Resumo

Neste  artigo, apoiados na Análise   de Discurso de base enunciativa, mais  especificamente em  Maingueneau  (2010, 2011a, 2011b e  2012), procuramos analisar a  irrupção, a retomada,  a  transformação  e a  circulação do  enunciado  de curta  extensão  “A esperança venceu o medo”, dado a circular pelos mais  diversos suportes midiáticos  brasileiros a partir do  segundo  semestre  de  2002. De forma  não  tão  exaustiva,   estabelecemos como recorte temporal  o período compreendido  entre os anos de 2002 a 2012.  Inicialmente, procuramos definir as características linguísticas e discursivas da expressão enunciado de curta extensão, diferenciando-o,  por exemplo,  de outros  como slogan,  provérbios,  máxima,  fórmula. Num segundo momento,  descrevemos as  características enunciativas  desse fenômeno  linguístico- discursivo. A seguir, discorremos sobre as características linguístico-discursivas que favorecem a  retomada,  a  transformação  e a  circulação do  enunciado.  Em conclusão,  por  um lado, comentamos  acerca dos  determinantes   genéricos e  semióticos  mobilizados   pela  mídia  na retomada,  transformação  e circulação do enunciado  em questão  e, por outro,  discutimos  os diferentes acontecimentos discursivos engendrados por tais retomadas  e circulação, entendendo o enunciado  “A esperança venceu o medo”, por conta não só da sua ampla circulação, mas pelo fato mesmo de designar ao longo de mais  de uma  década, os mais  diferentes acontecimentos discursivos, enquanto  uma  metaforização,  que difere do conceito de panaforização,  proposto por Maingueneau  2010.

Primeiras palavras...

Numa rápida procura pelo enunciado “A esperança venceu o medo”, no site de buscas Google, é possível observar que irrompem pelo menos 822000 ocorrências. Essas ocorrências estão presentes nos mais diversos campos do saber: político, midiático, religioso; nos mais variados suportes: jornais e revistas impressas e digitais, vídeos, outdoors; nos mais variados gêneros discursivos: editoriais de jornais e revistas, artigos de opinião, propaganda política, letras de músicas, caricaturas, charges; na voz de diferentes sujeitos enunciadores: políticos, jornalistas, marqueteiros, religiosos e também são destinadas aos mais diferentes interlocutores. A alta recorrência do enunciado em questão nos mais variados campos do saber, suportes, gêneros; enunciadores e interlocutores evidencia que se trata de um fenômeno linguístico-discursivo digno de ser tornado objeto de estudo.

Neste texto, apoiados na Análise de Discurso de base enunciativa, mais especificamente em Maingueneau (2010, 2011a, 2011b e 2012), procuramos analisar a irrupção, a retomada, a transformação e a circulação do enunciado de curta extensão “A esperança venceu o medo”, dado a circular pelos mais diversos suportes midiáticos brasileiros a partir do segundo semestre de 2002. De forma não tão exaustiva, estabelecemos como recorte temporal o período compreendido entre os anos de 2002 a 2012. Inicialmente, procuramos definir as características linguísticas e discursivas da expressão enunciado de curta extensão, diferenciando-o, por exemplo, de outros como slogan, provérbios, máxima, fórmula. Num segundo momento, descrevemos as características enunciativas desse fenômeno linguístico-discursivo. A seguir, discorremos sobre as características linguístico-discursivas que favorecem a retomada, a transformação e a circulação do enunciado. Em conclusão, por um lado, comentamos acerca dos determinantes genéricos e semióticos mobilizados pela mídia na retomada, transformação e circulação do enunciado em questão e, por outro, discutimos os diferentes acontecimentos discursivos engendrados por tais retomadas e circulação, entendendo o enunciado “A esperança venceu o medo”, por conta não só da sua ampla circulação, mas pelo fato mesmo de designar ao longo de mais de uma década, os mais diferentes acontecimentos discursivos, enquanto uma metaforização, que difere do conceito de panaforização, proposto por Maingueneau 2010.

