Resumo

A conferência de Margarida Salomão aborda a atual guerra, levada a cabo por uma militância anticientífica no Brasil e no mundo, contra as Ciências Humanas e Sociais, e o papel dos Estudos da Linguagem neste cenário. Para tanto, a pesquisadora assume as seguintes perspectivas: as pesquisas realizadas por Fillmore, Lakoff, Marcuschi e Pinker, no campo dos Estudos da Linguagem, e os questionamentos de Foucault e Tomasello, no campo da Cultura e da Política. Tais referências são empregadas em uma análise calcada em dados empíricos da realidade contemporânea. Apresenta-se um ponto de vista otimista, que coloca a vitória das Humanidades como um caminho a ser alcançado por meio da reflexão interdisciplinar, colocando as Humanidades, os Estudos da Linguagem, as Ciências Biológicas e a Política em diálogo.

Texto

Instaurar um ponto de vista gerador. É dessa lição fundamental, de Ferdinand de Saussure, que parte a Professora Dra. Margarida Salomão em sua conferência na programação da Abralin Ao Vivo - Linguistics Online proferida no dia 30 de maio de 2020[1]. Tal ponto de vista anuncia quem é Salomão: uma sobreposição de frames entre a linguista, a pesquisadora, a professora e a militante política. A acomodação desses segmentos como disparadores da reflexão apresenta como subjacente uma dimensão política dos frames, uma vez que eles estruturam a identidade dos sujeitos. É deste lugar que a linguista-militante nos mostra uma visão otimista, alicerçada em ideias iluministas, do papel dos Estudos da Linguagem, especialmente dos quadros teóricos desenvolvidos por Lakoff, Fillmore, Marcuschi, Pinker e Tomasello, em defesa das Humanidades na guerra que vem sendo promovida contra elas por uma militância anticientífica.

Para compor esse cenário, a conferência organizou-se em dois momentos: o primeiro dedicou-se à discussão a respeito da guerra contra as ciências e a cultura e, mais especificamente, contra as Ciências Humanas e Sociais; o segundo destinou-se à demonstrar as razões pelas quais venceremos tal conflito, lançando mão do aporte teórico dos Estudos da Linguagem. No conjunto, somos brindados por uma perspectiva interdisciplinar, teórica e politicamente arrojada desde a sua gênese, que aponta caminhos concretos para a defesa da democracia no Brasil e no mundo.

O século XXI apresenta a emergência de convicções populistas, marcadamente nacionalistas e autoritárias, por todo o mundo. O quadro configura-se pela prevalência do senso comum em detrimento do conhecimento científico. Em decorrência disso, ideias como a negação das mudanças climáticas ou a aversão às políticas de vacinação despontam como imperativos dessa irracionalidade crescente. Nesse sentido, a “teoria da fila”, de Nancy Fraser, serve à Salomão para esboçar um entendimento de tal contexto. Nessa concepção, homens brancos de classe baixa aderem às teses reacionárias porque sentem-se ameaçados pelas minorias sociais, que, supostamente, tirariam suas posições na “fila social” de acesso aos benefícios e ao trabalho. No entanto, ao invés de propor uma problematização da constituição da fila, aqueles que supostamente ameaçam a hegemonia masculina branca são considerados como inimigos.

Esse movimento está compreendido no que é denominado pela linguista-militante como “furtiva evolução do capitalismo”. O conceito de biopolítica, de Foucault, sustenta a compreensão de que há uma metamorfose neoliberal em curso, que reenquadra a existência do sujeito, convertendo-o em capital humano. Assim, Margarida Salomão defende que se observe o neoliberalismo como uma epistemologia e uma axiologia, dotadas de aparato conceitual próprio que orienta objetivos bem definidos. Um exemplo disso é a substituição de frames como o de “trabalhador” pelo de “colaborador”, o que conduz a um apagamento da luta de classes.

Isso posto, somos alçados a pensar no reflexo provocado nas universidades públicas brasileiras, que se tornam fábricas de formação do capital humano, pois a visão de educação implicada prioriza as demandas do mercado. Nesse ponto, os frames de professora universitária e militante entrelaçam-se ao rememorar o projeto Future-se, em tramitação no Brasil, que coloca na cena, justamente, a formação empreendedora, a flexibilidade de currículos, a responsabilização dos graduandos pelos seus próprios percursos e a ascensão do ensino à distância. Evidentemente, isso provoca um colapso na estrutura das universidades, ocasionando a reestruturação do trabalho docente, das atividades pedagógicas e do investimento em pesquisa.

A partir daí, Salomão desenvolve sua proposição de que as Ciências Humanas e Sociais sairão vitoriosas do conflito. Para isso, recorre ao efeito catraca da acumulação cultural, de Tomasello. Nesse entendimento, os humanos apresentam um traço distintivo, que é a capacidade de transmitir conhecimentos intergeracionalmente. A transmissão pressupõe que haja relações de aprendizagem e cooperação, o que propicia a evolução cultural da espécie humana. Logo, a pandemia da COVID-19 acentua essas condições, porque requer que os campos da ciência cooperem em busca de respostas.

