Resumo

Este trabalho tem como objeto de estudo o item assim, em contextos de parêntese, paráfrase, correção, repetição e hesitação, e objetiva analisar, sob a perspectiva teórica textual-interativa, o funcionamento desse itemnesses processos de construção textual. O corpusdeste trabalho é constituído por textos do período correspondente aos séculos XVIII ao XXI. Os resultados revelam um apontamento de relações entre o funcionamento do item nesses contextos e seu processo de mudança.

Introdução

Analiso, neste artigo, o funcionamento de assim em contextos de parentetização, paráfrase, correção, repetição e hesitação, de acordo com a perspectiva textual-interativa, com o intuito de estabelecer uma relação entre o funcionamento desse item, no contexto desses processos de constituição e de processamento textual, e o de seus usos fora desses domínios funcionais. O objetivo desta investigação é confirmar a hipótese de existência de uma relação entre o funcionamento do item, no que tange a essas estratégias textual-interativas, e seu processo de GR (TRAUGOTT, 1982, 2003; TRAUGOTT; KÖNIG, 1991, entre outros), de modo a sustentar uma nova possibilidade de abordagem dos contextos favorecedores desse tipo de mudança.

Os corpora deste trabalho organizam-se em:

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(A) diacrônicos: carta e editorial jornalístico. O corpus de carta divide- se em: (i) Administração Privada: cartas de aldeamento de índios (séculos XVIII e XIX); (ii) Documentos Pessoais: cartas de pessoas relacionadas com: (a) José Bonifácio (primeira metade do século XIX); (b) Washington Luiz (final do século XIX); (c) Prof. Fidelino de Figueiredo (final do século XIX e século XX); e (iii)Cartas de leitores e redatores de jornais (séculos XIX e XX). O corpus de editorial compõe-se por textos do jornal O Estado de S. Paulo desde a sua fundação, quando se intitulava A Província de S. Paulo, até 1964; e

(B) sincrônicos, compostos por inquéritos do Banco de dados IBORUNA (amostras de fala do Noroeste Paulista).

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O presente artigo está organizado em três seções, além desta introdução e das conclusões. Na seção 1, apresento os fundamentos teóricos do estudo. Na seção 2, focalizo o item assim, discorrendo sobre seus diferentes valores funcionais em dados sincrônicos do Português. Tendo em vista essa multifuncionalidade, em 3, analiso o item em segmentos tópicos do corpus que configuram contextos de parêntese, paráfrase, correção, repetição e hesitação, para, a partir dos resultados dessa análise, estabelecer, na seção 4, as relações entre o funcionamento de assim, nesses processos constitutivos do texto, e os seus usosem dados sincrônicos.

1 A perspectiva textual-interativa

Baseada em uma concepção pragmática de texto e de linguagem, a perspectiva teórica textual-interativa elege uma visão de linguagem como “forma de ação e de interação social” (JUBRAN, 1996a, 1996b, 1999, 2006a).Segundo essa ótica pragmática, aspectos textuais e interacionais encontram-se imbricados: o interacional está inscrito no texto, tornando- se inerente a ele.

A partir desses pressupostos, o texto, como objeto de estudo, é considerado um processo dinâmico que congrega e sinaliza, ao mesmo tempo, processos de formulação textual e interacional, que não resultam em dicotomias de funções textuais e interativas, mas na conjugação delas, de acordo com umprincípio de gradiência (JUBRAN, 2004, 2006a), segundo o qual não há funções excludentes ou dicotômicas: toda função textual deve ter, em contrapartida, algum traço interacional, sendo o inverso também verdadeiro.

No âmbito dessa definição de texto, o tópico discursivo é adotadocomo unidade analítica, definindo-se a partir das propriedades de centração e organicidade. A primeira abrange os traços de: (i) concernência,relação de interdependência semântica entre os enunciados de um segmento textual, pela qual se dá a integração desses enunciados em um conjunto específico de referentes; (ii) relevância,proeminência desse conjunto como decorrência da posição focal assumida por seus elementos; e (iii) pontualização,localização do conjunto focal em momento específico do texto. Aorganicidade manifesta-se por relações de interdependência tópica (JUBRAN, 2006a).

Nessa perspectiva, o processo de parentetização é definido como uma inserção, no segmento tópico (ST), capaz de interferir em sua centração e, por isso, ser identificado como desvio tópico. Juntamente com as marcas de natureza formal, esse desvio tópico torna-se básico para a identificação e delimitação do segmento parentético. Segundo Jubran (2006b, p.39), a operacionalização do primeiro critério identificador do parêntese, o desvio tópico, depende do reconhecimento da sua natureza relacional, uma vez que o fato parentético só pode ser reconhecido em relação à unidade de análise – tópico discursivo –, dentro da qual ocorre. A definição do segmento parentético apóia-se analiticamente no princípio da centração tópica (cf. JUBRAN, 2006b), para que se possa verificar a suspensão tópica efetuada por ele. Por sua vez, o segundo critério, relativo às marcas formais de inserção parentética, pode ser observado no segmento parentético e no segmento-contexto. Essas marcas, de natureza textual e prosódica, englobam aspectos como a ausência de conectores, pausas nos limites do parêntese e/ou aceleração de velocidade e rebaixamento de tessitura.

Aparáfrase(P) corresponde a um enunciado linguístico que reformula, na sequência textual, um enunciado anterior, matriz (M), mantendo com ele uma relação de equivalência semântica determinada em graus. Segundo FUCHS (1994, p. 129 apud HILGERT, 2006) essa relação deve ser entendida como parentesco semântico, não manifestável como equivalência absoluta, mas como equivalências maiores ou menores. GÜLICH e KOTSCHI (1983 apud HILGERT, 2006) estabelecem ainda o critério da predicação de identidade, observada quando a construção de dois enunciados permite que sejam compreendidos como semanticamente semelhantes. Assim, a relação parafrástica é dinamicamente concebida e determinada pelas relações semânticas locais, i. é, construídas no e pelo jogo da interpretação (HILGERT, 2006), podendo ser focalizada nos níveis: (a) semântico, abordando os deslocamentos de sentido que ocorrem na passagem da M à P; (b) formal, destacando as reformulações, lexicais e sintáticas, que podem ocorrer nessa passagem; e (c) funcional, a partir do apontamento das funções gerais e específicas da P.

Definida por FÁVERO, ANDRADE e AQUINO (2006, p. 258) como “um enunciado linguístico que reformula um anterior, considerado ‘errado’ aos olhos de um dos interlocutores”, a correção constitui, por sua vez, um processo de formulação retrospectiva. A diferença entre a correção e a paráfrase – que, como destaquei, também tem a função de assegurar a intercompreensão – está no tipo de relação semântica que liga os enunciados reformulador e fonte: enquanto na P há uma relação de equivalência semântica, na correção, essa relação é de contraste; na correção os interlocutores pretendem apagar o enunciado fonte, por considerá-lo inadequado, substituindo-o pelo enunciado reformulador, na P, aquele será M da implementação de movimentos semânticos, que determinam novos sentidos e, assim, a progressão textual.

