Resumo

A atribuição de postura epistêmica às frases condicionais, em função do gênero, da faixa etária e do nível de escolaridade, foi estudada através da parafraseabilidade diferencial de se por caso ou por já que. Foram usadas frases condicionais com verbo no indicativo, apresentadas em contexto indefinido, ou precedidas de contextos indutores de atribuição de postura epistêmica positiva ou neutra. Os resultados mostraram uma maior tendência dos homens a atribuírem postura epistêmica positiva ao enunciador de tais condicionais e maior tendência dos mais jovens e dos menos letrados a desconsiderarem o contexto fornecido.

Introdução

O conceito de postura epistêmica foi introduzido por FILLMORe (1990: 142), que propôs que o falante pode ter três relações epistêmicas com o mundo representado por uma frase condicional, encarando-o seja como o mundo real, seja como um mundo diferente do real, seja, por fim, como um mundo que ele não sabe se corresponde ou não ao mundo real. Essas três formas de posicionar-se epistemicamente em relação à situação representada pela condicional correspondem, respectivamente, às posturas positiva, negativa e neutra.

As três frases condicionais seguintes exemplificam, respectivamente, as três posturas epistêmicas:

(1) Se ele é quem ele é, não podíamos esperar outra coisa.

(2) Se ele tivesse caráter, não teria feito o que fez.

(3) Se ele tiver oportunidade, fará a mesma coisa de novo.

Na frase condicional (1), o conteúdo da oração condicional (se ele é...), proposto como condição suficiente para a validade da conclusão apresentada na apódose, é afirmado na mesma frase, através da oração quem ele é. Fica evidente, portanto, a postura epistêmica positiva do falante em relação ao conteúdo da prótase. Na frase (2), atribui-se naturalmente ao falante a postura epistêmica negativa, ou seja, a crença de que o homem de quem ele fala não tem caráter. Já na frase (3) a postura é neutra, pois o falante não sabe se aquele de quem fala terá ou não oportunidade de fazer novamente o mesmo.

Ao discutir a postura epistêmica, Dancygier e Sweetser (2005: 45-46) exemplificam a postura positiva com uma frase com a conjunção when (quando) e as posturas neutra e negativa com frases com if (se). “If- clauses (...) are presented as non-positively viewed: the speaker does not commit to a fully positive stance toward this material” (DANCYGIER; SWeeTSeR, 2005: 48)1. Ao introduzir since (já que) em sua discussão, as autoras afirmam categoricamente: “since adopts a positive epistemic stance towards its complement clause, while if does not” (DANCYGIER; SWEETSER, 2005: p. 49)2. HARDeR (1966) também nega a possibilidade da postura epistêmica positiva em condicionais.

GOMES (2008), por outro lado, dá vários exemplos em que if ou se são usados com postura epistêmica positiva e podem ser parafraseados por since ou já que. SCHWENTER (1999) também fornece inúmeros exemplos atestados de condicionais com if (em inglês) ou si (em espanhol) em que o falante se identifica com a verdade da prótase. TAYLOR (1997: 301) igualmente reconhece a possibilidade das três posturas epistêmicas nas condicionais:

In a factual conditional, the content of the if-clause is presumed to be the case, whilst in a counterfactual the content of the if-clause is taken to be contrary to fact. Between these categories stand the hypothetical conditionals, in which the content of the if-clause is entertained as a possibility, neither in accordance with reality, nor necessarily inconsistent with it3.

LEÃO (1961, p. 31-32) discute as frases condicionais do tipo realis, envolvendo fatos cuja realidade é reconhecida. Vincula tais condicionais ao uso do indicativo. Devemos observar, entretanto, que, embora o indicativo seja obrigatório em tais casos, ele também pode ser usado em condicionais com postura epistêmica neutra, envolvendo condições cuja realidade é apenas suposta. A nomenclatura empregada pelos autores é também variável, pois COSTA (1997, p. 27) inclui os casos de incerteza quanto à realidade do antecedente dentro do irrealis, enquanto LeÃO (1961, p. 31-32) usa esse termo para condicionais que envolvem uma “condição contrária à realidade”.

