Resumo

A tradição ibero-românica da obra de Isaac de Nínive é bastante complexa. No presente trabalho, apresentamos uma proposta de estema parcial para essa tradição textual baseado principalmente no método proposto por Maas (1927).

Introdução

De acordo com Timpanaro (2002: 49-62), o primeiro estema do tipo moderno foi o elaborado pelo estudioso sueco Carl Johan Schlyter em sua edição de antigos textos jurídicos suecos em 1827, a que chamou de schema cognationis codicum manuscriptorum. Posteriormente, pertenceria ao estudioso alemão Karl Gottlob Zumpt nova iniciativa de elaboração de estema, em sua edição das Verrinas de Cícero de 1831, a que nomeou de stemma codicum manuscriptorum. Novas iniciativas foram propostas por estudiosos que se seguiram, como o também alemão Friedrich Wilhelm Ritschl em 1832 e o dinamarquês Johan Nicolai Madvig em 1833.

Um primeiro tratamento mais sistematizado do processo de elaboração de um estema se deve a Paul Maas:

Navisãotradicional, quese baseia no métodosistematizado por Maas (1927), o elemento básico do processo são os erros significativos (lat. errores significatiui). Para que o método seja aplicado com segurança é necessário, primeiramente, que se tenha certeza sobre qual das variantes existentes em cada lugar-crítico é um erro, ou seja, uma forma não-genuína. Em segundo lugar, é preciso que esse erro seja tão particular e idiossincrático que não possa ter sido cometido simultânea e independentemente por dois copistas; além disso, sua condição de erro não pode ser óbvia, pois, em sendo, os copistas poderiam intervir conjecturalmente e, dependendo da obviedade do erro, poderiam acabar por fazer modificações que resultassem no restabelecimento da própria forma genuína, sem a terem visto. [...] Os erros podem ser conjuntivos (lat. coniunctiui) ou separativos (lat. separatiui). Um erro é conjuntivo quando sua presença em dois ou mais testemunhos indica haver uma relação de dependência entre si; é separativo quando sua presença em um testemunho assinala haver uma relação de independência em relação a outro(s). [...] Reynolds & Wilson (1995:205- 207) chamam a atenção para três circunstâncias em que o método sistematizado por Maas teria sérias limitações: quando houve a chamada contaminação no processo de transmissão; quando os testemunhos subsistentes de uma dada tradição remontam a dois ramos independentes, não derivando, portanto, de um único arquétipo; e quando um texto original circulou em diferentes versões, todas elas genuínas (na medida em que as alterações foram introduzidas pelo próprio autor). (CAMBRAIA, 2005: 136, 137 e 145-146)

1. Isaac de Nínive: autor e obra1

Isaac de Nínive nasceu em Bet Qatraye (no atual Qatar) e foi ordenado bispo de Nínive no monastério de Bet ’Abe (no norte de atual Iraque) por Jorge, o Católico, em 676 d.C. Cinco meses depois, renunciou ao cargo e foi viver como anacoreta na montanha de Matut, na região de Bet Huzaye (na atual província do Cuzistão no Irã). Posteriormente, transferiu-se para o monastério de Rabban Shabur (também no atual Irã, talvez próximo a Shushtar), onde aprofundou seus conhecimentos das Sagradas Escrituras. Morreu cego e com idade avançada aproximadamente em 700 d.C. e foi sepultado no próprio monastério de Rabban Shabur (BROCK, 1999-2000).

Chialà (2002: 66-83) considera, com base em pesquisas mais recentes, que estariam entre as obras genuínas três conjuntos de capítulos e dois fragmentos de uma outra coleção. A Primeira Parte é composta de 82 capítulos; a Segunda Parte compõe-se de 41 capítulos (dos quais o 16º e o 17º correspondem respectivamente ao 54º e ao 55º da Primeira Parte); a Terceira Parte apresenta 17 capítulos (dos quais o 14º e o 15º correspondem respectivamente ao 22º e ao 40º da Primeira, e o 17º corresponde ao 25º da Segunda); a Quarta Parte não é conhecida; a Quinta Parte compreende apenas dois fragmentos próprios. Vê-se que, conjuntamente, a obra de Isaac compreende pelo menos 137 capítulos distintos.

