Resumo

Apoiando-se no conceito de junção proposto por RAIBLE (1992), entendida como o estabelecimento de relações semânticas por meio de diferentes recursos de integração sintática, o objetivo deste trabalho é veri car a hipótese de correlação entre técnicas de junção e tradições discursivas, analisando a distribuição das técnicas de expressão da contra-causa em 93 cartas pessoais escritas pelo folclorista norte-rio-grandense Câmara Cascudo ao escritor paulista Mario de Andrade entre os anos de 1924 e 1944. A análise foi dividida nas seguintes etapas: a) identi cação dos meios linguísticos utilizados na expressão de contra-causa no corpus; b) classi cação desses recursos segundo o grau de integração sintática; c) análise da distribuição desses recursos; d) interpretação dos resultados com relação ao espaço que o gênero carta pessoal ocupa no contínuo de oralidade e escrituralidade, proposto por KOCH & OESTERREICHER (1990). Como resultado da análise, veri ca-se uma preferência por um tipo de nexo coesivo que predomina nessas cartas, a saber, a técnica de coordenação na expressão de contra-causa, e também por um item linguístico especí co (“mas”), que se mostra como recurso prototípico dessa técnica nos dados do corpus. Tais preferências são interpretadas com relação à a nidade que o gênero carta pessoal apresenta com a oralidade concepcional. 

Introdução

No âmbito do Projeto de História do Português Brasileiro (PHPB) no Rio Grande do Norte, são empregadas diferentes perspectivas teórico-metodológicas na análise de gêneros de sincronias passadas, a exemplo de 93 cartas pessoais escritas pelo folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo ao escritor paulista Mario de Andrade, entre 1924 a 1942, com o objetivo de descrever aspectos linguísticos do Português do RN. Como gênero influenciado pela oralidade, as cartas pessoais são fontes relevantes para o linguista que deseja obter informações a respeito do uso de uma determinada variedade linguística em contexto informal. Neste trabalho, buscamos examinar os nexos coesivos da junção, entendida como o estabelecimento de relações semânticas, nas cartas pessoais do intelectual norte-rio-grandense ao amigo paulista. Duas premissas orientam-nos em nosso objetivo: em primeiro lugar, adotamos a posição de que cada gênero textual emprega, preferencialmente, determinados recursos coesivos. Assim, os conectores com valor temporal aparecem de modo privilegiado nos discursos da ordem do narrar, ao passo que os conectores lógicos são mais frequentes nos discursos da ordem do expor (cf. BRONCKART 1999, p. 264). Em segundo lugar, defende-se aqui a hipótese elaborada por KABATEK (2006) de que a análise da junção (conceito proposto por RAIBLE, 1992, que engloba relações como causalidade, concessividade, finalidade, etc), pode ser útil à identificação de tradições discursivas (isto é, de padrões textuais) e, por extensão, de gêneros em grande corpora:

No nosso projeto, em uma série de trabalhos prévios procuramos determinar a relação entre os juntores que se encontram em um texto e a TD à qual o texto pertence, podendo afirmar, pelo menos segundo os primeiros estudos, que existe uma clara correlação. Esta correlação é por um lado qualitativa, quer dizer que em uma TD de finalidade determinada vai aparecer uma série de nexos que correspondem ao conteúdo expresso nesse texto. Mas a possibilidade de distinguir diferentes TD dá-se ainda muito mais quando se introduz um elemento de quantidade relativa, contando o número relativo de juntores que aparecem em um texto. Os dois fatores levaram-nos à seguinte hipótese de trabalho: Os esquemas de junção de um texto (“juntores” que contêm e frequência relativa) são sintomas para determinar a tradição discursiva a que pertence”. (KABATEK 2006, p. 519)

A partir dessas premissas, o presente trabalho buscará comprovar a hipótese de Kabatek (2006) mediante a identificação de técnicas de junção da relação de contra-causa (a quebra de expectativa) em um corpus de cartas pessoais escritas pelo folclorista potiguar Câmara Cascudo ao escritor paulista Mario de Andrade, orientando-se pelas seguintes perguntas metodológicas:

▪ Quais são os recursos de junção preferencialmente utilizados por Câmara Cascudo a Mario de Andrade em sua correspondência pessoal na expressão de contra-causa? (identificação dos recursos)

▪ Qual é o papel que um determinado juntor desempenha dentro do inventário de recursos de junção a partir de critérios sintáticos? (classificação sintática)

▪ Podem ser identificadas preferências na escolha e distribuição desses recursos no corpus, isto é, há uma textualidade típica da junção nessas cartas? (distribuição dos recursos)

▪ Como podemos relacionar esses resultados ao contínuo de oralidade e escrituralidade? (interpretação dos dados segundo a motivação textual)

O corpus1 abrange 93 cartas, com 34.180 palavras, distribuídas ao longo do período de 1924 a 1944 da seguinte maneira:

1924 – 1 carta – 292 pal.

1925 – 14 cartas – 6.806 pal.

1926 – 6 cartas – 1.799 pal.

1927 – 2 cartas – 678 pal.

1928 – 5 cartas – 1.669 pal.

1929 – 4 cartas – 1.872 pal.

1930 – 8 cartas – 2.206 pal.

1931 – 11 cartas – 4.989 pal.

1932 – 5 cartas – 954 pal.

1933 – 5 cartas – 3.267 pal.

1934 – 3 cartas – 894 pal.

1935 – 3 cartas – 615 pal.

1936 – 4 cartas – 1.213 pal.

1937 – 6 cartas – 2.522 pal.

1938 – 1 telegrama2 – 9 pal.

1939 – 1 carta – 97 pal.

1940 – 1 carta – 143 pal.

1941 – 5 cartas – 1. 614 pal.

1942 – 2 cartas – 737 pal.

1943 – 1 carta – 274 pal.

1944 – 5 cartas – 1.530 pal.

