Resumo

O fenômeno da Autocitação Fictiva é um tipo discursivo de Fictividade por meio do qual seus conceptualizadores impõem uma perspectiva subjetificante e avaliativa ao discurso direto (primeira pessoa do singular), tornando o verbo “dizer” ou “falar” exclusivamente epistêmico. Por meio de um cenário não-verídico de reportação discursiva, o locutor remete a um cenário prévio e suposto de fala com propósito efetivo de permitir acesso mental ao cenário verídico de pensamento. Com base em dados orais de Português Europeu (PE) e Brasileiro (PB), postula-se que a Autocitação Fictiva se dá por um processo de Escaneamento Mental em que o sujeito cognitivo contempla, escaneando-a, uma situação prévia, e assim evoca o frame de avaliação, e não o de reportação discursiva. Configurando-se ainda como um produto do Movimento Fictivo Experenciado, a Autocitação Fictiva é mapeada por meio de pistas como digressão monológica e co-texto epistêmico.

Introdução

Embora seja um tema ainda pouco explorado por linguistas brasileiros e portugueses, reconhecidos estudiosos em Linguística Cognitiva (LC), como Ronald Langacker e Leonard Talmy, vêm defendendo que a Fictividade (Fictivity) é absolutamente fundamental no pensamento e na linguagem. Em linhas gerais, o fenômeno pode ser inicialmente entendido como o uso de expressões linguísticas indiretamente vinculadas a seus referentes pretendidos, a partir do qual cenários concebidos como não-verídicos são perspectivizados pelos usuários das línguas com o propósito de obter acesso mental a cenários concebidos como verídicos (PASCUAL, 2006). O reconhecimento da Fictividade, como parte essencial da cognição linguisticamente manifesta, consolida-se em importantes trabalhos que ilustram o fenômeno. Segundo Talmy (1996, 2000), trata-se de uma atividade cognitiva ampla que se instancia em categorias conceptuais diversas, por meio de elaborações específicas do modelo “X Fictivo(a)”:

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- Entidade fictiva (TALMY, 1996, 2000; FAUCONNIER, 1994, 1997; LANGACKER, 1999, 2008), relacionada a nomes empregados em afirmações genéricas (e.g. “Ursos são animais ferozes”), como entidades mais abstractas, desengajadas de instâncias particulares;

- Movimento fictivo (LANGACKER, 1987, 1991, 2008; MATSUMOTO, 1996a; TALMY, 1996, 2000; MATLOCK, 2001; MATLOCK et alii, 2004), em que entidades estáticas são aparentemente movidas via projeção do conceptualizador (e.g. “A tatuagem vai de um ombro ao outro”);

- Mudança fictiva (MATSUMOTO, 1996b; FAUCONNIER, 1994; Sweetser, 1996), em que a mudança não é real, mas entendida como tal no processo de conceptualização (e.g. “A geladeira ficou maior quando retiramos tudo que havia nela”);

- Ato de fala fictivo (LANGACKER, 1999, 2008), como o uso de ironia, em que o aparente elogio é uma crítica; ou perguntas retóricas, em que uma aparente pergunta é um comentário — sendo este último tratado por pascual (2003) como um caso de Interação fictiva.

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Relacionado não apenas à cognição linguística, mas também à visual, o conceito de Fictividade ganha maior densidade teórica quando Talmy (1996, 2000) explica que representações fictivas são avaliadas e concebidas como menos verídicas; enquanto as factivas, como mais verídicas. Além disso, ambas as representações não se alinham ao que é considerado representação objetivamente irreal, como a palavra “fictício” sinalizaria. Elas são experenciadas como perspectivas alternativas de uma mesma entidade ou relação, como construals ou perspectivações conceptuais possíveis. Portanto, para ele, Fictividade é a representação cognitiva extensiva de fenômenos não-verídicos, expressos linguisticamente e visualmente percebidos ou concebidos (ception), respectivamente em construções gramaticais e discursivas ou em instâncias visuais — nestas, percebem-se movimentos que não ocorrem fisicamente, como,por exemplo, flashes sucessivos de luzes em um letreiro:

Figure 1.

FIGURA 1 – Movimentofictivo de luzes 1

A Factividade também pode ser entendida nos termos de talmy (1996, 2000), segundo o qual uma representação é percebida no nível concreto de palpabilidade como sendo verídica, algo que se vê e é experienciado como completamente manifesto, claro e vívido. Talmy afirma (1996: 213 ou 2000: 102): “uma pessoa ‘vê’ a representação factiva, mas apenas ‘sente’ a representação fictiva”2.

Para o autor, a Fictividade não invoca quaisquer critérios externos do que seja real ou irreal, pois a base de distinção segue apenas critérios cognitivos internos. Segundo ele, se uma parte da cognição de um indivíduo avalia o produto de outra parte da cognição desse mesmo indivíduo como imaginária ou irreal, então tal produto se caracterizaria como fictivo. Assim sendo, no exemplo, “Essa cerca vai do platô até o vale”3, uma parte de nossa cognição pode muito bem perceber a imagem de algo em movimento, percorrendo o caminho que vai do platô ao vale. Não obstante, parte de nossa cognição pode avaliar essa imagem como irreal, preservando a concepção de que nada na cena está se movimentando na realidade. Considerando esse tipo de conflito cognitivo interno, a imagem avaliada como irreal é fictiva.

