Resumo

Esta resenha destaca pontos relevantes que foram abordados pela professora e educadora Magda Soares na conferência que está inserida não só nas ciências linguísticas, mas também no ensino de língua portuguesa do Brasil. O método de alfabetização e letramento foi tema central com destaque para a importância do desenvolvimento da criança no processo de aprendizagem. A conferencista apresentou argumentos que envolvem teorias linguísticas e psicológicas, além de práticas no que diz respeito ao processo de alfabetização/letramento. Como bem afirma a professora e moderadora dessa conferência, Eliane Oliveira, a professora Magda Soares nunca deixou de refletir sobre os desafios que o ensino público brasileiro enfrenta; assim, em sua exposição estes também nos foram apresentados juntamente com sua ótica desse assunto sempre tão complexo à educação.

Texto

No dia 31 de julho de 2020, a professora e educadora Magda Soares[1] apresentou a conferência Alfabetização e letramento: teorias e práticas, no evento Abralin ao vivo, no canal do Youtube da Associação Brasileira de Linguística (Abralin). A professora conferencista tratou da relevância em se pensar nos métodos de alfabetização. Reafirmou que a alfabetização e o letramento caminham juntos; assim como as teorias e práticas que interagem entre si.

A professora primeiro destacou o fracasso da alfabetização no Brasil, para isso citou as notas baixas em redação no ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), demonstrando que o insucesso ocorre não só entre as crianças, mas também entre jovens e adultos. Para ela, esse fracasso é gerado no início do processo de aprendizagem de escrita e leitura, que acaba se agravando nas etapas subsequentes. O insucesso dos estudantes se dá, de forma acentuada, entre aqueles que fazem parte de uma população com baixos níveis de leitura, compreensão e interpretação, reflexo este de um ensino que não está formando leitores de “qualidade”.

Em sua exposição, apresenta seu “lugar de fala”, ou seu percurso, que divide em três etapas, que passa pelo ensino nas escolas públicas, docência nas faculdades de educação para a formação de professores (licenciatura em letras e em pedagogia) e depois nos cursos de pós-graduação na faculdade de educação. Magda afirma claramente que seu foco está na formação para trabalhar com a língua escrita na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental. Cita o projeto do qual faz parte em Lagoa Santa (MG). O projeto Alfaletrar, em sua página na internet, apresenta como objetivo:

A palestrante assevera a importância da dicotomia teoria-prática e levanta questionamentos, entre eles, “como o educador deve orientar o processo de aprendizagem do sistema de escrita”. Ela nos adverte que há educadores que têm pensado em ensinar o sistema alfabético de escrita, não em orientar o processo de aprendizagem, o qual ela defende juntamente com as habilidades do uso, que, em sua concepção, fornecem as práticas.

Ao ressaltar as evidências científicas, aponta o método fônico pelo qual a criança precisa aprender as relações fonema-grafema que fazem parte do princípio alfabético; contudo, a orientação do processo de alfabetização não pode ter em seu ensino somente essas relações, pois não se configuram como pré-requisitos para a aprendizagem de leitura. Em outro momento oportuno, Magda já tinha chamado a atenção para essa questão:

Ao citar o trabalho realizado (com outros professores das escolas de Lagoa Santa - MG) a pesquisadora apresenta os princípios que utiliza. Vale destacar que Magda afirma que a concepção de alfabetização e de letramento construída para seu trabalho nas escolas de Lagoa Santa (MG), diverge daquela assumida pelo governo, na Política Nacional de Alfabetização (PNA, 2019[4]). Seus pressupostos para se pensar a alfabetização e o letramento incluem pontos como: quem aprende, o que se aprende e quando se aprende. O primeiro refere-se à criança que integra o grupo de mais de 20 milhões1 de alunos de camadas populares da escola pública; o segundo, à escrita alfabética, que ela sublinha como arbitrária e abstrata; já o “quando se aprende”, relaciona-se à escrita alfabética e seu uso social, este último ponto é impreciso na visão da autora, visto que ocorre ao longo do “desenvolvimento cognitivo e linguístico” da criança.

Em diálogo com seus posicionamentos, a educadora cita autores que apresentam “teorias que identificam fases do desenvolvimento cognitivo e linguístico de apropriação do sistema de escrita alfabética”. Entre os nomes estão Lev Vygotsky, Alexander Luria e Emilia Beatriz Maria Ferreiro Schavi. Magda Soares dá destaque para Emília Ferreiro, que, segundo a conferencista, trouxe evidências importantes para a alfabetização. Mesmo tendo feito sua pesquisa em espanhol, Ferreiro teve seus estudos replicados em outras línguas, inclusive no português do Brasil, o que gerou evidências científicas significativas.

