Resumo

Estudos recentes revelam que o /r/ retroflexo, típico do dialeto caipira (Amaral, 1982 [1920]), ainda permanece envolto por atitudes estereotipadas e estigmatizadas, apesar de campanhas, de toda natureza, tentarem minimizar qualquer tipo de preconceito. Por outro lado, as pesquisas que buscam delimitar a ocorrência dessa variante demonstram que sua amplitude é vasta no português brasileiro. Diante desse cenário paradoxal e com base nos estudos sobre atitudes linguísticas desenvolvidos pela Sociolinguística (Labov, 2008 [1972]), buscamos com este artigo evidenciar uma possível justificativa para essa aparente discordância entre as normas objetiva e subjetiva que permeiam a vitalidade do /r/ caipira. Para tanto, partimos da análise das respostas de 24 informantes naturais do Triângulo Mineiro, dadas a questões que versam sobre particularidade físicas e morais de um falante detentor do /r/ retroflexo frente a outro falante cujo rótico característico é o glotal. Dentre os resultados, constatamos que embora a variante retroflexa esteja, ainda, cercada pelo estereótipo do caipira, seus falantes apresentam fidelidade linguística devido a fatores morais próprios do caipira genuíno. Ademais, inferimos que a manutenção desse rótico deve-se, sobretudo, à existência de um prestígio encoberto motivado pelas características positivas do caipira somadas à sua nova configuração, isto é, a de pessoas inseridas em um contexto marcado pelo sucesso das duplas sertanejas e de pessoas famosas em geral que trazem como marca o /r/ retroflexo, além, é claro, do desenvolvimento econômico do interior de alguns estados que possibilitam aos ‘caipiras’ de hoje um avanço de nível social. 

Introdução

[...] Las actitudes influyen decisivamente en los procesos de variación y cambio lingüístico que se producen en las comunidades de habla. Una actitud favorable o positiva puede hacer que un cambio lingüístico se cumpla más rapidamente, que en ciertos contextos predomine el uso de una lengua en detrimento de otra, que la enseñanza – aprendizaje de una lengua extranjera sea más eficaz, que ciertas variantes lingüísticas se confinen a los contextos menos formales y otras predominen en los estilos cuidados. Una actitud desfavorable o negativa puede llevar al abandono y el olvido de una lengua o impedir la difusión de una variante o un cambio lingüístico Moreno Fernandez (1998:.179).1

A formação pluriétnica do português brasileiro e sua consequente miscigenação linguística têm incitado, desde o início da década de 60, estudiosos da área a descrever peculiaridades dos dialetos que aqui coexistem. A análise do mosaico linguístico brasileiro, já evidenciado por inúmeros estudos dialetais, enriquece-se ainda mais com o advento da Sociolinguística e dos estudos sobre atitudes e crenças linguísticas, incluindo-se outros fatores como idade, sexo, escolaridade, posição social e as atitudes dos falantes proporcionando, assim, uma compreensão mais bem delineada da variação e mudança linguísticas.

Movidos por coerções sociais e pelo próprio caráter de heterogeneidade da língua, os indivíduos delegam às variedades linguísticas e, em primeira instância, a seus falantes, sentimentos que vão desde a afetividade até a desvalorização, uma vez que “a avaliação de inferioridade ou de superioridade conferida a algum aspecto linguístico está associada aos valores sociais e não às características inerentes à linguagem” (Leite, 2011:18). O impacto de tais atitudes pode provocar a disseminação, o menor uso ou, até mesmo, a extinção de uma variante. Ademais, pode revelar padrões sociais do contexto em que seus usuários estão inseridos, já que “uma variedade lingüística vale o que valem os seus falantes, isto é, vale como reflexo do poder e da autoridade que eles têm nas relações econômicas e sociais” (GNERRE, 1994:6).

