Resumo

Este texto tem por objetivo mostrar que sufixos de duas faces se distinguem em diferentes categorias que vão da alternância lexical à morfofonológica ou simplesmente alternância fonológica. Discutem-se: -or/dor, como sufixo de uma face só -ivo introduzido como argumento; ão/são, -dade/idade como sufixos de duas faces; ɛl/vel, sufixos diferentes com   propriedades fonológicas em distribuição complementar. O ciclo fonológico tem o seu lugar. Outros sufixos são chamados como argumento. A análise situa-se na morfofonologia com ênfase na fonologia, isto é, no processo derivacional em que regras fonológicas operam. A base da derivação é o particípio passado ou o tema verbal. E os sufixos são caracterizados em termos de localidade, lugar de inserção na palavra. O ciclo fonológico também tem o seu lugar. A análise fundamenta-se na teoria autossegmental e no modelo de derivação sincrônica. Todos os sufixos em estudo estão presentes na gramática sincrônica. O que se apresenta neste estudo é um novo olhar sobre eles.

Introdução

Este texto investiga sufixos que têm a possibilidade de duas leituras: caso de uma face (2.1), caso de alternância (ii), caso de dois sufixos separados que têm algo em comum (iii), cada qual analisado com suas propriedades. Trata-se de or/dor, ão/são, -el e -vel. Por razões específicas, outros serão chamados. A análise fundamenta-se em Clements e Hume (1995)[1] que enfatizam as propriedades do traço como se fosse segmento, em Kiparsky (1985; 1993; 1966)[2-4] que se detém no processo de formação de palavras sob o prisma da sincronia e ideias de Mattoso Câmara a serem apresentadas. Defende-se a ideia de que o sufixo -or dispensa alomorfia, que o sufixo nasal -ão/são, ao contrário, é um caso de alternância, assim como -dade/idade, presença motivada por certa semelhança com o ditongo nasal no que diz respeito à epêntese vocálica e, por fim, ditongos diferentes -el e -vel, que comungam propriedades fonológicas. Dois são os tipos de alternância em pauta: (i) alternância morfofonológica que lida com mudanças fonológicas gerais em derivações particulares, como o ditongo nasal na função de nominalizador; (ii) alternância de condicionamento fonológico, como -él e -vel que comungam a mesma rima silábica. A base do processo derivativo é o tema do particípio passado (ado, ido) ou o tema da forma nominal do verbo, ou seja, infinitivo, em que a vogal temática distingue três conjugações (a, e, i). Também são incluídos adjetivos e substantivos relacionados a verbos. Segundo Kiparsky (1966, p. 3-5)[3], condicionamentos podem ser vistos sob o prisma do dualismo: substituição e localidade. Como o supletivo, caso de substituição, não faz parte dos objetivos deste texto, os sufixos em pauta são categorizados quanto à localidade, isto é, local de inserção.

2. Análise

2.1 Sufixo -OR

Embora seja plausível separar esse sufixo em termos de -or e -dor, visível em impresso+or/impressor, fala+dor/falador, tidos como alomorfes ou como dois morfemas separados em trabalhos de excelência e entendidos como relação entre dois sufixos também em gramáticas clássicas do passado como em Nunes (1951)[5], nesta análise, partimos do pressuposto de que esse sufixo tem somente a forma -or, tal como é lexicalizado. A base é o particípio passado (pp), ado na primeira conjugação (armado) e ido na segunda e terceira (vendido/partido) ou em sua forma restrita como feito/correto. Porém palavras relacionadas a verbos da 2ª conj. substituem a vogal /i/ do pp por /e/, marca de conjugação, a exemplo de (vendido/vendedor). No processo derivacional, com o apagamento de VT, o sufixo vem precedido de consoante coronal [-cont]. Palavra derivada, neste texto, não diz respeito à origem, mas a sua constituição em morfemas divisíveis. Seguem exemplos representativos de suas possibilidades de ocorrência com base no tema do particípio passado (pp):

Table 1.

