da época são “bisavós” de grandes artérias atuais, como as avenidas Corifeu de Azevedo Marques, antiga Estrada Real de Itu, a Avenida Diógenes Ribeiro de Lima, ou Estrada da Boiada, e ainda a Estrada de Sapopemba, atual Avenida Sapopemba. Inventários e testamentos do período colonial atestam que a vila era tosca, religiosa e considerada inculta.</p>
      <p id="paragraph-63219fb6563bdff58d669a7f7ee4420e">Essa situação começa a mudar no século XIX, com o paulatino ultrapassar das barreiras naturais. Os principais rios (Tietê, Anhangabaú, Tamanduateí, Pinheiros) ganham pontes e o melhor acesso facilita a integração entre espaços da cidade. Isso irá transformar a cidade radicalmente até o final do século, com a retificação do rio Tamanduateí, e no início do século XX, com a retificação dos rios Tietê e Pinheiros, aproveitando-se suas áreas de várzea sempre encharcadas para novos empreendimentos, sobretudo imobiliários.</p>
      <p id="paragraph-1f5967120c446f36f87dbbedcaf0240f">A cidade, contudo, apresentava as mesmas mazelas de outras cidades do século XIX, como a carência de saneamento básico (o que fazia da várzea do Carmo um depósito de dejetos), a deficitária iluminação pública, o comércio ambulante das quitandeiras e verdureiras, muitas dessas mazelas ligadas ao crescimento do espaço de circulação, “<italic id="italic-683a259e90de32f03eb25ad57cdc8614">modelo de </italic><italic id="italic-638c3d03cc92215cc7400c2f4abd2505">espaço público defendido ideologicamente pelo poder público</italic>” (FREHSE, 2005:174). Higiene, seguida de conforto, passa a ser artigo de necessidade.</p>
      <p id="paragraph-47a0bd29ba4cb841356dd32fcad0bc19">Costuma-se dizer, no Brasil, que só depois que as necessidades básicas de um povo são curadas é que se começa a pensar em elementos culturais e estéticos. Analisando a preocupação com a reserva cultural em São Paulo, verificamos que, em 1862, já havia instâncias cidadãs impondo suas demandas junto à Assembleia Legislativa Provincial de S. Paulo. No exemplo que segue, Joaquim Augusto Ribeiro de Souza, do Teatro Dramático, solicita subvenção com a seguinte argumentação:</p>
      <p id="paragraph-919ba951ca0ccd0ee70a8b1c9506a747">São Paulo, ao passo que cresce em população e comércio, cresce nas dificuldades da vida, e é já quase fabuloso o preço por que se pode obter uma habitação regular, e o necessário para a subsistência. É pois mister que o artista tenha um tal ordenado que faça ao menos face a estas duas indeclináveis necessidades. (<italic id="italic-0e1164086853ae9e5639f1c979b204ea">apud </italic>KAREPOVS, 2006:93)</p>
      <p id="paragraph-9">Ao descrever o <italic id="italic-3bfb80c65a905905a8a628f59370189e">Teatro de Ópera </italic>ou <italic id="italic-d3226c377b397fa431bdd8da724056e6">Casa de Ópera</italic>, KAREPOVS (2006) o faz da seguinte maneira:</p>
      <p id="paragraph-6b02cb325a16d205ad9dc99a9f014da2">Situado no Pátio do Colégio, era um sobrado de taipa, pintado de vermelho, com janelas de gelosia, pintados de preto, e uma porta larga ao centro e duas comuns nas laterais. Tinha 28 camarotes e sua plateia possuía bancos de madeira e era frequentado apenas por homens. Sua lotação era de 350 lugares. O repertório do teatro era bastante variado e, segundo relatos de viajantes do início do século XIX, as artistas eram, em boa parte, negros ou mulatos e as atrizes eram ‘mulheres públicas’. (<italic id="italic-fdc08bd4a865d5e637448f5d4a136cc2">apud </italic>KAREPOVS, 2006: 94)</p>
      <p id="paragraph-4d43c7cf75f63c454b9adb8df5037df5">É provável que fosse o único lugar de espetáculos da cidade. O depoimento de SPIX E MARTIUS, naturalistas alemães em passagem por São Paulo em 1817, retrata o seguinte:</p>
      <p id="paragraph-00f2ae560751769bb5e422754aa792ec"> Também não faltavam, então, espetáculos dramáticos em São Paulo. Assistimos, no teatro construído em estilo moderno<xref id="xref-bc6646ae41b5f5f10a4984fafb4aaf26" ref-type="fn" rid="footnote-a9d6b066608192686f18f738df4ae07b">11</xref>, à representação da opereta francesa Le Déserteur, traduzida para o português. [...] O conjunto de atores, pretos ou de cor, pertencia à categoria daqueles aos quais Ulpiano ainda dá <italic id="italic-b79386b4c8b22489fbc2066d462eee69">levis notae maculam</italic>. O primeiro ator, um barbeiro, conseguiu comover profundamente o auditório. O fato da música andar também quase caoticamente, perdida de seus elementos primitivos, não era para estranhar, visto como, fora do violão, preferido no acompanhamento das cantigas, quase nenhum outro instrumento musical é tocado assiduamente. (1981: 141)</p>
      <p id="paragraph-6072ee905ea85d65ac7743448e7260d0">Nesse mesmo período, mais precisamente entre 1889 e 1892, uma obra de vulto muda a paisagem de São Paulo. Foi construído o Viaduto do Chá, obra que trouxe grande alegria à população, mas esse sentimento durou muito pouco, dando lugar ao descontentamento tão logo se começou a sentir o peso do pedágio de “três vinténs”, cobrado até 1896. A interrupção da cobrança não veio por vontade política de beneficiar o povo, mas, sim, por forte demanda popular formalizada em abaixo-assinado contendo 3.636 assinaturas de paulistanos.</p>
      <p id="paragraph-6e859c867cad7b931a36ef64abcb21bf">Em 1889, com a proclamação da República, a São Paulo província torna-se estado. O interessante é que a maior parte da população não tinha a menor ideia de que algo ocorrera, pois a distância dos fatos políticos era enorme, sendo os participantes ativos somente os profissionais liberais, os cafeicultores e os militares. Estes últimos comandaram a República, em sua primeira fase<xref id="xref-078fa1f9e68c34816cc18947acc00569" ref-type="fn" rid="footnote-97ae71ae23c67df481f7c91a120d534d">12</xref>. Este é o contexto sociopolítico em que os documentos por nós estudados se enquadram.</p>
      <p id="paragraph-1edbd225a02448ccfde74e0478a4bbd2"> Os diários – é relevante enfatizar – remetem a uma produção realizada por representantes católicos, a qual se encontra sob a guarda da Cúria de São Paulo. Saber sobre o papel eclesiástico naquele contexto é, assim, um imperativo. Torna-se pertinente ressaltar que a Igreja Católica, por experimentar alguns revezes durante o período colonial, logrou afastar-se de um modelo luso-brasileiro para uma proposta mais ligada à Santa Sé de Roma apenas no século XIX. Igreja e Estado eram figura única durante o período colonial e também durante parte do Império, já que a separação viria a ocorrer apenas com a promulgação da primeira constituição brasileira, em 1831. Segundo SOUZA (2004: 405),</p>
      <p id="paragraph-9cc200495a15a23d2b577d908e738974">[...] inspirava-se no modelo norte americano: república federativa liberal. O texto constitucional consagrou o direito à liberdade, à segurança individual e à propriedade dos brasileiros e estrangeiros residentes no país extinguiu a pena de morte; e estabeleceu a separação entre Estado e Igreja. Com isso, deixou de existir uma religião oficial no Brasil. A República passou a reconhecer apenas o casamento civil e os cemitérios passaram a ser responsabilidade da administração municipal.</p>
      <p id="paragraph-37c54831a3de3d65d89b9fbf792a2d55">A atuação da Igreja, nesse quadro, demandou outras necessidades surgidas do crescimento da cidade:</p>
      <p id="paragraph-8">Os problemas típicos da urbanização acelerada não tardaram a aparecer. Dentre esses problemas destaca-se o dos menores abandonados. Para resolvê-lo, articulou-se um grandioso projeto de formação religiosa e profissional desses jovens desamparados. Saladino de Aguiar, leigo católico da Conferência de São Vidente de Paulo, fundou o primeiro liceu de artes, ofícios e comércio em São Paulo, que mais tarde passou a ser dirigido pelos padres salesianos e se tornou o atual Liceu Coração de Jesus, situado no bairro de Campos Elíseos. (SOUZA, 2004: 406)</p>
      <p id="paragraph-bc9b94b11f6d89d888bbd4cd6a126c76">Além disso, a própria chegada de estrangeiros como imigrantes causa mudanças dentro do próprio corpo da Igreja Católica, incorporando em São Paulo, exemplificativamente, os “padres seculares italianos”.</p>
      <p id="paragraph-200b9a9c4956e38fb15215fbdecfa8a6">Nesse período do fim do século XIX, atuaram, em São Paulo, bispos que antecederam a Dom José de Camargo Barros<xref id="xref-8eda30ca0d40acf046b8598f9bbcbd11" ref-type="fn" rid="footnote-2448cc39c721dd1ad3e7b51945bb9bf5">13</xref>: ainda no período imperial, Dom Antônio Joaquim de Melo (primeiro bispo nascido na Província de São Paulo<xref id="xref-8d5048fc26a542af981579e90a561944" ref-type="fn" rid="footnote-837ef625f01c7ae08559ac491759b00b">14</xref>), que introduziu reformas como a criação do Seminário Episcopal. Foi nesse Seminário que o autor dos diários internou-se para estudos em 1877, sendo ordenado presbítero pelo sucessor de Dom Antônio, Dom Lino Deodato (1873-1894). No início do período republicano, foram bispos em São Paulo Dom Joaquim Arcoverde Albuquerque Cavalcanti (1894-1897) e Dom Antônio Cândido Alvarenga (1899-1903).</p>
      <p id="paragraph-3d2bda0bf0c991fadcb8abd8ebb43583">As fontes consultadas iluminam tanto a São Paulo cidade quanto província sob a perspectiva pessoal dos dois autores, Dom José, e, apenas comparativamente, Álvares de Azevedo, duas personalidades diametralmente opostas que partilham a erudição e o português culto. A próxima seção destina-se a apresentar as fontes, sobretudo os diários de Dom José – material inédito editado por nós.</p>
      <sec id="heading-a237290046a3baeb6665c53a3a278b7d">
        <title>1.1 Os documentos: anotações diárias manuscritas e as epístolas de um filho</title>
        <p id="paragraph-bfb6235cddc2aa205a32cd44b9e9f8e1"> São dois os livros que integram os diários pessoais do décimo- primeiro bispo da Província de São Paulo<xref id="xref-6af17c1a8b7965fedaa616b47c23a924" ref-type="fn" rid="footnote-03323affd671b17cc2914beb35ee3768">15</xref>. Os diários editados respondem ao critério de seleção da mudança sociopolítica e econômica que se implantava no Brasil, com reflexo em São Paulo. Totalizam-se vinte e um registros do século XIX e vinte e quatro do século XX. Esse período corresponde a uma época conturbada em que conflitos se instalavam entre federalistas e maragatos. Esses eventos representavam uma ameaça à jovem República e é nesse período que José de Camargo Barros realiza viagens, muitas vezes em lombo de burro, para chegar aos recantos mais afastados de seus domínios episcopais.</p>
        <p id="paragraph-c607bbf865347308d3506af7a0c038ba">Há de se lembrar que, nessa época, a divisão eclesiástica do território havia recentemente sido separada das divisões seculares, com o advento da República. E, assim, a freguesia eclesiástica, a antiga <italic id="italic-64bf3b9bfa3d2e23d6924108ccaa3a71">filli eclesia </italic>dos portugueses, cujo modelo foi transposto para o Brasil e para outras colônias, passou a ser substituída paulatinamente pela paróquia, e os antigos fregueses se tornaram os paroquianos. Outro dado relevante diz respeito à exclusão social do povo, fazendo com que grandes massas vivessem na pobreza (cf. MORAES, 1998), inclusive suscitando algumas revoltas, como a da classe operária, não somente pelas condições de trabalho, mas também de vida.</p>
        <p id="paragraph-a1fdd581c8fd8d9709ae835a89a2947a">Todos os registros dos diários assumem um mesmo formato, iniciados, algumas vezes, pelo local do registro e sempre contendo a datação. Alguns documentos são encabeçados, à margem superior, pela localização geográfica. Como um relato diário, a percepção do bispo é o que prevalece inclusive quanto aos interesses de sua carreira, desde os atos mais simples e cotidianos como celebrações católicas (missas, crismas, encomendações, etc.) até observações mais particulares, como a preocupação dos habitantes em receber tal dignidade, além dos cuidados (adornos e saudações) e ações para que houvesse uma boa recepção ao bispo, bem como avaliações que refletiriam em seu conforto pessoal, por exemplo.</p>
        <p id="paragraph-16e41796a1c395e1a592d1932bd666c4">De um modo sucinto, a crônica das viagens do bispo passa a adquirir importância de vulto por alguns motivos. Em primeiro plano, o período em que os relatos se produzem corresponde exatamente aos primórdios da República, quando velhos conceitos vinham pouco a pouco sendo substituídos por novos – o que não significa, de modo algum, o abandono de velhos hábitos culturais e linguísticos do povo. Em segundo plano, a morte trágica do bispo um ano após esses registros, ainda jovem – e, possivelmente, de posse de seus últimos registros – traz aos diários pessoais um interesse todo especial para que se possa reconstituir a História Social de um Brasil transitório, que, apesar de nominalmente republicano e independente, ainda se demorava em práticas tipicamente coloniais e conservadoras.</p>
        <p id="paragraph-ded94fdb3dc27d154f1e82815667a0cd">Ainda há de se adicionar a questão linguística, que poderá ser abordada sob diversos aspectos. Um deles é a análise de antigos topônimos, hoje substituídos por outros, também auxilia nessa reconstrução do passado. Ilustração disso é Desterro<xref id="xref-91595aeadefafa0b3e04438c458dd8f8" ref-type="fn" rid="footnote-fe820624165d47b4dbed7662877db84e">16</xref>, antiga denominação de Florianópolis<xref id="xref-43cffe4360d249b68f31401e2d3fe639" ref-type="fn" rid="footnote-4f74c35758a7a45cedfa0b09d7fdf37e">17</xref> (Nossa Senhora do Desterro, popularmente denominada pelo seu título ou invocação – a forma espontânea de encurtar um longo nome), presente nos documentos.</p>