O processo de repetição é definido por MARCUSCHI (2006b, p. 221) como “a reprodução de segmentos textuais idênticos ou semelhantes, duas ou mais vezes no âmbito de um mesmo evento comunicativo”. A primeira entrada do segmento tópico, que opera como base para a produção de outro segmento, construído à sua semelhança/identidade, é também designada como matriz e condiciona a repetição nos níveis fonológico, morfológico, sintático, lexical, semântico ou pragmático, de modo que essa repetição não é caracterizada pelo autor como um espelhamento automático, já que expressa algo novo, em relação a um ou mais desses níveis.

A hesitação,estudada pelo mesmo autor (2006a), é definida como fenômeno específico da oralidade, caracterizador de uma atividade de processamento, cuja função é ganhar tempo para o planejamento/ verbalização do texto. É condicionada por pressões situacionais de diversas ordens a que estão sujeitos os interlocutores e constitui rupturas evidentes, na linearidade material da fala, como manifestação de atividades discursivas que introduzem, no próprio discurso, seu processo de formulação prospectiva. As hesitações materializam-se por meio de fenômenos prosódicos, expressões, itens funcionais e lexicais, marcadores discursivos s e fragmentos lexicais.

2 A multifuncionalidade sincrônica de assim

Em LOPES-DAMASIO (2011a, 2011b), foram depreendidos, na perspectiva sincrônica, sete padrões de uso de assim, desempenhando, respectivamente, as funções de: Complemento Adverbial; Adjunto a SV; Predicativo do Sujeito; Modificador de SN; Modificador de SAdj. com função intensificadora; Sinalizador de Mudança da Instância Discursiva; e Marcador Discursivo (MD).

Os usos do MDassim englobam aqueles considerados MD por excelência, com interpretação pragmática, e também os considerados menos prototípicos, que, embora apresentem traços contextuais dessa categoria, ainda mantêm características do advérbio modal. Esse padrão subdivide-se em quatro subfunções, a saber:MD assim Indicador de Conteúdo Expressivo;Atenuador;Metadiscursivo eSinalizador de Construção de Quadro Mental.

Há, ainda, os usos em que o item, sozinho, ou na constituição de locuções, desempenha função juntiva. Nesse âmbito, foram depreendidos outros quatro padrões: P assim Q (conclusivo); P assim como Q (comparativo, aditivo e conformativo); Assim que Q, P (temporal); e P, mesmo assim Q (contrastivo).

Para o estabelecimento das relações funcionais objetivadas, neste artigo, chamo a atenção para as funções do item enquanto MD e para uma de suas funções juntivas, conforme Quadro 1, abaixo, que apresenta a identificação desses padrões de uso, sua funcionalidade, características semântico-formais e uma ocorrência exemplificativa.

Figure 1.

QUADRO 1: A multifuncionalidade sincrônica de assim

Tendo em vista a multifuncionalidade sincrônica de assim, e, mais especificamente, os usos destacadas acima, parto para a análise desse item em contextos dos processos constitutivos do texto aqui focalizados.

3 A funcionalidade de assim em contexto de processos textual-interativos

3.1 Assim e o processo de parentetização

Em todas as ocorrências, assim é responsável pelo caráter remissivo do parêntese no qual se insere. Dessa forma, isoladamente, sua função restringe-se a esse aspecto fórico. No entanto, em dados extraídos de textos diacrônicos, o item é sempre parte integrante de E2:

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(1) A Facçaõ ainda alardea manobra as eleiçoẽs da ma- | neira a mais escandaloza, e em todas as partes: chama soldados | para diligencias de S.A.: (assim ao menos se diz) trama por tudo a | intriga: ameaça só assassinios aos que pensa nas Villas A=Agentes da reacçaô: mil outras coizas faz, entretanto que os cha- | mados bons da Capital nem mais falhaõ, eté por isso já se fazem | suspeitos.(BNXIX-11/04)

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Em (1), a inserção parentética é indicada pelo sinal característico dessa estratégia,na escrita. O parêntese localiza-se em contexto de listagem, em que,assim, em E2,1 é responsável pela instauração de um movimento: (i) anafórico, que sinaliza toda a porção textual configuradorado contexto tópico em que ocorre a inserção – E1 como um todo; e (ii) catafórico, já que a continuidade da listagem, em E3, não permite limitar o alcance desse parêntese apenas à porção tópica que lhe é anterior.

E2 integra a classe dos parênteses com foco no locutor, apontando para o seu descomprometimento com a veracidade do conteúdo comunicado. A função textual-interativa desse parêntese é atribuir pontos de vista sobre o assunto a fontes não identificadastextualmente, i. é, o escrevente procura se eximir da responsabilidade do que é dito, a partir da fundamentação desse conteúdo no “ouvir dizer”, num processo de modalização epistêmica via estratégia de parentetização.

Dessa forma, a função interativa desse parêntese soma-se à sua função textual, já que incide na significação proposicional estabelecida a partir do momento de sua inserção no tópico. Em outras palavras, as informações transmitidas pelo escrevente adquirem nova perspectiva proposicional com o parêntese agindo na construção do ST.

No tópico (2), assimencerra o segmento parentético. Também aqui há um sinal gráfico, indicando o estatuto textual-interativo de E2:

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(2) Depois sera precizo aproporSsão do Povo|do Povo, e daneceSsidade Crear mais Capitaens, e mesmo Crear Companhias deMeleciannos, taõ neceSsarios para Civilizar o Povo egradualmente Sugeitar a|Subordinacaõ aquelles homens creados / posso dizer assim / sem Ley nem | Religiaõ. (AIXVIII-28/64)

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Assim escopa E3 como um todo em segmento parentético que apresenta foco na elaboração tópica, relacionado à formulação linguística do tópico, uma vez que focaliza a própria construção do texto, apontando para a caracterização da forma como aquelles homens eram creados. O escrevente, por meio da parentetização, imprime, no texto, a necessidade interativa de indicar para seu destinatário que a caracterização realizada em E3 é resultado de uma construção figurativa intrínseca ao contexto. O parêntese mostra, na materialidade do texto, essa avaliação em curso. Na inserção parentética, em (3), assim, encerrando o parêntese,incide sobre o verbo sinto, conforme sua função de advérbio modal, e realiza uma sinalização catafórica, escopando E3 como um todo:

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(3) Não sei qual é a sua concepção da Vida. Eu te- | nho a minha, que aliás não é minha, que bebi na literatura ori- | ental, e que (sinto assim) foi a única felicidade que tive nes- | ta minha atribulada existência. É o resultado do estudo da mi- | nha vida inteira. (FFXX-56b/121)

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Esse segmento parentético também integra a classe de parênteses com foco no locutor, mas, nesse caso, sinaliza informações proposicionais que estão diretamente ligadas à manifestação de sentimentos do escrevente. Portanto, não se associa à modalização das colocações tópicas. A função desse parêntese é evidenciar, para o destinatário, o caráter extremamente subjetivodo conteúdo tópico.