Relevante para nossa pesquisa é a observação de NEVES (2000, p. 848), de que a conjunção se admite formas verbais tanto do indicativo quanto do subjuntivo, enquanto que caso ocorre só com o subjuntivo, e já que exclusivamente com o indicativo. É natural associarmos estas duas últimas conjunções às posturas epistêmicas neutra e positiva, respectivamente, já que o subjuntivo é o modo verbal da dúvida e o indicativo o da certeza. Já o se admite ambas as posssibilidades, sendo pertinente notar que, embora a gramática normativa preconize o uso do futuro do subjuntivo nos casos de incerteza (postura epistêmica neutra), na realidade o indicativo é muitas vezes usado em tais casos, mesmo na literatura culta. Assim temos que se com indicativo pode indicar postura epistêmica positiva ou neutra, enquanto que com futuro do subjuntivo indica postura neutra (e com imperfeito do subjuntivo, postura negativa).

Quanto à especificidade das conjunções, autores como GARCIA (2000), NEVES (2000), LUFT (2002) e AZEREDO (2008) não atribuem à locução já que um papel condicional, mas apenas causal. Por outro lado, BeCHARA (2003, p. 325) observa: “, que tem valor originário temporal, ao unir-se ao que na fórmula já que, passa a uma interpretação causal ou condicional”. A questão terminológica e classificatória, entretanto, nos parece menos importante que a funcional. Mesmo que se classifique que sempre como causal, forçoso é reconhecer que em muitos casos pode ser usada para parafrasear se. Deveríamos nesses casos classificar se também como causal? Ou admitir que, em tais paráfrases, há uma ligeira alteração de sentido, passando de um sentido ainda condicional (embora com postura epistêmica positiva) do se para um sentido puramente causal do já que?

Essas questões não nos parecem tão importantes, pois, como observa Ferrari, “a relação entre a palavra e o mundo é mediada pela cognição. [...] Sob essa perspectiva, as palavras não contêm significados, mas orientam a construção do sentido” (FERRARI, 2011, p. 14). Dessa forma, a postura epistêmica do falante não está rigidamente codificada na conjunção escolhida, nem na forma verbal empregada, embora estas sejam recursos que o falante utiliza, em conjunto com fatores lexicais e contextuais, para comunicá-la. O ouvinte ou leitor, por sua vez, atribuirá àquele que enuncia a frase condicional uma postura epistêmica – que pode, aliás, não ser a mesma intencionada por este último –, através de seus próprios processos cognitivos, construindo-a a partir de todos os indícios presentes na frase e no contexto em que ela ocorre.

Quanto ao uso de paráfrases para a elucidação do significado, acreditamos que ele se torna útil quando há a possibilidade de estabelecer o que chamamos de parafraseabilidade diferencial, o que ocorre quando a possibilidade de uma paráfrase exclui a possibilidade de outra, e vice- versa. Se, em determinado contexto, a palavra A pode ser parafraseada por B, mas não por C e, em outro contexto, a mesma palavra A pode ser parafraseada por C, mas não por B, então podemos concluir que A, nos dois contextos, participa da construção de dois significados diferentes para a frase na qual se insere. Note-se que situamos a diferença de significado no nível da frase, não no nível da própria palavra. Consideremos o exemplo (1), acima. Podemos parafrasear Se ele é por Já que ele é, mas não por Caso ele seja. Já no exemplo (3), ao contrário, podemos parafrasear Se ele tiver por Caso ele tenha, mas não por Já que ele terá. Os exemplos são ainda mais eloquentes quando a mesma frase, em contextos diferentes, admite e exclui paráfrases opostas (como veremos em frases usadas em nossa pesquisa).

