Resumo

O negacionismo tem como propósito não simplesmente revisar, passar a limpo algum evento histórico ou uma descoberta científica, mas, sobretudo, negá-los a partir de determinados valores e crenças pessoais. Há nele um desejo de fazer parecer que se trata de algo falso, mentiroso, a partir de uma aparência de racionalidade. São apresentados supostos fatos, versões de obras revisadas, gráficos, artigos, no intuito de criar um efeito de algo credível. Os efeitos de real visam garantir credibilidade ao discurso. Teses revisionistas sobre eventos históricos e descobertas científicas, ganham cada vez mais adeptos em todo o mundo, assim como os discursos negacionistas. O propósito deste artigo é, nesse contexto, apresentar, no âmbito dos estudos da argumentação no discurso, uma reflexão a respeito do negacionismo e, mais especificamente nesse momento, do negacionismo científico. Pretendemos articular ressentimento, emoções como medo, indignação e ódio a determinados valores de cunho conservador que parecem ser dominantes nos discursos em pauta. Essa articulação contará ainda com a construção discursiva da vitimização e tomará como objeto uma página do Facebook responsável pela disseminação de discursos contrários às vacinas. Pretende-se, desse modo, colaborar com uma melhor compreensão da estrutura e do funcionamento do discurso negacionista, uma vez que se trata de um discurso de larga difusão na contemporaneidade.

Introdução

As teses revisionistas sobre o holocausto e outros eventos históricos, assim como sobre descobertas científicas, ganham cada vez mais adeptos em todo o mundo. Acadêmicos e simpatizantes fazem do revisionismo uma nova bandeira. Figuras como historiador David Irving, que ficou famoso pelo processo movido contra a pesquisadora Deborah E. Lipstadt e por tentar provar que o massacre dos judeus no holocausto não aconteceu como mostrou a história, sinalizam que as verdadeiras motivações e desejos destes sujeitos são ideológicas e estão longe de visarem consertar um erro histórico1. O caso Dreyfus na França se tornou o ícone de todos os interessados em mudar a história, mas quase nunca as motivações são positivas. Na verdade, na maior parte das vezes, trata-se de teses negacionistas sob uma roupagem revisionista. Ao final do processo de Irving, ficou provado que, ao contrário do que ele defendia, suas razões eram ideológicas. Provou-se que se tratava de um uso oportunista de mentiras, de uma tentativa de negar o holocausto por motivações escancaradamente antissemitas.

O negacionismo tem como propósito não simplesmente revisar, passar a limpo algum evento histórico ou uma descoberta científica, mas, sobretudo, negá-los a partir de determinados valores e crenças pessoais. Há nele um desejo de fazer parecer que o tema em jogo se trata de algo falso, mentiroso, a partir de uma aparência de racionalidade. São apresentados supostos fatos, versões de obras revisadas, gráficos, artigos, no intuito de criar um efeito de algo credível. Os efeitos de real visam conferir credibilidade ao discurso.

As novas tecnologias e o acesso à internet abriram caminhos para a disseminação dos discursos negacionistas. Se antes eles estavam restritos a publicações em revistas e jornais distribuídos a grupos específicos, agora, são divulgados na internet para todo o mundo e chegam aos mais longínquos recantos do planeta. Com isso, podem se disseminar e atingir um público cada vez maior e também cada vez mais ávido por se opor a tudo que lhes parece ir contra os valores dos quais compartilham. A descrença nas instituições, na ciência, na educação, associada a um ressentimento, à constatação de que os sujeitos foram privados e mesmo impedidos de acessar as estruturas de poder aguça ainda mais o desejo de a tudo se opor, de revisar o passado e de reescrevê-lo de outro modo.

Na contemporaneidade, a denominada democracia digital contribuiu para superdimensionar essas relações e para fazer ouvir vozes antes abafadas, escondidas e, sobretudo, silenciadas. Essas vozes estão espalhadas no ambiente digital colaborando com a manutenção do sistema democrático, mas também, por outro lado, incitando a desconfiança sobre sua validade. Polêmicas públicas são detonadas a cada minuto na arena digital, o que acaba por “dar plateia” a muitos novos simpatizantes de teses negacionistas.