Dessas coleções importa aqui especificamente a Primeira Parte: do original em siríaco, foi traduzida para o grego em fins do séc. VIII ou princípios do séc. IX por dois monges — Patrikios e Abramios — do mosteiro de Mar Sabbas, situado próximo a Jerusalém, e do grego para o latim por volta de fins do séc. XIII. Considerando que a maioria dos manuscritos com a tradução latina é dos sécs. XIII a XV, que o manuscrito considerado mais antigo (cód. plut. LXXXIX/96, Bibl. Medic. Laur. de Florença) seria do séc. XIII e que a citação mais antiga em latim do texto de Isaac parece estar no Tractatus Pauperis (concluído em 1270) de John Pecham (1230-1292), Chialà (2002: 295) propôs o séc. XIII como terminus ante quem para a tradução latina.

Ainda que 68 dos 82 capítulos da Primeira Parte tenham sido traduzidos para o grego, apenas 26 desses 68 foram traduzidos para o latim. Já na tradição grega se agregaram ao texto de Isaac quatro capítulos de João de Dalyata (ca. 690-ca. 780) e uma carta de Filoxeno (ca. 450-523) a Patrício. Desses cinco textos, apenas dois de Dalyata passaram para a tradição latina (caps. 17 e 18 na tradição grega antiga). A esses 28 capítulos (26 de Isaac mais 2 de Dalyata) se agregou à tradição latina um apêndice de origem variada2 (ora como capítulo autônomo ora como parágrafo final de capítulo). Esse conjunto de 29 capítulos em latim foi traduzido para diferentes línguas românicas na Idade Média: italiano, francês, catalão, espanhol e português.

2. Metodologia

Toma-se aqui como referência a proposta de Maas (1927) para a elaboração de um estema da tradição ibero-românica da obra de Isaac de Nínive (mais especificamente, da chamada Primeira Parte). Os testemunhos eleitos para a presente análise foram nove.

A tradição latina conhecida compreende 112 testemunhos (100 manuscritos e 12 impressos) (CAMBRAIA, no prelo-a). Destes, estão relacionados a instituições localizadas na Península Ibérica 7: 5 na Espanha3 e 2 em Portugal4. Em estudo prévio, verificou-se que, destes 7, apenas 2 parecem ter relação mais direta com a tradição em línguas românicas (CAMBRAIA, 2010b): o cód. alc. 387 da Biblioteca Nacional de Portugal, de 1409, e o impresso de Barcelona, de 1497. Dentre os 112 testemunhos latinos conhecidos, o que parece conter a versão mais próxima do texto genuíno é o cód. A 49 sup. da Biblioteca Pinacoteca Accademia Ambrosiana de Milão (CAMBRAIA; LARANJEIRA, 2010: 18). Estes três últimos foram, portanto, eleitos para análise como representantes da tradição latina.

A tradição catalã consiste em 3 testemunhos manuscritos, mas apenas 2 deles apresentam o texto integral (cód. n.I.16 da Real Biblioteca do Monastério de San Lorenzo de El Escorial e o cód. 5-3-42 da Biblioteca Capitular Colombina de Sevilha), ao passo que o terceiro (o cód. 148 da Biblioteca Universitária de Barcelona) possui apenas o capítulo final e um apêndice. Apenas os 2 primeiros foram, portanto, eleitos para análise. Uma tentativa prévia de representação da relação genética na tradição catalã foi apresentada por Cambraia e Cunha (2008: 136):

Figure 1.

FIGURA 1: Estema da tradição catalã

A tradição espanhola apresenta três testemunhos: um manuscrito (cód. II/795, Biblioteca do Palácio Real, Madri, , 1484) e dois impressos ([Zaragoza], 1489; e Sevilha, , 1497). Como o impresso de 1489 segue muito fielmente o manuscrito de Madri, foram adotados na presente análise apenas o referido manuscrito e o impresso de Sevilha. Cambraia (2009: 7) apresenta uma proposta de relação entre esses testemunhos:

Figure 2.

FIGURA 2: Estema da tradição espanhola

A tradição portuguesa compõe-se atualmente de quatro testemunhos manuscritos: o cód. 50-2-15, da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro; o cód. alc. 461 da Biblioteca Nacional de Portugal; o cód. alc. 281 da Biblioteca Nacional de Portugal e o cód. CXII/1-40 da Biblioteca Pública de Évora. Destes, o terceiro é apenas um fragmento, e o quarto é um conjunto de excertos. Por isso, foram adotados na presente análise apenas os dois primeiros. Para uma associação entre a tradição portuguesa (com referência à espanhola), há a proposta de Cambraia (no prelo-b):

Figure 3.