A dificuldade em separar a atitude do escrevente da avaliação que ele faz do conteúdo do tópico que constrói fundamenta a sugestão de que esse tipo de parêntese represente uma classe não-discreta, em que, concomitantemente, ocorre a focalização da manifestação atitudinal do locutor e do conteúdo tópico, sendo que a primeira ocorre em consequência da natureza da segunda. Assim, a função interativa do parêntese (sinalização do alto grau de subjetividade do conteúdo tópico) está associada à sua função textual, já que é a natureza desse conteúdo que torna necessária tal sinalização.

Nas ocorrências (4) e (5), assim integra o segmento parentético sinalizado, graficamente, por vírgulas e permite paráfrase por digamos assim:

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(4) A extensão d’este artigo seria razão para que com elle não entretivessemos nossos Leitores, se sua importancia, se seu objecto, se o enxame de verdades, e de vistas novas que encerra, nôs não forçassem, por assim dizêl-o, a isso.(LRXIX-430/77)

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(5) Durante mais de um mês, o antigo secre-|tario do PCB foi, por

assimdizer, o “homem do dia”. [...] (OESPXX-1958/176)

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Em (4), assim não sinaliza E1 como um todo, mas, especificamente, um item desse enunciado, forçassem, anterior à inserção parentética. Em (5),sinaliza o SN o homem do dia, mas, agora, cataforicamente.

Ao empregar o verbo e o SN referidos, o escrevente apresenta, via parêntese, uma avaliação voltada para essa formulação. Essa avaliação, que pode realizar-se pré ou pós o segmento sinalizado, denota a preocupação do escrevente em expressar a pertinência desses empregos. Assim, caracterizam-se parênteses com foco na elaboração tópica, relacionados à formulação linguística do tópico, cuja função textual-interativa é indicarpara o interlocutor que determinado emprego lexical é expressivo.

O tópico (6) traz novo parêntese voltado para a elaboração tópica:

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(6) És um felisardo; sem solicitares cou- | sa alguma, vaes te deixando levar | - assim com [s]eus ares de Napo- | leão no Egypto- para o ponto | almejado e p[corroído] [c]aminhos da ma-|xima conven[iencia]. Seguir a oppor- | tunidade é u[ma] [g]rande cousa (CPXIX-16/24)

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Assim inaugura o parêntese e realiza sinalização anafórica e catafórica. A anafórica indica o trecho vaes te deixando levar de E1 e focaliza uma informação de natureza modal, conformea função adverbial de assim, enquanto a catafórica aponta para o interior do parêntese, em E2, e explicita a informação modal relevante para E1. Trata-se de um parêntese com foco na elaboração tópica, voltado para o conteúdo tópico, cuja função é esclarecer informação apresentada em E1.

Esse tipo de parêntese representa um caso considerado limite, cujo reconhecimento do segmento como parentético depende das suas marcas formais, dado que sua outra propriedade identificadora, a do desvio tópico, encontra-se atenuada.2 Assim, o aspecto decisivo para a análise desse segmento como parentético são os sinais formais que delimitam E2. Nesses casos, a função textual está em evidência, já que o conteúdo da inserção parentética encontra-se no limiar da centração tópica, o que não quer dizer que a interacional seja suprimida. Nessa ocorrência, ela pode ser constatada na criação de uma maneira informal de promover o esclarecimento, a partir da introjeção de dados ilustrativos no tópico, o que garante a eficácia do ato comunicativo.

No tópico (7), assim integra uma oração condicional, realizando sinalização retrospectiva e escopando E1 como um todo. E1 desempenha função metadiscursiva voltada para a sinalização da estrutura textual:

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(7) Aqui fico por ora (se assim qui- | zerem) dando no em tanto os para- | bem ao Senhor Doutor Getulio, pelos elo- | gios, (se os acceitar) que lhe tece | aquelle homem, declarando porém, | que muito me glorio, em têl-o por | meu inimigo, [...] (LRXIX-451/80)

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Ao sinalizar E1, o parêntese materializa a presença do(s) destinatário(s) no texto, justificando sua classificação como parêntese com foco no interlocutor. Sua função é instaurar a conivência com o interlocutor, uma vez que o escrevente deposita no(s) seu(s) destinatário(s) a exigência de ter que finalizar sua carta, comprovada pela configuração condicional do parêntese.

Embora acentuadamente interacional, esse parêntese tem sua implicação textual: indica o processo de construção do tópico ao desviar seu conteúdo “para, nesse intervalo, colocar em proeminência informações sobre o papel discursivo do interlocutor” (JUBRAN, 2006b, p. 345).

Nas ocorrências extraídas do IBORUNA, assimocupa a posição pré- parêntese, sinalizando segmento de E1 e o próprio enunciado parentético. A maior parte das ocorrências(89,47%) apresenta foco na elaboração tópica, voltada para o conteúdo tópico, com as funções deesclarecer eexemplificar.

Na função de esclarecer, observam-se dois parâmetros de comportamento:

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(i) correspondente àquele constatado em dados diacrônicos, cf. (6), em que assim sinaliza, anaforicamente, um segmento de E1, focalizando informação de natureza modal, e, cataforicamente, o próprio E2, sinalizando o esclarecimento da informação modal relevante para o bom entendimento de E1:

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(8) é:: ele chegô(u) já logo foi brincan(d)o né? quando viu que eu era de::... Rio Preto... ele já foi brincan(d)o dizen(d)o que ia... que ia me/ me:: me ferrá(r) assimem tema de brincade(i)ra... um tipo cablocão né?... um cara bacana pra chuchu... né?... (AC- 147/NE1078)

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(ii) ocorrências em que, embora o esquema fórico do item continue o mesmo, deixa de ser observado o esclarecimento de uma informação modal. De fato, apenas focaliza-se à esquerda do parêntese, em E1, uma informação que necessita, segundo avaliação do falante, de um esclarecimento para o bom entendimento do tópico, cf. (10):

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(9) era assim... era dos MEUS pesadelos... sabe?... a impressão é que se você che/ caísse ali... você ia... SUMÍ(r) e... e nunca mais ia... ia... então isso na cabeça da gen::te assimcriança... era uma fantasia vivê(r) naquele espaço... (AC-150/DE1187)