Este estudo está organizado em 4 partes: na parte 1, faremos algumas considerações sobre o conceito de junção segundo Raible (1992). Em seguida, na parte 2, caracterizaremos os recursos de junção do corpus com relação a critérios sintáticos propostos por Blühdorn (2006). Na parte 3, analisaremos sua distribuição pelo corpus e, por fim, na parte 4, apresentaremos algumas conclusões a respeito desse tipo de análise.

1. O Que é junção?

RAIBLE (1992, p. 31-32) define junção como o estabelecimento de relações semânticas3, isto é, como a representação de estados de coisa (Sachverhaltsdarstellung). Como exemplo de dois estados de coisa que sofrem junção, RAIBLE apresenta a seguinte sequência:

(1) Pedro estava doente. Por isso, ele ficou em casa4.

Nessa sequência, dois estados de coisa são colocados em relação: a causa (“Pedro estava doente“) e a consequência (“Por isso, ele ficou em casa”). Temos, portanto, uma relação causal. Contudo, o autor sustenta que os estados de coisa podem ser representados linguisticamente tanto como proposições quanto como participantes dentro de uma proposição. Um sintagma como [por doença] seria a versão mais condensada do estado de coisas representado por “Pedro estava doente“. Nesse caso, aponta RAIBLE, a relação que se representava antes como proposição passa a ser representada em um único estado de coisa (“Por doença Pedro ficou em casa“). Um dos estados de coisa (Pedro estava doente) tornou-se participante de outro estado de coisa. Por isso, a junção também é a ligação de porções menores (sintagmas, orações, segmentos textuais) em porções maiores5.

Em seu modelo, RAIBLE (1992) concebe a junção como uma matriz de dois eixos de análise: um eixo sintático e um eixo semântico. Com relação ao eixo semântico, RAIBLE postula a existência de um contínuo de complexidade crescente de relações semânticas, que demandam maior ou menor esforço cognitivo. Como relações semânticas baseadas na oposição, a concessividade e a adversatividade possuem um denominador comum: ambas são definidas na literatura especializada como relações que expressam uma quebra de expectativa6. Nesse sentido, RAIBLE (1992) não distingue entre adversatividade e concessividade, englobando as duas relações em uma única: a contra-causa (em alemão, Gegenursache). A contra-causa é considerada pelo autor como uma das relações semânticas mais complexas, ao passo que a condicionalidade é considerada como uma relação que demanda menor esforço cognitivo. Com relação ao seu comportamento sintático, os recursos linguísticos que servem à junção podem ser classificados em diversos níveis de integração sintática. Raible destaca 8 principais técnicas: justaposição (I), advérbios juntivos (II), coordenação (III), subordinação (IV), formas nominais de verbo (V), grupos preposicionais (VI), preposições simples

(VII) e papéis actanciais (VIII).

Neste trabalho, utilizaremos os critérios sintáticos propostos por Blühdorn (2006) para a identificação e classificação dos recursos de junção no corpus. Tais critérios não podem ser usados para a identificação de recursos dos níveis (V) e (VIII), de modo que esses níveis não serão considerados aqui.

2. Critérios Sintáticos de Classificação dos Recursos de Contra-Causa no Corpus

Partindo da noção de que os recursos de junção podem pertencer a diferentes níveis sintáticos, BLÜHDORN (cf. 2006, p. 3) sugere a adoção de quatro critérios para a sistematização e a distinção dos diferentes graus de integração sintática:

i. [±posiciona-se no segundo relatum]: esse critério diz respeito à posição do juntor em relação aos dois relata, quer dizer, em relação aos dois objetos semânticos que sofrem junção.

ii. [±ocupa posição inicial em relação a um relatum]: esse traço se refere à posição do juntor dentro do relatum em que esse juntor se encontra e que é parte de uma junção;

iii. [±atribui papel relacional]: na junção de dois relata, o juntor atribui a um relatum o papel relacional de objeto situado e a outro de objeto de referência. O modo como se dá essa atribuição serve à distinção das classes de juntores.

iv. [±pede complemento oracional]: alguns conectores, como é o caso das conjunções subordinativas, exigem complemento oracional, ao passo que outros podem ter como complemento um SN, uma forma nominal do verbo ou uma oração, a exemplo das preposições.

A seguir, aplicaremos tais critérios para a classificação dos juntores identificados nas cartas de Câmara Cascudo a Mario de Andrade a partir dos traços propostos por esse autor. Contudo, cabe ressaltar que não é possível acessar a intuição dos falantes de sincronias passadas. Nesse sentido, o resultado desses testes sintáticos na classificação de um item foram comprovados por meio do uso desse item não só no corpus, mas também em dados do período apresentados na literatura especializada.

2.1 Primeiro Traço Sintático: Posição do juntor Entre os Relata

O primeiro traço permite observar que tanto preposições quanto conjunções subordinativas podem estar no primeiro ou no segundo relatum, ao passo que os advérbios juntivos e as conjunções coordenativas só podem se posicionar no segundo relatum (cf. GUTZ INGLEZ 2007, p. 34-35). O par de exemplos (2a) e (2b) comprova a impossibilidade de advérbios juntivos ocuparem posição no primeiro relatum:

(2a) Até hoje estamos com a maioria de 1987 votos... sobre a chapa interventorial. Municipios, como Patú, eles tiveram 3 votos contra 280 !... Apezar de tudo isso os prefeitos dos municípios continuam governando mesmo expulsos moralmente pelas urnas. (24/05/1933)

(2b) *Apezar de tudo isso os prefeitos dos municípios continuam governando mesmo expulsos moralmente pelas urnas. Até hoje estamos com a maioria de 1987 votos sobre a chapa interventorial. Municípios, como Patú, eles tiveram 3 votos contra 280 !

Os exemplos (3a) e (3b) confirmam o posicionamento de conjunções coordenativas no segundo relatum:

(3a) Dr. Lamartine quis pagar mas não consenti. (09/05/1930) (3b) *Mas não consenti, Dr. Lamartini quis pagar.

