Resumo

A (não) utilização das Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDIC) no ensino sempre foi um tema muito debatido em cursos de formação inicial e continuada de professores. No contexto da pandemia e do necessário isolamento social, o uso das TDIC aplicadas ao ensino tem recebido relevo, com diferentes prismas e discussões não consensuais. Diante disso, objetivamos, através da presente resenha, discutir e destacar  algumas das questões levantadas durante a conferência “Tecnologia digital em época de pandemia”, ministrada pela professora Vera Menezes, que explana acerca da inserção da tecnologia digital em sociedade e da utilização dos recursos interacionais disponíveis na Web 2.0 no ensino, antes, durante e pós-pandemia.

Texto

A conferência intitulada de Tecnologia digital em época de pandemia[1] foi ministrada por Vera Menezes, professora emérita da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos (UFMG) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

A presente resenha objetiva descrever e analisar as principais explanações realizadas durante a palestra, que teve duração de 1h e 30 min. Com o intuito de facilitar a localização de algumas observações, neste texto, utilizaremos como guia a cronometragem do tempo no qual o trecho a ser destacado foi pronunciado.

Ressalta-se que a palestra ocorreu em uma plataforma online, com a participação síncrona da assistência, e fez parte do evento Abralin Ao Vivo, composto por diversas palestras e mesas-redondas, em formato de lives, atendendo a uma nova necessidade formativa em tempos de pandemia, aspecto esse que já dialoga com a temática tratada pela autora.

Discute-se, na live, o atual contexto de necessárias mudanças estruturais na organização da sociedade, com impactos na reestruturação produtiva, econômica, política e, inclusive, no âmbito das relações interpessoais. Diante desse cenário, o debate referente ao contexto educativo encontra-se em relevo. Discussões não consensuais são tecidas quando se trata do uso das tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC) aplicadas ao ensino, que se constituem como um mecanismo que alarga, ainda mais, o fosso entre as classes sociais, tornando a educação um serviço disponível apenas para quem pode pagar (ou conectar).

A Teoria do Caos e da Complexidade e a Teoria da Difusão e Inovação (Innovation Diffusion Theory – IDT) alicerçam teoricamente a palestra. Segundo a IDT, proposta por Rogers (1983)[2], a inovação é compreendida como uma ideia prática do objeto percebido como novo. Nessa linha, inovação não se reduz à invenção de uma nova tecnologia, mas se estende para abarcar novas formas de uso e ressignificação de objetos dados. A título de exemplo, as estratégias de cumprimento sem o toque das mãos no contexto pandêmico é uma inovação no âmbito da interação social.

Na esteira disso, a linguagem também acompanha o processo de inovação. Vera Menezes esclarece que Gleick (2011)[3] evidencia o exemplo do alfabeto que “se espalhou por contágio, a nova tecnologia era tanto vírus, como seu vetor de transmissão” (09:41), metáfora que dialoga diretamente com o contexto pandêmico atual. A autora explica a ressignificação da oralidade, cujo destaque se dá em redes sociais e em vídeos (como a própria live apresentada). Além disso, acentua que o poder da palavra pode ser como um vírus, disseminando tanto informações pertinentes quanto fakenews, e sendo a palavra transmitida através de um meio de comunicação de massa, um indivíduo pode mobilizar centenas de pessoas.

A autora, parafraseando Chartier (1994), comenta que a TDIC é inseparada dos gestos que a reprimem. Isso porque, ao longo da história, as inovações causam certo estranhamento e podem, inclusive, desestabilizar o poder (14:20), como foi o caso da invenção da imprensa na Idade Média, que provocou a censura de livros por parte da Igreja Católica.

No ambiente escolar, apesar dos avanços tecnológicos, nota-se que boa parte dos professores ainda não está preparada para inserir de forma crítica e criativa a tecnologia digital e os diversos recursos interacionais disponíveis na Web 2.0 em suas aulas presenciais, menos ainda, em aulas à distância. O contexto pandêmico intensificou o uso de TDIC de forma abrupta e desordenada, obrigando os diversos segmentos a lidar com novos artefatos e, em especial, os professores, que precisaram fazer uso de estratégias de ensino que não dialogam com o que aprenderam em suas formações.

Evidenciou-se que apenas o acesso a recursos não é suficiente. É imperativo o oferecimento de uma educação continuada, não apenas de caráter instrucional, mas na perspectiva de construção colaborativa, para que se possa fazer uso dos recursos criticamente, a partir do letramento digital, da compreensão da importância da TDIC e suas potencialidades para o processo de ensino-aprendizagem. Dessa forma, o professor poderá fazer uso de recursos educacionais (os quais não são desenvolvidos para o ensino, mas podem ser adaptados para esse fim) e os recursos educativos (que são construídos para a utilização no ensino).