1 Sobre a enunciação aforizante...

Poucas pessoas hoje em dia contestam a ideia de que o texto constitui a única realidade empírica com a qual os linguistas lidam: unidades como a frase ou a palavra são necessariamente retiradas de textos. O texto é, de fato, a contraparte do gênero do discurso, que é o quadro de toda a comunicação imaginável. Maingueneau utiliza aqui o termo “gênero do discurso” para atividades como o registro de nascimento, o debate televisivo, o sermão, etc. O teórico francês associa frequentemente essa posição a Mikail Bakhtin, em partic ular a seu artigo intitulado “Problemas dos gêneros do discurso”, escrito em 1952-1953.1

Todavia um problema se coloca quando é preciso tratar de enunciados que se apresentam fora do texto, geralmente constituídos de uma única frase. Esses enunciados são chamados por Dominique Maingueneau de “enunciados destacados”. Eles são de tipos muito diversos: slogans, máximas, provérbios, títulos de artigos da imprensa, dicções, intertítulos, citações célebres, etc. Para o pesquisador francês, devem-se distinguir duas classes bem diferentes, segundo o seu “destacamento”: 1) é constitutivo: é o caso em particular das fórmulas (provérbios, slogans, divisas...) que por sua própria natureza são independentes de um texto particular; 2) ou resulta da extração de um fragmento de texto: quando nos encontramos em uma lógica de citação.

Essa extração não acontece de maneira indiferenciada sobre todos os constituintes de um texto, pois frequentemente o enunciador sobreassevera alguns de seus fragmentos e os apresenta como destacáveis. A sobreasseveração é uma modulação de enunciação que procura alçar um fragmento como candidato a uma des-textualização. Trata-se de uma operação de destaque do trecho que é realizada em relação ao restante dos enunciados, por meio de marcadores diversos: de ordem aspectual (generecidade), tipográfica (posição de destaque em uma unidade textual), prosódica (insistência), sintática (construção de uma forma pregnante), semântica (recurso aos tropos), lexical (utilização de conectores de reformulação)...

A comparação entre os enunciados destacados e sua contraparte – sobreasseverados ou não – no texto em que são extraídos mostra que na maioria das vezes o enunciado quando é destacado sofre uma alteração. Essa alteração pode ser mais ou menos importante.

Nesse sentido, quando em seu editorial, o jornal Estadão destaca da propaganda eleitoral de Marta Suplicy, nas eleições municipais de São Paulo em 2008, duas das nove perguntas que a locutora fez ao seu oponente Gilberto Kassab, essas perguntas, sobreasseverações na fala da então candidata, se transformam numa aforização com ampla circulação nos mais diversos suportes midiáticos:

Figure 1.

FIGURA 1: Propaganda eleitoral de Marta Suplicy: eleições municipais de São Paulo - 2008

Figure 2.

FIGURA 2: Editorial do Estadão de 25/10/2008

No entendimento de Maingueneau, essas divergências entre o contexto fonte e o destacamento são reveladoras de um estatuto pragmático específico para os enunciados destacados. Esses últimos revelam, com efeito, um regime de enunciação que o teórico francês propõe chamar “enunciação aforizante”. Nesse sentido, no entendimento de Dominique Maingueneau entre uma “aforização” e um texto não existe uma diferença de tamanho, mas de ordem. Esquema a seguir ilustra as duas ordens enunciativas propostas por Maingueneau:

Figure 3.

Por meio da aforização o locutor se coloca além dos limites específicos de um determinado gênero do discurso. O « aforizador » assume o ethos do locutor que fala do alto, de um indivíduo em contato com uma Fonte transcendente, ele não se dirige a um interlocutor colocado no mesmo plano que ele e que poderia responder, mas a um auditório universal. Ele supostamente enuncia a sua verdade, subtraindo toda a negociação, exprime uma totalidade vivida: seja uma doutrina ou uma certa concepção de existência. Por intermédio da aforização vê-se coincidir sujeito da enunciação e Sujeito no sentido jurídico e moral: alguém que se coloca como responsável, afirmando valores e princípios diante do mundo, se dirigindo a uma comunidade para além dos locutores empíricos que são seus destinatários.

Entretanto, este é o ponto central do problema, o aforizador não é um locutor, o suporte da enunciação, mas uma consequência do destacamento. Quando se extrai um fragmento de texto para fazer uma aforização, convertemos ipso facto seu locutor original em aforizador.

2 A panaforização...

O desenvovimento recente de uma configuração midiática totalmente nova, que associa diretamente a mídia impressa, o rádio, a televisão, a internet e a telefonia móvel permitiu aumentar para níveis sem precedentes o destacamento e a colocação em circulação das aforizações.

