Resumo

Este artigo destaca o papel da seção sob o rótulo folhetim, como estratégia editorial dos periódicos oitocentistas para difusão de textos literários no Brasil. Além de identificar em que medida as obras brasileiras se serviram desse rótulo, apresenta-se, como produto da investigação filológica, a edição diplomático-interpretativa dos Folhetins do França Junior, autor brasileiro que vislumbrou nessa estratégia a oportunidade de divulgar seus textos.

Introdução

Neste artigo, fornecemos subsídios para a reflexão a respeito da difusão de textos literários publicados em jornais brasileiros sob o rótulo folhetim. Ao mesmo tempo, recuperamos um exemplo dessa prática através da edição dos Folhetins de França Junior. O ponto inicial desse estudo foi a atuação do projeto Laboratório de História do Português Brasileiro: Tradições textuais e variação linguística na România Nova que, a partir do acervo da Fundação Biblioteca Nacional, tem procurado mapear jornais cariocas oitocentistas, construir corpora e disponibilizá-los em meio eletrônico, através do site www.letras.ufrj.br/folhetim.

Segundo BARBOSA (2013), a intenção desse projeto é identificar modelos objetivos de erudição escrita praticados nos periódicos diários, em função de seu alcance na sociedade fluminense e no papel desempenhado pelos folhetins na difusão de práticas de leitura e de escrita. A partir da relevância do papel do folhetim, vislumbramos a oportunidade de utilizar o catálogo mapeador, produto desse projeto, para compreender a maneira como os brasileiros se inseriram na produção literária vinculada ao rótulo folhetim. Dentre as descobertas, além de mensurar a participação de brasileiros, localizamos e editamos os folhetins de França Junior, um importante testemunho das práticas folhetinescas dos oitocentos.

1. O surgimento do rótulo folhetim em periódicos brasileiros

Não se trata aqui de indicar quando os textos literários foram vinculados aos jornais, pois desde o início da imprensa brasileira havia a publicação de poemas, novelas1, contos e anedotas2. Nota-se, no entanto, que não havia a intenção regular de nutrir o leitor com material literário nos primeiros anos de jornalismo brasileiro. Além disso, mesmo após a adoção do rótulo folhetim, havia no jornal outras possibilidades de vinculação de textos literários. No Diario do Rio de Janeiro, o folhetim coexistiu com as seções Variedade e Litteratura. Inclusive, alguns textos seriados publicados inicialmente em Folhetim, depois passaram para as outras seções nas publicações seguintes. Dessa forma, trata-se, simplesmente, de reconhecer a adoção do rótulo francês como um meio de difusão de textos literários brasileiros.

Iniciamos a busca no Diario do Rio de Janeiro (1821-1858), tendo em vista a duração desse periódico e a sua representatividade, conforme nos aponta SODRÉ (1966: 59). Esse jornal utilizou pela primeira vez o rótulo folhetim em 12 de fevereiro de 1841. Nesse dia, no rodapé da primeira página, foram publicadas algumas fábulas e uma ode do Senhor Doutor Joaquim José Teixeira (1811-1885). Antes dos textos, porém, o periódico fez uma advertência aos leitores sobre a adoção do novo rótulo. Nessa advertência, há a consciência sobre a origem francesa do rótulo e seu papel relacionado à vinculação de artigos de recreio. Vale dizer que o termo surgiu no início da década de 30 do século XIX. Com o objetivo inicial de apresentar textos ao gosto do público, teve sua melhor expressão com a publicação de romances no folhetim a partir de 1836. Não demorou muito para que a demanda de literatura exigisse romances feitos para o folhetim. Entre 1836 e 1840, desenvolvia-se então o gênero romance-folhetim, com noção de espaço de publicação de cada capítulo, estratégia de retomada do capítulo anterior e de clímax no final de cada publicação. Segundo MEYER (1996: 58), ainda introduziu ao romance a interferência do leitor, ou seja, cada capítulo era escrito, tendo como termômetro a recepção do capítulo anterior pelo público leitor.