Alguns estudos recentes sobre o [y]2 do português brasileiro (doravante PB) demonstram que esse rótico, descrito por Amaral (1982 [1920]) como característica do dialeto caipira, tem sido alvo de atitudes negativas (Botassini, 2009; Leite, 2004; 2010; Guioti, 2002). No entanto, pesquisas atuais como as de Aguilera e Silva (2011), Brandão (2007), Castro (2006), dentre outras, também revelam que o /r/ retroflexo, ao contrário do que previa Amaral3 (1982 [1920]), encontra-se em expansão no PB. Para ilustrar a assertiva, é válido citar dados da cidade de Curitiba –PR, coletados pelo Atlas Linguístico do Brasil (ALiB)4, os quais apontam para uma produtividade significativa do referido rótico, algo não detectado, em 1994, ano da publicação do Atlas Linguístico do Paraná (Aguilera, 1994). Silva (2012), em seu trabalho, também voltado para a realização dessa variante, no Triângulo Mineiro, registra que, apesar de passados 36 anos da publicação do Esboço de um Atlas de Minas Gerais (Ribeiro et al., 1977), o /r/ retroflexo ainda predomina entre os falantes da região e tende a ampliar sua área geográfica e social de abrangência, pois ocorre, representativamente, na fala dos jovens.

Ademais é fato que o desenvolvimento social de cidades interioranas do sul de Minas Gerais, de Goiás, de São Paulo e do Paraná, focos da variante retroflexa, vem impulsionando uma nova cultura caipira, ou seja, aquela advinda, na maioria das vezes, dos rodeios e de seus participantes que, apesar de trazerem marcas dos caipiras de outrora, ocupam, não raramente, lugares sociais privilegiados, não andam mais de carroças, mas de carros e camionetas do ano, não usam mais roupas remendadas pelo gasto do tempo, mas, sim, orientadas pela moda. E, principalmente, não fazem delongas ao utilizar seu /r/ caipira. Ao lado disso, o forte crescimento de duplas sertanejas e de pessoas famosas detentoras desse rótico, ajudam, gradativamente, na manutenção e quiçá na difusão do /r/ retroflexo. Com a finalidade de entender e sistematizar esse possível cenário paradoxal acerca do [y], empreendemos, em 2012, uma pesquisa que, além de verificar a sua distribuição espácio-social em coda silábica, analisou, com base na proposta dos psicólogos sociais Lamber; Lambert (1968)5 dos falsos pares, as atitudes e crenças linguísticas de 24 falantes mineiros em relação ao /r/ caipira.

1. Breve aporte teórico

Em nosso meio, é amplamente disseminado o fato de que existem línguas, dialetos e variedades que representam classes sociais mais elevadas ou prestigiadas, característica que lhes incute, na maior parte das vezes, um lugar privilegiado na escala social, ou seja, maior status. A posição social que ocupa uma língua ou um dialeto somada às crenças e aos sentimentos que o indivíduo mantém em relação aos seus usuários, define a atitude linguística. Em outros termos, podemos entendê-la como uma postura, um comportamento positivo ou negativo diante de uma língua ou de uma variedade linguística particular, bem como frente aos seus falantes. Tarallo (1997:14), ao abordar o tema, acrescenta o conceito de identidade linguística, entendendo que as atitudes são “armas usadas pelos residentes para demarcar seu espaço, sua identidade cultural, seu perfil de comunidade, de grupo social separado”. Isso posto, o indivíduo, ao se posicionar positiva ou negativamente frente a uma variedade, reveste-se de uma identidade que o diferencia de um grupo, etnia ou povo.

A noção de identidade está ligada, por sua vez, à consciência linguística, ou seja, o falante precisa ter a capacidade de conhecer, bem como de distinguir as diferenças que englobam a língua, ou as variedades que o rodeiam. Barbosa (2002:22) apropriando-se de Scherfer (1982) defende que a consciência linguística “está ligada à língua, pelo poder de objetivação que esta comporta e pelas categorias de descrição que coloca à disposição”, uma vez que é “pela língua que expressões de forma fixa, de caráter comum e estereotipado podem ser transmitidas eficazmente”. Para López Morales (1993) a escolha de uma variante em detrimento de outra supõe, pelo menos, duas hipóteses: a primeira é a de que o falante reconheça à existência das duas variedades, já, a segunda remete à consciência sociolinguística, haja vista que ela regulamenta os posicionamentos linguísticos adotados pelos usuários de uma língua, ou de um dialeto, desencadeando atitudes linguísticas. Dentre as atitudes linguísticas mais estudadas, podemos citar: a hipercorreção (Labov, 1976); a segurança e a insegurança linguística (Calvet, 2004); a estereotipação; a estigmatização (Faggion, 2010; Frosi et al., 2010); o prestígio; o desprestígio e o prestígio encoberto, (Labov, 1976; Moreno Férnadez, 1998)6.

