Resumo

O objetivo deste artigo é focalizar o apagamento da vogal postônica não final, a partir de uma análise contrastiva entre dados da fala fluminense e da fala lisboeta. Com base em aspectos teóricos e metodológicos da Sociolinguística Variacionista, este trabalho observa os condicionamentos lingüísticos e sociais que afetam a produtividade do fenômeno e a relação entre os processos de redução e fatores sociais. 

Introdução

O vocalismo átono do português tem sido amplamente analisado sob as mais diversas perspectivas teóricas, sobretudo no que tange a fenômenos que atuam sobre o contexto pretônico. Todavia, mais recentemente, entendeu-se a necessidade de estender a discussão aos demais contextos átonos – igualmente suscetíveis a fenômenos variáveis, mas com comportamentos bastante particulares.

O objetivo deste artigo é contribuir para a descrição de um contexto átono postônico, ao observar os processos de redução que atingem as vogais postônicas não finais, especialmente o apagamento desta vogal, o que regulariza os vocábulos proparoxítonos a paroxítonos. Diversos trabalhos alinhados à metodologia variacionista (Caixeta, 1989; Amaral, 2000; Silva, 2006, 2010; Fonseca, 2007; Lima, 2008; Ramos, 2009; Chaves, 2011; Gomes, 2012) atestam a vitalidade do processo no âmbito das variedades do português, um fenômeno variável histórico com raízes no latim.

Entretanto, mesmo que se trate de um processo antigo na história da língua, há muito sobre o que discutir acerca da supressão da vogal postônica não final, uma vez que a variação é condicionada por fatores que estão além do nível sonoro, como – por exemplo – a produtividade dos itens proparoxítonos. Ainda, há questões a serem pensadas quando se contrastam as variedades continentais do português. Deste modo, este trabalho procura adicionar mais um ingrediente ao debate sobre as propriedades do vocalismo átono em português, ao estabelecer uma análise comparativa entre dados de fala fluminense e da fala metropolitana de Lisboa.

Nas seções que se seguem, apresentam-se (1) o percurso histórico do processo de apagamento das vogais postônicas não finais; (2) os corpora analisados, a metodologia empregada e as hipóteses que norteiam as análises; (3) os resultados, através de uma abordagem contrastiva; (5) a apreciação relativa aos parâmetros sociais que concorrem para a produtividade do processo de apagamento e (6) a reflexão sobre as convergências e divergências entre as variedades aqui analisadas no que tange à produtividade do processo de apagamento, à atuação dos condicionamentos linguísticos – sobretudo os de natureza fonético- fonológica, e às restrições sociais que atuam sobre o fenômeno investigado.

1. O comportamento variável das vogais átonas não finais: um longo percurso

A observação do comportamento das vogais postônicas não finais não pode desconsiderar as particularidades dos vocábulos proparoxítonos. Itens lexicais proparoxítonos restringem-se a termos técnicos e pouco usuais, sendo raros os que persistem ainda hoje no vocabulário ativo dos falantes1. A raridade dos proparoxítonos é fato bastante antigo na história da nossa língua, fato que encontra respaldo em evidências históricas da passagem do latim para o português2.

Como decorrência desse comportamento bastante peculiar, as proparoxítonas constituem a classe acentual com o menor número de itens lexicais, conforme levantamento realizado por Araújo et alii (2007). Por conta de sua raridade no léxico, o tratamento dispensado às proparoxítonas e aos processos fonético-fonológicos que as afetam resulta em poucos trabalhos que investiguem o contexto postônico não final e os processos de redução que atuam no âmbito desses vocábulos.

Os trabalhos pioneiros no ramo da Dialectologia brasileira (Amaral, 1920; Marroquim, 1934; nascentes, 1953) atestam a vitalidade do fenômeno de supressão da vogal postônica não final nas variedades do português popular. Dentre tais trabalhos, destaca-se a descrição que Nascentes apresenta para o “linguajar carioca”, uma das variedades investigadas neste artigo. Quanto ao comportamento dos vocábulos proparoxítonos, o autor afirma que (1953:31):

Como na passagem do latim para o português, o horror ao proparoxítono acarreta a síncope das vogais protônicas: príncipe – prinspe, máscara – mascra, cócegas – cosca, música – musga, pêssego – pesco, córrego – corgo, xícara – xicra, árvore – arvre, pássaro – passo, pólvora – porva, mármore – marme, Álvaro – Arvo, abóbora – abobra (ou aborba).