Com efeito, um certo número de aforizações são tomadas em um processo de tipo pandêmico: durante um período curto é possível observar a circulação dessas aforizações em todas as mídias e às vezes com uma frequência muito elevada, com estatutos muito diversos: título de um artigo de jornal ou de uma página da internet, frase que circula na parte de baixo do monitor de um canal de informação televisiva, título de um vídeo sobre o Youtube, etc. Como exemplos Maingueneau cita o enunciado « Que vergonha, Barack Obama »2, proferido por Hillary Clinton nas eleições presidenciais americanas de 2008, e o enunciado de Sílvio Berlusconi: « Obama é jovem, belo e bem bronzeado »3 (06 de novembro de 2008). Nesses casos, segundo Maingueneau, pode-se falar de uma « panaforização », termo que combina o pan « pandemia » e « aforização ». A panaforização figura nas manchetes dos jornais, se infiltra nas conversaçãoes ordinárias, suscita debates de todas as espécies nas mídias : sobre os fóruns, os talk-shows televisivos, no correio dos leitores, etc. Antes de desaparecer é substituída por outras. A efemeridade e amapla circulação são os seus traços mais marcantes.

Em regra geral, a panaforização passa pelas notícias das agências de imprensa. O texto a seguir é uma notícia da Agência Reuteurs, consagrada a aforização de Berlusconi. Para Maingueneau ela consagra triplamente o estatus de panaforização do enunciado destacado: pelo título da notícia, pela relativa, «que é jovem, bonito e também bronzeado»4, colocada em final de citação e pela conclusão: «sua observação rapidamente apareceu em áudio e impressa em grandes sites de mídia ao redor do mundo»5. Isso possibilita, de fato, o efeito de aumentar ainda mais a difusão dessa panaforização.

.

Berlusconi da Itália elogia “bronzeado” de Obaima6 Qui, 06 de novembro de 2008 16:45 EST

MOSCOU (Reuters) – O primeiro ministro italiano, Silvio Berlusconi, fez uma entusiasmada, senão original saudação, na quinta, à eleição de Barack Obama, citando entre seus atributos, a juventude, a boa aparência e o bronzeado.

Falando em uma conferência de imprensa conjunta com o presidente russo, Dimitry Medvdev em Moscou, o magnata da mídia de 72 anos, também disse que a eleição de Barack Obama à Casa Branca foi “saudada pela opinião pública mundial como a chegada de um messias” “Tentarei ajudar as relações entre a Rússia e os Estados unidos, onde uma nova geração chegou ao poder, e não vejo problemas para Medvdev estabelecer boas relações com Obama, que é bonito, jovem e também bronzeado,” disse ele.

Berlusconi, que se orgulha de si mesmo por ser amigo do presidente que se afasta, George W. Bush, não se importou com a enxurrada de críticas na Itália à sua observação, que apareceu rapidamente impressa e em áudio nos maiores sites de mídia ao redor do mundo.

Outro exemplo que ilustra bem o funcionamento da panaforização é a frase “Vada a bordo, cazzo”, dita pelo comandante Gregório De Falco da capitania do Porto de Livorno na Itália ao capitão do navio Costa Concórdia Francesco Schettino em 11 de janeiro último quando do naufrágio da embarcação. Depois de proferida, em instantes essa frase foi destacada de seu contexto original de produção e passou a circular nos mais diversos gêneros e suportes midiáticos mundiais.

Figure 4.

FIGURA 3: Matéria publicada na Folha de S. Paulo Online em 18/01/2012

A matéria anterior, que fala da transformação do enunciado “Vada a bordo, cazzo” em bordão de camiseta, publicada no site da Folha Online em 18/01 deste ano, alguns dias após o naufrágio do navio Costa Concórdia, nos dá uma boa dimensão do quanto essa frase do capitão Gregório De Falco ganhou rapidamente em circulação, se constituindo numa panaforização. Entretanto, poucos dias depois de proferida essa frase deixou de frequentar os suportes midiáticos.

Outro exemplo de panaforização pôde ser observado a partir da ampla circulação no cenário midiático brasileiro e internacional da música “Aí se eu te pego”, de Michel Teló:

Figure 5.

Figure 6.

3 Adentrando nas análises: um pouco de metodologia...

Segundo Courtine (2007, p. 125), em Análise do Discurso de orientação francesa há basicamente “duas possibilidades de tratamento de corpora”. Por um lado, é possível trabalhar com corpus de base experimental, ou seja, com questionários dirigidos a um interlocutor em uma situação específica, por exemplo, e, por outro, com corpus de base arquivística, isto é, com um conjunto de textos institucionais, semelhantes aos mobilizados pelos historiadores. Importante salientar que os corpora em Análise do Discurso não são dados a priori. A questão de pesquisa é que determina a maneira mesmo como os corpora serão montados e frequentados.

