Resumo

O objetivo deste artigo é demonstrar o quanto e como as gramáticas latinas serviram de objetos textuais de análise para que Serafim da Silva Neto (1917-1960), no conjunto de sua obra, apresentasse subsídios para a configuração de uma teoria sobre a variação e a mudança linguística, entre os anos 40 e 50 do século XX, portanto, 20 anos antes e independentemente dos estudos a que modernamente denominamos Sociolinguística (MORAES, 2015), disciplina autônoma em que se investigam as relações da língua com a sociedade. Com isso, procuramos explorar o horizonte de retrospecção de Silva Neto para, à luz da história, esclarecer como ele construiu conceitos a respeito da variação e mudança linguísticas a partir de sua prática filológica latina, tendo como base os corpora dos quais extraiu importantes dados na construção de seus argumentos sobre a heterogeneidade linguística.

Introdução1 2

“consuetudo loquendi est in motu” [“O uso da linguagem comum está sempre em movimento”]

(VARRÃO, Liber IX, XI. 17)

Conforme defendeu Moraes (2015), Serafim da Silva Neto elaborou em sua obra conceitos relacionados à variação e à mudança linguísticas, tendo como referência as três áreas de investigação a que esteve ligado: a Filologia Românica; a Crítica Textual (edição de textos medievais portugueses) e o conhecimento de Gramáticas Antigas, tanto latinas como portuguesas. Partindo dessa hipótese, o presente trabalho centrar- se-á apenas no último dos campos de atuação do autor em investigação, ou seja, no conhecimento de Gramáticas Antigas, e neste caso específico, tão-somente no das gramáticas latinas por ele estudadas.

Para alcançarmos nosso intento, o trabalho está organizado da seguinte forma: na seção um (01) tratamos de questões teórico-metodológicas por nós adotadas; na seção dois (02) e três (03), organizamos o trabalho de forma a dar conhecimento a respeito da atuação do filólogo fluminense, apresentando os gramáticos latinos e demais autores citados que mais contribuíram para a construção de conceitos variacionistas na sua obra. Com isso, procuramos explorar o horizonte de retrospecção de Silva Neto para, à luz da história, esclarecer como ele construiu conceitos a respeito da variação e mudança linguísticas, a partir de sua prática filológica, e tendo como base os corpora e as lições de textos fundamentais para os estudos linguísticos ditos modernos.

Discutem-se alguns conceitos linguísticos e gramaticais, analisados na perspectiva da dimensão temporal, isto é, na longa duração do tempo, o que inscreve o trabalho no contexto da História das Ideias Linguísticas, segundo o modelo de Sylvain Auroux (1979, 1992, 1998, 2006, 2008); Colombat (2007) e Colombat, Fournier e Puech (2010).

1. Serafim da Silva Neto e parte de seu horizonte de retrospecção: os estudos latinos

O horizonte de retrospecção é um conjunto de conhecimentos anteriores que regula o surgimento de uma teoria científica determinada. Auroux (2008) o define como um conjunto de conhecimentos que possuímos, e que são antecedentes a qualquer atividade cognitiva que venhamos a desenvolver. Diz textualmente o autor:

O ato de saber (a produção de conhecimento) não é ele mesmo algo sem relação com a temporalidade. Para simplificar, imaginemos um sujeito S na sua atividade cognitiva. Ele dispõe de competências adquiridas e desenvolvidas durante a sua formação. Quando se propõe a resolver um problema, dispõe igualmente de conhecimentos; ora, estes conhecimentos necessariamente foram produzidos antes da atividade cognitiva em questão. Nós nomeamos horizonte de retrospecção o conjunto destes conhecimentos antecedentes (AUROUX, 2008: 141) (grifos do original).

Ou, conforme também explicaram Colombat, Fournier e Puech (2010), retomando Auroux, “o historiador produz a informação sobre o sistema científico que as ciências da linguagem constituem e permite, portanto, expandir entre os pesquisadores, o que poderíamos chamar de seu ‘horizonte de retrospecção’” que é “a memória dos resultados, dos problemas, dos conceitos desenvolvidos antes deles” (COLOMBAT, FOURNIER, PUECH, 2010: 13).3

A constituição de um horizonte de retrospecção está relacionada à identificação, distinção e ao exame crítico da temporalidade e de certos tipos de recepções (motivações, periodização, etc.), está vinculada também com a determinação do regime de circulação de conhecimento. No nosso caso em específico, com a determinação do regime de circulação de conhecimentos linguísticos do autor aqui estudado,4 inserido em um “circuito” mais amplo do que o contexto ou a situação de produção.

1.1 Horizonte de Retrospecção, cognição e Neurociência: um campo a ser explorado.

Há todo um campo de pesquisa a ser explorado, quando se pensa no horizonte de retrospecção como uma categoria analítica que pode ser relacionada com as ciências cognitivas, incluindo aí a neurociência, e a noção de cognição distribuída. Como é um conceito que diz respeito ao conhecimento, o horizonte de retrospecção está, portanto, diretamente ligado às questões de ordem cognitiva. Cognitivamente o sujeito tem diversas formas de acesso ao conhecimento e diversas maneiras de ativá-lo. Nesse sentido, é difícil ao investigador saber de que forma, ou, mediante a que meios, ou, sob quais condições e circunstâncias, o sujeito construiu seu conhecimento, a não ser mediante as externalidades cognitivas, tomados aqui como os livros, os cursos, os autores e as obras, no geral, que ele leu, enfim, estudou. Essa dificuldade subsiste porque todo conhecimento é múltiplo e multifacetado.

Poderíamos dizer que há uma verdadeira constelação do conhecimento, quando o abordamos sob o ponto de vista do horizonte de retrospecção, como em uma espécie de relação neural ou cognitiva do pensamento. Seria preciso explorar melhor esta questão com a hipótese do empirismo externalista, segundo Auroux (1998).

Enfim, pensamos de maneira plural e não a partir de um ponto específico. A memória nos auxilia neste sentido, ativando conceitos, objetos, funções, classes/categorias, etc, que advém dos mais diversos campos mentais, por meio das sinapses. A própria memória é reconstrução. Segundo Bartlett (1997 [1932]), a memória é um processo construtivo.5 Assim, recordar não é relembrar, mas um processo de reconstrução, no qual aspectos do episódio previamente apresentado são tecidos num todo coerente com a ajuda do conhecimento preexistente, diríamos nós, com a ajuda de nosso horizonte de retrospecção. Em linha mais abrangente, a investigação do horizonte de retrospecção de um autor diz respeito à própria gestão do conhecimento desse autor por parte do pesquisador/historiador, isto se pensarmos a gestão do conhecimento como um processo dividido por etapas que envolvam: criação e/ou aquisição; captura, organização e armazenamento; disseminação ou distribuição e uso ou aplicação do conhecimento.

No caso específico por nós aqui estudado diz respeito aos conhecimentos que Serafim da Silva Neto tinha em relação às gramáticas latinas, de onde os tirou ou adquiriu, como os organizou, assim como os utilizou ou aplicou para responder questões ligadas ao problema da variação e mudança. Nosso interesse está voltado para a análise desses objetos com os quais o autor travou conhecimento, e a partir dos quais pode construir conceitos a respeito da variação e mudança linguísticas. Está claro que os problemas da variação e da mudança não foram apenas enfrentados por Silva Neto, e mesmo ele, não se dedicou aos estudos da heterogeneidade linguística unicamente a partir dos estudos que aplicou ao latim; Silva Neto também os abordou a partir de outros campos como o da Filologia Românica; o da Crítica Textual (edição de textos medievais portugueses) e o do conhecimento de Gramáticas portuguesas. A redução do escopo neste trabalho, deve-se, sobretudo, ao limite de espaço.

2. A variação linguística nos estudos de Serafim da Silva Neto: o latim corrente e o latim vulgar

Conforme temos defendido em trabalho anterior (MORAES, 2015), entendemos que o tema da variação linguística sempre esteve presente ao longo do desenvolvimento dos estudos linguísticos e, por extensão, também na obra do filólogo, romanista e linguista fluminense Serafim da Silva Neto (1917-1960). Por isso, defendemos que, no seu conjunto, a obra de Silva Neto apresenta subsídios para a configuração de uma teoria da variação linguística. Suas ideias, nesse aspecto, foram desenvolvidas ao longo de um percurso que vai desde seus primeiros estudos sobre o latim vulgar, passa por suas investigações eminentemente filológicas, é evidenciada na construção de sua história da língua portuguesa e, por fim, encontra-se em contornos mais definitivos nos seus estudos sobre a língua portuguesa no Brasil. Sem descartar, obviamente, o reflexo de todo esse empreendimento até mesmo nas obras de cunho mais didático que o autor escreveu. Isso quer dizer que os aspectos da variação foram estudados por ele desde sua incursão nos estudos sobre a língua latina e a história do latim vulgar, que remontam pelo menos desde 1938, data da primeira edição de Fontes do latim vulgar: o Appendix probi.6 É o que procuraremos demonstrar neste artigo.

Anos mais tarde (1957), analisando “o papel social e linguístico” desempenhado pelos gramáticos latinos, Silva Neto dirá que “como se vê, é da mais alta relevância o papel social e linguístico do gramático, pois sua atividade representa pujante força de conservação” (SILVA NETO, 1957: 82). Isto para demonstrar o quanto o gramático exercia uma espécie de força restritiva contra a variação. Nesse sentido, dizia que o ensino do gramático seguia “o modelo dos clássicos, dos mestres que imprimiram as obras consideradas perfeitas e acabadas. Assim o gramático se tornou o mais zeloso e fiel mantenedor das normas da língua”. Utilizando o conceito de deriva de Edward Sapir, linguista norte- americano, Silva Neto entendia que o gramático era como um “poderoso dique contra as tendências evolutivas da deriva: mantinha luta constante contra desvios da pronúncia, alterações morfológicas, semânticas ou sintáticas; policiava rigorosamente as palavras e expressões baixas ou regionais” (SILVA NETO, HLP 1986 [1957]: 82).