Mais adiante, ao descrever os diversos fenômenos fonéticos característicos da fala carioca, Nascentes lança luz novamente ao comportamento das proparoxítonas. O autor reforça a tese de que o apagamento da vogal postõnica é um traço característico das variedades populares. Além disso, Nascentes destaca as possíveis modificações no contexto adjacente à vogal por conta da supressão do segmento vocálico medial (1953:64):

A síncope das postônicas que se deu na passagem do latim para o português continua atuando na classe inculta, com grandes alterações na estrutura das palavras: relâmpago – relampo, pássaro – passo, árvore – arvre, mármore – marme, pólvora – porva. Quando em virtude da síncope ficam em contato uma consoante surda com uma sonora, dão-se assimilações de surdez ou de sonoridade: pêssego – pesco, cócegas – cosca, música – musga.

Em relação a análises variacionistas sobre processo de apagamento da vogal postônica não final, os trabalhos realizados sobre o tema também são unânimes em destacar a pressão exercida pelo tipo de segmento que está adjacente à vogal: se há a possibilidade de a consoante que acompanha a vogal átona não final ser ressilabificada, a queda do segmento vocálico é favorecida.

O papel do contexto fonético adjacente, na verdade, é resquício do processo atuante desde o latim e citado por Quednau (2002): o apagamento da vogal postônica não final, documentado – por exemplo – no Appendix Probbi, era favorecido, conforme salientam Williams (1961), Coutinho (1976) e Magalhães (2004), quando as consoantes no entorno desse segmento pudessem ser ressilabificadas, seja em direção à coda da sílaba tônica, seja em direção ao onset da sílaba átona final.

Os trabalhos de cunho variacionista de que se têm notícias (Caixeta, 1989; Amaral, 2000; Silva, 2006, 2010; Fonseca, 2007; Lima, 2008; Ramos, 2009; Chaves, 2011; Gomes, 2012) também reafirmam que as consoantes no entorno da vogal são decisivas para a aplicação da regra de apagamento da átona não final. Entretanto, há de se ter cuidado quanto às generalizações sobre a influência do contexto fonético adjacente, sobretudo quando se contrastam as variedades continentais do português, uma vez que o português brasileiro e o português europeu possuem comportamentos distintos do ponto de vista fonético no que tange à realização de sequências consonânticas3.

No âmbito do Português Europeu, não há uma tradição em estudos que verifiquem a produtividade do processo de apagamento das vogais átonas não finais. O único trabalho de que se tem notícia até este momento é a investigação empreendida por Fernandes (2007), que descreve o comportamento dos trissílabos proparoxítonos com base em uma análise experimental.

Seus resultados revelam que “muitos dos trissílabos fonológicos foram realizados maioritariamente com duas sílabas no nível fonético” (op. cit:: vi), com a não preservação das estruturas silábicas originais (op.cit.:126). Seus dados revelam ainda que a queda da vogal postônica não final promove a formação tanto de encontros consonânticos que obedecem às condições de boa-formação de sílaba em português quanto de sequências de consoantes não admitidas fonologicamente, mas possíveis do ponto de vista fonético. Ressalta-se ainda que a produtividade do trissílabo proparoxítono no léxico ativo dos falantes foi um condicionamento que restringiu a redução dos trissílabos a dissílabos: palavras proparoxítonas “raras” apresentaram tendência à preservação dos segmentos átonos.

2. Corpus, Metodologia e Hipóteses.

Este trabalho baseia-se nos acervos dos projetos NURC-RJ (Norma Urbana Oral Culta do Rio de Janeiro), PEUL (Programa de Estudos sobre o Uso da Língua), APERJ (Atlas Etnolinguístico dos Pescadores do Estado do Rio de Janeiro), levantadas no Estado do Rio de Janeiro de acordo com a metodologia da Sociolinguística Variacionista e, para os dados da variedade europeia, no corpus Concordância (Estudo comparado dos padrões de concordância em variedades africanas, brasileiras e europeias).

