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<publisher-name>Associação Brasileira de Linguística</publisher-name>
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        <article-title>Entre <italic id="italic-469dfdc18b9d23ef7661600144fb3388">frames</italic> e pontos de vista convergentes</article-title>
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      <issue-title>Resenhas Abralin ao Vivo</issue-title>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">A conferência de Margarida Salomão aborda a atual guerra, levada a cabo por uma militância anticientífica no Brasil e no mundo, contra as Ciências Humanas e Sociais, e o papel dos Estudos da Linguagem neste cenário. Para tanto, a pesquisadora assume as seguintes perspectivas: as pesquisas realizadas por Fillmore, Lakoff, Marcuschi e Pinker, no campo dos Estudos da Linguagem, e os questionamentos de Foucault e Tomasello, no campo da Cultura e da Política. Tais referências são empregadas em uma análise calcada em dados empíricos da realidade contemporânea. Apresenta-se um ponto de vista otimista, que coloca a vitória das Humanidades como um caminho a ser alcançado por meio da reflexão interdisciplinar, colocando as Humanidades, os Estudos da Linguagem, as Ciências Biológicas e a Política em diálogo.</p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Resumen</title>
        <p id="paragraph-9ea35d3ae857109840741f2b12c03440">La conferencia de Margarida Salomão trata de la actual guerra, llevada a cabo por una militancia anticientífica en Brasil y en el mundo, contra las Ciencias Humanas y Sociales, y el rol de los Estudios del Lenguaje en ese escenario. Para eso, la investigadora asume las siguientes perspectivas: las investigaciones realizadas por Fillmore, Lakoff, Marcuschi y Pinker, en el campo de los los Estudios del Lenguaje, y los cuestionamientos de Foucault y Tomasello, en el campo de la Cultura y de la Política. Tales referencias son empleadas para un análisis basado en datos empíricos de la realidad contemporánea. Se presenta un punto de vista optimista, que pone la victoria de las Humanidades como un camino a ser alcanzado por medio de la reflexión interdisciplinaria, poniendo las Humanidades, los Estudios del Lenguaje, las Ciencias Biológicas y la Política en diálogo.</p>
      </abstract>
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        <kwd content-type="">Humanidades</kwd>
        <kwd content-type="">Estudos da Linguagem</kwd>
        <kwd content-type="">Interdisciplinaridade</kwd>
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    <sec id="heading-79e4d4387473d10b38aff632a025a59c">
      <title>Texto</title>
      <p id="paragraph-8570ffaa175ed53d9621d911df676486">Instaurar um ponto de vista gerador. É dessa lição fundamental, de Ferdinand de Saussure, que parte a Professora Dra. Margarida Salomão em sua conferência na programação da Abralin Ao Vivo - <italic id="italic-1">Linguistics Online</italic> proferida no dia 30 de maio de 2020<xref id="xref-44541c406a05a2475888d0016e36d8cc" ref-type="bibr" rid="webpage-ref-7db469295c672a27e76c93740d0c8943">[1]</xref>. Tal ponto de vista anuncia quem é Salomão: uma sobreposição de <italic id="italic-2">frames</italic> entre a linguista, a pesquisadora, a professora e a militante política. A acomodação desses segmentos como disparadores da reflexão apresenta como subjacente uma dimensão política dos <italic id="italic-3">frames</italic>, uma vez que eles estruturam a identidade dos sujeitos. É deste lugar que a linguista-militante nos mostra uma visão otimista, alicerçada em ideias iluministas, do papel dos Estudos da Linguagem, especialmente dos quadros teóricos desenvolvidos por Lakoff, Fillmore, Marcuschi, Pinker e Tomasello, em defesa das Humanidades na guerra que vem sendo promovida contra elas por uma militância anticientífica.</p>
      <p id="paragraph-2">Para compor esse cenário, a conferência organizou-se em dois momentos: o primeiro dedicou-se à discussão a respeito da guerra contra as ciências e a cultura e, mais especificamente, contra as Ciências Humanas e Sociais; o segundo destinou-se à demonstrar as razões pelas quais venceremos tal conflito, lançando mão do aporte teórico dos Estudos da Linguagem. No conjunto, somos brindados por uma perspectiva interdisciplinar, teórica e politicamente arrojada desde a sua gênese, que aponta caminhos concretos para a defesa da democracia no Brasil e no mundo. </p>
