Resumo




O objetivo deste trabalho foi propor uma organização lexicográ ca, em níveis mega e macroestrutural, para o Field, um dicionário do futebol construído a partir da Semântica de Frames (FILLMORE, 1982; 1985). A partir da revisão teórica, propõe-se uma estrutura de acesso ao dicionário, levando-se também em conta a análise da estrutura de recursos lexicográ cos eletrônicos online. Como resultados, essa investigação aponta para a importância do estudo da prática lexicográ ca para a construção de um dicionário conforme o per l de seu consulente. Além disso, ressalta-se a relevância do frame semântico como organizador de um recurso lexicográ co, visto que duplica a sua organização macroestrutural e torna a consulta ao dicionário mais completa e contextualizada. 




Introdução

Este trabalho insere-se no contexto de um projeto realizado pelo Grupo Semantec, do Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, que teve por objetivo a construção de um recurso lexicográfico multilíngue do domínio do futebol baseado na teoria da Semântica de Frames (FiLLMORE, 1982; 1985)1. A teoria de Fillmore vem sendo utilizada para a construção de recursos lexicográficos desde os anos 90, tendo-se como marco a criação do Projeto FrameNet Berkeley, uma plataforma destinada a estudiosos ligados à Linguística Computacional. Recursos como esse são caracterizados por uma interface robusta, contendo uma quantidade significativa de dados organizados de forma complexa, visto que não têm a pretensão de servirem como material de consulta a um usuário não especialista em estudos linguísticos.

Dessa forma, o Dicionário Field, ao ter como objetivo a criação de um recurso lexicográfico computacional baseado em frames visando o público leigo, implicou determinadas preocupações de cunho lexicográfico quanto à configuração de tal produto, dado que os recursos existentes baseados na Semântica de Frames não têm a pretensão de ser utilizados para fins não acadêmicos. É a partir desse aspecto que surge a motivação para nossa pesquisa, a qual visa à proposição de uma organização lexicográfica para o Field, conforme os seus propósitos e características, bem como a uma reflexão sobre o papel da Semântica de Frames nessa estrutura. A relevância desta investigação se expressa de duas formas. A primeira está ligada à ausência de pesquisas ligadas à aplicação da teoria dos frames semânticos na organização lexicográfica de dicionários destinados ao público geral, dado que os recursos baseados em frames, até então, não têm objetivado facilitar o acesso para usuários não familiarizados com a teoria da Semântica de Frames. A segunda questão concerne à importância de contribuirmos para a construção de uma ferramenta útil a usuários não especializados, incluindo-se estudantes e tradutores, cuja estrutura, problematizada neste trabalho, poderá repercutir na elaboração de outros recursos lexicográficos e possibilitar investigações para além do Dicionário Field.

As questões que norteiam este estudo são: i) De que modo a Semântica de Frames pode contribuir para a organização de um recurso lexical computacional? e ii) Para a construção de um dicionário de futebol baseado em frames, destinado ao público geral, quais são as implicações lexicográficas a serem consideradas? Para realizarmos essa investigação, valemo-nos do estudo da Semântica de Frames (FiLLMORE, 1982; 1985), incluindo-se suas interfaces com a lexicografia, para então verificarmos os principais aspectos relacionados à prática lexicográfica, a partir dos manuais de Atkins e Rundell (2008) e de Svensén (2009). O recorte deste trabalho abrange as chamadas megaestrutura e macroestrutura do dicionário, ou seja, a disposição de informações externas à lista de palavras e frames e a própria composição dessas listagens.

De modo a discutirmos o tema proposto, na seção 1, trata-se da Semântica de Frames enquanto teoria constituinte da Linguística Cognitiva. Na seção 2, exploram-se dois recursos lexicográficos baseados em frames e seus modos de organização: a plataforma Framenet de Berkeley (RUPPENHOFER et al., 2010), primeira ferramenta do gênero; e o Kicktionary (SCHMIDT, 2009), dicionário do domínio do futebol que inspirou a criação do Dicionário da Copa. Na seção 3, verificam-se alguns preceitos lexicográficos relevantes ao planejamento e à compilação de dicionários, consoante os manuais de Atkins e Rundell (2008) e Svensén (2009). Na seção 4, a partir da revisão teórica, propõe- se uma estrutura de acesso ao Dicionário Field, levando-se também em conta a análise da estrutura de dicionários eletrônicos online e aplicativos para celular. Como resultados, essa reflexão aponta a importância do estudo da prática lexicográfica para a construção do Dicionário da Copa conforme o perfil de seu consulente. Além disso, ressalta-se a relevância do frame semântico como organizador de um recurso lexicográfico, visto que duplica seu nível macroestrutural e torna a consulta ao dicionário mais completa e contextualizada.

1. Semântica de Frames: uma Abordagem Cognitiva do Significado

A Semântica de Frames é um modelo empírico, cognitivo e etnográfico por natureza (FILLMORE; BAKER, 2010), visando à representação e estruturação do significado, com embasamento na Linguística Cognitiva, uma escola moderna do pensamento linguístico que surge nos anos 70 e adquire força na década seguinte. O movimento adveio do descontentamento de alguns estudiosos quanto a abordagens linguísticas formais, refutando a proposta do gerativismo, na qual apenas o módulo sintático era priorizado, dissociando-se a linguagem de outras propriedades cognitivas. A Linguística Cognitiva, conforme Ferrari (2011),

[...] adota uma perspectiva não modular, que prevê a atuação de princípios cognitivos gerais compartilhados pela linguagem e outras capacidades cognitivas, bem como a interação entre os módulos da linguagem, mais especificamente, entre estrutura linguística e conteúdo conceptual.