O Projeto NURC-RJ4 conta com informantes cariocas, de nível superior completo de escolaridade e distribuídos por três faixas etárias: de 25 a 35 anos; de 36 a 55 anos e 56 anos ou mais. O Projeto APERJ5 inclui pescadores de 13 comunidades do Norte e do Noroeste fluminenses, todos homens, analfabetos ou escolarizados até a 4ª série do Ensino Fundamental (EF) e divididos em três faixas etárias (18-35 anos, 36-55 anos e 56 anos em diante). O Projeto PEUL6 limita-se à capital do Estado e seus informantes dividem-se por três faixas etárias (de 15 a 25 anos, de 26 a 49 e acima de 50 anos), três níveis de escolaridade (1º e 2º ciclos do EF e Ensino Médio) e por sexo. Para a análise do fenômeno na variedade europeia, foram utilizados os inquéritos do corpus Concordância7 8 relativos às cidades de Oeiras/Lisboa, também estratificados em três faixas etárias e três níveis de instrução.

A investigação do apagamento das vogais postônicas não finais contou com 136 entrevistas do tipo DID9, sendo (i) 18 do Projeto NURC-RJ; (ii) 78 do Projeto APERJ; (iii) 25 entrevistas Projeto PEUL; (iv) 18 do projeto Concordância, das quais foram consideradas todas as ocorrências de proparoxítonas, em um total de 3316 dados. No controle de dados, utilizou-se o Programa GoldvarbX, que auxilia a análise variacionista, para se verificar quais fatores linguísticos e extralinguísticos atuam nos processos de apagamento das postônicas não finais.

No nível linguístico, controlaram-se as variáveis independentes: (i) contexto antecedente (ponto e modo de articulação das consoantes); (ii) contexto subsequente (ponto e modo de articulação das consoantes); (iii) classe do vocábulo – substantivo comum (pérola) ou próprio (Teresópolis), adjetivo (célebre) e verbo (tivéssemos) –; (iv) classificação lexical: termo usual (número), termo pouco usual (víscera), termo técnico (polígono), topônimo (Teresópolis) e antropônimo (Mariângela); (v) natureza da vogal da sílaba antecedente (tônica); (vi) natureza da vogal da sílaba subsequente (postônica final); (vii) posição da vogal na palavra – na primeira raiz (folêgo) ou fora dela (centímetro) e (viii) dimensão do vocábulo: trissílabo (óculos) ou polissílabo (característica). Entre os fatores extralinguísticos, foram controlados sexo, faixa etária e nível de escolarização do falante.

Considerando-se os trabalhos anteriores sobre processos que incidem sobre a sílaba postônica não final, postularam-se as hipóteses iniciais deste trabalho.

(i) Os contextos fonéticos adjacentes à vogal postônica não final manter-se-iam como os fatores condicionadores decisivos para a ocorrência do processo de apagamento da vogal átona medial em ambas as variedades analisadas, como um reflexo do princípio de uniformitarismo10 (Labov, 1972; 1994);

(ii) haveria diferenças quantitativas consideráveis entre as variedades brasileira e europeia no que tange a ocorrência do processo de apagamento da vogal postônica não final: o português europeu – por conta de um processo histórico de enfraquecimento das vogais átonas – aplicaria com maior frequência a regra de apagamento; e

(iii) do ponto de vista dos condicionamentos sociais, a supressão da vogal postônica não final seria um fenômeno de baixo prestígio social, o que ficaria comprovado graças a atuação dos condicionamentos sexo e escolaridade: mulheres e falantes com alto grau de escolarização tenderiam a aplicar com menor frequência a regra de apagamento da vogal postônica não final.

3. Resultados

O conjunto de 136 inquéritos do tipo DID usados na investigação acerca do processo de apagamento no contexto postônico não final apresentou 3316 ocorrências de proparoxítonas, incluindo todos os contextos de vogais postônicas não finais.

Os índices gerais de aplicação da regra de apagamento da vogal postônica não final revelam duas tendências bastante particulares, que merecem considerações: por um lado, não há diferenças quantitativas significativas quando se comparam os três conjuntos de dados relativos aos falares fluminenses; por outro, quando se contrastam esses resultados com os índices encontrados na amostra representativa da fala metropolitana de Lisboa, observa-se que, nos dados europeus, os índices de aplicação são consideravelmente maiores. A Tabela 1 – a seguir – evidencia os percentuais gerais para a ocorrência do fenômeno em cada variedade analisada.

