Resumo

Este estudo, fundamentado nos pressupostos teórico-metodológicos da Sociolinguística Variacionista (Weinreich, Labov, Herzog, 1968; Labov, 1972, 1982, 1994, 2001), propõe, a partir de uma análise sobre a incidência do processo variável de síncope em proparoxítonas (óculos ~ óclos, abóbora ~ abóbra) em dados do português falado no Sul do Brasil, uma generalização sobre a aplicação do fenômeno de apagamento vocálico no português brasileiro (PB). No total, 102 entrevistas concedidas ao banco de dados VARSUL por informantes com baixo grau de instrução (nível primário) e nativos dos três estados da Região Sul do Brasil, foram investigadas. Os grupos de fatores apontados como estatisticamente relevantes à aplicação do processo de síncope indicam que o fenômeno é fortemente condicionado por variáveis linguísticas diretamente relacionadas às restrições silábicas universais e condições particulares da boa formação da sílaba no português. 

Introdução

A síncope, fenômeno recorrente na evolução das línguas, trata-se de um processo que consiste na supressão de um ou mais segmentos, em geral vocálicos átonos, situados no interior de palavras (Dubois, 1978). No que diz respeito particularmente à história da língua portuguesa, conforme atesta a literatura (Nunes, 1969; Coutinho, 1970; Williams, 1973; Ilari, 2002), a atuação mais significativa da síncope foi registrada na passagem do latim vulgar ao português. Nesse período, o fenômeno de apagamento incidiu majoritariamente sobre as vogais do grupo lexical proparoxítono (viride > verde, manica > manga, littera > letra, lepore > lebre), transformando o acento paroxítono no padrão default do português.

No que diz respeito aos contextos linguísticos favorecedores da síncope no latim vulgar, a queda da vogal postônica não final era observada com mais frequência, segundo Coutinho (1970), quando a vogal-alvo encontrava-se:

(i) antecedida por consoante e seguida por lateral ou vibrante (másculus > másclus; áltera > áltra; sácerus > sócrus);

(ii) precedida por consoante labial e seguida por consoante nasal (dóminos > dómnus; lámina > lámna);

(iii) antecedida por líquida e sucedida por consoante (áridus > árdus; víridis > virdis; cálidus > cáldus; sólidus > sóldus);

(iv) precedida por /s/ e seguida por consoante (pósitus> póstus).

A partir dessas informações, é possível presumir que a síncope manifestava-se, sobretudo, em contextos linguísticos que possibilitavam a formação de uma nova sílaba, incitada pela elisão da vogal postônica não final. Essa ressilabação, conforme ilustram os dados, era ou uma ressilabação regressiva – quando a consoante flutuante passava a ocupar a posição de coda final da sílaba precedente (cá.li.dus > cál.dus; pó.si.tus > pós.tus); ou uma ressilabação progressiva – quando a consoante isolada assumia a posição de primeiro elemento do ataque complexo da sílaba consecutiva (más.cu.lus > más.clus; sá.ce.rus>sá.crus).

Apesar de o fenômeno de supressão vocálica ter atuado de forma mais significativa na passagem do latim ao português, estudos sincrônicos, dedicados à investigação do processo nas mais diversas variedades do PB, ainda identificam a atuação da síncope sobre o grupo das proparoxítonas. As análises acerca da síncope (Amaral, 1999; Silva, 2006; Lima, 2008; Ramos, 2009; Gomes, 2012), conduzidas principalmente sob a perspectiva teórico-metodológica da Sociolinguística Variacionista, têm apontando que o processo de apagamento ainda opera variavelmente no português (xícara ~ xícra; fósforo ~ fósfro, óculos~ óclos), apesar de baixos índices de aplicação serem computados.