      <p id="paragraph-3">O século XXI apresenta a emergência de convicções populistas, marcadamente nacionalistas e autoritárias, por todo o mundo. O quadro configura-se pela prevalência do senso comum em detrimento do conhecimento científico. Em decorrência disso, ideias como a negação das mudanças climáticas ou a aversão às políticas de vacinação despontam como imperativos dessa irracionalidade crescente. Nesse sentido, a “teoria da fila”, de Nancy Fraser, serve à Salomão para esboçar um entendimento de tal contexto. Nessa concepção, homens brancos de classe baixa aderem às teses reacionárias porque sentem-se ameaçados pelas minorias sociais, que, supostamente, tirariam suas posições na “fila social” de acesso aos benefícios e ao trabalho. No entanto, ao invés de propor uma problematização da constituição da fila, aqueles que supostamente ameaçam a hegemonia masculina branca são considerados como inimigos. </p>
      <p id="paragraph-4">Esse movimento está compreendido no que é denominado pela linguista-militante como “furtiva evolução do capitalismo”. O conceito de biopolítica, de Foucault, sustenta a compreensão de que há uma metamorfose neoliberal em curso, que reenquadra a existência do sujeito, convertendo-o em capital humano. Assim, Margarida Salomão defende que se observe o neoliberalismo como uma epistemologia e uma axiologia, dotadas de aparato conceitual próprio que orienta objetivos bem definidos. Um exemplo disso é a substituição de <italic id="italic-4">frames </italic>como o de “trabalhador” pelo de “colaborador”, o que conduz a um apagamento da luta de classes. </p>
      <p id="paragraph-5">Isso posto, somos alçados a pensar no reflexo provocado nas universidades públicas brasileiras, que se tornam fábricas de formação do capital humano, pois a visão de educação implicada prioriza as demandas do mercado. Nesse ponto, os <italic id="italic-5">frames</italic> de professora universitária e militante entrelaçam-se ao rememorar o projeto Future-se, em tramitação no Brasil, que coloca na cena, justamente, a formação empreendedora, a flexibilidade de currículos, a responsabilização dos graduandos pelos seus próprios percursos e a ascensão do ensino à distância. Evidentemente, isso provoca um colapso na estrutura das universidades, ocasionando a reestruturação do trabalho docente, das atividades pedagógicas e do investimento em pesquisa.</p>
      <p id="paragraph-6">A partir daí, Salomão desenvolve sua proposição de que as Ciências Humanas e Sociais sairão vitoriosas do conflito. Para isso, recorre ao efeito catraca da acumulação cultural, de Tomasello. Nesse entendimento, os humanos apresentam um traço distintivo, que é a capacidade de transmitir conhecimentos intergeracionalmente. A transmissão pressupõe que haja relações de aprendizagem e cooperação, o que propicia a evolução cultural da espécie humana. Logo, a pandemia da COVID-19 acentua essas condições, porque requer que os campos da ciência cooperem em busca de respostas. </p>
      <p id="paragraph-7">Intrinsecamente ligada ao efeito catraca e à máxima de que não há muros entre as ciências ditas como básicas e os avanços tecnológicos, Margarida dá centralidade aos Estudos da Linguagem para a superação da guerra contra as Humanidades. Nesse sentido, a pesquisadora adota as seguintes perspectivas:</p>
      <p id="paragraph-8" />
      <list list-type="bullet" id="list-8e89bb9cf2ace8a03ae7c29bd146c3d6">
        <list-item>
          <p>a Semântica dos Anguladores/<italic id="italic-6">Hedges</italic> e a Lógica Difusa, de Lakoff, que nos mostram a importância dos anguladores e da modalização das enunciações, bem como a capacidade do falante operar sobre a própria escalaridade expressa na língua, que dita os valores das grandezas e a veracidade dos fatos enunciados;</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-10" />
      <list list-type="bullet" id="list-ba2efd9c45d1c5803e0e3d4861c077dc">
        <list-item>
          <p> a Semântica Cognitiva e a Semântica de <italic id="italic-7">Frames</italic>, de Fillmore, que concebem o significado linguístico como relativo às cenas conceituais evocadas segundo uma certa perspectiva. A Semântica de<italic id="italic-8"> Frames</italic> propõe que as relações lexicais e sintagmáticas sejam entendidas como impossíveis de serem descritas no domínio estritamente linguístico, por isso, transitam entre o domínio da cognição, da comunicação e da cultura. Logo, assumem-se os <italic id="italic-9">frames</italic> como estruturas conceituais da memória pessoal e social, oriundos da esquematização da experiência humana, que cruzam semântica e pragmática de forma essencial; </p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-12" />
      <list list-type="bullet" id="list-523b848090dba7e1dd784dd050431ee9">
        <list-item>
          <p>a Linguística <italic id="italic-10">Marcuschiana</italic>, que é constituída pela multiplicidade e pela interdisciplinaridade, dadas as distintas cenas de trabalho, os atores nas cenas comunicativas e as negociações propostas;</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-14" />
