Resumo

Descrição dos testemunhos que compõem a tradição direta da primeira parte da Vita Christi. Colação de dois fragmentos do texto preservados em Évora com os testemunhos manuscritos provenientes de Alcobaça e Lorvão e com o impresso de 1495. Identificação de variantes e proposta de localização dos fragmentos na genealogia da primeira parte da obra.

Introdução

O livro Vita Domini nostri Jesu Christi ex quatuor evangeliis, escrito por Ludolfo de Saxônia (*fins do séc. XIII - †1377), monge cartusiano em Estrasburgo, na segunda metade do século XIV, teve uma enorme difusão por toda a Europa. Desde os finais do referido século, circulavam inúmeros manuscritos da obra, dos quais se conservam cerca de centena e meia.1

Na Vita Christi, o autor elabora uma biografia de Jesus Cristo a partir dos quatro evangelhos, acrescida de comentários dos santos padres e dos escolásticos, além de considerações pessoais. A obra, segundo Frade (2011), “[c]ontribui para aprofundar o movimento espiritual denominado deuotio moderna, que propõe uma vida comunitária, de meditação e trabalho manual (sobretudo relacionado com a cópia de livros)”.2

Embora o autógrafo de Ludolfo de Saxônia tenha desaparecido, as cópias manuscritas circularam nos sécs. XIV e XV. E, com base no texto latino, chegado também a Portugal, faz-se a tradução para o português.3 A tradução da obra, alterada durante a sua transmissão manuscrita, foi impressa em 1495,4 por Nicolau de Saxônia e Valentim de Morávia, a mando de D. João II (*1455-†1495) e de D. Leonor (*1458-†1525).

Do período que medeia entre a tradução para o português e a publicação impressa, preservam-se hoje partes (códices, fragmentos) de pelo menos seis cópias manuscritas, que podem ter composto diferentes transcrições integrais da obra.5

Neste estudo, concentramo-nos na primeira parte da obra e, mais especificamente, em dois fragmentos atualmente preservados em Évora, que integram a sua tradição.

Ao procurarmos indícios textuais para situar os fragmentos no estema da obra, deparamos com poucas variantes que poderiam constituir lugares críticos (loci critici) da tradição. Nesta etapa da pesquisa, uma recolha exaustiva permite apenas identificar casos de variação textual que aproximam e que distanciam os fragmentos dos demais testemunhos, a partir do que podemos emitir algumas hipóteses a respeito da filiação dos fragmentos.

Para o estudo da tradição da Vita Christi, tomamos por base o método genealógico-reconstrutivo (TROVATO, 2014: 54), concentrando-nos na etapa da recensio: começamos por descrever os mais antigos testemunhos que compõem a tradição direta da obra; em seguida, fazemos a colação de variantes, com base nos fragmentos eborenses; procuramos salientar os casos que julgamos mais significativos, a partir da recolha exaustiva a que procedemos, dentro dos limites dos fragmentos eborenses.

1. A tradição da primeira parte da Vita Christi

Os testemunhos portugueses mais antigos (datados do séc. XV) que compõem a tradição direta da primeira parte da Vita Christi são os seguintes:

†.

BNP ? c.1445-46 ALC. 451
BPE c.1450 Pergs. frags., pasta 4, doc. 3
BPE c.1450 Pergs. frags., pasta 4, doc. 4
ANTT séc. XV Ord. Cist., Lorvão, cód. 33
MNA séc. XV Ms/P/IL, cx. 4/ p. 6/ fr. 1
BNP 1495 Inc - 1541 ?

