Resumo

O português brasileiro apresenta formas semanticamente equivalentes de negação sentencial: negação pré-verbal, dupla negação e negação em fim de sentença. Essa variação não se manifesta de forma homogênea nas diversas regiões do país. Dados coletados ao longo da segunda metade do século XX mostram que, enquanto a região Nordeste apresentava índices elevados dos três tipos de negação, outras regiões ostentavam números mais modestos das formas inovadoras: a dupla negação e a negação pós-verbal em fim de sentença. Este artigo analisa 26 enunciados de dupla negação encontrados em entrevistas sociolinguísticas realizadas entre o final da década de oitenta e o início da década de noventa com doze informantes da cidade de Porto Alegre. O objetivo foi verificar se as ocorrências identificadas instanciam funções pragmáticas supostas na literatura especializada como motivação para o surgimento de enunciados com dupla negação. O corpus investigado, por apresentar número reduzido de ocorrências de enunciados com dupla negação e ausência de enunciados com negação final, permite supor uma região conservadora, imune, portanto, ao desbotamento de sentido pragmático que pode ter ocorrido em áreas nas quais o uso de enunciados não canônicos de negação tenha se amplificado. Dos vinte e seis enunciados analisados, um não pode ser enquadrado nas funções supostas e vinte e quatro realizam funções discursivas favorecidas pela associação, reconhecida em grande parte da literatura sobre enunciados com negação reforçada, entre enunciados de dupla negação e conteúdos discursivamente ativados: denegação, retorno a tópico quantitativo e preservação da face. Identificou-se apenas uma ocorrência de dupla negação instanciando função não associada à ativação: pausa temática. São evidências a favor das hipóteses pragmáticas para as motivações da variação na negação sentencial que lançam luz sobre o papel da associação entre estruturas da língua e funções de ordem conversacional

Introdução

A língua portuguesa dispõe de diversos recursos para o proferimento de enunciados com conteúdo negativo: conjunções (nem), quantificadores nominais (ninguém, nenhum, nada), quantificadores adverbiais intensionais (nunca, jamais, raramente, dificilmente), preposições (sem), advérbios oracionais (não, absolutamente). A maior parte dos tipos de construção que esses recursos integram é regular e generalizada, ou seja, não conta com formas alternativas de expressão, a não ser, evidentemente, a alternativa que representa uma reformulação com o advérbio não, como se observa nos exemplos a seguir:

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(1a) Júlio não viu seu pai nem seu filho.

(1b) Júlio não viu seu pai e não viu seu filho.

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(2a) Nada vai me impedir de viajar.

(2b) Não existe algo que vai/vá me impedir de viajar.

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(3a) A nota foi emitida sem a garantia.

(3b) A nota não foi emitida com a garantia.

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Nem todas as sentenças com o advérbio não, no entanto, encontram alternativa formalmente distinta (lexical), mas semanticamente equivalente (como seriam as de letra a para os casos de letra b acima), como ilustra (4).

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(4) Luiz não foi ao cinema.

Essa distribuição mais ampla do advérbio não (já que participa de construções equivalentes aos casos com outras formas negativas, mas também de construções para as quais não existe construção alternativa equivalente com outro elemento negativo) caracteriza-o como o operador de negação não marcado da língua portuguesa. Sendo uma forma que pode dar expressão à negação em praticamente todos os contextos, espera-se que tenha um maior número de ocorrências que as demais, o que se pode comprovar em uma pesquisa de corpus. Em uma busca no Corpus Mark Davies do Português, mais especificamente, no subcorpus que contém textos de 2012 a 2019 (com mais de um bilhão de palavras), são encontradas 9.727.508 ocorrências de não, contra 550.101 de nem, 219.836 de nenhum e 1.505.862 de sem.

Embora o acervo de elementos de valor funcional de uma língua (preposições, conjunções, quantificadores) seja a área da gramática menos suscetível a processos de variação, as formas responsáveis pela expressão da negação não marcada das línguas, muito frequentemente, abrem espaço a estruturas concorrentes, promovendo uma situação de variação que, muitas vezes, configura diacronicamente um processo de mudança linguística batizado de Ciclo de Jespersen. É o que se observa em uma quantidade surpreendente de línguas, como se verifica em Hoeksema (2009), van der Auwera (2009; 2010), Larrivée (2010; 2011), Hansen (2009), Dahl (2001), Kiparsky e Condoravdi (2006), Detges e Valtereit (2002), Lafkioui e Brugnatelli (2019).

Na língua portuguesa, a negação sentencial com a construção não marcada (com o advérbio não precedendo o sintagma verbal) experimenta uma variação peculiar. Diferentemente do que ocorreu com a maioria das línguas que passaram pelo Ciclo de Jespersen – nas quais as estruturas inovadoras de negação motivaram alteração da forma original pelo acréscimo, na estrutura sentencial, de itens lexicais distintos do operador de negação original –, no português, o que se observa é uma repetição do advérbio original em fim de frase e, em menor escala, um deslocamento da posição pré-verbal para a posição de fim de frase. Há, no português, duas formas alternativas à forma canônica de negação sentencial com o advérbio não: a dupla negação e a negação em fim de sentença. Seguindo prática já estabelecida, vamos nos referir a essas duas formas, respectivamente, como NEG2 e NEG3, em oposição a NEG1, a negação sentencial do português não marcada pragmaticamente. Todas essas formas de negação são exemplificadas em (5).

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(5a) Não tenho medo dele. (NEG1)

(5b) Não tenho medo dele, não. (NEG2)

(5c) Tenho medo dele não. (NEG3)

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Uma das questões associadas à variação exemplificada em (5) é aquela que indaga sobre a razão para a existência de tantas estruturas concomitantes e semanticamente equivalentes. Alguns autores entendem que o surgimento das estruturas alternativas seja cronologicamente ordenado, de modo que o surgimento de NEG3 seria posterior ao de NEG2, em um processo gradual de mudança do padrão sentencial da negação, motivado fundamentalmente pelo enfraquecimento fonético do operador de negação original. Para os adeptos dessa explicação, a causa para o surgimento de NEG2, em que há um reforço sentencial para a negação, seria de ordem fonético-semântico-discursiva: o enfraquecimento da pronúncia do operador original afetaria a veiculação de um valor semântico essencial (o da negação) à compreensão e à interação, recuperado por um reforço (no caso do português, uma duplicação) responsável pela manutenção do sentido pretendido. A partir desse ponto, a existência de um segundo operador de negação estimularia o enfraquecimento ainda maior do primeiro, até o seu completo desaparecimento. Os adeptos dessa explicação (como Furtado da Cunha (2001; 2007)1) costumam invocar o conflito de dois princípios funcionais: economia e iconicidade. A economia levaria ao enfraquecimento fonético e eventual apagamento do operador pré-verbal, enquanto a iconicidade levaria ao acréscimo de um novo operador pós-verbal. Nessa perspectiva, a erosão fonética seria a causa primeira do reforço representado pelo acréscimo de um novo elemento negativo na sentença.

Há, contudo, um modo alternativo (e hoje mais acreditado) de descrever o processo, de acordo com o qual o surgimento de estruturas alternativas de negação sentencial seria decorrência da necessidade de expressão de valores discursivos particulares, de modo que, embora semanticamente equivalentes, as estruturas alternativas seriam, pelo menos nos estágios iniciais da variação, pragmaticamente distintas (cf. SCHWEGLER, 1991; 2018; SCHWENTER, 2005; 2006; HOEKSEMA, 2009; VAN DER AUWERA, 2009; 2010; LARRIVÉE, 2010; 2011; HANSEN, 2009; DETGES; VALTEREIT, 2002; SEIXAS, 2013; SEIXAS; ALCKMIN, 2013). Para os adeptos dessa visão, nos casos em que a forma mais recente acaba por substituir completamente a forma anterior (completando-se o Ciclo de Jespersen), ocorre, ao longo do tempo, um desbotamento do valor pragmático original da construção mais recente na língua, tornando supérflua a distinção inicial e motivando o desaparecimento de uma das construções (normalmente, a mais antiga). Há, contudo, entre esses pesquisadores, divergência sobre as funções postuladas para as estruturas inovadoras de negação nos estágios iniciais da variação. No caso específico da língua portuguesa, entre as hipóteses para o uso de dupla negação, as principais são as seguintes: expressão de ênfase, de preservação da face, de conteúdo ativado, de denegação, de pausa temática e de retorno a tópico quantitativo.

Este artigo, aderindo à hipótese de que estruturas alternativas de negação surgem como expressão de valores discursivos específicos, analisa um conjunto de 26 enunciados de dupla negação encontrados em 12 entrevistas sociolinguísticas do projeto VARSUL, realizadas com falantes nascidos em Porto Alegre que residiram a maior parte de suas vidas na cidade. O objetivo é verificar que funções pragmáticas esses enunciados realizam. O resultado é particularmente revelador justamente pelo fato de que a coleta de dados resultou em um número limitado de ocorrências de enunciados de dupla negação, uma indicação forte de que o fenômeno, na época em que as entrevistas foram realizadas, não tinha uma frequência alta, não tendo sofrido, portanto, o desbotamento de sentido que costuma caracterizar os dados em comunidades em que os usos já se difundiram em maior escala2.

O trabalho está dividido da seguinte maneira: a seção 2, de fundamentação teórica, apresenta algumas das principais hipóteses encontradas na literatura especializada acerca das funções pragmáticas associadas a enunciados de dupla negação; a seção 3 apresenta a metodologia de levantamento e análise de dados deste estudo; a seção 4 apresenta a análise dos dados coletados; e a seção 5, com as considerações finais, mostra como a análise aqui realizada constitui evidência para as hipóteses que defendem uma motivação pragmática para a variação entre estruturas de negação sentencial.

1. Funções pragmáticas atribuídas a enunciados com negação sentencial não canônica

Há, na literatura especializada, uma série de hipóteses para as funções pragmáticas ou discursivas de enunciados com dupla negação. Uma das mais antigas, estimulada principalmente pela consideração de dados de línguas como o francês, é a de que a dupla negação serve à veiculação de enunciados enfáticos. Embora, como observa Schwenter (2005; 2006), o conceito de ênfase careça de definição satisfatória no campo da Pragmática, a sensação de que enunciadores enfatizam conteúdos integrais ou parciais de enunciados é bastante intuitiva. Em línguas como o francês, por exemplo, parece bastante provável o caráter enfático da dupla negação nos estágios iniciais, em que o segundo elemento negativo é um minimizador. O enunciado em português a seguir contém um minimizador:

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(6) Ele não teve um pingo de consideração comigo.

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Em (6), a expressão um pingo é um minimizador. Sua função é acentuar a negação já expressa pelo advérbio não. Em casos como esse, é difícil negar que a intenção seja a de produzir um conteúdo de modo enfático, independentemente da existência de uma definição adequada para o conceito de ênfase. No francês, pas é, originalmente, um substantivo que significa passo. É um minimizador, provavelmente usado como recurso de ênfase em um estágio inicial de implementação de uma estrutura que, com o passar do tempo, num processo de gramaticalização, passou a expressar, de modo regular, a negação sentencial. Esse é o entendimento de Östen Dahl.