De acordo com Labov (2008 [1972]), podemos classificar as avaliações sociais direcionadas para as variedades linguísticas em três categorias: os indicadores, os marcadores e os estereótipos. Os primeiros são os traços linguísticos que incidem na variação social, mas que, na maioria das vezes, não estão no nível de consciência dos falantes, ou seja, pouco influenciam no julgamento que fazem diante de uma variedade ou de seu usuário. Ao contrário, os marcadores são traços presentes na variação social e na estilística que exercem uma influência significativa na avaliação de um falante e de sua variedade. Quando esses marcadores são muito notáveis, ou seja, perceptíveis pelo indivíduo e pela sociedade, temos, então, a consolidação do estereótipo e seu consequente impacto social na comunidade de fala7. Sinteticamente podemos definir o termo estereótipo como um processo de categorização, de natureza subjetiva, impulsionado por padrões cristalizados na sociedade. Em outros termos, é a tipificação e a redução de alguém ou de algum grupo tendo em vista suas peculiaridades, ou seja, seus marcadores. Essas mesmas marcas ou traços que servem para incluir o falante ou um grupo em determinada categoria ou tipo, pode torná-lo “menos desejável, ou seja, um indivíduo possui um traço que se impõe à atenção e pode afastar as pessoas, que deixam de ver seus outros atributos. Tal traço é o estigma” (Faggion, 2010:.62). Os que não possuem serão os normais, capazes de discriminar e reduzir as chances dos que o possuem, com base em ideologias e em interferências sem fundamento. Todavia, segundo Labov (2008 [1972]), embora sejam estigmatizados, os traços linguísticos estereotipados sofrem alterações de status de acordo com as mudanças sociais ao longo do tempo, fato que pode posicionar uma variante que hoje ocupa um lugar inferior em uma escala mais bem posicionada na sociedade, ou vice e versa. Dito de outra forma,

caso haja uma forte reação social contra esses traços linguísticos, essa reação pode desencadear “um rápido processo de eliminação e, consequentemente, o seu desaparecimento. Por outro lado, caso o grupo ou comunidade de fala que faça uso de tais traços passem a ser avaliados positivamente, e obtenha notoriedade na sociedade, o movimento contrário pode ocorrer, e o traço linguístico antes estigmatizado pode se tornar alvo de avaliações positivas, chegando mesmo a ser copiado (Leite, 2011:111).

Com base nos postulados sobre atitudes linguísticas, aqui apresentados, procuramos neste artigo evidenciar quais são as atitudes manifestadas pelos informantes em questão, bem como verificar de que forma elas podem interferir na vitalidade do /r/ caipira.

2. A pesquisa: aspectos metodológicos

Os dados e resultados apresentados neste artigo fazem parte da pesquisa de mestrado de Silva (2012). Tal estudo intitulado O /r/ caipira no triângulo mineiro: um estudo dialetológico e de atitudes linguísticas tem como base os princípios teórico-metodológicos da Dialetologia Pluridimensional (Thun, 2005) e da Sociolinguística (Labov, 1996) que trata de atitudes e crenças linguísticas.

Na oportunidade, foi investigada a dinamicidade e a distribuição do /r/ retroflexo, nos municípios de Frutal, Campina Verde, Iturama, Ituiutaba, Prata e Uberlândia, todos situados no Triângulo Mineiro, analisadas em tempo aparente e real, a partir da comparação de dois corpora, ou melhor, dois recortes sincrônicos (real time); um com os dados de 1977, do Esboço de um Atlas linguístico de Minas Gerais - EALMG (Ribeiro et al., 1977)8, e outro com dados recentes coletados para esta pesquisa (2011)9 e pelo projeto Atlas Linguístico do Brasil (ALiB), regional do PR, em (2009).

Ademais, a fim de verificar se a realização da variante retroflexa está condicionada ou não às crenças e atitudes, foram colocados para audição dos 24 informantes entrevistados duas gravações de um texto lido por um par de locutores diferentes e, na sequência, aplicado um questionário, baseado no método-teórico dos psicólogos sociais Lambert; Lambert (1968).