Ainda sobre a advertência no Diario do Rio de Janeiro, o editor justifica a decisão editorial, considerando a aceitação do público e de outros periódicos, como o Jornal do Commercio, que já utilizava o rótulo. Esse jornal passou a usar o rótulo folhetim no dia 04 de janeiro de 1839, ou seja, dois anos antes. Como estreia, o Jornal do Commercio publicou sob esse rótulo o primeiro capítulo do romance Edmundo e sua prima (escrito por Paul de Kock e traduzido por Julio Cezar Muzzi [-1858]) e a crônica histórica As Janeiras3. Diferente do Diario do Rio de Janeiro, não houve advertência sobre o emprego dessa nova estratégia editorial; apenas uma nota aos leitores, assegurando que, para merecer a atenção do público, além do aumento do formato, trabalharia no aperfeiçoamento do jornal. Dentre as melhorias podemos supor a atualização das seções. Entretanto, a reviravolta rocambolesca a respeito da origem dessa prática em jornais brasileiros ocorre ainda nesse mesmo mês (24/01/1839). Um colaborador identificado apenas com a letra Y no periódico O Chronista não só critica os principais jornais da época, como reivindica a primazia na adoção dessa tradição para o seu jornal:

[...] O ‘Jornal do Commercio’ tem a primazia entre os periodicos da Côrte pela belleza da impressão; pelo que toca á redacção, este periodico não tem alguma. Ultimamente adoptou o uso dos periodicos francezes, publicando o que naquelles apparece estampado com o titulo de feuilleton, palavra que elle traduzio, em odio ao ‘Chronista’, por folhetim: que importa porêm a differença de nome? Se tal uso é um melhoramento, o ‘Chronista’ foi o primeiro periodico brasileiro que adoptou esse melhoramento. [...]

O cronista Y, ao tecer crítica ao Jornal do Commercio, reconhece que a origem da palavra folhetim no Brasil ocorreu nesse periódico. No entanto, afirma que o fato de adotar essa palavra não lhe confere a primazia pela estratégia editorial. Isso porque a prática já era empregada por O Chronista há mais tempo. No mapeamento feito desse último periódico, encontramos o início da prática datada de 06 de outubro de 1836, isto é, três anos antes do Jornal do Commercio. Nessa publicação, o editor explica que os jornais franceses, no rodapé das páginas, sob o rótulo feuilleton, publicavam artigos de recreio que entretinham todos os grupos sociais. Expõe que pretendia transplantar a moda francesa “para o abençoado solo de nossa pátria”, dando as feições brasileiras. Ressalta dentre as dificuldades, o nome que essa pratica receberia no Brasil. Segundo o editor, a tradução ao pé da letra, resultaria na palavra folhetão. Para o editor, esse nome era “feio”. Considera ainda que <ão> em língua portuguesa seria aumentativo e <on> na língua francesa seria diminutivo. Embora tenha pensado em usar a palavra folhasinha, por motivos de superstição, segundo o editor, preferiu chamar pelo nome genérico de folha. O epíteto que segue tal palavra designaria o gênero. Assim, a folha litteraria foi usada como correspondente aos artigos publicados como feuilleton na França, até abril de 1837. A partir do dia 08 de abril de 1837, O Chronista passa a utilizar para esse fim o rótulo Appendice o qual o Diario do Rio de Janeiro adota antes de se render ao rótulo folhetim, rebatizado pelo Jornal do Commercio.

Observa-se que adoção dessa prática em terras brasileiras é contemporânea ao seu apogeu nos jornais franceses. Essa adoção demonstra a influência cultural, a intenção de atualização das práticas jornalísticas e o desejo de apropriação de um instrumento europeu para o fomento de uma literatura brasileira.

2. A inserção de autores brasileiros no Diario do Rio de Janeiro e na Gazeta de Noticias

Identificada a origem da estratégia de difusão literária em folhetins nos periódicos oitocentistas, convém mensurar a inserção de autores brasileiros nessa prática. Se não considerássemos as obras sem indicação clara de autoria, encontraríamos algumas dificuldades para analisar a realidade. No Diario do Rio de Janeiro, tomado aqui como metonímia, de 1841 a 1858, há 81 obras na seção folhetim, mas apenas 35 obras foram assinadas com o nome completo. A descrição só nos permitiria afirmar que em 35 casos com indicação de autoria, teríamos apenas um brasileiro, José de Alencar, em 1857 com o romance O Guarany. Deixaríamos de fora possíveis autores brasileiros que não assinavam (26 obras), sem contar os autores que usavam apenas as iniciais (17 obras) ou pseudônimos (3 obras).

