Resumo

Este número da revista da ABRALIN agrupa textos sobre políticas linguísticas a partir de uma perspectiva crítica, o que implica submeter as políticas e planejamentos linguísticos a indagações e reflexões que levam em consideração: conceitos de língua; relação entre língua, poder e economia; ideologias linguísticas; políticas linguísticas em contextos coloniais e pós-independentes; papel dos agentes e lideranças locais na construção de suas políticas; relação entre política linguística e etnografia; relação entre língua e políticas territoriais; políticas linguísticas e transnacionalismo; e relação entre políticas linguísticas e justiça social. Busca-se, com isso, problematizar o uso de categorias e explicações universais para a resolução de problemas linguísticos, indagando-se, inclusive, sobre o que se entende por “problema linguístico”. Supomos que as políticas e planejamentos linguísticos, embora estejam fortemente centrados em pautas institucionais, transcendem esses limites, colocando em tela o papel das comunidades e das agentividades locais na configuração de modos coletivos de uso, compartilhamento e legitimação de suas práticas linguísticas. 

Políticas linguísticas críticas em contextos coloniais e pós-coloniais

Este número da revista da Abralin agrupa textos sobre políticas linguísticas a partir de uma perspectiva crítica, o que implica submeter as políticas e planejamentos linguísticos a indagações e reflexões que levam em consideração: conceitos de língua; relação entre língua, poder e economia; ideologias linguísticas; políticas linguísticas em contextos coloniais e pós-independentes; papel dos agentes e lideranças locais na construção de suas políticas; relação entre política linguística e etnografia; relação entre língua e políticas territoriais; políticas linguísticas e transnacionalismo; e relação entre políticas linguísticas e justiça social. Busca-se, com isso, problematizar o uso de categorias e explicações universais para a resolução de problemas linguísticos, indagando-se, inclusive, sobre o que se entende por “problema linguístico”. Supomos que as políticas e planejamentos linguísticos, embora estejam fortemente centrados em pautas institucionais, transcendem esses limites, colocando em tela o papel das comunidades e das agentividades locais na configuração de modos coletivos de uso, compartilhamento e legitimação de suas práticas linguísticas.

Alguns dos trabalhos aqui apresentados resultam de apresentações e conversas que marcaram o II Seminário de Políticas Linguísticas Críticas, ocorrido em Florianópolis (UFSC), entre os dias 26 e 30 de novembro de 2018. Tratou-se de um evento que agregou professores, pesquisadores, estudantes de pós-graduação e de graduação dos cursos de Letras, Linguística e de áreas afins. Na ocasião, buscou-se refletir sobre as políticas linguísticas a partir de perspectivas interdisciplinares e de metodologias não-hegemônicas, salientando a importância de considerarmos as relações históricas de poder que envolvem as relações entre línguas, instituições, sujeitos e políticas. Tanto o Seminário como a presente edição especial da Revista da Abralin têm como meta colocar em tela reflexões e análises a partir de um olhar atento às dinâmicas de poder que envolvem o modo de circulação das línguas. Propomos que, em política – compreendida como um espaço dialógico e plural de convívio entre sujeitos singulares –, a relação entre línguas e subjetividades é relevante, uma vez que as línguas fazem sentido a partir de contextos concretos de enunciação e de circulação. Isso implica considerar a relação entre as políticas linguísticas e temas como justiça social, inclusão, acessibilidade, direitos e visibilidade.

