Resumo




Neste artigo, que se desenvolve a partir das áreas de concentração da Geolinguística contemporânea e da Sociolinguística Variacionista, propõe-se re etir sobre a língua portuguesa falada em quatro cidades do norte mato-grossense. Como objeto de análise, destacam-se registros e tessituras interpretativas das variantes lexicais do tema mistura. O resultado dessa análise constitui parte da documentação referente à diversidade linguística desses espaços geográ cos, oriunda do contato de todos os dialetos e idioletos trazidos por migrantes de suas regiões de origem, e, por conseguinte, descreve um recorte da linguagem utilizada pela comunidade para representar o mundo sociocultural que a cerca. 




Introdução

Neste texto, que se fundamenta nos pressupostos da Geolinguística contemporânea e da Sociolinguística Variacionista, tem-se como principal propósito, a partir da análise das variantes lexicais de mistura, refletir sobre a variedade portuguesa falada em quatro cidades do norte de Mato Grosso (Vera, Santa Carmem, Sinop e Cláudia).

Esta região integra, conforme a divisão dialetal que NASCENTES (1953) fez no Brasil, parte do território incaracterístico e, também por esse motivo, ausente na rede de pontos do Projeto ALiB (Atlas Linguístico do Brasil).

Figure 1.

FIGURA 1: Mato Grosso (31. Cláudia; 114. Santa Carmen; 129. Sinop; 140. Vera)

Figure 2.

FIGURA 2: Divisão de falares no território brasileiro, conforme NASCENTES (1953)

Neste contexto, como propósito amplo, apresenta-se como resultados a descrição e análise de um recorte do falar das comunidades linguísticas que integram esta região em estudo, de acordo com fatores diatópicos observados e aspectos de natureza sociocultural. A reflexão analítica feita permitiu que se apreendessem marcas regionais que constituíram e ainda constituem o português brasileiro (PB) falado neste espaço geográfico. Essas marcas podem se resumidas na junção de todas as variedades trazidas pelos migrantes de seus Estados de origem.

Ressalta-se que, para se chegar aos resultados alcançados e apresentados nesta pesquisa, foram utilizados referenciais teóricos que se fundamentaram na teoria da variação de LABOV (2008), na concepção de norma de COSERIU (1979) e nas noções de estatística lexical de MULLER (1968), devidamente adaptadas à especificidade deste estudo. A partir destes referenciais teórico-metodológicos e tendo como guia o método de investigação científica adotado pelo Projeto Atlas Linguístico do Brasil (Projeto ALiB), lançamos olhar às variantes lexicais em uso pelos sujeitos moradores destas cidades em análise, com destaque ao tema mistura. Esse olhar permitiu-nos verificar como a variedade linguística, mais especificamente no nível semântico-lexical, e as implicações de natureza sociocultural, foram constituídas e se expandiram na região norte mato-grossense.

1. Mobilizações Teórico-Metodológicas e Contextuais

Conforme já salientado, apresentar e analisar as variantes lexicais do tema mistura, de acordo com fatores diatópicos e aspectos de natureza sociocultural, em quatro municípios do norte de Mato Grosso: Sinop, Santa Carmem, Cláudia e Vera, fundados a partir da ação de uma colonizadora denominada Colonizadora Sinop S.A., é a proposta diretriz desta pesquisa de natureza dialetológica, assim como verificar a pluralidade de fenômenos linguísticos e culturais trazidos por migrantes, que são responsáveis pela formação e expansão do português na região.

Conforme SOUZA (2004), entre os anos setenta e oitenta do século XX, estimuladas pelos “programas especiais” de incentivos fiscais concedidos pelo governo federal, foram registradas 33 (trinta e três) empresas privadas que implantaram 88 (oitenta e oito) Projetos de Colonização. Destas, destaca-se a Colonizadora Sinop (Sociedade Imobiliária do Noroeste do Paraná Ltda.), que inicia suas atividades no norte de Mato Grosso em 1971, ano em que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) aprova o projeto de aquisição das terras da Gleba Celeste1, ou seja, terras compradas de terceiros, pois o governo do Estado já as havia ‘vendido’ anteriormente.