Esses 46 casos são indícios de que a presença de brasileiros é mais efetiva do que parece. Por isso, utilizamos caminhos alternativos para a identificação de nacionalidade. Esse expediente filológico considerou informações do próprio texto (posicionamento do autor como brasileiro), do suporte (em anúncios ou notícias) e de fora do texto e do suporte (como dicionários e bibliografias). Como nem sempre há referência sobre a nacionalidade do autor, foi necessário separar também os casos de não identificados.

No Diario do Rio de Janeiro (81 obras), jornal que representa a fase de apropriação do rótulo folhetim, os estrangeiros aparecem em maior número (45,95%), seguido por brasileiros (44,44%) e não identificados (8,61%). Ao contrário do que se poderia imaginar, esse resultado demonstra que a participação de estrangeiros e brasileiros é equilibrada. Na Gazeta de Noticias (268 obras), jornal da década de 70 que representa a fase em que o rótulo folhetim já está consolidado, a presença de brasileiros se tornou mais efetiva (72%), sendo maior que a colaboração estrangeira (22%) e a não-identificada (6%) juntas.

Nota-se ainda que a participação dos brasileiros se configurou de forma distinta a dos estrangeiros, sobretudo na forma como a autoria é indicada. No Diario do Rio de Janeiro, a identificação de autoria não era a principal estratégia brasileira. As principais estratégias eram a vinculação de textos sem assinatura (44,4%) e a indicação das iniciais ao final do texto (47,2%), como fez Umbelino Alberto de Campo Limpo (1824- 1885), quando colaborou com a Resenha Militar, usando as iniciais Umb. de C. L. O uso de pseudônimos (5,5%) e o uso de nome completo (2,8%) para indicar autoria eram estratégias pouco utilizadas naquele momento. No caso de autores estrangeiros, predominava a indicação do nome completo (89,5%). São obras consagradas na Europa, principalmente, na França, país que servia ao Brasil como referencial cultural. Indicar autoria neste caso era estratégia comercial para atrair leitores interessados nas obras francesas. A presença do nome completo passava pela consagração do autor. Um caso ilustrativo sobre a identificação do nome completo a fim de consagrar o texto é de José de Alencar, único brasileiro nesse período a vincular seu nome completo em seu romance (O Guarany), pois já era sucesso frente ao público, graças às publicações dos romances Viuvinha e Cinco Minutos, em que assinava com as iniciais A.D.

Na Gazeta de Noticias, observamos a alteração da maneira como os brasileiros indicavam a autoria. Assinar o nome completo passou a ser a principal estratégia autoral (52,06%), seguida pelo uso de pseudônimo (30,41%), iniciais (10,3%) e sem assinatura (7,21%). Às vezes, mais de uma estratégia era usada pelo mesmo autor, permitindo que apresentasse diversas facetas de seu trabalho. É o caso de José do Patrocínio. Com esse nome, assinou romances históricos, como Motta Coqueiro e Os Retirantes. Com os pseudônimos Nemo e Proudhomme, escreveu crônicas sobre política e sociedade. Sem contar os demais pseudônimos em outras seções.

Quanto aos estrangeiros, mantiveram a utilização da assinatura completa para indicar a autoria (77,96%). O objetivo, como apontado anteriormente, é garantir o sucesso do texto pela consagração dos autores. Em compensação a indicação com nome completo cedeu um pouco de espaço para o uso de pseudônimos (13,55%).

Além da identificação de autoria, há mais diferenças na inserção de brasileiros e estrangeiros na seção folhetim. Uma delas é o tipo da periodicidade das publicações. Nesse controle, é observado se as obras são seriadas, isto é, se são obras que se prolongam em mais de um dia publicação, ou se não são seriadas, ou seja, obras publicadas em apenas um dia.