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Outro tipo de efeito inflacionário é observado na ‘desvalorização’ de construções enfáticas. Uma tendência bastante geral por trás de diversos tipos comuns de processos de gramaticalização é a de construções enfáticas de vários tipos serem superutilizadas no sentido de que elas acabam substituindo seus correspondentes. A mais famosa dentre essas tendências é, provavelmente, o ‘Ciclo de Jespersen’, o processo pelo qual construções negativas enfáticas, como o francês ne...pas, com o sentido original de ‘nem um passo’, se tornam a forma canônica de negar sentenças, com a consequente perda da força enfática original. Isso motiva, por um lado, a redução fonética dos morfemas que entram na construção negativa e, por outro, a introdução de novas estruturas enfáticas para preencher a lacuna funcional. (DAHL, 2001, p. 473, tradução nossa) 3

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O valor enfático de minimizadores não tem sido defendido apenas para o segundo elemento negativo nos estágios iniciais de variação no francês. Abordando as motivações pragmáticas para a sequência de estágios do Ciclo de Jespersen nas diversas línguas em que o fenômeno pode ser observado, Hoeksema (2009) reconhece o papel dos itens de polaridade negativa tanto como recursos de ênfase como de atenuação. Tratando do Ciclo de Jespersen no grego, Kiparsky e Condoravdi (2006) afirmam que todos os dialetos da língua, em todos os estágios, distinguem a negação enfática da negação neutra. No caso do grego, segundo os autores, entre os recursos responsáveis pela veiculação de valor enfático em sentenças negativas está o uso de minimizadores.

A dupla negação em português, no entanto, não conta com a presença de um minimizador, de modo que seu caráter enfático é duvidoso. É possível que ocorra ênfase em alguns usos, mas associada a uma prosódia particular, que poderia, apenas ela, ser considerada como responsável pelo efeito obtido. Acresce ainda o fato de que a dupla negação em português brasileiro, como bem observa Roncarati (1996), está, muito frequentemente, a serviço de uma atenuação do conteúdo veiculado, colaborando com a preservação da face do falante, um efeito discursivo associado à estrutura absolutamente incompatível com a ideia de ênfase.

Outra hipótese para a função pragmática de enunciados com negação sentencial não canônica (NEG 2 e NEG3), proposta em Schwenter (2005; 2006), é a de que esses enunciados veiculam conteúdo discursivamente ativado. De acordo com essa hipótese, enquanto enunciados canônicos de negação têm uma distribuição livre, enunciados NEG 2 e NEG 3 apresentam uma distribuição mais restrita. Segundo o autor, NEG 2 ocorre apenas quando o conteúdo veiculado encontra-se ativado no discurso precedente, literal ou inferencialmente. Já NEG3 teria uma distribuição ainda mais restrita, ocorrendo apenas quando o conteúdo foi ativado literalmente. A hipótese de Schwenter tem sido avaliada em alguns estudos (cf. HANSEN, 2009; LARRIVÉE, 2010; 2011; GOLDNADEL et al., 2013), revelando-se bastante produtiva.

A suposição de ativação, em nossa opinião, está correta, mas não configura uma hipótese acerca da função enunciativa de proferimentos não canônicos de negação sentencial, senão uma hipótese acerca dos limites de sua utilização tendo em vista sua constituição formal. Em Othero e Goldnadel (2020), explica-se a característica de ativação no discurso a partir da análise do tipo de estrutura informacional instanciada por enunciados com dupla negação, em que um só conteúdo é apresentado ao mesmo tempo como foco e como pressuposição. No caso de NEG 3, também é possível identificar o que, nessa forma de estruturar a informação, limita a construção a veicular conteúdo ativado literalmente. Neste caso, a sentença negativa assemelha-se a estruturas de deslocamento à direita (cf. GIVÓN, 1983), recurso utilizado para sinalizar conteúdo altamente ativado no discurso, conforme o que se espera de conteúdos literalmente expressos.

Assumimos, portanto, a hipótese de Schwenter, mas entendemos que ela seja o primeiro passo para a identificação de funções enunciativas de sentenças não canônicas de negação. Ou seja, consideramos que a veiculação de um conteúdo como ativado, na dinâmica das trocas conversacionais, deve estar a serviço de alguma intenção de nível mais elevado.

Outra hipótese para a função pragmática de enunciados de dupla negação encontra-se em Furtado da Cunha (2001; 2007). Com base na análise de um corpus coletado na cidade de Natal, a autora considera que enunciados de dupla negação instanciam a função de pausa temática. Segundo a autora, são casos em que o enunciado negativo interrompe momentaneamente o tema central ou o tópico central da conversa, promovendo uma digressão4. Os exemplos apresentados nos dois artigos, no entanto, revelam que a autora inclui na categoria de pausa temática, além de digressões relativas ao tema em curso, interrupções da cadeia referencial. Para ela, portanto, a dupla negação estaria a serviço de sinalizar rupturas de algum tipo (temáticas ou referenciais). Em seus trabalhos, no entanto, não se encontra levantamento da quantidade de ocorrências de dupla negação com essa função no corpus considerado.

A função de denegação é identificada em Seixas (2013) e Seixas e Alckmin (2013), embora as autoras prefiram referir-se ao fenômeno como negação pressuposicional. Os dois trabalhos analisam dados dos séculos XVIII e XIX e evidenciam o uso de dupla negação para realizar a função de denegação. A observação dos muitos casos reproduzidos nos trabalhos mostra, de modo bastante claro, enunciados de dupla negação realizando o ato de fala de denegar.

A função de retorno a tópico quantitativo é proposta por Goldnadel (2016), Goldnadel e Petry (2017) e Goldnadel, Petry e Lamberti (2020). Nos dois primeiros artigos, os autores analisaram enunciados de dupla negação encontrados em entrevistas sociolinguísticas realizadas com moradores da cidade de Curitiba no final da década de oitenta e início da década de noventa. Nos dados analisados em Goldnadel e Petry (2017), depois da função de denegação (44% das ocorrências), a função de retorno a tópico quantitativo é a que mais aparece (30% das ocorrências). Trata-se de uma função de caráter organizacional, destinada a registrar a manutenção tópica no discurso. São casos em que a dupla negação interrompe uma espécie de digressão (normalmente destinada a justificar uma opinião expressa) e promove uma volta ao tópico (discursivo ou sentencial) inicialmente estabelecido. Trata-se, portanto, de função diametralmente oposta àquela proposta em Furtado da Cunha (2001; 2007), em que a dupla negação é vista como um modo de afastar-se do tópico discursivo.

A análise dos dados de Florianópolis em Goldnadel, Petry e Lamberti (2020), coletados no mesmo período dos dados de Curitiba, apresenta uma novidade em relação à realizada com os dados desta cidade. Em Florianópolis, além das funções de denegação e de retorno a tópico quantitativo, enunciados de dupla negação aparecem em uma função que se diferencia em apenas um aspecto em relação a esta última. São casos em que os enunciados de dupla negação realizam uma satisfação imediata de tópico quantitativo. Ou seja, são casos em que a dupla negação aparece como resposta imediata a uma questão posta (normalmente por quem conduz a entrevista sociolinguística). Aqui, portanto, a função de retorno se perde, mas a de indicação de disposição para manter-se dentro de determinado tópico permanece. Curiosamente, é exatamente esse tipo de configuração discursiva que Roncarati (1996) considera como aquela em que a dupla negação exerce a função de preservação da face.

O presente estudo, em sua análise dos dados, verifica se enunciados de dupla negação estão associados a uma das seguintes funções pragmáticas aqui apresentadas: denegação, pausa temática, retorno a tópico quantitativo e preservação da face (satisfação imediata de tópico quantitativo). A decisão de desconsiderar a função de ênfase foi motivada pela dificuldade de determinar em que medida o enunciador pretende enfatizar um conteúdo proferido. Imaginou-se que tal determinação precisaria contar com análises acústicas e com suposições sobre a relação entre prosódia e ênfase, o que extrapola as ambições deste trabalho. Além disso, é plausível supor que a função de ênfase se confunda bastante com a de denegação, já que se trata de um ato de fala destinado, muitas vezes5, a impedir o ingresso no common ground de conteúdo veiculado por algum interlocutor, o que, por si só, pode ser sentido como uma reação enfática.

Por fim, é necessário esclarecer que a função de expressão de conteúdo ativado não é avaliada, não por não ser relevante, mas por estar implícita em três das funções aqui consideradas: denegação, retorno a tópico quantitativo e preservação da face. Como a denegação é um ato de fala que depende, para sua felicidade, de um conteúdo previamente expresso ou sugerido, por definição, um enunciado denegativo precisa contar com a presença de conteúdo ativado contraditório com o conteúdo que veicula. Da mesma forma, enunciados que realizam a função de satisfação (imediata ou não) de tópico sentencial, também por definição, precisam contar com a presença de enunciado prévio que veicule o mesmo conteúdo.

1.1 Enunciados de dupla negação e a função de denegação

Nem todo enunciado com negação é denegativo. Denegar é um ato de fala, e muitos enunciados que contêm orações com negação não expressam o ato de denegar. Para Kamp e Reyle (1993), a denegação é um ato de fala caracterizado pela rejeição do que o interlocutor apresenta como correto ou possivelmente correto. Givón (1996) alarga um pouco mais o conceito quando afirma que uma sentença negativa pode contradizer aquilo que o próprio falante afirma ou alude em algum momento anterior no discurso. Para ele, o conteúdo da denegação não precisa necessariamente opor-se a algo expresso de forma literal, como se pode constatar na seguinte passagem: “Uma declaração negativa é de fato feita sob uma suposição tácita de que o ouvinte ouviu falar, acredita, provavelmente tomará como certa ou pelo menos é familiar com a proposição afirmativa correspondente” (GIVÓN, 1996, p. 189).

Sob essa perspectiva, portanto, um enunciado denegativo pode opor-se a 1) conteúdo veiculado literalmente pelo interlocutor; 2) conteúdo sugerido, por inferência, pelo interlocutor; 3) conteúdo veiculado literalmente pelo próprio falante (normalmente, casos de autocorreção); e 4) conteúdo sugerido, por inferência, pelo próprio falante (normalmente, casos em que o falante procura desencorajar inferência possível a partir de seu discurso prévio).

Ao que tudo indica, enunciados com dupla negação para veicular denegação não são uma novidade no português. Seixas (2013) e Seixas e Alckmin (2013) revelam a presença da estrutura com essa função em textos escritos nos séculos XVIII e XIX (bem mais neste último). Enunciados de dupla negação denegativos também foram encontrados em dados da segunda metade do século XX em entrevistas sociolinguísticas da cidade de Curitiba, em Goldnadel (2016) e Goldnadel e Petry (2017), e em entrevistas sociolinguísticas da cidade de Florianópolis, em Goldnadel, Petry e Lamberti (2020).

A seguir, vejamos cada um dos quatro tipos de denegação usados em enunciados com dupla negação. Todos os trechos abaixo foram retirados de entrevistas do VARSUL. No primeiro exemplo, o enunciado em negrito é uma dupla negação com valor denegativo que contradiz o conteúdo explícito de um enunciado anterior proferido pelo interlocutor (sublinhado).

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(7) F: E o pai veio lá dos Açores.

I: Dos Açores.

E: Faz tempo, né? Que a família veio.

F: Ela levantou até quatrocentos anos, não foi?

I: Quem?

F: A I tirou o levantamento de quatrocentos anos atrás, né?

I: Não. Não foi de quatrocentos, não.

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Em (7), o entrevistado está falando sobre sua árvore genealógica, sua ascendência. Além do entrevistador e do entrevistado, há aqui um falante interveniente (I), que acompanha o entrevistado (F) e o entrevistador (E) e que está familiarizado com o tópico desenvolvido. Tanto é que, quando F sugere que I fez o levantamento de quatrocentos anos da árvore genealógica, o interveniente usa a dupla negação para denegar esse conteúdo.