(a) 1ª conj. (b) 2ªconj. (c) 3ª. conj.
armad(o)/armador acolhid(o)/acolhedor cumprid(o)/cumpridor
plantad(o)/plantador corrid(o)/corredor fingid(o)/fingidor
sonhad(o)/sonhador vendid(o)/vendedor servid(o)/servidor

Há, também, casos de precedência da coronal [+cont]: confessa/confessor, divisa/divisor, revisa/revisor. Todavia, a precedência da coronal [-cont] prevalece. A derivação tem o seguinte o andamento: apagamento da vogal temática, adjunção do sufixo, seguindo-se as regras fonológicas em ordem alimentadora:

2.1.1 Derivação com exemplos das três conjugações:

Table 2.

armado+or bebido+or servido+or estrutura subjacente (pp)
armad- bebid- servid- apagamento de VT
---------- bebed- --------- retomada de VT
armador bebedor servidor adjunção do sufixo
ar.ma.dor be.be.dor ser.vi.dor silabificação
ar.ma.dór be.be.dór ser.vi.dór acento

Como se observa, o sufixo -or emerge como -dor no processo de formação de sílabas, -or na rima, d no ataque, constituintes prosódicos da silaba.

Em verbos de particípio duplo, a base da derivação preferida é a forma mais restrita: fazer, feit(o)/feitor; corrigir, corret(o), corretor.

Há parelhas do tipo cantor/cantador, pintor/pintador, o primeiro com base no tema do verbo, o segundo com base no tema do particípio que se distinguem por nuances de sentido, dentro do sentido geral, aquele que canta, aquele que pinta. Argumentando em favor de -dor como sufixo, Costa Santos e Barbosa Coelho (2013)[6] salientam os vários sentidos de palavras derivadas com essa terminação -dor: “lavrador, aquele que cultiva a terra, morador, aquele que mora em algum lugar, possuidor, aquele que possui algo.” A observação sobre a diversidade de significação dessas palavras é interessante, mas não contradiz a ideia apresentada neste texto, segundo a qual o sufixo é tão somente -or que forma palavras derivadas com a referida significação. Por outro lado, há palavras que rememoram sua origem latina como receptor, preceptor, concepção, as quais são marcadas no léxico em virtude do sistema silábico do português que limita a coda à soante e /S/. Evidentemente, há palavras não derivadas terminadas em -or como flor e rigor.

Em (2.1.1), a análise desenvolve-se em um só ciclo, porém, em outra conjectura, pode figurar em derivação cíclica, a exemplo da forma feito supracitada:

2.1.2 Derivação cíclica

Table 3.

[feito + or] ia]]
feit(o) + or ciclo 1
|
feitor
| feitor + ia | ciclo 2
feitoria

Com duas saídas lexicais, feitor e feitoria, esse esquema é apenas um exemplo de derivação cíclica em que um sufixo, depois de atuar, passa a fazer parte do contexto do ciclo seguinte, figurando como elemento do receptor.

Antes de dar prosseguimento à análise, vale observar que há três tipos de ajustamento base e sufixo, a partir do tópico, palavra temática e atemática:

a) palavra temática e sufixo iniciado por vogal, armad(o)/armador;

b) palavra atemática terminada em soante ou /S/ e sufixo iniciado por vogal em que a coda silábica da base passa para o ataque da sílaba seguinte sol/solaço, feliz/felicidade.

c) palavra atemática terminada em vogal acentuada e sufixo com vogal inicial, caso de epêntese consonantal café/cafezal.

Palavras do tipo (a) que contam com o apagamento da vogal temática predominam neste texto. São as formadas por -or, ivo, ão; figuram como atemáticas palavras com -el e com ambas, temática e atemática, -dade/idade. Caso de epêntese também tem o seu lugar, como em -ão.

2.2 Sufixo -IVO

Definido como sufixo de uma só face, -ivo vem precedido de consoante coronal, via apagamento de VT, assim como -or. A semelhança entre eles verificável na derivação motivou a presença de -ivo neste texto, como argumento à ideia de que -or é um sufixo de uma face só. Em ambos, a base figura como pp em sua forma geral ou restrita, adjetivo ou substantivo relacionado a verbo. Seguem exemplos, incluindo base em nome, dada a semelhança.

Table 4.

(a) pp [-cont] ( b) [+cont] (c ) entre nomes
aplicad(o)/ aplicativo acess(o)/acessivo afet(o)/afetivo
cansad(o)/cansativo excess(o)/excessivo aflit(o)/afltivo
formad(o)/formativo express(o)/expressivo alt(o)altivo

Em (b) e (c), há correspondência quanto à sonoridade da consoante da sílaba final da base e da derivada: ace[s]o/ ace[s]ivo, afeto/ afe[ti]vo, ambas [-son]. Não há harmonia em (a) em que /d/ se converte em /t/. Quanto à mudança de [t] para [d], exemplificada em (a), específica deste sufixo, pressupõe-se que seja produto de gramática sincrônica de tempos passados. Palavras formadas com o sufixo -ivo e com o sufixo -or têm a mesma base, mas o produto da derivação é diferente, porém há uma convergência: em ambos, o sufixo vem precedido de coronal. A diferença reside em -ivo privilegiar a coronal [+cont]; -or, a [-cont]. Em ambos, o local de inserção é determinado, localizam-se no particípio passado, diante da consoante coronal.

