Ensino de Libras como primeira língua numa turma de estudantes surdos: tensões entre língua de sinais e língua majoritária no cotidiano escolar
Resumo
O objetivo deste trabalho é analisar as práticas de ensino de Libras construídas numa turma do 5º ano do Ensino Fundamental, composta por alunos surdos e professora surda, em uma escola especial, além de investigar a relação entre a Libras e o português e o acesso a essas línguas nas interações cotidianas. Foram exploradas contribuições dos estudos do bilinguismo e educação bilíngue, além dos estudos do discurso da sala de aula (Bloome, 1989; Martin-Jones, 2007; García; Woodley, 2015; Maher, 2007), e pesquisas sobre o ensino de Libras e o professor surdo (Gesser, 2011; Romário; Dorziat, 2018). Desenvolveu-se um estudo de perspectiva etnográfica, com observação participante e filmagem das aulas de Libras durante 3 meses, entrevistas, notas de campo e coleta de artefatos. A análise dos dados evidenciou a predominância de práticas centradas no ensino de vocabulário, com foco na correspondência direta entre sinais e palavras. Observou-se que diversos mecanismos contribuem para que o português se consolide como o principal objetivo educacional, especialmente a relação de poder entre professor regente e professor de Libras. Verificou-se que a Libras é concebida como um recurso pedagógico para ensinar português; e o professor surdo é visto como um “professor de reforço”, que explica em Libras conteúdos que caberiam ao professor ouvinte. Identificou-se uma visão grafocêntrica e monolíngue que dificulta o acesso dos estudantes surdos à Libras. O estudo aponta a necessidade de ações de formação de professores, realização e difusão de pesquisas e produção de materiais didáticos voltados ao ensino da Libras.
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