O frame como conceito linguístico foi desenvolvido por Charles Fillmore, que lançou as bases do que viria a ser a Semântica de Frames nos anos 70. As três publicações dessa década se embasam na sua crença em uma convergência de saberes a favor dos estudos da linguagem, sendo que sua abordagem se incluiria nesse movimento interdisciplinar. A partir de pesquisas advindas da psicologia, por meio da teoria dos Protótipos (ROSCH, 1973), da ideia de frame, proveniente dos estudos sociais (GOFFMAN, 1974) e da computação (MINSKY, 1974), Charles Fillmore se apropria do conceito de frame para os estudos linguísticos, assim caracterizando sua teoria:

Com o termo Semântica de Frames, tenho em mente um programa de pesquisa em semântica empírica e uma estrutura descritiva para apresentar os resultados de tal pesquisa. A Semântica de Frames oferece um modo particular de se olhar para o significado das palavras, e também um modo de caracterizar princípios para criar novas palavras e frases, para adicionar novos sentidos às palavras, e para juntar os sentidos de elementos textuais ao sentido total do texto. Pelo termo frame tenho em mente qualquer sistema de conceitos relacionados de tal maneira que para entender qualquer um deles é preciso entender a estrutura que os comporta como um todo; quando um dos itens de tal estrutura é introduzido em um texto ou em uma conversa, todos os outros se tornam automaticamente disponíveis. (FiLLMORE, 1982, p. 11)2.

O fundador da Semântica de Frames rejeita abordagens linguísticas anteriores no que tange à desconsideração das relações entre o falante e o seu contexto. Para ele, é preciso conceber o estudo dos processos comunicativos como sendo a descrição dos frames cognitivos e interacionais, através dos quais os usuários da linguagem interpretam seu ambiente, formulam e compreendem mensagens, e acumulam ou criam um modelo interno de seu mundo (FILLMORE, 1976).

Uma das grandes vantagens da Semântica de Frames para a abordagem do significado seria o fato de esta possibilitar uma representação uniforme para todas as instâncias da realidade, desde os sentidos de cada palavra até a compreensão dos modelos de mundo, visto que “[...] entender essa palavra requer conhecer o cenário; entender uma sentença contendo esse mundo requer conhecer o cenário e usar o conteúdo lexical e a estrutura gramatical do resto da sentença para preencher alguns detalhes [...]; (FiLLMORE, 1976, p. 28)3. Quanto a esse preenchimento de detalhes, o autor assinala que os frames não necessariamente trazem todas as minúcias do evento, mas que o processo de compreensão do falante, ao longo da inserção de um frame num ato de comunicação, inclui a busca de informações específicas ou mesmo o esclarecimento de dúvidas com seu interlocutor, conforme seu interesse ou necessidade.

Outra motivação para o uso da abordagem de frames seria o fato de que, muitas vezes, entender uma palavra implica entender uma história (FiLLMORE, 1977, p. 73). Palavras relacionadas a experiências físicas, como fome, náusea ou febre, bem como sentimentos, implicam conhecer um histórico de eventos por trás do significado. Assim, conhecer essas palavras não é apenas conhecer a definição per se, mas é também saber os tipos de eventos que poderiam desembocar nessas experiências (FiLLMORE, 1977, p. 74). Para isso, a abordagem de frames é relevante, visto que localiza os eventos concernentes a certa unidade lexical, através de sua integração ao frame correspondente, que por sua vez se interliga a outros frames, permitindo também a compreensão de aspectos cronológicos do significado.

No que tange à relação entre a teoria e a prática lexicográfica, em Toward a Frame-Based Lexicon: The Semantics of RISK and its Neighbors, Fillmore e Atkins (1992) discorrem sobre a construção de um recurso lexical4 baseado em frames, que supriria as análises pretendidas quanto ao estudo lexema risk sob a abordagem da Semântica de Frames, tratando de maneira mais fiel questões como polissemia e relações semânticas. Já em A Frames Approach to Semantic Analysis (FILLMORE; BAKER, 2010), reforça-se o contraste entre o termo frame da linguística cognitiva e o termo relacionado à análise proposta pela Semântica de Frames: o frame cognitivo como estruturador das experiências humanas e o frame da Semântica de Frames como estrutura que associa o frame cognitivo ao material linguístico, atrelando palavras e expressões às suas respectivas estruturas conceptuais. Nesse âmbito, a Semântica de Frames é “o estudo de como, enquanto parte de nosso conhecimento linguístico, associamos formas linguísticas [...] a estruturas cognitivas – os frames –, o que determina significativamente o processo (e o resultado) da interpretação dessas formas.” (FILLMORE; BAKER, 2010. p. 314, grifos dos autores)5. também destacamos, quanto a esse trabalho, a referência ao evocador de frame, quando os autores estabelecem que a Semântica de Frames é o estudo de como o frame é ativado por formas linguísticas que o evocam (FILLMORE; BAKER, 2010, p. 317). Esse termo será importante para se compreender a estrutura de dicionários baseados em frames, como a plataforma FrameNet e o Kicktionary, temas da seção seguinte.

2. Semântica de Frames e Recursos Lexicográficos: a Framenet e o Kicktionary

Conforme abordamos na seção anterior, a Semântica de Frames é uma teoria cognitiva que inter-relaciona conceitos de forma a melhor contextualizá-los, agrupando palavras de acordo com os frames por elas ativados. A ideia de se aplicar esse modelo a um dicionário foi primeiramente concretizada por meio da plataforma FrameNet (https:// framenet.icsi.berkeley.edu), a partir do trabalho de Charles Fillmore com seus colegas pesquisadores. O projeto é desenvolvido no International Computer Science Institute (iCSi), em Berkeley, Califórnia.