2.1 A variação linguística, segundo os testemunhos dos gramáticos latinos

Serafim da Silva Neto, como sabemos, grande erudito, foi extremo conhecedor da doutrina gramatical dos latinos, e, assim, não deixou de fazer menção aos testemunhos desses autores, cuja exemplificação está repleta de fatos da variação linguística, designados pelos gramáticos antigos por metaplasmos, barbarismos e solecismos. Exemplos disso são suas referências a Varrão, Quintiliano, Prisciano, Vélio Longo, Aulo Gélio, Máximo Vitorino, Donato, uns mais, outros menos; além, é claro, ao Appendix Probi, ao qual dedica uma obra inteira a respeito do assunto: “Fontes do Latim Vulgar - o Appendix Probi” (SILVA NETO, FLV 1946 [1938]).

Com referência ao latim, é admirável, porque contraditório, o fato de Silva Neto recorrer a esses antigos gramáticos latinos como testemunhas da variação linguística porque, segundo ele entendia, “os gramáticos ajudam- nos, testemunhando êste ou aquêle fato”, visto que na sua avaliação, “as indicações dêles [dos gramáticos] t[inham] valor puramente informativo e não científico”, pois, segundo afirmava o autor, em uma avaliação natural e compreensivelmente tendenciosa, marcada pela sua defesa do estatuto científico da filologia em detrimento ao da gramática tradicional, “naquele tempo, a Filologia estava muito longe de ser ciência” (SILVA NETO, op. cit.: 86).

De toda forma, o aproveitamento dessas fontes pelo filólogo mostra que sua busca para o entendimento do fenômeno da variação já tem início nos seus estudos sobre o latim vulgar. Para tanto, Silva Neto (1946) expõe, inclusive, uma longa lista desses gramáticos em Fontes do Latim Vulgar – o Appendix Probi, que depois será reproduzida, como outras passagens, em História do Latim Vulgar (2004 [1957])7 conforme segue. Diz o autor, sobre os gramáticos e sobre as obras destes por ele consultadas, o seguinte:

Eis os principais:

VARRÃO – 1º séc. a. C. Restam-nos fragmentos do seu

tratado De língua latina.

– 1º séc. d. C.

VÉLIO LONGO – Primeira metade do 2º séc. d. C.

Editado por KEIL, Grammatici Latini, VII. Acêrca dêsse gramático merece lido Neitzke, De Velio Longo grammatico, 1927.

FESTO – 2º séc. d. C.? Boa edição de Lindsay, Sexti

Pompei Festi De verborum significatu, Lipsia, 1913.

VÉRRIO FLACO – Primeira metade do 1º séc. d. C. Publicado por H. Willers em De Verrio Flaco glossarium interprete, 1886.

AULO GÉLIO – 2º séc. d. C. Escreveu interessante miscelânea intitulada Noctes Atticae: cito pela ed. M. Hertz, Leipzig, 1886.

CAPER – 2º séc. d. C. Editado em KEIL, VII. PROBO – 3º séc. d. C. Editado em KEIL, IV.

TERENCIANO MAURO – Fim do 2º séc. d. C. Editado em KEIL.

A princípio Teuffel (trad. fr., tomo III, pg. 106) julgava-o dos fins do 3º séc. d. C. mas as observações, mais exatas, de Schanz (tomo III², 2ª parte, § 514, pgs. 25-27) colocam-no no fim do 2º século.

Vj. mais o estudo de Ries, De Terentiani Mauri aetate, 1912, e a 6ª ed. de Teuffel (III, 1913, 134 ss.).

CARISÍO – Meio do 4º séc. d. C. Editado em KEIL, I. DONATO – Meio do 4º séc. d. C. Editado em KEIL, IV.

NÔNIO MARCELO – Primeira metade do 4º séc. Cito pelas edições de Quicherat e de Lindsay.

MÁRIO VITORINO – Meio do 4º séc. d. C. Editado em KEIL.

DIOMEDES – Segunda metade do 4º séc. d. C. Editado KEIL, I.

SÉRGIO – 4º e 5º séc. d. C. Editado em KEIL, IV.

SÉRVIO – 4º e 5º séc. d. C. Cito pela edição Teubner. POMPEIO – 5º séc. d. C. Editado em KEIL, V. PRISCIANO – 5º séc. d. C. Editado em KEIL, II e III. CONSÊNCIO – 5º séc. d. C. Editado em KEIL.

A respeito dêsse gramático ler-se-ão com bastante proveito a Abbot, Vulgar latin in the Ars Consentii de Barbarismis e Kohlstedt, Das romanische in den Artes des Consentius, 1917.

É livro fundamental a moderna edição de Nierdermann, Consentii, Ars de Barbarismis et metaplasmis, 92 pgs., Paris, 1937.

CASSIODORO – 6º séc. d. C. Editado em KEIL, VII (SILVA NETO, FLV 1946 [1938]: 87-88).

Quer seja pela data de publicação de Fontes do Latim Vulgar, que é de 1946, quer seja pela leitura atenta da relação acima reproduzida, é notório observar que o autor nessa época ainda não havia tido contato com os estudos de H. Mihăescu (1907-1985), filólogo e linguística romeno que se dedicou ao estudo d’O barbarismo, segundo os gramáticos latinos, expressão que, inclusive, lhe serviu de título ao livro. Essa obra, que só seria traduzida e publicada em português por Manuel de Paiva Boléo (1904-1992) e Victor Buesco (1911-1971) em 1950, é fundamental para a observação dos fenômenos da variação linguística latina, a partir daquilo que os gramáticos latinos convencionaram chamar de barbarismos solecismos e metaplasmos, embora não houvesse consenso entre eles quanto ao emprego dos termos, como bem observou Mihăescu (1950):

Os erros de língua que devem ser atenuados ou mesmo irradiados da escrita e da fala, encontram-se discutidos por eles [os gramáticos latinos] sob as rubricas de barbarismo, solecismo e metaplasmo. Não há unidade geral de vistas e de compreensão quanto a esses termos; o que alguns consideram barbarismo é tido por outros como solecismo ou metaplasmo e vice-versa, e o material contido nas subdivisões que respeitam a estas polêmicas tampouco é precisado de uma maneira pertinente por todos os gramáticos (MIHĂESCU, 1950: 10).

Não há dúvida de que os estudos e comentários sobre barbarismo, solecismo e metaplasmo encontrados nessas gramáticas, em tese, eram registros da variação e das potenciais mudanças linguísticas, fatos ou fenômenos para os quais o filólogo deveria olhar.

Entretanto, na conclusão dessa relação de gramáticos latinos, Silva Neto afirma que o mais importante de todos os testemunhos era o dado pelo Appendix Probi, texto de autor anônimo que apresentava as formas consideradas erradas na língua latina literária, seguidas de suas devidas correções:

O mais importante de todos é, porém, o APPENDIX PROBI. Êsse texto, de autor anônimo, consiste numa lista de palavras e grafias da lingua corrente, seguidas pelas formas literárias.

Isto é: não se deve dizer asa, pois é errado, mas ansa, que é certo, donde concluímos que o grupo – ns – se havia reduzido a – s – no sermo usualis.

Daí tiramos conclusões a respeito do latim corrente. Pena é que o elenco, oriundo da abadia de Bóbio, hoje códice vienense n. 17, seja muito pequeno, pois, ao todo, são 227 correções.

Chama-se APPENDIX PROBI (Apêndice de Probo) porque foi achado como anexo a uma obra do gramático PROBO – o que não significa fôsse êsse o seu autor (SILVA NETO, FLV 1946 [1938]: 88-89).

Em História do Latim Vulgar, Silva Neto (2006 [1957]: 217) apresenta outra ponderação a respeito dos gramáticos latinos: a de que “os gramáticos latinos, apesar de seu pouco interesse pela linguagem popular, empenhados que estavam na exegese e comentário das grandes obras clássicas, oferecem algum material precioso”, além, é claro, de fazer menção a outros estudos. E em nota, (op. cit., p. 217, n. 99), acrescenta- nos a informação acerca de sua principal fonte para referência a tais gramáticos:

Os textos dos gramáticos latinos estão recolhidos, principalmente, em Funaioli, Fragmenta grammaticae latinae, I, 1907 (único volume publicado) e em Keil, Grammatici Latini, La Grammaire latine selon Grammairiens latins, publicado em Dijon, em 1908 (SILVA NETO, 2004 [1957]: 217, n. 99).

2.2 A constituição dos corpora

Hovdhaugen (1995: 115) observa que “todas as gramáticas e outros textos linguísticos de gramáticos romanos, com exceção de Varrão (116- 27 aC) e Quintiliano (34/40-ca. 97AD) foram publicados por Keil 1855- 80”. Consequentemente, ainda de acordo com o linguista norueguês, as edições de Keil tiveram um impacto fundamental no estudo da linguística romana. Hovdhaugen avalia também que, infelizmente, muitos de seus textos precisam com urgência de uma nova edição textual.8

De fato, conforme apontam os organizadores responsáveis pela reedição dos Grammatici Latini, de Keil, pela Cambridge Library Collection “o único predecessor de Keil neste campo foi Helias Putsch, que, em 1605, publicou Grammaticae Latinae auctores antiqui; Keil usa a mesma ordem em que este apresenta suas versões dos textos” (2010: I).

Os textos editados por Keil, Grammatici Latini, oito volumes ao todo, são um monumento proeminente da filologia alemã do século XIX, e, como afirmamos, vêm sendo reeditados, em formato impresso, pela Cambridge Library Collection – Linguistics, desde 2009; além de ser também encontrados, hoje, todos digitalizados e online, acessíveis por meio de quatro domínios: ARCHIVE.ORG, oriundo da Biblioteca da Universidade de Toronto; GOOGLE; CORPUS CORPORUM da Universidade de Zurique e o CORPUS GRAMMATICORUM LATINORUM, organizado por pesquisadores de Universidades francesas.9 Dos quatro sites, apenas os dois primeiros oferecem a escanerização do texto original de Keil, sem apresentar nenhum tipo de tratamento especial à obra; entretanto, apenas os dois últimos oferecem a busca específica de dados, de acordo, por exemplo, com os tópicos gramaticais (de littera, de nomine, de verbo, etc.). Segundo os editores deste último, o CGL - Corpus Grammaticorum Latinorum,

O corpus de textos atribuídos de maneira convencional a Grammatici Latini consiste em todos os livros de gramática latina escritos entre o século III e VIII A.D. e editados por Heinrich Keil em oito volumes entre 1855 e 1880, em um total de 4.226 páginas (CGL, 2008: 174).10

Já os editores do Corpus Corporum da Universidade de Zurique (CC-UZ), afirmam que “os critérios filológicos de Keil são agora, em certa medida, ultrapassados; sua seleção e agrupamento são incompletos e nem sempre confiáveis”, porque algumas obras estão representadas apenas parcialmente ou simplesmente por um exemplar.11 De qualquer modo, pesquisando em uma época desprovida do auxílio de ferramentas digitais e valendo-se de poucas boas edições disponíveis, esses eram os textos que Silva Neto tinha à disposição, e dos quais soube como poucos, segundo a sua destreza filológica e forte formação linguística e humanística, aplicar “a arte de fazer o melhor uso de maus dados”, para usarmos uma afortunada expressão de Labov (1982: 20)12, na sua caracterização para a Linguística Histórica.13

Em relação às outras edições referidas pelo filólogo, no caso, La Grammaire latine selon Grammairiens latins, publicada em Dijon, por Charles Lambert, e a Fragmenta grammaticae latinae, I, 1907, publicada por Gino Funaioli, não tivemos acesso a elas e nem as encontramos em arquivos online.