FIGURA 3: Estema da tradição portuguesa

Em síntese, os testemunhos que foram adotados para a análise da tradição ibero-românica são:

(a) 3 latinos:

LMi: cód. A 49 sup., Biblioteca Pinacoteca Accademia Ambrosiana, Milão, séc. XIII, ff. 1r-75v;

LL: cód. alc. 387, Biblioteca Nacional, Lisboa, 1409, ff. 94v-115v; e

LB: impr., , Barcelona, 1497, ff. 1r-151r.

(b) 2 catalães:

CE: cód. n.I.16, Real Biblioteca do Monastério, San Lorenzo de El Escorial, séc. XV, ff. [0r]-69r; e

CS: cód. 5-3-42, Biblioteca Capitular Colombina, Sevilha, séc. XV, ff. 1r-185r.

(c) 2 espanhóis:

EM: cód. II/795, Biblioteca do Palácio Real, Madri, , 1484, ff. 1-123r; e,

ES: impr., , Sevilha, , 1497, ff. 127v-162v.

(d) 2 portugueses:

PR: cód. 50-2-15, Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 2a met. do séc. XV, ff. 1r-114r; e

PL: cód. alc. 461, Biblioteca Nacional, Lisboa, 2a met. do séc. XV, ff. 14r-101v5.

Dada a grande extensão do texto e a inexistência de transcrição integral desses 9 testemunhos, a presente análise será feita com base em uma amostra textual: serão analisados os dados do primeiro terço do primeiro capítulo.

Foi feita a transcrição desse primeiro terço dos referidos 10 testemunhos e as transcrições foram processadas no programa de colação Donne- Variorum6, que emparelha cada segmento textual delimitado nas tradições (geralmente os segmentos adotados correspondem a períodos e, se estes fossem muito longos, seriam segmentados em orações): foram analisados 57 segmentos textuais. Veja-se abaixo um exemplo de emparelhamento de um segmento textual7:

EXCERTO 1

LMi: Melius est enim a peccati uinculo soluere temet ipsum . quam liberare seruos a seruitute. (f. 3r13-14)

LL: Melius est a peccati uinculo soluere temet ipsum . quam liberare seruos a seruitute. (f. 96v9-10)

LB: Melius est tibi a peccati vniculo [sic] solvere temet ipsum quam liberare seruos a seruitute. (f. 6r11-14)

EM: Ca meior es para ti soltarte de las cadenas del pecado que te tienen preso; que delibrar los sclauos e catiuos de la seruidumbre. (f. 5v1-3)

CS: Car major cosa es a tu desligar tu mateix dels ligams de pecats que no es desliurar los altres de seruitut. (f. 6v12-15)

CE: Car mellor cosa es a tu desliguar tu matex dels liguams de peccats / que no es desliurar los altres de seruitut. (f. 2rb7-10)

ES: ca mejor es a ti desatar a ti mesmo de los atamientos de pecados que librar a otro de seruimiento. (f. 128va27-29)

PR: ca milhor cousa he a ty desatar a ty meesmo dos atamẽtos dos peccados que liurar aos outros de os nõ fazerẽ. (f. 7r7-8)

PL: Melhor cousa he a ty desatar a ty meesmo dos peccados que liurar os seruos da seruidom. (f. 14r16-18)

Cada variante encontrada foi classificada segundo a tipologia tradicional (CAMBRAIA, 2005: 78): adição, omissão, alteração de ordem e substituição.

3. Descrição e análise dos dados8

3.1 Erros separativos de cada testemunho

Em todos os 9 testemunhos há erros que lhes são privativos e funcionam, assim, como erros separativos, indicando que nenhum dos testemunhos analisados deu origem a algum outro deles:

LMi: substituição de honorem por orationem9;

LL: substituição de ornat por honorat10;

LB: omissão de tua11;

EM: omissão de sus12;

CS: adição de co es uan alegrament13;

CE: adição de car14;

ES: omissão de en los pobres15;

PR: adição de das cousas de fora16;

PL: omissão de dos atamentos17.