        <p id="paragraph-7ce2c0d3437f1089d8fb6ed2af3d798a"> O missivista, consultado apenas com fins comparativos, é o já mencionado poeta Manuel Antônio Álvares de Azevedo. Sua visão nos interessou porque mesmo nascido na província de São Paulo seu olhar era peculiar, quase um estrangeiro em casa<xref id="xref-8e84e3836c97160f03cb7c3ca132878c" ref-type="fn" rid="footnote-b7bca99d8cd6d4d730932622c7783650">18</xref>. Igualmente letrado mas despido das preocupações eclesiásticas, o jovem estudante fornece um olhar do filho à mãe, que, em termos de gênero, diferencia-se dos diários: tanto a epístola quanto o diário podem assumir tons intimistas, mas em graus distintos.</p>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="heading-5996ff6e7ab44ff795869157019d26e3">
      <title>2. Ações e gestos cotidianos, pistas de uma história social</title>
      <p id="paragraph-cfef45ccf80861193cdc0a967d335051">Assim como o espaço paulista vai sendo fragmentado em benefício de sua administração mais ‘coerente’, separando grupos e instituindo uma nova ordem de conduta social, de fato, o espaço desde então já não era, em centros ‘urbanos’ uma extensão do círculo familiar. Embora a ideia geral é que organizemos grupos para que uma integração e um conhecimento interno seja possível, na verdade, dos grupos dominantes nenhuma de suas intenções se aproxima disso, nem mesmo, como afirmou Buarque de Holanda (1995:141), “<italic id="italic-15a4561e9390ffca896f2f3593ae57b6">uma gradação</italic>”, mas, sim, “<italic id="italic-8088da2bb6f478b8e0be90dd81e1bba0">uma </italic><italic id="italic-765b1f0e1c1161766ebcf795975b13c3">descontinuidade e até uma oposição</italic>”.</p>
      <p id="paragraph-70bd72a574db5ace90a70743cba3ea15">A explicação é que historicamente são consideradas gradações contínuas rompidas pela instauração de novas ordens, ainda que ingenuamente permaneçam sendo entendidas como continuidades. Nesse sentido, conforme defende Buarque de Holanda, as crises que afetam a estrutura da sociedade compõem o cerne do que é história social. Para esse autor, um estudo das formas sintáticas em documentos históricos traria “revelações preciosas” sobre as condutas que, entre os brasileiros, seriam mais humanizadas e menos ritualizadas (id., p. 149), posição com a qual concordamos.</p>
      <p id="paragraph-0effc378ad88965a8e5be452219d5402">Exemplos dessas descontinuidades podem ser surpreendidos em diferentes espaços geográficos e também sociais. Situando um desses espaços em 1844, encontramos Álvares de Azevedo já cursando Direito na cidade de São Paulo. O ilustre escritor, então estudante, escreve à sua mãe relatando cenas e fatos daquela que era uma pequena e irrelevante cidade comparada à cidade do Rio de Janeiro, onde morava com a família. Analisemos algumas dessas cenas aos olhos de um indivíduo já habituado com a dinâmica do Rio de Janeiro:</p>
      <p id="paragraph-27aaed5dd5a2cfba7de5b6b8898d88e8">[...] Segunda feira fui a hum baile dado pelo Snr. Souza Queiroz. Todas as sallas estavão com lustre, o ar embalsamado de mil cheiros tanto de flores como de essencias, mas comtudo S.Paulo nunca será como o Rio. Alli estavão o ~q chamão cá moças bonitas. (Carta de Azevedo, 30. agosto.1844)</p>
      <p id="paragraph-353d9b1adc81509e5be3587a490ef6a7">O estranhamento do paulista, radicado no Rio de Janeiro, também alcançou uma instância de tradição na Corte, a adesão aos eventos religiosos. É sabido que com a constituição de 1824, o catolicismo passa a figurar como religião oficial do Brasil. Uma das consequências disso foi o estabelecimento da prática do Padroado (cf. nota 8), indicação e remuneração dos membros da hierarquia religiosa pelo Estado, com ratificação de Roma.</p>
      <p id="paragraph-7048c6e98550b3a5a48e0234dfdd4525">De outra mão, assume-se que as bulas papais devem ser ratificadas pelo imperador, que, por sua vez, deve determinar ampla divulgação ao país. Como se pode facilmente depreender, Igreja e Estado desenvolvem uma relação integrada em decisões. Alguns conflitos vão decorrer e confundir, tais como os que envolvem instâncias militares<xref id="xref-43371b20096e2c6e6c73160fcc1891af" ref-type="fn" rid="footnote-e5bdd4ffb2fdbadda5f08bc19e750dc9">19</xref>. O povo paulistano, afastado de toda essa tradição, no entanto, não se revelava muito habituado a práticas religiosas:</p>
      <p id="paragraph-d7aa3a30cdb51f290889252fdeafb6b3">Hontem vi a procissão de cinza que sahiu da Igreja com 12 andores entre os quaes havião alguns que tinhão 4 ou 5 estatuas a saber S.Francisco ensinando. S.Franco a recebendo as chagas de No Snr. . No Snr. recebendo os raios de N. Snra com Frades ajoelhados embaixo. [...] Admirei-me<xref id="xref-daf39d058dba38ff907c7f0c5edb0d59" ref-type="fn" rid="footnote-ae78f6bed673dfd7040b2a9711f21785">20</xref> de ver apenas huma ou 2 famílias na Sé, na quarta feira de cinzas O temps ó moeurs! Se fosse pa hum fogo, para huma iluminação, estes hoje apelidados fieis para la irião! (Carta de Azevedo, 05.fevereiro.1845).</p>
      <p id="paragraph-b93c95ac7054587e0e803171c3adbf30">Apesar disso, nas cidades mais afastadas, ao sul da Província de São Paulo, como aquelas percorridas pelo então bispo do Paraná (hoje algumas são parte do estado do Paraná e outras de Santa Catarina), as pessoas tentavam demonstrar um apreço e uma reverência, compatível com o que um bispo poderia considerar uma verdadeira reverência a Deus:</p>
      <p id="paragraph-e1e075490c6ece5f7e5110e62638ab03">Missa às 8 ½; chrismas às 10 e as | 4; assistencia a novenas, na qual pre | gou o Padre Rossi. Quando aqui chegamos | para desembarcar da canoa na praia <bold id="bold-1">fomos </bold><bold id="bold-2">| carregados</bold>. Tenho <bold id="bold-3">recebido muitos presen | tes</bold>: 4 gallinhas, uma perua, uma bandeja | de doces, um bocão de suspiros. Depois | do jantar, fui à pé até o cemiterio e | passeei um pouco pela praia (Diário, 13.4.1895)<xref id="xref-d59417a9ddac11ffc6cb28ecb4c00b8b" ref-type="fn" rid="footnote-63c6ceb0eaa26d18a6cd12d7058a9522">21</xref></p>
      <p id="paragraph-9ee1f1c660670c13783e8cc7bc1cc916">Aqui fo| mos <bold id="bold-4">recebidos por todo o povo, ao som | de uma banda de musica </bold>(Imaruhy) e | ao <bold id="bold-5">estourar de muitos foguetes</bold>. Como as | nossas malas vinham no <bold id="bold-6">carro de boi </bold>| só podemos fazer a entrada solenne ás 5 | horas da tarde. Tomamos os parametros | na residencia, que é ao lado direito da | egreja e precedido de meninas e | homens de opas, de diversas cores (Diário, 18.4.1895)</p>
      <p id="paragraph-10"> Na estação daqui tivemos boa | recepção, pelo Vigario da parochia, Padre Au | ling, que de Tubarão tinha vindo a meu | chamado, 2 bandas de musica e um | povo immenso, foguetes pelas casas par | ticulares e repiques de sino, flores | pelas ruas em frente das casas ala| medas de palmito em frente as resi | dencias, no largo de matriz e illumina | ção a noite. Chegados na residencia | mandei o Padre Alberto agradecer a | recepção e avisar que a entrada se | ria ás 5 ½ da tarde. Com effeito nes | sa hora fizemos. Precedido de perto por | <bold id="bold-ce4d4273b3e1d9a741b19f6c935f14a4">100 virgens, das </bold><bold id="bold-46f1be611e59ae8d8f9a88be81a213f4">4 irmandades </bold>(opa | branca, verde, roxa e vermelha) debaixo | do pallio, carregado por 6 homens de | casaca e luvas brancas, acompanhado | das 2 bandas de musica e de um | povo enorme fomos para egreja | com toda a solennidade. (Diário, 20.04.1895)</p>
      <p id="paragraph-976be6d8e088bdd40c9a790bd21f9781">Dia da partida para Jagua- | runa. Celebrei às 8 horas e | depois da missa fiz a encom- | mendação solenne das almas. | Sahiu bem solenne; porque foi | muito bem cantada pelos Padres Ber- | nardo e Chiliuki. As 10 | hora almoçamos. As 11 | acompanhado de um povo enor- | me, João Cabral, Juiz de Direito, | Medico; Advogado [as] prin- | cipaes pessoas e autorida- | des, Zeladoras, as moças etc | etc, fomos al pé até um cer- | to ponto. Aqui o João Cabral | me <bold id="bold-b20b7174ccdfa49fcc9eafb59294e6cd">levantou um brinde</bold>, dei | a bençam a todo o povo, que | a <bold id="bold-fb156edb49f6e45207b176e4329eb00a">recebeu de joelhos em | plena rua. </bold>Dahi em compa- | nhia do Frei Salano, João Cabral | Dr. João (juiz de Direito) (Diário, 21.6.1902)</p>
      <p id="paragraph-8ad468cffa6006658a57551f671ad0d5">Nas cidades, as mesuras e os atos de polidez da metrópole ganhavam ecos desde as formas de tratamento que indicavam cortesia até o modo de retribuição ao gesto de uma visita:</p>
      <p id="paragraph-1104b666b3b1fb1d85068e7eab93e2f5">No dia de anno bom <italic id="italic-8958585f8052d5c467d2cf03236db1f1">fiz uma saúde </italic>a minha tia Mariana. (Carta de Azevedo, 05.janeiro.1845) (grifo nosso)</p>
      <p id="paragraph-82ffb42d7997c88c03800065e8f3c484">Desejo que Vmcê tenha passado bem assim como todos de casa a qm Vmcê <italic id="italic-bdd59c983ecc9234dc4fb764b80c605e">me recommendará</italic>. (Carta de Azevedo, 05.fevereiro.1845) (grifo nosso)</p>
      <p id="paragraph-5890272c70a1aa9f46daef48835bd48a">Sobre o Capítulo <italic id="italic-da06c80800b52d75203aa27ade5881f0">relações minhas </italic>em S.Paulo – tenho a dizer-lhe q. o Dr. Pacheco veio visitar-me e q. <italic id="italic-4c8d164a5ed850271be336f950f7333b">paguei-</italic><italic id="italic-b4e5df3be8f3d11c7bde57629f4ea69b"> lhe a visita </italic>– mas não achei-o em casa. (Carta Azevedo, 12.maio.1848) (grifos nossos)</p>
      <p id="paragraph-73ce653604d78e75f3284570f120e759"><italic id="italic-6c6c858253b9a1efe43ba44fad8fc618">Fazer saúde</italic>, <italic id="italic-2cc2a2a00f3056fa0065c4da1cfbf4d2">recomendar </italic>e <italic id="italic-9f51526a460443b0834b6b6076a5345b">pagar visitas </italic>são expressões em desuso, completamente deslocadas na atual época sem-cerimônia do século XXI, que, em seu primeiro quartel, parece ainda mais distante que os reais cento e setenta e poucos anos. Segundo BLUTEAU E MORAES (1755- 1824), <italic id="italic-a79337463ea5a4292d1cfa8c888e4666">recomendar, </italic>em uma de suas acepções mais usadas (“<italic id="italic-3687ec3f37a869238a7a244052df8d6d">Recommendar alguém a outrem</italic>”), significava “inculcar-lho como benemérito, e digno de mercê, pedindo que lha faça” (v. 2, p. 297). Os autores não registram a expressão <italic id="italic-211442765f9e6a18a7e46ce5edf610d7">fazer saúde</italic>.</p>
      <p id="paragraph-d488cdc311fd9f0e07d4f17ec9223422">Expressões linguísticas denunciavam a forma como o indivíduo se dirigia a seu superior hierárquico. Na contramão disso, também se podem recolher formas referidas aos subalternos, pelos que se sentiam superiores:</p>
      <p id="paragraph-4ee9b7695d5c9bb9f142d20d75705c18">Diga-lhe mais q. tive mto praser em saber do nascimento da minha futura noiva – e q. emqto aos presentes estou esperando o tempo das formigas de asas (içás) <italic id="italic-7">porq. na </italic><italic id="italic-8">minha terra só ha formigas e . . . . . . caypiras </italic>– (Contudo (riscado) Alem das formigas ha um presente ms. q. se pode fazer da <italic id="italic-9">Illma. patria dos Tyberiçás, Buenos, e Bobadellas</italic>, e é o doce – condicção essencial – sine qua non das formigas (Carta de Azevedo, s.d.) (grifos nossos)</p>
      <p id="paragraph-4abb913323edfec88ae1503df794bd84">Qdo. eu digo unica casa fallando da do Dr. Claudio não se entende q. eu não tenha pago visita á D. Maria do Rodrigo á D. Anna Vicencia e m.mo às Gomides – A essa ultima casa fiz cruz na porta pois não é das melhores nem ms louvaveis – pelo contrario é bem nodoada a reputação <italic id="italic-75fc0672165022e46b2745dac17532e4">dessasSnras. q. comtudo </italic>vão a todos os bailes etc. !! (Carta de Azevedo, 12. maio.1848) (grifo nosso)</p>
      <p id="paragraph-869f198e8abcbe44062c52d5ace9f536">Se poder mandar-me algumas luvas do Rio mande porq. aqui <italic id="italic-43bcf73d8f1060e400a5f6ded33b9a0b">as q. vendem são de montar a cavallo – luvas Inglezas – e são todas de M para cima </italic>qdo. eu calço F. (Carta de Azevedo, 26.maio.1848) (grifo nosso)</p>
      <p id="paragraph-f544c81d08488532ec51288e3f197c2c">Emqto. as luvas agradeço-lhas muito, porq. as q. aqui ha <italic id="italic-5e0c0debffc2266730260c225d6b35a1">são de m</italic><italic id="italic-067f633efe903ec2d971048f0c881209">to </italic><italic id="italic-9fe715c122d082628dc964518c80b668">ruim pellica – ou antes couro – e q.</italic><italic id="italic-1590b860483a93f141958605aa1b88ec">do </italic><italic id="italic-2b1e79bd52605a5c822899dd349355cf">se recebe fica-se </italic><italic id="italic-f5b7ea7c48e5a3039631bb1829fa75b1">em duvida se são para os pés ou se para as mãos </italic>– e além disso vendem-se pela ninharia de 2$600 rs. – p.a estallarem as costuras logo ao calçar-se apesar de serem tão largas q. se em lugar de ser a minha mão fosse o Pão d’Assucar q. se quizesse acommodar nelas pouco lhe custaria o capricho [...] (Carta de Azevedo, 04.junho.1848) (grifo nosso)</p>
      <p id="paragraph-e00abbcbc83611cf39d34d7358d8bd57">Este mez tem havido pr. aqui – uma sucia de bailes <italic id="italic-d32d5c664b16be0cc54b8f7e781cfbc5">de meia tigela </italic>em uma palavra de S.Paulo. – Houve um (o 1º ) Philharmonico – o q. a fallar a verdade não é baile – o outro (2) da Assembléa Paulistana – ao qual não fui pr. q. Tio João esqueceu-se de mandar-me o convite – outro (3) o da Concordia no qual estive, (assim como na Philharmonica) – O elogio desse baile se pode resumir em bem poucas palavras – <italic id="italic-10">ainda se dança com cartas </italic>– (Carta de Azevedo, 26. maio.1848) (grifos nossos)</p>
      <p id="paragraph-70bdbf8f4a33317e56a357a92d43d6cc">É singular que n’uma terra onde o céo é tão bonito as cazas sejão tão pardacentas e as mulheres tão......... (<italic id="italic-bef0e9a18793ac43fbe8c0a62363682c">sic</italic>) (Carta de Azevedo, 17.abril.1851)</p>