O primeiro grupo de trabalho da Colonizadora foi comandado por Ulrich Grabert e pelo agrimensor Carlos Benito Spadoni, que iniciaram as atividades de demarcação da Gleba. De acordo com PANOSSO NETTO (2000), o primeiro lote de terras adquirido foi denominado Núcleo Colonial Celeste 1 e dividido em três partes: a) a primeira, com 63.741,30 ha., recebeu o nome de Vera; b) a segunda, com 64.407,67 ha., foi chamada de Santa Carmem; c) a terceira, com 59.519,00 ha., denominada de Sinop. Em meados da década de setenta a Colonizadora Sinop comprou mais 80.000 ha. e criou o Núcleo Colonial Celeste 2, implantando a quarta parte do projeto, nomeada de Cláudia.

Para OLIVEIRA (1982), a divisão territorial da Gleba Celeste seguiu o plano de urbanismo rural projetado pelo INCRA e transformado em documento governamental em 1973. Por este modelo Sinop foi classificada como “Rurópolis”, Vera, Santa Carmem e Cláudia como “Agrópolis”, e os centros convergentes rurais como “Agrovilas”.

Atualmente, Vera conta com uma população de 10.235 habitantes que atua em atividades relacionadas à economia madeireira ou à reestruturada agricultura, principalmente na produção de grãos, como a soja, o arroz e o milho. Já Santa Carmem conta com uma população de 4.021 habitantes, que atua em atividades tais como indústria madeireira, agricultura, agropecuária e prestação de serviços. A cidade de Sinop, é a quarta maior de Mato Grosso em número de habitantes, e conta hoje, em apenas 39 (trinta e nove) anos de fundação, com uma população de 111.643 habitantes, tendo uma economia diversificada, sendo, contudo, conhecida como polo educacional. E Cláudia possui uma população de 10.635 habitantes2, apresentando, no momento, uma economia em que se destacam, na agricultura, as produções de arroz, soja, milho, feijão e coco; na pecuária, os sistemas de exploração de gado de corte e leite pelo sistema extensivo.

Este estudo, por sua vez, filia-se ao Projeto de Pesquisa História e variedade do português paulista às margens do Anhembi, em vigência na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, e, em consonância com os objetivos deste Projeto, procura compreender - os processos de manutenção e mudança da língua portuguesa que se expandiu para as regiões sudeste, sul e centro-oeste do Brasil, pelos caminhos das águas do rio Tietê, antigo Anhembi, dentre outras vias fluviais e terrestres -, e como se constituíram histórico e culturalmente as matizes formadoras do português falado nos quatro municípios citados. Vale ressaltar, uma vez mais, a pluralidade de falares que se encontram nessas cidades, os quais se modelaram a partir do Projeto de Integração Nacional (PIN)3, sancionado à época pelo Presidente da República General Emílio Garrastazu Médici, com a vinda de gentes oriundas de diferentes Estados brasileiros.

Contudo, não é possível desvincular o processo de ocupação do norte mato-grossense, que tem seu início oficializado na década de setenta do século XX, do contexto de colonização do país. Desse modo, é preciso considerar as incursões a esse espaço geográfico desde o início das explorações bandeirantes e monçoeiras, já no século XVII, e mesmo muito antes disso, se considerarmos os caminhos percorridos pelos povos indígenas, fundamentalmente dos kayabi, expulsos da região em nome da ‘civilização’ e do progresso, e que imprimiram muitas marcas na toponímia, principalmente dos rios da região, como também da fauna e da flora: Kayabi, Arinos, Xingu, Tapajós, Paranatinga, Curupy, itaúba, cambará, mutum, paca, cutia, entre tantos outros exemplos.

O espírito empreendedor tropeiro também não pode ser desconsiderado, visto que, ao se estabelecer a rota dos tropeiros – de Viamão/RS a São Paulo/SP e às Minas Gerais/MG – desenvolve-se o fortalecimento do comércio e estimula-se a interiorização do Brasil, promovidos por viajantes encarregados de fazer o transporte de alimentos e materiais de necessidades básicas. Posteriormente, novas rotas passaram a ser investigadas pelos exploradores tropeiros durante o processo de criação das Capitanias de Mato Grosso e Goiás4, os quais, em terras mato-grossenses, viviam essencialmente da criação, transporte e negociação de gado, atividades que se mantêm até os dias atuais.

Com relação às mobilizações teórico-metodológicas da pesquisa, reuniu-se um corpus por meio de quarenta entrevistas, divididas entre vinte sujeitos masculinos e 20 femininos e entre duas faixas etárias distintas, sendo, assim, vinte informantes pioneiros com mais de 50 anos e vinte jovens, de 18 a 40 anos, filhos ou netos desses pioneiros. Dessas entrevistas, dezesseis foram feitas em Sinop, oito em Vera, oito em Santa Carmem e oito em Cláudia, e para as quais se utilizou como guia a versão final do questionário linguístico direcionado ao aspecto semântico-lexical (QSL), aprovada pelo Comitê Nacional do Projeto ALiB e publicada em 2001, pela Universidade Estadual de Londrina.