Aqui no Brasil isso se torna ainda mais agudo, uma vez que a suposta democracia digital convive lado a lado com a barbárie. Vivemos em um país marcado pela desigualdade social: altos índices de pobreza, fome, toda espécie de violência, associados a uma educação precária e excludente. Enquanto isso, uma ínfima parcela da população concentra em suas mãos a maior parte do capital. Além disso, convivemos com uma publicidade massiva nas televisões abertas e em outros meios, o que torna ainda mais sedutor o consumo de bens materiais. A ferramenta tecnológica que seria um meio para o sujeito obter algo, torna-se um fim, pois, mesmo diante de toda privação, de toda dificuldade financeira, muitos optam por adquirir um Iphone ou um Smartphone, no lugar de outro item de necessidade mais imediata. Esses aparelhos supostamente conectam os sujeitos e podem produzir o milagre da denominada “inclusão digital”, de modo a supostamente conceder aos excluídos e mesmo aos “corpos abjetos” o direito à fala. Dessa maneira, eles se sentem autorizados a participar dos debates no mundo digital, com a vantagem de não ser preciso mostrar a face. A simples proteção da tela já pode propiciar uma sensação de liberdade e segurança não antes experimentadas.

Na cena política contemporânea, podemos dizer que o Golpe de 2016 é uma espécie de divisor de águas que fez ecoar vozes antes escondidas, inclusive estas vozes mencionadas anteriormente. Estes sujeitos, amparados por representantes, em especial, do campo da religião e da política, sentiram-se autorizados a se manifestar na internet, a manifestar sua insatisfação, seu ressentimento, sua indignação e mesmo seu ódio. Tais emoções argumentadas e expressas no discurso contribuem para mobilizar outros insatisfeitos.

O propósito do artigo é, nesse contexto, apresentar, no âmbito dos estudos da argumentação no discurso, uma reflexão a respeito do negacionismo e, mais especificamente nesse momento, do negacionismo científico. Pretendemos articular ressentimento, emoções como medo, indignação e ódio a determinados valores de cunho conservador que parecem ser dominantes nos discursos em pauta. Essa articulação contará ainda com a construção discursiva da vitimização e tomará como objeto uma página do Facebook responsável pela disseminação de discursos contrários às vacinas.2

Segundo Recuero et al. (2020, p. 24[1]), “o estudo das redes é, portanto, o estudo de padrões sociais”. Pretende-se, desse modo, colaborar com uma melhor compreensão da estrutura e do funcionamento do discurso negacionista, uma vez que se trata de um discurso de larga difusão na contemporaneidade.

1. Negacionismo no ambiente virtual

Nas redes sociais, com o uso de avatares, os sujeitos acreditam poder participar agora de um cena da qual foram excluídos por anos, para a qual não possuíam a senha de entrada. Nesse ambiente virtual tudo podem dizer e criticar; podem cobrar as dívidas. São os “cobradores” das redes sociais, para falar com Rubem Fonseca (2010, p. 172[2]): “Estão me devendo xarope, meia, cinema, filé mignon e buceta (...)”.

As constantes crises econômicas, políticas e a desigualdade social que marca a história do Brasil fazem com que tenhamos aqui um terreno propício à disseminação de fakenews e discursos negacionistas. Essas notícias falsas e o negacionismo estão relacionados ao fenômeno da “pós-verdade”, o qual diz respeito a um ceticismo em relação aos benefícios da verdade. Ceticismo associado a um cinismo, a algo que relativiza tragédias históricas, por exemplo. Não há nada de ingênuo na pós-verdade, mas sim “uma combinação calculada de observações corretas, interpretações plausíveis e fontes confiáveis em uma mistura que é, no conjunto, absolutamente falsa e interesseira” (DUNKER, 2017, p. 38[3]). A pós-verdade explora preconceitos de todos os tipos e os leva a conclusões tendenciosas. Existe apenas uma “verdade contextual” (DUNKER, 2017, p. 19[3]).