Já os exemplos a seguir demonstram que as conjunções subordinativas ((4a) e (4b)) têm a possibilidade de posicionamento tanto no primeiro quanto no segundo relatum:

(4a) Imagine que o original está com o amavel Schimit e este afirma ter devolvido embora não apresente prova. (14/11/1936)

(4b) Embora não apresente prova, este afirma ter devolvido [o original].

Também as preposições ((5a) e (5b)) e as locuções prepositivas ((6a) e (6b)) demonstram poder assumir posição tanto no primeiro quanto no segundo relatum:

(5a) Excepto Geracina todas as outras estão mortas (07/03/1928) (5b) Todas as outras estão mortas excepto Geracina.

(6a) Apesar de todas as vontades, não me é possivel ir ver você em S. Paulo (28/07/1941)

(6b) Não me é possível ir ver você em S. Paulo, apesar de todas as vontades.

Como vimos, o primeiro critério de classificação sintática permitiu distinguir, portanto, os advérbios juntivos e as conjunções coordenativas dos demais recursos.

2.2 Segundo Traço Sintático: Posição do juntor Dentro do Relatum

O segundo critério de classificação sintática dos conectores - sua posição dentro do relatum em que se encontra- permite distinguir entre advérbios juntivos e conjunções coordenativas. Segundo BLÜHDORN (cf. 2006, p. 3), advérbios juntivos (tais como, então, , portanto) não são marcados em relação ao segundo traço, sendo a única categoria de conector que apresenta mobilidade dentro do relatum em que se acha (exemplos (7a), (7b), (7c)). Como os exemplos mostram, as preposições ((8a), (8b) e (8c)), as conjunções subordinativas ((9a), (9b) e (9c)) e as conjunções coordenativas ((10a), (10b) e (10c)) posicionam-se obrigatoriamente no início do relatum, não apresentando mobilidade interna.

(7a) Não pretendi fazer experiencia em sua sensibilidade mesmo porque só a você me dirigi. [A “crise”, entretanto passou]. (18/06/1927)

(7b) Não pretendi fazer experiencia em sua sensibilidade mesmo porque só a você me dirigi. [Entretanto, a crise passou].

(7c) Não pretendi fazer experiencia em sua sensibilidade mesmo porque só a você me dirigi. [A crise passou, entretanto].

Preposições:

(8a) [Com exceções (fortuitas e raras)] estamos ainda na phase da interjeição. (09/12/1925)

(8b) *[Exceções com (fortuitas e raras)] estamos ainda na phase da interjeição.

(8c) *[Exceções (fortuitas e raras) com] estamos ainda na phase da interjeição.

Conjunções subordinativas

(9a) Imagine que o original está com o amavel Schimit e este afirma ter devolvido [embora não apresente prova]. (14/11/1936)

(9b) *Imagine que o original está com o amavel Schimit e este afirma ter devolvido [não apresente embora prova].

(9c) *Imagine que o original está com o amavel Schimit e este afirma ter devolvido [não apresente prova embora].

Conjunções coordenativas

(10a) Ficou meio feio. [E ele é uma pura maravilha de lindeza]. (24/05/1933)

(10b) * Ficou meio feio. [Ele é, e, uma pura maravilha de lindeza]. (10c) * Ficou meio feio. [Ele é uma pura maravilha de lindeza, e].

Com os dois primeiros traços sintáticos sugeridos por BLÜHDORN (2006), três grupos de juntores puderam ser identificados: as conjunções coordenativas, os advérbios juntivos e os demais juntores (preposições e conjunções subordinativas).

2.3 Terceiro Traço Sintático: Atribuição de Papel Relacional

Com o terceiro traço sintático, a atribuição de papel relacional, é possível proceder à distinção, ainda, entre as conjunções subordinativas das conjunções coordenativas e dos advérbios juntivos.

Quando dois objetos semânticos (sejam eles SN, sentenças ou sequências textuais como parágrafos, por exemplo) sofrem junção, um dos relata desempenhará o papel de objeto de referência, enquanto o outro funcionará como objeto relacionado/situado. Para BLÜHDORN (2006, p. 5), esses termos corresponderiam à terminologia de Langacker (1987) de trajector (a entidade a ser localizada) e landmark (o ponto de referência):

Die semantische Asymmetrie kann in Anlehnung an Langacker (1987: 231ff.) so bestimmt werden, dass einem Relatum die Rolle zufällt, zu etwas in Relation gesetzt zu werden (Langacker nennt es trajector), während das andere die Rolle dessen hat, zu dem etwas in Relation gesetzt wird (Langacker nennt es landmark). Zur Erläuterung greift Langacker (ebd.) auf die gestaltpsychologische Unterscheidung zwischen Figur und Grund zurück. Grund ist das, wozu etwas in Relation gesetzt wird, Figur ist das, was dazu in Relation gesetzt wird7. (BLÜHDORN 2008, p. 23)

Do ponto de vista da atribuição de papéis relacionais, podem ser identificadas as seguintes grades relacionais básicas de classes de conectores (cf. BLÜHDORN 2008, p. 25):

▪ Advérbios juntivos: R [Adv E]

▪ Conjunções coordenativas: R/E conj E/R

▪ Posponedores8: E [Posp R]

▪ Embutidores de V29: [[V2-Emb R] E]

▪ Conjunções subordinativas/preposições: [[Sub/Prep R] E]

▪ Partículas de comparação: [[Parcomp R] Parcomp2 E]

▪ Partículas modais e de foco: (R) [Fpart/Mpart E]

A classificação apresentada por BLÜHDORN permite reconhecer que os advérbios juntivos estão sempre no relatum do objeto situado (E), isto é, no relatum do objeto temático de que se fala, enquanto as preposições e as conjunções subordinativas estão sempre no relatum de referência (R), aquele relatum que acrescenta informações de modo a especificar o objeto semântico situado. Já as conjunções coordenativas podem estar tanto no relatum situado quanto no de referência.

BLÜHDORN (cf. 2008, p. 25) aponta que nos advérbios juntivos o objeto de referência (R) é o próprio componente pronominal que está contido no juntor e que concede o papel relacional de referência à oração que esse componente retoma.

