Resumo

O objetivo desta resenha é apresentar a mesa redonda Brasil em crise: desafios semióticos, transmitida no dia 24 de junho de 2020 e organizada pelo evento Abralin Ao Vivo. A mesa reúne proposições da semiótica discursiva a fim de discutir sobre a crise política vivida no Brasil desde 2016. Nesse sentido, a pesquisadora Regina Souza Gomes expõe a crise política e seus efeitos discursivos sobre o fazer científico, tendo como objeto de análise publicações em sites governamentais. Já a pesquisadora Luiza Helena Oliveira da Silva traz considerações acerca da literatura de testemunho de sujeitos que vivenciaram realidades, de certa forma, próximas à crise atual. E, por fim, a pesquisadora Mariana Luz Passos de Barros que tratou a temática da tortura partindo do ponto de vista do torturado – que sofre tal vivência como um acontecimento disfórico – e do ponto de vista do torturador, que promove, ainda hoje, uma campanha explícita a favor da tortura, delimitando novos limites para tal prática.

Texto

A mesa-redonda intitulada Brasil em crise: desafios semióticos[1] tem por objetivo compreender, antes de mais nada, os aspectos discursivos da crise vivenciada hodiernamente no Brasil. Vale ressaltar que a crise tratada aqui não está no âmbito das discussões acerca de pandemia ou coronavírus, mas se refere à situação política propriamente dita e à propagação de seus discursos em questão. Nesse caminho, Ivã Carlos Lopes, mediador da mesa, lembra-nos dos dois principais picos da crise: o suposto golpe de estado de abril de 2016; e os resultados da eleição de outubro de 2018.

De início, é ressaltado pelo moderador da mesa que o aparato teórico e analítico da semiótica se desenvolve na produção de significação, transpassando por etapas de um percurso gerador de sentido. Tal percurso inclui desde um nível fundamental mais simples até as ancoragens temáticas figurativas enunciativas do percurso, passando pelo desenvolvimento dos componentes fundamentais, narrativos, discursivos e os ligados à ação, paixão e cognição. Assim, as falas da mesa apresentaram análises, sob o viés da semiótica francesa, de textos provenientes de diferentes linguagens de manifestação, diferentes práticas, esferas discursivas e de diferentes meios de circulação, tomando-se distintos pontos da crise como objeto de análise.

A primeira pesquisadora a expor seus respectivos estudos é Regina Souza Gomes (UFF). Gomes inicia a sua fala apresentando seu trabalho, intitulado A crise do valor da ciência: entre a exclusão e a participação, que tem com objeto de análise discursos de personalidades políticas e científicas provenientes de textos da mídia online, incluindo sites, reportagens digitais, editais e cartas oficiais. Destacaremos algumas delas.

De um lado, há discursos de valorização da ciência, de outro, o descrédito que as instituições científicas vem sofrendo do governo e de uma parte da sociedade. Gomes aponta que em meio aos veículos de circulação os quais estão localizados determinados discursos, criam-se uma rede relacional entre o saber científico e outros saberes, a exemplo do saber experiencial, individual, coletivo, do senso comum e, até, dos dogmas. Tais relações ora se opõem, ora se aproximam e se sobrepõem. Assim, vale ressaltar que, na análise de Gomes, as relações de junção e de disjunção ocorrem de forma gradual nos textos.

A partir disso, a conferencista levanta o seguinte questionamento: como, então, os valores são construídos nesses textos? Nesse sentido, Gomes se apoia aos preceitos de Zilbelberg, no que concerne às operações sintáticas de mistura e triagem. Para entendermos melhor tais dispositivos, Gomes afirma que a lógica da triagem leva a exclusão e exclusividade, ou seja, aos valores de absoluto. Já a operação de mistura, por sua vez, faz surgir os valores do universo, correspondentes a inclusão e distribuição. Ficará mais claro no recorte da análise a seguir.

Gomes destaca, a priori, o discurso de duas personalidades políticas, o do ex-ministro Gilmar Terra e o da atual ministra Damares Alves, discursos os quais desconsideram por completo a competência do fazer científico ao valorizarem, acima da ciência, os valores pessoais, ideológicos e do senso comum, como veremos a seguir: a) Gilmar Terra, certa vez, considerou, por intermédio de suas impressões pessoais e ideológicas, que um estudo de quatro anos da Fio Cruz sobre usuários de drogas tinha como intuito defender a liberação das drogas, vale ressaltar que a pesquisa se baseava em uma estatística figurativizada por 16 mil pessoas e envolvendo mais de quinhentos pesquisadores; b) Damares Alves, por sua vez, considera que é a fé que deve ocupar o domínio da suficiência científica, ao afirmar que a igreja evangélica perdeu espaço na ciência, ou seja, uma vez sugerido a substituição dos protagonistas do fazer científico, faz da atual ciência vazia de seu valor intrínseco. Nesses casos, Gomes afirma que há a prevalência e certa indiferenciação dos valores do senso comum, da fé com os valores cognitivos científicos, obtendo assim, uma mistura extrema, isto é, a perda da especificidade do valor científico.