Ampliando a discussão sobre o tratamento de diferentes tipos de corpora em Análise de Discurso, Maingueneau (2007) nos diz que as unidades fundamentais com as quais trabalham os analistas do discurso são formação discursiva, gênero de discurso e posicionamento. Entretanto, na grande maioria das vezes a articulação dessas unidades – e mesmo sua compatibilidade – não são explicitadas pelos analistas.

No intuito de melhor compreender tais unidades, Dominique Maingueneau (2007) propõe pensá-las em dois grandes grupos: unidades Tópicas e unidades Não-Tópicas. Das primeiras fazem parte as unidades Territoriais e as unidades Transversas das segundas fazem parte as Formações discursivas e os Percursos. Das unidades Territoriais, por sua vez, fazem parte os tipos e os gêneros de discurso, subdivididos em gêneros de campo e gêneros de aparelho e, das unidades Transversas fazem parte os registros: linguísticos, funcionais e comunicacionais.

O quadro a seguir, retirado de Maingueneau (2007), resume os diferentes tipos de unidades com as quais trabalham os analistas do discurso.

Table 1.

unidades tópicas unidades não tópicas
Tipos / Gêneros de discurso Transversas Formações discursivas Percursos
--------------------------------
a) Gêneros dependentes de campos -Registros linguísticos
b) Gêneros dependentes de aparelhos - Registros funcionais
- Registros comunicacionais

Nosso trabalho trata então, por sua de sua temática mesmo, de unidades não-tópicas. Todavia, não de formações discursivas, pois unidades como “o discurso sobre a pedofilia”, «o discurso racista», «o discurso pós-colonial», «o discurso patronal», por exemplo, não podem ser delimitadas por fronteiras que não sejam as estabelecidas pelo pesquisador (MAINGuENEAu, 2007, p. 32.). Trabalhamos com os percursos. Por essa categoria Maingueneau (2007, p 32-3) entende:

Os analistas do discurso podem ainda construir corpus de elementos de diversas ordens (palavras, grupos de palavra, frases, fragmentos de textos) extraídos do interdiscurso, sem buscar construir espaços de coerência, ou seja, sem procurar constituir totalidades. Nesse caso, deseja-se, ao contrário, desestruturar as unidades instituídas por meio da definição de percursos inesperados: a interpretação se apóia, assim, sobre a explicitação de relações imprevistas no interior do interdiscurso. Esses percursos são hoje consideravelmente facilitados pela existência de softwares que permitem tratar conjuntos de textos bastante vastos. Podemos prever percursos de tipo formal(certo tipo de metáfora, uma dada forma de discurso relatado, de derivação sufixal, etc.); porém, nesse caso, se não trabalhamos com um conjunto discursivo bem especificado, recaímos na análise puramente linguística. Podemos igualmente prever percursos baseados em materiais lexicais ou textuais: por exemplo, a retomada ou as transformações de uma mesma expressão em uma série de textos, ou então as diversas recontextualizações de um «mesmo» texto.

.

Com base na categoria metodológica de percurso, procuramos analisar a irrupção, a retomada, a transformação e a circulação do enunciado de curta extensão “A esperança venceu o medo”, dado a circular pelos mais diversos suportes midiáticos brasileiros a partir do segundo semestre de 2002. Conforme já enunciado, de forma não tão exaustiva, estabelecemos como recorte temporal o período compreendido entre os anos de 2002 a 2012.

4 As análises...

A emergência desta pequena frase no cenário político brasileiro está a princípio ligada à irrupção do enunciado “Estou com medo” e se deu no segundo semestre de 2002. À época o candidato do PT, Luís Inácio Lula da Silva e o candidato do PSDB, José Serra disputavam o segundo turno das eleições presidenciais de 2002. Na reta final de campanha, poucos dias antes das eleições, num dos programas de José Serra, no horário eleitoral gratuito, veiculado tanto na televisão quanto no rádio, a atriz Regina Duarte da Rede Globo de Televisão aparece em um vídeo de 59 segundos dizendo estar temerosa pelo fato de que o então candidato Lula poderia retroceder em relação às conquistas do Plano Real e de que não tirasse do papel nenhuma promessa social. A respeito desse medo disse Regina Duarte:

Figure 7.

Tudo o que ele dizia mudou muito. Isso dá medo na gente. Outra coisa que dá medo é a volta da inflação desenfreada. Lembra? 80% ao mês. O futuro presidente vai ter que enfrentar a pressão política nacional e internacional. E vem muita pressão por aí. É por isso que eu vou votar no Serra. Ele me dá segurança, porque dele eu sei o que esperar. Por isso eu voto 45. Voto Serra. Voto sem medo”. (grifos meus).