Table 1.

TABELA 1: Distribuição dos dados por amostra.

Amostra Oco
Falares Fluminenses NURC (fala culta urbana) 95/816 = 11%
PEUL (fala popular urbana) 192/1317 = 14%
APERJ (fala rural popular) 130/855 = 15%
Norma metropolitana de Lisboa Concordância (fala urbana – culta e popular) 167/328 = 49%

Entre as variáveis postuladas para a investigação do fenômeno em foco, revelaram-se estatisticamente relevantes as elencadas na Tabela a seguir. Os resultados são apresentados por amostra analisada, uma vez que o perfil sociolinguístico de cada corpus não permitia o tratamento em conjunto dos dados.

Table 2.

TABELA 2: Variáveis atuantes no apagamento da vogal postônica não final

NURC PEUL APERJ Concordância
Modo de articulação da consoante seguinte Faixa Etária Ponto de articulação da consoante seguinte Modo de articulação da consoante seguinte Ponto de articulação da consoante precedente Ponto de articulação da vogal postônica não final Dimensão do vocábulo Modo de articulação da consoante precedente Faixa Etária Sexo Ponto de articulação da vogal postônica não final Modo de articulação da consoante seguinte Ponto de articulação da consoante precedente Modo de articulação da consoante precedente Escolaridade Modo de articulação da consoante precedente Modo de articulação da consoante seguinte Dimensão do vocábulo
Input inicial:.11 Input de seleção:.07 Sig.:.000 Input inicial:.14 Input de seleção:.04 Sig.:.000 Input inicial:.15 Input de seleção: .07 Sig.:.014 Input inicial:.49 Input de seleção: .56 Sig.:.015

Os resultados expostos na tabela anterior deixam evidente a vitalidade do contexto fônico adjacente para a ocorrência do processo. Por essa razão, as análises aqui apresentadas vão considerar as pressões exercidas pelas consoantes adjacentes à vogal postônica não final. A hipótese é a de que a possibilidade de ressilabificação das consoantes precedentes e subsequentes à vogal átona não final vai condicionar a queda desse segmento.

3.1 Os condicionamentos linguísticos: o efeito do contexto fonético adjacente

3.1.1 A consoante precedente

Esperava-se que nos contextos em que a queda da vogal postônica não final levasse a consoante a se anexar ou à coda da sílaba tônica, ou ainda ao onset da sílaba átona, o apagamento da vogal fosse favorecido. As consoantes que, a princípio, não encontram contexto favorável à ressilabificação não favoreceriam a regra. Os resultados estão expressos na Tabela 3:

Table 3.

TABELA 3: Efeito do modo de articulação da consoante precedente para o cancelamento da vogal.

Contexto NURC PEUL APERJ Concordância
Oco PR. Oco PR. Oco PR. Oco PR
Oclusivas e Fricativas (bêbado) 82/587 = 13% (.52) 116/ 849 = 13% .52 125/693 = 18% .61 140/ 212 = 66% .58
Nasais (ônibus) 12/128 = 9% (.40) 73/296 = 24% .64 4/114 = 3% .04 15/43 = 34% .18
Laterais (cólica) 0/20 = 0% - 1/58 = 1% .06 0/34 = 0% - 4/13 = 30% .25
Vibrantes (América) 0/46 = 0% - 1/40 = 2% .09 0/11 = 0% -
Sig.: .060 Input:.04 Sig.:.000 Input: .07 Sig.:.014 Input: .56 Sig: .015

No corpus APERJ, o apagamento é altamente favorecido quando a queda da vogal postônica leva à formação de onsets complexos na sílaba átona final, já que são as consoantes precedentes oclusivas e fricativas as que se mostraram mais relevantes (.61). Observa-se que as líquidas não atuam nesse sentido, ocorrendo praticamente o mesmo com as nasais (.04). Já os dados da amostra PEUL mostram as nasais como as mais propícias ao processo (.64), seguidas das oclusivas e fricativas (.52), resultado que destoa dos demais corpora e que, certamente, se deve às diversas ocorrências da palavra ônibus (44 apagamentos em 93 casos).