Salientamos que esses erros separativos confirmam o que se defendeu nas propostas anteriores parciais de estema (cf. figuras 1, 2 e 3 acima): nenhum desses testemunhos foi modelo para algum deles. Os erros privativos separativos abarcam em torno de um terço de todos os lugares críticos identificados no trecho analisado.

3.2 Erros conjuntivos

Como se viu acima, LMi apresenta erro separativo em relação aos 8 outros testemunhos; entretanto, não apresenta nenhum erro conjuntivo em relação a algum deles. Logo, constitui um ramo independente do estema, subordinado a um arquétipo latino [*L1].

Há, no entanto, erros conjuntivos entre 6 dos outros testemunhos, excluindo LL (pela ausência do erro) e PL (por aparecerem na parte que corresponde ao trecho mutilado nesse testemunho): como exemplo, citamos a adição de mundi em LB e nos correspondentes românicos18. Esses erros demonstram que os 6 testemunhos (e provavelmente PL também, em função de seu vínculo com PR a ser comentado mais adiante) pertencem a um mesmo ramo do estema, subordinado ao mesmo arquétipo latino *L1.

Como já dissemos, o testemunho latino LB apresenta erro privativo separativo, por isso é necessário postular um outro testemunho latino interposto [*L2], do qual terão derivado LB e as tradições em línguas ibero-românicas.

A posição de LL é complexa, pois, como já mencionamos, não apresenta erro conjuntivo com LMi (estando fora do ramo dele) nem erro conjuntivo com todos os 7 demais (estando fora do ramo deles). A conclusão é a de que LL constitui um terceiro ramo independente (subordinado ao já mencionado arquétipo latino *L1). Entretanto, eventualmente apresenta erro conjuntivo com algumas das traduções ibero-românicas (mas não com todas), sugerindo assim que seu texto seja compatível com contaminações nessas traduções. Na discussão sobre o estema da tradição portuguesa, Cambraia (no prelo-b) defendeu a existência de contaminação por testemunhos latinos na tradição portuguesa em mais de um nível (tanto no arquétipo dessa tradição [*P] quanto no interposto que deu origem aos testemunhos portugueses alcobacenses e eborense [*P2]). Deixaremos para tratar com mais detalhe da questão da contaminação mais adiante.

Há também entre os testemunhos ibero-românicos erros conjuntivos que demonstram formarem um ramo próprio, mas subordinado a um outro interposto [*L3], pois esse erro não poderia estar no modelo de LB: se estivesse nesse modelo [*L2], deveria aparecer também em LB. Como exemplo de erro conjuntivo na tradição em línguas ibero-românicas analisada, citamos a omissão do item que correspondente a ipsum na tradução latina19.

Como já salientamos, há erro separativo em EM (o que significa que não serviu de modelo para os demais testemunhos românicos), mas há também erro conjuntivo entre os demais testemunhos românicos, formando-se assim um novo ramo. Uma questão importante é em que língua estaria esse novo interposto a que estão subordinados CS, CE, ES, PR e PL. Há uma tal discrepância entre a tradução de EM e as demais traduções que parece óbvio que estas não derivam de um possível testemunho com a tradução espanhola que teria servido de modelo para EM (já que, como dissemos, EM não foi modelo para o ramo desses 5 testemunhos). Vejam-se o excerto 1 apresentado anteriormente e ainda o excerto 2 abaixo para atestar a referida discrepância na forma textual de EM em relação a CS, CE, ES, PR e PL e a convergência entre estes 5 últimos.

EXCERTO 2

LMi: Dilige ocium solitudinis. plus quam esurientes seculi saturare; et conuertere multas gentes ad supernam agnitionem et ad horationem dei. (f. 3r10-12)

LL: Dilige occium solitudinis. plus quam esurientes seculi saturare. et conuertere multas gentes ad agnitionem supernam. et ad honorem dei. (f. 96v8-9)

LB: Dilige quietem solitudinis plus quam esurientes seculi saturare: et conuertere multas gentes ad agnitionem dei supernam et honorem dei. (f. 6r7-11)

EM: Codicia e quiere mas el reposo de la soledat; que fartar los fambrientos en el siglo. ny conuertir muchas gentes al soberano conosçimiento de dios e a su alabança. (f. 5r19-5v1)