Em (8), observa-se um caso em que o enunciador (neste caso, o entrevistador) denega um conteúdo inferível a partir de um enunciado prévio proferido por ele mesmo. No começo da conversa, o entrevistador revela que morou, durante um período de sua vida, no mesmo bairro onde o entrevistado mora. Ao longo da entrevista, quando o entrevistado fala sobre elementos do seu bairro, frequentemente o entrevistador demonstra conhecimento prévio sobre o assunto. Cria-se, assim, uma expectativa de que o entrevistador conheça os lugares mencionados pelo entrevistado. Quando o entrevistado comenta a respeito de um parque que o entrevistador não conhece, este usa uma dupla negação para refutar a ideia de que o parque, assim como outros elementos mencionados previamente, existia no período em que ele ali morou.

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(8) E: Deixa eu ver, que mais tem no bairro. Igreja ali no centro? Você vai muito?

F: A pracinha ali em cima, né? também.

E: Não conheço essa praça.

F: Tem uma pracinha ali em cima que eles fizeram. Era um...

E: Não é do meu tempo não.

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No exemplo seguinte, há uma dupla negação que denega um conteúdo explícito a partir da consideração de enunciado anteriormente proferido pelo próprio falante. Esse exemplo é um diálogo em que o falante está mostrando um álbum de fotos ao entrevistador e tentando identificar as pessoas nas fotos.

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(9) F: Ih! A praia sim. Isso aqui eu nem sei o que que é. Se é uma mulher se enforcando na árvore. O que que é?

E: Não, está com três crianças.

I: O que que está escrito aqui? A senhora quer trocar a letra!

F: Olhe como é que eu estou de cabeça baixa. Quer ver. Ah, mas essa aí é a NY.

I: Que nome bobo é esse!

F: Não, essa não é a NY, não. Essa aí é a D. Eu acho que é o telefone de alguém que eu peguei e pus aí atrás, tá! Essa aqui é uma sobrinha que já é morta. E essa, amiga dela.

E: Nossa! Que bonita que ela era.

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Como se pode ver, no início, o falante identifica alguém em uma das fotos pelo nome. Então, o falante percebe que identificou a pessoa errada e usa a dupla negação para corrigir-se, rejeitando conteúdo explícito de enunciado proferido por ele mesmo. É importante notar que, entre os quatro tipos de denegação, este é o mais difícil de ocorrer.

Em (10), temos um caso em que o falante denega um conteúdo inferível a partir da consideração de enunciados anteriores proferidos por ele mesmo.

(10) E: E quem organizava essas peças?

F: Era o JD, um rapazinho que é casado com a filha do seu AV. Aí depois ele- Ele trabalha aqui, parece na Universidade também.

E: Continua trabalhando com teatro?

F: Não. Ele parou. Ele parou. Depois pegar aquela Carteira Fatal. Essa eu não trabalhei, não. Essa o meu cunhado trabalhou. Que trabalha muito bem também.

Antes do trecho em (10), por algum tempo, os interlocutores falam sobre o entrevistado ser ator em um grupo de teatro e ter trabalhado com o JD. Quando o falante fala sobre como o JD parou de atuar depois da “Carteira Fatal”, ele percebe que, como ele já tinha mencionado o fato de que trabalhou com o JD, o entrevistador poderia inferir que ele tivesse trabalhado na “Carteira Fatal”, o que não era verdade. Assim, o falante usa uma dupla negação para denegar essa ideia, explicando que seu cunhado tinha feito parte do projeto.

1.2 Enunciados de dupla negação e a função de pausa temática

A hipótese de que enunciados de dupla negação instanciam uma função de pausa temática é encontrada em Furtado da Cunha (2001; 2007). A autora baseia-se em uma categorização encontrada em Givón (1983), em que o autor discute os parâmetros subjacentes ao estabelecimento da continuidade discursiva, responsável pela impressão de que o falante apresenta um conjunto coerente de ideias, e não um amontoado de conteúdos sequencialmente dispostos.

A passagem a seguir expressa, com clareza, o modo como o autor entende o que ele denominou continuidade temática – aspecto fundamental da continuidade discursiva – e sua relação com dois outros tipos de continuidade a ela associados: continuidade de ação e continuidade tópica.

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O parágrafo temático é o nível de discurso imediatamente mais relevante dentro do qual alguém pode começar a discutir o processo complexo de continuidade no discurso.

Há, de maneira geral, três aspectos principais de continuidade discursiva que aparecem ou são mediados através do parágrafo temático e que, por sua vez, recebem expressão estrutural/gramatical/sintática dentro da oração. Essas três continuidades, portanto, preenchem a lacuna entre os níveis macro e micro organizacionais do discurso.

(a) Continuidade temática

(b) Continuidade de ação

(c) Continuidade de tópico/participantes

(GIVÓN, 1983, p. 7, tradução nossa)6

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Para Givón, “a continuidade temática é a matriz geral para todas as outras continuidades” (GIVÓN, 1983, p. 8, tradução nossa)7, sendo a mais difícil de especificar. As demais continuidades, embora associadas a ela, não são imperativas para a manutenção temática, podendo ocorrer, dentro do parágrafo temático, descontinuidades de ação e de participantes. Ainda para o autor, a continuidade temática é a mais “nebulosa” e “macro-orientada” das três, podendo ser codificada, em línguas SVO ou VSO, por conjunções ou partículas de subordinação oracional e, em línguas SOV, por sufixos em final de frase. Já a continuidade de ação, segundo o autor, se expressa pelo sistema tempo-aspecto-modalidade das línguas, enquanto a continuidade de participante (tópica), por recursos sintáticos (sendo a função de sujeito a mais tópica), como, por exemplo, operações de deslocamento (à esquerda e à direita).

Para que se entenda a hipótese de função de pausa temática para enunciados de dupla negação proposta por Furtado da Cunha, é importante compreender que a autora considera interrupção temática uma descontinuidade relativa a qualquer um dos parâmetros de continuidade propostos por Givón. Sendo assim, a rigor, para Furtado da Cunha, mesmo um enunciado que se mantém dentro do assunto instaurado no parágrafo temático pode representar pausa temática, por instanciar uma descontinuidade de ação ou de participante. Dois exemplos de dupla negação apresentados no artigo de 2001, reproduzidos a seguir8, são casos em que a autora considera que houve pausa temática.

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(11) ... [os meninos] ficaram muito assustado e voltaram pra casa ... conseguiram sair de lá e voltaram pra casa num sei como ... como ... num sei como foi ... meu irmão disse que também num entendeu não como ... eles conseguiram voltar em casa e contaram lá ao pai dela né ... (Língua falada, 3o grau, p. 28)

(12) ... então eu era um cara super fechado assim ... um ... num falava com ninguém ... num abria os ... num abria os olhos pra ver o mundo ... foi aí que eu fui ao . . . a um alergista ... aí ele disse ... “ah você tem que se mudar do ambiente que você tá ... que passa muito ônibus ... é muito ... poluído ... mude pra um ambiente mais limpo ... porque sua rinite num tá muito boa não” ... aí mainha procurou ... passou ... seis meses ... sei lá quanto tempo ... procurando nos classificados um lugar que ... fosse mais propício pra ... pra tratar da minha ... alergia ... (...) aí quando a gente mudou pra cá ... todo o meu mundo sei lá parece que ... expandiu os horizontes assim ... mudei pra cá ... tenho vários amigos no colégio que mora aqui perto ... (Língua falada, 8a série, p. 364)

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Em (11), o informante está contando um filme que não foi visto por ele, mas por seu irmão. É justamente no enunciado de dupla negação que se observa descontinuidade de tema, de participante e de ação, já que o falante interrompe a narrativa para mencionar o irmão. O exemplo em (12) é um caso de discurso reportado. Furtado da Cunha (2001, p. 12) o explica da seguinte forma: “Nesse trecho, o falante reproduz o conselho do seu médico, mudando o sujeito eu para você na oração com duplo não, produzindo, assim, uma interrupção na cadeia referencial”. Há aqui dois equívocos. Não é na oração com dupla negação que ocorre mudança de escolha pronominal: essa mudança ocorre no início do discurso reportado (“ah você...”). Além disso, a mudança da primeira para a segunda pessoa, neste caso, não representa, como afirma a autora, uma interrupção na cadeia referencial; ao contrário, o pronome você, utilizado pelo médico (de acordo com o discurso reportado) está a serviço da manutenção do referente, o próprio informante. A única alternativa de análise que resta é considerar que a referência à rinite realizada pelo sujeito do enunciado com dupla negação seja a esperada interrupção à cadeia referencial. Admitir essa explicação, no entanto, obriga admitir que os discursos, usualmente repletos de inserções de novos referentes, são fontes riquíssimas de ambientes favoráveis a duplas negações. É uma hipótese que precisaria ser comprovada com dados, ou seja, com uma quantidade substantiva de casos em que a dupla negação aparece no ambiente que se supõe favorável. No entanto, Furtado da Cunha não informa, em seus dois artigos, a quantidade total de ocorrências de dupla negação, nem a quantidade de ocorrências de dupla negação com a função de pausa temática no corpus que investiga, de modo que sua suposição de função de pausa temática ainda precisa ser considerada com cautela.

1.3 Enunciados de dupla negação e a função de retorno a tópico quantitativo

A função pragmática de retorno a tópico quantitativo foi proposta em Goldnadel (2016), tendo como embrião conceitual as ideias desenvolvidas inicialmente em Lima (2010). Inspirada em van Kuppevelt (1995a; 1995b; 1996), série de trabalhos sobre a estruturação do discurso em uma dinâmica de tópico e comentário, essa análise de enunciados de dupla negação propõe considerar que o discurso está constituído por dois tipos básicos de enunciado: enunciados que expressam comentários quantitativos e enunciados que expressam comentários qualitativos. Fundamentalmente, o que Goldnadel (2016) e, subsequentemente, Lamberti (2017), Goldnadel e Petry (2017) e Goldnadel, Petry e Lamberti (2020) propõem é que falantes, em sua tarefa de avançar conteúdos explorando determinado tópico discursivo, alternam enunciados que fazem avançar o desenvolvimento desse tópico (comentários quantitativos) com outros enunciados destinados a dar maior credibilidade aos enunciados do primeiro tipo (comentários qualitativos). O trecho a seguir, extraído de uma entrevista do acervo do projeto VARSUL realizada em Florianópolis, ilustra bem a distinção entre enunciados que instanciam comentários qualitativos e enunciados que instanciam comentários quantitativos.

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(13) E: Tu vês a mulher mais forte do que o homem?

F: Sim, porque, se fosse pra um homem ter um filho, ele não resistia. Acho que não, porque em qualquer dor eles estão na cama, né?, por qualquer dorzinha. E se eles passarem pela dor de um parto, eles não vão aguentar, são capazes de morrer. (risos) E a criança fica metade dentro, metade fora. Nem nasce. (risos) É isso (ininteligível) se acham, que ele diz que é forte, né?, se diz ser forte. Forte pra serviço, mas pra passar o que uma mulher passa sobre um parto ele não aguenta, ele não tem força. Então, a gente não é aquilo que dizem: frágil? Não. Não, não. Nós somos muito fortes. Nós somos mulheres, mas somos fortes. Gente diz que não pode, não carrega um peso, porque não tem condições, se carrega. Depois de ter, assim, depois de ter filhos, é que a pessoa muda o corpo, né?, por dentro assim, sempre uma mudança. Aí a pessoa fica mais fraca pra pegar peso. Mas o homem tem, porque nunca passou pela aquilo, ele nunca foi mexido por dentro, ele nunca teve. Não, qualquer peso que a gente pega sente dor, fica dolorido. Já tem o útero que já mexido, se pegar o peso ele já desce, ele já sai do lugar. É isso, pra dizer que não se pega, não. Mas se pega peso, se consegue pegar. Tem é um medo que não deixa pegar.