Pautados essencialmente em análises de oitiva do fenômeno, os estudos supracitados, ao descreverem a atuação da síncope em diferentes regiões do Brasil, no geral, apresentaram resultados muito próximos no que tange ao condicionamento linguístico favorecedor da atuação do fenômeno, a saber2:

(i) as consoantes líquidas (lateral/ vibrante), situadas no contexto seguinte à vogal-alvo, vem sendo destacadas como os fatores que colaboraram de forma mais efetiva para elisão vocálica (xí. ca.ra ~ xi.cra; pétala ~ pétla);

(ii) as consoantes labial e velar, situadas antes da vogal postônica, também têm sido apontados como co-operadores da regra de apagamento (fós.fo.ro ~ fós.fro; chá.ca.ra ~ chá.cra);

(iii) a vogal dorsal /a/ (chácara ~ chácra) e as vogais labiais /o/ e /u/ (abóbora ~ abóbra, óculos ~ óclos) têm sido indicadas como propícias à queda.

No que diz respeito à relevância dos grupos de fatores extralinguísticos no condicionamento da síncope, assume destaque a variável Escolaridade, apontada pela maioria dos trabalhos (Amaral, 1999; Silva, 2006; Lima, 2008; Gomes, 2012) como a variável social mais relevante à aplicação do fenômeno: a síncope é verificada, essencialmente, na fala de sujeitos com baixo grau de instrução. Tal resultado é, em certo ponto, previsível, já que o fenômeno pode ser enquadrado, nos termos labovianos, no rótulo estereótipo, visto que se trata de uma forma avaliada de maneira consciente pelos usuários da língua, e assume, nessa avaliação, valor negativo (estigma). Sendo assim, formas sincopadas seriam associadas, portanto, à fala de grupos sociais menos privilegiados.

Com base nessa breve revisão sobre os estudos acerca do fenômeno, delimitou-se, como objetivo geral deste trabalho, traçar um panorama do comportamento variável da síncope em vogais postônicas não finais no português falado no Sul do Brasil. Para tanto, foram analisados todos os inquéritos de fala de sujeitos com baixo grau de escolaridade (nível primário) que compõem a amostra base do banco de dados VARSUL, englobando, portanto, os três estados sulinos. Essa investigação justifica- se em virtude da carência de estudos acerca do tema nas localidades delimitadas3.

Na próxima seção, a metodologia empregada na realização deste trabalho será exposta. Nas seções 2 e 3, os resultados atingidos por este estudo serão apresentados e discutidos. Por fim, as conclusões alcançadas por esta pesquisa serão divulgadas.

1. Metodologia

Nesta análise, foram investigadas 102 entrevistas de fala de natureza semiespontânea, concedidas pelo banco VARSUL, referentes aos três estados sulinos (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná). De cada um dos estados, as cidades investigadas foram: Rio Grande do Sul – Flores da Cunha, Panambi, Porto Alegre, Rincão Vermelho, São Borja; Santa Catarina – Blumenau, Chapecó, Florianópolis, Lages; e Paraná – Curitiba, Irati, Londrina e Pato Branco4.

Em relação ao grau de escolaridade, os informantes pesquisados apresentavam apenas o nível primário, isto é, haviam cursado até a quarta série do que atualmente rotulamos como Ensino Fundamental. Essa resolução deu-se em função dos resultados, expressos pelas pesquisas anteriores (Amaral, 1999; Silva, 2006; Lima, 2008; Ramos, 2009), de que a escola exerce força antagônica à aplicação da regra de apagamento vocálico, visto que informantes com maior nível de escolaridade foram apontados pelas pesquisas relatadas como aqueles que exibem menores índices de síncope em proparoxítonas.

Os sujeitos em análise, desse modo, foram estratificados socialmente nas seguintes categorias: (i) sexo (feminino e masculino); (ii) faixa etária (de 25 a 43 anos, de 44 a 59 anos e a partir de 60 anos); (iii) região (RS, SC, PR). O Quadro 1 a seguir ilustra a organização dos informantes nas respectivas células sociais.

Table 1.

QUADRO 1: Estratificação dos informantes

RS SC PR
fem. masc. fem. masc. fem. masc.
25 a 43 anos 6 5 8 3 7 8
44 a 59 anos 7 8 3 9 6 5
60 anos ou + 6 6 5 4 3 3
Totais 19 19 16 16 16 16

No que diz respeito aos dados levados em conta nesta análise, optou- se pela investigação exclusiva das proparoxítonas nominais. Essa medida foi tomada já que não há registro, na literatura, de apagamento vocálico postônico não final em verbos com acento na antepenúltima sílaba.