      <list list-type="bullet" id="list-c494c71e8efd7f9129980720b6022de8">
        <list-item>
          <p>a Linguística Cognitiva, de Steven Pinker, associada às pesquisas sociocognitivas, de Tomasello, que fornece subsídios para o entendimento da filogênese e da evolução da linguagem, da cultura e da inteligência humana. </p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-16" />
      <p id="paragraph-17" />
      <p id="paragraph-18">Ao instaurar tal quadro, que contempla a heterogeneidade da Linguística, Salomão ilustra o debate com o projeto FrameNet, laboratório de Linguística Computacional com base na Semântica de <italic id="italic-11">Frames</italic> e na Gramática das Construções. Por esse viés, a linguista afirma que Fillmore não havia pensado na criação de um projeto tal no início de seus estudos, no entanto, seu trabalho expande-se, demonstrando que os Estudos da Linguagem podem promover conhecimentos interdisciplinares, mesmo que de natureza teórica, reafirmando a tese defendida. Assim, ligada às possibilidades de contribuição e à interface dos Estudos da Linguagem, a conferencista relembra a conjuntura brasileira, à qual tece uma crítica por regulamentar a iniciação científica, em que as Humanidades só podem receber bolsas de incentivo se estiverem relacionadas ao desenvolvimento tecnológico, limitando o fazer científico. </p>
      <p id="paragraph-19">O argumento interdisciplinar tem seu ponto de chegada em Pinker e Tomasello. Desse modo, ancorada na perspectiva sociocognitiva, a linguista demonstra que o desenvolvimento e a evolução filogenética da linguagem, da cultura e da espécie humana decorrem de um conjunto de fatores distintivos: </p>
      <p id="paragraph-20" />
      <list list-type="bullet" id="list-75e9c613eb6236b477503694ff7575ec">
        <list-item>
          <p>a cooperação e o altruísmo, no e para o desenvolvimento da linguagem e da cognição;</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-22" />
      <list list-type="bullet" id="list-018b4e2e97fb7116249a92d0a3e411ce">
        <list-item>
          <p>a capacidade de relacionar conhecimentos, do concreto ao abstrato; </p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-24" />
      <list list-type="bullet" id="list-2a31e8db5d0c0961394072f797a6f1d1">
        <list-item>
          <p>o efeito catraca da acumulação cultural, viabilizado especialmente pela escrita, uma das mais importantes revoluções tecnológicas por possibilitar o conhecimento intergeracional. </p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-26" />
      <p id="paragraph-28">Logo, Salomão lança sua leitura de tais princípios, propondo que os seres humanos são capazes de cooptar <italic id="italic-12">frames</italic> e compreender conhecimentos já consolidados, ampliando, destarte, a sua capacidade de intervenção no mundo e desatando as limitações, sejam físicas ou sociais. Diante disso, a escrita, que tem relação intrínseca com a política, torna-se uma aliada para a superação de tais conflitos, por favorecer não apenas a narrativa do indivíduo, mas também a da memória social. A militante inspira-se no Renascimento e recorda-se que tal período reclama a expansão do acesso à escrita, personificado na figura da imprensa, da universidade e da ciência. No entanto, na configuração brasileira, vemos um cenário distópico em que se suprime o valor da cooperação e do altruísmo, visto que a biopolítica conduz o sujeito, agora empreendedor, a reinventar sua própria sobrevivência. Tal inversão coloca-se na medida em que se entende o conhecimento como propriedade privada na lógica neoliberal vigente. </p>
      <p id="paragraph-29">Entre distopias e aspirações, a conferencista finaliza sua exposição com uma tese esperançosa que intitula um epílogo iluminista: não podemos privatizar a linguagem, o ser humano é capaz de aperfeiçoar-se e a busca da felicidade é, antes de tudo, um objetivo político. Enfim, em uma trajetória heteróclita, a conferência resenhada nos brinda com uma rica leitura sobre o Brasil, as Ciências Humanas e a centralidade dos Estudos da Linguagem, percurso esse que só poderia ser feito por alguém da envergadura de Margarida Salomão.</p>
    </sec>
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          <article-title>A guerra contra as Humanidades e o que podem nos ensinar os Estudos da Linguagem. Conferência apresentada por Maria Margarida Martins Salomão [s.l., s.n.], 2020. 1 vídeo (1h 41min 34s). Publicado pelo canal da Associação Brasileira de Linguística</article-title>
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