A FrameNet se organiza a partir de frames e unidades lexicais, sendo a unidade lexical6 o conjunto de uma palavra com seu significado (FILLMORE; JOHNSON; PETRUCK, 2003, p. 235; RUPPENHOFER et al., 2010, p. 5). Assim, cada unidade lexical evoca um frame determinado, no qual se agrupam todas as palavras evocadoras7. Atkins, Fillmore e Johnson (2003, p. 246) enfatizam o trabalho empírico da FrameNet a partir de dados provenientes de corpora, ou seja, o projeto desenvolve seus estudos através da análise de um vasto conjunto de textos autênticos de língua inglesa, do qual são extraídas as sentenças que ilustram as unidades lexicais.

Desse modo, o trabalho da FrameNet inclui desenvolvimento do frame semântico, a extração de corpus e a anotação de sentenças exemplo. O desenvolvimento do frame tem como etapas a caracterização informal do tipo de entidade ou situação representada pelo frame, a seleção dos elementos de frame e a construção de listas de palavras que pertencem ao frame. A extração de corpus tem por objetivo a verificação dos contextos sintáticos e semânticos dos constituintes das sentenças, anotando- se os exemplos de acordo com os Elementos de Frame estabelecidos (FILLMORE; JOHNSON; PETRUCK, 2003).

Esse recurso lexical resultou na criação de ferramentas similares em outras línguas, dentre elas o Kicktionary8 (Schmidt, 2009), um recurso lexical multilíngue baseado em frames do âmbito do futebol, com o objetivo de ser utilizado por humanos para os propósitos de compreender, traduzir ou parafrasear textos no domínio futebolístico (SCHMIDT, 2006; 2009). O projeto Kicktionary abrange três idiomas: alemão, inglês e francês. O ponto de partida um corpus paralelo, ou seja, tradução direta do outro corpus; e um corpus comparável (textos originais com conteúdo similar), retirados do site oficial da UEFA (www.uefa. com). de rádio.

Em relação ao método de construção do Kicktionary, Schmidt (2006, p. 2) explica que, após a coleta de unidades lexicais a partir dos corpora, procedeu-se com a anotação semântica das sentenças, classificando-se as ULs nos seus respectivos frames para, finalmente, esquematizar as cenas9 conforme já referido, concentram as definições e esquematizações do recurso lexical.

Quanto à utilidade da Semântica de Frames para a organização de recursos lexicográficos multilíngues, Schmidt afirma que

A questão de como ligar informação lexical de diferentes línguas é um dos pontos principais quanto à criação de recursos lexicais multilíngues. O projeto Kicktionary sugere que cenas e frames são úteis para este propósito, visto que, por definição, essas estruturas são independentes de linguagens específicas. Portanto, é plausível assumir que, pelo menos em relação ao domínio do futebol, um falante nativo de inglês tem o mesmo conhecimento abstrato de eventos prototípicos quanto um falante de alemão ou francês. (SCHMIDT, 2009. p. 107).

Ressaltamos que esse olhar crítico de Schmidt quanto à Semântica de Frames aplicada a recursos lexicográficos é muito relevante para os nossos estudos, visto que o pesquisador concluiu que “[...] uma análise lexicográfica ideal para o propósito de construção de um dicionário requer tanto uma restrição metodologicamente motivada do papel da Semântica de Frames a certas áreas do vocabulário quanto um uso apropriado de outras abordagens de análise semântica.” (SCHMIDt, 2009, p. 128)10. Desta forma, o projeto Kicktionary apontou que a aplicação da teoria de Fillmore a recursos lexicográficos sem os mesmos propósitos da FrameNet exige uma série de cuidados e adaptações, fato que corrobora a motivação para o presente estudo.

Abordado o modo de funcionamento de recursos lexicográficos baseados em frames, passaremos à verificação de questões lexicográficas ligadas à Semântica de Frames.

1.      A Prática Lexicográfica: Considerações

A presente seção tem por objetivo dar conta das questões lexicográficas11 pertinentes à nossa investigação, no sentido de estabelecermos, ao final dessa última seção teórica, os preceitos de técnica lexicográfica que devem ser considerados quando da construção do Dicionário Field, conforme sua estrutura baseada em frames.

A lexicografia é denominada “a ciência dos dicionários”, cujo objeto de análise é a significação das palavras (BIDERMAN, 1998). O termo, advindo do latim Dictionarium, indicava o local de registro das palavras de língua latina, no século XVI, quando ainda era o idioma oficial da Igreja Católica, já perdendo espaço para as novas línguas que se alastravam pela Europa; dessa forma, a preocupação com a preservação de registros linguísticos está nas raízes da lexicografia enquanto ciência que “molda” o léxico (KRIEGER, 2006). Svensén (2009) explica que o conteúdo de um dicionário baseia-se no conceito de signo linguístico, consistindo em uma “[...] uma expressão (uma determinada forma) e um conteúdo (um determinado significado). Além disso, o signo tem uma função (um determinado modo de se comportar na combinação com outros signos linguísticos).” (SVENSÉN, 2009, p. 5)12.

Assim, de modo geral, um dicionário consiste num estudo atomístico do léxico, vistoque as palavras são investigadas de maneira isolada, de forma a constituírem as entradas ou a microestrutura do recurso lexicográfico (DAPENA, 2002). Consoante Bolinger (2008), a lexicografia, por remover as palavras de seu contexto, acaba por configurar uma ocupação artificial, na qual se busca compensar esse isolamento da palavra com alguns exemplos e informações complementares à definição, de forma que “Metade do trabalho do lexicógrafo é despendido reparando o dano a uma infinitude de conexões naturais que cada palavra em qualquer língua contrai com outras palavras [...]”. (BOLINGER, 2008, p. 193)13. Nesse sentido, já podemos vislumbrar uma diferença entre a abordagem clássica de técnica lexicográfica e a prática referente à construção do recurso que foi objeto de nossa investigação, visto que um dicionário baseado em frames possui, para além de palavras isoladas, o próprio frame linguístico como elemento nuclear, a partir do qual são organizadas as unidades lexicais.