A possibilidade de paráfrase de se por já que ou caso, em função da postura epistêmica positiva ou neutra, respectivamente, foi por nós estudada em pesquisa empírica que integrou a dissertação de um dos autores (AUTOR 2, ano). A metodologia e parte dos resultados dessa pesquisa foram apresentados e discutidos em outro artigo (AUTOR 1 & AUTOR 2, ano). Nela, as mesmas frases condicionais com a conjunção se e verbo no indicativo foram apresentadas aos sujeitos em três condições: a) isoladamente (contexto indefinido); b) precedidas de uma frase que afirmava o conteúdo de sua prótase (contexto indutor de certeza); c) precedidas de uma frase que apresentava esse conteúdo como algo incerto (contexto indutor de incerteza).

Com contexto indutor de incerteza, houve uma clara preferência pela paráfrase com caso, enquanto que, com contexto indutor de certeza, os sujeitos tenderam também nitidamente a escolher a paráfrase com já que. No caso do contexto indefinido, cerca de metade dos sujeitos deu às frases condicionais apresentadas (com se e verbo da prótase no indicativo) uma interpretação compatível com a paráfrase com caso e a outra metade as interpretou de forma compatível com a paráfrase com já que (AUTOR 1 e AUTOR 2, ano). Verificou-se, assim, a polissemia das construções condicionais com se e verbo no indicativo, as quais se prestam tanto à postura epistêmica neutra, quanto à positiva.

Foram confirmadas, dessa forma, as seguintes hipóteses de nosso artigo anterior:

1. Em contexto indefinido, uma condicional com se e indicativo na prótase poderá ser interpretada como apresentando postura epistêmica positiva ou neutra e os sujeitos poderão preferir ou a paráfrase com já que ou a com caso.

2. Em contexto indutor de certeza, uma condicional com se e indicativo na prótase tende a ser interpretada como exibindo postura epistêmica positiva, preferindo os sujeitos a paráfrase com já que.

3. Em contexto indutor de incerteza, uma condicional com se e indicativo ou futuro do subjuntivo na prótase tende a ser interpretada como apresentando postura epistêmica neutra, preferindo os sujeitos a paráfrase com caso.

O objetivo do presente artigo é estudar a influência do gênero (masculino ou feminino) dos sujeitos, da sua faixa etária e do seu nível de escolaridade sobre a preferência pela paráfrase com caso ou com já que. Haveria maior tendência de um dos gêneros a interpretar uma condicional como apresentando postura epistêmica positiva e a escolher, portanto, a paráfrase com já que – e, complementarmente, maior tendência do outro gênero à interpretação de postura epistêmica neutra e à consequente escolha da paráfrase com caso? Podemos imaginar que isso poderia ocorrer, seja em decorrência de fatores biológicos, seja em função de fatores socioculturais, atuando sobre os processos cognitivos. Caso a resposta a essa pergunta se mostrasse positiva, qual dos gêneros teria mais afinidade com qual interpretação? Como poderíamos interpretar a preferência observada? Além disso, haveria maior tendência de um dos gêneros a aceitar, e do outro a rejeitar, a influência do contexto fornecido?

As mesmas perguntas se colocam em relação às variáveis faixa etária e nível de escolaridade. Podemos supor que a idade afete o processo de interpretação das frases condicionais. Isso poderia ocorrer, por um lado, em função da evolução da língua, ou seja, de uma alteração semântica diacrônica. LABOV (1972), no plano da fonologia, fez estudos em que a linguagem de diversas faixas etárias aparece como evidência de diferentes estágios da evolução da língua. Podemos considerar que, quando temos um processo de variação, os jovens e as pessoas mais velhas apresentam um comportamento linguístico semelhante. Quando se trata de um processo de mudança linguística, as formas inovadoras serão mais frequentes em jovens e decairão à medida que aumenta a faixa etária dos informantes.

Por outro lado, podemos supor que, em relação a certos aspectos da linguagem, as diferenças no uso da linguagem entre diferentes faixas etárias se devam a características psicológicas ou socioculturais das mesmas. Isso significa que, em relação a esses aspectos, os idosos não usam a linguagem hoje do mesmo modo como a usavam quando jovens, assim como os jovens de hoje usarão a linguagem de modo diferente, quando forem idosos. Tal condição contrasta com a estabilidade do uso da linguagem pelo mesmo sujeito, suposta na proposta que infere uma evolução a partir das diferenças de uso entre faixas etárias.