2.2.1 Marcos Terêncio Varrão

Por ser considerado “o primeiro gramático latino importante de que temos notícia” (ROBINS, 1979: 37), Varrão figura no topo da lista de gramáticos relacionados por Silva Neto (cf. relação abaixo). Dentre os autores que refletiram sobre a importância desse gramático latino para a história das ciências linguísticas, destacamos Leroy (1971), Robins (1979), Desbordes (1995), Weedwood (2002) e Ruy (2006).

Segundo Ruy (2006), Marcos Terêncio Varrão nasceu em Rieti, antiga cidade Sabina. Pertencia ele a uma das famílias mais ricas de seu tempo. Varrão, segundo a autora, foi o mais fecundo erudito da antiguidade, tendo produzido nada menos do que 620 livros. Historiando o percurso acadêmico de Varrão, RUY (op. cit.) informa ainda que este importante gramático latino, contemporâneo a César, vai a Roma para receber formação com os melhores mestres de sua época. Aprendeu os primeiros rudimentos da gramática na escola de Lúcio Ácio. Na escola de Élio Estilão é encaminhado à ciência etimológica e à atividade oratória. Entre 84 e 82 a. C. foi à Atenas, onde aperfeiçoou seus estudos em filosofia, iniciados ainda em Roma.

Outra razão para iniciarmos essa seção com Varrão é porque, segundo Collart (1978)14, século após século, ele foi o gramático mais citado por seus sucessores, tais como: Quintiliano, Aulo Gélio, Carísio, Prisciano, Isidoro e Donato. O horizonte de retrospecção desses gramáticos, então, passa inevitavelmente, pelo conhecimento da obra de Varrão, o primeiro relacionado por Silva Neto na obra Fontes do Latim Vulgar: o Appendix probi, conforme relacionado acima. Entretanto, não podemos ignorar que Varrão, de fato, não foi um gramático, embora escrevendo assuntos gramaticais diversos e sendo referido por vários gramáticos, conforme orienta Desbordes:

Varrão escrevera sobre todos os assuntos – história, filosofia, economia rural, poesia... – e, com predileção, sobre questões da esfera gramatical. Não um grammaticus. Porém sua carreira política não tivera sucesso, vivia no meio de livros e era mesmo, nos últimos vinte anos de sua vida, uma espécie de bibliotecário oficial, por vontade de seu antigo adversário político, César. Era o sábio de Roma (DESBORDES, 1995: 45).

Já o horizonte de retrospecção de Varrão voltava-se de forma mais imediata à polêmica entre analogistas e anomalistas. Leroy (1971) ao se referir a essas duas correntes da linguística antiga, diz:

O fato de existirem na língua, ao lado das manifestações de uma estrutura regular, aspectos que contradizem essa regularidade havia sido muito bem observado pelos antigos, mas tal observação foi utilizada num sentido doutrinário, para opor os que queriam construir um sistema gramatical fundado nas analogias aos que, pelo contrário, se baseavam nas anomalias (LEROY, 1971: 18).

O resultado dessas observações, diz Leroy (op. cit.), foi uma série de disputas entre os defensores das duas doutrinas. Os analogistas professavam uma doutrina essencialmente normativa, enquanto que os anomalistas se apresentavam antes como letrados ciosos de respeitar o uso. Recebendo como herança tais discussões, Varrão dará enorme contribuição à linguística antiga, a partir de sua obra De Língua latina, monumental compêndio sobre o latim, composto originalmente por 25 livros, dos quais, segundo Ruy (2006: 26, nota 2), seis (do V ao X) chegaram até nós.

Ainda segundo Ruy (2006: 08), a importância do livro VIII do De Língua Latina nesse contexto explica-se exatamente pelo fato de tratar diretamente da polêmica entre analogistas e anomalistas. E como no livro VIII em questão, como aponta a autora, “Varrão trata sobre a maneira de se expressar na escrita, e na fala – mesmo que de uma minoria ilustrada” (idem., ibidem), vê-se, pois, que o caráter social ligado à língua já está perfeitamente ali contemplado. O que, de certo modo, não passou despercebido a Silva Neto, porque, como veremos em lugar oportuno, o filólogo aproveitou-lhe os exemplos da variação na fala dos romanos, por meio daquilo que Varrão denominou de metaplasmos, conforme a tradição dos antigos.

Weedwood (2002) aponta que Varrão, precisamente nos livros VIII a X, aborda a questão dos papéis da analogia e da anomalia, derrubando a necessidade de uma controvérsia sobre a importância relativas a elas, mostrando que ambos os princípios decorrem do uso. Ou, nas próprias palavras do gramático latino, “uma coisa é dizer que é possível encontrar analogias em palavras, e outra é dizer que devemos segui-las” (VARRÃO, IX, 4).15 Para que tenhamos uma ideia de como é expressiva a importância que Varrão deu ao uso linguístico, ilustrativo é o comentário de Weedwood (2002), a respeito da opinião do gramático sobre o neologismo. Diz a autora que “seu conselho é pragmático: os neologismos devem ser guiados pela analogia, mas se uma forma anômala já estiver bem estabelecida, deve-se permitir que permaneça” (WEEDWOOD, 2002: 38, grifamos).

2.2.2 O Livro VIII De Língua Latina de Varrão

Analisando o livro VIII De Língua Latina de Varrão, vemos que os exemplos do caráter social incidindo sobre a língua são fartos. Vejamos o que diz Varrão (2006) em alguns exemplos:16

Todo discurso, como deva ser concebido para a utilidade, à qual então afinal ele chega se é claro e breve, como determinados, porque um orador prolixo e difícil de compreender faz perder a paciência, e como fique claro para que se compreenda e breve para que logo compreenda, para os eloquentes o costume /torna o discurso/17 claro e a moderação, breve. E ambos podem ser produzidos sem a analogia – ela não é necessária. Nem se a analogia, pois, ensinar que seja correto dizer Herculi clauam ou Herculis clauam (o cajado de Hércules), como ambos são permitidos no uso não se deve desprezá-los, pois são igualmente breves e claros (VARRÃO, XI – 26).18

A questão do uso linguístico é importante porque pressupõe a variação, já que não se pode falar em uso sem se levar em consideração o falante ou o grupo de falantes de uma dada língua. E nesse caso, o melhor seria seu emprego plural: usos. No excerto acima, está enunciado o aspecto do uso, quando o gramático diz que todo discurso deve ser concebido para a utilidade, embora haja aqui uma forte posição doutrinária do autor em relação ao discurso, uma vez que, seguindo as diretrizes dos estudos da linguagem da época, dirá que se deve seguir o modelo da concisão e da clareza.

À primeira vista, poder-se-ia argumentar contra esta ideia de uso, afirmando-se que o termo utilidade, empregado por ele, refere-se à utilidade apenas no sentido de ser útil, de bom proveito e não de uso. Todavia, acompanhando o fio do discurso do autor, podemos notar a aberta referência ao uso, quando ele diz que os aspectos de brevidade e clareza do discurso podem ser produzidos sem a analogia, pois para ele – de acordo com a citação –, ela não é necessária, de modo que “nem se a analogia, pois, ensinar que seja correto dizer Herculi clauam ou Herculis clauam (o cajado de Hércules), como ambos são permitidos no uso não se deve desprezá- los”. Por este exemplo, notamos que, para Varrão (neste caso específico), era o uso que determinaria o emprego de uma forma ou de outra.

Tais paradoxos eram comuns nas gramáticas antigas (e eles continuam em muitas gramáticas modernas). Leite (2007: 46), ao historiar a gramática antiga, na intenção de verificar que possíveis trabalhos serviram de base (ou mesmo modelo) às primeiras gramáticas portuguesas [notadamente a de Fernão de Oliveira (1536) e a de João de Barros (1540)], afirma que o filósofo grego Sexto Empírico (séc. II d. C.) já questionava os critérios contraditórios da gramática. Baratin (2000)19, ao comentar o dilema de Sexto Empírico, esclarece que o filósofo chega à conclusão de que os critérios são contraditórios porque, em muitos casos, o uso pode ser a razão de uma realização linguística condenada pelo critério da analogia. Leite (2007) observa, então, que se o uso exclui a analogia, ela [a analogia] não tem razão de ser, assim como não o tem a gramática, que é formada pela analogia, o que não quer dizer com isso que a autora ignore a importância da gramática, enquanto instrumento linguístico. A reflexão volta-se apenas para a complexidade que envolve a relação entre analogia versus anomalia.

O próprio Silva Neto, aplicando uma teoria linguística moderna ao estudo da variação e da mudança no latim, sugeriu uma explicação baseada na dicotomia saussuriana langue-parole, somada à teoria das ondas [Wellentheorie],20 que ele tratou sob a designação de tendências que abortavam e tendências que vingavam: “A verdade é que no curso evolutivo do latim houve tendências que abortaram e tendências que vingaram, passando do campo da parole para o domínio da langue” (SILVA NETO, FLV 1946, [1938]: 19), asseverava o autor.

Por isso que Silva Neto (op. cit.: 244), que utiliza um conceito atual acerca do processo de variação e mudança, explica que é a ideia de adoção, que o torna possível:

Não é absurda nem impossível a adoção de um vulgarismo pela língua geral, pois que a língua literária e língua popular andam sempre em interpenetrações; se a língua culta impõe ao falar descuidado muitas particularidades, é certo que também assimila muito vulgarismos (SILVA NETO, FLV 1946 [1938]: 244).