      <p id="paragraph-1121e658ac8ae00b18605ee549c1c10b">As indicações e associações espontâneas por afinidades e interesses específicos conduziam a vida dos indivíduos, mesmo em situações hoje consideradas inusitadas, como é o caso do casamento:</p>
      <p id="paragraph-d472090f56ff701547827312fb2b1aab">Desejo q. gose saude assim como todos lá de casa – Como vai a Marianinha com sua dor de olhos? – Como vai a minha Sinhá Maria Francisca? Como está o Nhonhô com seus olhos azues, e seus cabellos louros? Como vai a Carlotinha? A proposito de sogro – como vai a minha noiva? <italic id="italic-379ed800382251bc6f79ba62c46d8e29">Noiva? dentro de desaseis annos</italic><italic id="italic-cc1330162ae0ae5d4213137122d748cf"> </italic>Ora, Mamãe, Vmcê hade concordar q. isto é esperar mto (Carta de Azevedo, 05.maio.1848) (grifo nosso)</p>
      <p id="paragraph-13ac6ba9052527831912320e1f1ea169">Se nas vilas cada evento realizado pela Igreja assumia um estatuto de potencial lazer familiar capitaneado pelas esposas e mães, nos espaços urbanos sinalizava-se maior segregação entre gêneros, pois os homens desfrutavam de um maior leque de opções. Um exemplo disso era a interdição feminina ao teatro. À exceção do teatro, pouco havia o que se fazer em São Paulo. Dentro da cidade, Spix e Martius (1981: 141) apontam o jogo e as danças como comuns: “<italic id="italic-ee536c8227b22d823e8cbdbb128f4a5a">Mais raro que nas demais </italic><italic id="italic-46512c334b4365f70342004138056fb0">capitanias, o jogo de cartas é aqui o animador do entretenimento, sendo, porém, um tanto mais alta a conversa, alternada com danças e cantigas</italic>.”.</p>
      <p id="paragraph-ba23f46378d7ce61c38120c594646454">Sendo a cidade pequena, os arredores já eram considerados zona rural: “<italic id="italic-c23d76201d2ab829f2a9639f78670775">São belos os arredores de São Paulo; entretanto, de aspecto mais campestre </italic><italic id="italic-b39b887fbe3cd4619b23874e15e5446b">que os do Rio de Janeiro. [.</italic><italic id="italic-146d9ec65af0f6d259c2b4e821ada528"> </italic><italic id="italic-ad3f0a2406e2e9a833202b26e4e95ae5">] outeiros e vales, matos ralos e suaves prados verdejantes, <italic id="italic-b0c4e8ffb3397bd1b9a6ec9b65949940"/></italic><italic id="italic-5dfd84f2b11214d759e14170aa57065e">oferecem todos os encantos da amável natureza</italic>.” (SPIX E MARTIUS, 1981: 144). Assim, parece natural que uma das atividades realizadas por homens fosse a caça na região de Carapicuíba<xref id="xref-8f8dc56b1216abd543cf461e6988a352" ref-type="fn" rid="footnote-3228d738c1f3930260f6d4e608c65a21">22</xref> e em outras áreas rurais da cidade, onde a flora e a fauna eram riquíssimas:</p>
      <p id="paragraph-4ff5d242f213b0f129e0d732c50ddcd7">Tio José partiu hontem <italic id="italic-63751d6a9e2ced65073cb58ea3c47f70">para Carapicuiba </italic>a caçar veados – e eu p.a lá vou amanhã levar o Nhôsinnho (Alfredo) q. Tio José mandou me pedir q. levasse comigo no <italic id="italic-a80b96c36aceef713a92af948795329b">cavallo em <italic id="italic-4fc5c03c4a398c7203f2ab2829588d2c"/></italic><italic id="italic-e917eeb25de8e8d921de5bc73daad3b2">q. vou</italic>. (Carta de Azevedo, 11. junho.1848) (grifos nossos)</p>
      <p id="paragraph-cbfa18a9943979ec3f7205ede1ff24f2">Adeus e viva q. não ha mais nada digno de contar-se senão q. a Cidade ainda não deixou de ser S.Paulo – o q. quer dizer m.ta cousa – entre as quaes <italic id="italic-183477c2d244beb1ecc7d50587044508">tedio e aborrecim.</italic><italic id="italic-b70170eefccf6301099b4c7a48f16c73">to <italic id="italic-c3e2e3a91888eb123ebd2014d2fecc78"/></italic>(Carta de Azevedo, 11.junho.1848) (grifo nosso)</p>
      <p id="paragraph-12">Estivemos na <italic id="italic-03e38e717e7562a1cd4d6aa000cb9c08">caçada 2 dias </italic>– Isto é – ella durou 3 mas eu só lá estive dous – N’um dia matárão-se 4 veados e 1 no ultimo dia. Além disso matou-se uma paca, uma perdiz, uma juriti e um nhambú quasi da porta. |O que eu senti forão os carrapatos q. deixaram-me inchados os lugares onde me morderão q. ainda me dóem. (Carta de Azevedo, 19.junho.1848) (grifo nosso)</p>
      <p id="paragraph-14">Os bailes e festas continuavam sendo a melhor forma de apresentar moças e moços<xref id="xref-42dbb062af800d242fe5444ec04b0563" ref-type="fn" rid="footnote-e92b9410dfc83761f33853ad71a51ee9">23</xref>. Em São Paulo, os bailes iam até meia noite e os pares eram escolhidos com todo o critério, e o rodízio de damas era comum entre os rapazes para que as oportunidades pudessem ser tecidas.</p>
      <p id="paragraph-d2c66c8a317ed94a4714fb81df6aa66f">Vejamos os relatos de Álvares de Azevedo:</p>
      <p id="paragraph-874c90ba393e0778217ec337a51e21a9">Emqto. no Rio reluzem esses bailes á mil e uma noutes, com toda a sua magia de fulgências e luzes, por aqui arrasta-se o narcótico e cinico baile da Concordia Paulistana – Nunca vi lugar tão insipido, como hoje está S.Paulo – Nunca vi cousa mais tediosa e mais inspiradora de spleen – Se fosse eu só o que o pensasse, dir-se-hia q. seria molestia – <italic id="italic-29b747f8cc9b3ca32df681f5e5eca1fc">mas </italic><italic id="italic-8c2d919605a42241dcd1df88ffd4090d">todos pensão assim </italic>– A vida aqui é um bocejar infindo| Nem ha passeios q. entretenhão, nem bailes, nem sociedades – parece isto uma cidade de mortos – <italic id="italic-d76072650a25b879c76a30feca9779c5">não ha nem uma cara bonita em janella, só rugosas </italic><italic id="italic-aacc084e8c6cdc3d20ea68c51f63b9cd">caretas desdentadas – e o silencio das ruas só é quebrado pelo ruido das </italic>bestas sapateando no ladrilho das ruas. (Carta de Azevedo, 12.junho.1849) (grifos nossos)</p>
      <p id="paragraph-fb7a4b5f6cfa524835eac44130c81994">Essa impressão de Álvares de Azevedo justifica-se pela forma alienada com que as paulistanas acabavam sendo criadas. O ingresso à escola não admitia a presença feminina, apesar de, em 1847, a Assembleia Legislativa Provincial (Lei n.5, de 16.02.1847) já ter aprovado a criação da Escola Normal para a formação primária do sexo feminino<xref id="xref-02f37d4d7f7c0d83220b4d45454353d5" ref-type="fn" rid="footnote-0b8254a286ea88eff3c4db13c422a83d">24</xref>.</p>
      <p id="paragraph-8d1e85da962a3326e9546dad8c2a4d5b"> O clima, apesar de ser considerado ameno na opinião de SPIX E MARTIUS (1981: 145), poderia ser responsável tanto por doenças quanto mortes. Apesar de estar na zona temperada, a São Paulo do início do século XIX era fria, entre 15º e 23ºC. Tanto doenças quanto mortes justificavam-se também pela falta de um atendimento médico razoável à população, mesmo a mais abastada. O jovem Álvares de Azevedo depõe sobre algumas cenas da gélida cidade, comentando doenças e mortes decorrentes da baixa temperatura:</p>
      <p id="paragraph-1af34f6d7fc213b395c414b86f9248f5">Além disto, voltamos de noute, e chegamos gelados do frio – A geada foi tão forte nessa noute – a mais fria que tem havido este anno – q. aqui no quintal achou- se uma pedra de gelo do tamanho de uma mão – Um negro (d’um fulano Cantinho) q adormeceu bebado na varzea do Carmo, amanheceu morto (Carta de Azevedo, 19.junho.1848)</p>
      <p id="paragraph-e93dc93f58aa4648244614e6ebb02e0d">Apesar de não ser doentio S.Paulo ha por aqui bastantes doentes – Em casa do Claudio somente ha 5 pessoas de cama – e alem disso a Olympia q. é talvez a mais doente – porq. é a q. hade morrer qdo. menos se pensar. É raro o dia q. aqui não ha enterro – Hontem houverão 3 (Carta de Azevedo, 26.julho.1849)</p>
      <p id="paragraph-7b0929bc29b4ce2302700e880f06b480">Notemos que os rituais fúnebres, tão comuns até a primeira metade do século XX, nesse período distinguiam classes sociais. Percebamos o caso relatado por Azevedo, em que a filha de um conde tem seu féretro acompanhado com toda a “pompa e circunstância”, arrastando uma multidão pelas ruas de São Paulo, como era hábito – a morte, também ela, era lazer:</p>
      <p id="paragraph-6e4036068e70b8b702963bc6729beea3">Morreu a linda criancinha de um ataque de convulsões na madrugada da 2ª. feira, e nessa noite <italic id="italic-4227b76785392c97de48255cd82f7f97">enterrou-se, com a maior </italic><italic id="italic-bbf8793384b9f00e8670bd0888983701">pompa possivel em S.Paulo</italic>. |Era de ver como estava bonito o anginho com sua coroa de flores na testa branca como jaspe, com suas mãosinhas postas no peito apertando friaszinhas uma plama de frocos verdes, alvas como as roupas candidas bordadas de oiro, vião-se as dobras da capaca de velludo azul bordada tambem a fio de oiro. A criança era o retrato mais perfeito possivel da mãi – é aquella testa erguida, aquelle nariz arrebitado um pouco etc. O conde está inconsolável, segundo dizem. Apesar da chuva, houve mta gente. |Para torna-lo mais solemne, fizerão ir ter o enterro do Acú ao Carmo – isto é de um dos extremos da cidade ao outro Houverão bandas de musica etc. |(Carta de Azevedo, 19.julho.1849) (grifo nosso)</p>
      <p id="paragraph-009ab735b150b9196d8aee270c0acba3">Quando lemos hoje as impressões de visitantes da época sobre comportamentos cidadãos, como os de moças ‘casadoiras’, verificamos que um dos fatos que muito incômodo traz aos vindos da Corte era a presença de uma língua vernácula paulistana nas rodas de elite. Assim avalia Álvares de Azevedo:</p>
      <p id="paragraph-15cc49ba33a7ef5bbb5a22402d9216e6">A terra de S.Paulo tirando-se 4 ou 5 fam.as pode chover- lhes o diluvio de grandissima injustiça – só com essas fam. as danço eu – Pela morte da D. Joanna – a saber, do Claudio, as Xavieis e as Milliets não irão a bailes tão cedo – e ir a bailes p. a <italic id="italic-14a7630419be173040dfe50e67d305cd">dançar com essas bestas minhas patricias q. só abrem a bocca p. </italic><italic id="italic-d34715f90d0432e35a359f0b0497d374">a dizer asneiras </italic>acho q. é tolice – Não julgue Vmcê q. fallo com exageração – a moça senão a mais bonita, a estatua mais perfeita em tudo uma Belisaria (Mineria) é uma estupida q. diz – <italic id="italic-898639fc740785b17c5333c4bfcf8829">Nós não sabe dança poquê</italic>, etc. e comtudo é uma belleza mas é uma estátua estúpida e sem vida – como diz o soneto do Octaviano. Por isso resolvi-me a não ir ao baile – mas comtudo m.to agradeço as luvas porq. se p.a esse não servirão pr. a outra vez servirão. (Carta de Azevedo, 4.agosto.1848) (grifo nosso)</p>
      <p id="paragraph-819eda0cae8ab74d77ae6d6d9e644c55">Se antes desse período a Igreja geria os contratos nupciais, com a proclamação da República, Estado e Igreja dissociam-se legalmente e surge o casamento civil. Em consequência disso, a Assembleia Provincial e a Câmara Municipal foram desativadas. No lugar desta última, surge, em 15 de janeiro de 1890, o Conselho de Intendência Municipal, com muitas responsabilidades, dentre as quais administrar os registros do casamento civil, uma novidade vista com certo receio pela sociedade paulistana:</p>
      <p id="paragraph-0865b5dc3d79b8a699857df645662922">Por aqui nada de novo, excepto o proximo <italic id="italic-c41b196a08c35ab983b936a72166b4f8">casamento de tio </italic><italic id="italic-74566db4f4aa98c6dd115fe09f0b57c5">João</italic>. Tenho medo da boneca, senão ahi lhe diria q. casa com a filha de um Major Joaquim Antonio – a moça, p.a meu gosto, senão a mais bonita – das mais bonitas ao menos de Santos – É de feição do genero da Chiquinha Xavier – Mais alta que baixa, cabellos e olhos negros, morena – Tudo isso dourado com os reflexos de <italic id="italic-24ef40f7a17d944717342e24a6a8b426">um dote de 50 contos para cima </italic>– Digo reflexos porque o pai da moça é um grandissimo ginja, um tipo de Dr. Sovina, que <italic id="italic-fd1c5912479c8437eade0627f2ece228">nem deu dote à 1ª que casou </italic>– Com esta veremos. (Carta de Azevedo, 06.outubro.1849) (grifos nossos)</p>
      <p id="paragraph-284dda528fac5ebf6e9e07a8fddfc8a1">Como depreendemos do excerto anterior, agrega-se às novas práticas o antigo costume<xref id="xref-f2cef3aeb8658ec4b16f784a844f2c17" ref-type="fn" rid="footnote-e6f053c13b2c127727ef184c5993f93a">25</xref>. A partir de então, a novel forma de casamento (civil) passa a coexistir com o ritual religioso e com a prática de dotes. A tradição paulista torna-se mais complexa, portanto.</p>
      <sec id="heading-82356a68e5ef142b05f515fe84f529b2">
        <title>2.1 Os costumes e hábitos locais</title>
        <p id="paragraph-ac6552c90a7291f8302c96405dddc924">Por meio da análise dos diários, tomamos contato com registros que podem enaltecer o comportamento dos habitantes locais, mas também podemos nos surpreender com a repulsa a outras práticas que se distanciam do que era considerado modelar entre as pessoas vindas de ‘metrópoles’. Surpreendente é reconhecer, pelas escritas do próprio bispo, tanto sua percepção sobre algumas ações quanto suas intenções ao adotar medidas de repúdio. Estamos, por assim dizer, conhecendo por dentro os mecanismos sociopragmáticos de condutas que devem guiar as práticas cotidianas entre os povos visitados.</p>
        <p id="paragraph-0f5004f09b669343d64115c3c2b1143b">Uma delas é evidenciada pela deferência devida a personalidades da Igreja naquele momento do século XIX<bold id="bold-ed54224e4ce37a7e84791491bcd6e89c">:</bold></p>