CS: Ama repos de solitut mes que sadollar los famejants en lo segle e mes que fi [sic] conuerties moltes gents a conexenca e a la honor de deu sobirana. (f. 6v8-12)

CE: Ame repos de solitut / mes que si sadolaues los fameyans en lo secgla. E mes que si conuerties moltes gents a le conaxensa e a le honor de deu sobirane. (f. 2rb3-7)

ES: Ama reposo e apartado mas que fartar los fanbrientos del mundo e conuertir muchas gentes a conoscencia alta e honrra de dios. (f. 128va24-27)

PR: Ama folgança em apartado mais que fartar os famyntos do mundo e couerter muytas Jentes a conhocença alta. e ao seruiço de deus. (f. 7r6)

PL: Ama folgança do apartamẽto. mais que os que fartam os famyntos do mũdo. e conuerter muytas gentes a alto conhocim ẽto e aa honrra de deus. (f. 14r16)

Os excertos 1 e 2 sugerem que, além de o interposto do ramo formado por CS, CE, ES, PR e PL não estar em espanhol (pelo menos equivalente ao texto de EM, pois há muita discrepância), é possível que esteja em uma das 3 línguas em questão (catalão, espanhol [equivalente ao texto de ES] ou português), dado o alto grau de concordância entre as traduções. Mas qual delas?

A existência de erros conjuntivos entre a tradução espanhola de ES e a portuguesa de PR e PL, ausentes da tradução catalã, sugerem que esta tenha sido o modelo para as demais: se a espanhola de ES ou a portuguesa de PR e PL fossem o modelo para a catalã, também esta deveria apresentar os mesmo erros daquelas. Como exemplo de erro conjuntivo entre ES, PR e PL, podemos citar a substituição, nestes 3 testemunhos, do item que correspondente a continet na tradição latina20.

Claro está, portanto, que a tradução catalã precede a tradução espanhola de ES e a portuguesa de PR e PL: a proposta de prioridade da tradução catalã reitera a proposta defendida por Cambraia (no prelo-b), com base em excertos de outras seções da obra. Mas qual é a relação entre os 2 testemunhos catalães (CS e CE)?

Como tanto CS quanto CE apresentam erros privativos separativos, um não foi modelo para o outro; logo, a hipótese mais provável é a de que sejam cópias independentes (ramos diferentes) de um mesmo modelo [*C1], pois a concordância textual de forma geral indica ambos derivarem de uma mesma tradução catalã. Há, no entanto, erros conjuntivos entre CE, ES, PR e PL (ausentes de CS), e CE tem erro privativo separativo (não podendo ter sido o modelo para o ramo de ES, PR e PL): esses fatos apontam para a necessidade de um testemunho interposto [*C2]. Como exemplo de erro conjuntivo entre CE, ES e PR (e possivelmente PL), podemos citar a omissão de um trecho iniciado na tradução latina por Precedit21.

Entre a tradução espanhola de ES e a portuguesa de PR e PL, Cambraia (no prelo-b) defendeu a prioridade da primeira, o que os dados do presente estudo confirmam: há erro conjuntivo entre PR e PL, ausente de ES, como a substituição por continuada22. Nesse caso, o testemunho espanhol que deu origem a ES deveria apresentar contina, assim como ES a apresenta, levando o tradutor português a retificar como continuada (inovando o texto), e não como contínua (restabelecendo o que seria forma genuína, tal como aparece nos testemunhos catalães).

Por fim, como já dissemos que há erro privativo separativo em PR e PL, logo um não foi modelo para o outro, pertencendo a ramos distintos. Convém agora retomar aqui o tema de contaminação. Embora

Cambraia (no prelo-b) já tenha demonstrado contaminação em PL em

outros trechos da obra, também no trecho examinado encontram-se evidências. Um caso interessante é o da expressão mundi23, acrescentada na entrelinha de LL, mas ausente de LMi, sendo portanto uma adição no texto latino de LL: enquanto CE, ES e PR apresentam forma compatível entre si, PL apresenta justamente a expressão deste mundo, bem mais próxima do texto latino de LL. Note-se, aliás, que, nos dados de Cambraia e Laranjeira (2010), que abarcam 18 testemunhos latinos, apenas em LL aparece a expressão mundi nesse ponto, o que sugere que PL foi contaminado possivelmente pelo próprio texto latino de LL

- algo perfeitamente plausível, já que ambos pertenceram ao Mosteiro de Alcobaça em Portugal. Como PL forma um ramo próprio com PL2 e PE, a contaminação deve ter atingido o modelo para essa tradição (cf. o testemunho *L que contamina *P2 na figura 3 acima), já que os 3 testemunhos em português apresentam grande semelhança textual. Não terá atingido o modelo para a tradição portuguesa como um todo (cf. o testemunho *L que contamina *P na figura 3 acima), pois essa contaminação específica não ocorre em PR.