(11) Quando há saxofone não há harmonio e este está morrendo, morrendo. Raramente aparece (R) e mesmo assim lá nos fobós desconhecidos, fóra da cidade (E). (05/01/1932)

(12) O Conselho Consultivo recusou-o duas vezes em dois pareceres sucessivos (R). Nem por isso valeu (E). (04/01/1933)

(13) Até hoje estamos com a maioria de 1987 votos.........sobre a chapa interventorial. Municipios, como Patú, eles tiveram 3 votos contra 280 ! (R)......Apezar de tudo isso os prefeitos dos municipios continuam governando mesmo expulsos moralmente pelas urnas (E). (24/05/1933)

Em (11), o objeto semântico de que se fala é a aparição do harmônio em lugares distantes e desconhecidos, acrescentando-se como informação de referência que esse instrumento raramente aparece. Em (12), o tema do enunciado é o fato de que a recusa de um orçamento não valeu, acrescentando-se a informação de que essa recusa foi feita duas vezes. Em (13), a informação principal é que determinadas pessoas continuam no governo, acrescentando-se a essa informação o fato de que tais pessoas não tem a maioria dos votos.

De modo diverso do que ocorre com os advérbios juntivos, os exemplos abaixo demonstram como as conjunções subordinativas ((14),

(15) e (16)) e as preposições são encontradas sempre no relatum de referência.

(14) Quando penso em receber carta sua (R), recebo um tico de bilhete que mais parece nota policial que bilhete (E). (07/03/1928)

(15) Tome um abraço (E) mesmo que V. esteja deitado ou mastigando o arroz com azeite (R). (09/12/1925)

(16) Lá mora um casal que Azevedo (que é muito de nossa casa) cedeu a casa (E) sem que fosse pago de aluguel (R). (09/05/1930)

Nos exemplos (14), (15) e (16), há objetos semânticos de que se fala e objetos semânticos que são utilizados para especificar esses objetos situados, dando-lhes uma referência mais exata. Em (14), o tema é o recebimento de uma carta muito curta. Torna-se esse objeto mais específico com a menção da expectativa pela carta. Em (15), o tema é o abraço que é enviado. Esse abraço é especificado por meio da alusão à ocupação com uma atividade pouco motivadora do beijo10. Em (16), o objeto semântico de que se fala é a cessão de uma casa. O objeto semântico de referência, que permite especificar esse objeto situado, é a falta de pagamento pelo aluguel.

(17) Não há um só escriptor Sulamericano (E) (excepto alguns argentinos (R)) que esteja de accordo comigo, graças a Deus (E). (02/02/1928)

(18) Excepto Geracina (R) todas as outras estão mortas (E) (07/03/1928)

(19) Até aqui V. deve ter notado que os folcloristas revelam a poesia sertaneja (E) sem a menor explicação de sua evolução e technica (R). (08/06/1931)

(20) Na tarde de 5 de julho de 1932 “A TARDE”, diario que você colaborava e eu, foi empastelado pelos elementos do chefe de policia, João Café Filho e o interventor Capitão tenente Bertino Dutra da Silva, declarou oficialmente que A TARDE havia sido empastelada pelos proprios redatores e os homens que rebentaram a folha continuam passeando (E) sem uma Ave-maria de penitencia (R). (04/01/1933)

Os exemplos de (17) a (20) comprovam que os objetos semânticos de que se fala em cada um desses enunciados não estão no mesmo relatum da preposição. Em todos esses exemplos, o relatum em que a preposição está acrescenta uma informação que torna possível especificar o objeto semântico situado. Em (17), o tema do enunciado é a falta de acordo entre o enunciador e os escritores sulamericanos. Esse objeto semântico é especificado com a informação de que há exceções. O tema do enunciado (18) é a morte de uma série de pessoas conhecidas. Esse tema é especificado por meio da informação de que Geracina não faz parte do grupo de pessoas que morreu. Em (19), o tema do enunciado é o fato de folcloristas mencionarem a poesia sertaneja, acrescentando-se a informação de referência de que não explicam sua evolução. Em (20), a principal informação, aquilo de que se fala no enunciado, é o fato de criminosos continuarem livres, acrescentando-se como informação especificadora que eles não foram punidos.

Com relação à atribuição de papel relacional, o comportamento dos conectores coordenativos é diferente do comportamento descrito acima de advérbios juntivos, conjunções subordinativas e preposições: conjunções coordenativas podem estar tanto no relatum do objeto semântico situado quanto no do objeto semântico de referência, apresentando, portanto, a estrutura R/E conj E/R. Essa possibilidade de ocorrência nos dois tipos de relatum, permite que o conector seja movido de um relatum a outro.

(21a) Pense ahi que orgia vou fazer ... (E/R) E não está V. aqui (E/R). (04/07/1925)

(22a) Há briguinhas (E/R) e esperanças (E/R). (20/10/1925)

(23a) Que diabo é isto? Já lhe mandei três coisas (E/R) e V. apitas que estou deixando esfriar (E/R)? (06/06/1930)

No exemplos (21a), (22a) e (23a), o conector “e” serve à junção de dois objetos semânticos que parecem ter o mesmo papel relacional (E ou R), já que podem ser invertidos:

(21b) Não está V. aqui (E/R)... E pense ahi que orgia vou fazer ... (E/R)

(22b) Há esperanças (E/R) e briguinhas (E/R).

(23b) Que diabo é isto? V. apitas que estou deixando esfriar (E/R) e já lhe mandei três coisas (E/R)?

Nas ocorrências de “mas” nas cartas de Câmara Cascudo não se pode verificar entre os relata o mesmo papel relacional. É certo que, em alguns casos, os relata podem ser invertidos, mas esse conector parece ter se fixado no relatum do objeto situado (cf. Gutz Inglez 2007, p. 42).