Este cenário, gerado por uma descrença na economia, na política e nas instituições como um todo, contribui para promover um ressentimento generalizado e, com isso, abre caminhos para o crescimento e a disseminação cada vez maior dos discursos negacionistas. É o que o protagonista do conto O cobrador, de Rubem Fonseca, escancara de maneira crua e violenta: “Odeio dentistas, comerciantes, advogados, industriais, funcionários, médicos, executivos, essa canalha inteira. Todos eles estão me devendo muito.” (FONSECA, 2010, p. 166[2])

O ressentimento, como afirma Nietzsche (2000[4]), é uma constelação afetiva; uma má consciência, na qual a raiva e a cólera, que deveriam se dirigir a um outro, voltam-se contra o próprio sujeito. Com isso, o indivíduo sente uma imensa dor. Podemos dizer que, assim como a vergonha, o ressentimento deriva do incômodo do sujeito diante de uma suposta relação de inferioridade frente a um outro suposto ou real. O ressentido deseja o que é do outro e, em uma atitude de impotência diante da suposta impossibilidade de realização de seu desejo, sente uma inveja maliciosa. O ressentido é, assim, um invejoso em potencial. Ele se ressente pelo não reconhecimento por algum ato de compaixão ou por suas qualidades não reconhecidas ou ainda por não possuir o que supõe merecer. A culpabilização é sua lei! O ressentido culpabiliza a todos e a tudo por sua dor; não assume a responsabilidade por seu fracasso, por seu infortúnio. Além disso, ele tende a se unir a outros ressentidos a fim de provar que está certo, a fim de provar suas teses conspiratórias. O problema é que o faz por meio do ataque à figura do outro, especialmente, por meio de argumentos ad hominem e ad persona.

Podemos afirmar que a subjetividade na pós-verdade – e manifestada nas redes sociais – é, assim, uma subjetividade ressentida. Há uma espécie de “ódio ressentido”, se é que assim se poderia dizer, uma vez que se implora por atenção nas redes sociais, mas se deseja vingança também, deseja-se eliminar a causa do problema, como afirmou Aristóteles ([s.d.], 2010, p. 189[5]), acerca do ódio. Os “cancelamentos”3 não seriam uma forma simbólica de “matar o outro”, de eliminar a causa da dor, do problema, como fez o ciumento Otelo, na obra de Shakespeare, ou desejou fazer Bentinho, em Dom Casmurro? Evidentemente, essa relação pode sair do campo virtual e se efetivar com a morte de algum desafeto.

No que tange ao negacionismo, parece ser possível afirmar que o fenômeno congrega, reúne pessoas, entre outras, que se ressentem de algo, que se sentem lesadas e se unem atualmente nas redes sociais, por meio de uma construção discursiva assentada em um ethos de vítima. A vitimização promove a empatia e a identificação, necessárias à diminuição das distâncias entre os sujeitos, para me valer de Michel Meyer (2018[6]).

O termo negacionismo, cuja autoria é do historiador francês Henry Rousso (2004[7]), designa, inicialmente, a atitude de negar um fato histórico como o extermínio dos judeus da Europa pelos nazistas. Os negacionistas visam não rever ou reexaminar o fato histórico, mas falsear a história, a partir de motivações ideológicas. No caso do holocausto o que se deseja é apoiar a nostalgia do regime totalitário, a utopia eugenista de uma nação pura. Esse movimento é uma reação, é uma forma de se opor à realidade. Trata-se de uma construção argumentativa que se apoia em valores comungados por determinados grupos sociais que se mostram abertos a tais construções discursivas, mas eles também podem visar a um público mais vasto, dependendo da pauta.

Como afirmaram Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996[1958][8]), os valores não são impostos, eles são admitidos pelo outro. Para o sucesso da argumentação, é preciso que o orador tenha em vista um alvo, um auditório, conheça o que lhe influencia e os valores pré-estabelecidos. É preciso que ele se adapte aos valores pré-estabelecidos pelos ouvintes. Nesses casos, os negacionistas agenciam grupos e constroem sua argumentação tendo em vista os valores possivelmente partilhados por este grupo, além de promoverem a adesão a outros valores. Isto porque os valores não são perenes, como alertam Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996[1958][8]).

Os negacionistas podem, assim, encontrar brechas, encontrar sujeitos que comungam de valores eugenistas, de valores misóginos, que comunguem de uma insatisfação, de uma descrença nas instituições, na ciência, na história. São construções discursivas, cuja aparência de racionalidade, esconde, de fato, posições ideológicas de grupos radicais dispersadas em uma grande quantidade de sites e também nas redes sociais.

