Funções pragmáticas de enunciados com dupla negação em Porto Alegre no final do século XX: uma análise qualitativa de dados extraídos de entrevistas sociolinguísticas
Resumo
O português brasileiro apresenta formas semanticamente equivalentes de negação sentencial: negação pré-verbal, dupla negação e negação em fim de sentença. Essa variação não se manifesta de forma homogênea nas diversas regiões do país. Dados coletados ao longo da segunda metade do século XX mostram que, enquanto a região Nordeste apresentava índices elevados dos três tipos de negação, outras regiões ostentavam números mais modestos das formas inovadoras: a dupla negação e a negação pós-verbal em fim de sentença. Este artigo analisa 26 enunciados de dupla negação encontrados em entrevistas sociolinguísticas realizadas entre o final da década de oitenta e o início da década de noventa com doze informantes da cidade de Porto Alegre. O objetivo foi verificar se as ocorrências identificadas instanciam funções pragmáticas supostas na literatura especializada como motivação para o surgimento de enunciados com dupla negação. O corpus investigado, por apresentar número reduzido de ocorrências de enunciados com dupla negação e ausência de enunciados com negação final, permite supor uma região conservadora, imune, portanto, ao desbotamento de sentido pragmático que pode ter ocorrido em áreas nas quais o uso de enunciados não canônicos de negação tenha se amplificado. Dos vinte e seis enunciados analisados, um não pode ser enquadrado nas funções supostas e vinte e quatro realizam funções discursivas favorecidas pela associação, reconhecida em grande parte da literatura sobre enunciados com negação reforçada, entre enunciados de dupla negação e conteúdos discursivamente ativados: denegação, retorno a tópico quantitativo e preservação da face. Identificou-se apenas uma ocorrência de dupla negação instanciando função não associada à ativação: pausa temática. São evidências a favor das hipóteses pragmáticas para as motivações da variação na negação sentencial que lançam luz sobre o papel da associação entre estruturas da língua e funções de ordem conversacional
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