No Diario do Rio de Janeiro, há espaço para obras publicadas em único dia (27%); no entanto, a seção folhetim privilegia a publicação de obras seriadas (73%). É fácil supor que a vinculação de colaboradores fixos, nesse momento, favorece o estabelecimento de um público regular, movido pela empatia a seus autores que se revezam na seção durante a semana. Contudo, esse privilégio de obras seriadas predomina para autores estrangeiros (59,32%). Quanto à produção brasileira, restringe- se a 35,59% dos casos.

Já na Gazeta de Noticias, houve a inversão quanto à periodicidade das obras. As obras não-seriadas passaram a ser mais frequentes (76,12%). Isso se deve ao aumento da colaboração de brasileiros, mais frequentes em obras não-seriadas. Enquanto uma obra seriada leva até 6 meses de publicação, todo dia havia pelo menos uma obra não-seriada sendo produzida.

Os casos com indicação de nome completo e pseudônimo são justamente o que inflaciona a produção não-seriada de brasileiros. Ou seja, a mudança de estratégia de indicação autoral favoreceu a inserção de brasileiros sob o rótulo folhetim. No caso dos estrangeiros, ainda são destaques nas obras seriadas, porém numa distribuição mais equilibrada com as obras seriadas dos brasileiros.

A análise da periodicidade das obras encaminha a análise para o controle dos gêneros. O fato de ser seriado ou não poderia ser consequência do gênero vinculado ao rótulo folhetim. Quanto aos gêneros, consideramos fábulas, romance, poesia e crônica, tendo como referência a visão que se tinha na época para cada um desses gêneros, o que não necessariamente vai corresponder ao que hoje compreendemos.

A distribuição das obras publicadas em folhetim por gênero acentua ainda mais a diferença entre brasileiros e estrangeiros no Diario do Rio de Janeiro. Como os demais controles já apontaram, os brasileiros, preferencialmente, publicam sem indicar autoria ou indicam apenas as iniciais. Por esse controle, no entanto, é possível identificar a motivação textual. A colaboração dos brasileiros faz-se essencialmente pelas crônicas (86,11%). Nesse gênero não é uma obra que se prolonga, em partes, no periódico, mas de um autor que pode se prolongar em novos textos regularmente.

A contribuição dos estrangeiros concentra-se com romances- folhetim (84,21%). Como já sabemos, quando publicado na Europa, havia a interferência do leitor no desenvolvimento da narrativa, conforme sua aceitação. Quando publicadas no Brasil, perderam a interferência do leitor. São obras que, embora mantenham as características estruturais, não são encaminhadas pelo gosto do leitor brasileiro. O gosto do leitor é que vai sendo encaminhado aos sabores europeus. No caso das crônicas brasileiras, elaboradas semanalmente sob o efeito da repercussão do texto anterior, essas sim são preparadas a gosto do público leitor.

Na Gazeta de Noticias, a colaboração estrangeira passa a ter outras características. Os estrangeiros inverteram a contribuição. O romance (32,20%) perde espaço para a crônica (66,10%). Isso se deve a estratégia da Gazeta para atender ao público português residente no Brasil, através da presença de colaboradores portugueses que escreviam regularmente, comentando sobre o cotidiano lusitano, como Julio Cesar Machado, Pinheiro Chagas e Ramalho Ortigão, por exemplo.

Quanto aos brasileiros, a crônica (95,36%) continua sendo a principal colaboração. Embora predomine a indicação do nome completo nas crônicas, as demais estratégias também são utilizadas. Outro aspecto relevante é a quantidade de romances brasileiros (2,57%). Estatisticamente, parece pouco, mas se tomarmos o número de romances desse jornal (5 romances) e compararmos com o Diario do Rio de Janeiro (3 romance), podemos perceber o avanço. Esse novo espaço é ocupado, por exemplo, por José do Patrocínio, consagrado como cronista e que passa a publicar romances sob o rótulo folhetim. Se a efetiva produção brasileira começou pelas crônicas e pelas crônicas foi possível impulsionar os romances, julgamos que é hora de privilegiar os estudos das crônicas, não como gênero menor para a literatura, mas como matéria literária legítima.