(24a) V. conversou com Macunaima (R) mas eu é que móro na terra delle (E). (03/09/1929)

(25a) A casinha é uma delicia de originalidade e feiúra (R). mas é sua para sempre (E). (09/05/1930)

(26a) Continuo no Atheneu (R). mas se o meu negocio der eu largo tudo (E). (22/01/1931)

Em (24a), a principal informação, isto é, a informação que recebe a maior ênfase é a de que o enunciador, no caso, Cascudo, mora na terra de Macunaima. Serve como informação de referência que Jorge de Lima, amigo de Cascudo, conversou com Macunaima (=Mario de Andrade). Em (25a), o tema do enunciado é o fato de uma determinada casinha passar a pertencer a Mario de Andrade. Esse enunciado é especificado pela informação de que essa casinha é feia e original. Em (26a), o tema do enunciado de Cascudo é seu desejo de largar a escola. Acresce-se que ele continua trabalhando no Atheneu. Nessas ocorrências, a posição dos relata pode ser invertida ((24b), (25b) e (26b)). Contudo, percebe-se que, com a inversão, ocorre também uma mudança no sentido do enunciado, dado que o relatum em que “mas” se encontra funciona como objeto situado:

(24b) Eu moro na terra do Macunaima (R), mas você é que conversou com ele (E).

(25b) A casinha é sua para sempre (R), mas uma delicia de originalidade e feiúra (E).

(26b) Se o meu negocio der eu largo tudo (R), mas continuo no Atheneu (E).

Dada a fixação de “mas” no relatum E, a inversão de relata nos enunciados com esse conector é, na maior parte das vezes, agramatical:

(27a) O que espero receber na volta do correio aéreo é o endereço de Plinio Salgado. Ele mandou mas perdi e preciso escrever ao homem. (05/05/1933)

(27b) O que espero receber na volta do correio aéreo é o endereço de Plinio Salgado. *Eu perdi e preciso escrever ao homem, mas ele mandou.

(28a) E as eleições correram calmas porque o chefe de policia foi licenciado e um capitão-tenente, Paulo Mario, genro do Ministro da marinha, assumiu a chefia e deu liberdade. mas no dia 6, Eloi de Souza, diretor da RAZÃO, foi deportado para Recife onde se encontra. (24/05/1933)

(28b) *E as eleições correram calmas porque no dia 6, Eloi de Souza, diretor da RAZÃO, foi deportado para Recife onde se encontra, mas o chefe de policia foi licenciado e um capitão- tenente, Paulo Mario, genro do Ministro da marinha, assumiu a chefia e deu liberdade.

Não é possível estabelecer, portanto, uma grade relacional única para as conjunções coordenativas. Algumas conjunções como “e” podem servir à junção de objetos semânticos de mesmo valor. Outras conjunções, como “mas”, podem fixar-se em um dos relata. Para cada conjunção coordenativa, é necessário avaliar qual é sua atribuição de papel relacional e se é localizada no relatum do objeto situado ou no do objeto de referência. Essa parece ser também a observação de BLÜHDORN (2008, p. 15):

Coordinators are the only class without a fixed assignment pattern. Some of them, such as German aber [but] and denn [for], can be analyzed as assigning E to the first and R to the second connected expression (or vice versa, depending on the criteria used; see BLÜHDORN 2008c). Others, such as German und [and] and oder [or], most probably do not assign relational roles to their coordinands11.

2.4 Quarto Traço Sintático: Tipo de Complemento

Como quarto traço sintático para distinção das classes de juntores, BLÜHDORN (2006, p. 6) propõe a análise do tipo de complemento. Cada uma das quatro classes de juntores abordadas pelo autor (advérbios juntivos, conjunções coordenativas, conjunções subordinativas e preposições) é caracterizada com relação ao tipo de seu complemento da seguinte forma:

A preposição é neutra em relação a este traço. Ela exige um complemento nominal, mas esse pode ser realizado como sintagma nominal, como forma nominal de um verbo (infinitivo, particípio, gerúndio) ou como forma nominal de uma oração (com o transpositor que), i.e., pode ou não ser uma oração.

A conjunção subordinativa, por sua vez, só aceita complementos oracionais, i.e., quando o complemento não é uma oração, e sim, p.ex. um sintagma nominal, então o conector não pode ser uma conjunção subordinativa. Os advérbios juntivos e as conjunções coordenativas mantêm-se neutras em relação ao quarto traço, já que não são elementos transitivos, i.e., não pedem complemento. (BLÜHDORN 2006, p. 6)

Nos exemplos (29), (30) e (31), as três expressões de contra-causa (“pelo contrario”, “de outro lado” e “mesmo assim”) não possuem complemento, isto é, não subordinam um SN ou uma oração. A junção, nesse caso, é dada por meio de correferência e não por regência e encaixamento (caso das subordinadas) ou serialização (caso das coordenadas) (cf. BLÜHDORN 2006, p. 15). As formas “contrario” em “pelo contrario”, “outro” em “de outro lado” e “assim” em “mesmo assim” comprovam essa junção por correferência, cumprindo a função de retomar proposição anterior. Como não apresentam complemento, são classificadas como locuções12 adverbiais.

(29) Não há de que. Pelo contrario. Eu é que lhe estou devendo o pretesto, o motivo, o thema, o lombo, o (ilegível). (25/08/1924)

(30) Eles não poderão pagar monetariamente uma colaboração valiosa como a sua. De outro lado todos os rapazes da TARDE desejam, e o faço em nome deles, ver V. escrevendo, ao menos uma vez por mez ou, se possivel, quinzenalmente na TARDE. (15/08/1931)

(31) Quando há saxofone não há hormonio e este está morrendo, morrendo. Raramente aparece e mesmo assim lá nos fobós desconhecidos, fóra da cidade. (05/01/1932)

Assim como advérbios, conjunções coordenativas não apresentam complemento, dado que esses recursos ligam “palavras, grupos lexicais ou orações, de uma comunicação dada, para indicar que se trata de uma soma de significações, acrescentando-se umas às outras para uma significação total em que todas figuram no mesmo plano” (MATTOSO CÂMARA 1979, p. 183). Diferentemente das orações subordinadas, as orações coordenadas não deixam de ter um caráter de enunciado livre.