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A função deexemplificar,observada naocorrência (10), também não está relacionada à informação de caráter modal. Nesse caso, em relação a E1, a sinalização catafórica aponta para o parêntese, em E2, onde há a exemplificação, a partir de uma comparação:

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(10) é como se fosse um prédio de quatro andares... só assim a pedra... e você pode í(r) subin(d)o escalan(d)o ela assimé como se fosse os/ um tobogã... e a onda é TÃO forte... que ela bate e ela sobe aqui [...] (AC-087/DE668)

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Diferentemente das ocorrências analisadas, principalmente na perspectiva diacrônica,3 nos dados extraídos do IBORUNA, por meio do parêntese, o falante assevera o que diz e compromete-se com sua palavra. Em (11), há uma avaliação epistêmica em relação à veracidade de E1, apontando para a asseveração, a partir da evidencialidade do que é aí afirmado:

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(11) tinha uma cobra l/ lá::... que comeu um boi... só que assim a gente SAbe? que cobra come boi [normal]beleza... assim ouvi mesmo já vi:: fatos jornalísticos... só que ela num/ só que aí a cobra come boi mas a cobra::… maceta o boi [né?] quebra tudo os ossos e maceta ele dentro dela... só que meu avô fala que boi ficô(u) inte::(i)ro e o boi até mugia dentro da cobra [...] (AC-054/NR303)

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Algumas observações são pertinentes enquanto resultados dessa análise:

(i) Em relação à localização: assim apresenta distribuição equilibrada em todas as possibilidades de localização (antes do parêntese [pré-par], no início do parêntese, encerrando-o e em outras posições, denominadas de posições de integração).

(ii) Em relação à sinalização: assim pode realizar sinalização de natureza:

(a) anafórica, escopando E1 como um todo;

(b) anafórica, escopando segmento de E1;

(c) catafórica, escopando E3 como um todo;

(d) catafórica, escopando segmento de E3;

(e) catafórica, escopando o enunciado parentético E2 e E3 como um todo;

(f) anafórico-catafórica, escopando E1 como um todo e E3 como um todo;

(g) anafórico-catafórica, escopando o enunciado parentético E2 e E3 como um todo;

(h) anafórico-catafórica, escopando segmento de E1 e o enunciado parentético E2.

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(iii) Em relação à correlação localização e sinalização: não é possível a correlação diretada localização do item com o tipo de sinalização realizada por ele. Entretanto, em todos os casos analisados na perspectiva diacrônica, seu funcionamento, ainda que em contextos de início de parêntese, não equivale à função de sinalizar o segmento parentético. Em todas as ocorrências, ele faz parte de E2, auxiliando seu funcionamento a partir de sua sinalização e significação modal, diferentemente do que se observa nas ocorrências extraídas de textosque representam a sincronia atual, nas quais se constata a função exclusiva do item de sinalizar o segmento parentético, sem integrá-lo e sem compartilhar de sua funcionalidade dentro do tópico discursivo. Nesses casos, o item, enquanto MD, funciona como marca formal de parêntese voltado para o conteúdo tópico.4

3.2 Assim e o processo de parafraseamento

Nos tópicos que manifestam ocorrências de assim em contexto de paráfrase (P),o item apresenta função fórica, retro-propulsora, em que retoma o segmento matriz (M) e aponta o desenvolvimento da P.A sinalização retrospectiva, realizada pelo item, tem a função de servir como “gancho” que atua na manutenção do assunto no tópico em questão, ao mesmo tempo em que sua sinalização prospectiva direcionapara a introjeção de novas predicações em relação a esse assunto. Portanto, ocorre, na M, o desenvolvimento de um tópico específico e, na P, o mesmo assunto como foco da reformulação, o que constitui forte indício da centração tópica. Levando em conta essa consideração, a análise focalizará a funcionalidade geral da relação parafrástica observada em contexto do item:

Figure 2.

Nesse tópico, o escrevente enfatiza, via P adjacente, seu pedido de desculpas ao destinatário, em proposta de compreensão voltada à recuperação, por parte daquele, dessa sua intenção comunicativa. Assim, a P não interrompe o fluxo da comunicação para apontar qualquer falha no conteúdo do que foi dito, mas para enfatizar determinado traço desse conteúdo, especificamente,o pedido de desculpa, e para acrescentar novo conteúdo proposicional, relativo ao agradecimento. Portanto, à função metaformulativa da P, soma-sea de fazer o texto progredir. A relação de equivalência semântica entre M e P é mediada pela predicação de identidade entre os segmentos. No que tange ao deslocamento de sentido, o movimento de generalização evidencia redução sintático-lexical, configurando uma P redutora, com função deresumir.

Na P adjacente, em (13), há uma equivalência semântica predicada a partir de movimento especificativo: a abrangência semântica da M é mais geral do que a da P, que atualiza traços semânticos implícitos naquela:

Figure 3.

A especificação semântica traduz-seem umaexpansão formal da P em relação à M, caracterizandoumaP expansiva em contexto de assim, que, cf.(12), ocorre encabeçando o segmento P,cuja função é precisar a informação contida na M (Pexplicitadora). Assim, a relação parafrástica não está, novamente, voltada à correção de uma falha na formulação da M, mas à explicitação do que foi afirmado.

Segue, em (14), ocorrência de assim em contexto de P observada em editorial:

Figure 4.

O ST inserido entre a M e a P, portanto, não-adjacente, está relacionado à explanação da forma como, por meio da exposição de argumentos, o jornal A província de S. Paulo destrói as acusações realizadas, contra ele, pelo Correio Paulistano. Alto grau de equivalência semântica pode ser observado entre M e P, além da configuração formal simétrica da P, o que a aproxima de um caso de repetição. Apesar disso, há aí um movimento semântico de generalização com função de resumir, se considerado todo o contexto tópico, incluindo o ST inserido, que permite a interpretação do segmento parafrástico como responsável pela função de fechar a argumentação realizada no editorial a partir da recomposição do conteúdo tópico.

No corpus sincrônico, são frequentes as ocorrências de assim em contextos parafrásticos. Em 95,5% dos casos, o item ocorre em posição inicial de P.

No que tange ao tipo de P, a maior parte das ocorrências revela P expansivas (64,4%); seguidas pelas P simétricas (26,6%); e, por fim, pelas P redutoras (apenas 8,8%). Relativamente aos deslocamentos de sentido, a totalidade dos casos de P expansivas e simétricas relaciona-se ao movimento semântico de especificação (cf. (15)) e a totalidade dos casos de P redutoras, à generalização(cf. (16)):5

Figure 5.

Figure 6.