O testemunho ALC. 451 conserva-se atualmente na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa. Proveniente do mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, o códice foi copiado em meados do século XV e concluído em 15 de junho de 1445, conforme data declarada no colofão (fól. 221v). O suporte material é membranáceo e o códice compõe-se de 221 fólios (467 x 306 mm), organizados em 29 cadernos de estrutura variável. A mancha do texto mede 320 x 220 mm, segundo Amos (1989). Cada fólio contém duas colunas de 47 linhas cada uma, delimitadas por um pautado aparentemente à ponta seca. A numeração é romana, em vermelho, centralizada na margem superior dos fólios recto; há reclamos centralizados na margem inferior do último fólio de cada caderno. A capitular que abre o texto é cuidadosamente ornamentada. Ao longo de todo o texto, as capitais que abrem capítulo e as que iniciam a oração que conclui cada capítulo são de maiores dimensões, coloridas em azul ou vermelho. Epígrafes e caldeirões em vermelho. Encadernação em madeira, coberta de pele castanha, com brocho (plano anterior) e a marca dos que faltam (plano posterior).

A escrita empregada no códice corresponde à gótica denominada híbrida portuguesa (DEROLEZ, 2006: 172). A híbrida portuguesa caracteriza-se principalmente pelo com haste longa e diagonal à esquerda; o final com curva em sentido anti-horário, traço horizontal e cauda diagonal à esquerda; o com cauda horizontal; e o desenho do tironiano.6

Os fragmentosdenominados respectivamente Pergaminhos fragmentados, pasta 4, doc. 3 e Pergaminhos fragmentados, pasta 4, doc. 4, encontram-se depositados atualmente na Biblioteca Pública de Évora, em Portugal. Infere-se que tenham sido executados por volta de 1450,7 dadas as suas características codicológicas e paleográficas. Não encontramos referências a sua origem. O suporte material é membranáceo e ambos os fragmentos terão sido usados como forro interno de encadernação e como capa, de livros tabeliônicos, provavelmente a partir do século XVI. O fragmento 3 corresponde aos fólios 135r-v e 137r-v do incunábulo e contém parte do capítulo 43 da obra, intitulado Da cura que foy feita ao demoninhado e aa sogra de pedro e do capítulo 44, intitulado Do filho da viuua que foy resuscitado. O fragmento 4 corresponde aos fólios 140v, 141r e 142r do incunábulo e contém parte do capítulo 46 da obra, intitulado Em como o senhor foy spertado e mandou aos ventos e ao mar que assesseguassem. Dimensão dos fragmentos 3 e 4 respectivamente: 363 x 460 mm e 363 x 522 mm. O texto distribui-se por duas colunas de 39 a 40 linhas cada uma, demarcadas por pautado aparentemente a tinta, nem sempre visível.8 Os fragmentos são numerados originalmente por algarismos romanos minúsculos, em vermelho, na margem superior à direita do recto: no fragmento 3, há o número ccxxvj e no fragmento 4, ccxxxv. Há diversas anotações tardias, que indicam que os fragmentos encadernavam um livro notarial, a saber: no fragmento 3, anotações à margem e letra aparentemente quinhentista e outras em caligrafia mais recente, talvez seiscentista; o nome Manuel Rodrigues, escrito no meio do fólio e “Rodriguez 1611”, na parte que serviria de lombada do livro. No fragmento 4, anotações quinhentistas referentes ao número do livro de que era capa; em letra mais recente, referência ao número do maço, ao nome do tabelião, Luís Gonçalves, e aos anos de 1611 e 1612. A escrita é uma espécie de híbrida portuguesa cuidadosamente executada, diferente da que ocorre em ALC. 451.9 Caldeirões vermelhos e azuis quase sempre alternados no início de diferentes partes do texto indicam o cuidado com que o texto foi confeccionado.

O testemunho identificado como Ordem de Cister, Mosteiro de Lorvão, códice 33, encontra-se atualmente sob os cuidados do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, Portugal. O códice terá sido escrito durante o século XV, no Mosteiro de Santa Maria de Lorvão. O suporte material do códice é cartáceo e compõe um livro de 320 fólios, com os três últimos fólios rasgados; o texto termina a meio do capítulo 60 (da peendenca de maría magdalena, fól. 320v). O texto distribui-se em duas colunas por fólio, com cerca de 42 ou 43 linhas cada uma. O pautado, aparentemente a mina, é visível apenas nas linhas que delimitam as colunas. Numeração romana, em tinta mais clara que a do texto, em módulo pequeno, à direita, na margem superior dos fólios recto. Reclamos centralizados na margem inferior, no fim dos cadernos. Capitulares e epígrafes em vermelho. Encadernação em pele ornamentada. A escrita do códice parece identificar-se com o tipo de gótica que Derolez (2006: pl. 97) denomina como cursiva currens. A cursiva é, de longe, o tipo de escrita mais empregado nos séculos XIV e XV. Apresentam formas características as seguintes letras: formada por uma uma única volta; , , e com hastes em volta para a direita; e prolongados abaixo da linha de pauta (DEROLEZ, 2006: 142).