Este número especial agrupa treze artigos, dentre os quais uma tradução e um texto em língua francesa. Inicialmente, destacamos quatro artigos que se ocupam do cenário brasileiro: o primeiro, Línguas e heranças africanas no Brasil: articulando política linguística e sócio-história, de autoria de Cristine Gorski Severo, aborda os significados sociais atribuídos às línguas e heranças africanas no Brasil, articulando políticas linguísticas, sócio-história do português brasileiro e uma avaliação sobre o processo de racialização das línguas no Brasil; na sequência, Ricardo Nascimento Abreu discorre sobre os Estatutos jurídicos e processos de nacionalização de línguas no Brasil, atentando para o papel e importância da hermenêutica jurídica na construção das políticas de nacionalização de línguas no país. Ana Claudia Eltermann, em A relação entre as teorias linguísticas e raciais no final do século XIX no Brasil, analisa e problematiza os discursos linguísticos do final do século XIX a partir de um olhar centrado na construção de retóricas raciais e racializantes. Em seguida, o texto A demarcação de terras indígenas como política linguística, assinado por Carlos Maroto Guerola, aponta para uma relação relevante entre as políticas de línguas indígenas e a questão territorial, sinalizando, a partir de um relato autoetnográfico, para a maneira como essas políticas se relacionam mutuamente.

Após esses quatro textos, seguem cinco artigos que apresentam uma discussão sobre a língua em contextos de fronteira ou pós- coloniais. No artigo Indexicalidade, ideologia linguística e desafios da fronteira a políticas linguísticas uniformizadoras, Daniel do Nascimento e Silva e Adriana Carvalho Lopes abordam ideologias linguísticas e indexalidades em contextos fronteiriços de uso e legitimação do Portunhol; em seguida, Letícia Ponso escreve sobre a Transnacionalidade da língua portuguesa, política linguística externa e cooperação acadêmica Sul-Sul nos governos Lula da Silva-Dilma Rousseff (2003 – 2016), no qual analisa o estatuto da língua portuguesa no processo de integração de estudantes oriundos dos PALOPs no ensino superior brasileiro, questionando a ideia “lusofonia”. Ezequiel Pedro José Bernardo e Cristine Gorski Severo abordam as Políticas Linguísticas em Angola: Sobre as Políticas Educativas In(ex) clusivas, discorrendo sobre a situação da educação bilíngue em Angola e atentando para a fragilidade das políticas atuais em relação ao multilinguismo angolano. Na sequência, o artigo Língua portuguesa em Angola: silenciamentos, isolamentos e hierarquias, de Heloisa Tramontim de Oliveira, trata das relações de poder envolvendo as línguas e sujeitos em Angola, com enfoque nas políticas coloniais e pós-independência. O quinto artigo dessa sequência é assinado por Sara Farias Da Silva e Simon Dabin, que abordam – em Les Droits Linguistiques au Canada: entre avancées historiques et reculs contemporains – a relação entre direitos linguísticos, políticas históricas e acontecimentos contemporâneas do Canadá.

Um terceiro bloco de textos traz uma visão crítica, reflexiva e alargada de políticas linguísticas. Em O governo da língua: implicações do conceito de gestão na política linguística, Charlott Eloize Leviski trata da relação entre os conceitos de economia e de política, atentando para a maneira como as políticas linguísticas contemporâneas estão assujeitadas a um modelo econômico centrado na ideia de “gestão”. Na sequência, Evelyn Martina Schuler Zea aborda, a partir de um olhar interdisciplinar, As potências políticas do deslocamento na etnografia, na tradução e na linguística, discutindo os sentidos e potências políticas da ideia de deslocamento nos campos da etnografia, da tradução e da linguística. Atílio Butturi Junior, em É a linguagem um dispositivo? (ou o linguista enrubescido), indaga a respeito de um dispositivo da linguagem em relação com o rubor saussuriano sobre a emergência de um campo científico sobre a linguagem.

Por fim, essa edição especial apresenta uma tradução de um texto de Sinfree Makoni – Da linguística humana ao sistema “d” e às ordens espontâneas: uma abordagem à emergência das línguas indígenas africanas –, no qual o autor busca expandir repertórios epistemológicos e analíticos para descrever as diversidades sociolinguísticas, com foco no contexto africano.

Esperamos que esse agrupamento de textos – que trata do cenário brasileiro, fronteiriço e africano, bem como de aspectos epistemológicos das políticas linguísticas – contribua para fortalecer as reflexões e os debates atuais sobre a relação entre língua e política, sinalizando para a complexidade desse campo de pesquisa e para a necessidade e importância de uma reflexão interdisciplinar e crítica sobre a maneira como as línguas afetam a vida das pessoas.