Analisando o exemplo (31a) do ponto de vista dos tipos de complemento do conector, podemos observar que a oração “é sua para sempre” não desempenha na oração “a casinha é uma delicia de originalidade e feiúra” o papel de constituinte. Os eventos apresentados (a originalidade e feiúra da casinha, de um lado; o pertencimento a Câmara Cascudo, do outro) são dois eventos coordenados e (32a) comunica, portanto a ocorrência de ambos. Em (32b), ocorre a comunicação de que a casa é de Cascudo, e “é uma delicia de originalidade e feiúra” deixa de valer por si, acrescentando, apenas, informações ao conteúdo principal.

(32a) A casinha é uma delicia de originalidade e feiúra. mas é sua para sempre. (09/05/1930)

(32b) A casinha, embora seja uma delicia de originalidadade e feiúra, é sua para sempre.

Já preposições subordinam constituintes de uma mesma oração. Esses constituintes podem ser um SN (exemplos (33) a (35) ou uma forma nominal do verbo (exemplos (36) a (38)).

Preposições + SN

(33) O melhor que tenho tido em minha vida é não esperar senão bonde e missa. Idéas, elogios, rapapés, frechisbeques litterários, vem quando contra [o provável]. (09/03/1925)

(34) Escreva-me com ou sem [tempo]. (02/08/1925)

(35) Com [exceções (fortuitas e raras) estamos ainda na phase da interjeição. (09/12/1925)

(35) Pretendo collar grau sem [solenidade]. Pelo regulamento só o poderei fazer depois ou com a turma inteira. Fazer collação antes da turma só é permitido com um aviso ministerial [...] Senão conseguir este aviso ficarei obrigado a esperar pela festa sorumabtica e sonnolenta da collação serimoniosa e ôca, bêsta. (30/10/1928)

Preposições + forma nominal do verbo (infinitivo, particípio ou gerúndio)

(36) Tal é o caso singular e verídico em que V. figurou sem [saber] e acabou dono dum mocambosinho. (09/05/1930)

(37) Sobre Christovam nada appareceu ainda nem sobre Omar que fugiu e já voltou sem [ter soffrido] nadinha. (05/12/1930)

(38) Bacuru quer ficar rico sem [pedir favor] e com honestidade. (07/01/1931)

As conjunções subordinativas e locuções conjuntivas subordinativas servem ao estabelecimento de relações entre sentenças, de modo que uma oração se torna parte constitutiva da outra. As conjunções subordinativas, portanto, têm como complemento uma oração, desempenhando junto às orações a função que as preposições desempenham junto às palavras ou construções lexicais (cf. MATTOSO CÂMARA 1979, p. 183). Nos exemplos de (39) a (44), pode-se observar que grande parte das orações subordinadas concessivas nas cartas de Câmara Cascudo a Mario de Andrade é introduzida por conjunções concessivas compostas com “que” como elemento final, como é o caso de “ao inverso do que”, “mesmo que”, “sem que”, “por mais que”. A conjunção “embora” e a locução conjuntiva “mesmo quando” são os únicos coordenadores subordinativos sem “que” final em nossos dados.

Conjunção subordinativa ou locução conjuntiva + oração

(39) Fez uma conferencia e disse o poema “Raça”. Gostei do ultimo. É, ao inverso do que [elle (o poeta) pensa], mais regional que brasileiro. (09/12/1925)

(40) D´A REPUBLICA sahi sem saudades. Vinha para casa pela madrugada. Declarei que de forma alguma continuaria a frente da Imprensa Official mesmo que [Aluizio continuasse]. (01/08/1931)

(41) Falta falar-lhe sobre a sua (ex-sua-nossa) casinha na Areia Preta. Pude rapidamente passar o registo para o seu primitivo dono. Primeiro o dr. Lamartine, sem que [me falasse], não a tinha pago e segundo não queria eu que você ficasse enrolado nos jornaes daqui como recebendo presentes do Estado. (07/01/1931)

(42) Por mais estranho que [pareça a você] não tenho jeito sinão

pedir-lhe que me ajude. (02/03/1935)

(43) As festas do Fernando Luis chegaram aqui justanente no dia ritual e deram uma alegria doida ao piá. Naturalmete presente foi mais festejado embora [eu o haja arrecadado para livra-lo da inevitavel destruição]. (06/01/1937)

(44) Sou o único a não brigar mesmo quando [se trata de suprema tentação exibicionista de discutir escolas]. (29/02/1944)

Em sua proposta de distinção sintática de conectores, BLÜHDORN (2006) não inclui locuções prepositivas e construções com formas nominais do verbo nas quatro principais classes de juntores (advérbios juntivos, conjunções coordenativas, conjunções subordinativas e preposições). Segundo MATTOSO CÂMARA (cf. 1979, p. 182) o que enriquece o quadro de preposições do português é exatamente o desenvolvimento de locuções prepositivas, que suprem ou substituem preposições simples nas mais variadas relações.

Com relação aos quatro traços sintáticos de distinção das categorias de conectores, as locuções prepositivas aqui analisadas apresentam comportamento idêntico ao das preposições simples: (i) locuções prepositivas podem estar tanto no primeiro quanto no segundo relatum (a exemplo de (45a) e (45b)); permanecem, dentro do relatum, na posição inicial (como se vê em (56a), (46b) e (46c); atribuem ao relatum em que se encontram a função R (objeto de referência) (verificável em (47): o tema do enunciado é a impossibilidade de ir a SP; a informação de referência é o desejo de ir); seu complemento pode ser um SN (como comprova (48)) ou uma forma nominal de um verbo (tal como em (49)).

(45a) E se você entender pennas em vez de [pernas], não se engana muito. (26/06/1925)

(45b) E se em vez de [pernas]você entender pennas, não se engana muito.