Por fim, vale ressaltar a efetiva produção da Gazeta de Noticias. Embora sejam apenas 5 anos de mapeamento, identificamos 268 obras sob o rótulo folhetim, sem contar as outras obras publicadas no rodapé sem a presença do rótulo, ou em outras seções com fins semelhantes. Tal produção é mais efetiva em comparação as 81 obras em 17 anos do Diario do Rio de Janeiro. Se tomarmos a Gazeta de Noticias como metonímia dos jornais daquilo que chamamos de segunda fase, somos inclinados a acreditar que a prática não só se consolidou, mas também se ampliou.

3. Os Folhetins de França Junior

A busca por folhetins brasileiros não se restringiu a simples observação do rodapé dos jornais. Foi necessário realizar análise do periódico por inteiro, pois as demais seções poderiam oferecer melhor compreensão sobre a forma como os brasileiros vinculavam seus textos. Um desses vestígios foi a localização de um anúncio que oferecia livros na Gazeta de Noticias.

Nesse anúncio, publicado a partir de 1878, observa-se a prática de se publicar romances em livros a partir de textos de jornais. Nota-se a inserção de brasileiros nessa prática e o valor atribuído às produções folhetinescas. Contudo, é a versão em livro das crônicas de França Junior4 que chama mais atenção em meio à prática já consolidada de se publicar romances. Esse fato ganha ainda mais relevância quando verificamos que o valor atribuído a esse livro (2$000) é maior que o valor atribuído aos demais livros oferecidos pela Gazeta de Noticias (1$500). O destaque para as crônicas de França Junior pode também ser observado em outras seções do jornal, como a notícia do dia 3 de janeiro de 1878, em que justifica o atraso da publicação do folhetim de França Junior por causa de uma enfermidade a que o autor foi acometido. Se a justificativa do atraso já nos deixa supor a rede de leitores assíduos, a mudança da rotina de colaboradores semanais, com dias fixos, para que fosse possível publicar o folhetim já atrasado de França Junior, parece ratificar que tais folhetins eram “tão justamente apreciados”.

Ainda sobre o sucesso desses folhetins, numa de suas notícias do dia 22 de novembro de 1877, a Gazeta inseriu um fragmento do Jornal da Tarde em que o concorrente relata a dificuldade para comprar a Gazeta nos dias de quarta-feira, a ponto de não se conseguir um exemplar para escrever seu extrato5. Eram 16 mil exemplares por dia e esgotados ainda pela manhã, situação atestada como corriqueira às quartas-feiras em função dos folhetins de França Junior.

Outros cronistas também reconheciam a “força e effeito” de seus folhetins. Tralgadabas6, quando publica em sua seção um folhetim de França Junior (29/07/1877), chama-o de “maligno amigo”, “perverso Osiris7” e “espirituoso classificador”. Nas duas primeiras alcunhas, Tralgadabas destaca a perspicácia do olhar do folhetinista sobre a realidade, porém, ao mesmo tempo, quando diz “espirituoso”, adjetivo também atribuído pelo folhetinista Nemo8 ao França Junior, aponta para maneira como desenvolve seus textos. Essa maneira é bem descrita numa resenha do jornal Cruzeiro, publicada logo após o lançamento do livro Folhetins em março de 1878, em que diz:

O Dr. França Junior possue a arte de dialogar, essencial a tal sorte de escriptos; parece que não escreve os dialogos, mas que simplesmente os repete, tão naturaes são elles, Tem, além d’isso, a arte de resumir de maneira que não dilue a observação, mas concentra-a em poucas paginas, o que lhe dá ainda maior força e effeito. (Cruzeiro, 24/03/1878).

França Junior não é apenas o classificador, apontado por Tralgadabas. É o cronista que reflete sobre o essencial do cotidiano, num tom de diálogo espontâneo que agrada, fazendo dele “um escriptor original e imaginoso”. Para BLAKE (v. 4, 163), “foi um dos nossos mais applaudidos folhetinistas”. Acrescenta ainda que o “autor sempre applicou-se a desenhar em estylo humoristico nossos costumes”. BLAKE, no verbete destinado a Luiz de Andrade (1849-), quando diz “em estylo humorístico á semelhança dos folhetins de França Junior” (v.5, 347) deixa entender que França Junior teria se tornado um padrão de estilo humorístico para outros folhetinistas.