Um das figuras proeminentes do negacionismo climático, por exemplo, é Piers Corbyn, astrofísico inglês que se posiciona contrariamente à constatação dos efeitos do aumento do CO2 na atmosfera4. Ele defende que tudo não passa de um complô de países industrializados e isenta o homem da responsabilidade pelas mudanças climáticas. Para Corbyn, as mudanças seriam um fenômeno natural, provocado pelo aquecimento do sol, portanto, não existiriam efetivamente. Atualmente, ele participa, inclusive, de protestos antivacina e se envolve em diversas temáticas conspiracionistas5.

São vários os think tanks 6 que fundamentam essas e outras ideias e fazem com que elas ganhem aparência de científicas.7 Além dos Institutos, revistas pseudocientíficas, como o Journal of Historical Review, circulam nos campi americanos desde os anos de 1980, e colaboram para fomentar a desconfiança sobre a ciência e sobre a história, além de disseminar ideias falsas.

Em outros partes do mundo, há nomes já bastante conhecidos, como na França, por exemplo, onde Robert Faurisson, um negacionista do holocausto, chegou até mesmo a ter seus textos publicados pelo jornal Le Monde em 1979. Todavia, foi levado aos tribunais e condenado por duas vezes. Na Espanha, outro conhecido negacionista, Pedro Varela, é um editor de livros e proprietário da Livraria Europa. Ele se filiou a grupos de extrema-direita desde os anos de 19708. Como se vê, estes sujeitos estão espalhados por todo o mundo, difundindo suas ideias em jornais, revistas e, nos últimos tempos, em sites e redes sociais.

No Brasil, os adeptos à negação do holocausto9, da escravidão e da ditadura militar se organizam cada vez mais e, atualmente, apoiam seus discursos em proferimentos não só daqueles que se dizem revisionistas, mas de autoridades do campo da política. Aqui também temos thinks tanks como os Institutos Millenium e Teotônio Vilela e figuras midiáticas como Marco Antonio Villa, Rodrigo Constantino e Diogo Mainardi, por exemplo. Tais figuras incitam polêmicas públicas sobre temas diversos do cenário sócio-político contemporâneo de modo a fomentar as teorias negacionistas que por aqui também circulam.

2. O negacionismo científico no Brasil: o caso das vacinas

De acordo com estudos desenvolvidos em instituições ligadas à Universidade de São Paulo (USP) Ribeirão Preto, grupos antivacina usam redes sociais para dar eco a conteúdo falso e gerar desconfiança sobre a futura campanha de vacinação contra o covid-19. Tais grupos são responsáveis por incitar a dúvida sobre a importância das vacinas e mesmo a descrença e o descrédito na ciência. O site União Pró-Vacina, criado recentemente, visa a apresentar conteúdo informativo que possa vir a contribuir para evitar a disseminação de conteúdos falsos sobre vacinas no Brasil. Segundo os pesquisadores, trata-se de

Ao verificar o aumento de fakenews a respeito do assunto e, ainda, a adesão cada vez maior a esses discursos negacionistas, as universidades e os centros de pesquisa têm se esforçado para conter essa onda e evitar que as doenças já erradicadas retornem e promovam o colapso do sistema de saúde no Brasil. Eles apresentam informações por meio de diversos recursos, além de ensinar a lidar com os negacionistas, como se pode observar no site e nas figuras 1 e 2 a seguir.

Figure 1.

FIGURA 1  

Fonte: União Pró-Vacina 10

Figure 2.

FIGURA 2

Fonte: União Pró-Vacina

Entretanto, esta tarefa não é fácil, especialmente, porque é preciso lidar com um inimigo oculto, sem face, que se espalha, dissemina-se no ambiente digital sem que seja possível ter controle sobre ele. Além dos sites, os grupos encabeçados por negacionistas se expandem nas redes sociais e ganham a adesão dos insatisfeitos de toda ordem que circulam no mundo virtual. Grupos como “Vacinas. O maior crime da história”, com mais de 6000 seguidores, e “Vacinas: o lado obscuro das vacinas”, mais de 2000 seguidores, são abertos e estão disponíveis para a consulta de qualquer interessado no assunto. Os administradores afirmam nada ganhar com os grupos e mantêm uma relação de textos e vídeos para consulta. Ambos os grupos estão no suporte Facebook, “um site de rede social”11, que permite ao usuário gerar e distribuir conteúdos.