3.1 Preceitos Lexicográficos para a Construção de um Dicionário

O Oxford Guide to Practical Lexicography (AtKiNS; RUNDELL, 2008) e a obra A Handbook of Lexicography (SVENSÉN, 2009), como os títulos indicam, são manuais para a elaboração de dicionários, tratando de todos os aspectos da técnica lexicográfica e de suas configurações conforme as especificações do recurso. O propósito desta subseção é relatar o mapeamento das indicações constantes nas obras mencionadas que foram ser pertinentes ao Dicionário Field, para que pudéssemos realizar a proposição de uma estrutura lexicográfica nos níveis mega e macroestrutural.

3.1.1   O Dicionário Conforme o seu Usuário

A prática lexicográfica envolve uma série de decisões desde o início do processo de construção do dicionário. Dois fatores-chave que condicionam fortemente essas decisões são (i) o tipo de dicionário que se pretende elaborar e (ii) o perfil do usuário desse recurso (ATKINS; RUNDELL, 2008). Para que se tenha clareza de tais aspectos, os autores recomendam que sejam listadas tanto as propriedades do dicionário quanto às potenciais características do usuário.

Em relação a propriedades do recurso, destacamos os seguintes elementos:

1) linguagem (monolíngue, bilíngue ou multilíngue);

2) abrangência (língua geral, material enciclopédico ou área especializada);

3) meio de publicação (impressão ou meio eletrônico);

4) organização (palavra para significado ou estrutura analógica);

De acordo com Atkins e Rundell (2008), a observação do perfil do usuário é um preceito fundamental para a elaboração do recurso lexicográfico. Nas palavras dos autores,

É preciso ter um entendimento claro de quem usará o dicionário e com quais propósitos, e de que tipos de habilidades eles disporão quando da consulta. Se você tem respostas quanto a essas questões, você tem uma base sólida para tomar decisões assertivas sobre conteúdo e apresentação. (ATKINS; RUNDELL, 2008. p. 28).

Os autores ainda ressaltam que não é possível prever todas as questões pertinentes a serem feitas quanto ao perfil do consulente, mas que é válido manter uma visão pragmática quanto ao alcance do dicionário e às necessidades de seu usuário. Essa etapa do trabalho acabará por refletir no modo de disposição das entradas e no layout do recurso, que deve dispor de informação suficiente através de fácil consulta.

3.1.2 Planejamento da Megaestrutura: Macroestrutura  e Seções Paralelas

A megaestrutura de um recurso lexicográfico pode ser dividida em dois grandes eixos: o primeiro são as partes que compõem a macroestrutura do dicionário, ou seja, a listagem de entradas e suas inter- relações; o segundo são os elementos anteriores e posteriores a essa lista, – considerando-se o espaço de um dicionário impresso: são a matéria pré-textual14 e pós-textual15 (ATKINS; RUNDEL, 2008, p. 176-177; SVENSÉN, 2009, p. 78). Embora os locais sejam típicos de dicionários na modalidade impressa, os autores ressaltam que as informações, principalmente no que tange à matéria pré-textual, são incluídas mesmo em dicionários eletrônicos.

Apesar de o conteúdo dessas seções variar bastante de acordo com o tipo de recurso lexicográfico, podemos apontar que a matéria textual, ou as preliminares, conterão uma introdução ao dicionário e uma explicação de eventuais abreviaturas e códigos que aparecem na obra. trata-se, portanto, de uma seção usada para que os editores possam disponibilizar esclarecimentos quanto ao uso do recurso. Se verificarmos a localização desse tipo de informação em dicionários eletrônicos, constataremos que esses esclarecimentos geralmente fazem parte do menu de ajuda, no qual existe uma introdução ao recurso, seguida de explicações sobre cada uma de suas seções. As partes pós-textuais estão mais relacionadas a dicionários impressos, trazendo materiais que interessem o público alvo. Um exemplo são os mapas que aparecem ao final de dicionários escolares.

Quanto à organização das entradas, não é demais reforçarmos que a ordem alfabética da lista de itens lexicais é uma marca dos dicionários, incluindo-se os eletrônicos, com a ressalva de que os motores de busca de recursos computacionais garantem que o consulente encontre o item que procura com muito mais facilidade, sem se utilizar da busca através da lista em ordem alfabética.

4. Dicionário Field: uma Proposta de Estrutura de Acesso

Esta seção visa à ilustração de uma possível estrutura de acesso para o Dicionário Field, por meio daquilo que investigamos nas seções anteriores, especialmente os preceitos lexicográficos levantados na seção anterior. Para isso, começaremos com uma introdução ao Projeto que propôs a criação do Dicionário Field, seguindo com a elaboração de um perfil de usuário e de um levantamento das propriedades do dicionário em questão, conforme as diretrizes de Atkins e Rundell (2008). Na seção destinada à proposta de ilustração, investigaremos a estrutura e a distribuição de informações de dicionários eletrônicos, de forma a elencarmos os tipos de informação e os modos de organização que possam ser pertinentes ao Dicionário da Copa.