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Em (13), para além da dupla negação com função denegativa no final da fala da entrevistada (no antepenúltimo enunciado), é importante notar que apenas os trechos em negrito respondem à pergunta realizada pelo entrevistador; todo o resto é constituído por enunciados cuja função é dar suporte à opinião expressa. Na perspectiva de Goldnadel (2016), Lamberti (2017), Goldnadel e Petry (2017) e Goldnadel, Petry e Lamberti (2020), os enunciados em negrito são comentários quantitativos por satisfazerem à demanda de conteúdo estabelecida pela pergunta do entrevistador. Todo o resto, destinado a justificar o conteúdo dos comentários quantitativos (neste caso, a opinião da entrevistada) constitui um conjunto de comentários qualitativos. Simplificadamente, os comentários quantitativos satisfazem demandas de informação discursivamente estabelecidas e os comentários qualitativos satisfazem demandas tácitas de justificação dos conteúdos expressos em comentários quantitativos. Quase sempre, o primeiro enunciado de um turno costuma satisfazer a questão quantitativa que se coloca discursivamente (na nomenclatura de Kuppevelt, satisfaz o tópico sentencial). Esse comentário pode vir (e, em sequências de caráter opinativo, frequentemente vem) seguido de uma série de comentários qualitativos. Eventualmente, após realizar uma sequência de comentários qualitativos, o falante pode retornar ao tópico sentencial, ou seja, pode voltar a proferir um enunciado com um comentário quantitativo, sinalizando que se mantém dentro do “assunto” (que motivou o que poderia ser considerado uma espécie de digressão). Em (13), com o segundo trecho destacado em negrito, o falante realiza um retorno ao tópico quantitativo. Retornos como esse são muito comuns; sua finalidade parece ser organizacional, ou seja, com essas repetições, o falante sinaliza que se mantém dentro do assunto que se dispôs a abordar inicialmente.

A partir da análise de entrevistas do Projeto VARSUL realizadas nas cidades de Curitiba e Florianópolis, Goldnadel (2016), Lamberti (2017), Goldnadel e Petry (2017) e Goldnadel, Petry e Lamberti (2020) identificam uma série de enunciados com dupla negação que se caracterizam justamente por promover um retorno ao tópico quantitativo discursivamente estabelecido. Em Porto Alegre, há casos que ilustram a mesma função, como (14).

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(14) E: Tem problema de assalto?

F: Ah, isso tem em tudo que é lugar, né? Aqui é... Não sei, às vezes a minha filha que estuda de noite vem... sai vinte pras onze, ou dez e meia ela sai lá do colégio. Sobe às vezes onze horas aí. Que às vezes a Jane fica, a minha esposa se perde pra encontrar ela... E elas saem mais cedo do colégio, entendeu? Então ela não gosta de ficar esperando na parada ela pega e vem sozinha, né? Não gosta de ficar parada. Não sei, até agora não tem problema nenhum não.

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Em (14), temos a instauração do tópico pelo entrevistador através de uma questão (tem problema de assalto?). O falante satisfaz o tópico com o comentário expresso em seu primeiro enunciado. A partir daí, começa a tecer comentários qualitativos a fim de justificar sua opinião, relatando a experiência que tem com sua família. Ao longo do relato, o falante percebe que, em sua experiência, nunca teve problemas com assalto, usando um enunciado com dupla negação para fazer um novo comentário quantitativo e retornar ao tópico sentencial, para assim responder novamente à pergunta (“não sei, até agora não tem problema nenhum, não”) e encerrar o tópico de maneira satisfatória. Esse caso não só é interessante por ilustrar de modo exemplar a função de retorno a tópico quantitativo, mas também porque, além da função de retorno a tópico quantitativo, a dupla negação tem uma função de denegação.

Em (14), o enunciador finaliza seu turno retomando o tópico quantitativo, indicando que, apesar da digressão realizada, sua intenção central é responder à questão estabelecida pela pergunta do interlocutor. Há casos, no entanto, em que o enunciado com dupla negação exercendo a função de retorno a tópico quantitativo ocorre no meio do turno, sendo seguido por mais comentários qualitativos, como no exemplo a seguir, extraído de uma entrevista sociolinguística de Curitiba:

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(15) F: Ai! Coisa de fresco. Isso mesmo. Eu não tenho. Eu entro em qualquer lugar. Se for preciso eu entrar falar com um doutor, eu entro e falo com o doutor. Se for preciso eu entrar numa repartição, sabe? Cada repartição, cada coisa eu sei entrar, eu sei sair, sabe? Eu não tenho esse negócio de vergonha comigo não. Se for preciso eu conversar com um mendiguinho, eu converso com aquele mendiguinho do jeito dele, sabe? Converso com ele, me ponho ali no lugar dele, faço tudo do jeitinho que ele gosta, assim de conversar. Se tiver que conversar com uma pessoa mais ou menos, eu converso com aquela pessoa do tipo que aquela pessoa- eu sei que aquela pessoa vai me entender, entendeu? Se for pra mim conversar com aquela gente mais acima um pouquinho do que eu, eu sei entrar e sair direitinho, minha filha, isso eu tenho que ter absoluta certeza, né? Mas a gente tem que ser assim.

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Em (15), o tópico sobre o qual o falante faz seus comentários está relacionado a ter vergonha de se mostrar em público. Em uma das primeiras sentenças, que está sublinhada, o falante já apresenta sua resposta, um comentário quantitativo. Em seguida, o falante passa a apresentar comentários qualitativos com o objetivo de justificar sua opinião expressa inicialmente. A sentença em negrito com a dupla negação promove um retorno ao tópico quantitativo inicial, relacionado a ter vergonha ou não e, em seguida, o falante continua sua resposta fazendo uso de comentários qualitativos para explicar e reforçar sua opinião. Casos como esse mostram que o retorno ao tópico quantitativo pode ser usado pelo falante, em digressões mais extensas, como uma forma de tornar manifesto ao(s) seu(s) interlocutor(es) a intenção de se manter fiel ao tópico sentencial inicialmente estabelecido no discurso.

1.4 Enunciados de dupla negação e a função de preservação da face (satisfação imediata de tópico quantitativo)

A função de retorno a comentário quantitativo, identificada na seção anterior, é um recurso que não sinaliza apenas o retorno a um tópico de algum modo interrompido, mas também a manutenção tópica, ou seja, é um recurso que indica disposição para dar continuidade ao tópico retomado. Não é por outra razão que enunciados de dupla negação em meio de turno são sucedidos por novos comentários a serviço do mesmo tópico inicialmente estabelecido (e “relembrado” pelo enunciado de dupla negação). São casos como (15), em que o enunciado negativo funciona como uma espécie de “lembrete” do tópico quantitativo inicialmente estabelecido, indicando que os comentários qualitativos, mesmo que se estendam por porções significativas do discurso, permanecem fiéis a ele.

O contraste entre enunciados com dupla negação como indicadores de continuidade tópica e enunciados de negação simples fica evidente no trecho a seguir:

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(16) E: O senhor recomendaria a uma mulher pra assistir um jogo de futebol?

F: Não tem inconveniente. Antigamente não, tempos atrás a mulher era mais limitado o sistema de vida dela, agora não, agora está concorrendo em igualdade com homem, não tem problema.

E: Mas não nesse sentido eu estou dizendo se é um lugar apropriado se não tem perigo? Como é que é?

F: Pra mulher ir? Não. Perigo não tem não. Não, ela fica no meio dos outros juntos com os outros, qualquer lugar, pode ir nas cadeiras, na geral, na inferior, superior, isso não tem lugar específico não.

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Em (16), a resposta do entrevistado às duas perguntas do entrevistador inicia com enunciados negativos. Na primeira resposta, o entrevistado usa negação simples; na segunda, dupla negação. A observação dos conteúdos que se seguem a esses enunciados ilustra bem o ponto aqui abordado. A primeira pergunta indaga sobre a conveniência de mulheres frequentarem estádio de futebol. O tópico sentencial, portanto, requer uma avaliação do entrevistado sobre uma situação contemporânea à entrevista. O entrevistado satisfaz o tópico estabelecido pelo entrevistador com o enunciado de negação simples. Decide, no entanto, começar a falar sobre um tópico novo (e, é claro, relacionado ao anterior): a conveniência de mulheres frequentarem estádio de futebol em outros tempos. Há, portanto, uma mudança de tópico sentencial.

Já a segunda resposta, com o enunciado de dupla negação, é seguida de conteúdos relativos ao tópico estabelecido pela pergunta. Depois de fazer uma pergunta inicial para certificar-se sobre o sentido da pergunta do entrevistador, o entrevistado responde com um enunciado negativo lacônico. Esse enunciado, por si só, já satisfaz a demanda informativa requerida pela pergunta. O enunciado seguinte (“perigo não tem não”), portanto, não pode estar sinalizando retorno a tópico, já que não houve afastamento; afinal, entre o não proferido no enunciado anterior e o enunciado de dupla negação não há qualquer material linguístico interveniente. A dupla negação, no entanto, continua aqui a ter um papel discursivo identificável: sinalizar disposição para manter-se no tópico inicialmente estabelecido. No trecho analisado, essa disposição é comprovada pelo enunciador, que permanece abordando o tópico (através de comentários qualitativos).

Mas qual seria a relação entre a função de sinalizar disposição para manter-se no tópico em curso e uma função de preservação da face? Antes de poder responder a essa questão, é necessário refletir um pouco sobre ameaça à face em interação verbal. Em princípio, toda contribuição em uma troca discursiva constitui oportunidade para ameaçar ou proteger a própria face e a do interlocutor. Além do silêncio, ou seja, a recusa em reagir a uma fala, turnos demasiadamente breves, constituídos de enunciados únicos e curtos também representam ameaça à face do interlocutor. Para comprovar essa constatação, basta reler todos trechos de entrevistas sociolinguísticas aqui reproduzidos. Em um número muito reduzido de casos (todos eles de denegação), o entrevistado profere apenas um enunciado em seu turno. Na grande maioria das vezes, depois de satisfazer o tópico quantitativo estabelecido pela pergunta (seja com uma afirmação, seja com uma negação), o entrevistado realiza ainda uma série de comentários que dão suporte à afirmação inicial. Interlocutores lacônicos tendem a ser considerados evasivos e pouco educados.