Vale lembrar que esses estudiosos analisaram atitudes linguísticas por meio de um artifício denominado técnica dos falsos pares. Na realidade, eles apresentavam a ouvintes ingleses e franceses uma gravação, ora lida em francês, ora em inglês, advinda, entretanto, da mesma pessoa – os indivíduos que ouviam as gravações, porém, pensavam que se tratavam de falantes diferentes. Esses ouvintes, em seguida, preenchiam uma ficha avaliativa apontando defeitos e qualidades ligados ao caráter, beleza, postura, entre outras características do dono da voz. Assim, Lambert; Lambert (1968) acreditavam verificar os julgamentos das pessoas diante de outras, baseados apenas na voz e, nesse particular, na língua que utilizam.

Neste trabalho, com as devidas adequações, utilizamos um método semelhante ao desses pesquisadores: solicitamos a dois informantes homens com idades e profissões semelhantes, um natural do interior do Paraná, que apresenta como característica o /r/ retroflexo e outro da região da Zona da Mata de Minas Gerais cujo rótico é o /r/ glotal10 para lerem um texto que oferece várias palavras com /r/ em coda interna11. Essas leituras foram gravadas e, ao final da pesquisa dialetológica, apresentadas aos informantes para que preenchessem uma ficha avaliativa12, na qual apontavam sua opinião a respeito da aparência, profissão, postura, caráter, inteligência, e outros, dos donos das vozes.

3. Os resultados

3.1     Síntese dos resultados dialetológicos13

Os dados levantados, nas seis localidades, excetuando-se a queda de /r/, somam um total de 556 róticos, distribuídos entre 512 ocorrências da variante retroflexa (93%) e 44 da glotal (07%). Nosso estudo em tempo real ratificou, dessa forma, a estabilidade e a predominância do /r/ retroflexo no Triângulo Mineiro conforme já apontavam os dados do EALMG, em 1977. Verificamos, no entanto, a incursão do /r/ glotal, não mapeada pelo atlas, mas presente, hoje, em todas as cidades, seja em maior ou menor grau.

3.2 Descrição e análise das crenças e atitudes linguísticas

O questionário utilizado para esta parte da pesquisa, conforme já mencionamos, versa sobre aspectos físicos, sociais e morais dos locutores, sendo um com a marca do /r/ caipira (falante 1) e outro com a do /r/ glotal (falante 2). As características avaliadas podem ser divididas em quatro grupos, de acordo com o exposto:

(i) física e psíquica: esta pessoa que você ouviu é feia; (...) é inteligente;

(ii) ligadas à fala: essa pessoa que você ouviu sente vergonha de falar assim; (...) fala corretamente;

(iii) sociais: esta pessoa que você ouviu é estudada; (...) é atrasada, (...) sofre preconceito social;

(iv) atitudinais/morais: esta pessoa que você ouviu é grossa; (...) é trabalhadora; (...) ajuda os outros quando precisam; (...) dá valor aos ensinamentos dos pais, é de confiança.

O questionário apresentado aos entrevistados era composto por duas opções de resposta: concordo ou discordo. Além das questões explicitadas, propúnhamos uma pergunta direta sobre a profissão exercida pelos donos das vozes que eles ouviam.

A análise geral dos dados revelou que as questões referentes às peculiaridades físicas e psíquicas (grupo I) não desencadearam diferenças, pois 46% dos informantes acreditam que tanto o falante do /r/ retroflexo quanto o do/r/ glotal é feio e 96% concordam que os dois são inteligentes. Em virtude disso, analisamos os resultados obtidos mediante os demais grupos de características.

No gráfico 1, apresentamos os números relacionados com as respostas dadas às demais perguntas.

Figure 1.

GRÁFICO 1: Resultados das crenças e atitudes dos falantes

Legenda do gráfico 1 Q.03: esta pessoa que você ouviu sente vergonha de falar assim; Q.04: fala corretamente; Q.05: é estudada; Q.06: sofre preconceito social; Q.07: é atrasada; Q.08: é grossa; Q.09: é trabalhadora; Q.10: ajuda os outros quando precisam; Q.11: engana os outros; Q.12: dá valor aos ensinamentos do pai; Q.13: é de confiança.

A aparente estabilidade entre as opiniões começa a tomar outra forma quando entram em pauta as peculiaridades ligadas à maneira de falar dos informantes, uma vez que 13% deles concordam que o falante 2 sente vergonha da sua fala e 88% pensam que ele fala corretamente, enquanto que as respostas dadas ao falante do /r/ caipira (falante 1) atingem, respectivamente, 17% e 63%.