1.1 Envelope de variação

Nesta pesquisa, as variantes que concorrem pela expressão da variável dependente são queda da vogal postônica não final e preservação da vogal postônica não final, conforme ilustram as informações expostas na Tabela 1.

Table 2.

TABELA 1: Variável Dependente

VARIANTES EXEMPLOS
Queda da vogal postônica não final Preservação da vogal postônica não final óclos, árvre óculos, árvore

Conforme os estudos referentes à atuação do processo de síncope em dados do PB (Amaral, 1999; Silva, 2006; Lima, 2008, Ramos, 2009, Gomes, 2012), o fenômeno de síncope tem apresentado baixos índices percentuais de aplicação, oscilando entre 8 e 25%. Entretanto, como este estudo não abarca dados de fala de informantes com alto grau de instrução, como as demais pesquisas referidas (Cf. Seção 1), aventamos a hipótese de que, nos dados em exame, a aplicação de síncope seja superior a esses valores.

As variáveis linguísticas controladas como possíveis condicionadoras do processo de síncope foram: Contexto precedente, Contexto seguinte, Traço de articulação da vogal, Estrutura da sílaba anterior, Extensão da palavra, Tipo de acento e Classe gramatical. A Tabela 2, a seguir, apresenta cada uma das restrições consideradas, os fatores componentes de cada um dos grupos de fatores, assim como exemplos ilustrativos.

Table 3.

TABELA 2.: Variáveis independentes linguísticas

VARIÁVEL FATORES EXEMPLOS
Contexto precedente labial alveolar velar palatal abóbora módulo máscara mágica
Contexto seguinte líquida vibrante líquida lateral obstruintes chácara óculos quilômetro
Traço de articulação da vogal dorsal labial coronal xícara árvore quilômetro
Estrutura da sílaba tônica sílaba leve sílaba pesada xícara fósforo quilômetro
Extensão da palavra três sílabas mais de três sílabas árvore espírito
Tipo de acento acento enfático acento frasal acento enfático e frasal sem incidência de acento enfático ou frasal (1) (2) (3) (4)
Classe gramatical Substantivo Adjetivo pétala mínimo

Exemplos (Variável Tipo de Acento):

(1) “[...] tipo assim eu acho que não 'tem.” (acento enfático)

(2) “[...] metade da ´chácara.” (acento frasal)

(3) “É uma <*dádiva>!” (acento frasal e enfático)

(4) “É lógico que 'não”. (sem incidência de acento frasal ou enfático)

As variáveis independentes extralinguísticas consideradas, por sua vez, foram: Faixa etária, Sexo e Região5. A Tabela 3 apresenta os fatores estipulados para cada um dos grupos de fatores.

Table 4.

TABELA 3.: Variáveis independentes extralinguísticas

VARIÁVEIS FATORES
Faixa etária de 25 a 43 anos de 44 a 59 anos a partir de 60 anos
Sexo feminino masculino
Região RS SC PR

Após a etapa de transcrição e codificação das proparoxítonas encontradas nas 102 entrevistas, os dados foram, então, submetidos ao aplicativo Goldvarb X6. Os resultados da análise multidimensional encontram-se expostos na próxima seção.

2. Apresentação e discussão dos resultados

Após a submissão dos dados à análise estatística, verificou-se que, do total de 102 falantes investigados, 41 não apresentaram variação, no que diz respeito ao fenômeno em exame, em suas falas. Em vista dessa constatação, passaram a ser analisados, portanto, os dados encontrados em apenas 61 das entrevistas7. No gráfico seguinte, expomos a configuração da “nova amostra”, estratificada de acordo com o estado de origem dos informantes.

Figure 1.

GRÁFICO 1: Amostra inicial e amostra final

A partir dos dados provenientes da amostra reorganizada, procedeu- se, então, à análise estatística. Do total de 2.397 proparoxítonas contabilizadas, a síncope foi verificada em 8% dos dados (196/2.397). O gráfico a seguir ilustra a frequência global de ocorrência do fenômeno na amostra em exame.