A respeito dessas “interpenetrações” a que se refere Silva Neto, talvez, os estudos linguísticos contemporâneos possam explicá-los melhor. Leite (2005: 197), por exemplo, alhures em estudos sobre a norma culta e popular, amparada em teorias modernas, refletiu se deveríamos nos indagar se seria pertinente a “qualificação da norma” como norma culta e norma popular. Segundo Leite, (2005: 198), “poderíamos dizer que somente em termos esses conceitos são aceitáveis, porque os próprios conceitos do que seja culto e popular são de difícil fixação”. Para Leite, quanto à língua, tem-se que, em geral, nas sociedades letradas, o que se configura na tradição é o que ficou registrado nos “instrumentos linguísticos” como prática prestigiosa da língua, tomado assim como um parâmetro para o “julgamento” de todos os enunciados linguísticos, falados e escritos. Na conclusão a que chegou a autora afirma que

Desse modo, todos os enunciados que estiverem mais próximos da tradição são considerados “cultos”, e todos os que dela se distanciarem são considerados menos cultos ou “populares”. Isso dá origem à dicotomia norma culta/ norma popular (LEITE, 2005: 198).

Isso para dizer que esses aspectos a respeito do que seja popular e culto e suas respectivas implicâncias são de difícil concepção, embora sejam importantes e devam ser considerados para a melhor compreensão do problema relativo à variação.

Enfim, como vimos na citação mais acima referente à Varrão, essa questão do uso versus analogia está presente e se desdobra em outras considerações importantes; portanto, se há uma preferência pelo uso em detrimento da analogia, a questão da variação (que é social) está, mesmo que sub-repticiamente, contemplada na obra desse erudito latino. Observemos mais uma citação, que é um parágrafo subsequente ao analisado acima:

Além disso, se alguém a partir de uma coisa compreendeu que cada uma delas tenha sido inventada em razão dessa utilidade /poderá/ pesquisá-la por um prazo maior porque tenha muito tempo livre. E como em razão da utilidade os nomes tenham sido aplicados às coisas para revelar /o significado delas/ se compreendermos isso simplesmente com o uso, a analogia não tem serventia (VARRÃO, XII-27).21

No excerto acima, além de desenvolver este raciocínio a respeito do uso versus analogia, o gramático chega mesmo a enunciar que, em razão da utilidade de os nomes terem sido aplicados às coisas para revelar-lhes o significado, a analogia não tem utilidade. Poder-se-ia aventar que o gramático não deu grandes passos no sentido de romper com a noção de analogia, que, sob uma perspectiva atual, talvez, não teria nem razão de ser. Não nos esqueçamos, no entanto, que este era o horizonte de retrospecção de Varrão, ou seja, discutir questões de linguagem, necessariamente passava pela abordagem a respeito da analogia versus anomalia.

Ninguém diria, por exemplo, hoje, que, um estudioso da linguagem, abordando em suas discussões o paradoxo da mudança linguística, a partir da noção de estrutura, estaria ultrapassado, já que o horizonte de retrospecção de qualquer estudo contemporâneo sobre a variação e a mudança, leva em consideração a noção de estrutura tratada a partir da publicação do Curso de Linguística Geral, de Ferdinand de Saussure, em 1916. É o que irá ocorrer, por exemplo, com o texto seminal de Weinreich, Herzog e Labov (1968), Princípios empíricos para uma teoria da mudança linguística.22 Com isso, queremos dizer que devemos abordar os fenômenos linguísticos em epistemologia histórica, atentando para aquilo que diz Auroux (1979: 15), que é o cuidado que devemos ter não apenas em determinar o sentido que estes conhecimentos passados podem vir a ter para nós, mas, sobretudo, de reconhecer este sentido como algo pertencente ao universo cultural onde eles apareceram.23 Parece-nos que este é o caso da analogia versus anomalia, foco de debate entre os antigos, mas que será revitalizado na atualidade sob outra perspectiva das reflexões acerca da variação e da mudança linguísticas, por exemplo.

Embora devamos atentar para as diretrizes teórico-metodológicas acima mencionadas, é impossível não entrever no discurso do autor o aspecto social como determinante para os fatos linguísticos, na medida em que Varrão considera aquilo que chamamos hoje de variação situacional e de uso, fator essencial para a escolha desta ou daquela forma; como ilustrado por ele nesta lúcida metáfora da vestimenta:

Acrescenta-se a isso que na vida a qualquer coisa que seja adotada por causa do uso é próprio de nós nelas procurar a utilidade, não a semelhança. E assim em relação à roupa embora a toga masculina seja diferente da túnica e a estola feminina do manto apesar da dessemelhança usamos /ambas/. (VARRÃO, XIII – 28).24

Ou seja, para este erudito latino, o uso linguístico, assim como o uso da vestimenta, deveria seguir o critério situacional. Como é de conhecimento, assunto este tão caro à linguística contemporânea, mais precisamente nas abordagens da sociolinguística, e da sociolinguística interacional. Esta ideia, do critério situacional do uso, pode ser mais bem avaliada na próxima citação:

Por isso, como na roupa e nos edifícios, na mobília e na comida e em todas as outras coisas que se tomam na vida por causa de sua utilidade domine a dessemelhança, também na linguagem que foi determinada em razão do uso não se deve rejeitá-la (VARRÃO, XV – 30).25

Varrão diz mesmo que, em matéria de linguagem, não se pode rejeitar a “dessemelhança” – que na sua metalinguagem quer dizer, por exemplo, não-conformidade com os autores clássicos –, justamente, porque ela, a dessemelhança, foi determinada em razão da necessidade do uso.

Aqui, Varrão faz uma consideração explícita em relação ao que, ao longo das citações, viemos tentando comprovar: o de que, imbuído que estava na defesa da anomalia, ou seja, do uso como regulador de formas consideradas incorretas, ele será o primeiro autor que, citado por Silva Neto, aparecerá no horizonte de retrospecção quando a discussão acerca da variação se fizer presente, isto porque também serviu de base para os outros gramáticos, igualmente referidos pelo filólogo.

Para finalizarmos, por ora, fiquemos com a seguinte conclusão de Varrão a respeito dessas questões:

[...] Portanto, ou as coisas diferentes não devem ser afirmadas como aprazíveis para nós, ou – pois é preciso admitir /isso/ - deve ter fixado que a dessemelhança das palavras – que ocorre no uso – não há de ser evitada (VARRÃO, apud, RUY, 2006: 43, grifamos).26

Vejamos, pois, o aproveitamento dos exemplos de metaplasmos, formas arcaicas, dados etnográficos e de alterações lexicais, registrados por Varrão, que, citados por Silva Neto, serão, dentre muitos, a observação de dados sociais sobre a língua latina, a ilustração de fenômenos de variação e de mudança da língua.

O primeiro é o que segue: “Legou-nos Varrão êstes exemplos: ‘spica autem quam rustici, ut acceperunt antiquitus, uocant specam, a spe videtur nominata’ (R. R. 1. 48, 2)” (SILVA NETO, FLV 1946 [1938]: 55-56).27

Silva Neto (1986 [1957]) utiliza ainda o testemunho de Varrão para registrar a base de formas atuais de línguas românicas modernas, tais como o sardo: “Fornum, que está documentada num mss. de Varrão [...], é a base de formas sardas e do sul da Itália [...], às quais se vem agora reunir o noroeste ibérico” (SILVA NETO, HLP 1986 [1957]: 191, n. 29).

Varrão também é citado pelo filólogo para desfazer equívocos a respeito de certas etimologias, como no seguinte trecho:

dizendo que os vocábulos Minerva, Feronia, e Nouensides eram sabinos, acrescentava Varrão: “e quis nonnulla nomina in utraque lingua habent radices, ut arbores quae in confinio natae in utroque agro serpunt: potest enim Saturnus hic de alia causa esse dictus atque in Sabinis, et sic Diana, de quibus supra dictum est”28 (SILVA NETO, 1946 FLV [1938]: 169).

Também ao expor a alteração lexical da palavra latina palpebra e palpetra, serve-se novamente da referência a Varrão:

Cabe aqui uma referência às interessantes formas galegas parfeba, perfeda, que continuam as bases latino-vulgares palfebra (C. Gl. L. 3, 85, 35) e * palfetra. É que ao lado de palpebra havia palpetra (Varrão, táboa execratória); com esta coexistia a forma dialetal * palpefra, que, cruzando-se com aquelas, produz palfebra e * palfetra (SILVA NETO, HLP 1986 [1957]: 117, n. 17, sublinhamos).

O testemunho de Varrão é utilizado ainda para comprovar que a forma sēcŭla (sega do verbo port. segar - ceifar) era originária de uma determinada região do sul da Itália. Silva Neto (1946 [1938]) diz: “Varrão dá o segundo [sēcŭla] como originário da Campânia: ‘... hae (falces) in Campania seculae a secando.’ (Lingua Latina, V, 137)” (SILVA NETO, FLV 1946 [1938]: 59-60).

Assim como, para fazer referência a dados etnográficos sobre os costumes dos povos como os etruscos, que, coabitaram a península itálica ao lado dos romanos, e, não obstante serem mais desenvolvidos, foram absorvidos por estes. Mas não sem deixar marcas de toda sorte na língua, na culinária e na arquitetura do Lácio. Sobre isso, Silva Neto menciona que “o erudito Varrão afirma-nos que as fortalezas - como tantas outras coisas – eram construídas à maneira etrusca” (SILVA NETO, FLV 1946 [1938]: 53).

Em Introdução ao Estudo da Filologia Portuguesa a referência é mais completa, uma vez que o filólogo remete seu leitor à obra – “veja De Lingua Latina, V, 143”, denomina Varrão como gramático, e transcreve o trecho, anteriormente, apenas aludido: “O gramático Varrão afirma-nos que as fortalezas eram construídas à maneira etrusca: ‘Oppida condebant in Latio Etrusco ritu multi ...’ ” (SILVA NETO, IEFP [1956] 1976: 21). Varrão também é citado como exemplo de usuário culto da língua, que havia incorporado, já anos antes, certas expressões consideradas por alguns como da língua falada. A essas expressões Silva Neto denominava “torneios sintáticos”. Vejamos: “[...] não se pode olvidar que, desde o antigo latim, se empregava quod: ‘similiter quod’ é torneio sintático do vernaculíssimo Varrão” (SILVA NETO, IEFP 1976 [1956]: 199).

