Resumo

Apresentação

Texto

Um dos sinais da relevância e produtividade de um tema em um campo de saber é a recorrência com que ele é abordado, tematizado e discutido em pesquisas. Outro sinal – e, talvez, mais efetivo de sua relevância e produtividade – é a rede interdiscursiva que a reflexão em torno dele constrói: as remissões, retomadas, deslocamentos; as relações de aliança e contraposição que são construídas; os movimentos (sempre dissimétricos) que vão configurando espaços em que se constituem novos objetos teóricos, decorrentes de quadros teóricos distintos.

O tema da autoria tem este estatuto na Linguística brasileira, e este volume da Revista da ABRALIN testemunha isso. Quando nos propusemos a realizar esta organização, sabíamos que iríamos nos deparar com várias abordagens sobre o tema – a própria chamada para submissão de artigos a este volume da Revista previa isso. Nela, justificávamos:

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No Brasil, o tema ganhou uma relevância notável e um encaminhamento peculiar e tem sido abordado tanto por pesquisas que seguem os rumos clássicos das discussões sobre autoria, quanto por trabalhos quça relação entre processos editoriais e autoria, tradução e autoria, novos mídiuns e autoria. Este número temático da Revista da ABRALIN coloca em cena algumas das pesquisas que vêm sendo desenvolvidas no país sobre autoria, agrupando-as em três eixos [...]. (publicada no site da Revista, no 2º semestre de 2015)

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E listávamos os eixos sobre os quais as pesquisas sobre autoria deveriam se encaixar, caso quisessem ter aqui seu espaço de divulgação garantido. Os eixos apresentados foram os seguintes:

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i) alguns autores fundadores da discussão sobre autoria;

ii) problematizações da noção de autoria;

iii) autoria em contexto escolar.

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Conforme se pode observar no Sumário, esses eixos foram mantidos. Mas os artigos que constam em cada um deles estão longe de respeitar as fronteiras desses espaços discursivos pré-delimitados. A priori, não supomos que isso aconteceria; não imaginávamos que a leitura dos artigos aqui copilados pudesse permitir cartografar uma rede de inter-relações. Supúnhamos que teríamos um conjunto de trabalhos representativos de estudos sobre o tema, mas não esperávamos encontrar a configuração de um espaço interdiscursivo em pleno funcionamento. Ou, mais especificamente, esperávamos encontrar quadros teóricos bem delimitados, mas nos deparamos com um grande processo interdiscursivo de teorização.

Os artigos que compõem a Parte 1 deste volume, por exemplo, mais que apresentarem teorias fundadoras da discussão sobre autoria, fazem caminhar a reflexão; comparam, problematizam, deslocam conceitos1; apresentam dados dos bons2 e empreendem análises inquietantes3.

Por sua vez, os artigos copilados na Parte 2 não apenas apresentam dados que exigem revisões de conceitos vigentes de autoria4, ou então novos contextos discursivos que impõem reformulações teóricas5, mas problematizam o próprio processo de construção de teorias historicamente consolidadas sobre o tema6, mantendo, neste último caso, uma estreita relação com os artigos apresentados na Parte 1.

A Parte 3 do volume agrega artigos que discutem a questão da autoria em contexto escolar7, retomando propostas teóricas nacionais (especialmente as de ORLANDI e POSSENTI) que ocuparam boa parte das discussões sobre ensino de Língua Portuguesa (LP) no Brasil. Essas propostas sobre autoria foram formuladas no interior de um movimento teórico nacional que, ao pensar o ensino de LP, assumia como fundamentos as concepções de linguagem como atividade interativa, de texto como processo, de discurso como tomada de posição, e que, por isso, fazia ruir (ao menos em tese) uma velha tradição escolar que subjugava linguagem, textos e sujeitos a modelos formais pré-estabelecidos. A tematização do conceito de autoria, nesse contexto, foi o gatilho para que, na Linguística brasileira, um amplo processo de retomadas, deslocamentos, reformulações e novas proposições, em torno dessa problemática, tomasse lugar – mas não mais apenas de forma restrita ao contexto escolar; a reflexão se estendeu a contextos literários, digitais, etc., como testemunham vários artigos desta coletânea.

Entregamos, pois, aos leitores deste número temático, traçados de um mapa que delineiam domínios, fronteiras, e intersecções por onde tem se constituído o debate sobre autoria, a partir do olhar refinado de pesquisadores brasileiros8 que têm, já há algum tempo, se dedicado à pesquisa sobre o tema. Agradecemos a eles a contribuição na construção desta coletânea. Agradecemos, ainda, às respectivas universidades às quais são filiados, por sediarem suas pesquisas; às agências brasileiras de fomento à pesquisa, que têm subsidiado os trabalhos aqui apresentados; à Associação Brasileira de Linguística; e, em especial à direção da Revista da ABRALIN, pelo espaço aberto para a divulgação da pesquisa brasileira em Linguística – e pelo espaço concedido para o debate em torno da problemática da autoria. A todos os envolvidos neste trabalho – à Neuza Travaglia e Lívia Cremonez, pela tradução e revisão de alguns resumos em língua francesa e inglesa; e à Patrícia Mabel Kelly Ramos, pela padronização e diagramação dos artigos e da versão final deste volume – o nosso agradecimento.

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Uberlândia, inverno de 2016.

As organizadoras.