Inspirado no dicionário de Schmidt (2009), o Dicionário Field é resultado do Projeto Kicktionary-Br Copa 2014 (CHISHMAN; KRIEGER; RIGO, 2011)16, uma extensão do Projeto Kicktionary-Br17, que teve por objetivo construir um recurso lexicográfico multilíngue (em português, inglês e espanhol), baseado em frames, do domínio do futebol. Para sua construção, contou-se com a compilação de três corpora comparáveis, cada um com cerca de um milhão de palavras, constituídos de notícias de futebol em português brasileiro, inglês e espanhol.

Conforme pudemos verificar na seção 3, os recursos lexicográficos baseados em frames têm sido, até então, destinados a um público especializado na área estudos linguísticos, portanto não há qualquer preocupação com a adequação da interface a um público leigo. Assim, nas próximas seções, pretendemos nos apropriar de algumas implicações lexicográficas envolvidas na elaboração de um dicionário, para então simularmos uma estrutura de acesso conforme os propósitos deste dicionário do futebol.

4.1 O Perfil de Usuário e as Propriedades do Dicionário Field

Conforme vimos em Atkins e Rundell (2008), é de suma importância que se trace um perfil de usuário do dicionário a ser construído, e que se listem as propriedades que esse recurso terá, para que o planejamento de estrutura esteja de acordo com as características e necessidades do público-alvo. Assim, embora consideremos que esse perfil será bastante abrangente, esquematizaremos algumas características dos consulentes em potencial. Abaixo, de acordo com as informações relatadas no subcapítulo anterior, organizamos as propriedades do dicionário em formato de quadro.

Table 1.

QUADRO 1: propriedades do Dicionário Field

Linguagem trilíngue (português, inglês e espanhol).
Abrangência Domínio específico do futebol.
Meio de publicação Meio eletrônico; página da web com versão para celular.
Organização Agrupamento de palavras a partir da estrutura do frame semântico.
Fonte: elaborada pela autora

Quanto ao perfil de usuário (Quadro 2), o público do Dicionário Field é composto por jovens e adultos, portanto não há implicações relacionadas à adequação do dicionário ao público infantil. Consideramos que poderá ser acessado por falantes de português, inglês ou espanhol, seja como primeira língua ou como língua adicional. Além disso, o consulente será provavelmente familiarizado com outros recursos online, incluindo-se outros dicionários eletrônicos, além de estar suficientemente familiarizado com a estrutura tradicional de um recurso lexicográfico. Quanto às necessidades do usuário, levando-se em conta o contexto da Copa do Mundo, quando foi lançado o recurso, consideramos que o primeiro tipo de uso do dicionário estaria ligado à decodificação, quando os consulentes necessitassem fazer uma consulta rápida para entender determinado termo. Contudo, não descartamos o uso do recurso para codificação, em contextos ligados, por exemplo, a processos de tradução.

Table 2.

QUADRO 2: perfil de usuário do Dicionário Field

Faixa etária Jovens e adultos.
Linguagem Falantes de português, inglês ou espanhol como primeira ou segunda língua.
Habilidades Familiarização com dicionários impressos e eletrônicos, domínio de ferramentas online em diferentes suportes (computador, tablet, celular).
Necessidades Consulta rápida durante os jogos Copa 2014 – decodificação. Utilização para produção em língua adicional – codificação.
Fonte: elaborada pela autora

Esquematizado o perfil do dicionário e de seus usuários, levantaremos considerações quanto às possibilidades de estrutura de acesso do Dicionário Field. Além de analisarmos a organização do Kicktionary de Schmidt, do ponto de vista da distribuição de informações e modos de acesso, também verificaremos os recursos disponibilizados nas páginas iniciais dos dicionários Oxford Dictionaries e Cambridge Dictionaries Online, ferramentas que englobam vários dicionários bilíngues de cada editora. Esses sites foram escolhidos pela tradição em lexicografia, bem como pela qualidade das ferramentas online – os dicionários eletrônicos da Oxford e da Cambridge são recomendados, por exemplo, no estudo de Schryver (2003).

4.2 Organização da Megaestrutura

Em dicionários eletrônicos, os elementos megaestruturais são indicados em uma página inicial, contendo hiperlinks que direcionam o consulente a informações gerais, bem como a outros recursos ligados ao dicionário ou à editora. A seguir, exploraremos esses elementos externos à lista de palavras em alguns recursos lexicográficos eletrônicos.

4.2.1  A Megaestrutura do Kicktionary

O Kicktionary de Schmidt possui uma megaestrutura bastante simples e organizada, dividida em quatro grandes eixos que podem ser acessados por hiperlinks na parte superior da tela principal, incluindo a própria página inicial (Home). O botão Dictionary dá acesso à macroestrutura, na qual as unidades lexicais são ordenadas alfabeticamente. O botão Background dá acesso a informações sobre o projeto e o hiperlink Contact me permite que o consulente entre em contato com o autor do dicionário. Estes três botões estão sempre visíveis, de modo que o usuário não se perca.

Figure 1.

FIGURA 1: tela inicial do Kicktionary

Fonte: Kicktionary, [2014?]

Na primeira coluna da página inicial, temos a possibilidade de visualização da tela inicial nos três idiomas abrangidos pelo dicionário. Abaixo, há um breve texto (Welcome to the home of Kicktionary) com informações sobre o recurso (número de termos, modo de organização, exemplos). Nesse texto inicial, há hiperlinks com as mesmas funções dos botões superiores. Na segunda coluna da home, temos links para unidades lexicais (Lexical Units), cenas (Scenes), hierarquias conceptuais (Concept Hierarquies) e acesso a parte do corpus escrito e falado (Spoken Examples e Parallel Texts).