De acordo com o modelo de Fictividade geral defendido por ele, verifica-se, então, que tais representações se polarizam (em fictivas e factivas), distinguindo-se umas das outras em dimensões singulares, a saber:

(i) estado de ocorrência – em que a presença factiva é acoplada à ausência fictiva, ou vice-versa;

(ii) estado de movimento – em que a representação mais verídica inclui imobilidade, enquanto a menos verídica apresenta movimento, ou vice-versa;

(iii) estado de mudança – em que a representação mais verídica inclui estabilidade, enquanto a menos verídica apresenta mudança, ou vice-versa.

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Então, de acordo com talmy (1996, 2000), o fenômeno pode acomodar qualquer instância virtual, supondo a possibilidade de se encontrarem presença e ausência fictivas, imobilidade e mobilidade fictivas, estabilidade e mudança fictivas. Em geral, para ele, “X é Y” esquematiza a fórmula fictiva, que pode ser ilustrada com elaborações da metáfora AMOR É VIAGEM; enquanto “X não é Y”, a factiva, com “Amor não é viagem”.

Em geral, os estudiosos do fenômeno da Fictividade concentram atenção nos meios cognitivos e linguísticos que sustentam a evocação de cenários verídicos por meio de instâncias fictivas. langacker (2008: 36), por sua vez, afirma:

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Mesmo para os tipos de entidades que realmente existem, o que mencionamos em termos linguísticos é frequentemente uma instância virtual (ou fictiva), i.e., uma instância imaginária evocada para algum propósito.4

Segundo Langacker (2008: 524), a Fictividade se expressa:

(i) nos produtos de metáfora e mesclagem (e.g. “Esse pensamento não sai da minha cabeça”5);

(ii) na posição de vantagem, que remete ao arranjo da visão dos conceptualizadores6; no arranjo default, a posição de vantagem é o lugar real onde se localizam falante e ouvinte (e.g. “A cadeira está na minha frente”). A figura abaixo, adaptada de langacker (2008: 76), ilustra o exemplo acima.

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Figure 2.

FIGURA 2 – Adaptada de langacker (2008: 76):“em frente”

O ponto de vantagem (Pv) e a seta pontilhada representam a linha de visão do falante visualizador. A escolha de “cadeira” como trajetor 7 (tr) e de “minha” como marco (m), na relação perfilada por “em frente”, faz com que o visualizador se veja diante da cadeira, focalizando-a. No caso, Pv e (m) referem-se espacial e linguisticamente ao visualizador.

(iii) no limite virtual, observado, por exemplo, quando conceptualizamos um contêiner como tendo um limite superior virtual. A boca de um copo, por exemplo, é o limite virtual e imaterial de um contêiner aberto, sendo esse limite representado na figura a seguir por linhas tracejadas:

Figure 3.

FIGURA 3 – Adaptada de Langacker (2008: 139): contêiner

(iv) no conceptualizador (C), que é invocado por elementos do evento discursivo (grounding) e constrói proposições com maior ou menor grau de objetividade, sinalizando concepções mais ou menos comprometidas com a realidade (cf. LANGACKER, 2008: 431);

(v) na invocação fictiva de um cenário de ato de fala (e.g. “Eu estarei lá” é, em si, uma proposição sem status epistêmico, mas se tomada como promessa, evoca cenário fictivo; cf. LANGACKER, 2008:471).

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Conforme o autor, a Fictividade não é um fenômeno com limites bem definidos, pois há vários tipos e graus de afastamento da realidade física imediata e diretamente observada. Para ele, “afastamentos da descrição direta da EFETIVIDADE são ubíquos e fundamentais na linguagem”8. As expressões da Fictividade, elencadas acima, ilustram essa afirmação. A tarefa seria então contemplar um espectro de casos, os quais incluiriam a natureza e os graus de afastamento. Na visão langackeriana, quando se decide estabelecer um limite categórico para o fenômeno, na tentativa de se considerar algo como fictivo em vez de efetivo, tem-se um problema de definição, que pode envolver arbitrariedade.

O percurso histórico-metodológico dos estudos sobre Fictividade é similar ao da Linguística Cognitiva como um todo. Tem início com trabalhos que se baseiam puramente na intuição dos linguistas, que desenvolvem construtos epistemológicos induzidos a partir de ilustrações imagísticas e linguísticas, inventadas ou artificiais — embora completamente plausíveis — para a postulação de realidades psicológicas e cognitivas. De modo algum, esse método fundador pode ser considerado demeritório, dado que a intuição do pesquisador é inerente à natureza da investigação científica, e é capaz de produzir insights de grande complexidade.

Por outro lado, isso nos impele a um árduo compromisso com a empiria, no sentido de testar no uso real da linguagem os postulados oriundos de induções simuladas. “O mais tentador, melhor mesmo, é expor-se ao que o objeto ou o corpus traga de novo, de inesperado” (RIBEIRO, 2003: 128). Com esta pesquisa, foi possível mapear em corpora de Português Brasileiro (PB) e Europeu (PE) pistas discursivas muito específicas para se apresentar, neste trabalho, uma instância inédita no campo da Fictividade, que é o caso da Autocitação Fictiva. O ineditismo não se aplica apenas à identificação de uma expressão virtual que ainda não havia sido reconhecida e que ilustra um fenômeno e uma teoria já em estudo, mas também ao caráter empírico deste trabalho, que tem como propósito uma análise qualitativa de usos reais de autocitação fictiva e sua contraparte factiva.

