Os efeitos de sentido na relação multiespécies: uma análise do discurso jornalístico sobre “ataque de tubarão”
Resumo
Este trabalho analisa o discurso jornalístico sobre o animal-tubarão, a partir da reportagem Praia do Medo (2014), publicada na revista National Geographic Brasil. Partindo da Análise de Discurso materialista (AD), com base em Michel Pêcheux (2014; 2019), e da teoria marxista do jornalismo (Genro Filho, 2012), situamos o funcionamento ideológico e o discurso como noções centrais para compreender a relação humano-animal. Mobilizamos, também, os Estudos Animais e os Estudos Multiespécies, os quais fornecem perspectivas que descentralizam a figura humana, a fim de olhar para a alteridade não humana. A partir desse quadro, formulamos a seguinte questão que norteia nossas análises: como o animal-tubarão é designado e agenciado pelo discurso jornalístico? As análises apontaram que o animal-tubarão é designado ora como um ser "monstrificado" a partir dos léxicos "perigo" e "ferozes predadores", via aderência e incorporação ao discurso do senso comum, ora como espécie pelos termos tubarão-tigre e tubarão-cabeça-chata, via incorporação da taxionomia do discurso científico. Em relação ao agenciamento, observamos que o discurso jornalístico atribui os seguintes verbos: atacar, morder, investigar e investir, ações atreladas ao modo de relação entre o animal, o humano e o ambiente; ao passo que atribui-se o verbo confundir-se como fator de explicação para os "ataques”. A partir, então, desses modos de funcionamento da designação e do agenciamento, concluímos que, sob o lugar discursivo de jornalista, o discurso jornalístico sobre os "ataques de tubarão" adere e incorpora tanto os saberes científicos quanto o senso comum, porém apresenta pontos de contra-identificação com o segundo a partir do primeiro, revelando, assim: 1) uma sobreposição designativa; e 2) uma primazia do discurso científico no agenciamento animal.
Referências
AUTHIER-REVUZ, Jacqueline. A representação do discurso outro: um campo multiplamente heterogêneo. Revista Investigações, v. 28, p. 1-39, 2015. Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/index.php/INV/article/view/1846. Acesso em: 1 jul. 2025.
ALTHUSSER, Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos do estado. Lisboa: Editorial Presença, 1985.
ADES, César. O morcego, outros bichos e a questão da consciência animal. Psicologia USP, v. 8, n. 2, p. 129–158, 1997. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0103-65641997000200007. Acesso em: 19 set 2025.
CHAPMAN, Blake. Shark attacks: myths, misunderstandings and human fear. Australia: CSIRO Publishing, 2017.
BENCHLEY, Peter. Jaws. Suffolk, GB: Book Club Associates, [1974] 1975.
BENCHLEY, Peter. Tubarão. 2. ed. Rio de Janeiro: DarkSide Book, [1974] 2021.
DELA-SILVA, Silmara. (Des)construindo o acontecimento jornalístico: por uma análise discursiva dos dizeres sobre o sujeito na mídia. In: FLORES, Giovanna; NECKEL, Nádia; GALLO, Solange (org.). Análise de Discurso em Rede: cultura e mídia. Campinas, SP: Pontes Editores, 2015.
DOOREN, Thom; KIRKSEY, Eben; MÜNSTER, Ursula. Multispecies Studies: Cultivating Arts of Attentiveness. Environmental Humanities. v. 8, n. 1, p. 1-23, 2016. Disponível em: https://read.dukeupress.edu/environmental-humanities/article/8/1/1/61679/Multispecies-StudiesCultivating-Arts-of. Acesso em: 24 jun. 2025.
GENRO FILHO, Adelmo. O Segredo da Pirâmide: para uma teoria marxista do jornalismo. Florianópolis: Insular, 2012.
GRIGOLETTO, Evandra. Sob o rótulo do novo, a presença do velho: análise do funcionamento da repetição e das relações divi-no/temporal do discurso da Renovação Carismática Católica. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2003.
GRIGOLETTO, Evandra. O discurso de divulgação científica: um espaço discursivo intervalar. 2005. 269 f. Tese (Doutorado em Teorias do Texto e do Discurso). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, 2005.
GUIMARÃES, Eduardo. Semântica do Acontecimento. Pontes Editores, 2017.
HARAWAY, Donna. O manifesto das espécies companheiras: cachorros, pessoas e alteridade significativa. Rio de Janeiro: Bazar do Tem-po, 2021.
HARAWAY, Donna. Quando as espécies se encontram. São Paulo: Ubu Editora, 2022.