Figure 2.

GRÁFICO 2: Frequência global de aplicação de síncope

Em consonância com os resultados apresentados pelos estudos revisados (Cf. Introdução), o fenômeno, diferentemente do que foi registrado no período de formação do português, apresenta, nos dados do Sul do país, baixos índices de aplicação. Os estudos de Amaral (1999), Silva (2006), Lima (2008), Ramos (2009) e Gomes (2012), conforme já mencionado, também encontraram taxas percentuais de apagamento da vogal postônica não final relativamente baixas, oscilando entre 8 e 25%. O pequeno índice de apagamento, além do mais, vai na direção do que é enfatizado por Araújo et al. (2008), segundo os quais, do total de palavras proparoxítonas presentes no léxico do português, a síncope teria “aval” do sistema para se manifestar em apenas 30%, sem violar as restrições silábicas universais e parâmetros de constituição da sílaba do português. Nas palavras dos autores:

Do total de 18.413 palavras com acento antepenúltimo no corpus, cerca de dois terços das palavras proparoxítonas não formam clusters válidos quando é feito o apagamento mecânico da vogal da sílaba pós-tônica, como em rápido

> *p.do, calotípico > *calotíp.co, haféfobo > *haféf.bo. O apagamento da vogal da sílaba pós-tônica gera sílabas com codas válidas em 4.287 casos ou 23,2% do total, como em física > s.ca, anisúrico > anisúr.co, gênese > n. se. Em 439 casos, ou 2,4% do total, a sílaba pós-tônica não-final é formada somente por uma vogal. Por fim, são geradas palavras cuja sílaba pós-tônica possui um onset válido, como em abóbora > abó.bra, próspero > prós.pro, útero > ú.tro em 2.158 (11,7%) dos casos, resultando em sílabas inválidas em 62,7% das palavras (Araújo et al., 2008, p. 16).

Por outro lado, os baixos percentuais de síncope nos dados em exame vão de encontro à hipótese inicial assumida anteriormente (Cf. seção 1.1) de que, na amostra delimitada, tais índices seriam superiores àqueles apontados pelos demais estudos já que apenas informantes com baixo grau de escolaridade foram analisados.

É fundamental apontar ainda que, no que diz respeito à natureza do processo, dentre os dados de síncope, 69% (136/196) corresponderam à síncope exclusiva da vogal postônica não final (abóbora – abóbra, óculos – óclus). Outros processos de síncope, no entanto, foram registrados, apresentando índices de aplicação inferiores, a saber: a síncope da vogal postônica não final e consoante em posição de ataque na última sílaba (estômago – estômo, Florianópolis – Florianópis), com taxa de 28% (55/196), e a síncope da sílaba postônica não final (sábado – sádo; bêbado – bêdo), com índice de 3% (5/196).

Na análise variável multidimensional, as variáveis apontadas como significativas à manifestação do processo de elisão vocálica foram: a) Contexto seguinte; b) Contexto precedente; c) Extensão da palavra; d) Classe gramatical; e) Traço de articulação da vogal. Como é possível perceber, nenhum dos grupos de fatores extralinguísticos mostrou-se relevante à aplicação do processo. Tal fato, entretanto, não atesta a irrelevância dos fatores extralinguísticos sobre o condicionamento da síncope, já que, neste estudo, a variável Escolaridade, apontada como significativa em praticamente todos os estudos precursores, não foi considerada como dimensão de análise.

A primeira variável selecionada como estatisticamente relevante foi o Contexto seguinte. Os valores percentuais e os pesos relativos referentes à influência dos fatores componentes dessa variável estão dispostos na Tabela 4.

Table 5.