O fragmento com a cota Ms/P/IL, cx. 4/ p. 6/ fr. 1 é descoberta muito recente. Preserva-se no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, Portugal. Bifólio que serviu de encadernação a um exemplar da Chorografia de Gaspar Barreiros (Coimbra, 1561). Medidas dos fólios: 343 x 244 mm. Páginas exteriores (escurecidas): fóls. 109v-102; páginas interiores: fóls. 102v-109. O texto dos fóls. 102-102v é correspondente a parte do cap. 22 da primeira parte da obra. O texto dos fóls. 109- 109v é correspondente a parte do cap. 23 da primeira parte da obra.10 Por suas características codicológicas e paleográficas, supomos que esse fragmento terá sido confeccionado e escrito durante o séc. XV.

O incunábulo foi impresso no ano de 1495, em Lisboa, por Nicolau de Saxônia e Valentim de Morávia. Sobre suporte em papel, o texto organiza-se em duas colunas por fólio de 50 linhas cada uma. Letra gótica rotunda, capitulares decoradas, numeração romana na margem superior à direita. Rubricas em vermelho e texto em preto. Há gravuras e tarjas.11

2. Colação de variantes

Para realizar o confronto textual, tomamos como texto de base os fragmentos preservados em Évora. Por meio da colação, procuramos as identidades e diferenças entre os testemunhos, nos limites textuais dos fragmentos eborenses.12 Concentramo-nos em recolher todos os casos de variação formal e substancial encontrados. A partir desse levantamento, despontam alguns casos que, a partir de um estudo mais amplo da obra, poderão caracterizar erros seguros e ultrapassar o nível de variantes adiáforas, ou poderão reforçar hipóteses baseadas em erros encontrados em outras partes da obra. Por ora, essas variantes classificam-se como adiáforas, porque fazem perfeito sentido e poderiam ser indistintamente lição do original. A sua função, nesta altura, portanto, é servir de indício quanto à possível filiação entre testemunhos, por ocorrerem sistematicamente em um conjunto de testemunhos e não em outro.13

A tabela 1 apresenta os casos que consideramos os mais significativos de variantes, substanciais predominantemente, uma vez que permitem visualizar possíveis padrões de variação, que caracterizam as relações entre os testemunhos nesta tradição.

*.

ABELA 1: Exemplos das variantes recolhidas ?

Frags. 3 e 4 Alc. 451 Lorvão 33 Inc. 1541
conuersaçom [do pe]cador (3) conuersom do peccador (162v) cõuerssõ do peccador (249r) cõuersaçõ do pecador (137r)
guareçe com grande dificuldade (3) guarece com maẏor dificuldade (162v) cõ maẏor difficuldade (249r) guareçe com grande difciuldade (137v)
em aquel loguar (3) em aquella cidade (160r) ẽ aquella çidade (245v) em aquella cidade (135r)
pousan sse [muy] tos millagres (3) pousan se muytos millagres (160r) contã sse mujtos millagres (245v) contam se muytos millagres (135r)
algũũs doentes (3) algũũs enfermos doentes (160r) algũũs ẽnfermos doẽtes (245v) alguũs enfermos doentes (135r)
grade mouimento e tormenta (4) grande mouimẽto e tormenta (167r) grande mouimẽto e tormẽta (255v) grãde mouimẽto e tormẽto (141r)
auguas do diluujo (4) aguas do deluuẏo (167v) auguas do denuiõ (255v) agoas do dilluuio (141r)
per esta naueta seer entendida (4) per esta naueta ser entende (167v) per esta naueta seer ẽtẽdida (256r) per esta maneira seer entẽdida (141r)
assi entram os ventos e mouem as ondas (4) (Faltam os fólios correspondentes) assy / Entram os ventos ẽ teu coraçom / Certas sy / quando navegas e passas esta vida como peego ẽ que ha tormẽta e perijgo / ẽtrã os vẽtos e mouẽ as ondas (256v) assy entram os vẽtos em teu coraçom . Certas sy quando nauegas e passas esta vida como peego em que ha tormenta e perigoo Entram os ventos e mouem as ondas (141r)