No entanto, tendo em mãos transcrições de relatos de experiência pessoal de vinte migrantes dos pontos de inquérito pesquisados, e por reconhecer que o repertório verbal da comunidade linguística em que se realizou a pesquisa apresenta peculiaridades e particularidades de acordo com a realidade dos falantes, ousamos criar um questionário semântico- lexical específico, com 210 questões, mantendo, todavia, dezesseis questões originais do QSL do ALiB.

Cabe salientar, ainda, que os pioneiros entrevistados são oriundos de diferentes Estados brasileiros: São Paulo, Goiás, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Sergipe, Bahia, Espírito Santo e Paraíba, descendentes de italianos, alemães, japoneses, suecos, ingleses, portugueses, ucranianos, poloneses, espanhóis, indígenas e africanos.

O método utilizado para a realização das entrevistas foi o proposto por LABOV (2008), que preconiza a necessidade de construir situações de entrevista em que a fala casual ou espontânea encontre um lugar e possa emergir durante a entrevista. Dessa forma, para a perspectiva diatópica dos fatos considerados na pesquisa, fez-se uso dos pressupostos teóricos delimitados pela dialetologia, enquanto para o tratamento dos fatores sociais lançou-se mão de alguns procedimentos metodológicos da Sociolinguística laboviana, tais como a observação do perfil dos sujeitos e sua organização sociocultural, a divisão genérica e níveis de instrução, assim como a postura a ser adotada pelo pesquisador e o método de entrevistas.

Compreendemos, desse modo, que toda a abundância de eventos e fatos disponibilizados pela história não pode ser desconsiderada quando se pensa no processo de ‘ramificação’ que levou à costura do modo de falar local. Assim, reitera-se a importância da escolha do tema mistura, com o intuito de voltar a pesquisa para as possíveis contribuições que o estudo pode trazer, a partir da descrição semântico-lexical, à constituição do português na região, que, até então, foi investigada exclusivamente por PHILIPPSEN (2013)5.

Apresentamos, na subsequência, apenas as variantes lexicais do tema mistura, dadas como resposta à seguinte questão elaborada para este estudo: ...nas refeições o conjunto de coisas misturadas geralmente à base de carne, peixe, frango etc.?.

2. Alinhavos de Análise

No contexto de utilização responsiva, nos quatro pontos de inquérito selecionados, é possível observar a confluência social, cultural, econômica e histórica que leva ao encontro da norma semântico-lexical da língua portuguesa falada nesta região em estudo, ou seja, a “regularidade e sistematicidade por trás do aparente caos da comunicação no dia-a-dia”. (SALOMÃO, 2011, p.190).

Essa reflexão pauta-se, inicialmente, no molde estatístico idealizado por MULLER (1968), o qual tem, como propósito, mensurar e analisar estruturas linguísticas. Destacamos, também, os conceitos fundamentais que abarcam esse fenômeno da linguagem, que são os relacionados à distinção tripartida apresentada por COSERIU (1979) entre sistema, norma e fala. É importante compreender, tal como exposto por esse autor (Idem, p.231), que para os falantes de uma língua a funcionalidade atual implica sempre em uma superação do ‘atual estado de língua’ para o futuro. Dessa maneira, “a língua atual não é apenas conjunto de formas já realizadas, modelos atualizáveis, mas também é técnica para ultrapassar o realizado, ‘sistema de possibilidades’ (sistema)”.

Para esse autor, há, pois, um conjunto de normas sociais na fala coletiva de uma comunidade que deve ser considerado em um estudo geolinguístico, bem como é necessário observar que uma língua histórica apresenta sempre variedades internas, que se alinhavam, essencialmente, a partir das diferenças geográficas (diatópicas), entre os estratos socioculturais de uma comunidade linguística (diastráticos) ou ainda entre os distintos tipos de modalidade expressiva (diafásicos).

BARBOSA (1989, p. 573-4) ainda afirma que a norma tem também um aspecto quantitativo, além do qualitativo, pois “[...] uma norma de grupos de indivíduos, por exemplo, se define, de um ponto de vista, como conjunto de modelos de realizações concretas, e de outro, como o conjunto dos fatos de alta freqüência e distribuição regular nos discursos dos sujeitos falantes”.