TABELA 4: Contexto Seguinte e síncope

Fator Aplic./Total % PR
líquida vibrante 89/200 89/200 44.5 0.958
líquida lateral 84/171 84/171 49.1 0.920
não líquidas 23/2016 23/2016 1.1 0.374
TOTAL 196/2387 196/2387 8.2
Input: 0.011 Significância: 0.009

Como conjecturado com base nos relatos sobre a atuação do processo na passagem do latim vulgar ao português e com base nos resultados dos estudos sobre o PB contemporâneo (Amaral, 1999; Silva, 2008, Lima, 2008, Ramos, 2009, Gomes, 2012), os fatores líquida lateral (óculos – óclos), com porcentagem de 49.1 e peso relativo de 0.920, e líquida vibrante (árvore – árvre), com porcentagem de 44.5 e peso relativo de 0.958, foram os que colaboraram de forma mais significativa com a queda da vogal postônica não final. As demais consoantes, amalgamadas no fator não líquidas, por outro lado, não se mostraram favorecedoras da aplicação do fenômeno de supressão, apresentando porcentagem de atuação de 8.2% e peso relativo de 0.374.

Pode-se aventar uma explicação para esse resultado com base nos Princípio do Licenciamento Silábico – PLS (Itô, 1986), Princípio de Sonoridade Sequencial – PSS (Clements, 1990) e Condição de Ataque (Bisol, 1999). Conforme prediz o PLS, os segmentos não silabados, como seria o caso da consoante flutuante resultante da queda vocálica, devem ser apagados no nível lexical. Dessa forma, para que o PLS não seja violado no caso da atuação da síncope, a consoante flutuante dispõe, no sistema, de duas alternativas de ressilabação:

(i) uma ressilabação regressiva, na qual o segmento consonantal passaria a assumir a posição de coda da sílaba antecedente (cérebro – cer.bro), ou

(ii) uma ressilabação progressiva, na qual a consoante passaria a ocupar a primeira posição de ataque da sílaba subsequente (abóbora –abó.bra).

No caso de uma ressilabação progressiva, alternativa verificada na maioria dos dados encontrados no corpus em exame, os únicos segmentos admitidos na segunda posição de ataques complexos, sem que haja violação do Princípio de Sonoridade Sequencial – PSS (Clements, 1990) e da Condição de Ataque (Bisol, 1999), são as líquidas /l/ e /r/. De forma mais específica, segundo o PSS, a sonoridade da sílaba deve atingir o seu ápice no centro silábico. Desse modo, elementos mais sonoros (em geral vocálicos) ocupam a posição silábica nuclear, e elementos menos sonoros, as posições mais periféricas da sílaba8. A sonoridade dos elementos pode ser medida a partir da escala de soância proposta por Clements (1990, p. 284), na qual as obstruintes (O) assumem o grau mínimo de soância, equivalente a 0, as nasais (N), o grau 1, as líquidas (L), o grau 2, os glides (G), o grau 3; e, por fim, as vogais, o grau máximo, equivalente a 4.

Figure 3.

FIGURA 1: Escala de Soância (CLEMENTS, 1990)

Assim sendo, o processo de ressilabação, incitado pela atuação da síncope, deve prever que a nova sílaba assuma essa configuração ascendente em direção ao núcleo. O caso de “óculos”, um dos dados sincopados no corpus em análise, ilustra bem essa situação.

Figure 4.

Além de a nova sílaba atender ao PSS, também é subordinada à Condição Positiva do Ataque Complexo (Bisol, 1999). Segundo essa condição, o ataque, no português, pode ser constituído por, no máximo, dois elementos. Em ataques complexos (gerados pela ressilabação progressiva), a primeira posição pode ser ocupada por segmentos obstruintes não contínuos (/p/, /b/, /t/, /d/, /k/ e /g/) ou por obstruintes contínuas labiais (/f/ e /v/), e a segunda posição, como já mencionado, exclusivamente por consoantes líquidas (/r/ e /l/), conforme ilustra a figura a seguir.

Figure 5.

FIGURA 2: Condição Positiva do Ataque Complexo

(Bisol, 1999, p. 708)

Logo, é possível afirmar, novamente, que o fato de as consoantes líquidas em contexto seguinte à vogal elidida serem indicadas como favorecedoras da síncope em proparoxítonas neste estudo está diretamente relacionado à posição que essas consoantes podem ocupar na organização de uma nova sílaba, imposta pela síncope vocálica. Tal resultado vai ao encontro dos estudos de Amaral, 1999; Silva, 2008, Lima, 2008, Ramos, 2009, Gomes, 2012.