Deste ponto em diante, este artigo apresentará: (1) a seção “Autocitação Fictiva”, sobre o constructo desenvolvido a partir de dados de PB e PE, para contribuir com os estudos em Fictividade; (2) uma seção em que se postula a autocitação factiva como movimento conceptual com deslocamento e a fictiva como movimento conceptual sem deslocamento; (3) uma seção na qual se problematizam as questões de sinonímia e polissemia na autocitação. Em “Considerações finais”, sumariza-se a dimensão epistêmica da construção gramático-discursiva em tendências específicas.

1. Autocitação Fictiva

Este artigo baseia-se na hipótese inédita de que, em PB e PE9, o discurso direto em forma de autocitação apresenta instâncias fictivas (AFics) de seus tipos comunicativos, como diametralmente opostas, mas contíguas, às suas instâncias factivas (AFacs)10. Em outros termos: um molde tradicionalmente direto de discurso reportado pode se apresentar também como uma forma indireta, virtual e fictiva de evocar discursos não proferidos, mas efetiva e mentalmente construídos. Uma vez que uma AFic é um padrão não-canônico proveniente do padrão canônico de discurso direto, há razões muito fortes para que ele se configure como um produto do padrão geral de Fictividade (TALMY, 1996: 212), segundo o qual duas representações discrepantes – embora não exclusivamente – estão em desacordo com relação a alguma dimensão, representando pólos opostos dessa dimensão»11 (fictiva e factiva). Uma AFic se instancia em exemplos como:

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(1) Comi uma vez nos Estados Unidos porque pensei que fosse salgado, só por isso. Estragou toda a minha comida, achei horrível! Era um molho lindo, maravilhoso, de carne, sabe, aquele molho de ferrugem, ahn! Eu olhei aquilo, disse: puxa, que molho lindo! Eu quero aquele molho! Foi uma desgraça. (Português Brasileiro, PB - Corpus NURC12)

(2) A minha mãe morreu fiquei com uma criada antiga lá do Alentejo que ficou comigo vários anos até que depois foi para casa das filhas para Évora e e eu disse eu tenho que me ocupar não é só a questão do dinheiro (Português Europeu, PE – Corpus CINTIL13)

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Tanto o trecho sublinhado de (1) quanto o de (2) evocam cenários fictivos à medida que se utilizam de um verbo dicendi (“disse”) para enunciar apenas uma digressão ou uma avaliação que não é necessariamente perspectivizada como discurso proferido. Com isso, não é o caso de se aplicar aqui a noção clássica de verificação de condições de verdade, pois, para este estudo, é irrelevante saber se o falante proferiu ou não o discurso relatado, mas importa saber se a representação mimética desse discurso reportado é avaliada pelos conceptualizadores como mais ou menos factiva ou verídica, como mais ou menos fictiva ou não-verídica (TALMY, 1996, 2000; LANGACKER, 2008).

Em contraponto à AFac, cuja referência direta ou descrição da “realidade” é o ponto de afastamento para a AFic, neste tipo comunicativo de Fictividade discursiva, mais restrito ao tipo textual narrativo de caráter oral, o frame da construção de discurso direto, em formato de autocitação, é interacionalmente acionado, porém parcialmente vinculado ao referente pretendido. Por meio de um cenário não-verídico de reportação discursiva, o agente locutório remete a um cenário prévio e suposto de fala, com o propósito efetivo de permitir acesso mental ao cenário verídico de pensamento, mas não de fala.

A AFic não se configura como um tipo de citação direta, ou mesmo paráfrase, de enunciados realmente proferidos em trocas comunicativas ou inventadas, sendo, na verdade, avaliada como objetivamente atual14; no entanto, subjetivamente virtual. Respectivamente, isso significa dizer que a AFic é presentificada como situação efetiva, mas veiculada por meio de um processo abstrato e indireto de subjetificação15.

Após levantamento de dados em corpora16, verificou-se nesta pesquisa que tanto o PE o PB apresentam usos de AFic com o verbo “dizer”, como se pode ver a seguir:

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(3) Eu quando peguei no sapato um estava direito tinha lá ficado no sítio mas ela (cachorra) com o outro é que ela hhh fez a dança toda e eu quando vi aquilo disse ai meu deus o que é que eu vou fazer e agora olha eu fiz os sapatos uns sapatos azul- marinho e agora o que é (PE – Corpus CINTIL)

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(4) A primeira vez que eu o vi, eu devia ter doze pra treze anos e ele cinco anos mais velho que eu, eu olhei e disse: eu vou namorar esse cara. Não sei como não, mas eu vou namorar esse cara. Aí alguns, alguns anos depois, acho que uns dois anos depois, ele mudou-se pra perto da minha casa. (PB - Corpus NURC)

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Considerando a princípio seus contextos comunicativos de uso, nos quais são percebidos a ausência co-textual de enquadre de reportação dialógica, bem como o caráter digressivo, valorativo ou apreciativo, de ambas as situações, as AFics sublinhadas de (3) e (4) representam indiretividade ou incompatibilidade entre expressão linguística e situação referida. Ou seja, o que se afirma que foi dito não foi dito de fato, mas apenas pensado. Ou ainda, tais instâncias fictivas exigem um processamento mental virtual, embora sejam motivadas situacionalmente e com base no conhecimento de mundo.

É certo que a semântica e a sintaxe dessas instâncias sublinhadas não bloqueiam por completo seu entendimento factivo. Contudo, sem dúvida alguma, são construções discursivamente fictivas, introduzidas em contextos narrativos como eventos dinâmicos, mas que de fato são de caráter mais estático. “Dizer” sugere aprioristicamente dinamismo; não obstante, nos enunciados acima, esse dinamismo da ação enunciativa passa de ativo a contemplativo, de factivo a fictivo. Por isso, como verbo vicário de atitude proposicional em (3) e (4), “disse” aciona um estado mental que conecta virtualmente os interlocutores a uma proposição de caráter avaliativo, apreciativo ou valorativo, não diretamente factiva. E isso está relacionado a como o sujeito concebe as noções de movimento e deslocamento.