Há situações, no entanto, que, por razões discursivas bastante práticas, reservam pouco espaço para a produção de turnos extensos. Imagine uma situação em que uma pessoa pergunta aos amigos em um grupo quem vai poder ajudar em uma tarefa desagradável, precisando de respostas rápidas, já que a situação problemática em questão precisa ser enfrentada imediatamente. Há aqui, portanto, espaço apenas para respostas curtas, afirmativas ou negativas. Em um caso como esse, parece fazer diferença responder à pergunta “Você vai comigo?” com um “Não vou” ou “Não vou, não”. Embora ambas as respostas tornem manifesta uma recusa a um pedido de ajuda, a segunda (com uma prosódia apropriada) soa mais polida. Já a resposta com negação simples parece sugerir que o falante dá o assunto por encerrado, soando mais “seco”. A hipótese que defendemos aqui é que, apesar de curta, a segunda resposta, por estruturar-se de modo a sinalizar disposição para manter-se no tópico em curso, abre espaço para dar seguimento à discussão sobre a possibilidade de ajudar (que é o tópico instaurado pela pergunta). Na prática, a resposta com dupla negação soa como se o falante não estivesse encerrando o assunto (mesmo que, para ele, a decisão já esteja tomada), como se estivesse disposto, em caso de insistência do amigo, a rever sua posição.

Essa mesma constatação de que enunciados de dupla negação podem expressar uma espécie de atenuação da negação, a serviço de uma função de preservação da face, aparece em um artigo de Claudia Roncarati, que toma por base um teste de percepção realizado com falantes cearenses.

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No leque de padrões considerados, (negação referencial [modalidade neutra, factual, de informação objetiva], negação enfática, negação atenuadora [preservadora da face] e negação hesitativa [associada a mecanismos de disfluência]), a quebra dos pressupostos mantidos pelo entrevistador, no curso da interação com o informante, preponderou sobre os usos de NEG3 vs NEG1 e NEG2. Mas para NEG2 (a negação dupla) vs NEG1, os índices estatísticos favorecem a função atenuadora, mantenedora da face. (RONCARATI, 1996, p. 101)

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Nessa passagem, a autora observa que os usos de NEG3 (o tipo de enunciado negativo não atestado no corpus aqui investigado) são avaliados por um número significativo de seus informantes como quebra dos pressupostos do interlocutor. Em relação a NEG2, a afirmação da autora parece indicar que a estrutura seja percebida como estratégia de atenuação.

Na análise aqui proposta, assumimos a perspectiva de que enunciados de dupla negação que satisfazem de modo imediato um tópico estabelecido retêm a função de sinalizar continuidade tópica. A essa função, de caráter mais organizacional, associa-se a função de manutenção da face, de grande valor em diversas situações nas interações verbais.

1.5 Possíveis rotas de diversificação dos usos da estrutura de dupla negação

Se as análises que propomos nesta seção estão corretas, então é possível pensar em duas previsões alternativas sobre a associação entre estruturas de dupla negação e funções pragmáticas por determinadas comunidades de fala. A primeira é a de que, por apresentarem uma constituição formal associada à veiculação de conteúdo discursivamente ativado, enunciados de dupla negação acabam por ser usados indiscriminadamente para a execução de várias funções discursivas que se beneficiam da ativação. Nesse caso, a expectativa empírica seria a de encontrar, em todas as comunidades de fala que fazem uso da estrutura de dupla negação, diferentes funções discursivas associadas a ativação, e em quantidades não necessariamente muito distintas. A segunda é a de que, ainda em função da associação entre estrutura e ativação, determinadas funções são implementadas incialmente pelas comunidades de fala, que, com o decorrer do tempo e com a percepção de certos efeitos discursivos, passam a usar o mesmo tipo de estrutura para veicular novas funções “aparentadas”, num processo gradual de ampliação de funções.

As duas hipóteses, que dizem respeito a processos de amplificação de usos de estruturas novas, são plausíveis. A confirmação de uma delas, que fica na dependência de levantamento e análise de dados, pode lançar luz não apenas sobre processos de pragmaticalização9, mas também sobre os de gramaticalização – estágio subsequente, resultante não apenas da diversificação funcional inicial, mas, principalmente, do aumento de ocorrências que essa diversificação promove, desembocando, ao longo do tempo, em uma banalização dos usos, responsável pela perda dos sentidos pragmáticos a ela incialmente associados. É justamente nesse momento final, em que, por hipótese, observa-se o desbotamento pragmático decorrente do uso indiscriminado das formas paralelas (NEG1, NEG2 e NEG3), que se abre o espaço para mudanças gramaticais como aquela conhecida como Ciclo de Jespersen. A apresentação dos dados na seção 4 deste trabalho e a apresentação dos dados já analisados nos trabalhos anteriores sobre as outras duas capitais da região Sul (Florianópolis e Curitiba) são esforços de contribuição para o debate em torno das hipóteses aludidas, embora, no caso das formas alternativas de negação sentencial em PB, haja ainda um longo caminho a trilhar.

2. Metodologia

O corpus utilizado para análise é parte do corpus de entrevistas sociolinguísticas do projeto VARSUL. O VARSUL (Variação Linguística na Região Sul do Brasil) é um projeto que foi desenvolvido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Universidade Federal de Santa Catarina e Universidade Federal do Paraná no início dos anos oitenta, com o objetivo de produzir material descritivo sobre a variação do PB no sul do Brasil. No âmbito do VARSUL, foram realizadas entrevistas sociolinguísticas nas capitais e em cidades do interior dos três estados da região Sul. A coleta foi realizada entre os anos 1988 e 1996, constituindo um acervo útil para a pesquisa linguística.

Para a análise aqui apresentada, foram selecionadas doze entrevistas realizadas com falantes porto-alegrenses. Para garantir uma representatividade social mínima, cada uma das entrevistas escolhidas combina de modo único as três variáveis sociais que balizaram a coleta do VARSUL: sexo (feminino e masculino), idade (mais de 50 anos e menos de 50 anos) e grau de instrução (primário, ginásio e científico). As características dos entrevistados nas doze entrevistas são apresentadas na tabela a seguir.

Table 1.

TABELA 1 – Características dos entrevistados das entrevistas que compõem o corpus investigado Fonte: elaborada pelos autores (2021)

Sexo Idade Grau de instrução
1 Masculino menos de 50 anos primário
2 Feminino menos de 50 anos primário
3 Masculino mais de 50 anos primário
4 Feminino mais de 50 anos primário
5 Masculino menos de 50 anos ginasial
6 Feminino menos de 50 anos ginasial
7 Masculino mais de 50 anos ginasial
8 Feminino mais de 50 anos ginasial
9 Masculino menos de 50 anos Científico
10 Feminino menos de 50 anos Científico
11 Masculino mais de 50 anos Científico
12 Feminino mais de 50 anos Científico

A partir da leitura das doze entrevistas, foram identificados todos os casos de dupla negação, anotados juntamente com seus contextos. Cada um desses trechos foi analisado e classificado como a instanciação de uma das quatro funções pragmáticas identificadas na seção 2 deste trabalho: denegação, pausa temática, retorno a tópico quantitativo e preservação da face. A opção por uma análise qualitativa dos dados decorre da quantidade reduzida de ocorrências de enunciados de dupla negação. Não seria possível chegar a conclusões com validade estatística a partir de um número pequeno de ocorrências. Por outro lado, esse número reduzido pode ser a indicação de que o corpus investigado registra a língua em uma comunidade na qual a estrutura analisada ainda não experimentou o desbotamento pragmático decorrente de uma eventual banalização dos usos. Se for assim, o corpus se presta justamente para a análise qualitativa, o que permite aprofundar a compreensão dos casos a ponto de identificar, de modo mais acurado, as possíveis correlações entre forma e função da estrutura investigada.

3. Análise dos resultados

Nesta seção, apresenta-se o resultado do levantamento das funções pragmáticas instanciadas pelos enunciados de dupla negação presentes no corpus. Cada uma das seções é dedicada a uma das quatro funções consideradas (denegação, pausa temática, retorno a tópico quantitativo e preservação da face), com a informação da quantidade de ocorrências e exemplos. No total, foram encontrados vinte e sete casos de dupla negação na cidade de Porto Alegre, um dos quais foi desconsiderado por se tratar de um caso de imitação10.

3.1 Denegação em enunciados de dupla negação nas entrevistas de Porto Alegre

Dos vários tipos de denegação identificados na seção 2.1, os dados analisados apresentaram apenas denegação de conteúdo proferido pelo próprio falante, como ilustram os exemplos a seguir:

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(17) E: Qual a igreja que o senhor costuma frequentar?

F: Eu vou na igreja São Pedro.

E: Qual horário é a missa que o senhor vai?

F: Ah, geralmente, quando vou é ali pelas dez horas.

E: De manhã?

F? É, dez da manhã. Mas é como eu te disse, não vou seguido não. Vou de vez em quando.

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Em (17), temos em negrito o enunciado com dupla negação exercendo a função de denegação. Esse é um ponto da entrevista em que o assunto é religião. Antes da passagem transcrita, o entrevistado fala de uma experiência com o espiritismo, mas fazendo a ressalva de que foi apenas uma curiosidade e deixando claro que é católico. A entrevistadora, então, inicia a sequência de perguntas acima. Como a sequência de respostas pode passar a impressão de que o entrevistado é frequentador assíduo da igreja, ele trata de desencorajar essa inferência com a denegação expressa no enunciado de dupla negação. É interessante notar, ainda, que o enunciado começa com a conjunção mas, bastante comum em enunciados denegativos.

O próximo exemplo também é um caso de denegação de conteúdo implícito proferido pelo próprio falante:

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(18) E: Vocês nunca saem de Porto Alegre (inint) –

F: É muito raro. Sabe, a M tem conhecidas que ela trabalhou no restaurante. Como é mesmo o restaurante, como é? Não adianta, não. Me esqueci agora. (...)

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Em (18), ao proferir “Como é mesmo o nome do restaurante, como é?”, o falante cria a expectativa de que vai conseguir lembrar-se do nome do restaurante onde M trabalha. É essa expectativa, ou seja, a crença de que a lembrança seja possível, que o enunciado com dupla negação trata de desencorajar.

A função de denegação foi a segunda mais realizada em enunciados com dupla negação no corpus investigado. Foram, ao todo, nove enunciados de dupla negação com função de denegação11. Na maioria dos casos, o conteúdo denegado é inferível de enunciado precedente proferido pelo próprio falante12.

3.2 Retorno a tópico quantitativo em enunciados de dupla negação nas entrevistas de Porto Alegre

A observação de ocorrências de dupla negação nas entrevistas do VARSUL de Porto Alegre mostra que a função de retorno a tópico quantitativo pode ser verificada em grande parte dos enunciados em que a dupla negação ocorre. Em alguns casos, o retorno aparece no final do turno, após uma série de justificativas ao comentário quantitativo inicial, como pode ser observado em (19).

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(19) E: O senhor costuma frequentar a igreja?

F: Não te- Eu ia. Inclusive eu comungava todos domingos, tempo do colégio São Pedro, né? Colégio dos Irmãos Maristas, mas agora depois do – depois passou, aí vez em quando eu vou, né? Não é certo. Não tenho o hábito de ir todos domingos, não. Não.

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Em (19), o entrevistador pergunta se o falante costuma frequentar a igreja. A pergunta, com o verbo aspectual (costuma) conjugado no presente do indicativo, não deixa dúvida de que a questão que se estabelece diz respeito a um hábito presente do entrevistado. Curiosamente, talvez por vergonha de admitir não ir à igreja, o entrevistado opta por, inicialmente, remeter ao hábito passado de frequentar a igreja. Essa, contudo, não é uma resposta adequada à questão posta pelo entrevistador, ou seja, o tópico sentencial posto não resulta satisfeito pelos enunciados inicialmente proferidos. A afirmação que se segue, referindo idas eventuais à igreja, também não chega a constituir resposta satisfatória, já que não permite inferir categoricamente uma resposta afirmativa ou negativa. É apenas com o penúltimo enunciado (o último consiste apenas no proferimento do advérbio de negação), uma dupla negação, que o entrevistado responde ao tópico sentencial motivado pela pergunta do entrevistador13, configurando, portanto, um retorno ao tópico quantitativo.