Os textos exibidos referem-se a artigos publicados, em sua maioria, em páginas antivacinas norte-americanas. Além disso, os grupos se valem de publicações de jornais e revistas brasileiras ora para desqualificá-los, quando se referem a um conteúdo favorável à vacinação, ora para autorizar a afirmação, quando se trata de afirmações negacionistas, como aquelas publicadas pelo site O Antagonista, por exemplo.

A pandemia do covid-19 trouxe um novo fôlego a esses grupos de Facebook, uma vez que houve uma mobilização no sentido de negar a existência da epidemia, de negar a importância do isolamento social, do uso de máscaras e, agora, de negar a importância da vacinação, negando, dessa maneira, a ciência. Toda essa negativa alinha-se ideologicamente à posição do governo federal, o que se verifica nas seguintes publicações:

Figure 3.

FIGURA 3

Fonte: página facebook 12

Figure 4.

FIGURA 4

Fonte: página facebook

Figure 5.

FIGURA 5

Fonte: página facebook

Na primeira publicação em destaque (figura 3), a configuração da imagem em fundo preto com letras em branco e a figura da interdição da vacina em vermelho, associada ao texto verbal, colabora para incitar indignação e mesmo revolta a respeito do Projeto de Lei13 que tem como foco a obrigatoriedade da vacinação. O adjetivo “grave” no aumentativo – “gravíssimo” – encabeça a mensagem dando o tom de alerta que vem seguido do número do Projeto de Lei (PL) e do nome do deputado que o apresentou. Tanto o PL quanto o deputado que o propôs estão ali denunciados. Além disso, palavras de protesto: “não podemos aceitar esse absurdo!” são evidenciadas nesta publicação e na seguinte (figura 4) – “Para os presos, vitaminas! Para as crianças, Vacinas! Ouié!” –, a qual é seguida da notícia de jornal “Presos recebem vitaminas para melhorar imunidade”.

Trata-se de uma tentativa de modificar os juízos do auditório, para dizer com Aristóteles, incitando a indignação. Para melhor indignar, é preciso se mostrar indignado. Isto faz o sujeito. Além dos sinais de pontuação e da estrutura do enunciado, a interjeição “ouié” expressa essa emoção. Segundo Aristóteles (([s.d.], 2010, p. 182[5]), uma pessoa é propensa à indignação quando

Evidentemente, isso não indica que se trate de uma emoção sentida. Essa construção discursiva tem continuidade em outras publicações nas quais se argumenta contra a obrigatoriedade da vacinação apoiando-se, contraditoriamente, no Princípio da Dignidade Humana (PDH).

A posição do governo federal chancela a voz dos negacionistas e o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, que serve de apoio à liberdade de escolha, nesse momento não é o mesmo para todos, especialmente para os presidiários que eles atacam. O grupo se apresenta como único digno de valores como “liberdade”, “igualdade” e “dignidade”, esquecendo-se de que os direitos humanos são poderes e deveres de todos para com todos, de acordo com padrões de dignidade do momento histórico.

Ao negar o direito aos cuidados essenciais aos presidiários, nega-se o sistema carcerário como um todo, além do direito à vida a estes sujeitos. A negação também silencia o fato de que, segundo Frias e Lopes (2015, p. 655[9]),

Com a ênfase ao suposto privilégio concedido aos presidiários, a publicação supostamente polemiza, ela ataca sem apresentar argumentos plausíveis que possam comprovar as razões de os encarcerados não poderem tomar vitaminas e, ainda, sem poder afirmar que não foram vacinados. Ainda, ao compará-los às crianças, estabelecem uma balança desigual, impossível de ser admitida dentro do universo de valores e crenças do brasileiro. A falácia da falsa analogia, cujo princípio relaciona-se ao equívoco de semelhança por se tomar uma coisa por outra, em virtude de semelhança acidental e não total entre uma e outra, é usada como recurso. A validade dos Direitos Humanos sempre incitou polêmica no Brasil e, nos últimos anos, essas polêmicas se acirraram com o aumento das campanhas pró-armamento, apoiadas por figuras do campo da política e da mídia, além de empresários.