3.3 Síntese da tradição ibero-românica

Com base nos dados discutidos, propomos o seguinte estema provisório para representar a tradição ibero-românica da obra de Isaac de Nínive:

Figure 4.

FIGURA 4: Estema provisório da tradição ibero-românica

Atente-se para o fato de que a contaminação de LL foi ligada aqui diretamente a PL, pois não foram considerados os demais testemunhos do ramo próprio de PL nesta análise. Quando forem considerados, a contaminação será ligada ao modelo em português que deu origem ao ramo da tradição portuguesa de que faz parte PL.

Esta proposta representa a superação de uma proposta anterior muito limitada em termos de dados, apresentada por Cambraia, Melo e Vilaça (2008-2009: 423)24:

Figure 5.

FIGURA 5: Estema prévio da tradição latino-românica

Um grande progresso do novo estema proposto na figura 4 em relação ao estema prévio reproduzido na figura 5 encontra-se na percepção de que as traduções em línguas ibero-românicas fazem parte de um só ramo e de que há um encadeamento entre elas (catalã > espanhola de ES > portuguesa), confirmando a análise preliminar apresentada em Cambraia (2010a). Observamos, assim, que, na Península Ibérica, o processo de transmissão da tradição românica do Livro de Isaac teria seguido uma rota geográfica linear, do leste (Reino de Aragão) até o oeste (passando Reino de Castela até chegar ao Reino de Portugal).

Há, na figura 5, 11 outros testemunhos que não foram analisados aqui em função da limitação de espaço, mas futuramente tentaremos integrar ao novo estema esses outros testemunhos, com especial atenção à tradução francesa, que também parece ter ponto de contato com a tradição ibero-românica, diferentemente da italiana, que parece ser bastante independente das demais românicas.

A integração dos estemas prévios (figuras 1, 2 e 3) ao estema provisório elaborado aqui (figura 4) é viável, pois em muitos casos há diferença apenas no postulado de mais interpostos, e não em diferentes relações entre os testemunhos (ou seja, na separação diferente em ramos). Assim, a integração dos estemas das figuras 2 e 3 ao da figura 4 não apresenta nenhum problema. A dificuldade aparece no estema da figura 1 (da tradição catalã), na qual houve 3 traduções diferentes para o catalão:

uma deu origem ao texto do capítulo final de CE e CS, outra deu origem ao apêndice de CE e de CB e ainda outra deu origem ao texto [d]o capítulo final de CB. Como já se apurou que CE e CS não são um cópia do outro, deve-se admitir a existência de um testemunho a eles interposto em catalão (=*C), derivado de um texto latino (=*L2) que tinha a especificidade apresentada no excerto 7 deste trabalho25; além disso, como o apêndice de CE e de CB também não é um cópia do outro, deve- se admitir também a existência de um testemunho a eles interposto em catalão (=*C2), não sendo, porém, possível determinar se estaria ligado ao texto latino com a especificidade mencionada, razão pela qual se pode vinculá-lo temporariamente ao texto latino mais antigo da tradição (=*L); por fim, apesar de o já referido capítulo final presente em CB constituir uma tradução independente, é cópia, sendo necessário admitir a existência de um testemunho em catalão que lhe tenha servido de modelo (=*C3) (CAMBRAIA; CUNHA, 2008: 135).