        <p id="paragraph-9440b917d6137fe4e4119c627885d9a9">Montamos a cavallo; <bold id="bold-80d63967c235c79bc271a8f0652412e1">o meu </bold><bold id="bold-df77ea73173773f46c3ec242924cdd2f">| </bold><bold id="bold-70bf81afadc0c337db15c56a9f6e11f4">tinha cabeçada e </bold><bold id="bold-753e2dd746a1d564e225b27714b2783a">|</bold><bold id="bold-7"> </bold><bold id="bold-8">peitoral,</bold><bold id="bold-9"> </bold><bold id="bold-10">redeas,</bold><bold id="bold-11"> </bold><bold id="bold-12">laso</bold><bold id="bold-13"> </bold><bold id="bold-14">e</bold><bold id="bold-15"> </bold><bold id="bold-16">|</bold><bold id="bold-17"> </bold><bold id="bold-18">estribos</bold><bold id="bold-19"> </bold><bold id="bold-20">prateados</bold>. Aqui | chegamos às 4 horas. Apeamos | na estrada de villa junto a pauta | do rio Sangão. De outro lado da | ponte nos esperavam <bold id="bold-21">um grupo | de meninas e moças vestidas </bold><bold id="bold-22">| de branco</bold>, muitos homens e | senhoras. Viemos a pé até | a residencia, que é na casa | da familia do Senhor Julio de | Souza Avila. Em nossa pas- | sagem, de diversas casas ||[fl.2v.] Jaguaruna|<bold id="bold-23">particulares</bold><bold id="bold-24"> soltaram muitos | foguetes e foguetões</bold>. As | ruas todas e a praça da | egreja estão magnífica- | mente <bold id="bold-25">ornados com densas | alamedas de palmeiras, | </bold><bold id="bold-26">muitos, bellos e enfeitados | arcos</bold>, diversas (as mui | tas inscripções, uma em la- | tim) com saudações a mi- | nha pessoa, bandeirinhas | em numero crescidissimo | acompanhando e cubrindo| as ruas. Lá na chegada | <bold id="bold-27">as meninas me jogaram | flores </bold>e o Padre Pizzio fez | uma curta saudação. | Em frente a casa do Senhor | Joaquim Coelho, no topo de | duas colunnas estavam | coloccadas duas <bold id="bold-28">meninas </bold><bold id="bold-29">| </bold><bold id="bold-30">ricamente vestidas</bold>, que|| [fl.3r.] Jaguaruna|<bold id="bold-31">me</bold><bold id="bold-32"> </bold><bold id="bold-33">jogaram</bold><bold id="bold-34"> </bold><bold id="bold-35">flores</bold>. Á noite | a illuminação da egreja e | das casas particulares foi | geral e bonita. A egreja | tambem está bem enfeita | da tem um bom salio, com | 2 degraus, cadeira de braço | espaldar e docel. (Diários, 21.6.1902)</p>
        <p id="paragraph-2449259fc60391ad13ff6001016ebbf6">As formas de saudação e de demonstração de apreço do povo com a chegada do bispo são circunstanciadas desde os espaços da vila até o interior da igreja. A presença destacada de meninas e moças vestidas de branco, do cavalo ajaezado que destoa dos demais, por um lado, e as flores, os arcos e os foguetes, por outro, indiciam um momento de exceção na rotina da vila (inclusive com um arco inscrito em latim) e, ao mesmo tempo, regozijo em nome da Igreja, usufruído pelo Bispo. Outros trechos passam ao leitor imagens de uma ritualística festiva católica, mesclando o que GUENTER SUESS (<italic id="italic-de81131245c74b232d9649d263c4e7e1">apud </italic>CARVALHINHOS, 2005: 85) rotula de Catolicismo Popular Ritual e Catolicismo Popular Festivo<xref id="xref-728cf367dfcb1d327be4d1d6c00f17c9" ref-type="fn" rid="footnote-232f536d952e5ffb828ee6a3886539e8">26</xref>:</p>
        <p id="paragraph-17978dbc9be7baae02e3cb4dbfbb435d">Neste chrisma, <bold id="bold-e8d7de4e052e27102d29ef7533720c6a">descobrimos 3 ou | 4 pessoas que iam se chrismar | sem confessar, pelo que passei | uns pitos enérgicos. </bold>(Diário, 13.4.1895)</p>
        <p id="paragraph-04ebdcc083a301f9c1258523d2532531">Como até aqui se | tem desprezado um pouco os | meus avisos a respeito da con | fissão para o chrisma, aqui <bold id="bold-f40b9dc86455e9ec7a637640cbee9d01">co- <bold id="bold-82a152a02cbdb10be86fd6846cc47912"/></bold><bold id="bold-30b9867af563db2e72a3a0c1e67e8bcf">|</bold><bold id="bold-5bc6e227c28b23c2de42d899455873a3"> </bold><bold id="bold-63428f74764917725bd3710899314b5a">meçamos</bold><bold id="bold-66955afc7e13b2c2382cedcc07910c6a"> </bold><bold id="bold-7b915a0326a98004bdfaea40d0967327">a</bold><bold id="bold-965b2bce7ae8c7657ced605a0b690847"> </bold><bold id="bold-dea385da3dc91f5083ca9b49c61ab21d">dar</bold><bold id="bold-61736d9d045ab0a2d85162a435e90810"> </bold><bold id="bold-63411df03bbdf7a5e1995d0dc55acf28">os</bold><bold id="bold-e6a306a4c9c2e8a0b9456b18ad2265ca"> </bold><bold id="bold-af34c07309e70c8e492a40d5eca269f5">bilhetes</bold><bold id="bold-1797021e3588258479181100c93b9c5e"> </bold><bold id="bold-1ec5b20cc10d80044c4796d3956dd272">da </bold><bold id="bold-28e7b2fe0e20b5d3b7f491332abffe5d">| </bold><bold id="bold-f0f702d5b05f4a205e17850e2934bec5">confissão </bold>e a fazer o chrisma | de portas fechadas, e o facto é que | tem ocorrido magnificantemente bem. (Diário,16.04.1895)</p>
        <p id="paragraph-f3afa48ba114511f5a0a2453f7359f78">Alguns comportamentos e atitudes dos populares eram fortemente reprimidos pela Igreja. Um deles equivale a suprimir passos do ritual de crismas. Com o fim de coibir essas práticas, bilhetes de confissão eram distribuídos. Ao mesmo tempo, essa prática coercitiva visava a doutrinação de seus fieis.</p>
        <p id="paragraph-5935e296deac4e45cf6876fb1407d358">É possível reconstruir alguns rituais católicos por meio da leitura de alguns excertos. Nos que seguem, reconhecemos um costume aparentemente em desuso (o beijar o anel ao bispo), com o qual convivem outros sacramentos e rituais, tais como crisma, missas, ladainhas e encomendação de almas:</p>
        <p id="paragraph-ef6f6845fe0362b42f65d7f596458293">Em Garopaba, ce-| lebrei às 4 horas, depois da missa, | chrismei ainda algumas pessoas | e <bold id="bold-e881d4be3cdec151e0a4828a9a89c1f9">dei o anel a beijar </bold>àquelles que | entravam na egreja. (Diário, 15.4.1895)</p>
        <p id="paragraph-fc26c132b80d344235b2f2a1512a226d">Fizemos a entrada solene às 6 ½ | horas da tarde, debaixo do pa | lio, com os paramentos pontifi | caes e com todas as cerimonias | do costume. Alem de 9 irmãos | do Santíssimo que nos precediam nin | guem absolutamente nos acom | panhava. Quando entramos na | egreja, não havia uma só pessoa | <bold id="bold-98b433489da0eff8480f4ba7ccc24ce1">Cantamos Ave Maria Ladainha, no fim | da qual fiz uma prática do altar | mesmo</bold>. (Diário, 15.4.1895)</p>
        <p id="paragraph-3946b76b2a73956c32fb7b018b6c1ac5">No Merim hoje celebrei as 4 horas da ma | nhã. Acabei a missa <bold id="bold-a45f2869d870e3a7fc70e41bd4481db4">fiz a encomendação | das almas</bold>, como de costume e no fim | desta chrismei ainda muitas pessoas e | depois fiz a pratica de despedida e <bold id="bold-a6d72c4fd828b96999326068cb800377">dei o </bold><bold id="bold-ba794d19274d3c744ef73add595c42f9">| annel a beijar a umas 600 e tantas pessoas </bold>(Diário, 18.4.1895)</p>
        <p id="paragraph-df270ac233185dbd7346b3781ce59669">Em outro nicho social, o progresso já se evidenciava desde 1872, quando a Companhia Carris de Ferro pôde inaugurar o sistema de transporte coletivo inédito, qual seja, veículos puxados por animais, os quais rodavam em trilhos (daí o nome bonde). Isso contrastava com o que ocorria nas cidades menores e nas pequenas vilas, onde os trajetos percorridos pelo bispo tinham no cavalo a melhor opção. Trajetos mais longos eram realizados por trem ou mesmo, de acordo com a topografia, por barco ou canoa.</p>
        <p id="paragraph-11b82807fba373fd2742c705a98ded4f">Sahimos de Ga- | ropaba, <bold id="bold-1ef6a14ee2e974339b20bf38bac39214">a cavallo</bold>, ao meio dia, a- | companhado de uns <bold id="bold-97d2329032dce80a6fbcc122f6a8a421">40 cavalleiros</bold>, | entre os quais o Vigario Padre Faraco, | o dr. Thiago, o David do Amaral | o Cascaes etc. nos acompa- | nharam até a Santa Cruz que | tem aquem da divisa (benta pelo | Vigário de Garopaba) pertende ao | Merim. Um pouco para cá en- | contramos os cavallos que | daqui nos enviaram. <bold id="bold-7e83f310627d69d8f4492adf9a0a0647">Muda- | mos de animaes</bold>. Aqui chega- | mos sem ser esperados, as 3 ½ | [espaço] da tarde . (Diário, 15.4.1895) Padre Rossi e o Francisco vieram | de <bold id="bold-08e7a0f5a9758ff57840aaa4403aae7a">canoa </bold>e <bold id="bold-889df25e8ab52d37c2657ad5d52b31b4">carro de boia</bold>. Aqui fo| mos recebidos por todo o povo, ao som | de uma banda de musica (Imaruhy) e | ao estourar de muitos foguetes. (Diário, 18.4.1895) Ás 11 ½ partimos para o embarque na | <bold id="bold-5fa665409bf81ca0600d435ce1418b4a">estrada de ferro</bold>, sendo acompanhado | por quase todo o povo. Como a ma- | china trazia lá um ferro quebrado, | tivemos de voltar a Imbituba e | assim tivemos a opportunidade | de vêr esta estação o porto, e a | officina. (Diário, 20.04.1895)</p>
        <p id="paragraph-c0dd0a908f2bfe8063ae0682a96f7550">Aqui <bold id="bold-f1da409875b7730350c08920b7568dec">tomei </bold>| <bold id="bold-481aaaa8d3f044658c611252c2879106">um cavallo </bold>ao meio dia e | segui para o porto da Ilhota, | acompanhado dos meus com | panheiros, dos Padres Bernardo | Frederico, Chiliuski e de | perto de 50 cavalleiros. Às | 12 e 40 chegamos ao porto | da Ilhota. Aqui com <bold id="bold-4f2e4ea0e11be29c487e1ce493d79afd">uma </bold>| <bold id="bold-8dbd9c9fac9e30ed77147874d21ab821">boa canoa </bold>nos esperava | Padre Miguel Pizzio e os | cidadãos Luiz Francisco Pere- | reira, Luiz Nicolau e João Schmidt. | Embarcamos e às 3 horas, | com feliz viagem estivemos| do outros lado da lagoa Jagua- | runa. Descendo o braço des- | ta lagoa, vimos 3 bonitas ||[fl.2r.] Jaguaruna | garças brancas e um sabiá | do pantano; é preta com o pesço- | co e cabeça vermelhos.(Diário, 22.7.1895)</p>
        <p id="paragraph-23963c6eba8864df6e3ffef925ef8410">Além do relato filtrado pela visão de um homem da religião cuja realidade era o meio sociocultural de fins do século XIX, esses diários revelam ao leitor o íntimo de um homem cujas palavras denotam preocupação (pelo menos aparentemente) com seu papel social e com que seus sentimentos prejudiquem sua posição ou seus propósitos:</p>
        <p id="paragraph-58426bad6d5288082c4e34a1632489d3"><bold id="bold-bba09fc13e8e3bb2a694310be45a7379">Hoje extranhei </bold><bold id="bold-5af30146b0d6a83789a500949b3f8f2e">| </bold><bold id="bold-8c29ecd478f0f5bdd342a5ffe12ee579">que ninguem, absolutamente ninguem me </bold><bold id="bold-b903b39d695cdf6545a2531eaddd5435">| </bold><bold id="bold-da15f8ec0304089ce2db8d24de77837c">tivesse vindo visitar-me, Por que </bold><bold id="bold-cd7b31d93c61d94725775cf83001d6eb">||</bold><bold id="bold-d0afa3813da1a48aedb4656b61fd12d9"> </bold><bold id="bold-dd607383d0e63cdb72ad431c32096f0a">[fl.7v.] Laguna| será? </bold>Ó doce Coração de Jesus, | não permittaes que a autorida | de episcopal, de que me acho in | dignissimamente revestido seja | menosprezada por causa dos meus | pecados e de minha ignoran | cia. Não, não. Antes morrer do que | concorrer para que vosso [nome] santo | seja vilipendiado por causa dos | meus defeitos. | Hontem [duas] horas antes de | nós aqui chegou o vapor Lagu | na, que faz a viagem até o Des | terro, tres vezes por mez (Diário, 21.04.1895)</p>
        <p id="paragraph-9ad129c81f47c1b94e1ea9c2853a1ba0">Missa 8½; antes da missa, confessei | 4 moças Às 11 e 5 horas chrismei. | Ás 2 horas, recebi visitas do Juiz | de Direito, dr. Pedro Celestino, do Con | selho municipal e do Commercio| representado por 9 individuos, | em nome dos quaes fallou o phar- | maceutico Miguel. Ladislau Aranha | Dantas (bahiano). <bold id="bold-7764b3a92e7d069734f8eabf6d9693dd">Tenho extranhado <bold id="bold-adc7ef437e98e441212c00de35713df5"/></bold><bold id="bold-f6680bccad2d735787103c19fbc8075d">| </bold><bold id="bold-225a192fbc1d6a3680918917d2d19044">muito o retrahimento do povo desta </bold>(Diário, 22.7.1895)</p>
        <p id="paragraph-209744b80e5668aef66076cf71ac5f32">A uma legua | de distancia, fomos encon- | trado pelo vigario Ludovico | Coccolo e padre João Cananico e uns 12 cavalleiros | e depois mais seis. | Chegamos ás 4 ¾ da tarde | Tomamos café e de murça<xref id="xref-a1210e4a41e17fbd4fef8aa2e00910d0" ref-type="fn" rid="footnote-59195b1b3499d17ec7a0e1e445658937">27</xref> | fomos a egreja. Depois de | 3 Pai Nosso cantados pelos fieis | fiz uma pratica e somente (Diário, 25.6.1902)</p>
        <p id="paragraph-65b32a1b0ace8955a37dff49fb8daae5">[...] <bold id="bold-61cf0719795a89ce8a752978f0879673">um pouco contrariado, </bold>montei | no cavallo do Vigario, fiz o frei | Florianoe o Padre Cananico mon- | tarem e parti sem acompa- | nhamento. Apezar disto den- | tro em breve me alcançaram | perto de 40 cavalleiros, que | vieram até a casa do Brigido | Joaquim de Almeida, (um pardo- | negociante rico) que nos | deu hospitalidade. (Diário, 21.6.1902)</p>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="heading-819fc18d350e231c6bdfdaa7c86a6108">
      <title>3. Pistas sociolinguísticas</title>
      <sec id="heading-e80c1bf3e0fab2373eed60fa69684ef3">
        <title>3.1 As formas de tratamento e a polidez</title>
        <p id="paragraph-705f55b6ad9874b4ca559efb57c5750b"> Em geral, prenomes e apelidos de família podem oferecer vários indícios como origem, classe socioeconômica ou mesmo outras influências, sobretudo se considerados aspectos que impactam na escolha de um nome. O título que precede um nome pode expressar distância ou respeito, além de particularização.</p>
        <p id="paragraph-565d17ffcc18f018abb706b0434a7824">No caso dos diários, os antropônimos vão dando o tom ao leitor ao revelarem a forte presença alemã, e mais ainda italiana, nas regiões visitadas pelo bispo. São diversos os modos de referir-se aos cidadãos que vão aparecendo nos relatos, sejam citados pelo prenome, pelo nome completo: <bold id="bold-ed2ccb8f965f1c6e1d04ddb16cfebb5f">Senhor Julio de Souza Avila e Senhor Joaquim Coelho, </bold>ou no trecho “os | cidadãos <bold id="bold-4a36cfdf67fac759b4016dacc861eb78">Luiz Francisco Pere- | reira, Luiz Nicolau e João Schmidt.</bold>” (Diário, 22.7.1895) ou mesmo por comentários que individualizam a pessoa citada, sempre indicando a visão de mundo do autor dos diários. O prenome indica mais proximidade do autor: “Em | casa do <bold id="bold-9d551becb3e5ac64811ddcb21c3fd977">Clemente </bold>tivemos bom tes- | tamento, mas por falta de colchões | na localidade o <bold id="bold-f9a896ef34e42ea50085b614e9b20872">Elisiario </bold>dormiu | numa cama de vento<xref id="xref-def5455d849ec8f61a20054dc4b49897" ref-type="fn" rid="footnote-b8f1cfd29c334e6d04ae965a230e7913">28</xref> e o <bold id="bold-b9ef5e60b537c95a6bad72a1e0a6fdf0">Fran</bold>- | <bold id="bold-8e4aeef0f7be42b7dd10ea77b2fb0ec6">cisco</bold><bold id="bold-05c868d43c634845365a06e02f74a5ee"> </bold>no assoalho.” (Diário, 16.4.1895)</p>