Contrariamente aos discursos dos ministros, em um artigo do jornal da UNICAMP, o pesquisador Peter Schulz (2020[2]) distingue o saber científico, que valoriza o método da construção de conhecimento – com o saber corriqueiro, o valor do conhecimento já acumulado. Nesse caso, Gomes afirma que se realiza uma operação de triagem de grandezas para a constituição do que é e do que não é científico, enquanto, concomitantemente, ao tratar do processo investigativo, é mistura da colocação e circulação do conhecimento, a participação coletiva que é chamada a compor seu sentido. Em sua fala, Gomes analisa, ainda, sob a mesma metodologia, editais de agências de fomento à pesquisa e uma carta aberta dirigida ao Ministro Marcos Torres, do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTIC).

Em suma, o trabalho de Gomes resulta na reflexão de que enquanto os discursos de personalidades políticas costumam estar mais ligados às operações em excesso de mistura, os discursos de entidades científicas estão em excesso para triagem, promovendo em ambos, de forma geral, certa desvalorização do fazer científico. Além disso, Gomes conclui que, ao passo em que se desmerece o valor científico, valoriza-se outros discursos providos de saber a partir de intenções e senso comum que, desta forma, vão se tornando cada vez mais tônicos. Contra isso, Gomes afirma que o princípio de participação e a mistura dos iguais, as trocas, o respeito e a valorização das diversas linhas teóricas parecem ser o ideal a ser alcançado e, para isso, talvez a resolução esteja em buscar um melhor diálogo entre os sujeitos, melhorar a formação científica da população e mostrar a ciência como fator essencial para o desenvolvimento pessoal e social da humanidade. A palavra é passada à segunda conferencista.

A segunda conferencista, Luiza Helena Oliveira da Silva, com seu trabalho intitulado Em tempos de crise: a resistência do sentido, traz algumas considerações da semiótica sobre a literatura de testemunho de autores nascidos no estado do Tocantins e que passaram sobre o período de ditadura. Além disso, vale frisar que os textos analisados são de autoria de sujeitos que vivenciaram, inclusive, a Guerrilha do Araguaia.

A partir disso, ao falar de seu objeto de estudo, Silva nos apresenta acerca do que se traduz a literatura de testemunhos e o que a classifica como tal no cenário atual de produção literária. Nesse sentido, Silva afirma que o gênero literário em questão emerge a partir da necessidade e urgência de se narrar a experiência do acontecimento, já que se faz necessário narrar para dar sentido ao acontecimento.

Diante disso, Silva nos insere na perspectiva da semiótica tensiva ao tratar da relação do sujeito com acontecimento segundo Zilbelberg (2011, p. 25[3]):

Em nossa visão, a inteligibilidade e a solidez das relações verticais promovem a preeminência do andamento: a precipitação, rio caso da descendência, e o alentecimento, no caso da ascendência, tornam os sujeitos da descendência - arrebatado pelo tumulto do acontecimento - e da ascendência como que alheios um ao outro. De um sujeito do estupor, não costumamos dizer familiarmente que é preciso esperar até que ele "volte a si"? Dessa maneira; a descendência e a ascendência apresentam-se como as duas esferas disjuntas da existência semiótica imediata: a vivência, ou seja, o vaivém incessante entre essas duas esferas, põe o sujeito à prova.

A partir dos preceitos de Zilbelberg, Silva insere a noção de acontecimento como fator arrebatador dos sujeitos da descendência que, continuadamente, vivem o vaivém das duas esferas, deixando-os instáveis. Vale ressaltar aqui, que ao tratarmos dos termos tensivos ascendência e descendência, associamos, respectivamente, ao inesperado do acontecimento e ao efeito atordoante da experiência que aniquila a duração, fazendo com que, o sujeito se encontre, por fim, em um estado de desorientação modal que, conforme Silva, possui sua integralidade ameaçada, já que sua totalidade foi afetada. A partir disso, Silva faz uma breve referência às experiências vividas no atual cenário brasileiro, tanto no que se diz à crise política quanto às vivências do período pandêmico, associando-os também à noção tensiva de acontecimento.

Em suma, o trabalho apresentado por Silva está enfoque à literatura e ao gênero de testemunho. A partir disso, Silva justifica seu trabalho em composição à temática da mesa, considerando que além de seu objeto estar fortemente ligado à memória, tais literaturas abordam fortemente questões políticas de ditadura, vivenciadas por sujeitos que consideram as suas experiências disfóricas como inevitáveis ao cenário político brasileiro, independentemente do tempo, ou seja, há uma correlação às narrativas hodiernas. Por isso, Silva cita: “o círculo perfeito: as tiranias no Brasil, ora nos perseguem, ora se anunciam. Ora vestem fardas, ora envergam togas. Ainda não conseguimos contar e sepultar os mortos daquela que anoiteceu o país [...]” (TIERRA, 2019, p. 11[4]). A palavra é passada para a terceira conferencista.