A segunda variável apontada como estatisticamente relevante à atuação da síncope, nesta análise, foi o Contexto precedente. Os valores percentuais e probabilísticos de aplicação da síncope em relação a esse grupo de fatores encontram-se expressos na Tabela 5.

Table 6.

TABELA 5: Contexto Precedente e síncope

Fator Aplic./Total % PR
velar 54/186 29.0 0.709
labial 129/975 13.2 0.685
alveolar 13/1226 1.1 0.335
TOTAL 196/2387 8.2
Input: 0.011 Significância: 0.009

Dentre os fatores investigados, os contextos precedentes velar e labial foram os que se mostraram mais significativos à manifestação da síncope. O fator velar (xicara ~ xícra, chácara ~chácara) apresentou porcentagem de 29% de aplicação e peso relativo de 0.709. O fator labial (abóbora – abóbra, fósforo ~fósfro), por seu turno, exibiu taxa percentual de aplicação de 13.2% e peso relativo de 0.685. Já fator alveolar (úlsera ~ úlsa, filósofo ~ filósfo) não se mostrou favorecedor do fenômeno de supressão vocálica, apresentando porcentagem de aplicação de apenas 1.1% dos dados e peso relativo equivalente a 0.335.

Tais resultados vão na mesma direção dos relativos à variável Contexto seguinte. Conforme já aludido, segundo a Condição Positiva de Ataque Complexo (Bisol, 1999), as consoantes formadoras de um onset complexo, no processo de ressilabação incitado pela síncope, são as obstruintes não contínuas (/p/, /b/, /t/, /d/, /k/, /g/) e as contínuas labiais (/f/ e /v/). Apesar de os fatores dessa variável não terem sido formulados tomando-se como critério o modo articulatório, é possível inferir que a maioria dos segmentos descritos anteriormente como favorecedores da síncope faz parte do grupo das consoantes velares (/k/ e /g/) e labiais (/p/ /b/, /f/ e /v/). Os resultados, portanto, apontam novamente para a boa formação da nova sílaba, atestando a forte influência dos princípios silábicos universais e condições particulares de constituição silábica no português no condicionamento do processo de síncope em proparoxítonas.

A terceira variável indicada como significativa à manifestação fenômeno examinado foi a Extensão da palavra, conforme indica a tabela seguinte.

Table 7.

TABELA 6: Extensão da palavra e síncope

Fator Aplic./Total % PR
mais de três sílabas 95/689 13.6 0.773
três sílabas 101/1689 6.0 0.376
TOTAL 196/2387 8.2
Input; 0.011 Significância: 0.009

Observa-se, na Tabela 6, uma taxa superior de aplicação de síncope em palavras mais extensas. As palavras com mais de três sílabas (Florianópolis, abóbora) apresentaram índice de atuação do fenômeno equivalente a 13.3% e peso relativo de 0.773. Já as palavras trissílabas (chácara, óculos) exibiram taxa percentual de 6.0% e peso probabilístico de 0.376.

Esse resultado, entretanto, pode estar sendo influenciado pelo alto valor de aplicação de síncope em itens lexicais específicos. A palavra Florianópolis, por exemplo, apresentou índice percentual de apagamento de 78.4% nos dados aqui examinados, o que corresponde a 51 dos 196 casos de síncope registrados. Apesar do possível viés identificado, esse resultado vai ao encontro dos apontamentos de Faria (1955, p. 167), o qual já indicava que a atuação da síncope se dava com maior frequência no português proto-histórico em palavras com quatro ou mais sílaba (opificina > officina). Esse resultado também encontra suporte nos dados de Ramos (2009) e de Gomes (2012), para os quais o grupo de fatores Extensão da palavra também se mostrou significativo.

A quarta variável apontada como estatisticamente relevante foi a Classe gramatical. Apesar do grupo de fatores não ter sido considerado pela maior parte dos estudos precursores (com exceção ao de Gomes, 2012), conjecturou-se que uma possível ênfase entonacional nos adjetivos poderia atuar como restrição à queda vocálica. Os resultados referentes a essa variável encontram-se na tabela subsequente.

Table 8.