Por trás desse sucesso, a Gazeta de Noticias investia em estratégias de divulgação. Esse recurso assegurava aos leitores assíduos do folhetim que teriam mais uma crônica de França Junior no dia costumeiro. Os anúncios dialogavam com a crônica e também criavam expectativa, como vemos a seguir:

O nosso collega Dr. França Junior mandou-nos dizer da Tijuca, onde tem estado, que o folhetim que pretende remetter-nos hoje para ser publicado na folha de amanhã, tem por titulo e assumpto. – A Republica. || Querem vêr que o homem vai metter-se em politica? (Gazeta de Noticias, 22/01/1878)

A questão que finaliza a notícia cria uma expectativa quanto à maneira como o olhar cômico de França Junior trataria de um tema, a princípio, sério como a república. No dia seguinte ao anúncio do jornal, França Junior satisfaz a expectativa, iniciando o folhetim A Republica com a voz do leitor:

Ora esta !! Pois este homem, que era tão inoffensivo, que fazia-nos rir sem irritar-nos os nervos, não está deitando as manguinhas de fóra !! O que vem fazer aqui republica?! (LIMA, 2010: v. 2, 117)

Depois de fisgar a atenção do leitor com um assunto polêmico e se alinhar ao pensamento conservador de seus leitores, o cronista desfaz a ambiguidade explicando o tema, “república de estudante”. Nesse folhetim, há um grupo de jovens estudantes em São Paulo, vivendo de forma cômica e, dentre as aventuras, o confronto inevitável com um cobrador de dívidas. Essa cena é recuperada de sua peça Meia hora de cinismo (1862), comédia que tem como cenário uma república de estudantes em São Paulo, em que os personagens tentam também se livrar de um cobrador de dívidas.

Além de descrever os mais variados temas, como o casamento, a visita, o enterro, o namoro, as festas, os passeios etc., França Junior também avança para questões sociais alinhadas às notícias coevas aos folhetins. Em Occorrencias da Rua, seção da Gazeta de Noticias estudada por LIMA (2014: 94), em que são relatados os crimes praticados nas ruas do Rio de Janeiro, encontramos um exemplo sobre a relevância dos assuntos abordados por França Junior:

Foi preso o crioulo livre Pedro Victor, por estar ante- hontem em exercicio de capoeiragem na praia do Sacco. (Gazeta de Noticias, 04/01/1878)

Nessa Ocorrência das ruas, o inusitado é causa da prisão: prática de capoeiragem. No dicionário de MORAES E SILVA, não há o termo capoeiragem. Os verbetes relacionados ao termo empregado no jornal são capoèira, que significa “cesto fechado onde estão gallinhas” e capoèiro, que significa “ladrão de gallinhas” (1813: v. 2, 343). Se considerarmos a relação dessas palavras, capoeira estava associada à atividade criminosa. Encontramos relatos que apontam para marginalidade dessa prática no século XIX nas crônicas de França Junior. No trecho a seguir do folhetim Os Massantes, o cronista caracteriza os capoeiras:

Não pensem os leitores que venho fallar de capoeiras. Estes Cambrones das grandes batalhas eleitoraes, manuseadores da faca e do cacete, são mais ou menos perseguidos pelo gladio da policia, segundo a importancia dos padrinhos (LIMA, 2010: v. 2, 19).

Ao escrever sobre os massantes, uma classe de amoladores sociais, o autor alerta para a possível confusão envolvendo os capoeiras, pois guardariam as mesmas características – “classe perigosa de homens, cujos actos escapam á ação da justiça”. Segundo França Junior, os capoeiras seriam “manuseadores da faca e do cacete”. A marginalidade dessa classe se confirma no folhetim Visitas (LIMA, 2010: v. 1, 40). Nesse folhetim, o cronista apresenta a capoeira na conversa de duas senhoras. Elas conversam sobre os problemas envolvendo os escravos.

O principal problema refere-se a “Felisberto”, escravo que “deu para capoeira”. Segundo a personagem, “E’ um perigo”, pois oferece o risco de investir com uma faca contra o proprietário.