Em relação a seus funcionamentos específicos:

(a) as P expansivas revelam, em 96,5%, a função de explicitar(17). Essa funcionalidade mostrou-se prototípica também nos dados diacrônicos:

Figure 7.

Figure 8.

6

Figure 9.

7

Figure 10.

Figure 11.

Figure 12.

De modo geral, a função de explicitar, em relação à P expansiva ou simétrica, é a mais significativa (71,1% do perfil funcional das P em contexto do item assim).

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A partir dessa análise, algumas observações são pertinentes:

(i) Em relação à localização: o item ocorre, na maioria dos casos, inaugurando a P (podendo seguir imediatamente e, sendo grafado com ou sem “espaço”).

(ii) Em relação à sinalização: o item realiza sinalizações anafórico- catafóricas, ao mesmo tempo, retomando o segmento M e apontando o desenvolvimento da P.

(iii) Em relação à correlação localização e sinalização: é possível correlacionar a sua localização, em início de P, e o tipo de sinalização que realiza, retro-propulsora.

3.3 Assim e o processo de correção

De modo geral, assim desempenha função fórica retro-propulsora de marcador de correção (MC), indicando a inserção do enunciado reformulador (ER), cataforicamente, em relação ao enunciado fonte (EF), retomado, sempre nessa sequência (EF – MC – ER), em distribuição adjacente (no mesmo turno/frase).Em relação à operacionalização das correções, a totalidade das ocorrências corresponde a autocorreções auto-iniciadas, cf. (23):

(23) ah mas num é possível... senão a cobra ia ficá(r) com três metro de altura[assim] [Doc.: aham ((concordando))] de:: de comprimen::to né?... (AC-054/NR304)

No que tange aos aspectos linguísticos e interativos, observam-se:

(i) correções lexicais; em que ocorre a substituição de uma seleção léxica não pretendida por outra, avaliada como mais pertinente pelo falante, cf. (24) e (25):

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(24) e ele tinha:: comprado éh:: compradoassimganho né?... do:: do filho que mora em São Paulo... um Passat...(AC-115/NE854)

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(25) um dia é/ um dia pra arrumá(r)... éassimuma semana né? pra arrumá(r) e um dia pra desarrumá(r)...(AC-056/DE402)

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Em (25), o itemdia alavanca a repetição de um segmento tópico para sua correção. Assim, essa ocorrência se distingue da anteriorem complexidade porque, embora o EF seja um item lexical, todo o ST que ele integra é repetido no processamento de sua correção, por semana.

(ii) correções morfossintáticas; em que se constata a má-formação da frase em relação específica a problemas de regência, concordância etc., cf. (26), em que assim marca o ER que estabelece a correção da concordância verbal:

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(26) tinham lançado trinta pessoas na lista de espera e eu fiquei em dezesseis praticamente no meio da lista de espera... aí veio::... assimeu vim de manhã:: (AC-087/NE633)

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(iii) correções sintático-semânticas; em que é corrigida a má- formação da frase do ponto de vista sintático e/ou semântico, cf. (27), (28) e (29):

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(27) Doc.: tem muitos cursos?

Inf.: HÁ muitos cursos háassim/ na verdade tem seis ou sete eu acho [...] (AC-081/DE430)

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(28) agora aquele que num tem o apoio da família... num adianta você... sê(r) um professor brilhan::te tê(r)... um/ sabe? a escolaassim/ a melhor escola... se ele num::... num tem certos valores...(AC-116/RO929)

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(29) com mo::/assimbastante molho... assim sabe ficá(r) bastante::... aquele creme né?(AC-087/RP691)

Em (27), a correção do EF HÁ muitos cursos é acarretada por seu conteúdo, reavaliado e reformulado na construção sintático-semântica do enunciadona verdade tem seis ou sete. Já em (28), a motivação da correção do EF a escola é a inserção do modificador no ER, que garante a infirmação da formulação sintática do EF ter a escola,insuficiente para estabelecer o paralelismo sintático-semântico pretendido pela falante, em num adianta você... ser um professor brilhante, ter a melhor escola. Em ambas, embora haja distinções relacionadas às motivações, ora mais sintáticas ora mais semânticas, assim marca a inserção do ER sem interromper, sintagmaticamente, o processamento do EF, que é, portanto, concluído nos dois casos. Por outro lado, em (29), como em muitas ocorrências presentes nos dadosdo IBORUNA, há uma interrupção sintática ou um falso início, para usar a terminologia de MARCUSCHI (2006b), causado pela inserção do marcador que sinaliza o ER.O segmento realizado do EF, ainda que não completo linguisticamente, é suficiente para garantir a relação retrospectiva da correção.

Foi encontrada apenas uma ocorrência de contexto corretivo fora da perspectiva sincrônica, a saber, emuma carta.Em relação às marcas de correção, em dados de escrita, observa-se que pode haver ou não o aproveitamento de segmentos do EF no ER, podendo a correção ser acompanhada de rasuras ou de sinais (traços) que anulam letras, sílabas, palavras ou segmentos, representando graficamente a infirmação. Vejamos:

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(30) Aconselhei ao Chico estudar pharma- | cia aqui, pois quee assim fazendo|baseava- me na facilidade d’este|estudo aqui –(CPXIX-28/34)

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Nessa ocorrência, assim segue uma correção, em que não há aproveitamento do EF, sinalizada por um traço que anula esse segmento no texto. No entanto, assim não funciona, como nas demais ocorrências analisadas, como um MC. Não se trata, portanto, de um uso prototípico do item, que ocorre numa construção maior (e assim fazendo) em que a correção é marcada pelo sinal gráfico que anula o EF (traço).

Entretanto, percebe-se que o escrevente inicia, mas não termina, sintagmaticamente, um segmento (pois que), que atuaria, no texto, como justificativa para o aconselhamento realizado por ele ao Chico, e o anula para que seja inserido o ER [e assim fazendo] baseava-me na facilidade d’este estudo aqui, que estabelece a relação de causa-consequência, avaliada como mais pertinente. Embora numa estrutura de reformulação diferenciada, graças à inserção de assim na construção, sugiro uma aproximação dessa ocorrência com aquelasconstatadas sincronicamente nos dadosdo IBORUNA, em que a há o abandono de uma construção iniciada, para a inserção da correção, numa construção que sintático-semanticamente é avaliada como mais apropriada aos objetivos comunicativos do escrevente. Dessa forma, depreende-se, diacronicamente, um contexto de co-ocorrência de assim com a correção que pode ser indiciário do desenvolvimento de seus usos mais atuais nessa estratégia.