        <p id="paragraph-0ad609be5da1baa1087bc84692567aea">Parece também indicar proximidade o que consideramos alcunha, <bold id="bold-0321210c481387c5d44525b7b46f5b35">Cascaes</bold>: “o <bold id="bold-0ec88a8b638f17667bee66bb6fd6a384">Cascaes </bold>etc. nos acompa- | nharam até a Santa Cruz que | tem aquem da divisa (benta pelo | Vigário de Garopaba) pertende ao | Merim”. <bold id="bold-72ef0f8c203f1c352d77ba4612ce987b">Cascaes </bold>poderia ser uma identificação pelo apelido familiar, mas o autor usa sistematicamente o modelo prenome seguido de apelido em todas as demais ocorrências. Às vezes, acompanha o nome um comentário: “vieram até a casa do Brigido | Joaquim de Almeida, (<bold id="bold-0fda0698682216b4a610efbbe337ccfc">um pardo- | negociante rico</bold>)”, ou: “estamos no Me | rim, hospedados em casa do Senhor | Merim | Clemente Pacheco da Silva, <bold id="bold-bbf7fa719bdaf60371ef2cea77d7dfca">primeiro comerciante | do lugar </bold>[...]”. (Diário, 15.4.1895)</p>
        <p id="paragraph-abb3b7b67e59c59dad1c759f29ee27d5">Os títulos são importantes para o autor. Alguns indivíduos são particularizados por sua profissão: “do Juiz | de Direito, <bold id="bold-9ebcbd311de6c889d640aa7ecb58657a">dr. Pedro Celestino”</bold>, “<bold id="bold-da493972886dd301964663883b1f663e">o phar- | maceutico Miguel</bold>. Ladislau Aranha | Dantas (bahiano)”. Também particularizado pela profissão, não há deferência nesta identificação: “o Comissario | de Policia, <bold id="bold-352f1f6ea5e3da57266a52103d21b014">um tal Gabriel</bold>.”</p>
        <p id="paragraph-f42a76b33b9f41631d1d953f9c4f256b">Muitos títulos são eclesiásticos. O autor parece reconhecer seus  colegas de batina pela hierarquia: Padre Alberto, Padre Auling, Padre Topp, Vigário Padre Faraco, vigário Ludovico Coccolo, padre João Cananico, frei Salano, Padre Miguel Pizzio. Quando não, apenas o cargo identifica o indivíduo, como em que cita o “<bold id="bold-8bdcb7c7c6fabccd65bf9bc180d27f6a">Vigário de Garopaba</bold>”.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-07df983deb0e3503136450ca3ead6eaf">
        <title>3.2 Os topônimos nos diários</title>
        <p id="paragraph-10e490c16c8f002520d97942fb69a266">Um topônimo tem por função precípua a identificação. Marca, contudo, elementos linguísticos característicos de determinado período, bem como elementos arcaizantes, processos de gramaticalização, realizações fonológicas antigas, traços sintáticos, etc.</p>
        <p id="paragraph-236ea452f2cf2008f82e540a8e4b3e49">Quanto mais antigo o nome de lugar, maior é a possibilidade de se encontrar elementos fossilizados, ou seja, preservados na estrutura do nome. A escolha também revela a cosmovisão do denominador, seus valores, crenças e interesses individuais ou em grupo. No Brasil, contudo, o tempo ainda não exerceu grandes transformações linguísticas em topônimos de filiação portuguesa, salvo por alterações ortográficas. Em termos de identificação, usam-se na comunicação tanto topônimos oficiais ou reconhecidos pelos poderes públicos como elementos com valor locativo, que exercem a função de topônimo no ato de fala e identificam um lugar.</p>
        <p id="paragraph-d670887b5d38e43a276b5738497936f3">O roteiro da viagem de D. José em fins de século XIX e depois em início do século XX mostra, pelos topônimos citados, um Brasil em período de transição política, do regime imperial para o republicano. A cada página, o local onde escreve aparece em destaque, no cabeçalho:</p>
        <fig id="figure-panel-51bd2962893fb028e3aaffaa11bd052e">
          <label>Figure 1</label>
          <caption>
            <title>FIGURA 1: Excerto de página do Diário (livro 2), “Laguna”, registro entre 1895 e 1897.</title>
            <p id="paragraph-43644c202000c4efe517e46c2187a6a5" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-cc93edd8ebcbe96de071d6dd4ccc1d3e" mimetype="image" mime-subtype="jpeg" xlink:href="1.jpg" />
        </fig>
        <p id="paragraph-71f9f5f43f0f953c2ce0623199440edc">Também a transição entre partida de um lugar e chegada a outro no mesmo dia fica registrada com a presença de dois topônimos no cabeçalho, como em 20.4.1885, cujo cabeçalho mostra a estrutura <bold id="bold-0e7ea5c11240605548c75c171fea300f">Villa </bold><bold id="bold-d26ffc367ee2633e2c146e172a3ba989">Nova Laguna</bold>, ponto de partida e de chegada no dia registrado.</p>
        <p id="paragraph-b2d4ea6170590529a6109fb60631841a">O primeiro espaço retratado em diário, do final do século XIX, está próximo à atual cidade paranaense de Paranaguá, conduzindo o leitor por um percurso que passa por <bold id="bold-5a03683158eebe26f1a5de31912a5d2b">Garopaba</bold>, <bold id="bold-8b7e5f70c016613bdb6a50fdbf775135">Merim</bold>, <bold id="bold-eff95b4af69afce4d4593d5b5e337a96">Villa Nova </bold>(e a <bold id="bold-480dfee4f3d0a9462c6c192a449ee225">lagoa de Villa Nova</bold>), <bold id="bold-24f16e688d4b0a84ab506237d41142f9">Laguna</bold>, <bold id="bold-b2852f15a65c248e9ff6d7e33c5df545">Imbituba</bold>, <bold id="bold-135d3b8d73bfa6df156722ac30600d23">Desterro</bold>. Além disso, é citada a <bold id="bold-00b52bfdfc657b085759314317102aba">Lagoa de Imaruhy </bold>(hoje Imaruí).</p>
        <p id="paragraph-7c9a1003051f2b772e7d6a141d5dfdc8">O outro diário, já em 1902, destaca uma porção mais ao sul do território: <bold id="bold-25de8e8b73bb9807faf82418059fe7cf">Tubarão</bold>, <bold id="bold-2adaa5cf6bb8061535fb20a45d11db5f">Jaguaruna</bold>, <bold id="bold-25afef483e27d6fb158f992cf0663466">porto da Ilhota</bold>, <bold id="bold-df51762fbad58eedc83dd8fe3e425e83">Rio Sangão</bold>, <bold id="bold-0fb6a4b1a70ce0cac47e2b75f63ea7dd">Urussunga velha</bold>, <bold id="bold-7522f679e505ffc81bc77f2d92784f06">Araranguá </bold>(rio e <italic id="italic-279cddf1abf6f85751a4759d7827b015">villa</italic>), <bold id="bold-af169bae10cc582f5994a080406038e0">Cresciúma </bold>(antiga grafia de Crisciúma), <bold id="bold-46993a1635b3f17fb6628acfe091609f">Nova Veneza</bold>, <bold id="bold-a9af22abdb83e639f9573de7a587591d">Bellino </bold>e <bold id="bold-002ef5e583012314ba81805dce9369b4">Urussunga</bold>, além de <bold id="bold-d0a93acf30a8f5be1110dac5c6882248">Florianopolis</bold>.</p>
        <p id="paragraph-fa1c5263d3cc34b3dff71828ff897c8b">A descrição dos percursos acusa o uso dos topônimos oficiais, necessários à comunicação tanto em um registro mais formal quanto informal – independente, portanto, de outras variáveis como classe social ou gênero. O que se pode destacar, de modo bem geral, é a provável espontaneidade de nomeação como em <bold id="bold-e4fde9acd10eca1f87ce4e0125dcf22d">Merim</bold>, provável aproveitamento do <bold id="bold-80e3190fb31d38fc74e3dc8af6d812a0">Rio Sahy Merim</bold>, em oposição ao <bold id="bold-bfd3f31262166c105a58dcefdc4ea3e1">Rio Sahy Guassu</bold>. A vila ou o povoado de Merim não mais existe, pois provavelmente foi incorporada a Garopaba ou mesmo a Laguna. A forma homônima aparece registrada, bem como outros nomes, em mapa de 1863:</p>
        <fig id="figure-panel-3f4b54e723eca6552631fd9b0b2a89ed">
          <label>Figure 2</label>
          <caption>
            <title>FIGURA 2: Excerto do Mappa da Provincia de Santa Catharina do Imperio do Brazil (1863)<xref id="xref-18ee2396d5b3966db559a2d876b6dc0b" ref-type="fn" rid="footnote-18df73bccff95b4c3b04006bf459d89a">29</xref></title>
            <p id="paragraph-dec346837ef11341148549173576d3d2" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-113c46605c595d49c5b6d0bd8613e1cf" mimetype="image" mime-subtype="jpeg" xlink:href="2.jpg" />
        </fig>
        <p id="paragraph-895c657dba6f729d271713bc8c03a10a">Por outro lado, o lapso curto de tempo entre os dois registros, um a fins do século XIX e outro em princípios do século XX, é o suficiente para apresentar a mudança que se impõe na passagem do regime político, ilustrada em Santa Catarina mas presente em São Paulo e em todo o Brasil: a substituição de nomes de lugares. Assim, a antiga <bold id="bold-82ce3b6e1bd7917e4384d842ae5c9b11">Desterro </bold>aparece cambiada em <bold id="bold-f37ef400ef10ed3c60cbcfcbab93370b">Florianopolis</bold>:</p>
        <p id="paragraph-9b65baaa7fdcb03204b22ee2b5e83be3">Hontem [duas] horas antes de | nós aqui chegou o vapor Lagu | na, que faz a viagem até o <bold id="bold-599125392a9778ab8563af5bc4624bb6">Des </bold>| <bold id="bold-6105e0171cc9433699a9231ebfa6e364">terro</bold>, tres vezes por mez (6=11 e 21) (Diário, 21.7.1895)</p>
        <p id="paragraph-c2939ebd5abd31c555d52d26e0f61ddb">[...] À noite bella, geral|e profusa illuminação da|egreja, praça, rua, e casas|particulares, como no pri-|meiro dia. Passei um tele-|gramma as Consul italiano,|<bold id="bold-63e0c60732abdbd898ecd72c5b526780">Florianopolis</bold>, agradecendo | saudações pela chegada em | Urussanga [...] (Diário, 14.7.1902)</p>
        <p id="paragraph-a288b4a9c877ff5a2cf3fbd21d3c3af0">Os topônimos e todos os locativos são elementos democráticos, pois por fazerem parte de um importante esquema conceitual e cognitivo interno de cada indivíduo costumam ser únicos entre uma comunidade, seja ela grande ou pequena, relativizando e equalizando diferenças que podem ser percebidas em outros tipos de manifestações linguísticas. O uso toponímico, aqui presente em registro escrito por indivíduo letrado, não seria diferente entre pessoas do povo ou mesmo analfabetas.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-0c0a9810d1f4df968700d29a92d641ec">
        <title>3.3 Quantificadores</title>
        <p id="paragraph-37b4d2560cb81b883db172339720d7b4">Uma variedade de expressões codificadoras de quantidades imprecisas ou indefinidas é empregada pelos padres.</p>
        <p id="paragraph-89947b374930012d65a863bd4f2284f0">Tenho recebido muitos presen | tes: 4 gallinhas, uma perua, uma bandeja | de doces, <bold id="bold-35ba8ddc44bf4ad4305ccdec8f5c0dd3">um bocão de </bold>suspiros. Depois | do jantar, fui à pé até o cemiterio e | passeei um pouco pela praia (Diário, 13.4.1895)</p>
        <p id="paragraph-f7503cd9c590f03e56fa4e35f841e29b">Missa às 8 ½ - chrismas às 10 e as 5, | em seguida visita da egreja e | assistência a novena, na qual | prégou o Padre Alberto. Acabada a | reza, nos tres (eu em casa e os | dois na egreja) confessamos até | 11 horas da noite. Hoje chegou | <bold id="bold-45e218aad1e95201c059d32e5c3271ef">muito povo</bold>. A egreja completa | mente cheia e muita gente fora. | Tempo explendido claro e fresco. (Diário, 16.4.1895)</p>
        <p id="paragraph-14993ebbb4c590af68eb3ad807f3c7be">Não fui assistir | por estar <bold id="bold-1c15d3d23ce8214d4ffc8e3d2d01e504">um pouco </bold>cansado. O Merim está a mar | gem da Lagoa, Villa Nova está a margem do mar | grosso. Estamos hospedados na residencia pa | rochial que aqui chamam ((casa do passal)) (Diário, 18.04.1895)</p>
        <p id="paragraph-b746db2e20e70293b5bde5796a0a55ca">Na Villa-Nova, celebrei às 4 horas e em | seguida fiz a encomendação das al- | mas que commoveu <bold id="bold-346e5ea0761ff31bd852db7afc7316ac">algum tanto </bold>o povo. (Diário, 20.04.1895)</p>
        <p id="paragraph-acdd23c937d800bc6a6a7c1a61d0f64a">A esta hora, cada um no seu quarto. Ho- | je foi para nós um dia deserto. Celebrei ás | 8 ½; havia na egreja <bold id="bold-9005367e6de0170060098f777db151e5">muito pouca </bold>gente.(Diário, 21.4.1895)</p>
      </sec>
      <sec id="heading-2d8245c80ad453f0097cf21e808fa7a3">
        <title>3.4 Nomes comuns</title>
        <p id="paragraph-66c28b9b3886424c418647158cd9a268">Ao longo dos diários, nomes comuns chamam a atenção pelo arcaísmo ou desuso com relação aos usos atuais, como é o caso dos elementos <italic id="italic-017ae8b16b9e3be1d998592fb06f152b">canastra </italic>e <italic id="italic-70f4e02d0365b50b9b954f92e75da485">cama de vento. </italic>Também um elemento natural se destaca, <italic id="italic-68c949d08a73567beb00ecf59ea1f58a">palmito, </italic>que assume a acepção de <italic id="italic-0acec63a947d59a1cc614a2dae4f7297">palma </italic>ou <italic id="italic-9d7a4d6ef10691da404c306a18525a65">palmeira</italic><xref id="xref-d0ec1312585f08c71a9ce8f81d325448" ref-type="fn" rid="footnote-84674c6a3696f435ecdb42b079da5642">30</xref>, e não a de miolo comestível. Por outro lado, termos ligados à prática e ao dia a dia do religioso também aparecem, como <italic id="italic-dc0c807ade3479cdf12abc88d499459d">opas</italic>, <italic id="italic-8b48ead3661167e57a1ccc792622b641">genuflexorio </italic>e <italic id="italic-792e407ebba6672ed362bf21cb05dfc5">pallio</italic>. Também chama a atenção o termo <italic id="italic-8c6316211a205d3d4417be0d16b2375b">esmolas</italic>, substituído, nos dias atuais, por <italic id="italic-0f085d473ba5660fd3f6b8f194d209b8">donativo</italic>, <italic id="italic-5d2a77ab6addebf5aebd154c2a6421e5">doação</italic>, <italic id="italic-42e6e96e3e986042e57a9dcb58a5fc10">contribuição </italic>e, em alguns núcleos religiosos, <italic id="italic-0696812e1894d0446d83098cb40b5bd2">dízimo.<italic id="italic-c68371839c14af85c185dd709e18dfba"/></italic></p>
        <p id="paragraph-a65e87a70b86fc859d4368761103b7bf">As <bold id="bold-41adf9649761c18bed91d60b0ca9d4f3">canastras </bold>vieram | em carro de boi que só chegou | as 4 horas da noite. Soltaram al | guns foguetes na hora da chega | da, na entrada e no fim da reza. (Diário, 15.4.1895)</p>