De acordo com Amossy (2018), a polêmica é um modo de gestão de conflitos e constitui o motor da democracia, ao viabilizar o encontro, mesmo na diferença. A polêmica não se trata simplesmente de um debate violento, há nela um antagonismo marcado, um choque de teses contraditórias, mas o que realmente a define é a dicotomização e a polarização. A dicotomização é de ordem discursiva e consiste na oposição de duas respostas divergentes que exacerbam as diferenças entre as teses. Nesse caso, há uma hiperbolização do que as separa, não há nuances – é isto ou aquilo. A polarização é de ordem social e, nela, há uma oposição de teses, segundo a qual as pessoas se agrupam em dois campos inimigos (nós contra eles), de modo a recobrir fortes problemas identitários. O outro é alvo de ataque – sua tese e sua pessoa.

Em virtude disso, entendemos a razão de as polêmicas fazerem com que pessoas extremamente diferentes ideologicamente se agrupem em torno de uma posição, pois a polêmica “autorise au moins la ‘coexistence dans le dissensus’” (Amossy, 2018, p. 159). Todavia, o que se nota nas publicações da página antivacina é que, na verdade, não se trata da apresentação de polêmica, mas sim de negacionismo travestido de polêmica. Não se deseja o choque de posições divergentes, mas sim escamotear posições já ideologicamente marcadas. Não há conflito de teses, não existem antagonismos verdadeiros, está tudo dado. É como se estivéssemos diante de um eterno “diálogo de surdos”, para falar com Angenot (2008[10]). A pseudopolêmica funciona como “cortina de fumaça” para se negar a importância das vacinas, para se negar a importância dos avanços científicos, para se negar a importância da ciência.

Há nas postagens uma escolha deliberada das temáticas – pauta dos costumes (vacina contra HPV, uso de fetos abortados nas vacinas, uso de Viagra por jovens), pauta dos direitos humanos e uso de armas de fogo e munição (privilégios de presidiários), pauta da corrupção (descrédito das instituições: científicas – Instituto Butatã, OMS –, políticas: partidos políticos –, midiáticas: redes de televisão, jornais, revistas), colocadas em jogo. Tudo faz parte de um projeto racional, o que caracteriza o negacionismo. A violência verbal se faz presente por meio de argumentos que incitam o medo, a vergonha. Violentar o outro por meio da linguagem é um meio de silenciá-lo, de fazê-lo calar. Todavia, nas interações, que podem ser acessadas por todos na página, não temos trocas marcadas pela impolidez. A violência fica restrita aos comentários dirigidos a terceiros, como o dirigido a um ex-deputado do PSL, agora em outro partido, o que se notará a seguir. O insulto viola as regras de civilidade, e, em geral, vale-se de um vocabulário ligado à obscenidade, ao escatológico justamente para melhor arranhar a face do agredido.

Figure 6.

FIGURA 6

Fonte: página facebook

As teorias conspiratórias sobre o covid-19 ou sobre outras vacinas (caso Bill Gates, por exemplo, na figura 8) funcionam como argumentos ad baculum e incitam medo. Além disso, na tentativa de descredibilizar as estatísticas apresentadas pelos Estados, são apresentados casos esporádicos de mortes decorrentes de outras causas ou de mortes de pacientes com comorbidades; relatos de supostas vítimas de vacinas, com o uso de imagens impactantes, valendo-se também de argumentos ad misericordiam (figuras 7-9). Importante pensar que a misericórdia está ligada a algo individual, a uma obrigação, a um dever religioso. Trata-se de alguma maneira de uma lógica perversa, porque coloca em cena eternos devedores, de modo a gerar uma relação desigual. Ao realizar o ato de misericórdia, o sujeito não precisa gostar do outro, precisa somente cumprir um dever que é de cunho religioso. Nesses termos, não há, necessariamente, empatia pelo outro. Ajudamos por medo de acontecer o mesmo conosco. Essa seria a lógica da misericórdia. As postagens que são repetidas ao longo da página argumentam a misericórdia e solicitam ajuda financeiras às vítimas de vacinas.

A apresentação de vítimas é outro recurso recorrente na construção discursiva, pois colabora para a vitimização dos próprios negacionistas, que tanto se apresentam como se compadecendo da dor do outro quanto se apresentam como vítimas de um sistema corrupto, da falta de representatividade e de valor na cena política e social. A construção da imagem do outro como vítima colabora para sua vitimização. Isto porque “(...) être victime renvoie aux saints et aux martyrs, qu’il s’agisse de ceux qui sont morts pour la religion ou morts pour un idée” (Grinshpun, 2019, p. 2). Assim, apresentar-se como vítima é um argumento importante que pode suscitar emoções diversas.