3.4 Assim e o processo de repetição

Apesar dea repetição (R) ter sido constatada, nesse contextoespecífico, apenas nos dados do IBORUNA e em baixa frequência,mostrou-se reveladora de aspectos importantes do uso de assim.8 Dessa forma, seguem as ocorrências:

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(31) ... e à noite tem as FEStas né? que toca forró::assim... forró:: todo tipo de música... (AC-051/DE118)

(32) aí fui chegá(r) aqui em Rio Preto:: dez:: e: meia... assim::... no::/ na:: sexta-fe(i)ra... assim... c’a flor da pele esperan(d)o até terça-feira pra fazê::(r) a inscrição da UNESP assim vai passa o domin::go... e vô(u)/ ia chegá(r)assim óh::/ ia chegá(r) a outra semana mas nunca ia chegá(r) terça-fe(i)ra [Doc.: ((risos))]... (AC-087/NE632)

(33) Doc.: a senhora ficô(u) saben(d)o assim de algum assalto assim no nosso bairro

Inf.: assaltoassimno nosso bairro não na o(u)tra semana teve [Doc.: ahm]... faz quinze dias mas é aqui o começo no fim da Potirendaba né? [Doc.: hum::] no dia da do daquele homem o casal que ia saindo com os dois filhos pra viajá(r) no feriado né?... e:: chegaram dois ladrão né?... (AC-152/NR1230)

As R são produzidas em posição adjacente à matriz (M). Quanto à produção, (31) e (32) correspondema auto-repetições, e (33) evidencia uma heterorrepetição.

As ocorrências representam casos de segmentos repetidos integralmente, com identidade total de forma e padrão de realização prosódica.Sob o ponto de vista da categoria linguística do segmento repetido, há R de item lexical (forró::), em (31), de construções suboracionais (SV ia chegá(r), em (32), e de estrutura completivaassalto assim no nosso ba::irro, em (33)). Especifico, no esquema abaixo, uma diferença importante entre a construção suboracional repetida em (32) e a em (33), no que diz respeito às suas relações comassim:

Figure 13.

Em (32),assimrealiza uma sinalização retro-propulsora que estabelece um “gancho” entre o segmento M e sua R, numa relação de marcação M – MR – R (cf. contextos de ocorrência do item em correção). A co- ocorrência de oh:: corrobora a sinalização realizada por assim. Em (33), o itemnão desempenha esse tipo de função associada à sinalização da R, integrando a M.

No que tange à funcionalidade das Rs, constatam-setrês aspectos distintos: em (31), a R apresenta foco funcional na coesividade; em (32) na argumentatividade; e, em (33), na coesão tópica. Especificamente, em (31), a R do item lexical forróestabelece um elo coesivo, a partir da retomada do complemento do verbo toca, para acrescentar a ele mais um item; todo tipo de música.

Diferentemente, o foco funcional da R da construção suboracional (SV ia chegá(r)), em (32), volta-se para a reafirmação de um argumento, a partir de uma construção desse argumento em uma estrutura de paralelismo sintático, ilustrando o fato de que a R, marcada/sinalizada por assim não equivale apenas a “dizer a mesma coisa”. Aqui, a forma como esse dizer se faz, na estrutura sintática repetida, é muito mais eficiente, argumentativamente, do que se se dissesse apenas: [...]ia chegá(r) a outra semana mas nunca a terça-fe(i)ra [...].

Por fim, a R de construção suboracional, em (33), focaliza a organização tópica, especificamente a introdução de um novo tópico. Antes de desenvolver o novo tópico proposto pela documentadora, a falante lança mão dessa estratégia de construção textual, para marcar o referencial do tópico que será construído, garantindo, com isso, um ganho de tempo para as próximas formulações na constituição de seu texto.

A análise de assim em contexto de R revelausos mais abstratos, relacionados à marcação/sinalização da R; e mais concretos, relacionados a aspectos proposicionais do segmento M repetido. Esse resultado evidencia estágios distintos de gramaticalidade do item em relação a esse processo de construção textual.

3.5 Assim e o processo de hesitação

Aponto, de início, duas especificidades do funcionamento deassim em contextos de hesitação, em dados extraídos do IBORUNA: (i) o itemdesempenha genericamente a função de preenchimento de pausa hesitativa, em contexto de co-ocorrência com outros tipos de fenômenos indicativos de hesitação, sendo observado, mais raramente, desempenhando, sozinho, essa função; e (ii) os traços do funcionamento fórico modal deassim são esvaziados, i. é, não é possível especificar o direcionamento da sinalização realizada pelo item, o que, consequentemente, inviabiliza a comprovação dessa sua função.Nessa direção, todas as ocorrências, transcritas e analisadas, exemplificam (ii), com exceção daocorrência (34), que ilustra (i):

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(34) ... se eles... TIVEREM assim uma... uma coisa bem... éh:: programada um... projeto bem feito...(AC-053/RO270)

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Em (34), ocorrerepetição hesitativa do item funcional uma, intermediada por pausa não preenchida, seguida pela expressão hesitativa éh, realizada com prolongamento vocálico. O núcleo do SN “uma coisa bem” com determinante repetido, em função da hesitação, constitui o primeiro alvo de busca de adequação da seleção lexical pretendida, seguido pelo segundo alvo, o modificadorprogramada desse SN, também marcado pela expressão hesitativa éh. Constata-se, na sequência, uma P simétrica que materializa no texto a “resolução” do problema de formulação sinalizado pelas hesitações, via função de adequação vocabular. Todo o segmento M, da P em questão, émarcado como hesitativo por assim, cf. esquema:

Figure 14.

Em (35),assimmarcaa hesitação em contexto permeado por outros tipos de marcação desse fenômeno:

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(35) e ela faz um trabalho até muito interessante na Cruz Vermelha que ela... aceita::... que ela ela:: acolhe... mulheres... éh::... perseguidas pelos governos... [Doc: hum] principalmente do lado assim... dos árabes... (AC-150/NE1167b)

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Além da função textual-interativa genérica de preenchimento de pausa, os usos deassim relacionam-se, especificamente, a funções metadiscursivas que concretizam aspectos da textualização desdobrados em mecanismos variados de focalização da atividade discursiva, cf. (36):

(36) e a minha mãe sempre foi uma pessoa bem:: severa nunca deixô(u) a gente assim... é é... saí(r) pra é brincá(r) brincá(r) fora [...] (AC-120/DE1040)

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Essa ocorrência, seguindo o funcionamento mais frequente entre os usos deassim em hesitação, sinaliza o processamento de seleções lexicais. Por sua vez, (37)depreende o uso do item relacionado a unidades tópicas mais amplas:

(37) Doc.: e seus pais apoia::vam? não::?