.

Após a veiculação da fala de Regina Duarte houve na mídia uma grande polêmica. Muitos artistas da própria Rede Globo de Televisão e outros atores sociais se manifestaram tanto contraria quanto positivamente em relação ao posicionamento de Regina Duarte. Para além e aquém das manifestações acerca da fala de Regina Duarte, a questão do medo da eleição de Lula se textualiza mais uma vez, sobretudo, por conta da potência da locutora, Regina Duarte, namoradinha do Brasil, atriz global...

Figure 8.

FIGURA 6: Matéria publicada na Folha de S. Paulo Online em 27/10/2002

O discurso do medo de Regina Duarte começa a ser polemizado, após a vitória de Lula. Tal tensão discursiva pode ser flagrada quando a Folha de S. Paulo publica como título da matéria “A esperança venceu o medo”, destaque da fala de Lula em pronunciamento’ em SP em 27/10/2002. Nesse caso, temos uma enunciação aforizante. Trata-se de uma aforização, pois a fala do enunciador Lula: “mais importante, a esperança venceu o medo e hoje posso dizer para vocês que o Brasil mudou sem medo de ser feliz” é destacada de forma sintetizada de seu cotexto original e transformada em título da matéria. Rapidamente essa frase passou a frequentar os mais diversos suportes.

É preciso levar em consideração, entretanto, que as condições interdiscursivas de produção da frase “A esperança venceu o medo” são o resultado de um diálogo não só com a fala de Regina Duarte no programa eleitoral de José Serra em 2002, mas também de uma conversa tanto com o slogan e o jingle de campanha do então candidato Lula do Partido dos Trabalhadores em 1989 quanto de uma série de discursos da grande mídia brasileira que à época (1989 e 2002) colocaram em circulação o discurso do medo.

Os textos a seguir nos mostram esse diálogo interdicursivo da frase em análise com o slogan e o jingle de campanha de Lula, bem com alguns textos da mídia que diziam do medo da eleição de Lula.

Figure 9.

FIGuRA 7: Cartaz de campanha de Luís Inácio Lula da Silva: eleições presidenciais 1989

Figure 10.

FIGuRA 8: Capa da Revista Veja edição publicada em 02/10/2002

Os textos acima atestam que a irrupção da frase “A esperança venceu o medo” possui uma relação muito estreita com a memória interdiscursiva tanto do slogan e jingle de campanha de Lula em 1989 quanto dos discursos do medo propalados pela grande mídia: “Muito bem-feita a reportagem de capa sobre a possível e tenebrosa eleição de Luís Inácio Lula da Silva” e “Lula assusta não só porque mudou a “embalagem” e o conteúdo.” Com efeito, observemos mais um texto, desta vez a matéria da Folha de S. Paulo sobre o discurso de posse de Lula em 01 de janeiro de 2003.

Figure 11.

FIGURA 9: Matéria publicada na Folha de S. Paulo Online em 01/01/2003

Um exame um pouco mais minucioso acerca da fala de Lula presente na matéria acima: “A esperança finalmente venceu o medo e sociedade brasileira decidiu que estava na hora de trilhar novos caminhos”, nos mostra entre outras questões que o advérbio finalmente evoca a memória interdiscursiva tanto do slogan e do jingle de 1989 quanto dos discursos do medo sobre a eleição de Lula. Esse dado linguístico, aparentemente pouco significativo, nos mostra a memória interdiscursiva beliscando a língua, fazendo o já-dito do medo e da esperança irromperem no dito.

De lá para cá essa pequena frase “A esperança venceu o medo” passou a ter na mídia brasileira uma frequência elevadíssima. Tanto que é possível verificar a sua presença em contextos como o slogan de campanha da então candidata Marta Suplicy à prefeitura de São Paulo em 2008 ou mesmo na fala do governador da Bahia Jacques Wagner quando da greve dos policiais em fevereiro deste ano.

Figure 12.

FIGURA 10: Cartaz de campanha de Marta Suplicy, eleições municipais de São Paulo - 2008

Figure 13.

FIGURA 11: Matéria publicada na Agência Estado em 09/02/2002

O slogan de campanha de Mata Suplicy “A esperança vai vencer de novo” e a fala de Jacques Wagner acerca da greve dos policiais baianos “A democracia venceu o medo”, para além da recorrência e transformação do enunciado em análise, nos mostra que ele designa os mais variados acontecimentos discursivos, isto é, com base em uma estrutura linguística quase invariável, ele possui uma capacidade discursiva ímpar de ser transportado para nomear os mais variados eventos.