Avançando em sua exposição, Magda Soares fala sobre consciência fônica e consciência silábica. Acerca desses aspectos, levanta posicionamentos que envolvem não só a criança, mas também o professor. Cabe ao educador, para se avançar na alfabetização, ensinar as crianças as (des)igualdades que se apresentam na fala e na escrita. Expondo exemplos concretos, ressalta que a vogal é o fonema que mais se sobressai para as crianças, por isso é apresentada primeiro na escrita inicial. Ainda nesse aspecto, aborda o conhecimento das letras e de como isso faz parte das teorias sobre o desenvolvimento motor. Como exemplo da importância desse aspecto, fala sobre a distinção de letras maiúsculas e minúsculas e de como a criança confunde algumas dessas letras: M e N, F e P, O e Q entre outras são citadas. Consoante Soares, é preciso que o educador, que se propõe a alfabetizar, perceba que essas dificuldades são pertinentes a essa fase inicial do desenvolvimento da criança.

Acerca da proposta de um método fônico ideal, ela traz à luz o fato de que os fonemas não podem ser pronunciados e manifestam uma relação “linguística abstrata”, além de apresentarem contrastes e oposições. Na visão da conferencista, isso se configura como parte preponderante no processo de aprendizagem, assim como o papel do educador (é necessário ter clareza em seu trabalho) na etapa em que precisa auxiliar a criança em alguma tarefa. Essa ajuda está no que Vygotsky (1998[5]) intitula de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP). Parte dos estudos de Vygotsky e do seu método sociointeracionista, a ZDP é um dos conceitos mais difundidos e estudados no que diz respeito ao desenvolvimento da criança. Para Moreira (2009, p. 59 apud SILVA; HAI, 2016, p. 607[6]) a ZDP é a “[...] a distância entre o que a criança sabe no momento (conhecimento atual) e o que poderá vir a saber (conhecimento potencial ou alcançável) com a assessoria da professora, dos pais ou dos cuidadores”.

Quanto ao letramento, Soares apresenta “camadas” que demonstram os avanços que a criança terá ao longo do seu desenvolvimento. Consoante a autora, o letramento vai além da relação grafema-fonema, no qual a criança precisa fazer uso do sistema alfabético para ler e escrever textos2 e aponta os usos no contexto sociocultural em que o aprendiz está inserido, como quesito a não ser descartado. A soma desses pontos é o que ela chama de alfaletrar, ou seja, a junção de alfabetização e letramento.

Ao findar, retoma particularidades de sua exposição. Ratifica que a alfabetização não é uma questão de método e sim de orientação visando ao aprendizado da criança ao longo de todo percurso que envolve o desenvolvimento. Ademais, salienta que o processo de aprendizagem e letramento, feito de maneira simultânea, deverá ser baseado em teorias e evidências científicas; não obstante, essas evidências não devam ser condicionadas somente aos espaços acadêmicos. É preciso que cheguem até as salas de aulas para contribuírem na prática do docente.

Diante de tudo que foi exposto, aprendido e compartilhado pela professora Magda Soares, pode-se atestar que sua conferência foi substancialmente enriquecedora. Além de abordar um campo de estudos específico, alfabetização e letramento, e conceitos muito já difundidos na área de educação no Brasil, a educadora pôs em relevo aspectos que sustentam esse campo. Vale ressaltar a pertinência de debates como esse no Brasil, país no qual há grandes dificuldades em se formar bons leitores.

Referências

  1. ALFABETIZAÇÃO e letramento: teorias e práticas. Conferência apresentada por: Magda Soares [s.l., s.n.], 2020. 1 vídeo (2h 26min 16s). Publicado pelo canal da Associação Brasileira de Linguística https://www.youtube.com/watch?v=UnkEuHpxJ.2020.
  2. ALFALETRAR. O projeto. [S.I.], [2016?] http://www.alfaletrar.org.br/sobre-o-alfaletrar.2020.
  3. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Alfabetização. PNA Política Nacional de Alfabetização/Secretaria de Alfabetização. Brasília: MEC, SEALF, 2019 http://portal.mec.gov.br/images/banners/caderno_pna_final.pdf.2020.
  4. O conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal na educação infantil: apropriações nas produções acadêmicas e documentos oficiais brasileiros Silva Janaina Cassiano, Hai Alessandra Arce. Perspectiva.2016;34(2). CrossRef
  5. SOARES, Magda. “Estou indignidade com o MEC”. Entrevistador: Leonardo Pujol. Desafios da Educação. 8 de abril de 2019 https://desafiosdaeducacao.grupoa.com.br/magda-soares-alfabetizacao-saeb/.2020.
  6. A Formação social da mente Vygotsky L. S. São Paulo: Martins; 1998.