Em relação à escolaridade, podemos supor que o maior ou menor contato com a norma culta e a maior ou menor pressão social no sentido do uso da mesma levem a diferentes interpretações, em função dos usos consagrados por essa norma. Quanto mais elevado for o nível de escolaridade, mais frequentes deverão ser as respostas condizentes com os padrões estruturais e semânticos estabelecidos pela gramática tradicional estudada nas escolas e praticada no ambiente escolar e acadêmico. Além disso, podemos também supor que diferentes níveis de escolaridade correspondam a maior ou menor desenvolvimento de processos cognitivos envolvidos na análise e interpretação do sentido de frases escritas fornecidas numa pesquisa como esta e, ainda, uma maior ou menor capacidade de ater-se à tarefa cognitiva solicitada e analisar objetivamente os dados fornecidos em questões escritas.

2 Metodologia4

Elaboramos um formulário com 27 itens. Em todos eles, o sujeito devia escolher, para uma frase condicional apresentada no enunciado, uma (e apenas uma) entre duas paráfrases apresentadas, uma com caso e a outra com já que. Nos 9 primeiros itens, a frase era apresentada isoladamente, ou seja, fora de qualquer contexto. Todas as 9 frases do enunciado foram formuladas usando formas do indicativo na prótase. Nos 18 itens restantes, em ordem variável, as mesmas frases apareciam precedidas de outra, que ou afirmava a verdade da prótase da condicional (contexto indutor de certeza), ou apresentava o conteúdo desta como algo incerto, através do uso de talvez, não sei se ou outras expressões indicativas de dúvida (contexto indutor de incerteza). Em alguns dos itens com contexto indutor de incerteza, achamos mais natural trocar o tempo verbal da prótase, no enunciado, para o futuro do subjuntivo. As formas verbais usadas nas paráfrases foram as exigidas pela gramática, ou seja, formas do indicativo nas paráfrases com já que e do presente ou do pretérito perfeito do subjuntivo nas com caso.

A título ilustrativo, reproduzimos aqui os itens 8, 17 e 25:

8 - Se você recebeu a carta, não deveria ter alegado o contrário.

( ) Caso você tenha recebido a carta, não deveria ter alegado o contrário.

( ) Já que você recebeu a carta, não deveria ter alegado o contrário.

17 - Você recebeu a carta. E se recebeu, não deveria ter alegado o contrário.

( ) Você recebeu a carta. E já que recebeu, não deveria ter alegado o contrário.

( ) Você recebeu a carta. E caso tenha recebido, não deveria ter alegado o contrário.

25 - Não sei se você recebeu a carta. Se recebeu, não deveria ter alegado o contrário.

( ) Não sei se você recebeu a carta. Caso tenha recebido, não deveria ter alegado o contrário.

( ) Não sei se você recebeu a carta. Já que recebeu, não deveria ter alegado o contrário.

Alguns itens apresentavam a paráfrase com caso em primeiro lugar, outros a apresentavam em segundo lugar. Em estudo preliminar, não houve influência dessa ordem sobre os resultados e, por isso, não levamos em conta essa variável.

Ao término do formulário, fazíamos um inventário em que perguntávamos a respeito de algumas opções assinaladas pelos informantes. Essas perguntas se referiam às respostas que contrariavam o previsto por nossas hipóteses. Por exemplo, nos itens 17 e 25 reproduzidas acima, esperávamos que a primeira opção fosse marcada. Quando a segunda era a escolhida, perguntávamos sobre as razões do entrevistado para tal.

Alguns entrevistados, ao serem questionados sobre sua escolha, mudavam a paráfrase escolhida. Isso era por nós registrado, mas só computamos em nosso estudo estatístico as primeiras respostas, já que a mudança poderia ter sido motivada exclusivamente por nosso questionamento.