Nas questões seguintes, isto é, naquelas referentes às características sociais, reunidas no grupo III, registramos, ainda, uma depreciação maior dirigida ao falante 1, pois, na opinião dos informantes, ele tem menos estudo (75%), sofre mais preconceito social (46%) e parece ser uma pessoa mais atrasada (21%) quando comparado ao falante detentor do /r/ glotal que foi, unanimemente (100%), caracterizado como alguém estudado e acometido de menos preconceito (13%) e atraso (13%) social.

Resultados inversos, porém, foram obtidos nas perguntas relacionadas aos aspectos atitudinais e morais dos donos das falas. As respostas, dessa vez, apontaram que o desprestígio antes atribuído ao falante 1 recai sobre o outro. Vejamos:

· Questão 08: apenas 17 % acreditam que o falante do /r/ retroflexo seja uma pessoa grossa, tal porcentagem sobe para 42% quando tratamos do falante do /r/ glotal;

· Questão 09: menos pessoas pensam que este falante (do /r/ glotal) é trabalhador (80%), em contrapartida, um número maior (88%) ajuíza o mesmo em relação ao falante 1;

· Questão 10: somente metade dos entrevistados (50%) concorda que o falante 2 ajuda os outros quando precisam; esse número cresce para 85% quando se trata do falante 1;

· Questão11: poucos informantes (17%) julgam o falante possuidor do [y] como alguém que engana os outros, mais pessoas (50%), no entanto, avaliam dessa forma o falante do [h];

· Questão 12: a alta porcentagem de 88% revela que os indivíduos pensam que o falante 1 dá mais valor aos ensinamentos dos pais frente ao falante 2 (63%);

· Questão.13: uma diferença significativa aponta, ainda, que este é visto como uma pessoa de menos confiança (42%) que aquele (80%).

Conforme o exposto, constatamos que o falante detentor do /r/ retroflexo é avaliado negativamente quando estão em pauta assuntos relacionados diretamente à sua fala e a questões sociais. Contudo, quando se trata de aspectos morais, registramos que a avaliação é positiva. Tal resultado é, ainda, ratificado mediante a análise das profissões atribuídas aos falantes dispostas no quadro 1.

Table 1.

QUADRO 1: Profissões atribuídas ao falante do /r/ retroflexo e ao do /r/ glotal.

Profissões - /r/ retroflexo N°. Profissões - /r/ glotal N°.
Agricultor 03 Advogado 07
Comerciante 02 Médico 04
Estudante 02 Professor 02
Locutor 02 Agricultor 02
Advogado 01 Gerente 02
Auxiliar de escritório 01 Empresário 01
Balconista 01 Locutor 01
Empacotador 01 Açougueiro 01
Entrevistador 01 Ator 01
Funcionário Público 01 Jornalista 01
Mecânico 01 Publicitário 01
Médico 01 Não respondeu 01
Operário 01
Pedreiro 01
Repórter 01
Serviços gerais 01
Trabalhador rural 01
Vendedor 01
Não respondeu 01
Total: 24 24

Por meio desse quadro, é possível verificar que as profissões mais bem avaliadas socialmente foram, em maior número, atribuídas ao falante do /r/ glotal, pois 29% dos entrevistados acreditam que se trata de um advogado e 17% pensam que ele é médico. Na realidade, salvo as citações de açougueiro e agricultor que atingem 12,5% das respostas, os demais ofícios (37,5%) requerem ensino superior, ou, no mínimo, um grau de instrução mediano. Ao agrupar os números, constatamos que as funções mais prestigiadas perfazem o total de 83,5% das respostas, as menos prestigiadas 12,5% e 4% representam abstenções de reposta.

Quando analisamos os cargos indicados para o falante do /r/ caipira, os resultados são contrários, ou seja, 58% dos informantes atribuem a esse falante profissões que não exigem níveis altos de escolaridade, tais como agricultor, balconista, empacotador, mecânico, trabalhador rural, pedreiro, entre outros. Registramos, apenas, uma ocorrência para médico e uma para advogado que somam apenas 8%. Houve 4% de abstenção de resposta e 30% referem-se a ocupações que, supostamente, são mediadas pelo estudo, como, por exemplo, entrevistador, funcionário público, locutor e assim por diante.