Tabela 7: Classe gramatical e síncope

Fator Aplic./Total % PR
substantivo 189/1800 10.5 0.604
adjetivo 7/587 1.2 0.216
TOTAL 196/2387 8.2
Input: 0.011 Significância: 0.009

De posse dos resultados expressos na Tabela 7, verifica-se que a síncope manifestou-se com maior frequência em substantivos (estábulo ~ estáblo) do que em adjetivos (ridículo ~ ridíclo). A queda vocálica foi verificada majoritariamente (189 dos 196 casos de síncope) no grupo dos substantivos. Em termos percentuais, o fator substantivo apresentou 10.5% de incidência de síncope e peso relativo de 0.605. No que diz respeito aos adjetivos, verificou-se uma taxa de 1.2% e peso probabilístico de aplicação da regra de 0.216.

Finalmente, a última variável apontada como significativa à atuação do processo de elisão da vogal postônica não final foi o Traço de articulação da vogal. Os resultados relativos a esse grupo de fatores encontram-se expostos na tabela consecutiva.

Table 9.

TABELA 8: Traço de articulação da vogal e síncope

Fator Aplic./Total % PR
dorsal 48/183 26.2 0.676
labial 133/746 17.8 0.636
coronal 15/1458 1.0 0.407
TOTAL 196/2387 8.2
Input: 0.011 Significância: 0.009

Como indica a Tabela 8, os fatores dorsal e labial atuaram como favorecedores da síncope: o fator dorsal (chácara ~chácra, pétala ~pétla), apresentando percentual de aplicação de 26.2% e peso relativo de 0.676 e o fator labial (árvore ~ árvre, apóstolo ~apóstlo), percentual de 17.8% e peso relativo de 0.636. O fator coronal (quilômetro ~ quilôntro, úlsera ~ úlsa), por sua vez, não se mostrou favorecedor do fenômeno, com percentual de 1,0% e peso probabilístico de 0.407. Os resultados aqui expostos vão na mesma direção dos atingidos por outros estudos (Amaral, 1999; Silva, 2008, Lima, 2008, Ramos, 2009, Gomes, 2012).

Em suma, com base nos resultados da análise multidimensional, as variáveis apontadas como favorecedoras do processo foram: (i) Contexto seguinte; (ii) Contexto precedente, (iii) Extensão da palavra, (iv) Classe gramatical; (v) Traço de articulação da vogal.

2.2 A relação entre as variáveis

A partir da análise da influência das variáveis delimitadas como condicionadoras do processo de síncope nos dados em exame, buscou- se, em segunda instância, verificar a interdependência e correlação entre essas variáveis. Desse modo, procedeu-se ao cruzamento dos grupos de fatores apontados como relevantes, com o intuito de refinar essa investigação.

O primeiro cruzamento empreendido foi entre as variáveis Contexto precedente e Contexto seguinte. Das 196 síncopes registradas, tem-se maior concentração de casos de síncope nos seguintes contextos: (i) (42/196) velar + líquida vibrante (chácara ~ chácra, xícara ~ xícra), (ii) (66/196) velar + líquida lateral culos ~ óclos, ridículo ~ ridíclo), (iii) (65/196) labial + líquida lateral (estábulo ~ estáblo, Florianópolis ~Florianóplis).

Os resultados exibidos por esse cruzamento confirmam a premissa assumida de que a queda da vogal postônica medial seria constatada majoritariamente quando houvesse a possibilidade de um processo de ressilabação, dentro dos critérios estabelecidos pelo sistema silábico do português. Vale destacar também que a ressilabação progressiva foi a “preferida”. Já o cruzamento entre a variável Traço de articulação da vogal e Classe gramatical indica que apenas a vogal dorsal /a/(chácara – chácra) apresentou índices probabilísticos de aplicação de síncope altos tanto em adjetivos (0.870) como em substantivos (0.899). No que se refere à vogal labial /o/ (fósforo – fósfro), a síncope foi favorecida apenas nos substantivos que apresentam a vogal referida em posição postônica não final. Por fim, no que diz respeito à vogal coronal /i/, a elisão vocálica não foi favorecida nem palavras da classe dos adjetivos, nem dos substantivos. O cruzamento a seguir ilustra, em valores probabilísticos, essa constatação.