Inf.: ah minha/ minha mãe assim... apoiava muito gostava muito dele[...] (AC-056/NE389)

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Nessa ocorrência, juntamente aos demais recursos que indicam hesitação,assim relaciona-se à determinação do foco do novo subtópico sugerido pela documentadora, a partir da pergunta e seus pais apoia::vam?. Observa-se, portanto, um acúmulo de hesitações no início do desenvolvimento dessenovo subtópico, estejam elas relacionadas ao “plano formal das estruturas sintáticas ou ao plano discursivo-textual da formulação enunciativa” (MARCUSCHI, 2006a, p. 69), como parece ser o caso de (37).

A ocorrência (38) exemplifica um uso de assim, menos recorrente, em que o item sinaliza a inserção de um ST que relativiza/modaliza as colocações anteriores, apresentando traços do MD assim atenuador:

(19) mas aí depois a ca/ as famílias acabaram tendo uma certa relação de amizade... e e/ eles frequentavam minha casa assiméh:: algumas vezes... e:: até um/ até uma certa idade quando ela tinha uns dez anos e depois... eu nunca mais a vi assim a/ sumiu... (AC-083/NE481)

4 Relações funcionais

A partir da descrição e análise do item em contextos de parêntese, paráfrase, correção, repetição e hesitação,algumas relações funcionais relevantes podem ser identificadas.

(I) Em relação àfunção fórica de assim, responsável pela sinalização dos ST que estão sob o escopo funcional dosprocessos de construção textual:

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(a) PARÊNTESE:o escopo incide, cf. as possibilidades de sinalização, sobre o tópico como um todo, ou apenas termos e ST. Essa sinalização concorre para particularizar o desvio tópico do processo de parentetização configurado em contexto de assim, uma vez que é exatamente essa ligação entre E2 e E1 e/ou E3, instanciada por meio da foricidade do item, que caracteriza um desvio em pequenas proporções, em que se observa E2 no limiar da centração tópica. Esse aspecto reflete-se nas funções dos parênteses constatados no contexto do item.

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(b) PARÁFRASE: a sinalização representa traço importante para o processo, já que atua na correlação entre os enunciados constitutivos da M e da P, via elo anafórico-catafórico.

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(a) CORREÇÃO e REPETIÇÃO:a sinalização retro-propulsora, realizada por assim,também constitui um importante papel na marcação dos enunciados reformuladores (ER) ou repetidos (R) em relação aos enunciados fonte (EF) ou matriz (M). Nesses processos, o funcionamento fórico de assim concorre para a instauração da propriedade de centração tópica.

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(d) HESITAÇÃO: diferentemente, em contextos de hesitação, assim perde seus traços fóricos, deixando de estabelecer sinalizações de porções tópicas.

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(II) Em relação à integração ou à marcação de assim nos ST que constituem os processos textuais focalizados:

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(a) PARÊNTESE:o item, atuando foricamente: (i) integra, ao mesmo tempo, os ST que constituem o parêntese, ou seja, sua foricidade desempenha papel importante para as funções parentéticas, mostrando que o item faz parte dos contextos tópicos que constituem esse processo textual;9 ou (ii) marca/sinaliza o segmento parentético, sem integrá-lo e sem compartilhar de sua funcionalidade dentro do tópico discursivo (MD com função de marcar formalmente parênteses prototipicamente voltados para o conteúdo tópico).

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(b) PARÁFRASE:a função de assim está integrada à do segmento que configura essa estratégia textual, i. é, o item sempre faz parte do segmento P, funcionando como elo explícito entre ele e o segmento M.

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(c) CORREÇÃO e REPETIÇÃO: em relação ao processo de correção, diacronicamente, o item integra o ER, enquanto, sincronicamente, funciona como um marcador de correção (MC), marcando/sinalizando o ER, sem integrá-lo, em construções adjacentes do tipo EF – MC – ER. Semelhantes são os casos de repetição, em que assim também funciona como um marcador de repetição (M – MR – R).

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(d) HESITAÇÃO: a hesitação, enquantoindicadora do processamento textual, revela assim não apenas integrando, mas constituindo, em si mesmo, um tipo de marca hesitativa.

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(III) Relações funcionais: o resultado mais expressivo deste estudo é o de que as funções dos processos textual-interativos, com os quais o item assim relaciona-se, a partir da integração ou da marcação/sinalização, apresentam fortes associações com as funções desempenhadas por esse item, na sincronia atual, fora desses contextos específicos. Quanto a isso, apresento as seguintes constatações:

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(a) PARÊNTESE: apesar de terem sido constatadas três dentre as quatro classes de parênteses existentes (cf. JUBRAN, 2006b), apenas funções específicas foram observadas: (i) atribuição de pontos de vista sobre o assunto a fontes não identificadas; (ii) manifestação de atitudes do escrevente em relação ao tópico; (iii) sinalização da elaboração tópica; e (iv) instauração de conivência com o destinatário.

Os parênteses que desempenham a função (i) estão relacionados ao descomprometimento do locutor/escrevente em relação àquilo que está sendo dito/escrito. Esse tipo de função é desempenhado pelo P(3) – MD assim “atenuador” (cf. Quadro 1, na seção 2).

Os parênteses voltados para (ii) e (iii) relacionam-se a diferentes papéis metadiscursivos, como apresentar foco na elaboração tópica, voltando-se para a formulação linguística do tópico, ou no conteúdo tópico, evidenciando, no segmento inserido, a construção textual. Esse tipo de função é desempenhado sincronicamente pelo P(2) – MD assim “sinalizador de metadiscursividade”.

Aqueles parênteses que focalizam a manifestação atitudinal do locutor em relação a um determinado conteúdo tópico, representando, dessa forma, um caso de ambiguidade entre as funções (ii) e (iii), são responsáveis pela sinalização de informações proposicionais diretamente associadas à manifestação de sentimentos do escrevente em relação ao conteúdo tópico. Trata-se da função exercida pelo P(1) – MD assim “sinalizador de conteúdo expressivo”.

Por fim, os parênteses que realizam a função (iv) representam traços de outras diferentes funções, dado que, ao instaurar conivência com o destinatário, o escrevente, ao mesmo tempo, divide com ele a responsabilidade pela maneira como está construindo seu tópico. Nesse caso, há tanto a função do P(3) – MD “atenuador”como a do P(2) – “sinalizador de metadiscursividade”.

(b) + PARÁFRASE: nos dados diacrônicos de carta e editorial, a natureza retro-propulsora da sinalização, realizada por assim, e a localização prototípica do item, na porção inicial da P, favorecem a emergência de relações semântico-cognitivas verificadas em seus usos com valor conclusivo (P(5)).10 Embora tais relações não estejam convencionalizadas, nesses contextos diacrônicos de P, elas podem surgir daí, via convencionalização de implicaturas, a partir de inferências conclusivas pertinentes e recorrentes nos contextos de P com funções de precisar/explicitar ou resumir.