Para os dados do português europeu, nota-se que os índices expressos na tabela 3 refletem a tendência observada para as variedades populares do português brasileiro: a presença de consoantes oclusivas e fricativas no onset da sílaba postônica não-final tende a favorecer o apagamento da vogal átona medial (.58). As consoantes nasais e líquidas atuam como bloqueadoras da regra (.25 e .18, respectivamente).

Nos resultados verificados para o corpus NURC, que não foram apontados como relevantes pela análise estatística, percebe-se que há uma convergência entre a fala culta e a fala rural da variedade brasileira no tocante à atuação dessa variável: as obstruintes não-nasais se revelam como favorecedoras e as nasais atuam como inibidoras do processo. Todavia, a diferença entre os contextos não é expressiva (.52 contra .40), o que – de certa forma – impede uma apreciação mais abrangente da variável no âmbito da fala culta fluminense.

3.1.2 A consoante seguinte

Partiu-se do princípio de que a presença de consoantes líquidas no ataque da sílaba átona final favoreceria a queda da vogal postônica, uma vez que tais consoantes podem tanto se anexar à coda da sílaba tônica, formando o padrão CVC nesse contexto, quanto figurar como segundo elemento de um ataque complexo, desde que haja no ataque da sílaba postônica não final uma consoante obstruinte (oclusivas e fricativas labiais), como está expresso na Tabela 4.

Table 4.

TABELA 4: Efeito da atuação do modo de articulação da consoante seguinte para o apagamento da vogal postônica não final.

Contexto NURC PEUL APERJ Concordância
Oco PR Oco P R Oco P R Oco P R
Oclusivas e Fricativas (época) 24/ 498 = 4% .36 74/ 865 = 8% .50 73/567 = 12% .47 96/ 220 = 43% .41
Nasais (mínimo) 14/162 = 8% .50 41/ 268 = 15% .31 1/72 = 1% .08 47/84 = 55% .58
Lateral (óculos) 47/77 = 61% .95 54/ 95 = 56% .67 12/68 = 22% .57 9/11 =81% .76
Vibrante (abóbora) 9/60 = 15% .65 17/78 = 21% .80 41/133 = 30% .83 9/12 = 75% .94
Input:.07 Sig.: .000 Input:.04 Sig.:.000 Input:.07 Sig;:.014 Input:.056 Sig;:.015

As líquidas, nas quatro amostras consideradas, favorecem o apagamento da vogal, embora se observem diferenças quanto aos pesos relativos e à hierarquia dos fatores. O corpus NURC se diferencia dos demais, no sentido de que a lateral, com peso relativo .95, se mostra mais significativa para o cancelamento do que a vibrante, que é o fator mais saliente nos outros dois corpora (PEUL, .80; APERJ, .83; Concordância, .94). Os resultados sugerem que o apagamento da vogal postônica não final é fortemente condicionado por licenciamentos na estrutura fonotática da língua, sobretudo quando a queda do segmento vocálico átono não final possibilita a ressilabificação da consoante que o acompanha.

3.2 E os condicionamentos sociais?

Todo trabalho de cunho sociolinguístico procura observar de que forma aspectos relativos à constituição da comunidade de fala em análise incidem sobre os usos linguísticos dos indivíduos. Neste trabalho, esperava-se que o processo de apagamento da vogal postônica não final sofresse restrições sociais tanto na variedade brasileira quanto na europeia. Entretanto, notou-se que o fenômeno, que culmina na regularização das proparoxítonas ao padrão acentual default em português, não encontra restrições sociais na comunidade de fala portuguesa em investigação. A Tabela 5 revela que, no âmbito da fala fluminense, há sempre ao menos um condicionante social a interagir com fatores linguísticos para a aplicação da regra de apagamento da átona medial. Na Tabela 5, expressam-se os resultados para os fatores sociais nos dados do Rio de Janeiro.

Table 5.