Assim, o olhar sensível sobre a realidade torna a obra não só representativa para estudos de literários, como também para a compreensão da sociedade oitocentista do Rio de Janeiro.

3.1 A edição dos Folhetins de França Junior

A motivação de editar tais folhetins justifica-se pelo interessante conteúdo e pelo reconhecimento que o autor mereceu do público fluminense, materializado na intensa produção em vários jornais e ainda a edição em livros.

O trabalho com a edição dos textos de França Junior começou pelo levantamento de sua fortuna crítica. O resultado foi a localização de um testemunho em livro de folhetins publicados no Correio Mercantil entre 1867 e 1868, sob o título Política e Costumes, organizado e publicado por Raimundo Magalhães Junior em 1957; um relatório sobre pintura de autoria de França Junior, publicado em 1874; um conjunto de peças de teatro, estabelecidas por Edwaldo Cafezeiro (1980); e quatro testemunhos do livro Folhetins (1878 / 1894 / 1915 / 1926). É justamente a primeira edição desse livro que a Gazeta de Noticias oferecia aos seus leitores no anúncio. Além disso, após a publicação no jornal e antes da publicação em livro, os folhetins foram publicados em folhas soltas. Em 11 de novembro de 1877, o editor alega que apressou a publicação da segunda folha pelo “facto da rapida extracção que teve a primeira”. Alguns folhetins mereceram ainda uma versão em inglês. Em 8 de dezembro de 1877, a Gazeta de Noticias menciona a publicação do folhetim Os casamentos no Jornal The Anglo Brazilian Times9, como já havia ocorrido em 10 de outubro de 1877 com o folhetim Os Bailes10.

Após o levantamento de todos os textos referentes a França Junior, que pode ser recuperado em LIMA (2010: v. 1, 41), coube-nos a tarefa de escolher aqueles que fariam parte dessa edição crítica. Obviamente, interessávamos pela tradição de textos apresentados no anúncio. Assim, havia o conjunto de textos publicados no jornal entre 1877 e 1878 (testemunho A) que mereceu publicação em folhas soltas (testemunho b) e quase que imediatamente a coletânea em livro de 1878 (testemunho B), republicado em 1894 (testemunho C), 1915 (testemunho D) e 1926 (testemunho E).

Como o testemunho em folhas soltas (b) não foi localizado nos diversos acervos consultados, optamos por editar os textos do jornal (testemunho A) e cotejamos esse testemunho com a primeira e segunda versões em livro, testemunhos B e C, respectivamente.

O primeiro cuidado foi localizar os folhetins no jornal. O principal problema foi a localização do folhetim Dilettanti, pois não foi publicado como os demais. Em função da ordem do testemunho B, penúltimo folhetim na versão em livro, a busca concentrou-se no ano de 1878, levando-nos por muito tempo a imaginar que estava perdido. A reviravolta folhetinesca fez-se presente quando ampliamos o nosso olhar aos demais colaboradores da Gazeta de Noticias. Tralgadabas é quem publica, em 29 de julho de 1877, o texto dentro de sua crônica semanal chamada Ao acaso. Pela data recuada, em relação aos demais, Dilettanti é o primeiro texto de França Junior, sob o rótulo folhetim. Até então esse autor havia colaborado nesse jornal apenas na seção Corso Litterario, no dia 25 de julho de 1877. É possível que suas “notas” sobre os diletantes tenham, no rodapé, ganhado a projeção que faltava ao cronista cujo estilo já era conhecido por sua colaboração no jornal Correio Mercantil.

Além disso, nem todos os textos publicados na Gazeta de Noticias foram incluídos na primeira edição de Folhetins, permanecendo inéditos em formato de livro. Foi o que aconteceu com os folhetins Carnaval e Rapazes, sem contar os folhetins sobre a viagem à França desse autor. Nota-se ainda que alguns títulos foram alterados. É o caso da crônica inicialmente identificada pela data e que passa a ser na versão em livro intitulada de Massantes, para se ajustar aos demais títulos. Para a edição dos folhetins de França Junior, respeitamos os títulos apresentados no jornal e a ordem de publicação.