Para o Dicionário Field, consideramos apropriada disponibilização do texto nos três idiomas; contudo, o Kicktionary traz apenas a tela inicial com estrutura multilíngue; o restante está em língua inglesa. A inserção de hiperlinks no texto de boas-vindas com as mesmas funções dos botões permanentes da barra superior pode ser pertinente, dado que apenas se aproveitam os recursos do hipertexto para se inter-relacionar informações.

4.2.2 A Megaestrutura do Oxford Dictionaries

Figure 2.

FIGURA 2: megaestrutura do Oxford Dictionaries

Fonte: Oxford... [2014?]

A página inicial da Oxford Dictionaries (figura acima) reserva grande espaço para publicidade e redes sociais. Há também um gadget do twitter e do blog da editora Oxford, além da barra de buscas, destacada no início da página. No canto superior direito, além do link para acesso a usuários que possuem conta paga, há o botão Help, que funciona como o Guia de Usuário dos dicionários impressos, a indicar todos os recursos disponíveis em cada parte da estrutura, os modos de pesquisa e de navegação pela entrada. Há também um menu específico direcionado a aprendizes, com dicas de escrita, jogos e outros materiais relacionados. Observamos, ainda, a caixa de pesquisa com opção de se buscar a palavra tanto nos verbetes quanto na seção de dicas de gramática (Language Resources).

Por ser um recurso lexicográfico de língua geral e para propósitos mais amplos, o Oxford Dictionaries exibe em sua estrutura alguns recursos dispensáveis a um dicionário mais específico como o Dicionário Field, como materiais relacionados à gramática e área do assinante. Outro recurso necessário ao Oxford Dictionaries mais relacionado à sua dimensão de portal com vários dicionários bilíngues é a possibilidade de se escolher o dicionário conforme a preferência, algo dispensável em relação ao Dicionário Field, que dispõe de tal variedade de idiomas. isso também se aplica ao link Atualizações/What’s New, pertinente ao Oxford por se tratar de uma ferramenta complexa que agrega e modifica recursos muito mais frequentemente que um dicionário sem essa dimensão.

Destacamos, nessa organização megaestrutural, a disponibilização de três versões do site conforme o idioma escolhido pelo consulente, o que não ocorre no Kicktionary de Schmidt, no qual apenas a tela inicial é acessada em outras línguas. Além disso, o Oxford Dictionaries exibe gadjets do twitter e do blog da editora, ligando o dicionário a redes sociais. Consideramos que esse recurso, que não é essencial, poderia ser aproveitado de uma forma um pouco diferente, de maneira que o consulente, caso seja de seu interesse, consiga divulgar o recurso a amigos através de redes sociais18. Assim, os elementos que não são interessantes ao Dicionário da Copa se referem a recursos educacionais e serviços de assinatura – este último item a implicar preocupações como o estabelecimento de uma política de privacidade, já que o usuário possui um cadastro para utilizar as funções pagas do dicionário; o link Sobre/About também é mais reservado à propaganda sobre os serviços pagos.

4.2.3 A Megaestrutura do Cambridge Dictionaries Online

Como podemos ver na figura abaixo, o portal Cambridge Dictionaries, por ter o mesmo perfil do Oxford Dictionaries, dispõe de uma megaestrutura similar, mas podemos observar alguns detalhes que os diferenciam. O Cambridge não reserva tanto espaço à publicidade da editora ou de terceiros, expondo, assim como vemos no Kicktionary, um texto inicial, a informar os dicionários bilíngues que compõem o portal, dos quais a Cambridge tem versões online, offline em formato de aplicativo para celular e impressa. O corpo desse texto introdutório também serve como espaço para a escolha do dicionário bilíngue, dispensando-se um hiperlink com essa função.

Figure 3.

FIGURA 3: macroestrutura do Cambridge Dictionaries - parte superior da tela

Fonte: Cambridge... [2013?]

Além de hiperlinks para ferramentas de aprendizagem (Learn), conexão com redes sociais (Share), informações sobre o dicionário, a editora e o corpus (About), muito similares aos da Oxford, ainda há o link Develop, a disponibilizar recursos como gadjets dos dicionários para desenvolvedores de websites. A interface está disponível também nas duas principais variedades da língua inglesa e em espanhol.

Apontamos que a diferença entre os dois dicionários em nível megaestrutural são as ferramentas para desenvolvedores disponibilizadas pela Cambridge, que não vão ao encontro dos propósitos do Dicionário Field. Além disso, assinalamos que a análise da macroestrutura Cambridge Dictionaries indica-nos a importância da distribuição adequada de informações. Além disso, observamos que o Oxford Dictionaries reserva muito espaço à publicidade e aos elementos não diretamente ligados aos dicionários, aspecto que, evidentemente, não consideramos pertinente à estrutura do Field.

4.2.4  Dicionário Field: a Composição da Megaestrutura

A partir das consultas a outros recursos lexicográficos, classificamos alguns elementos como indispensáveis ou interessantes ao Dicionário da Copa, incluindo: acesso à megaestrutura por todos os idiomas que constituem o dicionário; link de acesso a informações institucionais relacionadas ao dicionário (Créditos); link para contato (Contato); link para informações sobre o projeto (Sobre); link de ajuda com guia do usuário (Como usar) e barra de pesquisa. Abaixo, exibimos a concretização da proposta de megaestrutura efetuada por meio desta investigação, incluindo a tela inicial de escolha de idioma:

Figure 4.

FIGURA 4: proposta de megaestrutura para o Dicionário Field

Fonte: (CHISHMAN et al., 2014).

4.3 Organização da Macroestrutura

A macroestrutura de um dicionário compreende, como já referimos, a listagem de entradas em um dicionário. Num recurso impresso, seriam as páginas que listam os verbetes, entre a matéria pré-textual e a pós- textual. Em dicionários eletrônicos, permanece a noção de lista em ordem alfabética, por vezes com alguns desdobramentos permitidos pelo hipertexto. Confirme a ordem da subseção 4.2.1, iniciaremos nossa análise de macroestruturas pelo Kicktionary.