Essa capacidade quase camaleônica de se transformar na designação dos mais diferentes eventos discursivos nos se(in)duz a asseverar que se trata de uma panaforização no sentido que Dominique Maingueneau dá a este conceito. Ou seja, uma frase que é tomada em um processo de tipo pandêmico: durante um período curto vê-se circular em todas as mídias e às vezes com uma frequência muito elevada, com estatutos muito diversos: título de um artigo de jornal ou de uma página da internet, frase que circula na parte de baixo do monitor de um canal de informação televisiva, título de um vídeo sobre o Youtube, etc.

Embora muito sedutora a proposta de Maingueneau para explicar a pandemia de certas frases na mídia em geral, cremos que a panaforização não dá conta de explicar a frase em questão. Cremos que o enunciado « A esperança venceu o medo » seja uma aforização de outra natureza. Dizemos isso pelo fato de que a panaforização possui um prazo de validade muito pequeno, ela é invariavelmente efêmera. Tomemos a frase proferida pelo comamandante do Porto de Livorno na Itália, Gergório De Falco « Vada a bordo, cazzo » embora tenha frequentado os mais variados textos em diferentes suportes midiáticos pelo mundo inteiro seu prazo de validade foi curto. Três meses depois da sua irrupção, já não se falava mais nessa frase. Ou mesmo a frase destacada da música de Teló, Ai se eu te pego, embora com uma circulção extremamente grande num certo período, ganhando inclusive outras materialidades como a coreografia realizada pelos jogadores do Real Madrid, poucos meses depois da sua irrupção, ela deixou de ser objeto constante de enunciação. Ao passo que a frase « A esperança venceu o medo » por ser de uma outra natureza, se mantêm no cenário midiático por quase 10 anos, significando os mais diferentes eventos discursivos. A matéria abaixo, publicada em 08 de novembro de 2008, atesta o anteriormente exposto.

Figure 14.

FIGuRA 12: Matéria publicada no site www.bloguerbyblogspot.com em 08/11/2008

Embora entre a eleição de Lula em 2002 e a eleição de Obama em 2008 seja possível identificar alguns traços de sentido similares, as diferenças entre os dois pleitos é bastante acentuável. Todavia, a frase que a mídia destacou do pronunciamento de Lula, logo após a sua vitória em 2002, é transportada para outro contexto e passa a dar sentido a este último contexto com os mesmos valores positivos da irrupção inicial: “A esperança venceu o medo”; “Obama é o primeiro presidente negro da história dos Estados unidos”.

Sloganizadas conclusões : a metaforização...

Diante das diferenças expostas propomos que a frase em análise « A espernça venceu o medo » se constitui numa metaforização: uma palavra valise que une metáfora e aforização. Trata-se de uma pequena frase que assume o caráter de uma metáfora com intensa circulação, ou seja, uma frase que se presta por conta da sua constituição linguístico-discursiva (pregnância linguística e de sentidos) a estabelecer uma analogia de sentidos entre diferentes acontecimentos discursivos. Assim, “A esperança venceu o medo”, metaforiza tanto a vitória de um operário, ligado ao Partido dos Trabalhadores, nas eleições presidenciais 2002, quanto as eleições municipais de São Paulo em 2008, enquanto slogan de campanha ou mesmo a eleição de Barak Obama nos Estados Unidos. No nosso entendimento trata-se de uma frase prét-a-désignér, pois está pronta a significar diferentes acontecimentos discursivos. Nesse sentido enquanto a panaforização é fruto do rumor e da agitação momentâneas a metaforização é o resultado de uma constância enunciativa, que permanece circulando por muitos anos.

Desse modo, de acordo com heteroreferencialidade acontecimental da frase em análise, propomos repensar o esquema vetorial proposto por Maingeneau 2010.

Figure 15.

A grande circulação da pequena frase “A esperança venceu o medo”, em diferentes contextos e na boca de distintos enunciadores, inscritos nos mais variados posicionamentos ideológicos e destinada aos mais diversos interlocutores, nos permite propor algumas alterações na teoria de Maingueneau (2010) sobre a Enunciação Aforizante. Nesse sentido, propomos que a enunciações destacadas por natureza sejam pensadas enquanto aforizações, já as destacadas de um texto sejam pensadas enquanto aforizações, panaforizações (Maingueneau, 2011) e metaforizações.