2.3 Sufixo -ÃO

Este é um dos sufixos de controversa interpretação, realizado como -são na função de nominalizador. Nunes (1951)[5] explica -são como adjunção do sufixo -on a -to (pp) em termos de -t+on -> son, [sãw] que, junto ao tema, forma substantivos que designam o resultado da ação verbal; para Said Ali (1964), ditos sufixos -são ou -ção na escrita procedem respectivamente do latim -SION, -TION em que as consoantes S e T pertencem ao tema do particípio do pretérito; para Pardal (1977)[7], o ditongo nasal é -ione do latim e tem a seguinte base: radical +VT + t + -ione, em que t se torna sibilante, -são ou -zão; após a assibilação de /t/, a vogal /i/ é apagada na primeira conjugação. A presença de /t/ na base é comum em análises que se fundamentam na diacronia. Feita essa ligeira revisão, passemos à discussão da ideia que orienta esta análise fundamentada em regras e princípios da gramática sincrônica.

O ditongo nasal tem diferentes funções: pode ocorrer em palavras não derivadas, (leão), em aumentativos, (porta/portão), local de origem (aldeia/aldeão) e ser um nominalizador (votar/votação). Entre esses homófonos, é o nominalizador que vem precedido de sibilante sem exceções. Esse ponto será discutido adiante. Por ora, a atenção centraliza-se em sua base subjacente. VN é o pressuposto dado. Vale observar que o ditongo nasal na gramática sincrônica está em discussão desde Câmara Jr. (1970)[8] a nossos dias, depois de tempos mais antigos em que se discutia a existência de vogais nasais fonológicas no português. Aqui se põe em relevo que N subsespecificado quanto a ponto de articulação assimila o traço da consoante [-cont] seguinte, porém diante de [+cont] tende a concordar com a vogal precedente, realizando-se como glide diante do vazio.

Defende-se a ideia de que o ditongo nasal fonológico /ãw/, seja qual for sua função, é oriundo do plural de nomes, o qual tem três formas condicionadas: [õjs], [ãjs], [ãws], nas duas últimas, o glide assimila o traço coronal de /S/; na primeira, o traço posterior da vogal precedente. As três formas neutralizam, no singular, em favor de [ãw].

A ideia de o singular ser derivado do plural deve-se a Mattoso Câmara Jr. que a apresentou em curso ministrado no Museu Nacional, Rio de Janeiro, em 1968[9] e em conferências, mas não publicou. Toda a obra de Mattoso foi publicada no âmbito do estruturalismo da primeira fase da gramática sincrônica, tornando-se o grande mestre de linguística no Brasil com repercussão internacional. No entanto, há indícios de fonologia gerativa na sua visão do ditongo nasal. Tomamos a liberdade de retomá-la com vistas a discuti-la à luz da fonologia lexical, um modelo gerativo.

2.3.1 Formação do ditongo nasal

Table 5.

leoN/pl irmaN/pl paN/pl estrutura subjacente
leoNS irmaNS paNS anexação de /pl/
leõjS ___ pãjS assim. da coronal de /S/
leõjS irmãwS pãjS assim. da vogal prec.
ir.mãwS neutralização
\ | /
ãw
[leãw] [irmãw] [pãw] singular

O singular herda as propriedades fonológicas do subdomínio imediato, o plural, criando-se ambiguidade diante de três formas disponíveis que, segundo Câmara (1968)[9], resolve-se por neutralização em favor do ditongo [ãw], forma única do singular. A solução privilegia o ditongo mais simples em que vogal e glide comungam o mesmo traço [+post], enquanto os dois outros são definidos por dois traços: vogal [+post], glide [-post]. Nesse sentido, o efeito da neutralização pode ser visto, também, à luz da emergência do não marcado (MCCARTHY; PRINCE, 2000)[10], pois emerge o ditongo /ãw/, formalmente mais simples. Por conseguinte, o singular herda suas propriedades fonológicas do plural, um constituinte definido no domínio do ciclo imediato. Note-se em (2.3.1) que se trata de regras fonológicas de condicionamento morfofonológico e que essa alteração na ordem de aplicação de regras não intercepta o andamento do ciclo.