A notícia sobre a médica que foi picada por um cobra e diagnosticada com o vírus no hospital é usada falaciosamente também, um reductio ad absurdum, uma vez que se desvia do caminho certo. “Em lógica, a redução ao absurdo consiste no raciocínio, que deriva uma contradição de uma premissa, mostrando que ela é falsa” (Fiorin, 2015, p. 143[11]). Assim, teríamos o seguinte: “Picada de cobra também mata por covid, porque médica picada por cobra, e internada na UTI, foi diagnosticada com covid”.

Figure 7.

FIGURA 07

Fonte: página facebook

Figure 8.

FIGURA 08

Fonte: página facebook

Figure 9.

FIGURA 09

Fonte: página facebook

Nesse processo de projeção de uma boa imagem de si e dos adeptos à causa, constrói-se uma imagem negativa do outro, de figuras do campo da política, de institutos científicos, de órgãos fiscalizadores. A polêmica apresentada na voz do deputado federal, escamoteia o verdadeiro ataque à ciência e à democracia, como se nota a seguir:

Figure 10.

FIGURA 10

Fonte: página do facebook

Figure 11.

FIGURA 11

Fonte: página do facebook

Figure 12.

FIGURA 12

Fonte: página do facebook

Ademais das notícias sobre o covid-19, a página apresenta também notícias e informações sobre outros assuntos relacionados às vacinas e a outras abordagens um pouco mais obscuras, como aquela relacionada ao uso de Viagra por jovens. A postagem incita, por meio de uma pergunta retórica, a dúvida sobre uma suposta relação entre a vacinação infantil e o uso de medicamentos para disfunção erétil pela população jovem.

Figure 13.

FIGURA 13

Fonte: página do facebook

Figure 14.

FIGURA 14

Fonte: página do facebook

Figure 15.

FIGURA 15

Fonte: página do facebook

A informação de que as vacinas são compostas de DNA de fetos abortados aparece em algumas postagens, assim como a menção aos inúmeros prejuízos causados pela vacina contra o vírus HPV (figuras 15 e 16). São reportagens, notícias de jornais e comentários que, mais uma vez, parecem maquiar um projeto conservador, preconceituoso e separatista em andamento, o qual também se apoia no discurso religioso. Esse projeto não quer colocar nada em debate, não deseja nem mesmo a erística grega; parece haver nele um desejo de aniquilar o oponente e alimentar o fosso, a separação entre os campos inimigos. Não há desejo de diálogo, de conviver no dissenso, como assinala Amossy (2014[12]). Não há desejo de se conviver na democracia. O projeto se alimenta da divisão social e almeja a erosão da democracia. O movimento é pelo silenciamento do outro, por meio da violência verbal e por meio de fakenews que baralham a percepção do real. Tudo isso sustentado no discurso religioso:

Figure 16.

FIGURA 16

Fonte: página do facebook

Figure 17.

FIGURA 17

Fonte: página do facebook

O negacionismo da voz da ciência sobre covid-19 no Brasil é, na verdade, a negação da educação, a negação do valor da educação. A partir dessa breve reflexão, notamos que o negacionismo cria um processo de vitimização, não por uma incapacidade de responder à altura do agressor por sentir-se fraco, mas por sentir uma superioridade moral. O negacionista é um “cobrador”, ele quer o que lhe foi supostamente tirado.

3. À guisa de conclusão

Nesse cenário em que a pós-verdade encontra seu lugar, em que as crenças pessoais se sobrepõem a fatos objetivos, as antigas dicotomias dóxa e episteme e, ainda, dóxa e alétheia, retornam com novos contornos. Não importa o fato em si, mas a desconstrução que pode ser gerada pela divulgação de uma fakenews, pela negação da ciência ou pela negação da história. O saber comum, as crenças partilhadas passam a ser banalizados em prol das ideias de determinados grupos cujo fortalecimento se dá justamente pela negação. Tudo se nega, tudo se contesta sob a máscara da polêmica.