E, por último, ainda sobre o desempenho linguístico do gramático latino, que teve de abandonar formas linguísticas de sua antiga variedade por outras que se adequassem melhor ao contexto social e situacional em que se encontrava, informa que “Varrão, havendo aprendido a dizer, no seu falar natal, aeditumus (que é forma antiga), teve de substituí-la pela forma urbana ardituus – ‘ut didicere didicimus a patribus nostris... ut corrigimur a recentibus urbanis’ (R.R.I. 2, 1)” (SILVA NETO, EFP 1956 [195229]: 27).30

Dando continuidade à formação do horizonte de retrospecção de Silva Neto com relação a outros gramáticos antigos, vejamos, agora, algumas referências suas a Quintiliano, Mário Vitorino, Terenciano Mauro, além de outros, citados em menor recorrência.

2.2.3 Marcos Fábio Quintiliano

Segundo Pereira (2006), Quintiliano (Marcus Fabius Quintilianus) nasceu por volta de 30 d. C.; como Sêneca, era oriundo da Hispânia. Segundo o testemunho de São Jerônimo, foi o primeiro a abrir em Roma uma escola pública e a ser remunerado por isso (PEREIRA, 2006, p. 21). Conforme entendemos, o tratamento dado não só por Quintiliano e Varrão, como também por outros gramáticos latinos à variação linguística, como se verá, a partir de um ponto de vista da História das Ideias Linguísticas, está representado, por dois modos diferentes: de um lado, a atitude deles com respeito à correção, clareza e elegância; de outro, o tratamento que deram ao problema aos chamados “vícios de linguagem”: o barbarismo e o solecismo.31 É nesse sentido que o caráter social, contextual e de uso da língua latina afloram nas obras gramaticais desses autores e, desse modo, serão aproveitadas pelo filólogo brasileiro.

Silva Neto (FLV 1946 [1938]: 240) cita, por exemplo, uma passagem de Quintiliano na qual não é difícil divisar o caráter social envolvido na questão. Diz o filólogo que “QUINTILIANO recomendava aos pais que antes de tudo evitassem, para os rebentos, amas de linguagem viciosa: ‘Ante omnia, ne sit vitiosus sermo nutricibus quas si fieri posset, sapientes Chrysippus optavit...’ (Institutionis Oratoriae, I, 1)”.32

Quando explicou a simplificação do grupo ns em vocábulos como; ansa > asa; tensa > tesa; mensa > mesa; menses > meses, etc., o filólogo trouxe um excerto de Quintiliano para abonar a mudança: “Quintiliano atestava: ‘Consules exempta n littera legimus’ (Inst. Or. 1. 7. 29)” (FLV 1946 [1938]: 173).

Para ficarmos com mais um exemplo, dentre muitos, o filólogo carioca assegura que “Quintiliano estabelece clara relação entre o falar do campo e a língua dos antigos – ‘uerborum atque ipsius soni rusticitate... imitationem antiquitatis affectant’ (XI, 3, 10)” (SILVA NETO, EFP 1956 [195233]: 27).34

E por último, Silva Neto indica que é de Quintiliano o conceito de sermo cotidianus, usualis, que equivaleria atualmente ao de língua falada na conversação: “À língua de conversação, corrente em suma, chamavam sermo cotidianus, usualis. São bastante felizes êsses conceitos de Quintiliano: ‘Sermone quotidiano –, quo cum amicis, coniugibus, liberis, servis loquamur’ (XII,10, 40)” (SILVA NETO FLV, 1946 [1938]: 37)35 O que é bastante expressivo, porque demonstra a já natural sensibilidade dos latinos para a compreensão da diversidade do uso e da interação linguística.

2.2.4 Mário Vitorino

Outro gramático bastante citado por Silva Neto é Mario Vitorino. De acordo com Gilson (2013: 135)36, Mário Vitorino nasceu na África proconsular em torno de 300 e faleceu por volta de 363. Era cognominado Afer (o africano), para distingui-lo de seus homônimos. Dele, ainda segundo Gilson (idem, ibidem), “resta-nos apenas uma pequena parte de suas numerosas obras, que tratavam dos mais diversos temas: gramática, dialética, retórica, exegese e teologia” (GILSON, 2013: 135, grifamos).37 Silva Neto (HLV 2006 [1957]: 209, n. 85) aventa “que a forma semos, que, é tanto em espanhol como em português popular e dialetal” talvez proviesse de uma forma registrada na gramática de Mário Vitorino:

“Messala, Brutus, Agrippa pro sumus simus scripserunt”. (Keil, Grammatici Latini, VI, 9).

Mario Vitorino é igualmente citado em História da Língua Portuguesa quando Silva Neto registra, por exemplo, a história do possessivo vossa, a partir de sua variação e evolução latina. Diz o autor:

Convém lembrar a história de uester, que é a forma do latim padrão. Era ela a continuação do itálico uesteros, o qual, sob a ação de uos, se transformou no arc. uoster: cp. úmbrio uestra. Voster evolucionou para uester, forma clássica, em virtude de conhecida norma da fonética histórica latina [...]. Apesar disso, uoster continuou a usar- se na língua falada, pelo menos a provincial, pois aparece numa inscrição africana [...] e figura nesta lembrança do gramático Mário Vitorino: ‘voster, vorit et similia per e non per o scribere debemus.’ (in Keil, Grammatici Latini VI, 1923, pág. 10)” (SILVA NETO, HLP 1986 [1957]: 235, n. 10).38

De sua obra, Silva Neto também retira os seguintes excertos, confirmando exemplos de sonorização na fala romana, na mudança de c / g (gutural surda/sonora):

Escrevia Mário Vitorino: “Apud antiquos C poni, solitum ut pro agro Galbino Calbino pro lege lece, acna pro agna: auctio certe ab augendo dicta est: et numeri cum habeant c ut ducenti, trecenti, sescenti, reliqui habent g, ut quadrigent, nongenti” (SILVA NETO, FLV 1946 [1938]: 208).

A importância desse testemunho reveste-se do mais alto grau de valor porque, conforme também afirma Silva Neto (op. cit.), citando um trecho do gramático Terenciano Mauro39 e outro do próprio Mario Vitorino, “os gramáticos diferenciavam o c do k”:

Diz o segundo [i.é, Mario Vitorino], que é da metade do 4º século: ‘c, reducta introrsum lingua, hinc atque hinc molares urgens, haerentem intra o sonum vocis excludit’ e adeante mais que o c se pronuncia distento e o k, ao revés, produto ricto” (SILVA NETO, FLV 1946 [1938]: 148).

Mostrando a radiação dessas duas variantes sonoras, c e k, cuja penetração alcançou também a camada culta da população, dirá que ela ocorreu “só pelo 2º e 3º séc. d. C.”, e que “a pronúncia sibilada entrou [assim] nas classes cultas: na boca do vulgo, porém, já ela existia há muito tempo” (idem, ibidem). Igualmente, esses mesmos gramáticos, acima citados, testemunharam as “diferenças de timbre”. Diz Silva Neto que “Terenciano Mauro, no fim do século II, distingue ŏ de ō, Mário Vitorino, dois séculos depois, reconhece a oposição ĕ / ē” (idem, ibidem, p. 155).

Ainda de Mário Vitorino, Silva Neto apôs este outro trecho em que discute a mudança de d por l:

Atente-se para a documentação dos gramáticos. Diz Mário Vitorino: ‘Gn. Pompeius Magnus ut dicebat et scribebat kadamitatem pro calamitate”. (KEIL, V. 1874, pg. 8). Adeante corrobora: “Et linguam per I potius quam per d, et praesidium per d potius quam per l”, (pág. 9).

E por fim diz mais: “Novensiles sive per I sive per d scribendum. Communionem enim habuit I littera cum d apud antiquos, ut dinguam et linguam et dacrimis et lacrimis, et kapitodium et kapitolium et sella a sede et olere ab odore”, (pg. 26) (SILVA NETO, FLV 1946 [1938]: 242).40

Fassina (2007), a propósito da análise que fez de um passo de Etymologiae, de Isidoro de Sevilha (c.560-636), comparou-o com esse primeiro trecho de Mario Vitorino, conforme vimos, referido por Silva Neto:

Table 1.

Isid. orig . I 27, 14 ‘L’ autem litteram interdum pro ‘D’ littera utimur, ut ‘latum’ pro ‘datum’ et ‘calamitatem’; a cadendo enim nomen sumpsit calamitas. Mar. Victorin. 4,4 p. 71 M ( GL VI 8, 15) Cn. Pompeius Magnus et scribebat et dicebat ‘kadamitatem’ pro calamitate’. (FASSINA, 2007: 58).

E chegou à seguinte conclusão:

Para nos limitar a algum exemplo significativo, parece derivar da Arte de Gramática de Mario Vitorino parte da discussão sobre a correspondência entre a letra D e a letra L no capítulo de ortografia [de Isidoro de Sevilha], porque Vittorino, de fato, parece ser o único autor a preservar a memória da pronúncia kadamitatem de Gn. Pompei (FASSINA, 2007: 58).41

Isso quer dizer que as observações de Mário Vitorino refletiam de tal modo significativo as variantes latinas utilizadas naquele período, que Isidoro de Sevilha não tendo outra fonte, senão esta, recorreu a ela para exemplificar com fidedignidade a pronúncia do vocábulo ilustrado, aparentemente a única disponível neste sentido.

2.2.5 Festo, Sérvio e Pompeio

O gramático Festo é citado na sequência da referência anterior, para demonstrar a mudança de fidium por filio. Sobre ele Silva Neto diz que “Festo, por sua vez, esclarece-nos: ‘Ac fidium pro filio quod saepe ante pro l litera d utebantur’ (ed. Lindsay, pg. 133) Ainda sustentava que: ‘Impelimenta, impedimenta dicebant’ (pg. 180 de edição de Amsterdão, 1699)” (SILVA NETO, FLV 1946 [1938]: 243).

Silva Neto informa ainda que foi Festo quem documentou uma das formas para o vocábulo ouro encontrada no Appendix probi:

83) Auris non Orĭcla. Ao latim de Roma auris correspondia a divergente dialetal oris, donde o diminutivo orĭcŭla. FESTO documenta-a: “Orata genus piscis a colore auri dicta, quod rustici orum diceband ut aurículas, orĭcŭlas”. (ed. Lindsay, pgs. 197 e 196). (SILVA NETO, FLV 1946 [1938]: 193).