Ao indicar a obra “Mão na massa: ferramentas digitais para aprender e ensinar” (NASCIMENTO et al., 2019)[4], a autora proporciona uma reflexão acerca de como internet alargou as possibilidades criativas para a sala de aula. Todavia, grande parte das ferramentas ainda é desconhecida pelos professores, muito embora a academia tenha sido um espaço profícuo de análises sobre o uso da tecnologia digital em sala de aula, e principalmente, acerca dos seus benefícios.

O sistema educacional sempre esteve pressionado pela tecnologia, do livro ao computador, num processo contínuo de rejeição, inserção e normalização. Esse ciclo deve-se à forma como várias dessas tecnologias chegam no ambiente escolar, de forma vertical, o que dificulta a construção de uma cultura. Tal aspecto pode ser percebido, inclusive, na nova Base Nacional Comum Curricular, que desconsidera os contextos de produção das próprias escolas. Nessa perspectiva descontínua da educação, sempre vista como mercadoria de troca para diferentes governos, que não a categorizam como política de Estado, questões centrais, como o letramento digital para todo cidadão, para a participação política, atenuariam o caos em que se encontra a educação escolar, que está se “ressignificando” sem saber sequer os significados. De acordo com a autora, “a tecnologia nos ajudou a romper as paredes da escola para o mundo virtual, o que não se esperava é que a sala de aula fosse arrombada como está sendo agora e que o professor fosse tão pressionado e policiado” (1:03:44).

Outro ponto destacado é a falta de acesso à internet por parte da população, incluindo aqui, os estudantes. A internet permitiu, no contexto educacional, não apenas o consumo de informação, mas também a produção e a divulgação de conteúdos, ampliando, por exemplo, a diversidade de pontos de vista. Como parte da população ainda não dispõe desse bem, fica à margem da sociedade, mesmo hoje, quando “o homem está cada vez mais irremediavelmente preso as ferramentas tecnológicas” (43:16), seja aderindo-as ou criticando-as diante do contato imediato.

Vera Menezes encerra a sua fala citando um trecho da música de Lulu Santos[5]: “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia/Tudo passa, tudo sempre passará”. Indaga a autora para a assistência (1:08:11): diante de tudo isso, será que as práticas de linguagem e a utilização das tecnologias digitais em sala de aula mudarão pós-pandemia? O letramento digital será uma realidade na vida dos professores e alunos?

Essas e outras questões pairam na mente de muitos pesquisadores há algum tempo, e emergem com força na atualidade. As palavras de Vera Menezes lançam luz ao debate, trazendo novas questões para profissionais, pesquisadores e a sociedade no geral, tendo em vista que potencializam reflexões acerca da utilização das TDIC no cenário atual.

Com efeito, é fulcral que tenhamos uma “[...] posição crítica, vigilante, indagadora, em face da tecnologia. Nem, de um lado, demonologizá-la, nem, de outro, divinizá-la”. (FREIRE, 1992, p. 133)[7]. Sabemos que tanto as mudanças como as inovações, em si, não carregam o “progresso”, podendo causar avanços ou retrocessos (GENTILINI; SCARLATTO, 2015)[6].

Defende-se, dessa forma, uma educação que faça uso das tecnologias digitais para alargar o diálogo com o mundo, mas que a perceba para além do instrumental, que vá para além das telas e do isolamento social. Que as escolas construam novas culturas digitais e assim sejam espaço de inovação. Parafraseando Freire (2010)[8], somos homens e mulheres do nosso tempo, e não exilados dele. Essa é a mudança que nos possibilita ver a aprendizagem em todos os ambientes, inclusive, os virtuais.

Referências

  1. TECNOLOGIA digital em época de pandemia. Conferência apresentada por Vera Lúcia Menezes de Oliveira e Paiva [s.l., s.n], 2020. 1 vídeo (1h 29min 57s). Publicado pelo canal da Associação Brasileira de Linguística https://www.youtube.com/watch?v=CgCSi6DzA6k.2020.
  2. Ação cultural para a liberdade e outros escritos Freire P. Rio de Janeira: Paz e Terra; 2010.
  3. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido Freire P. Rio de Janeiro: Paz e Terra; 1992.
  4. Inovações no ensino e na formação continuada de professores: retrocessos, avanços e tendências Gentilini J. A., Scarlado E. C. In: Parente C. M. D, Valle L. H. L. R, Mattos M. J. V. M, eds. A formação de professores e seus desafios frente às mudanças sociais, políticas e tecnológicas. Porto Alegre: Penso; 2015 .
  5. The information: a history, a theory, a flood Gleick J. Nova Iorque: Vintage; 2011.
  6. Mão na massa: ferramentas digitais para aprender e ensinar! Nascimento A. C, Azevedo B. P. S, Silva D. C. A. São Paulo: Parábola Editorial; 2019.
  7. Como uma onda Santos L, Motta L. http://www.letras.mus.br/lulu-santos/47132/.2020.
  8. Diffusion of innovations Rogers E. M. Nova Iorque: The Free Press; 1983.