4.3 A Macroestrutura do Kicktionary

O Kicktionary, por ser organizado em cenas e frames, possui uma macroestrutura que abrange outros elementos para além da lista de unidades lexicais, tal qual acontece com o Dicionário da Copa, apesar de o projeto não manter as cenas, que, no recurso de Schmidt, possuem um papel importante como centralizadoras das definições.

Figure 5.

FIGURA 5: macroestrutura do Kicktionary - cenas e frames

Fonte: Kicktionary, [2013?]

O menu das dezesseis cenas no recurso de Schmidt apresenta-as em três categorias: On the pitch (cenas que ocorrem dentro do campo – Shot, Pass, Goal, One_On_One, Foul, Chance, Motion, Substitution, Move, Mix-Up e State_of_Match); A match in a competition (cenas ligadas aos resultados de partidas e campeonatos – Match, Competition e Lineup); e Actors & Objects (cenas a descrever os elementos materiais e humanos que compõem um jogo de futebol – Actors e Field). Reproduzimos, acima, o primeiro nível macroestrutural constante no recurso de Schmidt, mostrando as suas cenas e frames.

Figure 6.

FIGURA 6: macroestrutura do Kicktionary - unidades lexicais

Fonte: Kicktionary, [2013?]

Conforme a imagem anterior, o segundo nível macroestrutural do Kicktionary diz respeito à listagem de unidades lexicais, classificadas alfabeticamente e não separadas por idioma – as entradas aparecem juntas nesse nível, em inglês, alemão e francês –, com suas respectivas classes gramaticais indicadas com a sigla após um ponto (por exemplo, o verbo attack é listado como attack.v). Ao lado dessa classificação, temos a indicação do frame ao qual a unidade lexical pertence, entre colchetes e com uma cor cinza menos destacada que o evocador.

Além de verificarmos um duplo nível macroestrutural no Kicktionary, no sentido de termos uma lista de cenas e frames e outra de unidades lexicais, também apontamos como interessante o desdobramento desse segundo nível em unidade lexical e frame, algo que vemos como imprescindível a um dicionário com essa configuração, visto que tal estrutura linguística é aquela que determina a localização e classificação das unidades lexicais, conforme os frames que elas evocam.

A organização macroestrutural de Schmidt se mostra bastante pertinente a um recurso com essas propriedades, pois o consulente pode explorar tanto uma lista de unidades lexicais quanto uma lista de frames classificados por cenas, sendo que um nível está atrelado ao outro em qualquer caminho que se trace quando das buscas no dicionário. Nas próximas subseções, verificaremos se são utilizadas outras maneiras de exposição dos itens lexicais em nível macroestrutural.

4.3.2 A Macroestrutura do Oxford Dictionaries

Embora seja possível fazer uma pesquisa pela caixa de busca sem selecionar um dicionário específico, o portal da Oxford exibe a macroestrutura de cada dicionário bilíngue ou monolíngue em separado, conforme a escolha do usuário ao clicar no hiperlink Browse dictionary. Para nossa análise, escolhemos a estrutura macroestrutural do dicionário de inglês-espanhol.

Como podemos observar na Figura 7, após a escolha do dicionário, ainda ficam visíveis os outros recursos bilíngues e monolíngues abrangidos pelo Oxford Dictionaries. É exibida uma barra superior com as letras do alfabeto, para que o consulente escolha por onde quer iniciar a sua exploração.

Figure 7.

FIGURA 7: macroestrutura do Oxford Dictionaries – acesso à lista em ordem alfabética

Fonte: Oxford... [2014?]

Figure 8.

FiGURA 8: macroestrutura do Oxford Dictionaries – acesso

Fonte: Oxford... [2014?]

O Dicionário Field, como não é um recurso de língua geral, não precisaria ter os feixes de palavras, já que o número de unidades lexicais será bem menor em relação a um dicionário do porte dos da Oxford ou da Cambridge aqui analisados. Nessa análise, não consideramos indispensável a apropriação da barra com o alfabeto para acesso à macroestrutura, principalmente quando levamos em conta que o Dicionário Field foi projetado para possuir uma barra de pesquisa abrangente, a qual possui função de autocompletar a palavra ou expressão buscada pelo usuário.

4.3.3 A Macroestrutura do Cambridge Dictionaries Online

O Cambridge Dictionaries não possui propriamente uma macroestrutura, visto que o consulente não consegue explorar a lista inteira de palavras de um dos dicionários19. Seu acesso é apenas pela barra de busca, na qual, como já referimos, tem-se a opção de escolher um dicionário específico. Ao percebermos que não haveria uma lista, utilizamos a barra de pesquisa para verificar se alguma informação concernente à macroestrutura – verbetes prévios ou posteriores, por exemplo – seria exibida. Assim, quando procuramos por goal, na parte inferior da tela, surgiu parte da listagem, a mostrar verbetes vizinhos à entrada visualizada.

Figure 9.

FIGURA 9: Cambridge Dictionaries - parte da macroestrutura em nível microestrutural

Fonte: Cambridge... [2014?]

O portal da Cambridge, portanto, optou por substituir totalmente a macroestrutura pela caixa de busca, não permitindo que o usuário percorra pelas listas de itens lexicais. Entretanto, não foi possível perder de vista a noção de visualização macroestrutural, dado que o consulente pode sentir falta da linearidade fornecida pela maioria dos dicionários, através da qual se consegue ter uma visão panorâmica do material. Assim, a Cambridge compensou essa lacuna com um acesso mais breve à listagem dentro da entrada – cinco palavras antes e depois da consultada.