Explicando outra, das muitas formas apresentadas no Appendix Probi – “79) Digĭtus non Dicĭtus” –, Silva Neto diz que “a princípio só existia o c. Depois é que se criou o g. Daí ser usado, às vezes, ao envés do segundo”. Referendava que havia sido o gramático “Festo, De uerborum significatione, [quem] atestava o fato” da variação entre as formas c e g: “c enim pro g frequenter ponebant antiqui” (FESTO apud SILVA NETO, 1946 [1938]: 188).

Além de que foi Festo quem “conservou-nos a variante cŏuum, correspondente à romana cauum”. Esse dado também é pertinente para a tese aqui defendida, porque, segundo Silva Neto, “o port. côvo, o esp. cueva, o antigo bearnês cobe ascendem à variante dialetal que, como se vê, era corrente no sermo cotidianus hispânico” (SILVA NETO, FLV 1946 [1938]: 51); isto é, era comum na variante conversacional usada naquela região do império.

Sobre o gramático Sérvio, Silva Neto, em História da Língua Portuguesa, chama a atenção para o fato de que “Sérvio comentando as Geórgicas, acentua a diferença entre latine e vulgo ‘Latine asílus, vulgo tabanus vocatur” (SILVA NETO, HLP 1986 [1957]: 81). Também recorre às mesmas informações do gramático ao abordar a difícil relação entre a língua falada e a língua escrita – nesse caso específico sobre o latim –, dizia que não havia textos escritos em latim corrente, uma vez que a língua escrita – conforme entendia – é um instrumento que se adquire penosamente, é uma técnica que exige aperfeiçoamento de uma vida inteira. Nesse contexto reflexivo, o filólogo carioca citava em nota o gramático latino Sérvio nos seguintes termos:

Se não há minuciosas descrições das complexas variedades da língua falada, como sei que uma forma é vulgar? Pela ambivalência estilística, pelo “tom” da linguagem em que aparece; ou melhor, exatamente pelo contraste, por não aparecer no elevado modo de exprimir criado pela tradição e pela técnica literária. É preciso ter sempre na mente que a língua falada se caracteriza por: afetividade, amor ao concreto, expressividade (vj. as Fontes, pág. 167). Isso, deixando de parte as informações dos gramáticos (por ex.: “Latine asílus, vulgo tabanus vocatur” ensina Sérvio, in Georg. 3, 147) e a possível confirmação, a posteriori, pelas línguas românicas (SILVA NETO, 1986 [1957]: 110, n. 3).

Embora Silva Neto redirecione o leitor para compulsar as Fontes do Latim Vulgar: o appendix probi, por ele editado e comentado, verdadeiramente, obra em que melhor abordou a assunto, não deixa de comentar as “técnicas” em que seria possível distinguir a variante padrão da não padrão em uma língua qualquer, e neste caso, a da latina: que seria reconhecível, segundo ele, “pelo tom”, “pelo contraste”. A referência de Silva Neto a Sérvio, que traz o comentário a respeito da variante latina, é fundamental nesse contexto da citação da História da Língua Portuguesa, porque servia como testemunho da variação linguística registrada em um instrumento linguístico como a gramática, ainda que, neste caso, pudéssemos contar com a confirmação posterior das línguas românicas, conforme o modelo do método histórico-comparativo.

Registrando a evolução de c e t antes de hiato latino, Silva Neto apresenta o testemunho conservador do gramático Pompeio em relação a este fenômeno, afirmando que “Pompeio, gramático latino de séc. V d. c., ainda pretendia remar contra a maré”. O trecho referido trata-se do seguinte:

Iotacismi sunt, qui fiunt per i litteram, siqui ita dicat, titius [titsius?], pro co quod est titus, Auentis [Auentsius?] pro eo quod est Auentius, Amantius [Amantsius?] pro eo quod est Amantius. Quo modo ergo hoc fit uitium? Definiamus illud, et uidebimus postea, quo modo cauere debemus. Fit hoc uitium quotiens post ti uel dissyllabam sequitur uocalis, si non sibilus sit. Quotiens cumque enim post ti uel di illud ti uel di in sibilum uertendum est. Non debemus dicere ita, quem ad modum scribitur Titius, media illa syllaba mutatum in sibilum (Keil, Grammatici Latini, V, pág. 286 apud SILVA NETO, HLP 1986 [1957]: 217).42

Ao dizer que Pompeio “ainda pretendia remar contra a maré”, Silva Neto demonstra ter a clara ideia de que a despeito da força da norma gramatical e da atuação dos “grammaticus” – para usarmos uma expressão empregada por ele – a língua seguia um curso de mudança pela força do uso.

2.2.6 Prisciano

De acordo com Robins (1979: 42) “as gramáticas atuais do latim são descendentes diretas das compilações dos últimos gramáticos latinos, como pode evidenciar uma leitura superficial das Intitutiones grammaticae de Prisciano”. Por tudo que representa, a gramática de Prisciano (circa 500 d.C.), composta por dezoito livros e com cerca de mil páginas, pode ser considerada, segundo Robins (op. cit.), a mais representativa da erudição latina e uma espécie de ponte entre a erudição linguística da Antiguidade e a da Idade Média, portanto, mais do que a simples representação do final de uma era. Ao fazer referência à fala vulgar dos Romanos, Silva Neto (FLV 1946 [1938]: 246) traz o testemunho de Prisciano, afirmando que “o gramático Prisciano verberava: ‘Sifilare, quod nos, vilitatem verbi evitantes, sibilare dicimus.’ (De Compendiosa Doctrina, pg. 619 da ed. Quicherat)”. Prisciano,

originário da Mauritânia, segundo a opinião comum, era cristão, provavelmente expulso de sua terra natal, África, no último quartel do século V, em razão da instabilidade causada pela ocupação dos vândalos. Prisciano teve como mestre, em Constantinopla, o gramático Teoctisto [que viveu por volta do ano 500], pelo contrário, pouco conhecido, antes de assumir a uma das dez cadeiras de Gramática Latina, fundada por Teodósio II (BARATIN et alli, 2010: 09).43

Ainda de Prisciano, Silva Neto apresentou os seguintes excertos acerca das trocas que os latinos faziam entre u e o:

São de Prisciano estes dizeres: “multa praetera vestustissimi etiam in principalibus mutabant syllabis, gungrum pro gon-, proferentes,”... funtes pro fontes, frundes pro frondes... quae tamen a juniorubus repudiata sunt quase rustico more dicta” (SILVA NETO, HLV 2004 [1957]: 152)44.

A seu modo, e em contexto analítico bem característico, Prisciano falou especificamente de variação. Baratin (1984), em artigo sobre a gramaticalidade e a inteligibilidade em Prisciano, afirma que o que Prisciano chama de variação é a modificação em singular-plural de algumas formas consideradas até contraditórias pela configuração dos seus constituintes:

Para Prisciano, com efeito, se esta ocasião da construção em si mesma revela o significado dos seus constituintes, é possível considerar que a significação seja revelada pela construção ou até mesmo seja contraditória pela forma dos constituintes. Por exemplo, na fórmula de Virgílio Pare in frusta secant (uma parte deles cortados em pedaços), a forma pars é um nominativo singular, mas a significação de pars, tal como a revela a construção desse nominativo com o verbo secant no plural, é um significado plural. Este é o princípio que Prisciano chama de variação, aqui variação singular-plural (BARATIN, 1984: 158).45

Prisciano também é citado como registro da variação – “transmutação esporádica” nos termos do filólogo – “de d oriundo de z”: “Temos aqui uma transmutação esporádica: d oriundo de z. Entretanto, em Prisciano, deparou-se-me a seguinte abonação: ‘Antiquissimi quoque Medentius dicebat pro Mezencius’ (cf. KEIL, Gramm. Latini, II, 1854, pg. 24)” (SILVA NETO, FLV 1946 [1938]: 150).

Para ilustrar o uso de “U em vez de ŏ” latino, demonstrando também aspectos da variação dessas vogais, Silva Neto (FLV 1946 [1938]: 72) faz referência, além de Prisciano, a Carísio e a Vélio Longo, respectivamente, nos seguintes termos: “são de Prisciano estes dizeres ‘multa praeterea vetustissimi etiam in principalibus mutabant syllabis, gungrum pro gon- proferentes... funtes pro fontes, frundes pro frondes... quae tamen a junioribus repudiata sunt quasi rustico more dicta.’ (KEIL, 2, 26 25)”.46

2.2.7 Carísio, Vélio Longo e Diomedes

O autor afirma que “a lição [a mesma apresentada por Prisciano e reproduzida acima acerca da variação de e ] é confirmada por Carísio (KEIL, I, 130, 29) e por Vélio Longo (id., VII, 49, 16)”, acrescentando a informação de que o último, Vélio Longo, escreveu a seguinte observação: “in multis etiam nominibus varie sunt scripturae, ut fontes funtes, frondes frundes47 (SILVA NETO, FLV 1946 [1938]: 72). Silva Neto demonstra com isso haver forte variação entre o e u já no uso latino, tanto quanto há, hoje em dia, em qualquer variedade da língua portuguesa, tudo a depender do contexto fonético-fonológico em que essas vogais ocorrem. Casos de variação entre e e entre e , em posição pretônica, foram recentemente investigados por Fonte (2010). Valendo-se de corpus do Português Arcaico (PA) (Cantigas de Santa Maria), a autora apresentou um estudo acerca da interpretação fonológica das vogais do português arcaico por meio da poesia medieval. A autora verificou que os contextos fonético-fonológicos em que ocorreram essas variações gráficas, nas CSM, favorecem o levantamento de vogal pretônica em muitas variedades do PB atual. Esse fato, segundo Fonte (op. cit.), levou-a a interpretar as variações gráficas identificadas no corpus considerado como possíveis casos de variação fonética entre as vogais pretônicas do PA. Além disso, concluiu que muitos dos processos responsáveis pela elevação da vogal pretônica, no PB atual, como a harmonia vocálica, são bem antigos na língua; parecem atuar, segundo a autora, desde o século XIII. E como podemos verificar pelas referências de Silva Neto aos gramáticos latinos, o fenômeno pode ter uma origem ainda mais remota no tempo: no próprio latim.