Como efeito de fim, retomo o título deste artigo “Pequenas frases sem eira nem beira” para dizer que não se trata de um recurso retórico em meu texto, que visa despertar a curiosidade do leitor, mas de uma resposta a uma questão anterior: como podemos lidar como uma frase que durante quase dez anos vem frequentando os mais diversos textos sem se prender a nenhum deles? Que recursos linguísticos e discursivos ela mobiliza para frequentar distintos acontecimentos discursivos significando-os? Defendo que essa frase é um bom exemplo de metaforização: um enunciado que possui uma capacidade quase proverbial, tal qual o sem eira nem beira, de se referir a distintos acontecimentos discursivos ao longo da história sem se prender definitivamente a nenhum deles.

Referências

  1. Entre a transparência e a opacidade: um estudo enunciativo do sentido AUTHIER-REVUZ Jacqueline. Porto Alegre: EDIPUCRS; 2004.
  2. L’analyse du discours en Europe ARGENMÜLLER J. In: BONNAFOUS S, TEMMAR M, eds. Analyse du discours et sciences humaines et sociales. Paris, Fr: Editions Ophrys; 2007 .
  3. Esthétique de la création verbale BAKHTIN M. Paris: Gallimard; 1984.
  4. La syntaxe publicitaire: entre sciences du langage et sciences de la communication BONHOMME Marc. In: BURGER Marcel, ed. L’analyse linguistiquedes discours médiatiques: entre sciences du langage et sciences de la communication. Québec, Université de Laval: Editions Nota Bene; 2008 .
  5. Analyse du discours et sciences humaines et sociales BONNAFOUS , TEMMAR M. Paris, Ophrys, coll: Les chemins du discours; 2007.
  6. O chapéu de Clémentis: observações sobre a memória e o esquecimento na enunciação do discurso político COURTINE J. J. In: INDURSKY F, FERREIRA M. C. L, eds. Os múltiplos territórios da Análise do Discurso. Porto Alegre, RS: Editora Sagra Luzzato; 1999a .
  7. O discurso inatingível: marxismo e linguística (1965-1985) COURTINE J - J. Porto Alegre: Cadernos de Tradução; 1999b.
  8. Linguística e história: percursos analíticos de acontecimentos discursivos GUILHAUMOU J. São Carlos, SP: Pedro & João Editores; 2009.
  9. GRANCONATO E. Diário do Grande ABC.publicado em 05/04/2012.
  10. Les mots de la publicité: l’architecture du slogan GRUNIG Blanche-Noëlle. Paris: Editions du CNRS; 1990.
  11. La contribution de Michel Pêcheux à l’analyse de discours HELSLOOT N, HAK Tony. Langage et société.2000/1;(n. 91).
  12. Décrocher la «Une». Le choix des titres de première Page de la presse quotidienne en France et em Allemagne (1945-2005) HUBE Nicolas. In: Burger Marcel , Jacquin Jérôme , Micheli Raphaël , eds. Actes du colloque «Le français parlé dans les médias : les médias et le politique» (Lausanne / 2009). Strasbourg: Presses universitaires de Strasbourg, coll.; 2008 .
  13. L’écrituredes médias informatisés. Espaces de pratiques JEANNERET Yves , TARDY Cécile . Paris: Hermès Science Publications; 2007.
  14. La Civilisation du Journal. Histoire culturelle et littéraire de la presse française au XIXe siècle KALIFA Dominique, REGNIER Philippe , THERENTY Marie-Eve , VAILLANT Alain . Paris: Nouveau-Monde Editions; 2010.
  15. The Discourse reader KRESS G, LEEUWEN T. Van. London: Routledge; 2006.
  16. Vacance argumentative: l’usage de (sic) dans la presse d’extreme droit contemporaine KRIEG A. Mots. Les langages du politique.1999;n 58:11-34.
  17. «Purification ethnique». Une formule et son histoire KRIEG-PLANQUE A. Paris: CNRS Éditions; 2003.
  18. «La notion d’ “observable en discours”. Jusqu’où aller avec les sciences du langage dans l’étude des pratiques d’écriture journalistique?» KRIEG-PLANQUE A. In: BURGER Marcel , ed. L’analyse linguistique des discours médiatiques. Entre sciences du langage et sciences de la communication. Québec, Université de Laval: Editions Nota Bene; 2008 .