Foram entrevistados 137 sujeitos, dos quais 76 mulheres e 61 homens. 53 sujeitos (26 mulheres e 27 homens) estavam na faixa etária de 14-25 anos; 48 sujeitos (28 mulheres e 20 homens) estavam na faixa etária de 26-49 anos e 36 sujeitos (22 mulheres e 14 homens) tinham

50 anos ou mais. Quanto à escolaridade, 39 sujeitos (22 mulheres e 17 homens) tinham o ensino fundamental completo ou incompleto (eF); 63 sujeitos (34 mulheres e 29 homens) tinham o ensino médio completo ou incompleto (eM); e 35 sujeitos (20 mulheres e 15 homens) tinham ensino superior completo ou incompleto (eS).

O método do qui-quadrado foi usado no tratamento estatístico dos dados (COSTA NETO, 2005: 137-140, 248). este método permite identificar as diferenças de frequência que são estatisticamente significativas das que não o são, levando em conta o número de observações feitas. Além da análise quantitativa, os resultados foram também investigados qualitativamente.

3 Resultados quantitativos

As tabelas com os números de sujeitos que optaram por caso ou já que em cada item, nas duas categorias de gênero, nas três faixas etárias e nos três níveis de escolaridade, assim como as tabelas de contingência e os cálculos do qui-quadrado, podem ser encontrados em AUTOR 2 (ano). Lembremos que, como há só duas alternativas de resposta mutuamente excludentes, sendo obrigatória a escolha de uma delas, a porcentagem de uma resposta é sempre o complemento (100% – x%) da porcentagem da outra.

Como exposto e discutido em artigo anterior (AUTOR 1 e AUTOR 2, ano), nos itens com contexto indefinido, houve, no total dos sujeitos, 51% de respostas caso (e, portanto, 49% de respostas já que). Nos itens com contexto indutor de certeza, houve 70% de respostas já que e naqueles com contexto indutor de incerteza, 71% de respostas caso. A diferença observada entre os contextos de certeza e de incerteza foi significativa, pelo teste do qui-quadrado, no nível de 0,001 (AUTOR 1 e AUTOR 2, ano).

3.1 Gênero

Quanto ao gênero, os resultados obtidos são apresentados na tabela a seguir.

Table 1.

TABELA 1: Porcentagem da escolha da paráfrase com caso , em função do gênero do sujeito

Mulheres % Caso Homens % Caso
Total 53% 48%
Contexto Indefinido 55% 47%
Contexto Indutor de Certeza 32% 27%
Contexto Indutor de Incerteza 72% 70%

Observa-se que, no contexto indefinido, houve 55% de respostas caso entre as mulheres e 47% entre os homens. Essa diferença foi significativa, pelo teste do qui-quadrado, no nível de 0,005. No contexto indutor de certeza, as respostas já que atingiram 68% de entre mulheres e 73% entre os homens. No contexto indutor de incerteza, houve 72% de respostas caso entre mulheres e 70% entre os homens. Essas duas últimas diferenças entre homens e mulheres não se mostraram estatisticamente significativas, no nível de 0,05. Entretanto, apresentam a mesma tendência observada no contexto indefinido, ou seja, maior frequência de já que entre os homens e maior frequência de caso entre as mulheres, nos dois contextos. Além disso, quando os três contextos foram avaliados conjuntamente, a diferença entre homens e mulheres mostrou-se estatisticamente significativa, no nível de 0,005.

esses resultados mostram que as mulheres tendem mais do que os homens à atribuição de postura epistêmica neutra (indicada pelas respostas caso) e, correspondentemente, os homens mais do que as mulheres à atribuição de postura epistêmica positiva (indicada pelas respostas já que). Essa diferença, apesar de estatisticamente significativa, não é grande, entretanto, limitando-se a cinco pontos percentuais no total dos itens.

Além da maior ou menor tendência a atribuir ao falante uma postura epistêmica neutra ou positiva, em qualquer dos três contextos, outro aspecto a considerar é a maior ou menor tendência a seguir ou a desconsiderar o contexto fornecido, de certeza ou de incerteza, nessa atribuição de postura epistêmica.