HAROCHE, Claudine; PÊCHEUX, Michel; HENRY, Paul. [1971]. A semântica e o corte saussuriano: língua, linguagem, discurso. In: BARONAS, Roberto Leiser (org.). Análise de discurso: apontamentos para uma história da noção-conceito de formação discursiva. Araraquara: Le-traria, 2020. p. 17-39.
JAKOBSON, Roman. Linguística e comunicação. 20. ed. São Paulo, SP: Editora Cultrix, 1995.
LACAN, Jacques. A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud. In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1998. p. 496-533.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.
LEFF, Enrique. Epistemologia ambiental. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2010.
MACIEL, Maria Esther. Animalidades: zooliteratura e os limites do humano. São Paulo: Editora Instante, 2023.
MARCONDES FILHO, Ciro (org.). Dicionário da comunicação. São Paulo: Paulus, 2009.
MARIANI, Bethânia Sampaio Corrêa. O comunismo imaginário: práticas discursivas da imprensa sobre o PCB (1922-1989). 1996. 259 f. Te-se (Doutorado em Linguística). Universidade Estadual de Campinas - Instituto de Estudos da Linguagem, Campinas, SP, 1996.
MATTOSO, Arnaud. Ataques de tubarão no Recife: mitos e verdades. Recife, PE: Vedas Edições, 2022.
MEDAGLIA, Thiago. Praia do medo. National Geographic Brasil. n. 169, abril 2014. p. 33-46. Disponível em: https://www.clp.unesp.br/Home/arquivos/NG169_Tubaroes_PE.pdf. Acesso em: 24 jun. 2025.
MICHELOTTI, Gabriela. A interação entre movimento ambientalista, meios de comunicação e ciência na problematização da crise ambi-ental. In: GIRARDI, Ilza (org.) et al. Jornalismo ambiental: desafios e reflexões. Porto Alegre: Ed. Dom Quixote, 2008. p. 56-66.
ORLANDI, Eni Puccinelli. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. 13. ed. Campinas, SP: Pontes, 2020a.
ORLANDI, Eni. Puccinelli. Discurso e texto: formulação e circulação dos sentidos. 5. ed. Campinas, SP: Pontes Editores, 2022.
ORLANDI, Eni Puccinelli. Interpretação: autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico. 5. ed. Campinas, SP: Pontes Editores, 2020b.
PÊCHEUX, Michel. Análise Automática do Discurso. Campinas, SP: Pontes Editores, [1969] 2019.
PÊCHEUX, Michel. Discurso: estrutura e acontecimento. 2. ed. Campinas, SP: Pontes, [1983] 1997.
PÊCHEUX, Michel. Ideologia: Aprisionamento ou Campo Paradoxal?. [1983]. In: PÊCHEUX, Michel. Análise de discurso: Michel Pêcheux. Organização de Eni Orlandi. Campinas: Pontes, 2015.
PÊCHEUX, Michel. Leitura e Memória: Projeto de Pesquisa. [1982]. In: PÊCHEUX, Michel. Análise de discurso: Michel Pêcheux. Organiza-ção de Eni Orlandi. Campinas: Pontes, 2015.
PÊCHEUX, Michel. O enunciado: encaixe, articulação e (des)ligação. In: CONEIN, Bernard et al. Materialidades discursivas. Campinas, SP: Editora da Unicamp, [1980] 2016.
PÊCHEUX, Michel. Papel da memória. In: ACHARD, Pierre et al. Papel da memória. Campinas, SP: Pontes, [1985] 1999.
PÊCHEUX, Michel. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. 5. ed. Campinas, SP: Editora da Unicamp, [1975] 2014.
SILVA, Ana Claudia Rodrigues da; NASCIMENTO, Rayane Mendonça do. Aprendendo a conviver com os tubarões: relações entre humanos e não humanos em Recife e no arquipélago de Fernando de Noronha (BRA). CADERNO ELETRÔNICO DE CIÊNCIAS SOCIAIS, v. 7, p. 66-81, 2019. Disponível em: https://periodicos.ufes.br/cadecs/article/view/28292. Acesso em: 1 jul. 2025.
SPONHOLZ, Liriam. Jornalismo, conhecimento e objetividade: além do espelho e das construções. Florianópolis, SC: Insular, 2009.
SZPILMAN, Marcelo. Tubarões: por que atacam o homem? Rio de Janeiro: Mauad X, 2023.
THOMAS, Keith. O homem e o mundo natural. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
TRAQUINA, Nelson. Por que as notícias são como são. Florianópolis, SC: Insular Livros, 2020. E-book.
TUBARÃO. Direção: Steven Spilberg. Los Angeles: Universal Pictures, 1975. Disponível em: Netflix. Acesso em: 29 set. 2025.
ŽIŽEK, Slavoj. Acontecimento: uma viagem filosófica através de um conceito. Rio de Janeiro: Zahar, 2017.