2. Autocitação como movimento conceptual com e sem deslocamento

Seres humanos são capazes de se deslocar com o próprio corpo quando podem caminhar, correr ou nadar. Deslocam-se até mesmo mantendo-se em posição de repouso quando são movidos por meios de transporte ou por alguém que os carrega. Nos momentos em que andam de bicicleta, ao mesmo tempo, movimentam-se e deslocam- se. No entanto, se a bicicleta for ergométrica, movimentam-se sem se deslocar. O mesmo acontece em relação a caminhadas no parque e em esteiras ergométricas. Por outro lado, em carros, ônibus, aviões ou trens, são movidos ao longo do percurso, geralmente, sem se esforçar muito para que o deslocamento se efetive. Na vida cotidiana, andar sem sair do lugar, como menção e uso, pode não ser considerado oxímoro, nem paradoxo, nem antítese. Como é possível andar sem sair do lugar, na esteira ergométrica, pode não haver oposição ou antagonismo, elementos que caracterizam tais figuras de linguagem. Então, movimento pode supor deslocamento, mas não necessariamente.

Em termos linguísticos e de acordo com Reddy (1979), os falantes da língua inglesa dão mostras de que concebem a linguagem como um conduto. Assim, são capazes de “empacotar” sentidos em itens lexicais, transferindo-os através do canal da linguagem e destinando-os a um ouvinte, que precisa apenas desembrulhar o pacote de sentidos para depreender a mensagem. Pressupondo movimento e deslocamento conceptuais, a metáfora do conduto subjaz também a construções do inventário do Português, como se pode verificar a seguir:

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(5) eu não gostei, não me deu nenhuma ideia para o que fazer pro meu pai17

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Como os itens a serem “desembrulhados” podem ser fragmentos de discurso previamente proferidos, Rocha (2004, 2006) argumenta que essa metáfora envolve especificamente as construções de discurso reportado, a partir de relações de herança metafórica com a construção de movimento causado e a de transferência de movimento causado (GOLDBERG, 1995), instanciadas respectivamente por “Pedro chutou a bola para Paulo” e “Pedro deu a casa para Paulo”. Nesse caso, os laços metafóricos se dão por TRANSFERÊNCIA FÍSICA É TRANSFERÊNCIA DE PROPRIEDADE, e quando se trata das construções de discurso reportado, invoca-se Reddy (1997) para se postular TRANSFERÊNCIA VERBAL É TRANSFERÊNCIA DE PROPRIEDADE (e.g. “Eu lhe disse: permaneça onde está.”). Portanto, ideias podem ser concebidas como objetos (LAKOFF; JOHNSON, 1980), disponíveis para serem deslocados de um lugar a outro. Ou ainda: o discurso, próprio ou de outrem, é objeto de doação, que supõe movimento metafórico nesse contexto.

O provérbio da língua africana Wolof, citado por Tannen. Tudo pode ser movido de um lugar para outro sem mudar, exceto a fala18 expressa perfeitamente essa observação: significa que a fala pode ser conceptualmente movida, embora possa se alterar em forma e/ou conteúdo. Ao descrever e analisar construções gramaticais de discurso reportado em interações face-a-face a partir de dados de um reality show brasileiro, o Rocha (2004) trata o discurso reportado como metamimesis (discurso reportado ou reconstruído, cuja enunciação se dá na cena de reportação) elaborada a partir da mimesis linguística (discurso conceptualizado como já proferido em cena anterior, isto é, a fala tida como “original”). Em outros termos, metamimesis é o discurso concebido como reapresentação de um discurso já mimetizado, tendo por base conceptual algo entendido como já perspectivizado conceptualmente, como ocorre na relação entre metalinguagem e linguagem. Argumenta-se, então, que a figura retórica mimesis, tradicionalmente vista como discurso direto e imitação de gestos e vozes, é uma pista fundamental para o reconhecimento de processos cognitivos subjacentes à compreensão e produção da voz de outrem. Tal reconhecimento tem a ver com a conceptualização de movimento com e sem deslocamento, respectivamente, factivo e fictivo, em se tratando de autocitação.

Segundo talmy (1996, 2000), as línguas sistemática e extensivamente se referem a circunstâncias estacionárias com formas e construções cuja referência básica é o movimento, estabelecendo-se então o que ele chama de Movimento Fictivo Construcional. No entanto, os falantes apresentam distinções acerca do grau em que tais expressões evocam um sentido efetivo ou a conceptualização do movimento. Ele denomina isso de Movimento Fictivo Experienciado. Dessa forma, para a mesma instância de movimento fictivo construcional, alguns conceptualizadores (falantes e ouvintes) podem evocar fortemente a semântica de movimento, enquanto outros não. “O que parece ser comum, entretanto, é que todo falante experencia um sentido de movimento para algumas construções de movimento fictivo”19. Segundo o autor, são estas as principais características que distinguem as categorias de movimento fictivo na linguagem:

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(i) O movimento factivo de alguns elementos necessita ou não estar presente para o efeito fictivo ocorrer;

(ii) A entidade fictivamente movida é por si só factiva ou fictiva;

(iii) O efeito fictivo é um padrão desengajado ou um padrão engajado — e se o padrão é engajado, ele é factivo ou fictivo; ele se move ou promove um escaneamento conceptual. Ao analisar os enunciados The hill gently rises from the bank of the river (A colina sobe suavemente da margem do rio) e The hill gently falls to the bank of the river (A colina suavemente desce para a margem do rio), Langacker explica que o escaneamento mental ocorre quando

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o conceptualizador, ao construir uma concepção integral da relação perfilada, cria uma imagem da colina, traçando um caminho mental ascendente ou descendente ao longo da mesma.20

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Não restrito à questão do espaço, o escaneamento mental, em geral, consiste em percorrer um conjunto de alternativas concebidas e arranjadas em determinada ordem;

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(i) O que é concebido como aquilo que se move fictivamente é uma entidade ou o observador de uma entidade.