Nas 76 mulheres pesquisadas, houve 955 respostas concordantes com o contexto fornecido (490 respostas caso com contexto de incerteza e 465 respostas já que com contexto de certeza), contra 413 respostas discordantes do contexto fornecido (194 já que com contexto de incerteza e 219 caso com contexto de certeza), num total de 1.368 respostas a itens com contexto. Isso corresponde a uma porcentagem de 70% de respostas concordantes com o contexto fornecido.

Nos 61 homens, houve 787 respostas concordantes com o contexto fornecido (387 respostas caso com contexto de incerteza e 400 respostas já que com contexto de certeza), contra 311 respostas discordantes do contexto fornecido (162 já que com contexto de incerteza e 149 caso com contexto de certeza), num total de 1.098 respostas a itens com contexto. Isso corresponde a uma porcentagem de 72% de respostas concordantes com o contexto fornecido.

A pequena diferença entre os dois sexos quanto à frequência de respostas concordantes e discordantes não se mostrou estatisticamente significativa. Também não foi significativa a diferença entre os dois contextos fornecidos quanto à frequência de respostas concordantes e discordantes dadas pelo conjunto de homens e mulheres. Conclui-se que os contextos fornecidos influenciam igualmente os dois sexos, e que essa influência manifesta-se com a mesma intensidade nos contextos indutores de certeza e de incerteza.

3.2 Idade

Em relação à idade, a tabela a seguir indica as porcentagens de respostas por faixa etária.

Table 2.

TABELA 2: Porcentagem da escolha da paráfrase com caso , em função da faixa etária.

14-25 % Caso 26-49 % Caso ≥50 % Caso
Total 51% 50% 52%
Contexto Indefinido 53% 49% 52%
Contexto Indutor de Certeza 37% 29% 20%
Contexto Indutor de Incerteza 63% 72% 83%

Observa-se que, tanto no total, como no contexto indefinido, as frequências de ambas as respostas situam-se em torno de 50%, nas três faixas etárias. As pequenas diferenças registradas não são estatisticamente significativas. Isso indica que nenhuma das faixas etárias tem maior tendência a fazer uma atribuição de postura epistêmica positiva ou neutra, com a consequente preferência pelas paráfrases com os conectores caso ou já que, respectivamente.

Com contexto indutor de incerteza, entretanto, a frequência da resposta caso aumenta com a faixa etária, assim como, com contexto indutor de certeza, a frequência da resposta já que aumenta com a faixa etária. A diferença entre as faixas etárias, em ambos os contextos, foi estatisticamente significativa, no nível de 0,001. Na faixa mais jovem, de 14-25 anos, a concordância com ambos os contextos é de 63%, enquanto que na faixa mais idosa, de ≥50 anos, ela é de 80% e 83% para os contextos de certeza e de incerteza, respectivamente.

esses resultados mostram que, com o aumento da idade, aumenta a concordância das respostas com o contexto indutor fornecido. Os jovens são mais refratários à influência do contexto fornecido, parecendo pautarem-se mais pelo contexto imaginativamente criado por eles mesmos, ainda que este esteja em contradição com o contexto fornecido.

3.3 Escolaridade

A tabela 3 apresenta os resultados quanto à escolaridade:

Table 3.

TABELA 3: Porcentagem da escolha da paráfrase com caso , em função do nível de escolaridade.

EF % Caso EM % Caso ES % Caso
Total 51% 51% 50%
Contexto Indefinido 54% 51% 49%
Contexto Indutor de Certeza 33% 33% 21%
Contexto Indutor de Incerteza 67% 68% 81%

Pode-se observar que, no total dos contextos, as diferenças entre os níveis de escolaridade, em relação à frequência das paráfrases escolhidas, são mínimas, não atingindo qualquer significância estatística. No contexto indefinido, as diferenças observadas também não são estatisticamente significativas. Entretanto, no contexto de incerteza, a frequência de respostas caso aumenta com o aumento no nível de escolaridade mais altos. Essa diferença entre os três níveis é estatisticamente significativa, no nível de 0,001. Os números mostram que essa diferença se dá mais acentuadamente entre os dois primeiros níveis, tomados em conjunto, e o nível superior. De forma semelhante, no contexto de certeza, embora a porcentagem de já que esteja empatada, em 67%, entre os dois primeiros níveis de escolaridade, ela sobe para 79% no terceiro nível, e essa diferença é estatisticamente significativa, no nível de 0,001.