A existência de mais de uma tradução catalã é confirmada por dados externos. Primeiramente, consta uma tradução em catalão no inventário da parte dos livros de herança de Guillem de Vall, de 8 de junho de 1373, no Arquivo Capitular da Catedral de Barcelona: “Item, quendam alium librum cum postibus cohopertis de corio viridi, scriptum in papiro, vocatum Liber de Issach de contemplacione anime, qui in primo folio in rubro: «Comence lo Libre de Issach etc.». Et sequitur ibidem in nigro: «Ànima que Déu ama». Et ultimo linea ipsius folii finit: «per obres de misericòrdia»”. MADURELL I MARIMON, 1974: 25-26). Em segundo lugar, há alusão a uma tradução que seria feita na lista de empréstimos entre 1411 e 1412 da Ordem da Cartuxa de Valldemossa em Maiorca, no Arquivo Histórico Municipal de Palma (AH, C-1667, f. 48v e 70v): “Item té frara Pere Valero, hermità, lo Libre del Abat Ysach, en romanç. És hi fermança fra Nicholau Mora, hermità (sic)” e “Item prestí a frare Pere Valero hermità per trelladar lo Libre del abat Ysach en romanç; entrami tangut fra Nicholau Mora hermità, lo qual me feu albarà de sa mà.” (LLOMPART, 1975: 208 e 209, itálico nosso). Como se sabe da existência de 2 testemunhos latinos maiorquinos (um perdido e o atual 529, ambos do Monestir de La Real, da Ordem de Cister), pode ser um destes a fonte para essa possível segunda tradução catalã do fr. Valero.

Considerações finais

Não podemos terminar sem deixar claro que a nossa proposta provisória de estema tem alguns limites.

O primeiro limite, naturalmente, diz respeito ao fato de o estema da figura 4 ter sido estabelecido com uma amostragem de dados (apenas o primeiro terço do primeiro capítulo da chamada Primeira Parte). Acreditamos, no entanto, que esse fato apenas evidencia a natureza exploratória deste estudo, mas não o invalida, sobretudo porque apresentou grande compatibilidade com os estudos prévios particulares de cada tradição (CAMBRAIA; CUNHA, 2008; CAMBRAIA, 2009; CAMBRAIA, no prelo-b). Uma análise profunda e extensa depende da existência de edição finalizada de todos os testemunhos considerados, condição que ainda levará tempo para se consumar, razão pela qual estudos exploratórios são sempre contribuições relevantes.

Um segundo limite diz respeito ao próprio método maasiano, que pressupõe tradição apenas com transmissão vertical, ou seja, sem contaminação (sem consulta a mais de um modelo pelos copistas). Em diferentes oportunidades (CAMBRAIA; LARANJEIRA, 2010: 23; VILAÇA, 2012: XCI, XCV, CVI, CXVIII-CXX; CAMBRAIA, no prelo-b), já se assinalou que a contaminação na tradição latino-românica da obra de Isaac de Nínive é um fato, e não poderia ser diferente, dada a abundância de testemunhos latinos. Acreditamos que o problema da contaminação pode ser superado com base em uma abordagem mais quantitativa, ou seja, a relação genética entre os testemunhos não depende apenas de haver erros conjuntivos, mas esses erros devem ser quantificados para determinar a qual tradição efetivamente se vinculam. A superação dessa limitação, no entanto, depende da já referida existência de edição finalizada de todos os testemunhos considerados, o que só poderá ser tratado futuramente.

Referências

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BROCK, Sebastian. From Qatar to Tokyo, by way of Mar Saba: the translations of Isaac of Beth Qatraye (Isaac the Syrian). Aram, n. 11-12, p. 475-484, 1999-2000.

CAMBRAIA, César Nardelli. Introdução à crítica textual. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

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_____ . Dulceça, dulçor, dulçura e dulcidom: um estudo de caso de variantes derivacionais no português medieval. Estudos de Lingüística Galega, Santiago de Compostela, v. 2, p. 37-56, 2010a.

_____. Tradição latina de Isaac de Nínive na Península Ibérica: sete testemunhos, séculos de história. Belo Horizonte, 2010b. (Comunicação apresentada no XXV Encontro Nacional da ANPOLL, 1-3 julho 2010, Universidade Federal de Minas Gerais).

_____ . Livro de Isaac (cód. 50-2-15 da BN): caminhos percorridos. Anais da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, n. 133, (no prelo-a).

_____ . Livro de Isaac: edição crítica da tradução medieval portuguesa da obra de Isaac de Nínive. Belo Horizonte: Núcleo de Estudos de Crítica Textual/FALE/UFMG, (no prelo-b).

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Recebido em 30/09/2016 e aceito em 06/12/2016.