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Se aplicarmos tais características ao domínio de AFics e AFacs, deduzimos que:

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(i) pressupondo Fictividade primordial, AFac não dispensa o movimento factivo, enquanto AFic se distancia dele;

(ii) o discurso fictivamente movido pode ser conceptualizado como factivo (AFac) ou fictivo (AFic);

(iii) os moldes de discurso reportado podem ser entendidos como padrões desengajados ou esquemáticos de suas instâncias, portanto são, nesse sentido, fictivos; porém quando se tornam engajados, apresentam-se como factivos ou fictivos, visto que se movem conceptualmente (AFacs) ou promovem um escaneamento mental (AFics). Em outros termos, o discurso direto (em primeira pessoa do singular, no caso) representa factivamente o deslocamento conceptual de uma fala ou de um pensamento em forma de citação; enquanto sua modalidade fictiva remete a um escaneamento mental de um pensamento prévio, um movimento mental sem deslocamento, donde provém seu cunho mais apreciativo que reportativo. Nesse sentido, escanear mentalmente pressupõe crivar ou contemplar, subjetivamente, determinadas situações;

(iv) O que é concebido como aquilo que se move fictivamente é uma entidade (discurso reportado) ou o observador de uma entidade (escaneador do discurso reportado fictivo).

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O exemplo que segue ilustra tais aspectos:

(6) fiquei um ano / falei / ah / mas eu fiz isso / pronto // fiz minha minha licenciatura bem feita // se precisar / bem / mas / queira Deus que eu nunca hei de precisar desse trem // vou / passar no concurso / vou trabalhar nas empresa / vou ser redatora / tradutora / vou mexer com esses negócio // mas nunca dei a sorte // aí / foi a situação foi ficando difícil / quase um ano formada e sem ganhar dinheiro algum / pá // qual eu falei / um dia eu desesperei / falei / ô gente / acho que eu tenho que sair aí / ir numa escola aí / deixar meu currículo nas escolas // *REN: hum hum // (C-ORAL BRASIL21)

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Em (6), o co-texto que precede “falei / ô gente / acho que eu tenho que sair aí / ir numa escola aí / deixar meu currículo nas escolas” é marcadamente de digressão monológica, com relato de planejamentos. Diante disso, o enunciador, distanciando-se da concepção de movimento factivo como apontado em (i), pré-condiciona subjetiva e discursivamente o escaneamento mental sobre a construção de Autocitação Fictiva em (6), imediatamente antecedida pelo verbo “desesperei”, que perfila emoção acentuada. Neste caso, o discurso fictivamente movido (“ô gente / acho que eu tenho que sair aí / ir numa escola aí / deixar meu currículo nas escolas”), via metáfora do conduto, é conceptualizado como fictivo (AFic), não como factivo, conforme assinalado em (ii). O fragmento acima, ao ser enunciado com o prefácio dicendi “falei”, remete a um escaneamento mental de um pensamento prévio, não no sentido de reportação de discursos, mas de apreciação subjetiva acerca de determinada situação (item iii). Nesse sentido, o falante do trecho sublinhado em (6) é o observador ou escaneador do discurso reportado fictivo.

O que sucede ao construtor de espaço mental dicendi/sentiendi “falei” é um encaixe encabeçado pelo interjetivo “ô”, que exprime os afetos do ânimo não necessariamente em condições factivas e se ancora no vocativo genérico “gente”, desengajado de quaisquer instâncias específicas. A emissão da expressão verbal “acho”, em modalidade epistêmica, amalgamada ao restante do encaixe oracional de promessa, também contribui para conferir Fictividade à construção como um todo. Assim, novamente constata-se a semântica do movimento sem deslocamento, por meio de um sujeito cognitivo escaneador que digitaliza as próprias reflexões.

Em “A tatuagem vai de um ombro ao outro”, caso de movimento virtual, o conceptualizador projeta espacialmente um percurso fictivo; todavia, nos casos de AFic, como se ilustra a seguir, essa projeção de movimento é auto-direcionada, cujas lentes digitalizantes relanceiam o foco por sobre pensamentos já elaborados:

Figure 4.

FIGURA 4 – Mente como scanner 22

Ao tomarmos o conceito de Emanação Fictiva (TALMY, 1996, 2000) como um movimento fictivo de alguma coisa intangível que emerge a partir de uma fonte, a pergunta seria: qual é a fonte específica de emanação de Fictividade que aproxima AFac de AFic? Obedecendo ao Princípio Ativo-Determinativo da fonte de emanação, segundo o qual o objeto mais ativo e determinativo é conceptualizado como fonte de emanação, poderíamos estabelecer o conceptualizador “Eu” da autocitação como ativo-determinativo da fonte de emanação fictiva; o objeto “movido” (a fala ou o pensamento encaixados) seria não-ativo e não-determinativo. Tanto em AFac como em AFic, “Eu” pode ser percebido como emanador, como objeto ativo, enérgico e poderoso, conceptualizado como fonte de radiação que move a fala ou o pensamento no tempo/espaço para impingir alguma coisa a esse objeto não-ativo e não-determinativo.