Estes resultados, similares aos obtidos em relação à faixa etária, mostram que o nível de escolaridade não se relaciona a qualquer preferência por uma das paráfrases, por si mesma, mas que os níveis de escolaridade superiores correlacionam-se com uma maior concordância da paráfrase escolhida com o contexto fornecido. Na faixa EF, a concordância é de 67% com os dois contextos, enquanto que na faixa ES ela é de 79% e 81% para os contextos de certeza e de incerteza, respectivamente.

3.4 Escolaridade e faixa etária

Combinando os resultados de faixa etária e de escolaridade, verificamos que o subgrupo que deve apresentar a maior concordância com o contexto fornecido é o de sujeitos com ≥50 anos e nível de escolaridade superior. Por outro lado, o subgrupo que deve apresentar a menor concordância é o de sujeitos de 14 a 25 anos com ensino fundamental completo ou incompleto. Tabulando os resultados desses subgrupos (Tabela 4), verificamos que o primeiro apresentou 87% e 88% de concordância com os contextos indutores de certeza e de incerteza, respectivamente, enquanto que o segundo apresentou apenas 57% e 53% de concordância em relação aos mesmos contextos, respectivamente. (Essa diferença também é estatisticamente significativa, no nível de 0,001.)

Table 4.

TABELA 4: Porcentagem da escolha da paráfrases com caso , por sujeitos com 14-25 a. e EM versus sujeitos com ≥50 a. e eS.

14-25 EF % Caso ≥50 ES % Caso
Total 51% 50%
Contexto Indefinido 56% 49%
Contexto Indutor de Certeza 43% 13%
Contexto Indutor de Incerteza 53% 88%

4 Resultados qualitativos e discussão geral dos resultados

Como vimos, as mulheres tendem mais que os homens a interpretarem as condicionais com se e verbo no indicativo como expressando postura epistêmica neutra (parafraseável com caso). Isso pode significar que as mulheres convivem melhor com uma situação de dúvida, e os homens preferem as situações de certeza. Reconhecemos que esta inferência é especulativa, pois não dispomos de dados que a sustentem diretamente. entretanto, observamos em nossos resultados uma diferença entre os gêneros, e não podemos nos furtar a tentar propor uma interpretação para ela. Admitindo-se tal diferença entre os gêneros quanto à preferência pela certeza e à capacidade de conviver com a dúvida, talvez isso reflita uma definição mais tradicional de papéis de gênero na cidade pesquisada, em que cabe ao homem maior assertividade e à mulher maior flexibilidade. Seria interessante verificar se a mesma tendência apareceria em uma cidade mais cosmopolita, já mais liberta dessa visão tradicional sobre os papéis de gênero. Por outro lado, a idade e a escolaridade não afetaram a postura epistêmica atribuída ao enunciador de tais condicionais, em si mesmas.

Foi interessante notar a presença de uma exceção a esse padrão de diferenciação de gêneros, nos itens 12 e 20 do formulário. O item 12 tinha o enunciado: Talvez tenha pedra nesse arroz. Se tiver pedra, tem que catar5. Neste item, a frequência de respostas caso foi aproximadamente a mesma em homens e mulheres (77% contra 74%). Já o item 20, com contexto indutor de certeza, dizia: Esse arroz está com pedra. Se tem pedra, tem que catar. Aqui, o padrão habitual inverteu-se, com as respostas caso em 16% das mulheres contra 30% nos homens. Parece que, em relação a esse conteúdo específico, muitas mulheres aceitaram prontamente como um fato a presença de pedras no arroz, seja diante da afirmação desse fato, seja diante da mera menção de sua possibilidade. Talvez isso tenha acontecido devido a maior familiaridade delas com situações semelhantes, ou maior aceitação da tarefa necessária de catar as pedras. Curiosamente, entretanto, o item que apresentava o mesmo conteúdo em contexto indefinido (item 4: Se tem pedra nesse arroz, tem que catar primeiro) apresentou o padrão habitual, com respostas caso mais frequentes nas mulheres que nos homens (51% contra 36%).