Vale lembrar que a maior parte dos entrevistados desta pesquisa compõe um universo de pessoas simples, com baixo poder aquisitivo e nível de escolaridade, alguns estudaram apenas um ano durante a vida toda. Além disso, todos eles exercem profissões que não exigem um grau elevado de especialização, como as de motorista, faxineira, balconista, doméstica, pedreiro, entre outras. Em face disso e dos resultados obtidos nesta parte da pesquisa, enfatizamos a presença hipotética do sentimento de identidade dos informantes para com o falante do /r/ retroflexo. Outro fator importante que provavelmente influenciou os dados diz respeito à possível identificação linguística dos entrevistados com o falante do /r/ caipira, haja vista que esse é o rótico característico da fala do Triângulo Mineiro.

Com base nesse cenário, pudemos detectar, igualmente, a presença dos componentes da atitude linguística citados por Gómez Molina (1998), a saber: o componente cognitivo, no qual intervêm os conhecimentos e pré-julgamentos dos falantes, tais como as crenças, a consciência sociolinguística, os estereótipos, entre outros; o componente afetivo, baseado em juízos de valor acerca das características da fala e, por fim; o componente conativo que reflete a tendência a reagir perante dado contexto.

Em suma, os resultados e os índices obtidos por meio das questões analisadas possibilitam conjecturar que existe entre os informantes uma consciência sociolinguística da marca que recobre a variante caipira, ou seja, subjetivamente eles acreditam que esse traço fonético é próprio de uma pessoa mais simples, menos estudada, possuidora de fala menos correta, mas que, por outro lado, ajuda, trabalha, respeita mais e engana menos seu semelhante. Tal resultado pode estar associado ao estereótipo do caipira cristalizado culturalmente em nossa sociedade, isto é, o de uma pessoa mais honesta, humilde e confiável. Em outros termos, podemos inferir que eles atribuem ao falante 1 qualidades positivas que creem internalizadas em si mesmos, desencadeando dessa forma um processo de lealdade linguística.

Ademais, acreditamos que a predominância, mesmo passadas mais de três décadas entre um corpus e outro, do /r/ retroflexo constatada na parte dialetológica desta pesquisa, pode estar vinculada à nova configuração do caipira que, além de possuir as qualidades morais que outrora o caracterizava, hoje, também pode ser visto como um indivíduo dotado de uma situação financeira consolidada, proprietário de terras e bens que ele faz questão de exibir nos rodeios realizados, em grande parte, no estado vizinho, isto é, em São Paulo. Diante dessa mudança brusca, algumas marcas, voluntária ou involuntariamente, persistiram e, como expoente, podemos citar a fala que traz como uma de suas características principais o /r/ retroflexo.

O sentimento de identidade que supomos atuar em nossos resultados pode estar relacionado ao que Labov (1976) denomina de prestígio encoberto (covert prestigie) ligado ao desejo do falante de manter sua identidade no interior de seu grupo social. Dito de outra forma, o covert prestige está ligado ao valor que determinado grupo de falantes delega a uma forma linguística supostamente desprestigiada. “A noção de prestígio encoberto está associada à noção da identidade social, ao orgulho lingüístico, à pertinência a uma dada classe social ou comunidade de fala” (Roncarati, 2008:52).

O novo status do caipira, associado a um processo de mudança social de revalorização, somado à sua imagem, culturalmente construída, de pessoa honesta e respeitadora lhe possibilitam ultrapassar a negatividade do estereótipo socialmente difundido que existe em torno do /r/ retroflexo e faculta aos falantes da comunidade investigada prestigiar esse rótico e avaliar positivamente o pertencimento ao grupo em que se insere, ainda que restem resquícios de sua estigmatização. Para Paiva (2004:72)

as formas linguísticas socialmente desvalorizadas podem assumir uma função de garantir a identidade do indivíduo com um determinado grupo social. Isto é, são formas partilhadas no interior de um grupo e assinaladoras da sua individualidade. Se um indivíduo quer integrar o grupo, deve partilhar também, além das suas idéias e atitudes, a linguagem valorizada por esse grupo. Neste caso, determinadas formas de linguagem passam a possuir um status, na medida em que são desprovidas de prestígio no interior da sociedade.