O Princípio Ativo-Determinativo é consequência do sistema cognitivo fundacional de cada indivíduo que tem e experencia a agentividade. Seu exercício pode ser compreendido de duas maneiras: a geração de intenção e a realização da intenção (TALMY, 1976). A geração de intenção compreende o desejo de existência de algum estado novo de coisas em que se tem capacidade de agir para mudar o estado de coisas. A realização da intenção é a realização de ações que acarretam o novo estado de coisas. Como detectar então a intenção fictiva e factiva na autocitação? Uma das evidências de resposta talvez advenha de outro fenômeno também tratado em termos de Fictividade: a ironia, em que, por exemplo, um elogio intenciona uma crítica e cuja expressão oral remeteria a certos contornos prosódicos específicos.

Pistas linguísticas sugerem que o movimento fictivo, por exemplo, emana do agente que desloca algo que por si só não se movimenta, como o discurso já “armazenado”. “A entidade mais ativa e determinativa é a fonte a partir da qual o movimento fictivo emana através do espaço até alcançar o menos ativo e determinativo, o objeto distal” (TALMY, 1996: 229)23. O autor afirma ainda que a produção do movimento factivo pode se tornar a base para a conceptualização do movimento fictivo.

O discurso direto por si reporta factivamente um discurso que pode ser fictivizado, como é o caso de AFic. “Falar” ou “dizer”, com função dicendi, pode pressupor e intencionar (i) o movimento com deslocamento de um objeto distal já proferido previamente (portanto, mais factivo e palpável), que é a fala, ou (ii) o movimento sem deslocamento de um objeto distal não-proferido (portanto, mais fictivo e impalpável), que é o pensamento.

3. Sinonímia e/ou polissemia na autocitação

Casos de autocitação, fictiva e factiva, problematizam as noções de sinonímia e polissemia, a depender das dimensões de método que se adota. De acordo com Silva (2006), a dimensão semasiológica parte do componente formal da palavra para os sentidos e referentes que podem estar associados a essa forma. Tal conceito se aplica não só ao domínio lexical como também ao gramatical, visto que léxico e gramática são concebidos como um contínuo em LC. Langacker (2001) acrescenta que Gramática Cognitiva e discurso estão relacionados porque todas as unidades linguísticas são abstraídas a partir de eventos de uso.

Tomando instâncias de AFac sem a presença de sintagmas direcionais (e.g. lhe, para você etc.), como no trecho sublinhado em (7) e as de AFic (cuja ausência de sintagma direcional é um de seus traços característicos) como construções gramaticais de estrutura argumental, cujo exemplo pode se observar no trecho sublinhado de (8):

(7) Aquilo que os pais dizem é o mais importante e e o amigo da minha mãe disse-me então Margarida já escolheste e eu disse já já vou pôr as cruzinhas hoje quando chegar a casa vou para arquitectura paisagista tu não faças uma coisa dessas(Português Europeu, PE – Corpus CINTIL)

(8) Passei uma, uma viagem que eu fiz pra Canópolis, trinta e três horas de ônibus sem parar. De louco. Eu disse: isto aqui não dá pra mim não. Vou ver se faço outra coisa aí porque essa nun... a minha mulher sozinha em casa com o garoto pequeno e eu viajando, não dá. Então saiu um concurso pro estado, FEITEG, seis vagas.(Português Brasileiro, PB - Corpus NURC)

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nota-se que elas são formalmente tão similares que é difícil, pelo menos em PE e PB, não entendê-las como polissêmicas. Ou seja, ambas apresentariam localmente a mesma forma, mas sentidos distintos, porém relacionados. A tabela a seguir mostra a equivalência formal estrita entre as duas possibilidades de autocitação, permitindo abstrair o esquema proposicional (EU) DISSE/FALEI X-ORACIONAL:

Table 1.

TABELA 1 – Equivalência formal entre AFac e AFic

AFac AFic
(sujeito (sujieito)
+ +
verbo dicendi verbo dicendi/sentiendi
+ +
objeto direto oracional objeto direto oracional
sem complementizador sem complementizador
em geral, verbo ou perífrase verbal no passado em geral, verbo ou perífrase verbal no passado

Uma evidência contextual de polissemia (no caso abaixo, de falar, em PB) é o fato de que, em grande parte dos casos, o ouvinte não costuma averiguar se o suposto discurso relatado foi mesmo proferido. Isso embora haja casos plausíveis de averiguação, menos comuns, como o que se vê a seguir:

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(9) Sabe quando você está conversando com alguém e por alguns segundos você se desliga da conversa e quando volta a prestar atenção a pessoa está dizendo um monte de absurdos, como se tivesse falado tudo aquilo pra alguém, aí você arregala os olhos e pergunta: nossa, você falou isso pra ele? Então a pessoa calmamente responde: “não…. só pensei”. (Blog “Só pensei”24)

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Talvez, na maioria das vezes, o ouvinte não busque se certificar sempre da Fictividade ou Factividade da construção, porque “pensar” e “falar” são concebidos como cognitivamente imbricados ou porque essa certificação interacional, às vezes, não é pragmaticamente necessária. Por outro lado, quando o ouvinte se certifica, ele pode talvez estar admirado com o fato de o falante ter proferido o enunciado em prévias circunstâncias, constrangedoras.