  19. Entrevista com Alice Krieg-Planque (Céditec, Université Paris XII) KRIEG-PLANQUE A. In: Schepens Philippe , ed. Linguasagem. UFSCAR; 2009 .
  20. A noção de “fórmula” em análise do discurso – quadro teórico e metodológico KRIEG-PLANQUE A. São Paulo: Parábola; 2010a.
  21. Un lieu discursif: “ Nous ne pourrons pás dire que nous ne savions pas ”. Etude d’une mise en discours de la morale KRIEG-PLANQUE A. In: Mots. Les langages du politique. Lyon: ENS Editions; 2010b .
  22. Por uma análise discursiva da comunicação: a comunicação como antecipação de práticas de retomada e de transformação dos enunciados KRIEG-PLANQUE A. Revista de Popularização Científica em Ciências da Linguagem - Linguasagem.2011a;(n. 16).
  23. Trabalhar os discursos na pluridisciplinaridade: exemplos de uma «maneira de fazer» em análise do dicurso KRIEG-PLANQUE A. In: BONNAFOUS Simone , TEMMAR Malika , eds. Análise de Discurso: teorizações e métodos. São Carlos, SP: Pedro & João Editores; 2011b .
  24. A fórmula desenvolvimento sustentável: um operador de neutralização de conflitos KRIEG-PLANQUE A. Revista de Popularização Científica em Ciências da Linguagem – Linguasagem.2012;(n. 19).
  25. Gênese dos discursos MAINGUENEAU D. Curitiba, PR: Criar Edições; 2005.
  26. Les énoncés détachés dans la presse écrite. De la surassertion à l’aphorisation MAINGUENEAU D. In: BONHOMME M, LUGRIN G, eds. Interdiscours et intertextualité dans les médias. Travaux Neuchâteloisde Linguistique; 2006a .
  27. De la surassertion à l’aphorisation MAINGUENEAU D. In: LOPEZ-MUNOZ Juan Manuel, MARNETTE Sophie, ROSIER Laurence, eds. Dans la jungle des discours: genres de discours et discours rapporté. Cadix: Presses de l’université de Cadix; 2006b .
  28. Citação e destacabilidade MAINGUENEAU D. In: LOPEZ-MUNOZ Juan Manuel, ed. Cenas da enunciação. Curitiba, PR: Criar Edições; 2007 .
  29. Aforização: enunciados sem texto? MAINGUENEAU D. In: LOPEZ-MUNOZ Juan Manuel, ed. Doze conceitos em análise do discurso. São Paulo, SP: Parábola Editorial; 2010a .
  30. Aphorisations politiques, médias et circulation des énoncés MAINGUENEAU D. 2010b (no prelo para publicação.).
  31. A aforização proverbial e o feminino MAINGUENEAU D. In: MOTTA A. R, SALGADO L. S, eds. Fórmulas discursivas. São Paulo: Contexto; 2011 .
  32. Sintaxe, discurso: do ponto de vista da análise do discurso MARANDIN J - M. In: ORLANDI E, ed. Gestos de leitura: da história ao discurso. Campinas, SP: Editora da unicamp; 1994 .
  33. Les discours de la presse quotidiene: observer, analyser, comprendre MOIRAND S. Paris. Fr: Presses universitaires de France – PuF; 2007.
  34. Heterogeneidade e aforização: uma análise do discurso dos Racionais MCs MOTTA A. R. 2009.
  35. Fórmulas discursivas MOTTA A. R, SALGADO L. S. . São Paulo: Contexto; 2011.
  36. Conjurer le désordre discursif. Les procédés de “ issage” dans la fabrication du discours institutionnel OGER Claire, OLLIVIER-YANIN Caroline . In: Mots. Les langages du politique. Lyon: ENS Editions; 2006 .
  37. La fabrique du discours politique: les “écrivants” des prises de parole publiques ministérielles OLLIVIER-YANIV Caroline. In: BONNAFOUS Simone , CHIRON Pierre, DUCARD Dominique, LEVY Carlos , eds. Discours et rhétorique politique. Actes du colloque « Le français parlé dans les médias : les médias et Le politique» (Lausanne / 2009) Marcel Burger, Jérôme Jacquin, Raphaël Micheli (éds) Antiquité grecque et latine, Révolution française, monde contemporain. Rennes: Presses universitaires de Rennes, coll. Res Publica; 2003 .
  38. La communication comme outil de gouvernement: définition et enjeux de la politique du discours, mémoire pour l’habilitation à diriger des recherches (HDR) OLLIVIER-YANIV Caroline. In: Sciences de l’information et de la communication. Val-de-Marne: Université Paris; 2008 .
  39. Ueber die Rolle des Gedächtnisses als interdiskursives PÊCHEUX M. Material, Das Argument Sonderband .1983;95.