Resumo

Estudos recentes revelam que o /r/ retroflexo, típico do dialeto caipira (Amaral, 1982 [1920]), ainda permanece envolto por atitudes estereotipadas e estigmatizadas, apesar de campanhas, de toda natureza, tentarem minimizar qualquer tipo de preconceito. Por outro lado, as pesquisas que buscam delimitar a ocorrência dessa variante demonstram que sua amplitude é vasta no português brasileiro. Diante desse cenário paradoxal e com base nos estudos sobre atitudes linguísticas desenvolvidos pela Sociolinguística (Labov, 2008 [1972]), buscamos com este artigo evidenciar uma possível justificativa para essa aparente discordância entre as normas objetiva e subjetiva que permeiam a vitalidade do /r/ caipira. Para tanto, partimos da análise das respostas de 24 informantes naturais do Triângulo Mineiro, dadas a questões que versam sobre particularidade físicas e morais de um falante detentor do /r/ retroflexo frente a outro falante cujo rótico característico é o glotal. Dentre os resultados, constatamos que embora a variante retroflexa esteja, ainda, cercada pelo estereótipo do caipira, seus falantes apresentam fidelidade linguística devido a fatores morais próprios do caipira genuíno. Ademais, inferimos que a manutenção desse rótico deve-se, sobretudo, à existência de um prestígio encoberto motivado pelas características positivas do caipira somadas à sua nova configuração, isto é, a de pessoas inseridas em um contexto marcado pelo sucesso das duplas sertanejas e de pessoas famosas em geral que trazem como marca o /r/ retroflexo, além, é claro, do desenvolvimento econômico do interior de alguns estados que possibilitam aos ‘caipiras’ de hoje um avanço de nível social.