        <p id="paragraph-59565987c9327731f6ad38f414cbc38b">É preciso não | esquecer do casamento, em que | quiz metterme o Comissario | de Policia, um tal Gabriel. Em | casa do Clemente tivemos bom tes- | tamento, mas por falta de colchões | na localidade o Elisiario dormiu | numa <bold id="bold-8d6fef40498bfea855b7bdc614dc589b">cama de vento </bold>e o Fran- | cisco no assoalho. (Diário, 16.4.1895)</p>
        <p id="paragraph-d4ffaca60180563afcd39c236b92d96a">Tomamos os parametros | na residencia, que é ao lado direito da | egreja e precedido de meninas e | homens de <bold id="bold-ffd024b259bfbb0dedf0252056eb9144">opas</bold>, de diversas cores (Diário, 18.4.1895)</p>
        <p id="paragraph-3c44c8e317ba12223f13ac941e306ad4">A egreja | tambem está bem enfeita | da tem um bom salio, com | 2 degraus, cadeira de braço | espaldar e docel. Ha um | <bold id="bold-457672b98ede2054c194f594476b0755">genuflexorio faguerio</bold>, | mas muito bem enfeitado. | Como a bagagem chegou ás | 6 horas da tarde, somente | á noite, podemos fazer a | entrada solemne. Tinha muito | povo. Observamos todas as | cerimonias da entrada solem | ne e no fim eu mesmo fiz | pratica de abertura. Volta | mos para a casa processual | mente (como fomos) debaixo | do <bold id="bold-81c848d253a3a2fdbd4e285bfff08834">pallio </bold>e precedido da | Irmandade de Nossa Senhora das Dores. (Diário, 21.6.1895)</p>
        <p id="paragraph-160d193132081ff4897f3bd0b40d025e">Celebrei ás 8 ½, assisti a pra -| tica feita pelo frei Salano e | em seguida celebrou o Padre Mi- | guel Pizzio. Durante a mis- | sa delle, eu mesmo expli- | quei a missa. Ás 2 horas | chrismei 35 pessoas, <bold id="bold-483721d795139473d8ad0f6f5785e8d1">esmolas </bold>| 35000. (Diário, 22.6.1902)</p>
        <p id="paragraph-87d7a810fb5ebcb118f8fedb3e905af9">Como preparos, aqui há apenas | <bold id="bold-86fd64aaca1c685b7a9c73dddbb851c6">palmitos</bold>, plantados na frente da | egreja e na minha residência. (Diário, 15.4.1895)</p>
        <p id="paragraph-f46eb2194351881a05c9181a4dc6d69c">Destaca-se, também, a forma <italic id="italic-2183e2a60cc64fe390d921353af61bc6">egreja </italic>(mais próxima ao <italic id="italic-f6ab5739363d86cc545205e0c64c393a">ecclesia </italic>latino), presente ao longo de todo o texto. Há nomes próprios aplicados a edifícios (<italic id="italic-59d0efd4b3b2b5a33cc099bbbe182672">Capella do Senhor Bom Jesus de Colunna</italic>), e ainda a um barco, em: <italic id="italic-2c8a6f218bfd70a27dcd097702c82f12">“[... ] aqui chegou o vapor Lagu | na [...]</italic>”.</p>
        <p id="paragraph-13">Pode-se dizer, à guisa de conclusão, que a seleção lexical dos nomes, comuns ou próprios, é tributo e patrimônio da época de sua enunciação.</p>
        <p id="paragraph-b554144faeb4368f6bd5c4bb2721cee3">Alguns nomes aqui abordados não mais são usados, evidenciando que são elementos de relevo na contextualização de uma época.</p>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="heading-41cf1852396d4401ac97899685301c51">
      <title>Considerações finais</title>
      <p id="paragraph-8924b832f8da7040b224c0e32815008c">As mudanças nos usos – costuma-se afirmar – são sempre muito tênues e imperceptíveis, mas, para reconhecê-las em sua dinamicidade de uso, nada melhor do que ter acesso aos registros históricos que guardam alguma distância dos tempos atuais. Neste texto, recorremos a cartas e diários manuscritos do século XIX cujo teor permite distinguir duas realidades de um mesmo espaço sociocultural.</p>
      <p id="paragraph-6dca017aba05caa4f3a11fba9c367a2c">No caso dos diários, esta realidade é ecoada nas brechas que não somente guardam a distância de um religioso que registra fatos cotidianos de sua prática religiosa, bem como o olhar estrangeiro de alguém alçado à elite por sua situação eclesiástica, que ora se maravilha e ora percebe atitude inusitadas para a realidade que ele projeta.</p>
      <p id="paragraph-22ccdbf580296b763a0e3562e8a8bbd2">Já nas Cartas de Álvares de Azevedo à sua mãe, identificamos um jovem que sente estrangeiro em sua própria terra, estranhando costumes e hábitos provavelmente ultrapassados para a realidade da avançada Rio de Janeiro. A riqueza que se extrai desses documentos permite ratificar a tese de que a história de São Paulo não é uma só, homogênea e contínua nos espaços, embora sejam histórias concomitantes não são coincidentes, são realidades paralelas que compõem uma parte da história de São Paulo, um espaço descontínuo. Pretendíamos – e conseguimos –, na verdade, apresentar a relevância do contexto para a produção de enunciados. E o contexto não pode ser reconstruído senão pela linguagem, ou seja, refazendo um percurso de ideias que já foram submetidas a um filtro da escrita e das limitações de toda a informalidade.</p>
      <p id="paragraph-7a437ce7599d41e5e4293e5a2ac657c8">Além da peculiar condição do autor dos diários, eclesiástico, com formação acadêmica superior a muitos de seus coetâneos, todo o contexto ao redor contribui para suas emissões: o político, em transição republicana; o geográfico, que o situa em regiões menos urbanizadas com as quais se habituara; o econômico, que fica evidente na relevância que o autor dos diários dá a profissionais que o recebem com pompa em suas viagens, entre outros.</p>
      <p id="paragraph-03e657d9aefe819ddd3a7e9b39f112f9">Resta dessa incursão a ideia de que São Paulo não era uma unidade, mas um conjunto de espaços fragmentados e pouco coesos quanto a comportamentos. Além disso, o contexto e a circunstância assim como a proximidade a indivíduos de regiões diversas, tais como os estrangeiros em contato com o povo da terra e o costume produziu um entorno atípico para a nova cidade. Esses dois elementos talvez possam ser considerados a raiz de sua atual multiculturalidade.</p>
      <p id="paragraph-d1a612400b09d0477c7624ceb439cd5e">Esta abordagem não prevê o esgotamento do assunto com a consulta de uma base documental. Na verdade, ela coloca a nu que toda base documental é descontínua e que o contexto é que dá relevância aos fatos. E o contexto não pode ser reconstruído senão pela linguagem, ou seja, refazendo um percurso de ideias que já foram submetidas a um filtro da escrita e das limitações de toda a informalidade via referendação documental.</p>
      <p id="paragraph-736e5c86c719411905546341f85ffe37">Nesse sentido, todo o contexto ao redor contribui para interpretar realidades que emergem em ambientes em vários níveis. Trata-se de aproveitar a perspectiva da História Social e da Micro-História<xref id="xref-a44e995194dc64aec92bdcf961691c46" ref-type="fn" rid="footnote-db4aee52d55d786b4b7ca4bd443b3049">31</xref> para entender melhor o impacto do meio nos indivíduos.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-9959121dac1406b945cc84ea7bc8cca2">
      <title>Fontes</title>
      <p id="paragraph-9bac43786460112a2167d7ae4d906471">BIBLIOTECA DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS. <bold id="bold-d34fd30adf42217b276ed802fdbff0cf">Cartas de <bold id="bold-3e8c305f5053b63d14fe92849072451d"/></bold><bold id="bold-bd9076a52e0e1690774cdbeafdc3d9c0">Álvares de Azevedo</bold>. Volume 1. São Paulo, 1976.</p>
      <p id="paragraph-47d857c609943ad898470d119d7eff6e">CARVALHINHOS, Patricia; LIMA-HERNANDES, Maria Célia; MATHIAS, José Roberto. <bold id="bold-1a9eedf6674e6de07ca0f197cb9aac14">Diários de Bispos de São Paulo do século </bold><bold id="bold-666bbc0f82da6c7ab06f0a9a101d1320">XIX</bold>. São Paulo: FFLCH, 2016 (em preparação).</p>
    </sec>
    <sec id="heading-1ae0aa7e7968d18bafdde6e1e96456e9">
      <title>Referências</title>
      <p id="paragraph-1">AMARAL, Antônio Barreto do. <bold id="bold-92767481fbd79fe528717911d91400a3">Dicionário da História de São Paulo. <bold id="bold-846863e900184656b8acf32224b1478d"/></bold>Coleção Paulística. São Paulo: IMESP, 2008.</p>
      <p id="paragraph-d3ca6cf05fc0a233417b9c02b9d137cc">BACELLAR, Carlos de Almeida Prado. <bold id="bold-f8c3167f7b4760e7b2e1de006512e327">O processo de povoamento do território paulista</bold>, séculos XVI a XX. In: OLIVEIRA, Marilza (org.) <italic id="italic-5150ccf09217bb05c7090ed3aeffb1a5">Língua Portuguesa em São Paulo: 450 anos. </italic>São Paulo: Humanitas, 2006 (pp. 19-37).</p>
      <p id="paragraph-13adc16a5d6ad210e2282f3238073e67">BAGNOLI, Ítalo. <bold id="bold-59bf2a68277a54e481e58fe192a81b0c">Os calabreses misturavam-se com negros, espanhóis e portugueses</bold>, todos unidos para trabalharem para o progresso do bairro. In: <italic id="italic-3aa6308ff3d330a1082ef5d372df1b77">Memória Urbana: a Grande São Paulo até 1940. </italic>São Paulo: Arquivo do Estado/EMPLASA/Imprensa Oficial, 2001, v. 1. (pp.81-84).</p>
      <p id="paragraph-0cf17b4de58dc85cbdfa6ace2253b60a">BLUTEAU, Raphael. <bold id="bold-a743c2cda40636932a23c1639c07e28b">Vocabulario portuguez e latino</bold>. 1712 – 1721. Disponível em: <ext-link id="external-link-564b070b20e925c4f320797b5c791d56" xlink:href="http://dicionarios.bbm.usp.br/pt-br/dicionario/">http://dicionarios.bbm.usp.br/pt-br/dicionario/</ext-link> edicao/1 Acesso em: 25 out. 2015.</p>
      <p id="paragraph-19929a1538a70b2e3b59feba1e5c80cd">BOSI, Ecléa. <bold id="bold-b1e89b0f29da175b7e85f7c32008b56a">Memória e sociedade: </bold>lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.</p>
      <p id="paragraph-3b2892c65c1b22a0536b09a810ad578c">BUARQUE DE HOLANDA, Sérgio. <bold id="bold-83d93f6431254d2c6ba593a290b25f3b">O homem cordial</bold>. In: <italic id="italic-a434631870ca81a0aba42e828e1c037e">Raízes do Brasil</italic>. 5ª edição, revista. Prefácio de Antônio Cândido. Coleção Documentos Brasileiros. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1969.</p>
      <p id="paragraph-bed2fc65bec2f8b50afdfeae11918462">CABRAL DOS SANTOS, Marco Antônio. <bold id="bold-30905042f03c289329301410a8ee7ec9">Criança</bold><bold id="bold-c6a1b0ef79c7decbacd530bddc8c75c2"> </bold><bold id="bold-568f9e093aa0cfe0f25a111a764c00fd">e</bold><bold id="bold-b1199ed97ff00601617581772a2d49cf"> </bold><bold id="bold-d09deaa1ab67aea736ddc92e228936f7">Criminalidade</bold><bold id="bold-10e94a76cbcdb8a690119af4482f6259"> </bold><bold id="bold-f32a87edfeeb13ef582edbac881b2b6f">no início do século. </bold>In: DEL PRIORE, Mary (org.) <italic id="italic-78fe1865c9248dc880ee2d5e782e243c">História das crianças </italic><italic id="italic-4574878d4092982aea3554295d074e03">no Brasil. </italic>São Paulo: Contexto, 1999, pp.210-230.</p>
      <p id="paragraph-d7abb1fc0662ea011afa76915233a212">CAMPOS, Eudes. <bold id="bold-306a39fca587391cac099c478345d5b8">A vila de São Paulo do Campo e seus caminhos</bold>. In: <italic id="italic-4696fc64d7700a9c7e32810fcf8a9abe">Revista do Arquivo Municipal</italic>, volume 204, São Paulo: Arquivo Municipal, São Paulo. Pág. 11-34.</p>
      <p id="paragraph-e82606d1d4c4fd6685445256fb7c8b2f">CARVALHINHOS, Patricia. <bold id="bold-80007f0c2d8f80ca7c59c2c47ba7cb97">Hierotoponímia portuguesa. De Leite de Vasconcelos às atuais teorias onomásticas. </bold>Estudo de caso: as Nossas Senhoras. São Paulo: USP, 2005. 231 fls. Tese Doutorado em Linguística, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.</p>
      <p id="paragraph-3449cc90eb16be15c2e43d60d510190b">_____<underline id="underline-1"> </underline>. <bold id="bold-a571692c04f1737348c7bc28f231bda8">Memoria toponomástica de São Paulo: el barrio Tatuapé. </bold>In: XXIV Congrés Internacional d’ICOS sobre Ciències Onomàstiques, 2014, Barcelona. Actes del XXIV Congrés Internacional d’ICOS sobre Ciències Onomàstiques. Annex. Barcelona: Generalitat de Catalunya | Departament de Cultura | Direcció General de Política Lingüística, 2011. V. 1. P. 1033-1046.</p>
      <p id="paragraph-14356f54f769e0ff9f903ee32f67c4ab"><underline id="underline-2"> _____</underline>; LIMA-HERNANDES, Maria Célia; MATHIAS, José Roberto. <bold id="bold-a281cec1e51c9065e68f9bc1a73795ed">Diários de Bispos de São Paulo do século XIX</bold>. São Paulo: FFLCH, 2016 (no prelo).</p>
      <p id="paragraph-bafbaeafe3093b061364edb188dc9379">_____<underline id="underline-3"> </underline>; LIMA-HERNANDES, Maria Célia. <bold id="bold-152790384a4c5eccde98f8d292404fa7">Movimentos políticos em São Paulo na segunda metade do século XX e no século XXI: Dossiê DEOPS e alterações toponímicas em São Paulo. </bold>(A sair na <italic id="italic-bd06bce9c4e47799d56e2773bbae6ff7">Coleção História do Português Paulista</italic>), 2016.</p>
      <p id="paragraph-06d158114a9c56b42e6b7763610fe1b6">CATAPANO, Ângelo; SALGADO, Benedito; SANTOS, Cecília Rodrigues dos. <bold id="bold-dbb21ae984a7fce51b8a7112003fc515">O centro de aglutinação dos trabalhadores não era o clássico sindicato de resistência</bold>, mas as ligas operárias de bairro. In: <italic id="italic-4090ec1db349617c4ba55e09cfbc9101">Memória Urbana: a Grande São Paulo até 1940. </italic>São Paulo: Arquivo do Estado/EMPLASA/Imprensa Oficial, 2001, v. 1 (pp. 69-74).</p>
      <p id="paragraph-ca77e5febf1fadadebd75ec86a83e39d">DAMATTA, Roberto. <bold id="bold-4faee9ec9dfe0a98ac9477ef49849f0b">Carnavais, malandros e heróis: </bold>Para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.</p>
      <p id="paragraph-dcb6cda77522af7c9ba82494d2f2c770">DELL’ERBA, Miguel. <bold id="bold-09e54f78090db97c273d369ba88758cb">As festas campestres eram realizadas pelo Grupo Pé de Porco</bold>. In: <italic id="italic-549233753478795ce38eaac1ae954348">Memória Urbana: a Grande São Paulo até 1940. </italic>São Paulo: Arquivo do Estado/EMPLASA/Imprensa Oficial, 2001, v. 1. (pp.91-94)</p>
      <p id="paragraph-bbb5294fdbdb73be3bc2c020a041a3cd">FAUSTO, Boris. <bold id="bold-7fedd6aed79b53d9e33dbcc1f3bf3f1a">Trabalho urbano e conflito social (1890-1920). </bold>Coleção Corpo e Alma do Brasil. Rio de Janeiro: DIFEL, 1977.</p>