Figure 6.

GRÁFICO 3: Cruzamento entre Classe de palavra e Traço de articulação da vogal

Cabe salientar, no entanto, que, do total de 587 adjetivos presentes no corpus, 533 apresentavam a vogal coronal /i/ em posição postônica não final (mínimo, máximo, higiênico etc.), vogal apontada como inibidora da queda vocálica pela análise multidimensional. Sendo assim, parece equivocado atribuir responsabilidade pela elisão vocálica à natureza gramatical da palavra, visto que as vogais coronais – presentes em cerca de 90% dos adjetivos aqui investigados – são menos suscetíveis à queda.

Sendo assim, é possível inferir que a Classe gramatical, de fato, não exerce efeito sobre a aplicação da síncope. Essa influência, apontada pela análise estatística, na verdade, é enviesada pela atuação da variável Traço de articulação da vogal.

Por fim, realizou-se mais um cruzamento entre os grupos de fatores Contexto seguinte e Traço de articulação da vogal. A intersecção entre os fatores que se mostraram estatisticamente relevantes foram: vogal dorsal + líquida lateral (pétala ~ pétla), vogal dorsal +líquida vibrante (chácara ~chácra), vogal labial + líquida lateral (óculos ~ óclos) vogal labial + líquida vibrante (fósforo ~fósfro), vogal dorsal + não líquidas (estômago ~estôngo) e coronal + líquida vibrante (úlsera ~ úlsa). Como é possível perceber, as vogais coronais, apontadas como inibidoras da atuação da síncope, foram elididas apenas em contextos em que a silabação era “autorizada pelo sistema”.

De forma genérica, os resultados apresentados pelos cruzamentos indicam que:

(i) os contextos precedente e seguinte indicam forte condicionamento do fenômeno de síncope, estimulando preferencialmente uma ressilabação progressiva após a queda vocálica;

(ii) a classe gramatical parece não atuar como um condicionar legítimo da síncope, visto que adjetivos apresentam em geral vogais coronais em posições postônicas não finais, vogais essas que são indicadas como inibidoras da síncope;

(iii) as vogais coronais, apontadas como menos propícias ao apagamento, na verdade, após análise cautelosa dos dados, mostram-se inibidoras do processo, pois geralmente situam-se em contextos que não possibilitam uma nova reorganização da sílaba sem que haja violação dos princípios universais silábicos e das condições fonotáticas da sílaba no português. Sendo assim, infere-se que não é a qualidade da vogal que atua como favorecedora ou não da síncope, mas sim o contexto circundante (contexto precedente e contexto seguinte) à vogal.

Após essas constatações, portanto, torna-se evidente que os fatores linguísticos indicados como relevantes à atuação da síncope pela análise multidimensional estão subordinados a restrições silábicas (universais e particulares), representadas nesta análise pelas variáveis Contexto precedente e Contexto Seguinte.

Conclusões

A partir dos resultados apresentados aqui, é possível inferir que, dentre os fatores linguísticos destacados como relevantes à manifestação da queda da vogal postônica não final em dados do português brasileiro, assumem destaque o Contexto precedente e o Contexto seguinte, fatores intrinsecamente ligados à organização de uma nova sílaba incitada pelo apagamento vocálico. Em outros termos, apesar de uma série de fatores terem sido elencados como influenciadores da elisão vocálica postônica não final, o que de fato “regula” a incidência do fenômeno é a possibilidade de a consoante que acompanha a vogal postônica não final ser integrada à sílaba posterior (ou anterior), após a queda vocálica, ocupando a posição de coda ou de ataque silábico, formando, nesse último caso, um ataque complexo.

Em súmula, constata-se que o Contexto seguinte e o Contexto precedente são variáveis de extrema importância para a compreensão da queda da vogal postônica não final. Essa análise fornece, portanto, subsídios para a afirmação de que a manifestação da síncope no Sul do Brasil é governada, essencialmente, por restrições silábicas particulares e universais.

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Recebido em 23/02/2015 e Aceito em 12/05/2015.