Vejamos, agora, outro caso de dupla negação exercendo a função de retorno a tópico quantitativo, dessa vez em meio de turno.

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(20) E: Me diz, foi fácil encontrar colégio pras crianças aqui? Pro menino, né?

F: Foi. Eu tive que fazer – como ele já fez o pré o ano passado, então ele já tinha uma vaga mais ou menos garantida, né? No Leopoldina. E aí ele já está ali, já fez matrícula, já vai começar daqui a pouco. Não foi difícil, não. Meu outro agora vai entrar no pré ali, o ano que vem ele já entra no primeiro ano também.

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Em (20), temos o tópico introduzido através da questão “foi fácil encontrar colégio pras crianças aqui?”. A resposta inicial do entrevistado já satisfaz imediatamente o tópico, pois é claramente um comentário quantitativo: “Foi”. Ainda assim, escolhe fazer comentários qualitativos para justificar sua opinião de que foi fácil encontrar colégio para as crianças, proferindo, em seguida, um novo comentário quantitativo usando a dupla negação para ratificar seu comentário anterior e retornar ao tópico sentencial, finalizando-o. Após o retorno, o falante profere outro enunciado acerca de outro filho que parece não ter feito parte das preocupações do entrevistador, tendo em vista a referência a apenas um menino em seu turno de fala. Esse enunciado responde a outro tópico sentencial (implícito) acerca do mesmo tópico discursivo da passagem. Trata-se de um caso, portanto, em que a dupla negação opera um retorno ao tópico sentencial inicialmente estabelecido com a finalidade de encerrá-lo, permitindo, assim, a introdução de novo tópico sentencial.

O trecho a seguir é de grande interesse por apresentar três ocorrências de dupla negação:

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(21) E: E o Olívio aqui, o que que a senhora acha?

F: Ai, péssimo! (risos) Nem fala, péssimo. A gente dizia que o negrão era ruim, mas esse é pior, né?

E: Porque que a senhora acha ele tão ruim assim?

F: Ele não faz nada! (risos). Ele não faz nada por ninguém, só que se vê no rádio, os repórteres tudo, né? Eu escuto muito e vejo que ele não faz nada. Reclamação dele de tudo que é lado. Eu acho ele péssimo. PT não ganha mais. (risos). Acho que nem o PMDB, né?

E: É. (risos). Quem vai sobrar?

F: É. Vai sobrar eu acho. Mas PT, eu acho que se candidata não ganha mais não. De maneira nenhuma. Só se o povo gosta de sofrer. Eu, como não gosto, nem votei nele também.

E: E assim no bairro, assim, vocês chegaram a pedir alguma coisa pra Prefeitura e –

F: Mas a mãe da R mesmo, Dona J vive pedindo, essa Sociedade que eles têm aí também, mas não faz nada, não. Não pode, não tem dinheiro. O que ele fez com os ônibus! De sete passou pra quatorze de repente assim. Foi ele, né?

E: Foi ele e o aumento da gasolina também, né?

F: É, mas tanto assim, de sete passou (inint) cem por cento, né? Já tinha subido, né? Era de cento e pouco foi pra sete, depois de repente foi pra quatorze, e ele disse que não ia subir, pegou as empresas e tomou conta e piorou as linhas. Eu não gosto dele, não.

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Tendo em vista a pequena quantidade de enunciados com dupla negação no corpus investigado, esse trecho, com três ocorrências, concentra uma quantidade surpreendente de casos. Antes da segunda ocorrência, em que a dupla negação integra uma oração adversativa, a entrevistada alude a pedidos de auxílio ao governo feitos por uma conhecida sua e de uma certa sociedade. A mera alusão a esses pedidos gera uma expectativa de atendimento da demanda, prontamente denegada pela dupla negação, que trata de tornar manifesta a inexistência do auxílio esperado14. Nos outros dois casos, no entanto, a dupla negação sinaliza retorno a tópico. O interessante é que cada caso ilustra o retorno a um tipo distinto de tópico. A primeira dupla negação realiza um retorno a tópico sentencial, a segunda, a tópico discursivo.

Kuppevelt (1995a; 1995b; 1996) estabelece uma distinção entre dois tipos de tópico: tópico sentencial e tópico discursivo. O tópico sentencial pode ser entendido como uma questão que se coloca, de modo explícito ou implícito, no discurso. Em entrevistas sociolinguísticas, grande parte dos tópicos sentenciais se estabelece a partir de perguntas explicitamente realizadas pelo entrevistador. Nada impede, contudo, que no curso de uma resposta, o entrevistado estabeleça novos tópicos sentenciais, quantitativos e qualitativos, adensando sua contribuição. Nos dois casos anteriormente analisados nesta seção, exemplos (19) e (20), a dupla negação sinaliza o retorno do falante ao tópico sentencial quantitativo estabelecido na pergunta realizada pelo entrevistador.

A noção de tópico sentencial, no entanto, é insuficiente para descrever adequadamente o modo como o discurso se organiza. Tópicos sentenciais, como os que foram o foco de interesse até este ponto, orbitam em torno de centros de gravidade de nível superior, os tópicos discursivos. Um tópico discursivo nada mais é que um tema, um assunto a ser explorado por tópicos sentenciais. Na perspectiva de Kuppevelt, o tópico discursivo constitui um conjunto virtual de questões possíveis sobre determinado tema. Ou seja, um tópico discursivo é um campo de possibilidades atualizado por tópicos sentenciais, expressos na forma de enunciados linguísticos. A determinação do tópico discursivo é um guia que circunscreve conteúdos, que divide o conjunto de conteúdos virtuais entre os adequados e os inadequados à troca conversacional. Não é por outra razão que contribuições conversacionais que se afastam do tópico discursivo (sem aviso prévio) costumam ser questionadas pelos interlocutores. É pela mesma razão que a decisão de mudar o tópico discursivo costuma ser anunciada por expressões cristalizadas como mudando de assunto, mudando de saco para mala, por falar em, etc.

No discurso falado, tópicos sentenciais podem ser instaurados por questões explícitas ou questões implícitas. Em entrevistas sociolinguísticas, pela natureza da interação, as questões explícitas ocorrem em grande quantidade. Assim como ocorre com o estabelecimento de tópicos sentencias, tópicos discursivos também costumam partir de um enunciado proferido pelo entrevistador nesse tipo de discurso. Por alguma razão, uma marca bastante clara de introdução de um tópico discursivo é a presença da conjunção e em início de frase interrogativa. No trecho em (20), ao perguntar “E o Olívio aqui, o que que a senhora acha?”, além dessas duas marcas típicas de introdução de tópico discursivo (frase interrogativa e conjunção e inicial), observa-se a topicalização do sintagma nominal “Olívio”, uma indicação de que o entrevistador estava estabelecendo como tópico discursivo o assunto “governo de Olívio Dutra”. O entrevistado, como se pode observar pela leitura do trecho apresentado, aceita a proposta de tópico discursivo, já que praticamente todo o conteúdo que se segue à pergunta inicial diz respeito à administração municipal do prefeito Olívio Dutra.

O único momento em que o entrevistado se afasta do tópico discursivo é quando menciona o PMDB, momento em que parece começar a discutir a questão relativa a que partido tem chance de vencer as eleições seguintes. Nesse ponto, o entrevistador aceita a contribuição do entrevistado como uma nova proposta de tópico discursivo e diz: “É. Quem vai sobrar?”. O entrevistado chega a pensar em embarcar nesse novo tópico discursivo proposto por ele mesmo (“É. Vai sobrar eu acho.”), mas resolve voltar ao tópico discursivo em curso dizendo: “Mas PT, eu acho que se candidata não ganha mais não”. Esse retorno ao tópico discursivo ocorre através de um retorno ao tópico sentencial que motivou o proferimento do enunciado “PT não ganha mais”, realizado na fala anterior do entrevistado. Trata-se, portanto, de um retorno a tópico (sentencial) quantitativo que integra um tópico discursivo já estabelecido e bastante desenvolvido.

Há em (21), contudo, uma terceira dupla negação, que apresenta uma novidade para a análise aqui proposta. Nesse caso, percebe-se que esse tipo de enunciado está a serviço da promoção de um retorno direto ao tópico discursivo estabelecido pela pergunta que inicia o trecho. Ao proferir “Eu não gosto dele, não”, o falante promove um retorno à questão inicial, destinada a estabelecer o tópico discursivo. Com esse retorno em fim de turno, a entrevistada devolve a palavra ao entrevistador, sugerindo ter explorado suficientemente o assunto proposto. Temos, portanto, o retorno a um tópico discursivo, ou seja, um outro tipo de retorno a tópico, que vamos, simplificadamente, considerar retorno a tópico quantitativo15.

Dos vinte e seis enunciados analisados, quinze16 instanciaram a função de retorno a tópico quantitativo.

3.3 Pausa temática em enunciados de dupla negação nas entrevistas de Porto Alegre

Nos dados aqui analisados, apenas um enunciado de dupla negação pode ser considerado uma instância da função que Furtado da Cunha chamou de pausa temática.

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(22) E: Escuta, e o Brasil, como é que a senhora acha que está este país?

F: Ai! Será que dá pra ter esperanças, hein? (risos f) Ai! A gente leva uma esperança, mas esse mês já não veio o nosso aumento, né? Nós temos a inflação, já. Comeram os oitenta e dois, né? Não sei, eu levo medo, sabe?

E: Eu também.

F: Tu também? Dá pra levar medo, né? Eu estou achando é que ele não vai aguentar a ponta, não. Os grandes lá vão botar ele na prensa, eu acho. Leva medo porque a gente já sofreu tanto com essa inflação, né?

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Em (22), o entrevistador propõe como tópico discursivo a situação pela qual o Brasil passava naquele momento, quando o Presidente Fernando Collor de Melo estava no início de seu governo. A entrevistada aceita o tópico e passa a desenvolvê-lo. Ela finaliza seu primeiro turno de fala neste trecho com a afirmação de que tem medo. O entrevistador concorda. No turno seguinte, percebe-se uma oscilação entre referentes: no primeiro enunciado, o pronome tu remete ao entrevistador; no segundo, a elipse do sujeito promove uma leitura genérica (portanto, não referencial); no terceiro, o pronome eu remete à própria enunciadora. Além disso, o sujeito da oração subordinada presente no terceiro enunciado remete ao Presidente. Se considerarmos ainda os enunciados seguintes, percebe-se que cada um remete a dois novos referentes discursivos. Trata-se, portanto, de um parágrafo que logra manter-se de modo coerente dentro de um tema mesmo com uma forte descontinuidade referencial. De todos esses enunciados, há apenas um que contém negação sentencial, expressa na forma de dupla negação. Trata-se, portanto, de um caso que ilustra a função proposta por Furtado da Cunha, desde que, evidentemente, se considerem instâncias de pausa temática enunciados que, a rigor, não promovam pausa temática, mas sim uma ruptura da continuidade referencial.