TABELA 5. Efeito dos condicionamentos sociais – falares fluminenses

Corpus Oco P.R
NURC Faixa Etária Faixa 1 (18 a 35 a) 38/261 = 14% .64 Input:.07 Sig.: .000
Faixa 2 (36 a 55 a) 27/183 = 14% .57
Faixa 3 (mais de 56a) 30/342 = 8% .36
PEUL
Faixa Etária Faixa 1 (18 a 35 a) 20/304 = 6% .27 Input:.04 Sig.:.000
Faixa 2 (36 a 55 a) 80/528 = 15% .50
Faixa 3 (mais de 56a) 92/485 = 18% .64
Sexo Homens 113/658 = 17% .62 Input:.04 Sig.:.000
Mulheres 79/659 = 11% .37
APERJ Escolaridade Analfabetos 75/323 = 23% .67 Input:.07 Sig.:.014

Com relação à atuação da variável faixa etária, os resultados verificados no corpus NURC mostram que os falantes das faixas etárias mais jovens aplicam a regra de apagamento da vogal átona medial com mais frequência do que os da faixa etária mais alta. Os índices probabilísticos confirmam o decréscimo na aplicação da regra: os valores dos pesos relativos diminuem à medida que se avança pelas faixas etárias (.64, .57 e .36 para as faixas 1, 2 e 3, respectivamente). Tal tendência pode ser atribuída ao fato de os jovens cultos serem menos conservadores em relação aos usos padrão.

No que se refere à amostra PEUL, os resultados expostos na tabela parecem indicar que os falantes mais velhos, com mais de 56 anos de idade, realizam muito mais formas sincopadas (.64) do que os falantes da faixa mais jovem. (.50 para faixa 2 e .27 para faixa 1). Percebe-se, ainda, que a faixa mais jovem utiliza mais as formas padrão, o que pode ser indício de que o processo de regularização dos vocábulos proparoxítonos em paroxítonos é uma variável sem prestígio social nesse grupo.

Em relação à atuação do condicionamento sexo, relevante para o corpus PEUL, pode-se inferir que, no âmbito da fala popular urbana do português brasileiro, estamos diante de uma variável sem prestígio social. Quando a variação não é um indício de um fenômeno de mudança em progresso, como mostram os resultados na perspectiva do tempo aparente, as mulheres tendem a utilizar as formas de prestígio muito mais do que os homens. Os resultados comprovam a primeira tendência com relação ao papel da variável sexo do informante, descrita acima: os homens favorecem as formas com apagamento mais do que as mulheres (.62 e .37, respectivamente).

Sobre a atuação da variável escolaridade, relevante para o corpus APERJ, percebe-se que o apagamento da vogal postônica não final é mais produtivo na fala dos analfabetos do que na dos escolarizados (.67 contra .38). Tal resultado confirma a hipótese postulada, já que os falantes analfabetos, por não terem contato com a modalidade escrita, tendem a apresentar mais em sua fala as formas desprestigiadas socialmente. Vale destacar ainda que o conjunto de palavras proparoxítonas que fazem parte do acervo lexical ativo dos falantes do português é muito restrito, uma vez que a maior parte delas constituem termos técnicos ou eruditos.

No português europeu, conforme evidencia a tabela 2, somente variáveis linguísticas, relacionadas ao contexto fonético adjacente à vogal postônica não final e à dimensão da palavra proparoxítona, foram relevantes. Tal fato, de certa forma inesperado, suscita algumas reflexões, expressas a seguir.

4. Reflexões sobre os resultados

Os resultados discutidos na seção anterior levam a questionar o porquê de não ocorrer interação entre os condicionamentos linguísticos e sociais para a aplicação da regra de apagamento da vogal postônica não final nos dados da fala metropolitana de Lisboa. Uma possível explicação para esse resultado pode residir na relação entre os processos de alteamento e apagamento, considerando a ocorrência dos fenômenos tanto no português brasileiro quanto na variedade europeia.

É notória a maior produtividade do fenômeno de apagamento quando se confrontam as duas variedades continentais. No âmbito do português brasileiro, os índices gerais de aplicação da regra são relativamente próximos (inputs .07 para o NURC, .04 para o PEUL e .07 para o APERJ – conforme evidenciado na tabela 2), e revelam uma baixa ocorrência do processo. Uma possível justificativa para o comportamento da variedade brasileira pode estar vinculada ao fato de, nos contextos átonos do PB, ainda ser mais produtiva a regra de alteamento, conforme salientam diversos estudos (Camara Jr, 1970; Wetzels, 1992; Bisol e Magalhães, 2004; Santos, 2010, 2015).