Um aspectomerece destaque: nos dados sincrônicos, embora as possibilidades de localização, sinalização e função mantenham- se, em relação ao que se verificou nos dados do corpus diacrônico, não se constatam mais quaisquer relações entre M e P, em contexto de assim, e a coordenação de orações com valor conclusivo, realizada por esse item. Entretanto, nessa perspectiva, os contextos em que as P relacionam-se com as funções observadas diacronicamente (explicitar e resumir) caracterizam o uso de assim voltado para a construção de um quadro mental, relativo à descrição, equivalente ao P(4) – MD “sinalizador de construção de quadro mental”.

(c) CORREÇÃO: de modo geral, contextos de correção não configuram ambientes propícios para a preservação da face do falante. Dessa forma, subjacente à função de marcar o ER frente ao EF, há uma função atenuativa de assim, voltada para o abrandamentodo risco que o processo de construção textual implantado representa à face do falante em relação ao ouvinte.

Nessa direção, o uso deassimmarcador de correção revelaria características dos usos do P(3) – MD assim “atenuador”, representativo de seu comportamento comohedge de imprecisão/ incerteza que sinaliza a atividade cognitiva de planejamento verbal on line, atenuando os riscos que uma correção representa à face do falante. A co-ocorrência extremamente frequente do MD né?, nesses contextos de correção marcados por assim, funcionando como marca do pedido de aprovação do interlocutor, corrobora essa leitura.

(d) REPETIÇÃO: o processo de repetição, enquanto estratégia de formulação textual, contribui para a organização discursiva, implementando sequências textuais mais compreensíveis e resultando numa textualidade menos densa e num maior envolvimento interativo. Nesse sentido, caracteriza um planejamento on line que acarreta a produção e reprodução, uma ou mais vezes, de segmentos inteiros, ou quase inteiros, motivadas por vários fatores, entre eles o cognitivo. Dessa forma, nos casos em que assim co-ocorre com esse processo, identifica-se a sua associação funcional aos procedimentos metadiscursivos que concretizam aspectos de textualização que se desdobram, juntamente com os mecanismos da repetição, focalizando a própria atividade discursiva.

Portanto, a funcionalidade do itemnos contextos de repetição está associada ao P(2) – MD assim “sinalizador de metadiscursividade.

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(e) HESITAÇÃO: as ocorrências de assim relacionadas à hesitação, revelam o item desempenhando, de modo geral, a função de preencher pausa hesitativa, frequentemente em contexto de co-ocorrência com outros fenômenos indicativos de hesitação, e, de modo mais específico, as funções: (1) metadiscursiva, que concretiza aspectos da textualização desdobrados em mecanismos de focalização da atividade discursiva, como a hesitação em contexto de seleção lexical, de introdução de um novo tópico/subtópico ou manutenção tópica; e (2) atenuativa, que, embora menos frequente, é identificada em usos do item, em contextos marcados pela hesitação, antes da inserção de ST que relativiza/modaliza colocações/afirmações anteriores.

Depreendem-se, portanto, relações desse uso de assim,ligado a contextos de hesitação, com outros usos do item, associados ao P(2) – MD assim “sinalizador de metadiscursividade”, no que tange à função em (1), e ao P(3) – MD assim “atenuador”, em relação à função em (2).

Conclusões

A partir de uma análise pormenorizada dos processos deparêntese, paráfrase, correção, repetição e hesitação, este trabalho revelou não apenas o comportamento do item assim frente à implementação de tais mecanismos textual-interativos, mas, por meio desse comportamento, as relações funcionais existentes entre os contextos em que o item atua nesses mecanismos e seus padrões de uso, especificados no Quadro 1.

A partir desses resultados,duas afirmações são pertinentes: (i) assim revela papel funcional significativo em contextos de processos interativos de construção do texto, constituindo-se, inclusive, como marca da heterogeneidade constitutiva da escrita, nos moldes de CORRÊA (1997), em relação à parentetização e ao parafraseamento; e

(ii) o funcionamento do item, nesses contextos, tem muito a dizer sobre seu processo de mudança, tanto na indicação de caminhos propriamente ditos dessa mudança, no caso de relações de derivação, verificadas ao longo do tempo, como na indicação de estratificações e especializações de usos na perspectiva sincrônica.

Nessa linha, esse tipo de análise direciona o olhar para uma forma específica e nova de tratamento contextual, como base para algumas generalizações e implicações referentes a processos de GR, nos moldes do de assim, a partir da constatação das relações funcionaisexistentes entre os processos de parentetização, parafraseamento, correção, repetição e hesitação, que ocorrem em contexto do item,e os funcionamentos de seus usos em determinados padrões mais abstratos/gramaticalizados. Essas relações são retomadas, brevemente, no Quadro2:

Figure 15.

QUADRO 2: Relações entre os processos textual-interativos e padrões mais gramaticalizados de assim

De início, especifica-se que as siglas (D) e (S) significam diacronia e sincronia, respectivamente. Em relação a (1D) e (2D), os contextos integrados por assim, observados em dados dos séc. XVIII a XX, favorecem a reinterpretação metonímica em direção à mudança categorial e semântico-cognitiva do item (de advérbio modal, constituinte de E2 > MD; e de advérbio modal, constituinte de P > juntor conclusivo). Dessa forma, os contextos de parêntese e paráfrase colaboram para a emergência das funções dos padrões relacionados, a partir dos funcionamentos explicitados na análise. A perspectiva diacrônica, além da relação de gramaticalidade, sugere também a relação de origem dos respectivos padrões apontados a partir dos usos em que o item integra as construções que desempenham os processos de parentetização e parafraseamento.

Por outro lado, (1S), (2S), (3S) e (4S) apresentam processos textual- interativos, em co-ocorrência com o item sincronicamente. Aqui, observam-se contextos que colaboram para o processo de mudança que leva à emergência de aspectos específicos do funcionamento de assim nos padrões indicados e que colaboram, ao mesmo tempo, para a implementação de seus respectivos funcionamentos.11

Chega-se à conclusão de que o processo de mudança pelo qual emergem os usos mais gramaticais e abstratos de assim lança mão de contextos diferenciados para sua implementação. Esses contextos podem ser caracterizados por aspectos semântico-pragmáticos associados aos distintos processos interativos de constituição do texto, conforme expostos aqui. De formas diferentes, esses contextos colaboram para a incorporação dos novos funcionamentos do item, mediante o desbotamento de alguns aspectos semântico-formais e a persistência de outros.

Para fechar este trabalho, a Figura 1 sistematiza as relações estabelecidas aqui:

Figure 16.

FIGURA 1: Escala de GR do padrão (7) de assim

Referências

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  5. Parafraseamento HILGERT J. G. In: JUBRAN C. C. A. S, KOCH I. G. V, eds. Gramática do Português Culto Falado no Brasil. Campinas: Editora da Unicamp; 2006 .
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