      <p id="paragraph-6d1747a1e0fa0c07ce9a52726717ac71">FREHSE, Fraya. <bold id="bold-c0340d44d52d0780afb5477552cc78cb">O tempo das ruas na São Paulo de fins do império. <bold id="bold-a76f591e4cab704a2c15b505fbc84e77"/></bold>São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2005.</p>
      <p id="paragraph-dbcc69dfc462a234f344632f45a51fed">GINZBURG,C.; PONI, C.; e CASTELNUOVO, Enrico. <bold id="bold-6830f485ba29278b0062a3115d62496d">A micro-</bold><bold id="bold-9d498cc4998a66c3d35e0d4bcffb8630">história e outros ensaios. </bold>Lisboa: Diefel,1991.</p>
      <p id="paragraph-d22e1a889ace15be93f0e3c33fbb5c77">GOODY, Jack; WATT, Ian. <bold id="bold-c6462276add0f76faade2feb8dec32d0">As consequências do letramento</bold><italic id="italic-434e58de5829197d6b405291cdedfcca">. </italic>São Paulo: Paulistana, 2006[1963].</p>
      <p id="paragraph-15">HOUAISS, Antonio; VILLAR, Mauro de Salles. <bold id="bold-31994395a4065953b9509771f7e365d7">Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa</bold><italic id="italic-4bcc18ceb5098067d2668beada9cb217">. </italic>Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.</p>
      <p id="paragraph-17">HUGON, Paul. <bold id="bold-51cd0043a47ef267b79e843f8395e80c">Demografia Brasileira</bold>. In: <italic id="italic-12aa468713828783b4dc6acf8ac0f52f">Memória Urbana: a Grande São Paulo até 1940. </italic>São Paulo: Arquivo do Estado/EMPLASA/Imprensa Oficial, 2001, v. 1 (pp.47-54).</p>
      <p id="paragraph-19">INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Biblioteca. <bold id="bold-d859d206f1686986b3732d3736f7424d">Documentação Territorial do Brasil. </bold>Disponível em: <ext-link id="external-link-c75042b13654ec1e7d6b7b510d5b4fad" xlink:href="http://biblioteca.ibge.gov.br/">http://biblioteca.ibge.gov.br/ </ext-link>Acesso em: 10 mai. 2016.</p>
      <p id="paragraph-23">KAREPOVS, Dainis. <bold id="bold-b88f27bc1729b3eb27fdd0add91b9e23">São Paulo: </bold>a imperial cidade e a Assembleia Legislativa Provincial<italic id="italic-ab4ecc021fc5c9ec0a82caaab7c0f0dd">. </italic>São Paulo: Assembleia Legislativa, Divisão de Acervo Histórico, 2006.</p>
      <p id="paragraph-b1ca9b2c5de1552f22912473a3c6cde3">LUCCHESI, Dante. <bold id="bold-971d133473a03995bee31d00bfac1dde">Grandes territórios desconhecidos</bold>. <italic id="italic-58369e832712cf98e75fef4d898b95cc">Lingüística </italic>(14), Publicação da Associación de Lingüística y Filología de la América Latina (ALFAL), 2002, pp. 191-222.</p>
      <p id="paragraph-328879240a7fbf5c3dfeadb8e343172c">LUCIANO, Eugênio; MARTIRE, Lybio; PONCHIROLII, Riccieri Eugênio. <bold id="bold-ad4aa6ee5b18eb55b2ea629a7d36d99e">Bairro operário, como se o operário não fosse a força e o fulcro da ordem societária. </bold>In: <italic id="italic-230b0790c5c4104b8b9f9b7153b12cfc">Memória Urbana: a Grande São Paulo </italic><italic id="italic-b29a91021856fafd7c79a2efba1c4719">até 1940</italic>. São Paulo: Arquivo do Estado/EMPLASA/Imprensa Oficial, 2001, v. 1. (pp.59-63).</p>
      <p id="paragraph-349ffaf3d63c13aadd7a8d667744f666">MORAES, José Geraldo Vinci de. <bold id="bold-48de46b953b030c57d559d99d7d0ed91">Caminhos</bold><bold id="bold-de4adfa42f191845b08e5ad92cdb88d9"> </bold><bold id="bold-e77795af73ee37153dc4a7d2f3945379">da civilização: </bold>História integrada geral e Brasil. São Paulo: Atual Editora, 1998.</p>
      <p id="paragraph-4fd32a43cbf39252fadb86a40c456755">MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de (Org.). <bold id="bold-32fcb8374dd7743500e8cad1f81743b4">Vida cotidiana em São Paulo no século XIX: </bold>memórias, depoimentos, evocações. 2ª Ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2013, p.9.</p>
      <p id="paragraph-8b3163aa82c3f6295177fc26d83d2371">ONG, Walter J. <bold id="bold-1ca00bf2c41c4afe09cb1dd454dbda1f">Oralidade e cultura escrita: </bold>a tecnologização da palavra. Campinas: Papirus, 1998.</p>
      <p id="paragraph-282371a76ec5a4ba670b97176453f69c">PEREIRA, Lauro Ávila. <bold id="bold-99fa6209873b8d422cefc8bcbfffd2bd">Memória Urbana: </bold>A Grande São Paulo até 1940. São Paulo: Arquivo do Estado/EMPLASA/Imprensa Oficial, 2001, volume 1, 2 e 3.</p>
      <p id="paragraph-1a711e3b4ac71317e2861340d12eef81">RODRIGUES, Jaime Janeiro. <bold id="bold-5b642dd80f973e496de7ddf6e80be395">Em janeiro de 1907, resolveram acabar com a situação no braço. </bold>In: <italic id="italic-cb83bf952049d583c0d453fe2a4ce3de">Memória Urbana: a Grande São Paulo até </italic><italic id="italic-809e23ce781a50fc887b7916dbd5261c">1940. São Paulo</italic>: Arquivo do Estado/EMPLASA/Imprensa Oficial, 2001, v. 1. (pp.97-100)</p>
      <p id="paragraph-8eeff313d6787b5865872961c3670fd7">SCHULZ, Woldermar O’BYRN, Barão. <bold id="bold-66ea749d56804efbd82e3a6808ea762c">Mappa da Provincia de Santa </bold><bold id="bold-103a4a658be3267f649a0974edbc8f73">Catharina</bold><bold id="bold-bb290b1dfc21d0212d4f1eec084118a8"> </bold><bold id="bold-1651a642de3bf46a843e27d62f83511a">do</bold><bold id="bold-954b14240544fc6ac7725f902a051aff"> </bold><bold id="bold-8ea7bc21de29bb0c561e363d06ad360d">Imperio</bold><bold id="bold-abab8ac66de68cb96e474587b214bbe5"> </bold><bold id="bold-71d0db9696361c73e6d4fa63e024f18a">do</bold><bold id="bold-e105fda03e41a33df82da895d1281002"> </bold><bold id="bold-7cfd0be3ce2f5eac1dcabae1db15040e">Brazil.</bold><bold id="bold-2c62055544c121cef7b0dccae794edc6"> </bold>Escala 1: 1.000.000. Dresda, 1863. Huntington Digital Library. Disponível em: <ext-link id="external-link-e6f49206be125661f1c34365d5ef38e6" xlink:href="http://hdl.huntington.org/">http://hdl.huntington.org/</ext-link> cdm/ref/collection/p15150coll4/id/7152. Acesso em: 10 mai. 2016.</p>
      <p id="paragraph-a8a9cf9edcac595b454f3c9ad5a7acdd">SILVA, Antônio de Morais. <bold id="bold-aca91935e839c3f53149a67b331337f4">Diccionario da lingua portugueza </bold>composto pelo padre D. Rafael Bluteau, reformado, e accrescentado por Antonio de Moraes Silva natural do Rio de Janeiro. 1755-1824. Disponível em: <ext-link id="external-link-50773345fc990c02e6fbd98e52fd5670" xlink:href="http://www.brasiliana.usp.br/handle/1918/00299210#page">http://www.brasiliana.usp.br/handle/1918/00299210#page</ext-link> /1/ mode/1up. Acesso em: 25 out. 2015.</p>
      <p id="paragraph-67ec930b7733b0d7b43605d1c1d33ff1">SOUZA, Ney de (org). <bold id="bold-42509e94a0a4752bd631d598c4f2ca5c">Catolicismo em São Paulo </bold>-450 anos da presença da Igreja Católica em São Paulo – 1554-2004. São Paulo: Ed. Paulinas, 2004.</p>
      <p id="paragraph-b496de2eac8078a03438724c2521c725">SPIX, Joahnn Baptis von; MARTIUS, Carl Friedch Philipp von. <bold id="bold-30ba50a6e5b04138a2456af2bbe4b9ec">Viagem pelo Brasil: </bold>1817-1820. Trad. Lúcia Furquim Lahmeyer. Belo Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1981. Vol.1.</p>
      <p id="paragraph-000288acee16c4d9dba4a6e333180cfd" />
      <p id="paragraph-a1e15dea305afa289d4ad0bb1068198a">Recebido em 10/10/2016 e aceito em 06/12/2016</p>
    </sec>
  </body>
  <back>
    <fn-group>
      <fn id="footnote-fb8d9cdcc758208e2e3389af9285f076">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-b61c2caa182d1c8521275fc785770b49">O termo Capitania foi mantido no título desta publicação porque as autoras trabalham com uma perspectiva diacrônica pressuposta na concepção de <italic id="italic-68b3a1ca8a0d86b010fe34ffef540493">herança cultural</italic>, chegando até o começo do século XX. Na verdade, os documentos estudados nesta oportunidade foram produzidos no período em que São Paulo não era mais Capitania, mas Província.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-e204e9f57ad07f0fb7131d25595cab63">
        <label>2</label>
        <p id="paragraph-4e37b52aa4d3901769976763fb43d664">O Projeto História do Português Paulista 2, ou PHPP, é financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Processo FAPESP nº 2011/517875.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-81372778c9dea7a323d6ec0de9326fdc">
        <label>3</label>
        <p id="paragraph-4c6297c2204870b760c44cf55a6f8948">“A boa e doce terra de São Paulo entrou no ano de 1722 já com o nome de Capitania de São Paulo em separado do de São Paulo e Minas do Ouro, com que sucedera em 1709 às capitanias hereditárias de São Vicente e Santo Amaro [...]”. (MOURA 2013:9).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-7c036fd4530c5260209569888c65107f">
        <label>4</label>
        <p id="paragraph-71133be772c2368d6bb1aed5b000c321">GOODY e WATT alertam para a ratificação semântica cumulativa, mas aqui assumimos que a ratificação é mais propriamente de êxitos comunicativos que vai replicando e equalizando os sentidos das construções ao longo dos tempos.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-d95278daa6d64e697dc09d94f3a527c3">
        <label>5</label>
        <p id="paragraph-e7f0e0b6ecb012146da49795cfddfe42">De acordo com ONG (1998:93), “[...] processos de pensamento não nascem de capacidades meramente naturais, mas da estruturação dessas capacidades, direta ou indiretamente, pela tecnologia da escrita. Se a escrita, a mente letrada não pensaria e não poderia pensar como pensa, não apenas quando se ocupa da escrita, mas normalmente, até mesmo quando está compondo seus pensamentos de forma oral”.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-d78ed467012b6b6e82e50c87b4cc0f5e">
        <label>6</label>
        <p id="paragraph-317051da7088db2b65cd57782d4ff5a1">Vários exemplos podem ser citados no Brasil: o <italic id="italic-1f6bdd1fd89b6bbeb65b6336d81554b8">Diário de Navegação </italic>de Pero Lopes, ainda no século XVI; o <italic id="italic-0a047cb6d1e402a377ad79ffadb86eef">Diário de Navegação </italic>de Teotônio José Juzarte no século XVIII (1769); os diários do engenheiro Teodoro Sampaio em viagem à Chapada Diamantina (na segunda metade do século XIX) e os diários que geraram a série de três livros dos naturalistas alemães SPIX e MARTIUS, relatando as viagens entre 1817 e 1820.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-0ac0d28601f60d34f42310225bbc3ea6">
        <label>7</label>
        <p id="paragraph-bd4d94bb3e0af1aeb6522958e7bacbc9">Essa é a conclusão a que chega Alexis de TOCQUEVILLE, citado por DAMATTA (1997:188). </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-50777653a1c746365104d00c20b4e627">
        <label>8</label>
        <p id="paragraph-211e7d8b2a798909d86a095500c33fb7">Segundo SOUZA (2004), durante todo o período colonial a Igreja Católica era apenas uma das mãos dos reis portugueses na Colônia, já que obedecia apenas aos reis e não à sede romana. A separação igreja-estado ocorreu tardiamente, na segunda constituição brasileira (1891), havendo no período anterior vários distúrbios: “Mesmo que a primeira Constituição Brasileira, outorgada pelo imperador Dom Pedro I, desse à Igreja primazia de ser a religião oficial, as dificuldades continuavam a existir durante todo o regime imperial. A Questão Religiosa (1872), latente desde a década de 1820, explodiu na de 1870, quando o episcopado brasileiro resolveu agir contra o padroado e o beneplácito, instrumentos juridicamente constituídos que submetiam a Igreja ao Estado e transformavam os membros do clero em funcionários públicos dependentes do governo.” (2004: 275)</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-c2cf06d1b12d4ed5c499303e7e264f44">
        <label>9</label>
        <p id="paragraph-739223707ff0e95901a797c7132a4288">AMARAL (2006: 155-156), no <italic id="italic-16366ff8e0d50681bf4f9484abe72bbc">Dicionário da História de São Paulo</italic>, conta em dois verbetes a história da Capitania de São Paulo. Em 1709, cria-se a Capitania de São Paulo e das Minas de Ouro. Citando a carta patente de D. João V, Amaral destaca: “ ‘para melhor acerto da administração da Justiça e das Minas de Ouro, união entre os moradores de São Paulo, e mais distritos das mesmas minas’, ficando seu governo ‘separado do governo do Rio de Janeiro, sem ter outra subordinação mais que do governador e capitão-general da Bahia.’ Abrangia os atuais territórios do Estado de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, até a Colônia do Sacramento, com uma área de 3.265.562 quilômetros quadrados [...]”. Anos depois, em 1720, “a parte de São Paulo” foi desmembrada por alvará de 2 de dezembro do mencionado ano. O referido documento “[...] dispunha ‘ser muito conveniente a Meu Serviço, bom governo das ditas capitanias de São Paulo e Minas, e a sua melhor defesa, que a de São Paulo se separe das que pertencem às Minas, ficando dividido todo aquele distrito [...] em dois governos e dois governadores.’”. Após muitos outros documentos, que foram retirando ou agregando territórios à capitania, até que em 1748 foi administrada pelo governador de Santos, submisso ao Rio de Janeiro. Somente em 1765 “[...] foi restabelecida a antiga Capitania de São Paulo, despojada de toda aquela parte de seu antigo território. ”.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-ecac11286b985691d6cbdebf72767698">
        <label>10</label>
        <p id="paragraph-109550edab0292d5d4298759460b7072">Esse relato é atribuído ao advogado Francisco de Assis Vieira Bueno por KAREPOVS (2006).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-a9d6b066608192686f18f738df4ae07b">
        <label>11</label>
        <p id="paragraph-93995eabb7fe4d8e6908425bc5a03622">Esse teatro já existia desde o século XVIII, mas foi demolido, devido à fragilidade de sua construção, sendo restaurado a partir de 1852. Em 1854, iniciou-se a construção de novo teatro, o São José, com camarotes enormes, cuja pedra fundamental só foi lançada quatro anos depois. Somente em março de 1876, foi concluída a obra para, em 1898, ser completamente consumido pelas chamas de um incêndio. KAREPOVS (2006) relata que havia ainda, no período do século XIX, três outros teatros menores: o Teatro do Palácio, pequeno espaço nos baixos do Palácio do Governo (situado no Pátio do Colégio e desativado em 1860), Teatro do Batuíra (situado na rua da Cruz Preta, hoje rua Quintino Bocaiúva, e desativado em 1880 após dez anos de funcionamento) e Teatro Provisório, rebatizado Minerva e Apolo (situado na Travessa Boa Vista e demolido em 1899).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-97ae71ae23c67df481f7c91a120d534d">