A dóxa, valorizada na polis grega e fundamento da argumentação, foi subvertida, desvirtuada nesse cenário contemporâneo. Após anos de luta para que os valores pudessem ser considerados relevantes ao lado do conhecimento científico, essa nova onda vem nos alertar para o fato de que é preciso atentar para os limites, para o fato de que nem tudo está aberto ao debate, de que certos temas são indiscutíveis. Encontrar esse limite é o que nos resta nesse momento. Com isso, é preciso mais uma vez refletir sobre o lugar da retórica, sobre sua importância e seu valor na sociedade contemporânea. É preciso perseguir um ideal de uma crítica ética, cidadã, como nos alerta Danblon (2004, p. 7[13]): “Bien sûr, le langage et l’argumentation constituent pour l’homme l’alternative à la force brutale. Mais le talent oratoire peut aussi être une pression, une violence exercée sur les plus faible”.

Vivemos um momento em que não somente a história e a ciência estão sob ataque, mas o próprio pensamento está sob ataque. Pensar se transformou em algo perigoso e o medo se transformou na mais poderosa arma. Isto porque ele promove uma paralisia necessária ao crescimento e à manutenção desses grupos e de outros grupos espalhados pelo mundo. Como alerta Mia Couto (2011[14]):

Com tanto discurso de ódio circulando, é natural que o medo se espalhe, pois, como afirmou Aristóteles ([s.d.], 2010, p. 174[5]), “(...) tememos o ódio e a ira de quem tem o poder de fazer mal (...)” (p. 174). Nesse sentido, a pandemia pode ser vista como algo muito mais profundo, pode ser entendido como uma corrosão civilizatória e o negacionismo da pandemia é a última defesa, o último baluarte. A pandemia revela uma sociedade já anteriormente adoecida. As redes sociais e, nesse caso, o Facebook funciona como vetor que faz circular os vírus, pois “la interface de Facebook pone en primer plano la necessidade de los usuarios de estar conectados, pero en parte oculta los mecanismos que emplea el sitio para compartir la información de un usuario con terceros” (Van Dijck, 2016, p. 182[15]). Desse modo, nem mesmo os usuários têm ideia do quanto suas mensagens e seus compartilhamentos vão circular...

As postagens do grupo antivacina analisadas no artigo revelam que os negacionistas mais que se opor a campanhas de vacinação se opõem a um sistema democrático, opõem-se à difusão do conhecimento, opõem-se à educação de qualidade para todos, opõem-se aos Direitos Humanos. Apoiam-se em valores conservadores assentados em uma moral cristã; valores sacralizados na sociedade brasileira – criança, família, casamento, heterossexualidade, entre outros. Apropriam-se de dizeres que circulam em nosso meio social, ressignificando-os a seu modo e de acordo com seus interesses. Ademais, a vitimização, que é de ordem sociodiscursiva, não visa à compaixão dos seguidores e muito menos dos grupos inimigos, fruto da polarização social. Ao contrário, eles desejam cobrar pelo que pensam lhes ser de direito e lhes ter sido tomado. Além disso, desejam a identificação dos seguidores e, mais ainda, visam seduzir mais seguidores para sua causa. A vitimização, nesse contexto sócio-histórico e a partir de valores evocados, implica, finalmente, em um procedimento discursivo que transforma o sujeito em vítima mobilizando modos de encenação das emoções – indignação, a raiva, o ódio – e argumentando o medo.

Resta-nos saber como lidar com esses discursos. Como refutá-los? Como estabelecer o diálogo? É possível dialogar com esses sujeitos?

Em outro momento, Danblon (2011[16]) nos alerta para a necessidade de se pensar na crítica em relação a um cidadão engajado na vida social, não por um cidadão expert. Talvez seja este o caminho e a retórica tenha mesmo muito a contribuir nesse sentido se pensada como possibilidade de conscientização e de liberdade, como disposição para alcançar uma série de qualidades humanas, a phrónesis. Por meio da retórica, o cidadão pode ganhar confiança para agir no meio social. Ela deve ser assimilada e fazer parte da vida do cidadão, como sinalizaram Perelman e Olbrechts-Tyteca em sua obra. A retórica deve ser ensinada desde os primeiros anos a fim de propiciar uma formação crítica e uma ética cidadã. A phrónesis não é, nesse sentido, somente uma virtude que está na natureza do homem, mas uma disposição adquirida através do exercício da retórica. Talvez seja este o caminho para que possamos alcançar uma melhor compreensão da dinâmica dos discursos negacionistas, disseminados nas redes sociais e dirigidos ao público brasileiro.

Referências

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