A meu ver, isso é praticamente um convite para se refletir também sobre dimensões onomasiológicas do fenômeno, na medida em que a hesitação do ouvinte suscitaria a evocação de frames distintos, porém discursiva e construcionalmente sinônimos, certamente não perfeitos. Conforme Silva (2006: 13), na dimensão onomasiológica, em que “se parte do conceito, significado ou referente para as diferentes formas e, logo, diferentes palavras ou itens lexicais que podem designar ou nomear, funcionam outros tipos de estruturação, como o campo lexical, a hierarquia lexical, relações de sinonímia, antonímia, hiponímia. A polissemia é assim o fenômeno semasiológico primordial, sendo a sinonímia o inverso onomasiológico mais directo e o campo lexical, a taxionomia e o enquadramento (“frame”, FILLMORE 1977, 1985) as estruturas onomasiológicas mais relevantes.

Considerando-se, por outro lado, AFic e AFac instâncias também sinônimas, uma vez que apresentam formas discursivo-construcionais distintas porém conceptualmente próximas, para além de sua configuração como estruturas argumentais, resta evidenciar as pistas de linguagem que as diferenciam formalmente, bem como aquelas que as aproximam em termos de conceptualização. Essas pistas são fluidas, dado seu caráter semântico, pragmático ou discursivo; entretanto, são perfeitamente localizáveis.

Então, sem se dispensarem aspectos polissêmicos, logo se conclui que é necessário investigar concomitantemente o fenômeno sob os prismas semasiológico e onomasiológico. Isso porque ele requer o reconhecimento das similaridades e dissimilaridades polissêmicas, mas também similaridades e dissimilaridades sinonímicas, já que “pensar” e “dizer/falar” podem ser também sinônimos pelo menos em termos co- textuais. Confira os exemplos:

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(10) eu achava que fosse três votos do no Serginho a casa fosse votar em mim a o Fer Fernando o Kadu e a Lia fosse votar em mim três votos Serginho três votos em mim o Dourado e a Maroca na Morango eu pensei aí eu falei bom vai ser três contra três e dois votos aí eu falei o líder deve decidir quem vai pro paredão entre entre eu eu e o Serginho aí eu falei agora se for consenso eu pensei se for consenso vai a Morango eu pensei porque a casa lá em baixo protege mais o Serginho e entre o Eli e o Alf entre eu e a Morango vai me proteger então vai a Morango que tá mais entre as duas casas mais neutra assim.25

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Ao produzir uma sequência de duas AFics em (10), destacadas aqui pelo sublinhado, a agente locutória toma o “falei” e o “pensei” como sinônimos co-textuais, dada a possibilidade de se intercambiar conceitualmente um pelo outro por conta da função dicendi/sentiendi expressa por ambos, sob formas diferentes. Do ponto de vista polissêmico, “falei” co-textualmente perfila “pensar”, sendo que, em outros contextos, pode perfilar “escrever” ou “proferir”; e “pensei” perfila evidentemente o ato de pensar, mas perspectivizado como um debate internalizado, em que vozes conceptuais de outros se entrecruzam na mente da conceptualizadora, contribuindo para a produção de enunciados de caráter apreciativo e valorativo.

Contudo, para o falante isso não representa problema. Seu problema estaria, talvez, vinculado à intencionalidade de interpretar o discurso direto como fictivo ou factivo. Isso remete ao que talmy (1996, 2000) discute sobre os níveis de palpabilidade de objetos ou situações conceptualizados. Em se tratando de AFac e AFic, podemos afirmar que, neste trabalho, ambas funcionam como âncoras entre a interação do parâmetro de palpabilidade sinalizado pelo objeto ou pela situação e a perspectivação do conceptualizador sobre o cenário descrito. Os dois casos podem ser visualmente ilustrados a partir das perspectivas gestálticas que se adotam na observação da grade de Hermann, fisiologista alemão e cientista do discurso.

Figure 5.

FIGURA 5- Grade de Hermann

Em termos de Fictividade geral, a grade de Hermann é apresentada por talmy (1996, 2000) para tratar do nível semiconcreto de palpabilidade das representações da cognição visual, experienciado como menos tangível e explícito do que o nível concreto — este concebido como tendo existência real e palpável. Difere também do nível semiabstrato, no qual entidades e situações são sentidas ou pressentidas, não vistas; e ainda mais do nível abstrato, em que se experienciam entidades e situações conceptuais e afetivas de modo impalpável.

A representação fictiva da grade de Hermann é concebida como estando presente nas interseções cinzentas em formato de círculo que surgem apenas quando focalizamos os quadrados negros de forma global — ou seja, sem eliminar o foco global factivo, enxerga- se o fictivo. Se concentramos atenção localmente nas intersecções, o círculo cinzento desaparece, tornando a representação mais factiva. Em termos de Factividade ou Fictividade da autocitação, se focamos atenção no co-texto global circunvizinho à AFac e AFic, a representação pode ser factiva ou fictiva, porém se fixarmos o olhar em seu ponto de intersecção, ou seja, naquele em que as duas construções são limitadas a nível de estrutura argumental, a representação se torna mais factiva. Veja o fragmento sublinhado de (11):