Mariana Luz Pessoa de Barros, com o trabalho intitulado A banalização da tortura, introduz sua apresentação afirmando que sua análise tem como objeto conteúdos oriundos do ciberdiscurso, mais precisamente, de memes e publicações da internet. Assim sendo, Barros traça sua análise, inicialmente, tendo como ponto de vista a enunciação de um sujeito torturado.

A partir do relato de um sujeito torturado, publicado pela Comissão Nacional da Verdade em 2013, Barros insere a concepção de acontecimento, segundo Zimbelberg (2011???), afirmando ser a tortura um elemento que arrebata o sujeito, nesse caso negativamente, de tal forma que o sujeito se vê dominado pela experiência vivida. Vale ressaltar, que tal experiência é tão chocante ao sujeito que, em um primeiro momento, sente-se dificuldade de compreender o que o ocorreu.

Por outro lado, a partir do discurso enunciado por um coronel em uma entrevista em 2014, Barros reflete sobre a tortura partindo do ponto de vista do sujeito torturador, afirmando que a tortura ocorre sob o controle da inteligibilidade com uma certa racionalidade que se organiza a fim de torturar e de produzir no outro a mais extrema dor física. A tortura nesses discursos é utilizada como uma forma de manipulação por meio da qual, o torturador procura fazer/fazer, isto é, fazer o sujeito torturado confessar algo.

Além disso, Barros analisa, ainda, os discursos em que o atual presidente assume também o papel temático de torturador, incentivando-a e intensificando o que já é intenso, já que “afirmar-se favorável à tortura já produz um impacto considerável na sociedade” (BARROS, 2019, p. 504[5]). Vale ressaltar ainda, que a cada discurso proferido pelo presidente, ocorre-se um deslocamento do limite, pois, intensifica-se “[...] cada vez mais, aquilo que já parecia o extremo do intenso” (BARROS, 2019, p. 504[5]). Com todos esses fatos e mais, o discurso de Bolsonaro, conforme Barros, é tido como um acontecimento pois, “opera a intensificação do intenso e ainda se organiza de modo concessivo, o que se traduz na “captura” do enunciatário – quer esse enunciatário o avalie positivamente ou não – por meio da emoção, dos afetos, do sensível” (BARROS, 2019, p. 505[5]). A partir disso, Barros analisa textos-memes que foram enunciados como respostas a favor às falas do presidente.

Tais memes, ainda que possuem suas idiossincrasias e seus distintos graus de impacto, promovem, de forma predominante, atenuação e minimização da tortura, em outras palavras, reduz-se a capacidade de comoção, impacto, e sua aparição deixa de ser vista como algo que assusta, tornando-se, assim, algo corriqueiro e comum. Barros afirma, ainda, que a propagação dos memes contribui, inclusive, para a banalização da tortura.

Por isso, a tortura uma vez banalizada, torna-se, também, mais aceita, portanto, o trabalho apresentado por Barros se faz necessário tendo em vista que discursos como os apresentados, promotores de tortura e amplificadores da noção de limite, são cada vez mais recorrentes nos veículos de informação e comunicação no país.

A mesa chega ao fim com discussões acerca de perguntas e colocações feitas no chat pelos espectadores da live. Dentre tais questões apontadas, vale destacar: a comparação entre os discursos da ditadura de 1964 com os discursos hodiernos; comparação entre a literatura de testemunho e a literatura de auto ficção; e, discussões sobre a construção de um discurso no âmbito escolar a fim de promover para os alunos do ensino médio uma percepção clara dos discursos fascistas hodiernos. Portanto, a mesa foi muito relevante para os estudos semióticos por conseguir discutir, sob olhos sensíveis, um assunto duro, urgente, crítico e atual brasileiro.

Referências

  1. BRASIL em crise: desafios semióticos. Conferência apresentada por Ivã Carlos Lopes, Regina Souza Gomes, Mariana Luz Pessoa de Barros, Luiza Helena Oliveira da Silva. [S.I., s.n], 2020. 1 vídeo (2h 14min 14s). Publicado pelo canal da Associação Brasileira de Linguística https://www.youtube.com/watch?v=e_vyE_Q5g18.2020.
  2. Os sentidos da tortura: uma análise semiótica das eleições presidenciais de 2018 Barros L. M. P. Discurso & Sociedad.2019;13(3).
  3. COVID-19: ciência não é opinião, é conhecimento Schulz P. Jornal da UNICAMP.2020.
  4. Pesadelo: narrativas de anos de chumbo Tierra P. São Paulo: Automia Literária: Fundação Perseu Abramo; 2019.
  5. Elementos de Semiótica Tensiva Zilbelberg C. São Paulo: Ateliê Editorial; 2011.