        <label>12</label>
        <p id="paragraph-e9ba2c258e29c2852a6f3114906e1afb">Com a ascensão de Prudente de Morais, houve a troca de poder e ascensão da oligarquia cafeeira. O problema é que continuou mantendo o povo afastado das decisões, inclusive eleitoral. O efeito foi uma avassaladora cratera apartando grande parte da população brasileira das conquistas sociais e econômicas. Isso não iria longe. Em 1890, houve a separação entre Igreja e Estado, e a política econômica modernizadora de Rui Barbosa foi colocada em ação. A ideia era: 1. expandir industrialização (facilitação de crédito); e 2. emitir mais dinheiro (autorizou bancos a emitir moeda). Veio a promulgação da constituição (em 1891 com a criação de três poderes: executivo, legislativo e judiciário; conversão de províncias em estados; autonomia político-financeira aos estados; presidencialismo). A eleição foi direta, e Deodoro foi eleito junto com o vice proveniente da chapa oposicionista, Marechal Floriano Peixoto. Sem apoio no congresso, renunciou em 1891 e foi substituído por seu vice, que tinha por trás o apoio de cafeicultores, os quais seguiram no poder até 1930.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-2448cc39c721dd1ad3e7b51945bb9bf5">
        <label>13</label>
        <p id="paragraph-059640b78a4e99a764c8f0126f7fc18a">Também bispo da Província do Paraná, em período anterior ao bispado em São Paulo, iniciado em 1904. Nasceu em Indaiatuba, interior do Estado de São Paulo, na região de Itu (24 de abril de 1858). Cf. SOUZA, 2004: 410-411.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-837ef625f01c7ae08559ac491759b00b">
        <label>14</label>
        <p id="paragraph-357d6fc23ba620fe6b32e5eafb2498f9">Essa informação é referida por A. WERNET, em <italic id="italic-40e1678bd3fea728c01787d2b680d3ba">A Igreja Paulista no Século XIX, </italic>pp. 18-19.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-03323affd671b17cc2914beb35ee3768">
        <label>15</label>
        <p id="paragraph-1de704ec37eb2084c82ebdc31c0c36aa">Há, contudo, uma questão terminológica: Província de São Paulo como circunscrição administrativa confunde-se, às vezes, com Província Eclesiástica de São Paulo. Segundo AMARAL (2003: 508-509), a Província Eclesiástica de São Paulo instalou-se em 12 de outubro de 1908, ocasionando a criação de novas dioceses. Assim, quando neste artigo nos referimos a Província de São Paulo seu sentido é administrativo, não eclesiástico.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-fe820624165d47b4dbed7662877db84e">
        <label>16</label>
        <p id="paragraph-25c7de29944376ce4ebd43ad1cffb421">Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a primeira instância jurídica e administrativa de Desterro foi freguesia: “Freguesia criada com a denominação de Nossa Senhora do Desterro, por Alvará de 05-03-1792”. Histórico (Documentação territorial do Brasil), disponível em: <ext-link id="external-link-1" xlink:href="http://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=deta">http://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=deta</ext-link> lhes&amp;id=32148, acesso em: 10 mai. 2016.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-4f74c35758a7a45cedfa0b09d7fdf37e">
        <label>17</label>
        <p id="paragraph-19ff786eb62309f57a64aa605c1b9ae8">Na atual conjuntura de mudar nos nomes ligados à ditadura, recomendação da Comissão Nacional da Verdade (cf. CARVALHINHOS e LIMA-HERNANDES, 2017, inédito), há um movimento não oficial de retomar a antiga denominação Desterro, em oposição ao nome referente ao republicano Marechal Floriano Peixoto, homenageado no atual nome Florianópolis ou “terra de Floriano”.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-b7bca99d8cd6d4d730932622c7783650">
        <label>18</label>
        <p id="paragraph-0504686bc1e2a2f85430a2c9b490ae4e">Nasceu em São Paulo a 12 de setembro de 1831. Partiu para o Rio de Janeiro com a família quando tinha apenas dois anos. O fato de haver nascido na Província de São Paulo e passado a infância no Rio de Janeiro contribui para que seu olhar seja o de um “estrangeiro”, e não o de um paulista.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-e5bdd4ffb2fdbadda5f08bc19e750dc9">
        <label>19</label>
        <p id="paragraph-08de57f9af78ad8f9c35313b28730196">Em 1887, foi criado o Clube Militar, como forma de defesa de interesses do Exército. Também foram criadas nesse período algumas bases partidárias, tais como o Partido Republicano Paulista (PRP, 1873), em São Paulo.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-ae78f6bed673dfd7040b2a9711f21785">
        <label>20</label>
        <p id="paragraph-eb9b682863d0c0f50236f732674b2659">Esse espanto de Azevedo, segundo Vicente de Azevedo, pode ser ratificado como costumes paulistas na <italic id="italic-5e6456df7312ae0e21c9df62a8894c53">Revista do Centro de Ciências Letras e Artes de Campinas</italic>, n. 4, de 31.07.1903, pp. 154- 56, em que Dr. Vieira Bueno comenta a falta de atrações da cidade de São Paulo e o papel das festividades religiosas.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-63c6ceb0eaa26d18a6cd12d7058a9522">
        <label>21</label>
        <p id="paragraph-ff7023cc7bb3c1d1ae0e74e5f52ec251">Destacamos no texto dos diários, em negrito, os termos e expressões que são objeto da análise.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-3228d738c1f3930260f6d4e608c65a21">
        <label>22</label>
        <p id="paragraph-2e626c2622d208681d91882a5f083844">Não apenas Carapicuíba, na área metropolitana. Vários locais que hoje integram áreas próximas ao centro expandido, considerando-se uma distância média de 15 quilômetros do centro da cidade, eram espaços de lazer e descanso. A caça era comum, como na mata do Tatuapé (em CARVALHINHOS, 2011).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-e92b9410dfc83761f33853ad71a51ee9">
        <label>23</label>
        <p id="paragraph-83c205ff122752e3ab3c8d4b0f8ca719">O próprio ritmo de vida da cidade ditava outros costumes. Ecléa BOSI (1994) traz o relato de serenatas realizadas ao luar. Por outro lado, a própria configuração espacial propiciava outras distrações, como a então famosa Ilha dos Amores, no Rio Tamanduateí, na região do Brás e Luz (fruto de uma intervenção urbana resultante do processo de retificação e canalização do rio), local muito procurado.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-0b8254a286ea88eff3c4db13c422a83d">
        <label>24</label>
        <p id="paragraph-18374123f1fb228d02a307277f9441a2">O projeto de autoria do deputado Gabriel José Rodrigues dos Santos contava com o ensino de gramática da língua portuguesa, aritmética, religião, língua francesa e música. No entanto, os conservadores impediram que as mulheres pudessem estudar. Em 1845, o projeto foi reapresentado e aprovado, com previsão de que meninos (de 7 a 14 anos) e meninas (de 7 a 12 anos) residentes na cidade estudassem e fossem absorvidos pelo magistério de nível primário. Em 1874, o programa contava com dois anos de formação, após o que se habilitava o professor público compulsoriamente (cf. KAREPOVS, 2006). Os meninos estudavam à tarde em sala anexa à Faculdade de Direito de São Paulo; as meninas, pela manhã, no andar térreo do Seminário da Glória. Até 1878, quando foi fechada, a Escola Normal formou 214 alunos (90 do sexo feminino), mas somente foram habilitados a professor 27 (meninos) e 17 (meninas).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-e6f053c13b2c127727ef184c5993f93a">
        <label>25</label>
        <p id="paragraph-30f7656b9395606aee74d6380c08f84d">O primeiro casamento civil foi realizado em 07.06.1891 e uniu Gustavo Padone e Anna de Féo. (cf. KAREPOVS, 2006).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-232f536d952e5ffb828ee6a3886539e8">
        <label>26</label>
        <p id="paragraph-0ee9826476481ae1059b926875286498">A autora resume, em seu trabalho sobre os nomes de lugares referentes a Nossa Senhora em Portugal, as tipologias criadas por GUENTER SUESS na tentativa de dar uma interpretação estruturalista aos tipos de catolicismo que oscilam entre o oficial e o popular: &lt;&lt;<bold id="bold-5a2c818f056eaae9fb5e5f6a80606eec">1.Catolicismo </bold><bold id="bold-7942d3968c0438226124aafa1d28bfce">Popular Ritual</bold>. As ações rituais correspondem ao pensamento mágico: persignar-se com água benta, tocar um santo de pau e beijar a mão (como se estivesse tocando o próprio santo), ou até mesmo o curandeiro que “costura” simbolicamente uma ferida são “<italic id="italic-b6a6c3a39521e498a5f381c1869d9d67">estruturas religiosas </italic><italic id="italic-234e895c31daec5d51fc1fc347c2ad78">arquetípicas</italic>” (146) e não “<italic id="italic-51238d1e38cbba16554f237a6800454e">fenômenos residuais de sociedades arcaicas</italic>”. As instituições quase não estão presentes neste tipo de catolicismo popular; ele pode ser caracterizado como “individual”. Atemporal, ele é representado pelo autor pela justaposição das unidades de comunicação /1/ /2/ /3/ /4/ /5/ (cf. página 59) e “<italic id="italic-fc5bd13dbf50e857ca763759982d3abc">consiste em unidades de comunicação fechadas em si, nos quais não se </italic><italic id="italic-8138bb10d7ddd0058c303b76350359cb">trata</italic><italic id="italic-09116dba5e048d6bff368443786ab0ac"> </italic><italic id="italic-18462c66699b22f2492631737155d4c9">de</italic><italic id="italic-a242f365810b95a9e051ef7d5ec6bdfd"> </italic><italic id="italic-8a466dc9cd17d7047db62c89e816aeed">atos</italic><italic id="italic-3910240d3c193a0eb878dceb9c57de71"> </italic><italic id="italic-11">de</italic><italic id="italic-12"> </italic><italic id="italic-13">fala,</italic><italic id="italic-14"> </italic><italic id="italic-15">e</italic><italic id="italic-16"> </italic><italic id="italic-17">sim</italic><italic id="italic-18"> </italic><italic id="italic-19">de</italic><italic id="italic-20"> </italic><italic id="italic-21">coações</italic><italic id="italic-22"> </italic><italic id="italic-23">de atos ocasionais condicionados pela situação</italic>” (147). Interpretamos, pois, essa “seqüência ritual semântica” como um ato não <bold id="bold-283f19d5ac3ca6690a69207688f2b652">pensado</bold>, mas <bold id="bold-560ee22cbfd1bbfe612f053f0ecb72ad">repetido</bold>. O autor denomina essa “ação” como MUDA. <bold id="bold-d8dbe085aab099c0a3eedc2abbaefe5b">2.Catolicismo Popular Festivo</bold>. É aquele tipo expresso pelas festas dos santos ou festas cíclicas (Páscoa, Paixão de Cristo), e até mesmo casamentos. A consciência passa de <italic id="italic-24">mágica </italic>a <italic id="italic-25">mítica</italic>, uma vez que esta ação é NARRATIVA. As festas religiosas reproduzem as dicotomias sociais; embora reúna pobres e ricos (“<italic id="italic-26">o status do dia-a-dia é esquecido </italic><italic id="italic-27">temporariamente</italic>” (148), estes opostos não se conciliam. O tempo é visto pelo autor tanto como cronológico (calendário das festas) como climático (festas decorrentes das estações da chuva, por ex.). E, se por um lado há uma “prestação prévia” (o santo fica em débito com o homem, a ser saldado quando necessário), por outro as estruturas podem denotar “obrigação social”. &gt;&gt; (<italic id="italic-28">apud </italic>CARVALHINHOS, 2005: 85)</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-59195b1b3499d17ec7a0e1e445658937">
        <label>27</label>
        <p id="paragraph-e2752d7e545cad7d437abbe388b7d008">Provável referência a uma “Vestimenta de cor que os cônegos põem por cima da sobrepeliz.” "murça", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, <ext-link id="external-link-08ab2787e7e2a916317e65298612a770" xlink:href="http://www/">https://ww</ext-link>w. priberam.pt/DLPO/mur%C3%A7a [consultado em 30-06-2016].</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-b8f1cfd29c334e6d04ae965a230e7913">
        <label>28</label>
        <p id="paragraph-c3a72ccc6a2b9ba94a0beb3664c09610">Cama portátil, dobrável e geralmente feita de lona. <italic id="italic-8b7668a2f2b43b2dedd2937a03859642">In</italic>: Dicionário Aulete Digital.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-18df73bccff95b4c3b04006bf459d89a">
        <label>29</label>
        <p id="paragraph-e4e50aae0bf33513b887ee7dd855b4e0">Mapa da autoria de Woldermar Schulz e Barão O’Byrn.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-84674c6a3696f435ecdb42b079da5642">
        <label>30</label>
        <p id="paragraph-29401af4688c6bde277c5f3d0ec33b2e">O termo parece conservar o mesmo sentido que Rafael BLUTEAU (1728) registra, remetendo o verbete palmito (que é o olho comestível do tronco de vários tipos de palmeiras) a <bold id="bold-623d1fad18399c5b8e2f5150bab0ca53">palma</bold>, considerando-o seu diminutivo: “Toma-se por qualquer palma pequena [...]”, p. 210. Para o autor, “Palma, ou palmeyra. Árvore comum no Egipto [...]”. <italic id="italic-21045a52f65dcbd79630344b72fd8198">Vocabulario Portuguez &amp; Latino </italic>- volume 6, p. 206.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-db4aee52d55d786b4b7ca4bd443b3049">
        <label>31</label>
        <p id="paragraph-834fa0379fc9cc075193ed27f47a19be">Perspectiva epistemológica e metodológica que privilegia a construção da História a partir de “pequenas vivências” ou óticas que não seriam levadas em conta pelo método tradicional. Carlo Ginzburg é um de seus principais nomes. Cf. Ginzburg et allii.,1991.</p>
      </fn>
    </fn-group>
  </back>
</article>