Notemos que as respostas discordantes do contexto fornecido implicam uma rejeição ou desconsideração da postura epistêmica induzida pelo mesmo. Para tentar explicar esse fato, temos que recorrer a uma análise qualitativa dos resultados. Uma explicação para isso, que apareceu muitas vezes em nosso inventário, é a de os sujeitos interpretarem as duas frases desses itens como um diálogo. Assim, no item 12, por exemplo, uma mulher pode ter interpretado que, se alguém diz Talvez tenha pedra nesse arroz, deve ter uma razão para fazê-lo, e que portanto outra pessoa pode responder Já que tem pedra, tem que catar, tomando como fato o que a primeira sugeriu. Duas pessoas não precisam tem a mesma postura epistêmica, o que justificaria a aparente inconsistência da resposta. Já no item 20, diante da frase Esse arroz está com pedra, um homem que não faz serviços de cozinha pode pensar que isso não lhe diz respeito, que não quer saber disso, e se identificar com uma outra pessoa imaginada que responderia: Caso tenha pedra, tem que catar, tratando a presença de pedras no arroz como mera possibilidade. Vale registrar a explicação de um homem para sua resposta discordante no item 20: “Parece ter, e quando tem, tem que catar”. Apesar da afirmação Esse arroz está com pedra, ele aceita apenas que o arroz parece ter pedras.

Vimos também que os contextos fornecidos influenciam igualmente os dois gêneros. As diferentes faixas etárias e os diferentes níveis de escolaridade, por outro lado, apresentam diferentes graus de sensibilidade à influência do contexto fornecido. Os mais jovens e menos letrados mostraram-se menos sensíveis à influência dos contextos fornecidos. Novamente, para tentar explicar essa diferença, devemos recorrer aos resultados qualitativos de nossa pesquisa. Ao serem indagados sobre as razões de suas respostas discordantes, os mais jovens e menos escolarizados deixavam claro que prendiam-se mais a um contexto por eles mesmos imaginado, do que ao contexto fornecido. Isso pode indicar que estes dão curso mais livre à sua imaginação, enquanto os mais velhos e mais instruídos estão mais habituados a adaptar-se à informação fornecida.

Por outro lado, não encontramos qualquer efeito da idade sobre a atribuição de postura epistêmica em si, independente da influência do contexto fornecido. Em outras palavras, não houve maior ou menor tendência a atribuir a postura epistêmica positiva ou neutra a uma frase condicional, em função da idade, seja nas frases com contexto indeterminado, seja no conjunto dos três contextos. Isso significa que não houve evidência favorável a qualquer hipótese relativa a uma evolução da língua no que diz respeito à atribuição de postura epistêmica, nem evidência favorável a uma diferença psicológica ou sociocultural das faixas etárias quanto à mesma atribuição (hipóteses que havíamos levantado em nosso planejamento de pesquisa).

De forma semelhante, não encontramos também qualquer efeito da escolaridade sobre a própria atribuição de postura epistêmica, independente da influência do contexto. Em outras palavras, a escolaridade não causou maior ou menor tendência a atribuir a postura epistêmica positiva ou neutra a uma frase condicional nas frases com contexto indeterminado, ou no conjunto dos três contextos.

No plano metodológico, verificamos que a parafraseabilidade diferencial mostrou-se um instrumento útil para estudar a postura epistêmica atribuída aos enunciadores de frases condicionais, bem como as diferenças nessa atribuição e na consideração dos contextos fornecidos, em diferentes grupos de falantes.

Referências

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