(46a) Nesse recuado e prehistorico tempo não comprei a Pauliceia Desvairada cuja arlequinal e gritante capa assombrou-me no coração os nomes de Cassimiro de Abreu e de Vicente de Carvalho. Adivinhasse depois deveria de quere-lo tanto faria, em pleno triangulo, à cara d[o Geca] e às faces de [meu querido Rocha Teixeira], uma scena muito parecida com os 5ºs actos em 1840. Fatalidade atroz. (12/07/1925)

(46b) *Adivinhasse depois deveria de quere-lo tanto faria, em pleno triangulo, [o à cara d Geca] e [meu querido às faces de Rocha Teixeira], uma scena muito parecida com os 5ºs actos em 1840. Fatalidade atroz....

(46c) *Adivinhasse depois deveria de quere-lo tanto faria, em pleno triangulo, [o Geca à cara d] e [meu querido Rocha Teixeira às faces de], uma scena muito parecida com os 5ºs actos em 1840. Fatalidade atroz....

(47) Apesar de [todas as vontades], não me é possível ir ver você em S. Paulo. (28/07/1941)

(48) Apesar de [tudo isso] os prefeitos dos municípios continuam governando [. ]. (24/05/1933)

(49) Fez-me agente da agencia delle apezar de [eu ser da United Press]. (28/03/1927)

A análise dos quatro traços sintáticos sugeridos por BLÜHDORN (2006) confirma o comportamento sintático idêntico de preposições simples e de locuções prepositivas. Dado que apresentam o mesmo comportamento sintático, foi necessário considerar a análise morfológica a fim de distinguir as duas classes de juntores em nosso corpus segundo sua tipologia formal (Enquadramento de nome por preposição inicial e final (Prep + SN + Prep): em vez de; à cara de; à face de; Partícula advérbio com adjunção de preposição (Adv + Prep): apesar de (etimologia: a + pesar + de); quando contra; Preposição inicial com adjunção de preposição final (Prep + Prep): exceto para).

3. Distribuição dos Recursos de Contra-Causa no Corpus e Interpretação dos Resultados

A partir dos 4 traços sintáticos propostos por BLÜHDORN (2006), os recursos linguísticos utilizados por Câmara Cascudo na expressão de contra-causa foram agrupados da seguinte maneira:

Table 1.

TABELA 1: distribuição dos juntores de contra-causa pelo corpus segundo o nível de integração sintática

Advérbios juntivos e locuções adverbiais juntivas Coordenação Subordinação Locuções prepositivas Preposições simples
ao contrario, muito ao contrario 1 agora 2 ao inverso do que 1 à cara de 1 com 1
apesar de tudo isso 1 E 29 embora 5 à face de 1 exceto 2
de outro lado 1 mas 72 mesmo quando 1 a não ser 1 sem 18
em desequi- líbrio 1 senão a 1 mesmo que 3 à parte 1 em- bora + SN 2
entretanto 4 sinão a 2 por mais. que 1 apezar de 1
mesmo assim 2 sinão 3 quando 2 apesar de 1
pelo contrario 1 senão por 1 sem que 3 exceto para 1
nem por isso 1 senão 1 se 2 em vez de 2
verdade seja que 1 quando contra 1
verdade é que 1
verdade que 2
Total 13 111 22 10 23

Comparando as proporções globais dessas técnicas nas cartas de Câmara Cascudo a Mario de Andrade (gráfico 1) com relação à massa textual, isto é, ao número total de palavras do corpus (34.180), observa- se a predominância dos recursos de contra-causa do lado esquerdo do diagrama, com nítido destaque para a frequência do uso de coordenação (o nível III da junção, segundo a abordagem proposta por RAIBLE 1992):

Figure 1.

GRÁFICO 1: proporções globais das técnicas de junção com relação ao número de palavras do corpus

O gráfico permite observar uma preferência nítida pela técnica de coordenação na expressão de contra-causa nas cartas de Câmara Cascudo a Mario de Andrade, que é mais de dez vezes mais frequente que advérbios juntivos e locuções prepositivas, sete vezes mais frequente que a subordinação e cinco vezes mais frequente que as preposições simples.

Se o cálculo de proporção de uso tomar como parâmetro o número total de recursos de junção utilizados no lugar do número total de palavras, a preferência pela técnica da coordenação torna-se ainda mais evidente (gráfico 2): do total de 179 ocorrências de recursos de junção identificados no corpus, cerca de 62% são recursos de coordenação:

Figure 2.

GRÁFICO 2: proporções globais de uso dos juntores com relação ao total de recursos de junção

Nossos resultados permitem responder às quatro perguntas apresentadas na introdução.

Com relação à identificação de recursos linguísticos da contra-causa, reconhecemos, em nossos dados, cerca de 40 recursos que fazem parte do inventário disponibilizado pelo PB para a expressão da contra-causa entre as décadas de 20 e 40 do século XX.

O papel que cada um desses recursos desempenha nos diferentes grupos de juntores foi elucidado a partir da classificação de cada recurso segundo os traços sintáticos propostos por BLÜHDORN (2006a).

Quanto à distribuição desses recursos, chegamos a dois resultados: a) em primeiro lugar, verifica-se uma preferência por um tipo de nexo coesivo que predomina nessas cartas: pela técnica da coordenação na expressão de contra-causa; b) em segundo lugar, há um meio linguístico (“mas”) que se mostra como o recurso mais frequente desse tipo de nexo na contra-causa. Das 179 ocorrências de expressão da contra-causa no corpus, o item “mas” é responsável por cerca de 40% desse total, com 72 ocorrências, isto é, o recurso prototípico dessa técnica de junção nos dados do corpus é esse item.

Resta-nos discutir as possíveis motivações dessas preferências pela coordenação. Aqui pretendemos relacionar essas preferências ao espaço que o gênero carta pessoal ocupa no contínuo de oralidade e escrituralidade, proposto por KOCH & OESTERREICHER (1990). Esses autores defendem que a carta pessoal é um gênero influenciado pela oralidade, ainda que seja veiculado graficamente. Como lembra SIMÕES (cf. 2007, p. 178), cartas são uma interface entre escrita e oralidade e pendulam entre um polo e outro, dependendo do grau de intimidade e familiaridade dos interlocutores. O registro utilizado pelo enunciador em uma carta pessoal a um amigo é, portanto, mais próximo da concepção discursiva da oralidade (informal) que da escrituralidade (formal).