Dessa forma, para a verificação da norma, assim como da distribuição (regularidade e sistematicidade) das variantes léxicas do tema mistura trazidas ao corpo de respostas à questão supracitada, apresenta-se, abaixo, a tabela e o cartograma gerado para aquele enunciado:

Figure 3.

TABELA 1: Distribuição das variantes léxicas.

Figure 4.

FIGURA 3: Cartograma: Mistura Distribuição das variantes léxicas

Na tabela, como também se verifica no cartograma, acima, pode-se observar que o item lexical mistura se apresenta com maior ocorrência, mais especificamente com vinte e nove respostas dadas pelos sujeitos. Este item/norma coincide com o tema de propositura da questão em análise. Como frequência, verifica-se que mistura aparece em quinze respostas masculinas e em quatorze femininas, distribuídas entre treze menções de sujeitos acima de 50 anos versus dezesseis manifestações responsivas de jovens, de 18 a 40 anos, nos quatro municípios em estudo. Mistura apresenta, ainda, duas variantes morfológicas: o particípio passado misturado, falado apenas por duas mulheres com mais de 50 anos, uma de Sinop e uma de Vera; e o aumentativo misturão, dito unicamente por um rapaz, de 18 a 40 anos, de Cláudia.

Acentua-se, também, o alto número de não-respostas, ou seja, nove entrevistados não souberam atribuir nenhuma resposta ao conceito da questão, destes entrevistados, oito são da cidade de Sinop, sendo dois homens e duas mulheres com mais de 50 anos, assim como dois rapazes e duas moças, de 18 a 40 anos, e tão somente um é de Santa Carmem, mais especificamente um homem acima de 50 anos.

Ainda com relação às respostas dadas, verifica-se um número maior de menções feitas por sujeitos masculinos, assim como há maior quantificação numérica evidenciada por sujeitos jovens, de 18 a 40 anos, fato este, portanto, que pode ser indício de continuísmo de uso deste item lexical na comunidade linguística pesquisada, ainda que se exacerbe um alto número de não-respostas no corpo responsivo.

2.1 O Item Lexical Mistura: Apontamentos Sócio-Semântico- Lexicais

O item lexical mistura, segundo HOUAISS (2004), teria proveniência do latim mixtūra, derivado de misto e com a seguinte formação histórica: mestura (sXIII) e mistura (sXV).

A inscrição de mistura, conforme se pode ver abaixo, aparece nos quatro dicionários selecionados para a averiguação semântico-lexical dos registros deste item em análise, em BLUTEAU (1712), em PINTO (1832), no AURÉLIO (1986) e no AULETE DIGITAL. Os conceitos disponibilizados para este verbete nestes dicionários são os seguintes:

Table 1.

QUADRO 1: Reflexões analíticas sobre o item lexical mistura.

Dicionário Entrada Vocabulario Portuguez & Latino - D. R. Bluteau (1712) Diccionario da Lingua Brasileira – Luiz M. da S. O. P. Pinto (1832) Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (1986) Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa – (Aulete Digital)
MISTURA Miſtura de couſas, que fazem huma maça, & hum ſô corpo. (p. 515) Acção de misturar. O resultado, da união de varias cousas. (p.722). 1-Ato ou efeito de misturar(se). 2- Conjunto, composto ou produto resultante de coisas misturadas. 4- Cruzamento de raças; miscigenação. (p.1143) 1- Ação ou resultado de misturar(-se). 2- Composto de coisas misturadas; AMÁLGAMA; MESCLA; MISTO. 5- Cruzamento de raças; MISCIGENAÇÃO. 8- SP Pop. Iguaria, ger. à base de carne, peixe, frango etc., que compõe uma refeição.

Conforme os significados que se podem apreender do item lexical mistura nas entradas destes dicionários citados acima, verifica-se que apenas o AULETE DIGITAL traz uma equivalência conceitual ao sentido expresso no enunciado da questão de nosso questionário semântico-lexical ...nas refeições o conjunto de coisas misturadas geralmente à base de carne, peixe, frango etc.?.

Dessa forma, ainda que se possa observar nos quatro dicionários supracitados significações que revelem proximidade a conjunto de coisas misturadas, tais como “Miſtura de couſas” (1712), “O resultado, da união de varias cousas” (1832), “Conjunto, composto ou produto resultante de coisas misturadas” (1986), é somente em um contexto recente, evidenciado no AULETE DIGITAL, que se acentua a noção semântica de “iguaria, geralmente à base de carne, peixe, frango etc., que compõe uma refeição”. Ressalta-se que este dicionário define este sentido como regional, dando destaque ao Estado de São Paulo.