Vale observar que o ditongo nasal [ãw] tem a origem desenhada em (2.3.1), seja qual for a sua função, constituinte da palavra simples, aumentativo, local de origem ou nominalizador, esse discutido a seguir.

2.3.2 Ditongo nasal, nominalizador

Dois pontos a serem observados, a precedência única da sibilante e a neutralização do plural, desta feita, para [õjs], na escrita, ões, favorecendo a forma mais usual, pois as duas outras são restritas a poucas palavras. Seguem exemplos:

(a) verbo ou adj. com sibilante na base (b) di na base convertido em sibilante

revisa(r)/revisão /revisões decidir/ decisão/decisões

precisa(r)/ precisão/precisões dividi(r)/divisão/divisões

inclus(o) /inclusão/inclusões ludi(r)/ilusão/ilusões

(c) com epêntese vocálica

armad(o) +i +ão/armações

diret(o) + i + ão/armações

revist(o) +i +ão/revisões

Dos exemplos infere-se que a forma externa são é tão somente /ãw/ adjungida a uma base com coronal sibilante ou formada por assibilação de di/ti presentes na base ou formada com epêntese vocálica. Essa ocorre somente para formar o contexto de assibilação quando a vogal alta não está presente no receptor. A epêntese vocálica conhecida por sua função de evitar o hiato, a exemplo de passear/passeio, aqui tem a função de satisfazer a demanda do sufixo -ão.

Os exemplos mostram que há harmonização entre a base e derivada na 3ª coluna; e não há harmonização nas duas primeiras. Os três conjuntos exemplificam as localidades do sufixo nasal na função de nominalizador:

­2.3.2.1 Derivação com epêntese na primeira e segunda conj.

1ª. conj. 2ª. conj. 3ª. conj.

adorad(o)+ão perdid(o)+âo decidi(r)+ ão

adorad+i+ão perdid+i + ão __ epêntese vocálica

adora[s]+ão perdi[s]+ão deci[z] +ão assibilação

adoração perdição decisão adjunção

a.do.ra`ção per.di.`ção de.ci.`são acento

Embora essa derivação tenha laivos diacrônicos assentados no latim, a gramática sincrônica os ignora, construindo, na sua autonomia, as próprias regras. Neste caso conta com a epêntese vocálica indispensável na 1ª. e na 2ª. conjugação, mas dispensável na terceira em que a vogal alta faz parte do tema verbal. O traço [+so] ou [-so] depende da conjectura, pois a sibilante [+so] emerge entre vogais, como na 3ª. conjugação. Por vezes, /ti/ realiza-se como [ks] a exemplo refleti(r)/ reflexão. Em adjetivos propensos a essa modalidade, a inserção é direta como tenso/tensão. Assim sendo, a sibilante na precedência é uma exigência do ditongo nasal na função de nominalizador. Por conseguinte, a localidade é restrita, nos termos mencionados.

2.4 Sufixo: DADE/IDADE

A presença deste sufixo de base nominal foi motivada pela epêntese vocálica verificada no item precedente que os caracteriza. Mas neste caso, a derivação tem distintas localidades:

(a) bom/bondade (b) capaz/capacidade (c) fim+al/finalidade

mal/maldade feroz/ferocidade forma +al/formalidade

obeso/obesidade vulgar/vulgaridade tom +al/tonalidade

(d) conta/+el/contabilidade (e) ato+ivo/atividade (f) genero+oso /generosidade

nota+vel/notabilidade afeto+ivo/afetividade ócio +oso/ociosidade

socio+vel/sociabilidade nato+ivo/natividade preço+oso/preciosidade

Eis em (a) o reduto da forma -dade: certas palavras não derivadas; nos demais casos, ocorre -idade: (b) palavras atemáticas, (c ) palavras derivadas com o sufixo -al e derivação com outros sufixos intervenientes (d, e, f) respectivamente, -bil -ivo, -oso. Com amplo campo de ação, apresenta- se como um dos sufixos mais produtivos do sistema. Basílio a isso se refere nos seguintes termos:

Parafraseando esses dizeres, o sufixo -dade/idade é mais produtivo do que ão/são, pois o ditongo nasal como sufixo tem menos possibilidades de ocorrência, restrita somente à dada precedência.

A vogal alta em -idade é uma alteração produzida no próprio sufixo -dade, formando -se dois alomorfes, -dade/-idade com o mesmo sentido, porém um não substitui o outro, constituindo um caso de alomorfia, ou seja, alternância morfofonológica como mostram os exemplos mencionados. Essa alternância aumenta consideravelmente o seu campo de ação a ponto de tornar-se um dos sufixos mais produtivos, mais do que o ditongo nasalizador, produtivo também, mas em menor escala. Constitui, pois, um caso de alternância morfofonológica de localidade diversa.