3.4 Preservação da face por satisfação imediata de tópico quantitativo nas entrevistas de Porto Alegre

Como já vimos, um enunciado com a função de promover o retorno a um tópico quantitativo ocorre depois de o falante satisfazer inicialmente um tópico sentencial estabelecido no discurso e, em seguida, iniciar algum tipo de digressão, muitas vezes destinada a justificar um comentário quantitativo. Após essa justificação, o falante costuma proferir enunciados (afirmativos ou negativos) que, de algum modo, repetem o conteúdo do enunciado inicial, de modo a sinalizar que se mantém fiel ao tópico quantitativo inicialmente estabelecido. Quando esses enunciados são negativos, de acordo com a hipótese aqui defendida, a dupla negação, por ostentar uma estrutura informacional que sinaliza a ativação do conteúdo, funciona como uma indicação de retorno ao tópico sentencial quantitativo inicial. Trata-se, portanto, de enunciados que indicam continuidade tópica.

Enunciados de dupla negação, portanto, ao auxiliar a recuperação de um tópico do qual o falante se afastou (por razões discursivas) constituem um recurso destinado a garantir a continuidade tópica no discurso. Na maioria dos casos analisados no corpus aqui considerado, essa sinalização de continuidade foi utilizada para realizar um retorno a tópico. Pode haver casos, contudo, em que a dupla negação ocorre em enunciados que realizam uma satisfação imediata do tópico sentencial discursivamente estabelecido. É o que se observa a seguir em (23):

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(23) E: O senhor costuma ouvir sempre ou de vez em quando?

F: Não. Não é muito seguido não. Quando dá tempo eu ouço. Às vezes, de madrugada quando eu me acordo eu boto um discozinho bem baixinho.

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Em (23), o assunto são os gostos musicais do entrevistado. Aqui, assim como no exemplo (16), há uma primeira resposta negativa lacônica a uma pergunta feita pelo entrevistador, seguida pelo enunciado de dupla negação. Trata-se de um caso, portanto, em que ocorre satisfação imediata de tópico quantitativo, uma forma de sinalizar disposição para manter-se dentro do tópico proposto (e não o desejo de encerrá-lo de modo precipitado), o que funcionaria como um modo de realizar uma negação polida, que indica disposição para dar continuidade ao assunto. Em princípio, essa seria a função executada por enunciados de dupla negação que constituem resposta imediata a pergunta, como ocorre em (23). Consideramos, assim como Roncarati (1996), que a função instanciada pelo enunciado de dupla negação em (23) seja a de preservação da face. Associada a enunciados de dupla negação, essa função ocorre três vezes nos dados aqui considerados.

3.5 Resultado geral do levantamento

Como dissemos anteriormente, as doze entrevistas de Porto Alegre consideradas, comparadas a levantamentos sobre o mesmo fenômeno realizados por outros estudos, apresentam uma quantidade bastante reduzida de enunciados de dupla negação. Se, por um lado, esse número limitado de casos dificulta a realização de uma investigação de caráter quantitativo, impedindo, por exemplo, afirmações com a segurança conferida pela validade estatística, por outro, favorece abordagens qualitativas, que, por possibilitar um olhar mais detido sobre cada ocorrência, permite a verificação de hipóteses pragmáticas, como a de que a dupla negação é uma estrutura que se associa preferencialmente a determinadas configurações discursivas.

Além da possibilidade de enxergar os dados em seu contexto, a quantidade menor de ocorrências de dupla negação – bem como a ausência categórica de enunciados de negação isolada em fim de frase – pode estar a indicar que a região em que foram coletados, no momento em que foram coletados, é ainda um ambiente conservador, ou seja, um ambiente no qual, estando corretas as hipóteses pragmáticas para o surgimento de estruturas alternativas de negação sentencial, ainda não ocorreu um desbotamento de funções discursivas originais (potencialmente responsáveis pelo incremento inicial dos usos).

Uma outra possibilidade é a de que a quantidade reduzida de ocorrências de enunciados de dupla negação no corpus investigado, no entanto, seja uma decorrência do gênero entrevista sociolinguística. Freitag e Pinheiro (2020), investigando um corpus de entrevistas sociolinguísticas realizadas nas cidades de São Cristóvão e Itabaiana, em Sergipe, entre todos os enunciados com negação sentencial de 32 entrevistas, encontraram em torno de 8% de enunciados de dupla negação e 4% de enunciados de negação em fim de frase. A percentagem de enunciados de dupla negação encontrados nesse estudo não se afasta muito daquela encontrada nos dados da cidade de Curitiba em Goldnadel e Petry (2017), cidade considerada pelos autores do estudo como conservadora.

Embora não haja, na literatura sobre enunciados de negação sentencial, qualquer limite estabelecido a partir do qual uma comunidade deixe de ser considerada conservadora quanto ao uso de enunciados negativos, o total de 12% de enunciados não canônicos de negação identificado em Freitag e Pinheiro (2020) chama a atenção. Os dados foram coletados no estado de Sergipe, pertencente à região do Brasil mais associada às variantes não canônicas de negação, em período relativamente recente, um momento, portanto, no qual se esperaria maior quantidade de ocorrências de negação não canônica. É possível, então, que entrevistas sociolinguísticas, por algum motivo, inibam a utilização de enunciados não canônicos de negação, o que poderia lançar alguma dúvida sobre o conservadorismo da Região Sul.

Por outro lado, é preciso registrar algumas diferenças entre o levantamento feito a partir dos dados de Sergipe e aqueles realizados em uma série de estudos sobre as três capitais da Região Sul. Enquanto os dados da cidade nordestina apresentam 4% de ocorrências de negação única em fim de frase, nenhuma das três capitais do Sul apresentam esse tipo de negação sentencial. Quanto aos enunciados de dupla negação, o levantamento realizado em Goldnadel et al. (2013) identifica 4,4% em Florianópolis, 2,6% em Curitiba e 0,6% em Porto Alegre. Ou seja, a cidade do Sul com maior percentual, Florianópolis, apresenta ainda em torno de metade de ocorrências de dupla negação em relação ao que se observa nos dados de Freitag e Pinheiro (2020).

De qualquer modo, não é possível saber se a quantidade bastante reduzida de enunciados de dupla negação no corpus da cidade de Porto Alegre aqui investigado é decorrência apenas de uma ação inibidora do gênero entrevista sociolinguística. Se fosse possível voltar no tempo e registrar os usos efetivos de enunciados de negação sentencial nas trocas cotidianas, talvez nos surpreendêssemos com percentuais mais elevados de enunciados de dupla negação na Porto Alegre da década de 90 do século passado. De qualquer modo, mesmo considerando que o gênero entrevista sociolinguística desfavorece enunciados não canônicos de negação, a ausência categórica de negação em fim de frase nos dados de Porto Alegre e a pequena quantidade de enunciados de dupla negação caracteriza a cidade, senão como conservadora relativamente ao uso de estruturas de negação sentencial, pelo menos como mais conservadora em relação a regiões em que os índices são mais expressivos17.

Sendo a cidade com menor percentual de ocorrências de enunciados de dupla negação da Região Sul18 – uma região, por hipótese, mais conservadora que as demais (inclusive por se caracterizar, até os dias atuais, pela inexistência de negação única em fim de frase) –, Porto Alegre, no início da década de 90, é uma comunidade de fala sobre a qual se pode pelo menos suspeitar que não tivesse experimentado ainda um desbotamento significativo da associação entre os enunciados de dupla negação e as funções pragmáticas supostas como motivadoras da implementação dessa estrutura. O corpus considerado neste estudo, portanto, presta-se a uma análise essencialmente qualitativa. Os dados apresentados nesta seção resultam de uma análise caso a caso das funções discursivas dos enunciados de dupla negação encontrados, considerando os contextos em que estão inseridos. A tabela a seguir apresenta a quantidade e os percentuais de enunciados que instanciam cada uma das funções consideradas.

Table 2.

TABELA 2 – Distribuição das funções pragmáticas dos enunciados de dupla negação do corpus Fonte: elaborada pelos autores (2021)

Denegação Retorno a tópico Denegação + Retorno a tópico Pausa temática Preservação da face Indeterminado Total
7 (26,9%) 12 (46%) 2 (7,8%) 1 (3,9%) 3 (11,5%) 1 (3,9%) 26 (100%)

Conforme se observa na tabela 2, em torno de um quarto dos enunciados de dupla negação analisados realizam exclusivamente a função de denegação (26,9%), confirmando a hipótese de Seixas (2013) e Seixas e Alckmin (2013). Há ainda, no corpus investigado, dois casos em que o enunciado de dupla negação realiza denegação associada à função de retorno a tópico, um deles apresentado em (14). Se considerarmos esses casos, os enunciados de dupla negação com a função de denegação passam a representar um terço dos casos (34,6% dos casos). A outra função que os dados analisados evidenciam como sendo realizada de modo significativo é a de retorno a tópico quantitativo. Os doze enunciados de dupla negação que realizam exclusivamente essa função representam 46% dos casos. Se somarmos a esses enunciados os enunciados com dupla função (denegação e retorno a tópico), a percentagem sobe para 53,8%. A função de preservação da face aparece em três ocorrências, representando 11,5% do total de enunciados. Embora seja um número pequeno de ocorrências, pode ser considerado significativo em um universo tão reduzido. A função de pausa temática aparece em um caso de dupla negação. Se considerarmos que a ideia de ativação decorre da estrutura informacional instanciada por enunciados de dupla negação, a função de pausa temática, que não exige ativação, resulta altamente improvável. Sua comprovação, portanto, fica na dependência da apresentação de uma quantidade significativa de casos em outros corpora a serem explorados ou de uma apresentação explícita da quantidade das ocorrências no corpus que estimulou a formulação da hipótese. Para um dos enunciados, não foi possível identificar nenhuma das funções supostas19.

Em resumo, dos 26 casos analisados, 24 instanciam pelo menos uma entre três funções que, para sua realização, dependem de que o conteúdo do enunciado negativo esteja ativado no discurso: denegação, retorno a tópico quantitativo e preservação da face. Tudo leva a crer que a associação da ideia de ativação a uma configuração estrutural que resulta da repetição do operador de negação em posição final de sentença seja uma decorrência de mecanismos formais bem conhecidos no campo de análise conhecido como estrutura informacional (cf. OTHERO; GOLDNADEL, 2020). Nessa perspectiva, as funções instanciadas por 24 ocorrências no corpus aqui investigado nada mais são que estratégias a veicular sentidos relativos ao plano interpessoal (nos casos de denegação e preservação da face) ou ao plano da organização do discurso (no caso de retorno a tópico quantitativo), valendo-se de uma determinada configuração informacional especialmente útil a finalidades discursivas.

O caso da denegação, nesse sentido, é exemplar. Para o ato de fala de denegar, a presença do conteúdo denegado na memória ativa dos interlocutores é condição necessária. Ninguém se opõe ao que não tenha sido dito ou sugerido recentemente. Evidentemente, é possível denegar com enunciados canônicos de negação. Mas isso não tem a menor importância para esta discussão, já que a negação pré-verbal constitui a forma não marcada, de modo que em nada abala a hipótese de que enunciados de dupla negação se especializem em funções específicas. Problemático é encontrar um enunciado de dupla negação que veicule conteúdo não ativado, como em (22). De qualquer modo, trata-se de um exemplo que, se analisado com mais cuidado, talvez possa ser considerado também um caso em que a dupla negação veicula conteúdo ativado ou, pelo menos, acessível20.