Esta constatação de uso regional, mais especificamente no sudeste do Brasil, é revelada, também, no seguinte fragmento sobre curiosidades do feijão acessível no site da paulista CEREALISTA NARDO LTDA: “O prato ‘feijão com arroz’ (ou ‘arroz-e-feijão’) é um dos mais típicos dos lares brasileiros, acompanhado com alguma ‘mistura’ (nome comum no estado de São Paulo para qualquer coisa que se coma com arroz-e-feijão, como, por exemplo, bife ou batata-frita)6” (grifos nossos).

No entanto, é importante enfatizar que localizamos também o registro do item lexical mistura, com este mesmo significado, utilizado pela moradora da zona rural da cidade baiana de Glória, divisa com Pernambuco, Maria São Pedro, segundo o excerto de narrativa a seguir, publicado no Jornal BAHIA NOTÍCIAS em 27 de maio de 2012:

Meu marido vai pra rua [cidade] todo dia tentar arrumar trabalho, para não roubar o que é dos outros. O dinheirinho que ganho [proveniente do Bolsa Família] dá só para o sustento, pois agora tenho que comprar água para mim e para meus animais. Tenho comido todo dia, mas passo necessidade, não vou mentir. Tem dias em que não tem a mistura [carne ou similar que acompanha o tradicional arroz e feijão]7. (grifos nossos).

Salientamos, então, que, como testificado nos dados acima, a inscrição de mistura com o sentido realçado em análise ocorre nos dicionários apenas após o último quarto do século XX, fato este que indicaria a não presença deste uso lexical no início da colonização norte mato-grossense, a qual ocorreu nos primeiros anos de 1970 do século XX, todavia, o relato de experiência pessoal, conforme o trecho que exporemos abaixo, pode ser indício de utilização deste item desde as primeiras ações colonizatórias vivenciadas pelos migrantes neste espaço geográfico:

(1) Aí, quando que a gente plantô os pé de abobrinha, que deu umas abobrinha, a turma invadia, comeu, porque não tinha outra mistura, mistura era só na Sinop que tinha. Na Sinop pra ir lá demorava treis dia, no tempo da chuva, pra i e treis dia pra voltá. (C17 M)8.

Da mesma maneira, é possível apreender este contexto de uso inicial em algumas justificativas trazidas juntamente à atribuição responsiva dada à pergunta supracitada por sujeitos pioneiros entrevistados, como se pode observar nos seguintes fragmentos:

(2) Aqui eles têm o costume de falá mistura e isso que eu estranhei também, falá que isso é mistura, pra comprá mistura. Lá no sul não se fala isso não. Eu ouvi falá aqui. (S139 F).

(3) Mistura é daqui e nem todos falam isso, eu acho que é mais do nordeste, a gente fala assim eu vô fazê uma carne, uma verdura e eles fala vô fazê uma mistura, mas eu não me entrô ainda na minha cabeça isso. (S1410 F).

(4) Mistura, sempre nóis falô, falta a mistura, até hoje eu falo o que será eu vô fazê de mistura hoje, é costume que vem de casa, né, é aquele costume dos pai, né! (V411 F).

(5) Falta a mistura, mistura é o que vem, né, seja a salada, seja a carne. No Paraná também se falava mistura, a maioria falava. (V212 F)

(6) Às veiz falo, gente, hoje não tem mistura, eu preciso

(7) i comprá. Mistura é a carne, salada, legumes, tudo. Nossa, eu vô fazê almoço hoje, mas não tem nada de mistura, aí pego e vô comprá batatinha, compro carne, uma mistura (S1113 F).

Segundo estes excertos, portanto, constata-se que a noção conceitual de mistura referindo-se a coisas misturadas, geralmente à base de carne, já era utilizada nos Estados de São Paulo e Paraná, estendendo- se, hipoteticamente, ao Estado da Bahia, por outro lado denota-se estranhamento deste sentido evidenciado nas justificativas dadas pelas migrantes dos Estados de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul.

Considerações Finais

De acordo com as reflexões analíticas apontadas nesta pesquisa sobre o tema mistura, se levarmos em consideração os registros feitos em BLUTEAU (1712), em PINTO (1832) e no AURÉLIO (1986), seria

possível afirmar que haveria uma alteração semântica deste item lexical pesquisado em curso na região norte de Mato Grosso, contudo, se nos ativermos à entrada exposta no AULETE DIGITAL e ao se verificar, conforme vimos, as justificativas e relatos expressos pelos sujeitos à utilização de mistura, com o significado manifestado na questão, atesta- se, então, uma continuidade semântica deste uso no espaço amazônico norte mato-grossense desde o início de sua colonização.