Segundo KOCH & OESTERREICHER (1986), há, nos gêneros textuais da proximidade comunicativa (da oralidade concepcional), como é o caso da carta pessoal, predominância de construções paratáticas, ao passo que nos gêneros da distância comunicativa (escrituralidade concepcional), que apresentam maior elaboração linguística, há uma predominância de construções hipotáticas.

Nossos resultados parecem, portanto, confirmar, de um lado, a predominância da coordenação como técnica de junção em um gênero da imediatez comunicativa, permitindo-nos lançar a hipótese (a ser verificada por estudos posteriores) de que o item “mas” é um juntor preferencial da expressão de contra-causa na oralidade. Por outro lado, tais resultados também parecem comprovar a hipótese de KABATEK (2006) de uma correlação entre técnicas de junção e modelos textuais. Em outras palavras: à tipicidade dos textos correspondem determinados esquemas de junção.

Considerações Finais

No início do presente estudo, propusemo-nos a verificar a hipótese de correlação entre técnicas de junção e tradições discursivas, analisando a distribuição das técnicas de expressão da contra-causa em 93 cartas pessoais escritas pelo folclorista norte-rio-grandense Câmara Cascudo ao escritor paulista Mario de Andrade entre os anos de 1924 e 1944. Para alcançar esse objetivo, procedemos a quatro etapas de análise: a) identificação dos meios linguísticos utilizados na expressão de contra- causa no corpus; b) classificação desses recursos segundo o grau de integração sintática; c) análise da distribuição desses recursos; d) interpretação dos resultados com relação ao espaço que o gênero carta pessoal ocupa no contínuo de proximidade e distância comunicativa.

Nossos resultados apontam para a comprovação da hipótese de correlação entre esquemas de junção e modelos textuais, com a observação da preferência pela coordenação na expressão de contra- causa nos dados analisados. Também apontam para a revelância do item “mas” dentro do inventário de recursos disponíveis no Português Brasileiro para a expressão de contra-causa.

Com relação às contribuições que o estudo da junção pode trazer à Linguística, chegamos às seguintes conclusões e perspectivas:

Os recursos de junção presentes em um texto são influenciados e determinados por motivações textuais. Dependendo do universo de discurso, do estilo, do gênero textual, isto é, das tradições discursivas que o atravessam, determinadas técnicas de junção são privilegiadas em detrimento de outras. Além disso, essas técnicas estão ligadas a parâmetros de oralidade e escrituralidade. Esse fato corrobora a noção de que os fenômenos linguísticos não são “fatos brutos” (cf. Koch 1997), mas seu uso é determinado por propósitos comunicativos.

i. A análise da junção permite conjugar dois tipos de perspectiva: semasiológica, isto é, a partir de uma determinada relação semântica para os recursos linguísticos, mas também onomasiológica, quer dizer, dos recursos linguísticos para as relações semânticas. Neste trabalho, a investigação seguiu a perspectiva semasiológica, tendo se restringido apenas aos aspectos sintáticos. Entre os recursos de contra-causa, identificamos também o uso de “e” como expressão de oposição. Contudo, uma perspectiva onomasiológica pode complementar esse e outros achados a partir da investigação dos demais diferentes sentidos que um mesmo recurso linguístico pode expressar (por exemplo, no caso de “e”, a adição).

ii. A investigação da junção em perspectiva diacrônica serve não somente à identificação de padrões textuais em grande corpora e ao próprio inventário de recursos linguísticos de junção, mas também pode dar visibilidade a processos de mudança gramatical e semântica. A comparação entre os diferentes inventários de recursos linguísticos disponíveis para a expressão de relações semânticas em diferentes cortes diacrônicos permite identificar mudanças nos potenciais de leitura de um mesmo juntor na diacronia. Análise semelhante à aqui apresentada de dados de outros cortes temporais seria uma perspectiva a contribuir nessa direção.

Desse modo, a análise da junção constitui um objeto de interesse para diferentes disciplinas, a exemplo da Linguística do Texto, da Linguística Histórica e da Linguística de Corpus.

Referências

BLÜHDORN, Hardarik. Assim, aí, então: A interpretação de advérbios semanticamente subespecificados no âmbito do texto. Mannheim: Institut für Deutsche Sprache, 2011.

_____. Syntax und Semantik der konnektoren: Ein Überblick. Mannheim: Institut für Deutsche Sprache, 2008.

_____. A sintaxe dos conectores. Mannheim: Institut für Deutsche Sprache, 2006.

BRONCKART, Jean-Paul. Atividade de linguagem, textos e discursos. Por um interacionismo sóciodiscursivo. Trad. Anna Rachel Machado e Péricles Cunha, São Paulo: Educ, 1999.

GUTZ INGLEZ, Karin. Conectores de causa e condição em fóruns de discussão na internet. Tese de doutorado, Universidade de São Paulo, 2007.

KOCH, Peter/OSTERREICHER, Wulf. Sprache der Nähe - Sprache der Distanz. Mündlichkeit und Schriftlichkeit im Spannungsfeld von Sprachtheorie und Sprachgeschichte. Romanisches Jahrbuch 36, 1986, 15-43.

MATTOSO CÂMARA, Joaquim. História e estrutura da língua portuguesa. 2ª Ed. Rio de Janeiro, Padrão, 1979.

NEVES, Maria Helena de Moura. Gramática de usos de português. 2. Ed. São Paulo: Editora Unesp, 2011.

RAIBLE, Wolfgang. junktion. Eine Dimension der Sprache und ihre Realisierungsformen zwischen Aggregation und Integration. Heidelberg (Winter) (Sitzungsberichte der Heidelberger Akademie der Wissenschaften. Phil.-hist-. Klasse, Jg. 1992, Bericht 2.

SIMÕES, José da Silva. Sintaticização, discursivização e semanticização das orações de gerúndio no português brasileiro. Tese (Doutorado em Linguística) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.

Recebido em: 07/07/2015 e aceito em: 15/12/2015.