Definidos os textos que seriam editados, tornou-se necessário adotar um tipo de edição, a fim de estabelecer de forma coerente os textos de França Junior. Adotamos a edição diplomático-interpretativa com o aparato crítico-textual, porque, para além dos objetivos propedêuticos de construção de corpora, confiáveis quanto à forma, reconhecemos ser necessário aos futuros pesquisadores-usuários de nossos materiais editados, ter acesso a comentários que lhes ajudem a compreender valores contextuais de certos usos pretéritos ou mesmo dimensionar certos dados modificados de um testemunho a outro.

A edição diplomático-interpretativa procura reproduzir o modelo com fidelidade, mas realiza pequenas intervenções, a fim de decodificar algumas informações para o leitor, como inserção ou supressão de elementos por conjectura, o desenvolvimento de abreviaturas, ou ainda inclusão de notas resgatando informações sócio-históricas da obra e de seu suporte.

Tomamos ainda o cuidado de indicar em nota todas as variantes entre os testemunhos (A, B e C), através do aparato crítico. O aparato crítico é a organização de instrumentos necessários para a realização de uma edição. Segundo BECLUA (1983: 147), é composto pelo conjunto de variantes e por notas introduzidas pelo editor para justificar determinada escolha.

Reforçamos mais uma vez as vantagens desse tipo de edição: preservar o testemunho mais antigo para que outros leitores/pesquisadores tenham acesso ao texto em melhores condições de estudo. O resultado foi a recuperação de textos que repercutiram na sociedade fluminense oitocentista e que merecem atenção, não apenas da linguística histórica, mas também da literatura brasileira.

Conclusão

Procuramos dimensionar a contribuição do rótulo folhetim para a difusão textos literários brasileiros. Verificamos que a adoção desse rótulo proporcionou a regularidade e aumentou a quantidade de publicações literárias.

Observamos o perfil de autores brasileiros nessa prática. São essencialmente cronistas, que encontraram na crônica e sob o rótulo folhetim a melhor estratégia para pensar a sociedade fluminense, tanto no que diz respeito a aspectos sociais e políticos, quanto à própria identidade literária brasileira. França Junior é um bom exemplo da presença brasileira no rodapé. Através de crônicas semanais no jornal Gazeta de Noticias, o autor descrevia de forma cômica os tipos da sociedade fluminense oitocentista, tornando-se um modelo para outros folhetinistas.

Por fim, fica evidente, ao longo do texto, o uso dos instrumentos filológicos para reestabelecer as crônicas de França Junior. Nessa tarefa, procuramos adotar uma edição diplomático-interpretativa a fim de garantir aos leitores um texto mais próximo possível do testemunho mais antigo. No entanto, todo o percurso envolvendo o estudo dos jornais também faz parte do expediente filológico, uma vez que potencializa as possíveis intervenções desse tipo de edição.

Referências

BARBOSA, Afranio G. Linguística de corpus: metodologias para a História do Português brasileiro. IX Seminário Nacional do Projeto Para a História do Português Brasileiro (PHPB) - UFAL/FALE/PGLL, Maceió. 2013. Outubro.

BECLUA, Alberto. Manual de crítica textual. Madrid. Editorial Castalia, 1983.

BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento. Diccionario Bibliographico Brazileiro. Rio de Janeiro. Typographia Nacional, 1883.

LIMA, Alexandre Xavier. Crítica Textual e Corpora para a Linguística Histórica: Padrões Ortográficos Oitocentistas em Folhetins (crônicas) e França Junior. 2010. 329 f. Dissertação (Mestrado em Língua Portuguesa) – Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2010.

_____ . Descrição da ortografia portuguesa: a inserção do princípio etimológico na prescrição e na prática gráficas oitocentistas. 2014. 524f. Tese (doutorado em Língua Portuguesa) – Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014.

MEYER, Marlyse. Folhetim: uma história. São Paulo. Companhia das Letras, 1996.

SILVA, Antonio de Moraes e. Diccionario da Lingua Portugueza. Lisboa. Typographia Lacérdina, 1813.

SODRÉ, Nelson Werneck. A história da Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1966.

Recebido em 30/09/2016 e aceito em 06/12/2016.