Da mesma forma, a função de retorno a tópico quantitativo, de caráter eminentemente organizacional, pressupõe ativação. Como vimos, falantes ocupam boa parte de seus discursos com afirmações de caráter justificativo, de modo a oferecer suporte a conteúdos que satisfazem as demandas mais objetivas de informação nas trocas conversacionais. Esses enunciados proferidos como justificação satisfazem ao que estamos chamando de tópicos qualitativos. Naturalmente, esses comentários qualitativos costumam vir depois do proferimento de um comentário quantitativo21, ao qual o falante retorna com enunciados de dupla negação. A ideia de retorno, portanto, compromete com a de ativação: só é possível retornar a conteúdo anteriormente ativado.

A função de preservação da face, característica de enunciados de dupla negação que satisfazem de modo imediato um tópico quantitativo (encontrada em três ocorrências no corpus investigado) também está associada a ativação. Aqui, como a satisfação é imediata, não se trata de retorno, apenas de indicação de manutenção tópica, ou seja, manutenção de conteúdo previamente ativado.

Os dados aqui analisados, portanto, constituem forte evidência para a hipótese de Schwenter, segundo a qual enunciados de dupla negação instanciam conteúdos ativados, literal ou inferencialmente, no discurso. Essa função de ativação, associada à configuração formal da frase com dupla negação, no entanto, não é toda história a ser contada. A apresentação de um conteúdo como ativado é uma escolha do falante que deve ser motivada por algum interesse de ordem mais elevada. As funções de denegação, retorno a tópico quantitativo e preservação da face – todas dependentes de ativação – parecem ser expressões desses interesses que movem os falantes a optar pela estrutura de dupla negação.

4. Considerações finais

O fenômeno da dupla negação sentencial não é um fenômeno exclusivo do português brasileiro22. Em todo o mundo, há incontáveis línguas que se caracterizam por ostentar sentenças negativas que contam com mais de um operador de negação com uma interpretação semanticamente equivalente a de sentenças com apenas um operador. Além disso, muitas das línguas que hoje não apresentam esse tipo de variação já a apresentaram no passado, de modo que seus padrões atuais de negação são o resultado de mudanças em relação a padrões anteriores. Essas línguas, assim como o português, passaram por longos períodos de convivência entre dois ou mais padrões alternativos, até que um deles, normalmente o último a ser adotado, suplantou o padrão original, num longo processo de mudança estrutural, muitas vezes acompanhada de mudança do item lexical dedicado à função semântica de negar.

A observação da variação dos padrões de negação sentencial ao longo da diacronia tem grande valor não apenas para a descrição de estados de língua, mas também para a compreensão das forças que atuam para impulsionar a variação e a eventual mudança, neste caso, de palavras gramaticais23 e de padrões sintáticos das línguas. No debate sobre a negação sentencial, há dois grandes grupos de hipóteses relativas à determinação do impulso inicial para a produção de enunciados alternativos, mas semanticamente equivalentes, de negação. De um lado, há aqueles que podem ser classificados como defensores da hipótese da motivação fonética; de outro, há os defensores da hipótese da motivação pragmática.

Os defensores da hipótese da motivação fonética entendem que, em se tratando de variação do padrão sentencial de negação, tudo começa em virtude do enfraquecimento fonético do operador de negação original, normalmente atestado em línguas que experimentam variação na negação. Os defensores da hipótese da motivação pragmática, por sua vez, não ignoram o enfraquecimento fonético do operador de negação original, mas defendem a ideia de que esse enfraquecimento não constitui causa suficiente para o surgimento de estruturas alternativas. Para eles, nas línguas que passaram pelo Ciclo de Jespersen, é o desbotamento das funções pragmáticas que motivaram o surgimento da nova estrutura (depois de experimentar uma enorme ampliação de usos) que, aliado ao enfraquecimento fonético do operador original, acaba por eliminar a forma mais antiga de negação.

A observação do fenômeno da variação da negação sentencial em comunidades mais conservadoras, neste caso, uma comunidade na qual, nos anos 90, os usos alternativos à forma original ainda não haviam alcançado índices de ocorrência elevados, é um importante elemento no debate entre as duas hipóteses para o surgimento de estruturas alternativas de negação sentencial. Se, nessas comunidades, observa-se o surgimento da nova estrutura em contextos pragmáticos e sintáticos (orações principais, coordenadas e subordinadas de vários tipos) variados, reforça-se a hipótese da motivação fonética. Se, contrariamente, é possível verificar uma lógica subjacente aos usos de enunciados alternativos de negação, identificando, de modo consistente, funções discursivas a eles associadas, ganha força a hipótese da motivação pragmática para o surgimento das novas formas.

Este estudo identifica funções pragmáticas consistentemente associadas a usos de enunciados de dupla negação em um corpus de entrevistas sociolinguísticas realizadas com falantes de uma região do Brasil que parece ser mais conservadora que as demais. É possível, como já discutimos anteriormente, que os resultados obtidos sofram de algum enviesamento decorrente do gênero investigado (entrevista sociolinguística). O problema não é tanto que entrevistas sociolinguísticas inibam modos menos formais de expressão, mas sim o de que o gênero, por alguma razão, favoreça seletivamente certos usos, bloqueando, por exemplo, casos nos quais nenhum condicionamento pragmático pudesse ser suposto. Entretanto, mesmo que isso esteja acontecendo, o simples fato de que um determinado gênero funcione como um filtro que admite apenas usos pragmaticamente motivados já constitui evidência para a relevância das determinações discursivas para o uso de estruturas alternativas de negação.

Gêneros discursivos de textos que integram um corpus escolhido para a investigação podem, inclusive, atuar seletivamente em relação às funções discursivas postuladas para a estrutura analisada. Os resultados de Seixas (2013) e Seixas e Alckmin (2013), extraídos de um corpus de textos dos séculos XVIII e XIX, revelam, de modo muito claro, o uso de enunciados de dupla negação para realizar a função de denegação. Tudo indica, no entanto, que os gêneros textuais que caracterizam os textos desse corpus – correspondência pessoal, notícia de jornal e peça de teatro/obras literárias – desfavorecem bastante a ocorrência das funções de retorno a tópico quantitativo e de preservação da face. As cartas e as notícias de jornal são gêneros escritos, planejados, que não envolvem interlocução imediata. O planejamento desses dois tipos de texto escrito torna absolutamente desnecessária a função de retorno a tópico, cujo papel essencial é o de sinalizar a continuidade tópica, frequentemente afetada pelas digressões típicas de diálogos espontâneos, sem planejamento prévio. Já a ausência de interlocução nesses dois gêneros desfavorece a função de preservação da face, característica de respostas imediatas a perguntas explicitamente formuladas por um interlocutor.

As peças de teatro do corpus investigado por Seixas e Alckmin (2013), por sua vez, embora procurem emular situações de interlocução, são textos literários, que não pretendem reproduzir fielmente situações de fala descompromissada (como acaba sendo a entrevista sociolinguística). Sendo assim, resulta altamente desfavorecida a instanciação da função de retorno a tópico quantitativo em peças de teatro, já que ao dramaturgo incumbe não a reprodução fiel da fala cotidiana, mas a de uma fala que faz avançar os conflitos e a trama. Já a função de preservação da face, por seu papel de atenuação de conflitos, também parece ser desfavorecida em peças de teatro, que se alimentam mais do conflito que do entendimento24.

A função de denegação, abundante no corpus considerado pelas autoras, no entanto, é esperada, principalmente nas notícias de jornal e nas peças de teatro25. Nestas, isso se dá em função do investimento natural no conflito, que faz o gênero dramático. Já os artigos de jornal do corpus investigado pelas autoras são de uma época caracterizada pelos debates calorosos na imprensa, recheados de réplicas a ideias em circulação, como se pode verificar em dois dos exemplos a seguir26, retirados de Seixas e Alckmin (2013):

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(24) Nao se pense que nós nos oppomos ao recrutamento; nao [...].” (Jornal: O Despertador Mineiro, 1841)

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(25) “Não se persuada alguem que quando assim falamos temos em vista apoiar o assassinato; não: longe de nós tal Idea [...]” (Jornal: O Libertador, 1841)

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Tanto em (24) quanto em (25) está evidente que o enunciador, com as duplas negações sentenciais, coloca-se em confronto com outros modos de pensar.

É possível, portanto, que a aparente predominância de enunciados de dupla negação com função de denegação nos dados do corpus investigado por Seixas e Alckmin não constitua razão suficiente para dar como certa a ausência de outras funções para esse tipo de construção no período considerado. Talvez os falantes daquela época, em suas trocas cotidianas, fizessem uso de enunciados de dupla negação para sinalizar retorno a tópico ou preservação da face. Impossível saber a resposta, dada a insuficiência de fontes dos séculos XVIII e XIX com dados de fala espontânea.

A falta de fontes históricas, portanto, dificulta uma resposta à questão posta na seção 1.5 deste trabalho: as funções pragmáticas associadas à ativação surgem de modo concomitante, ou sua implementação é gradual, com algumas funções surgindo primeiro e, com o passar do tempo, abrindo espaço para novos usos? É possível que as diversas funções pragmáticas associadas a enunciados de dupla negação não tenham surgido concomitantemente no Brasil. Mas, tendo em vista as considerações acerca da possível interferência dos gêneros considerados nos estudos já realizados, essa não é uma conclusão segura. Embora os estudos apontem para usos denegativos no século XIX e identifiquem outras funções (retorno a tópico quantitativo e preservação da face) apenas em dados do século XX, qualquer conclusão sobre uma possível trajetória de diversificação dos usos de enunciados de dupla negação aguarda ainda a consideração de mais dados.

O que os resultados desse estudo, tomados em conjunto com os resultados dos outros aqui mencionados, reforçam é a hipótese pragmática mais geral de que o surgimento de estruturas alternativas de negação tem motivação discursiva, contribuindo para a hipótese mais específica, entre tantas disponíveis na literatura especializada, de que enunciados de dupla negação servem à veiculação de conteúdos discursivamente ativados. Para além disso, avança na constatação de que uma função básica (expressão de ativação) termina por servir a propósitos comunicativos, sublinhando a íntima relação entre recursos pragmáticos de base e recursos de ordem mais elevada, de caráter metadiscursivo, como aqueles que auxiliam na organização do discurso e no estabelecimento de sentidos interpessoais.

Em outras regiões do Brasil, é possível que a repetição da estrutura já tenha levado a um desbotamento do sentido pragmático inicialmente associado a enunciados de dupla negação, o que pode ter aberto o caminho para um aumento indiscriminado de usos, num processo de retroalimentação do desgaste inicial, conduzindo ao que se poderia chamar de sinonímia pragmática, parte de um possível processo mais amplo de gramaticalização das estruturas de dupla negação. Nessas regiões em que os percentuais de enunciados de dupla negação são mais expressivos, seria bastante esclarecedor um estudo que procurasse verificar em que medida a estrutura ainda serve para a veiculação de certos sentidos discursivos. Os resultados desse tipo de investigação ajudariam não apenas a tornar mais precisa a descrição do fenômeno em regiões nas quais os usos de enunciados de dupla negação se ampliaram, mas ainda a compreender melhor os processos diacrônicos que podem, ao longo de extensos períodos, resultar em mudanças efetivas nos padrões sentenciais de negação. Tal esforço, somado àqueles que têm motivado uma série de estudos sobre a variação da negação sentencial na Região Sul, seria, portanto, não apenas uma contribuição para a descrição do português falado no Brasil, mas também para a compreensão da relevância da identificação de associações entre forma e uso para a explicação de fenômenos de variação e mudança observados nas línguas particulares.

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