Neste contexto, destaca-se, ainda, segundo BOTELHO (2008, p.62- 64-65), que:

A cozinha do Centro-Oeste, por sua vez, revela as influências dos fluxos populacionais que se encontraram nessa região, quase sempre originários de outras partes do país e que se mesclaram com os elementos regionais. [...] A diversidade das cozinhas regionais e no interior das macrorregiões é fruto da combinação, ao longo da história, de elementos geográficos, sociais e culturais. São expressões elaboradas da identidade dos brasileiros que vivem nas distintas partes do País. Mais além da culinária regional, expressão da diversidade, a cozinha brasileira é um fator de unidade nacional, por meio da identificação do binômio feijão com arroz como prato típico de subsistência cotidiana do brasileiro, ou seja, como elemento de identidade nacional [...] acompanhado pela farinha de mandioca, salada e carne (de gado, porco, ave ou peixe).

Por conseguinte, é a partir da mescla de fluxos populacionais de distintas regiões brasileiras que se constituiu e ainda se constitui a identidade da cozinha nos quatro pontos de inquérito em estudo. Assim, além do item lexical mistura, que, conforme os resultados desta pesquisa, tem maior disseminação no sudeste do Brasil, mas encontrou espaço de difusão no norte de Mato Grosso e assimilação por parte de migrantes vindos de outras regiões do país, merece realce, também, o item virado, que igualmente se encontra no falar da comunidade pesquisada e tem raízes históricas ligadas à maior propagação em solos paulistas. Conforme RURAL (2008, p.72-73, grifos em negrito nossos):

Com suas andanças, os tropeiros foram levando sabores, trocando produtos e fazendo a mistura que hoje praticamos em nossa cozinha. Muitos pratos, como o virado-de-feijão – ou virado paulista – nasceram nesse tempo. [...] Com a chegada da bandeira no local do plantio, o feijão era cozido junto com as carnes de animais caçados no caminho e o milho, transformado em quirera fina e misturado ao feijão. Fazia-se, assim, um prato forte que era apreciado pelos viajantes. Veio daí a frase e o conselho para quem ia viajar pelas matas do Brasil: “Para comer, vai se virando como os paulistas”. “Se virando” transformou-se, com o tempo, em “virado paulista”, atualmente preparado com farinha de milho, torresmo e lingüiça.

É, portanto, o fluxo migratório diverso que possibilitou e ainda possibilita o encontro de diferentes culturas e de diferenciadas propagações linguísticas sinonímicas ou com semelhantes relações conceituais, como as elencadas nos dados responsivos dos sujeitos entrevistados, as quais configuram o cenário sócio-histórico e semântico- lexical da língua local em construção.

Vale salientar ainda que, para que se alcançassem os resultados apresentados acima, partiu-se dos falantes e da fala, na sua face viva e móvel, atravessada pelas dimensões geográficas e pelos parâmetros sociais, para descrever os fenômenos linguísticos que circulam no norte mato-grossense, visto que, conforme BUSSE (2010), o estudo da fala e as análises sobre a variação têm como índice condutor a história e a cultura do povo, e, tomadas enquanto representação do comportamento dos falantes, mostram, por sua vez, como os fenômenos são moldados à luz das complexas relações sociais. Dessa forma, pôde-se perceber que a língua em seus traços mais particulares reflete as condições pelas quais os grupos vêm se constituindo.

Todas essas reflexões tecidas vêm, também, ao encontro das ponderações de Isquerdo (2006, p.18), quando diz que:

Na verdade, essa norma foi se desenhando de forma distinta nas diferentes regiões brasileiras, motivada por condicionantes extralingüísticos, como os fatores físico-geográficos que as individualizam, os contatos étnicos que ali se processaram, as atividades econômicas predominantes, enfim, pela história social das várias áreas culturais que foram se formando, nos mais diferentes rincões do Brasil, ao longo da sua história.

Após todos esses apontamentos feitos, e sem deixar de realçar as possibilidades outras de leituras, compreendemos que atingimos o objetivo de mostrar um pequeno recorte de como o falar no nível semântico-lexical da região norte mato-grossense foi constituído, e ainda se constitui.

Referências

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Recebido em: 20/07/2015 e aceito em: 11/12/2015.