Em relação a uma pronúncia popular, que, modernamente, chamaríamos variação diastrática, Silva Neto afirma que ela é atestada por Vélio Longo: “O gramático Vélio Longo (fins do I e princípio do II séc. d. C.) atesta a pronúncia popular dossum, com assimilação do grupo rs: ‘sic et dossum per duo s quam per r dorsum quidam ut leuis enunctiaverunt.’ (Keil, Grammatici Latini VII, pág. 79)” (SILVA NETO, HLV 2004 [1957]: 206). Isso porque havia também entre alguns gramáticos latinos, dentre eles, um anônimo, que talvez fosse Vério Flaco, cuja doutrina havia servido de base para o capítulo ortográfico de Mario Vitorino (cf. DESBORDES, 1995: 182), a ideia de aplicar aquilo que Desbordes (op. cit.) convencionou denominar de “extremismo fonográfico”, que consistia em aplicar o princípio de “escrever como se fala”. Seguindo esse princípio, “a grafia devia adaptar-se à evolução da língua no tempo” (idem).

Quanto ao processo de “assimilação nos grupos nd e mb”, o filólogo apresenta o importante testemunho de Diomedes, em relação à variação temporal. Sobre isso, diz ele: “advertia o gramático Diomedes: ‘grunnit porcus dicimus; ueteres grundire dicebant’ (vj. KEIL, I, pg. 383)” (SILVA NETO, FLV 1946 [1938]: 78).48

Analisando os fenômenos de redução na língua latina, o autor observou o mesmo fenômeno na língua portuguesa popular, independentemente de qual variante se tratasse, se do lado de cá ou de lá do Atlântico, afirmando mesmo que: “em português pop[ular], tanto em Portugal como no Brasil, há [a forma] tamém (também). No dialeto extremenho deparam-se-nos formas como imora (embora) e Imurósio (Ambrósio)” (SILVA NETO, FLV 1946 [1938]: 79, n. 79).

Embora também reconhecesse largamente que “a língua portuguêsa, [tivesse] agora, duas pátrias: Portugal e Brasil. Lá [ref. a Portugal] como vimos, há variantes dialetais, aqui [,no Brasil], também poderemos assinalar variedades” (SILVA NETO, GED 1957: 22).49 Isso para dizer que suas ideias sobre os fenômenos da variação estão presentes nos estudos sobre a língua latina, como também estão largamente apontados, em paralelo, na língua portuguesa.

Silva Neto não deixa de apontar as limitações desse método, conquanto ressalte a importância dos testemunhos desses gramáticos latinos para a constituição das fontes do que seria o sermo usualis da língua latina ou o “latim corrente”, na metalinguagem própria utilizada por ele. Isto porque – segundo bem observa – “os gramáticos latinos, em vez de observá-lo e cuidadosamente estudá-lo [o sermo usualis], perseguiam-no com ódio implacável” (SILVA NETO FLV, 1946 [1938]: 83).

2.2.7.1 Aulo Gélio

Mas também reconhecia o fato de que Aulo Gélio, em Noites Áticas, havia feito referência à obra de T. Lavinius, De verbis sordidis, livro que, segundo entendia Silva Neto, “sem dúvida, seria de inestimável valor para a pesquisa do latim popular”, caso não houvesse sido lamentavelmente perdido (cf. SILVA NETO, op. cit. p. 83, n. 83). Cabe ressaltar que, embora não fosse gramático, Aulo Gélio figura em muitas obras sobre gramáticos porque copiou muitas lições e até livros inteiros da autoria destes, muitos dos quais se perderam na longa noite dos tempos, sendo, portanto, sua obra a única via pela qual temos acesso a eles. É o que Cardoso esclarece:

Aulo Gélio reserva muitos capítulos para reflexões sobre a língua latina (prosódia, morfologia, fonética, sintaxe, semântica), tomando por ponto de partida leituras feitas; comenta textos literários e, por inserir longas citações nos comentários, tem o mérito de preservar trechos de obras perdidas (CARDOSO, 2011: 196).

Em que pese o fato de filólogos modernos terem revelado vários de seus subterfúgios, como não ter lido todos os autores que citou, ter copiado de outros trechos sem mencionar seus nomes, relatar discursos que teria ouvido, quando na verdade os teria tirado da informação de um livro qualquer, produzindo uma espécie de representação e diálogos destinados a tornar mais viva a controvérsia, conforme aponta Desbordes (1995: 39), devemos considerar que a obra de Aulo Gélio ainda é de grande valor, justamente, pela circunstância de poder dar importantes reflexões sobre a língua latina, além de revelar detalhes de obras que se perderam para sempre, como a referida obra de T. Lavinius, apontada por Silva Neto como “de inestimável valor para a pesquisa do latim popular”.

2.2.8 Probo e Consêncio

Por último, adicionemos este exemplo de ultracorreção (hipercorreção) colhido de Probo por Silva Neto, em que diz: “31) Eis-nos de novo deante de uma evolução estranha [por ultracorreção] [...]. O gramático Probo ensinava ‘quaeritur qua de causa hic sobrius et non hi sober dicatur’” (SILVA NETO, FLV 1946 [1938]: 166). Probo (IV séc. d. C.), aliás, é, segundo Silva Neto, o gramático que “maior número de informações presta-nos”, dessa língua falada, corrente e popular (SILVA NETO, HLV 2004 [1957]: 217).

Podemos afirmar com segurança que os exemplos acima referidos são, verdadeiramente, testemunhos de variação aproveitados pelo filólogo brasileiro dos gramáticos romanos para registrar o fenômeno da variação e da mudança na língua latina, porque ele também tinha a clara noção de quando não o eram, conforme demonstra no seguinte trecho: “Com efeito, Consêncio não nos diz, claramente, insofismavelmente, que tal forma era de uso corrente entre o povo. Limita-se a apontá-lo como exemplo de troca de acento” (SILVA NETO, FLV 1946 [1938]: 160).

3. Gramática, uso, variação e mudança

Do mesmo modo, ao tratar das limitações apresentadas pela metodologia, Silva Neto procura colher dados linguísticos, e também (sócio) linguísticos a partir das obras gramaticais e as limitações desses dados. Asseverava Silva Neto:

Outrossim, se raras observações faziam, não são elas muito completas, pois eles não nos informam em que lugar tal ou qual forma se usava, nem a que classe social se circunscrevia” (SILVA NETO, HLV 2004 [1957]: 99).

Ademais, a ação do gramático que acaba por registrar, ainda que indiretamente, as diferentes variantes de uma determinada língua a partir do comentário normativo que faz das formas divergentes, leva-nos a garantir a forte convicção de Serafim sobre o embasamento teórico assumido, qual seja, o de que a variação social, a variação situacional, e mesmo as diferentes modalidades – escrita e falada – são determinantes para a variação linguística que, por sua vez, leva à mudança, até porque o próprio autor o enuncia alhures, quando diz: “a língua popular evoluciona com muito mais rapidez do que a literária, devendo ainda notar-se que a língua falada difere com as camadas sociais e os lugares em que está em uso” (SILVA NETO, IEFP 1956: 36, grifamos).50

Com esse comentário, Silva Neto (1956) não apenas nos apresenta seu conceito sobre o aspecto conservador da modalidade escrita da língua, em oposição ao dinamismo da falada, como também nos expõe sua concepção acerca da diversidade linguística da língua falada, em virtude das diferenças sociais e geográficas, que em tudo é igual à concepção sociolinguística contemporânea, exceto pelo fato de não apresentar dados em tabulações quantitativas.

Corroborando essa ideia, cita-se a já referida pesquisadora francesa Françoise Desbordes, que, trabalhando com a concepção sobre a escrita na Roma Antiga, chegou à conclusão de que “essa maneira de considerar as relações entre escrito e oral” está na origem da nossa atual “fonética histórica” e é o que a torna possível (DESBORDES, 1995). A ideia é concluída da seguinte forma:

Onde quer que um testemunho, uma prova contrária não possam ser trazidos, o mais simples é considerar as variantes gráficas como variantes lingüísticas. É sempre o credo da filologia latina, e era para os próprios latinos uma ocasião para observar que a língua, como tudo neste mundo, transforma-se (DESBORDES, 1995: 231).

E o que é mais importante para os nossos propósitos é que o autor divisava, já nos estudos sobre o latim, essa heterogeneidade, porque, conforme dizia, “no latim, como em toda língua de povos civilizados, podemos distinguir vários matizes” (Idem, ibidem). Isso quer dizer que a construção de uma teoria da variação pelo autor encontra sua gênese nos estudos que realizou sobre o latim vulgar; foi ampliada – conforme se verá – devido a sua atuação nas lides filológicas, em edições de textos medievais, e mais tarde, refinada no trabalho com os problemas acerca do Português do Brasil, que, com seu pensamento crítico, soube enfrentar. Mas, talvez, o que venha a ser ainda mais proveitoso para nosso argumento, seja o excerto seguinte, que sintetiza bem a ideia segundo a qual as línguas variam, ou, de que “é próprio das línguas a oposição unidade na diversidade e diversidade na unidade” (SILVA NETO, HLP 1986 [1957]: 121, grifo do autor). Embora o exemplo em causa, se refira especificamente ao latim, não se pode afirmar que ele não seja bem aplicado às línguas em geral. Diz o autor:

Não se pode pôr em dúvida que, bem apurados os fatos, só houve um latim, que, em todos os lugares e em todos os tempos, serviu de meio de expressão a todos os cidadãos romanos e, por causa disso, foi tão ricamente diferenciado como os milhares de indivíduos que dele se serviam. As diferenças, pois, encontram-se nas pessoas que o falavam, gente variadíssima que, no espaço e no tempo, se caracterizava por preferências constantes. Essa constância de preferências no uso da língua era, precisamente, uma das características de cada grupo (SILVA NETO, HLP 1986 [1957]: 109, grifo do autor).

Esta citação deixa claro que, na concepção de Silva Neto, uma das manifestações mais importantes da identidade coletiva é a língua. Neste caso, segundo o autor, falar a mesma língua não significa, necessariamente, falar a mesma variedade dela, uma vez que, em sua diversidade, a língua se estabelece não só entre os mais diversos grupos sociais, o que, aliás, na concepção do filólogo, já seria um fator preponderante para a diferenciação linguística, como também ela se acomoda entre os mais diversos indivíduos, quer seja no espaço, quer seja no tempo. Neste caso, mesmo diante de quadro tão variado, a língua não mudaria a ponto de ser percebida como outra por seus falantes. O autor esquematizou as variantes latinas do seguinte modo:

Figure 1.