De modo geral, as lições variantes identificadas podem indicar independência de um testemunho em relação ao outro; podem também indicar relação entre dois ou mais testemunhos frente a outros. A par desses casos, a coincidência existente entre maior parte dos testemunhos revela que todos descendem de um mesmo antepassado comum, isto é, de um mesmo arquétipo.

Por tratar-se de colação restrita aos limites dos fragmentos eborenses, certas variantes formais, como o salto-bordão, podem ter um peso maior na avaliação genealógica do testemunho.

Do conjunto de variantes recolhidas, aquelas que indicam independência dos fragmentos em relação aos demais testemunhos são as seguintes:

Table 3.

TABELA 2: Variantes que distanciam os fragmentos dos demais testemunhos

Frags. 3 e 4 Alc. 451 Lorvão 33 Inc. 1541
loguar cidade çidade cidade
Ø enfermos ẽnfermos enfermos
entram os ventos e mouem as ondas - Entram os ventos ẽ teu coraçom ... e mouẽ as ondas entram os vẽtos em teu coraçom ... e mouem as ondas

Os dois primeiros casos constituem lições exclusivas dos fragmentos, frente à lição comum aos demais testemunhos. No caso dos fragmentos, pode tratar-se de lições terminais, isto é, que tenham ocorrido exclusivamente no testemunho, ou tratar-se de lições mais fidedignas que, no entanto, opõem-se aos demais testemunhos. No terceiro caso, há um salto-bordão, que separa os fragmentos ao menos de dois outros testemunhos, os quais preservariam a lição do arquétipo.14

As variantes que indicam relação dos fragmentos com outros testemunhos podem ser divididas da seguinte forma: a) identidade entre os fragmentos e um outro testemunho; e b) identidade entre os fragmentos e dois outros testemunhos.

Os casos em que há identidade com um dos outros três testemunhos da tradição são os seguintes:

Table 4.

TABELA 3: Identidade dos fragmentos com um testemunho

Frags. 3 e 4 Alc. 451 Lorvão 33 Inc. 1541
conuersaçom conuersom cõuerssõ cõuersaçõ
grande maẏor maẏor grande
pousan pousan contã contam

Nos dois primeiros casos da tabela 3, os fragmentos identificam- se com o testemunho impresso. O primeiro caso tem mais peso na genealogia da obra, na medida em que o contexto apontaria para conuersom / cõuerssõ como a melhor lição, a par de conuersaçom / cõuersaçõ. Quanto ao segundo caso, as variantes não alteram fortemente o sentido do texto, mas contribuem para aproximar o fragmeto do impresso e distanciá- lo dos outros dois testemunhos. Dado que o testemunho impresso é posterior ao fragmento em aproximadamente quarenta e cinco anos, haveeria indício de parentesco dos fragmentos com um antepassado perdido (um subarquétipo) do testemunho impresso. O terceiro caso, no entanto, aproxima os fragmentos do testemunho alcobacense, distanciando-o dos demais. É interessante o fato de os fragmentos ora aproximarem-se do impresso, ora do alcobacense, porque há evidências de que cada um deles pertence a um ramo diferente da tradição da obra.

Table 5.