Guiotti (2002) chega a um resultado semelhante ao estudar o retroflexo na cidade de São José do Rio Preto. Apesar de verificar um grau médio de estigmatização em direção ao [y], a autora constata a manutenção desse rótico na fala dos 60 riopretenses entrevistados. Segundo ela, tal manutenção está diretamente ligada ao crescimento econômico do interior de São Paulo, no qual o referido rótico é marca dialetal.

Além dos indícios que as atitudes dos informantes apontam em relação ao /r/ retroflexo, outras variáveis extralinguísticas consideradas na pesquisa, como o sexo, por exemplo, auxiliam na compreensão dos dados. No caso deste trabalho, verificamos que, embora numericamente as diferenças se mostrem pouco expressivas, os jovens (94%) são mais sensíveis à utilização do [y] quando comparados com os informantes da segunda faixa etária (90%). Guiotti (2002), com base em dados da fala de São José do Rio Preto –SP apura, também, que o [y] é executado fortemente entre os informantes jovens.

Dessa forma, podemos inferir que a variável faixa etária desencadeia maior fidelidade dos jovens em relação ao seu rótico. Resultado que pode estar atrelado à nova configuração do caipira, já comentada, somada ao crescente número de personalidades famosas que não se constrangem ao utilizar o /r/ puxado, como, por exemplo, Graziella Soares Massafera (Grazi Massafera, atriz e apresentadora da TV Globo), Ana Maria Braga Maffei (Ana Maria Braga, apresentadora de programa de culinária também na TV Globo), Hortência de Fátima Marcari (ex jogadora de basquete), além dos comentaristas de futebol das principais emissoras de televisão paulista e dos jornalistas do Programa CQC, entre outros. Esse resultado, nos leva, também, a conjecturar que a vida da variante retroflexa é longa, haja vista que os jovens a mantêm. Por outro lado, é possível inferir que, provavelmente, em algum momento na vida dos informantes que, hoje, são idosos, a estigmatização da variante caipira possa ter influenciado na sua fala, justificando, assim, a menor recorrência entre eles. No entanto, tal inferência necessita de uma pesquisa que a confirme.

Rumo às conclusões

Os resultados da pesquisa dialetológica vinculados aos do estudo sobre as atitudes linguísticas dos nossos informantes mineiros possibilitam afirmar que, ao contrário do que previa Amaral (1982 [1920]), o /r/ retroflexo, uma das marcas mais autênticas do dialeto caipira, não está em vias de desaparecimento. Podemos asseverar, mediante estudo em tempo aparente, que tal variante tende a ser mantida entre os falantes do Triângulo Mineiro, pois foi registrada na fala de todos os informantes, independentemente da idade, com incidência maior entre os jovens que são, por excelência, os propulsionadores de mudanças linguísticas.

Ademais, os dados revelam a existência do estigma, meramente no sentido de marca, acerca do /r/ retroflexo envolto no estereótipo do caipira. Porém, a relação de identidade linguística e, quiçá, de prestígio encoberto dos informantes para com a variante retroflexa demonstram, somado ao plano horizontal que expusemos, que o estigma não interfere em sua produtividade.

Além disso, faz-se necessário realizar pesquisas mais abrangentes que enfatizem conceitos e padrões referentes às atitudes linguísticas das comunidades de fala, bem como seja levada em consideração a imagem do caipira na sociedade atual. Só assim poderemos comprovar se o status dirigido ao /r/ retroflexo, está, de fato, mudando para melhor e, consequentemente, conduzindo os jovens a um processo de revalorização do /r/ retroflexo refletido na lealdade linguística de seus falantes.

Finalizando, esperamos com esta pesquisa abrir espaço para que futuros estudos pautados nesse tema façam um levantamento sobre como a sociedade vê o atual caipira e a importância que sua figura emite, principalmente, no universo jovem. Talvez um trabalho que leve em consideração esse quesito demonstre com mais propriedade o curso de vida da variante caipira e nos permita lançar uma previsão oposta a de Amaral (1982 [1920]): o /r/ retroffexo estaria em vias de expansão e seu estereótipo, aos poucos, tende a tomar outra forma e atrelar-se à fala de uma geração de caipiras escolarizados e bem sucedidos.

Referências

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Recebido em 22/01/2015 e Aceito em 10/06/2015.