Consideramos que a opção pela supressão da listagem, permitida pelo hipertexto, é perfeitamente possível em um dicionário com essa configuração, tendo-se em vista que, quando consultamos um dicionário de língua geral, geralmente já temos em mente a palavra que queremos buscar. Entretanto, para o Dicionário Field, levando-se em conta o contexto de uso e o domínio específico, a lista é imprescindível, visto que o consulente pode ser atraído ao produto pela curiosidade em verificar quais unidades são incluídas. É uma situação diferente da consulta a um dicionário de língua geral, em que o usuário dificilmente terá expectativas diferentes das consultas anteriores. Além disso, a importância do elemento macroestrutural se reflete no fato de que a Cambridge não dispensou o acesso parcial à listagem, mesmo que em outro nível.

4.3.4 Dicionário Field: a Organização Macroestrutural

Conforme observamos em alguns dos recursos lexicográficos analisados, o hipertexto tem possibilitado a supressão da listagem de itens lexicais, configurando-se uma macroestrutura acessível apenas através de uma caixa de buscas. Dado que essa simplificação não se mostra interessante ao Dicionário da Copa, propomos uma macroestrutura nos moldes do Kicktionary. Contudo, defendemos a exibição de duas listas concomitantes – a de palavras e a de cenários20 –, as quais são expansíveis e possuem abas para troca de idioma.

Figure 10.

FIFURA 10: a macroestrutura para o Dicionário Field

Fonte: (CHISHMAN et al., 2014).

As possibilidades para a organização macroestrutural do Dicionário da Copa envolvem, como o recurso de Schmidt, dois níveis exploráveis pelo consulente: o primeiro é uma listagem de frames com informações sobre o número de unidades lexicais incluídas em cada um. O segundo nível macroestrutural é o das unidades lexicais, atreladas ao seu frame correspondente, conforme ocorre no Kicktionary.

A presente seção teve por objetivo a proposição de uma estrutura de acesso ao Dicionário Field, a partir dos preceitos lexicográficos investigados em nossa revisão teórica e da análise de dicionários eletrônicos, de modo a levantarmos possibilidades de organização para o recurso, em níveis mega e macroestrutural, enquanto dicionário baseado em frames destinado ao público geral. O próximo capítulo trata das conclusões a que chegamos com este trabalho, bem como das perspectivas apontadas a partir desta investigação.

Considerações

Este trabalho teve por objetivo refletir sobre as implicações lexicográficas relacionadas ao Dicionário Field, um dicionário do futebol que foi estruturado a partir de frames semânticos e disponibilizado ao público geral a partir da Copa do Mundo no Brasil. Nosso intuito foi verificar em que sentido um recurso com tal configuração deveria levar em conta aspectos relevantes ao fazer lexicográfico, dado que se trata de um dicionário destinado a um público não familiarizado com recursos baseados em frames já existentes.

Nossa investigação apontou para a importância do estudo da técnica lexicográfica para um dicionário estruturado em frames, destinado ao público geral, que não tem apenas o propósito de servir para pesquisas relacionadas ao Processamento de Linguagem Natural. O Dicionário Field, ao se apropriar da Semântica de Frames não só como metodologia de tratamento do significado, mas também como base de sua organização lexicográfica, apresenta uma configuração não tradicional que acarretou preocupações relacionadas ao seu planejamento, para que se produzisse um recurso englobando tanto os aspectos positivos e adaptáveis de recursos baseados em frames já existentes quanto os elementos essenciais que compõem um dicionário tradicionalmente estruturado, a partir daquilo que lexicógrafos determinam como adequado e eficiente conforme os propósitos do recurso. Levando-se em conta a importância do usuário para a construção de um produto dicionarístico, a aplicação da teoria de Fillmore, para o Dicionário da Copa, foi complementada com preceitos lexicográficos que tornassem o recurso acessível ao seu público.

Ressaltado esse aspecto, apontamos para a relevância do frame como organizador de um recurso lexicográfico, tornando o dicionário mais completo, no sentido de possuir um duplo nível macroestrutural, conforme pudemos analisar. Conceder ao usuário a possibilidade de consultar, além de definições e equivalentes, o frame que subjaz a entrada pesquisada, é atribuir ao dicionário a função de inter-relacionar muito mais eficazmente as palavras com eventos e seus elementos, de forma que o consulente obtenha mais informações sobre os contextos relacionados a determinada palavra. Assim, quanto ao âmbito do futebol, o Dicionário da Copa organiza as unidades lexicais conforme os eventos de que elas participam, possibilitando entendimento das ações do jogo de modo global, no sentido de fornecer e definir frames, e de modo específico, disponibilizando informações sobre cada unidade evocadora.

Por fim, reiteramos que a estrutura arrojada do Dicionário Field apresenta um caráter inovador, visto que se trata de um produto inédito, em termos de aplicação da Semântica de Frames à organização lexicográfica de um produto brasileiro multilíngue, do domínio do futebol, com propósitos não acadêmicos. trata-se, portanto, de um recurso dicionarístico peculiar, que repercute tanto nos estudos relacionados ao tratamento do significado dado pela Semântica de Frames quanto na concepção usual de dicionário e, consequentemente, na prática lexicográfica como um todo. Desta forma, esperamos que nossas reflexões possam ter contribuído com a área da Semântica de Frames voltada à construção de recursos lexicográficos, bem como aos estudos de lexicografia relacionados às questões mega e macroestruturais de diferentes dicionários eletrônicos.

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Recebido em: 10/12/2014 e aceito em: 18/12/2015.