TABELA 4: Identidade dos fragmentos com dois testemunhos

Frags. 3 e 4 Alc. 451 Lorvão 33 Inc. 1541
tormenta tormenta tormẽta tormẽto
diluujo deluuẏo denuiõ dilluuio
naueta naueta naueta maneira

Os três casos da tabela 4 distanciam os fragmentos do testemunho de Lorvão e do impresso, em casos que parecem resultar de erros de entendimento (lectio facilior?) tanto durante a cópia do testemunho de Lorvão (denuiõ) como durante a composição do impresso (tormẽto, maneira). Nesses casos, os fragmentos acompanham os testemunhos com a melhor lição.

3. Há indícios para a filiação dos fragmentos eborenses?

Segundo Trovato (2014:155), um dos casos em que há dificuldade de aplicar-se o método genealógico é o de textos curtos. No caso dos fragmentos, as variantes encontradas poderão juntar-se a outras dos demais testemunhos, para reavaliar-se o seu peso genealógico. Mesmo com a dificuldade devida à delimitação do texto, há certos indícios que não podem ser desconsiderados e que levantam, a princípio, duas hipóteses. A primeira hipótese seria fazer os fragmentos remontarem a uma posição alta no estema. A maior parte das lições do fragmento, conservadoras, pesa a favor dessa hipótese. E é essa a hipótese defendida por Nascimento (2001:141), quando aceita que os fragmentos de Évora (ou E) representam “mais fielmente o exemplar primitivo, sem que tenha de se identificar com ele”. Nesse caso, a lição conuersaçom / cõuersaçõ teria sido corrigida nos testemunhos alcobacense e de Lorvão, uma vez que o contexto é “deseíar a conuersaçom [do peca]dor”, no fragmento 3, lição que se identifica com a do impresso (fól. 137r), a par de “desejar a conuersom do peccador” no fól. 162v do testemunho alcobacense e, com alterações formais, no fól. 249r do testemunho de Lorvão.

Uma segunda hipótese seria que, por aproximar-se ora de uns testemunhos, ora de outros, algumas das variantes poderiam evidenciar que os fragmentos resultassem de um processo de contaminação. A contaminação ocorre quando um testemunho não se limita a reproduzir, com inovações, as características de um único antecedente, seguindo uma tradição vertical, mas tem erros significativos em comum com outras famílias no estema, seguindo uma tradição horizontal. Embora as famílias dos testemunhos em português da Vita Christi ainda não estejam nitidamente caracterizadas, temos dados suficientes para constatar que ALC. 451 e Inc. 1541 pertencem a ramos distintos da tradição.15

Conclusão

Consideradas as duas hipóteses apresentadas no item 3, a colação dos fragmentos com os demais testemunhos da Vita Christi parece apontar que a filiação dos fragmentos remonta a uma posição alta no stemma codicum da obra. Considerando-se todo o conjunto de variantes recolhidas, notamos uma tendência de identificação maior entre os fragmentos e o testemunho alcobacense, que é o testemunho datado como mais antigo, o que pode ajudar a confirmar o conservadorismo dos fragmentos. Além das variantes substanciais, favorece a hipótese o conservadorismo de algumas formas linguísticas, como ocorre, entre outros casos, nos seguintes exemplos:

tragiam / proues / el (Frag 3)

traziã / pobres / elle (ALC. 451, fóls. 160r-v)

tragiã / pobres / elle (Lorvão, fóls. 245v-246v)

traziam / pobres / elle (Inc. 1541, fóls. 135r-v)

O apuro com que foram executados os fragmentos é um aspecto relevante para situar a sua procedência em algum importante centro de produção de manuscritos quatrocentista. O cuidado na organização da página e na caligrafia poderiam indicar um cuidado também no ato de cópia, embora sejam identificáveis alguns erros de transcrição. Levando- se em conta, portanto, as características materiais, formais e substanciais dos fragmentos eborenses, apresentadas neste trabalho, parece ganhar força a hipótese de que eles estariam filiados a um testemunho perdido, um subarquétipo, que supomos comum com ALC. 451. Esse subarquétipo, por sua vez, remontaria à cópia alcobacense da tradução do texto e esta, à tradução do latim para o português.16

Referências

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Recebido em 30/09/2016 e aceito em 06/12/2016