Brasil: não uma mas muitas e múltiplas línguas
Resumo
O mundo, as Américas e o Brasil são de muitas línguas. O bilinguismo e o multilinguismo são um capital, um patrimônio, não apenas do indivíduo, mas também de coletivos e de toda a humanidade. Essa riqueza está em crise e declínio; os sintomas da perda são claros. O monolinguismo empobrece e destrói os fundamentos do conhecimento individual, coletivo e plural. Por outro lado, sinais de resiliência, renascimento e despertar das línguas também estão diante de nós. Em sua primeira seção, este artigo oferece um panorama da vitalidade das línguas indígenas no Brasil e dos esforços para documentá-las, um pré-requisito para sua preservação ou revitalização. A segunda seção contém uma reflexão crítica sobre o papel do linguista em um cenário de crescentes mobilizações para uma ciência decolonial e outras epistemologias, especialmente por parte do ativismo indígena e seu protagonismo. Nesse contexto, são brevemente relatadas experiências de documentação emergencial e de renascimento de línguas antes rotuladas como extintas. No mapa das línguas originais, as lacunas deixadas pela opressão colonizadora começam a ser preenchidas por novas línguas e uma resiliência surpreendente.
Referências
BALYKOVA, Kristina; GODOY, Gustavo. “A perda e a retomada do Guató”. Cadernos de Linguística, v. 1, n. 3, p. 01-15, 2020
BOMFIM, Anari B. Patxohã, língua de guerreiro: um estudo sobre o processo de retomada da língua pataxó. Diss. Mestrado em Estudos Étnicos e Africanos, Universidade Federal da Bahia, 2012.
BOMFIM, Anari B. “Patxohã: a retomada da língua do povo Pataxó”. LinguíStica. Revista do Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal do Rio de Janeiro.Volume13, n.1:303-327, 2017.
BOMFIM, Anari B. Materializações da língua Pataxó no tempo presente: um estudo sobre o Patxohã do Extremo Sul da Bahia. Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2025.
BOMFIM, Evandro de Souza; DURAZZO, Leandro. Retomadas linguísticas indígenas no Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo: um mapeamento etnográfico. (2023). Em SciELO Preprints, 2023. https://doi.org/10.1590/SciELOPreprints.6508
FRANCHETTO, Bruna; RICE, Keren. Language Documentation in the Americas. Language Documentation and Conservation, v.8, p.251-261, 2014.
FRANCHETTO, Bruna; GODOY, Gustavo. Primeiros passos da revitalização da língua Guató: uma etnografia. Revista LinguíStica / Revista do Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Volume 13, n.1, jan de 2017, p. 281-302. ISSN 2238-975X 1.
GALÚCIO, Ana Vilacy. As línguas indígenas e o fazer pesquisa na Amazônia: caminhos e reflexões. In: Cardoso, Jorcemara Matos and Maísa Ramos (eds.). Vozes insurgentes: diversidade brasileira em foco na linguística. Campinas, SP: Editora da Abralin (in press).
GODOY, Gustavo; BALYKOVA, Kristina. 2022. Botando a lenha na fogueira do guató. Living Laguages/LínguasVivas (1), p. 168-197, 2022. DOI: https://doi.org/10.7275/sg8p-v929
KRAUSS, Michael. The World’s Languages in Crisis. Language 68, p. 4-10, 1992. DOI: https://doi.org/10.1353/lan.1992.0075.