Intrinsecamente ligada ao efeito catraca e à máxima de que não há muros entre as ciências ditas como básicas e os avanços tecnológicos, Margarida dá centralidade aos Estudos da Linguagem para a superação da guerra contra as Humanidades. Nesse sentido, a pesquisadora adota as seguintes perspectivas:

  • a Semântica dos Anguladores/Hedges e a Lógica Difusa, de Lakoff, que nos mostram a importância dos anguladores e da modalização das enunciações, bem como a capacidade do falante operar sobre a própria escalaridade expressa na língua, que dita os valores das grandezas e a veracidade dos fatos enunciados;
  • a Semântica Cognitiva e a Semântica de Frames, de Fillmore, que concebem o significado linguístico como relativo às cenas conceituais evocadas segundo uma certa perspectiva. A Semântica de Frames propõe que as relações lexicais e sintagmáticas sejam entendidas como impossíveis de serem descritas no domínio estritamente linguístico, por isso, transitam entre o domínio da cognição, da comunicação e da cultura. Logo, assumem-se os frames como estruturas conceituais da memória pessoal e social, oriundos da esquematização da experiência humana, que cruzam semântica e pragmática de forma essencial;
  • a Linguística Marcuschiana, que é constituída pela multiplicidade e pela interdisciplinaridade, dadas as distintas cenas de trabalho, os atores nas cenas comunicativas e as negociações propostas;
  • a Linguística Cognitiva, de Steven Pinker, associada às pesquisas sociocognitivas, de Tomasello, que fornece subsídios para o entendimento da filogênese e da evolução da linguagem, da cultura e da inteligência humana.
  • Ao instaurar tal quadro, que contempla a heterogeneidade da Linguística, Salomão ilustra o debate com o projeto FrameNet, laboratório de Linguística Computacional com base na Semântica de Frames e na Gramática das Construções. Por esse viés, a linguista afirma que Fillmore não havia pensado na criação de um projeto tal no início de seus estudos, no entanto, seu trabalho expande-se, demonstrando que os Estudos da Linguagem podem promover conhecimentos interdisciplinares, mesmo que de natureza teórica, reafirmando a tese defendida. Assim, ligada às possibilidades de contribuição e à interface dos Estudos da Linguagem, a conferencista relembra a conjuntura brasileira, à qual tece uma crítica por regulamentar a iniciação científica, em que as Humanidades só podem receber bolsas de incentivo se estiverem relacionadas ao desenvolvimento tecnológico, limitando o fazer científico.

    O argumento interdisciplinar tem seu ponto de chegada em Pinker e Tomasello. Desse modo, ancorada na perspectiva sociocognitiva, a linguista demonstra que o desenvolvimento e a evolução filogenética da linguagem, da cultura e da espécie humana decorrem de um conjunto de fatores distintivos:

  • a cooperação e o altruísmo, no e para o desenvolvimento da linguagem e da cognição;
  • a capacidade de relacionar conhecimentos, do concreto ao abstrato;
  • o efeito catraca da acumulação cultural, viabilizado especialmente pela escrita, uma das mais importantes revoluções tecnológicas por possibilitar o conhecimento intergeracional.
  • Logo, Salomão lança sua leitura de tais princípios, propondo que os seres humanos são capazes de cooptar frames e compreender conhecimentos já consolidados, ampliando, destarte, a sua capacidade de intervenção no mundo e desatando as limitações, sejam físicas ou sociais. Diante disso, a escrita, que tem relação intrínseca com a política, torna-se uma aliada para a superação de tais conflitos, por favorecer não apenas a narrativa do indivíduo, mas também a da memória social. A militante inspira-se no Renascimento e recorda-se que tal período reclama a expansão do acesso à escrita, personificado na figura da imprensa, da universidade e da ciência. No entanto, na configuração brasileira, vemos um cenário distópico em que se suprime o valor da cooperação e do altruísmo, visto que a biopolítica conduz o sujeito, agora empreendedor, a reinventar sua própria sobrevivência. Tal inversão coloca-se na medida em que se entende o conhecimento como propriedade privada na lógica neoliberal vigente.

    Entre distopias e aspirações, a conferencista finaliza sua exposição com uma tese esperançosa que intitula um epílogo iluminista: não podemos privatizar a linguagem, o ser humano é capaz de aperfeiçoar-se e a busca da felicidade é, antes de tudo, um objetivo político. Enfim, em uma trajetória heteróclita, a conferência resenhada nos brinda com uma rica leitura sobre o Brasil, as Ciências Humanas e a centralidade dos Estudos da Linguagem, percurso esse que só poderia ser feito por alguém da envergadura de Margarida Salomão.

    Referências

    1. A guerra contra as Humanidades e o que podem nos ensinar os Estudos da Linguagem. Conferência apresentada por Maria Margarida Martins Salomão [s.l., s.n.], 2020. 1 vídeo (1h 41min 34s). Publicado pelo canal da Associação Brasileira de Linguística https://www.youtube.com/watch?v=qY6Jt9oqRfw&t=4043s.2020.