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(11) Até eu falei com uma felicidade porque eu mesma reconhecia que M.B. era uma criança débil, não mental, mas fisicamente, está entendendo, que não tinha muita condição de sobrevivência. Então eu vivia iludida, eu estava feliz. Me lembro que um dia eu disse assim: meu Deus, eu sou tão feliz, que que eu fiz pra ser tão feliz! Então eu vivia dando graças a Deus, como é que ele vinha com essa história de, de abandonar Deus? Aí eu vim arrasada da igreja, entende? ( PB - Corpus NURC)

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Se focalizamos apenas “eu disse assim: meu Deus, eu sou tão feliz, que que eu fiz pra ser tão feliz!”, a perspectivação conceptual estabelecida se torna mais factiva, tendendo à concepção do trecho como discurso realmente reportado. Por outro lado, se contemplamos o entorno discursivo do fragmento, o referido exemplo de discurso reportado passa a se configurar como fictivo em função de um pré-enquandre epistêmico que envolve estados mentais, promovido por expressões como “reconhecia”, “eu vivia iludida” e “eu estava feliz”.

Isso significa dizer que o construal como perspectivação conceptual, além de oferecer alternativas distintas, está à mercê das escolhas feitas pelos conceptualizadores (falante e ouvinte), que podem ser sutilmente divergentes por questões de subjetividade. O curioso é que essa divergência pode não ser tão relevante a ponto de exigir interacionalmente uma negociação de sentidos fictivos ou factivos. Ou seja: pelo menos nos casos de AFac e AFic, até certo ponto formalmente muito similares, interacionalmente não importa se há sinonímia ou polissemia. O importante é que reconstruir autocitações ora sugere mais apreciação, ora mais reportação direta, ora mais Fictividade ora mais Factividade.

Considerações finais

Apesar de importantes estudos sobre Fictividade, como os de Langacker e Talmy, terem cautela com o estabelecimento de limites categóricos e arbitrários para o fenômeno em geral, os dados qualitativamente analisados neste artigo dão mostras de que, pelo menos em termos de AFic, a dimensão epistêmica dessa construção gramático- discursiva comporta tendências específicas:

(1) a “reportação” preferencialmente monológica, afeita a contextos digressivos e subjetificadores da enunciação, em que proliferam conteúdos expressivos de emoção, fictivamente perspectivizados;

(2) o material co-textual epistêmico, o qual favorece o encaixe da AFic, na medida em que, lançando mão de expressões subjetificantes, como os verbos “achar”, “pensar”, “desesperar”, etc., torna o ambiente discursivo propício ao entendimento da autocitação como fictiva;

(3) o uso de verbos “disse” (em PE e PB) e “falei” (PB) com o sentido de “pensei” ou “considerei”, licenciado pela metáfora PENSAMENTO É FALA ou pela metonímia DIZER/FALAR POR PENSAR (cf. ROCHA, 2004, 2006), que desemboca numa integração epistêmica com a construção de autocitação; isso faz com que a função prototípica dicendi (de dizer) desses verbos passe a assumir também um valor sentiendi (de sentir), bem como provoca uma incongruência entre forma e sentido, dado o desemparelhamento entre a forma canônica de autocitação direta e o significado de avaliação da AFic;

(4) a evocação do frame de avaliação, em que o conceptualizador emite um juízo de valor, via Autocitação Fictiva, acerca de determinada entidade ou situação;

(5) o escaneamento mental, em que o conceptualizar percorre mentalmente um conjunto de alternativas concebidas e arranjadas em determinada ordem, ou seja, no caso de AFic, ele contempla, escaneando, uma situação prévia, imobilizada no passado, a partir do crivo valorativo da Autocitação Fictiva.

Tais aspectos da dimensão epistêmica da AFic endossam as noções de Fictividade geral, porém mapeiam pistas que contribuem para se categorizar algo como fictivo. O item (1) é de grande representatividade para se angariar o atributo da subjetividade para o fenômeno; o (2) ilustra a necessidade do valor epistêmico ancorado à dimensão discursiva, pois mesmo as expressões consagradas como fictivas (e.g. “Essa cerca vai do platô até o vale”) podem ser tomadas como factivas, haja vista o próprio reconhecimento de Talmy (1996, 2000) de que uma parte de nossa cognição pode muito bem perceber a imagem de algo em movimento, percorrendo o caminho que vai do platô ao vale, sem tomarmos isso como algo irreal; o (3) emblematiza a necessidade de postular processos metafóricos e metonímicos subjacentes ao fenômeno, os quais certamente endossam a natureza incongruente da leitura fictiva em relação ao que ela referencia em termos de veridicalidade conceptualmente reificada, mas não de condições de verdade completamente externas; o (4) complementa o caráter subjetivista do fenômeno, a partir de escolhas próprias e adequadas à circunscrição de cada rotina de interação. O (5) diz respeito a uma particularidade de AFic, que é o escaneamento mental, em vez do movimento conceptual (AFac), embora ambos possam estar na base de mecanismos de Fictividade.

O cruzamento da experiência gestáltica da grade de Hermann com o mapeamento de dados linguísticos em discurso direto fornece algumas convicções acerca da plausibilidade do fênomeno da Autocitação Fictiva. As pistas que mapeiam suas tendências sugerem que sua percepção só pode se dar em nível global ou co-textual, que considera o entorno da construção em si. Por conta disso, trata-se de uma construção gramático- discursiva. “Essa cerca vai do platô até o vale” só pode ser fictivamente percebida e concebida se percorremos a paisagem de fundo; caso a ignoremos, ao focarmos apenas a “cerca”, o movimento fictivo não resiste. A Fictividade só pode ser detectada na autocitação quando convertemos o background em foreground, dando-lhes status analítico equivalente.

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