Enfim, à medida que lemos e conhecemos as particularidades da obra desse importante autor, os exemplos a respeito da variabilidade linguística, explicada à luz do embasamento social, avolumam-se. De modo que, a forte convicção de Serafim da Silva Neto de que a língua não podia ser estudada separadamente de sua estrutura social é comprovada, já em Fontes do Latim Vulgar: o appendix probi (1946 [1938]), quando o autor, baseando-se em uma divisão de Leite de Vasconcelos a respeito do âmbito da Filologia, dirá que poderíamos resumir o âmbito da Filologia em “I – História da língua [gramática histórica, antroponímia, toponímia, métrica, estrutura sociológica da língua, etc.]” (SILVA NETO, FLV 1946 [1938]: 60, grifamos).

Silva Neto era da opinião – aliás, fundamentada em H. Schuchardt –, segundo a qual “os neogramáticos, nessa questão de leis [fonéticas], eram incoerentes, pois a equiparavam às ciências naturais”, embora não deixasse de reconhecer que os mesmos neogramáticos “proclamassem o caráter social da linguagem” (1946: 262).

Todos os excertos acima reproduzidos, dos quais, conforme ilustramos, Serafim da Silva Neto procurou abeberar-se com a intenção de documentar e comprovar a dialetação ou a variação desse latim corrente ao longo dos tempos, mostram que “a história da gramática latina não termina, evidentemente, com os gramáticos latinos” (AUROUX, 1992: 62), pois, como sabemos, em um certo sentido, ela ainda sobrevive nas diversas formas das atuais línguas românicas, incluindo a portuguesa, porque, segundo entendia o filólogo, “as línguas neolatinas são fases atuais do latim” (SILVA NETO, IEFP 1956: 65).

Cabe ainda ressaltar que o conhecimento acerca das gramáticas latinas antigas, ou, para sermos mais precisos, das gramáticas latinas pertencentes à antiguidade tardia, concorreu para o estabelecimento do que temos denominado de conceitos linguísticos variacionistas, encontrados no conjunto da obra do autor.

Não se pode ignorar que seu horizonte de retrospecção acerca das gramáticas latinas, que, conforme vimos, registraram tão bem a língua falada oral das várias classes sociais romanas, abrangesse também obras e autores, seus contemporâneos, que se dedicaram ao estudo dessas gramáticas. O testemunho é do próprio Silva Neto, que afirmava possuir um número considerado de trabalhos neste sentido e que pôde, portanto, consultá-los, assim como também não pode ter acesso a outros, embora tivesse notícia de sua existência:

Os textos dos gramáticos latinos estão recolhidos principalmente em Funioli, Fragmenta grammaticae latinae, I. 1907 (único volume publicado) e em Keil, Grammatici Latini, 8 volumes. Não pude manusear o livro de Lambert, intitulado La Grammaire Latine selons les Grammairiens latins, publicado em Dijon, em 1808. De H. Mihaescu possuo o bom estudo O barbarismo, segundo os gramáticos latinos, traduzido do romeno por M. de Paiva Boléo e V. Buesco, Coimbra, 1950. A respeito de Consêncio, além da magnífica edição de Nierdemann (Consentii Ars de Barbarismis et Metaplasmis, édition nouvelle suivié d’um fragmente inédit de Victorinus, De Solecismo et Barbarismo, Neuchâtel, 1937) conheço os excelentes estudos de Abbot, Vulgar Latin in the Ars Consentii de Barbarismus e de H. Kohlstedt, Das Romanische in den Artes de Consentius, de 1917. Com respeito a Varrão, é modelar o recente estudo de Jean Collart, Varron grammairien latin, Paris, 1954 (SILVA NETO, 2004 [1957]: 217, n.99).

Obras que, sem sombra de dúvidas, orientaram o olhar e a análise do nosso autor para os aspectos aqui apontados. Afinal, todo esse conjunto faz parte de seu horizonte de retrospecção. Mesmo as obras não citadas. Isso porque, conforme esclarece Colombat (2007: 90), o horizonte de retrospecção “abrange o conjunto dos conhecimentos prévios reconhecidos, assumidos ou mesmo rejeitados por um autor x em um momento x da história”.51

Por fim, registre-se que o conhecimento de Serafim da Silva Neto acerca da doutrina gramatical latina não se restringiu, tão-somente, à dialetação e aos fatos da variação linguística, que ficaram conhecidas como sendo o latim vulgar, denominação, aliás, refutada por ele que preferia o emprego da noção de latim comum. O filólogo também tomou referências a Donato e a Varrão para desenvolver um estudo linguístico sobre as onomatopeias.52 De Donato, adotou a definição do fenômeno: “Já a definia o velho gramático latino: ‘Onomatopeia est nomen de sono factum, ut tinnitus aeris, clangor tubarum’ (vj. Keil, IV, pág. 450)”.53 De Varrão, um exemplo ilustrativo: “Varrão já dizia que as aves tomavam os nomes do seu próprio canto [...] (cf. De lingua latina, V, 75)” (SILVA NETO, LCC 1960: 229). Mas isso já é assunto para outro trabalho.

Breves considerações finais

Nosso objetivo neste artigo foi o de mostrar o quanto e como as gramáticas latinas serviram de objetos textuais de análise para que Serafim da Silva Neto (1917-1960), no conjunto de sua obra, apresentasse subsídios para a configuração de uma teoria sobre a variação e a mudança linguística, entre os anos 40 e 50 do século XX, portanto, 20 anos antes e independentemente dos estudos a que modernamente denominamos Sociolinguística.

Uma vez confirmada a hipótese de que as gramáticas latinas, em parte, conformaram a perspectiva variacionista de Serafim da Silva Neto, quer seja a de traços sociais, quer seja a de traços temporais, não podemos ignorar também o fato de que os corpora com os quais o autor lidou foram fundamentais para que ele pudesse obter uma visão de conjunto, no campo românico, de fatos linguísticos diacrônicos, que vieram a ilustrar não só as variações, como também as mudanças na língua latina e, posteriormente, na língua portuguesa.

Conforme demonstramos, seu trabalho está repleto de exemplos neste sentido. Afinal, como mais tarde postularam Weinreich, Labov e Herzog (1968), naquela que viria a se tornar uma obra clássica da linguística histórica: “nem toda variação e heterogeneidade envolvem mudança, mas toda mudança envolve variação e heterogeneidade (WLH, 2006 [1968]: 126). A consciência de nosso autor em relação a esse aspecto ficou sintetizada na seguinte observação que fez nas páginas iniciais de Fontes do Latim Vulgar: “Nos próximos capítulos iremos, na medida do possível, traçar a história da língua [latina] corrente, salientando, dos fenômenos linguísticos que conhecemos, aqueles que vingaram” (SILVA NETO, FLV 1946: 44), isto é, aqueles que passaram por mudanças no latim e chegaram às formas conhecidas atualmente nas línguas românicas. E como vimos, sempre a partir dos vários fenômenos variacionistas, colhidos dos testemunhos dos gramáticos estudados, ainda que, como sabemos, a abordagem da variação, em si, tal como a conhecemos modernamente, não fosse um problema a ser estudado por esses gramáticos, uma vez que seus interesses estavam apenas na correção, na denúncia do erro.

Silva Neto também sintetizou o que, modernamente, podemos denominar de quadro sociolinguístico do latim, ao afirmar que “embora sem precisão matemática”, poder-se-ia “admitir três matizes da língua corrente: familiar (latim das classes médias, dos honestiores – influenciado pela urbanitas); vulgar (latim das baixas camadas da população, dos escravos); gírias (militar, dos gladiadores, dos marinheiros, etc)”. E, finalmente, lembrava que “cada um desses estratos do latim” era “a soma dos estilos dos membros da respectiva classe social” (SILVA NETO, FLV 1946: 34).

Essa talvez seja, dentre todas, uma das mais importantes lições que Serafim da Silva Neto nos tenha legado. Insistindo na investigação do latim vulgar, na dialetação desse latim, não raras vezes apontada pelos gramáticos latinos, ele nos mostrou, na prática filológica, a noção que só mais tarde a linguística histórica moderna viria ajuizar: a de que “fatores linguísticos e sociais estão intimamente inter-relacionados no desenvolvimento da mudança linguística” (WLH, 2006 [1968]: 126).

Contudo, mediante a tudo que analisamos e argumentamos, isso não quer dizer, como sabemos, que os objetivos dos gramáticos latinos, os dos seus comentaristas, os dos romanistas em geral, os de Silva Neto em particular, os dos linguistas históricos e os dos sociolinguistas sejam os mesmos; nem podiam ser! Mesmo os nossos objetivos em relação ao de todos eles não são os mesmos. Afinal, como adverte Auroux (1992: 14), “não há nenhuma razão para que saberes situados diferentemente no espaço-tempo sejam organizados do mesmo modo, selecionem os mesmos fenômenos ou os mesmos traços de fenômenos”. Entretanto, não podemos ignorar que todo saber seja um produto histórico, o que significa dizer que ele resulta a cada instante da interação das tradições e do contexto (Auroux, 1992).

Essa última observação serve apenas para salientar que não se deve, conforme orienta o mesmo Auroux (op. cit.), conduzir o trabalho em história das ideias linguísticas ao mito da incomparabilidade de conhecimentos fechados em paradigmas específicos: “os fenômenos são o que são e as estratégias cognitivas por múltiplas que sejam, não variam ao infinito”.

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VALLE, Rosalvo do. Apresentação – Serafim da Silva Neto e sua História do Latim Vulgar. In: SILVA NETO, Serafim da. História do Latim Vulgar. 3ª reimp. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 2004 [1977], p. VI-X, (Coleção Linguística e Filologia).

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c. Sites consultados:

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Corpus Corporum: http://www.mlat.uzh.ch/MLS/xanfang. php?corpus=13&lang=0;

Corpus grammaticorum latinorum: http://kaali.linguist.jussieu.fr/CGL

Corpus de textes linguistique fondamentaux: http://ctlf.ens-lyon.fr/n_ fiche.asp?num=1204

Google: https://www.google.com.br/?gws_rd=ssl#q=keil+grammatici+latini+online&safe=off&tbm=bks;

Recebido em 10/10/2016 e aceito em 06/12/2016