Isto leva a associar os processos de apagamento ao de alteamento: no PB, o apagamento em contexto postônico não final talvez seja pouco produtivo porque se observa variação na realização das vogais médias e altas nos contextos átonos. No PE, o processo de alteamento, em contexto pretônico, “se generalizou durante a primeira metade do século XVIII”, constituindo uma “mudança paradigmática, fonológica (não conficionada)” (Castro, 1991: 259). Sincronicamente, em contexto postônico não final, só se observam, como mostram Mateus e D’Andrade (2000), as vogais [m], [i] e [u], todas realizações altas. Enquanto, no PB, se mantém um quadro de variação estável nos contextos átonos, no PE, parece estar havendo uma tendência ao apagamento.

Assim, o apagamento da vogal postônica não-final nos dados europeus, por ser significativamente frequente (input .56) e corresponder a um processo que não se restringe a essa posição, atingindo outros contextos átonos, não seria marcado socialmente. Nos dados fluminenses, o cancelamento, que eventualmente também ocorre em posição pretônica (beringela ⟶bringela) parece ser objeto de valoração social: a tendência à preservação das vogais átonas implicaria uma valoração negativa das formas com o cancelamento da vogal. Os resultados das análises aqui realizadas, de certa forma, refletem esse quadro: na análise referente ao falar de Lisboa, não houve interação, só variáveis estruturais se mostraram salientes; nas referentes aos dados do Rio de Janeiro, pelo menos uma variável social foi selecionada (corpus NURC: faixa etária; corpus PEUL: sexo e faixa etária; corpus APERJ: escolaridade).

Considerações finais

As análises empreendidas neste artigo permitem perceber que há convergências e divergências quantitativas consideráveis entre a fala fluminense e a norma metropolitana de Lisboa no que tange à aplicação da regra de apagamento da vogal postônica não final. No que tange às divergências, notou-se que:

1. os dados lisboetas revelam que, nesta variedade, há uma alta incidência do apagamento da átona não final ;

2. os dados fluminenses– independentemente da norma sob análise – revelam uma relativa uniformidade nos índices gerais de ocorrência do fenômeno, que indicam para uma baixa produtividade do processo de apagamento da vogal postônica não final.

No âmbito das convergências, observou-se que, no que concerne à atuação dos condicionamentos fonéticos, há correlação – tanto nos dados brasileiros quanto portugueses – entre o apagamento da vogal postônica não final e a ressilabificação das consoantes que a acompanham, reflexo de um princípio que atua desde o latim vulgar: quando a consoante que acompanha a postônica não final pode ser ressilabificada – principalmente em direção ao onset da sílaba átona final, há semelhanças consideráveis entre as variedades aqui analisadas.

Se há semelhanças qualitativas entre as variedades no que diz respeito à relação entre contexto fonético precedente/subsequente e a manutenção/apagamento da vogal postônica não final, como explicar as diferenças quantitativas salientes entre as diferentes normas continentais em análise? Uma possível justificativa pode residir nas diferenças entre o vocalismo átono do português brasileiro e do português europeu.

As particularidades dos sistemas vocálicos átonos das variedades brasileira e europeia podem justificar as diferenças quanto à interação entre os condicionamentos linguísticos e sociais para a aplicação da regra nos dados:

1. na variedade brasileira, o apagamento de vogais é objeto de valoração social – o processo de alteamento ainda é mais frequente; assim, a aplicação da regra de apagamento estará condicionada a um ou mais fator(es) extralinguístico(s);

2. na variedade europeia, por outro lado, o processo de alteamento, concluído na pauta pretônica, estaria em vias de conclusão nas demais pautas átonas. O apagamento das vogais constituiria uma etapa seguinte ao processo de mudança no quadro vocálico átono.

Referências

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BISOL, Leda e MAGALHÃES, José Sueli de. A redução vocálica no português brasileiro: avaliação via restrições. Revista da ABRALIN, vol. III, nº 1 e 2, p. 195-216, 2004.

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