Das leis fonéticas à sincronia: percurso e implicações possíveis em Ferdinand de Saussure

Raul de Carvalho Rocha,
Núbia Rabelo Bakker Faria

Resumo

Propomo-nos com este trabalho a discutir os possíveis desdobramentos dos estudos sobre as leis fonéticas para a formulação do conceito de sincronia na Linguística saussuriana. Partindo da premissa de Milner (2012[1978]; 2021[1995]) de que há uma continuidade entre o pensamento de Ferdinand de Saussure e a Gramática Comparada, assumimos a hipótese de que a formulação do conceito de lei fonética no âmbito da Linguística do fim do século XIX permitiu a Saussure conceber a a-substancialidade da entidade linguística e, a partir desta, conceituar a sincronia. Esta é uma pesquisa de natureza teórica dividida entre duas perspectivas de análise: a primeira, externa à obra saussuriana, é voltada para as condições teóricas do saber linguístico disseminado no fim do século XIX, cujo corpus é a clássica obra de Hermann Paul, Princípios fundamentais da história da língua (1880). Nesta, encontramos uma “síntese” das concepções da Escola Neogramática, que constitui o contexto de emergência do pensamento saussuriano; a segunda, interna à produção de Saussure, pretende recuperar os indícios textuais da formulação do conceito de sincronia nas conferências proferidas pelo autor na Universidade de Genebra (1891) e no Curso de Linguística Geral (1916), embora não se limite a estas obras. Concluímos que as reflexões teóricas em torno das leis fonéticas e o tratamento metodológico utilizado pelos linguistas oitocentistas para estabelecê-las encaminharam Saussure para a compreensão da natureza a-substancial da língua e de seu funcionamento sincrônico, e permitiram ao autor fornecer as condições conceituais que autorizam a Gramática Comparada como uma Ciência Moderna

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