2.5 Sufixos: -EL e -VEL

Trata-se de dois sufixos que têm uma propriedade em comum, a rima silábica, vogal média e lateral com forte tendência à vocalização. Um apaga VT, o outro a preserva. Seguem exemplos:

Table 6.

(a) alug(a) + ɛl aluguel (b) aluga +vel alugável
cord(a) + ɛ l cordel(a) agrada+vel agradável
quart(a) + ɛl quartel dize+vel dizível
past(a) + ɛ l pastel dividi+vel divisível

A base do sufixo - ɛl é, em geral, o nome com VT apagada, verbo raramente, como no primeiro exemplo de (a); a base privilegiada de -vel é o verbo com VT preservada. Por outro lado, há mais palavras com -ɛl não derivadas, isto é, não divisíveis em morfemas como: hotel, painel, bacharel, tonel e nomes próprios, Daniel, Isabel, Manuel, Miguel, Rafael, Uriel, enquanto -vel predomina em palavras derivadas. Para fins de análise, é necessário identificar as vogais médias:

Table 7.

QUADRO 1 - Abertura vocálica

i/u e/o ɛ/ɔ a
aberto 1 - - - +
aberto 2 - + + +
aberto 3 - - + +
Fonte: Clements e Hume (1995) [1]

As duas vogais médias distinguem-se pelo traço [aberto3], diferença mínima entre unidades fonológicas que oferece a possibilidade de serem analisadas como uma unidade só, via subespecificação, segundo Kiparsky (1993)[2]. Assim sendo, as vogais médias têm o traço [ab3] subespecificado na estrutura subjacente, figurando somente com os traços de abertura que têm em comum [-ab1, +ab2], representada por letra maiúscula e especificada ao final do processo derivativo. Em tempos do primeiro estruturalismo, Trubetzkoy (1967)[12] propôs um procedimento de análise para casos de neutralização que deu origem ao exposto, o qual continha um nível mais abstrato, o arquifonema, que a teoria moderna dispensa, valendo-se da subespecificação.

Como bases diferentes e, consequentemente, significação diferente, -ɛl, -vel são dois sufixos que, em virtude de comungarem a mesma rima silábica, estão em distribuição complementar, via regras fonológicas, como se observa na derivação seguinte:

2.5.1 Derivação

(a) El (b) vEl subespecificação

past(a) +El ama+vEl apg de VT em (a)

pastEl amavEl adjunção

pas.tEl a.ma.vEl sílabificação

pas.´tEl (tônico) a.´ma. vEl (átono) acento

pas.´tɛl a.´ma.vel preench.do vazio

Na derivação de (a), o acento incide na vogal do sufixo, consequentemente na sílaba tônica, em final de palavra; em (b), o acento incide na vogal temática, consequentemente na sílaba átona precedente. O traço fonológico que as distingue manifesta-se somente ao final do processo derivativo. É um processo diferente dos citados, mas têm uma propriedade comum a processos morfofonológicos do tipo s ~z, ha[s]te e a[z]ma, porém no caso em pauta, a subespecificação do grau de abertura é fundamental. E assim finda esta análise sumariada em termos de conclusão.

3. Conclusão

A forma -dor em palavras derivadas de pp é redundante, pois /d/ faz parte do contexto receptor, figurando como sílaba, dor, por regra de silabificação que ocorre após a adjunção do sufixo -or, no processo derivativo. Por conseguinte, -or é um sufixo de uma face só, cuja localidade é o particípio passado, por vezes, o tema verbal.

O sufixo nasal /ãw/, como nominalizador, localiza-se no tema verbal ou particípio com VT apagada, figurando diante de sibilante sem exceção. É um caso de alternância morfofonológica de localidade restrita.

O sufixo -dade/idade, relação entre nomes, tem por base palavra temática ou atemática, constituindo um caso de alternância morfofonológica de localidade diversa.

Os sufixos diferentes, -ɛl e -vel, em virtude da rima silábica, comungam traços fonológicos em distribuição complementar. Quanto à localidade, o primeiro privilegia nomes; o segundo, verbos.

Agradecimentos

Agradeço aos revisores, prof. João Paulo Cyrino e prof. Mário Viaro as informações recebidas, incorporadas ao texto, assim como à prof. Carmen Matzenauer e ao prof. Luiz Carlos Schwindt a leitura comentada da primeira versão.

Referências

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