Resumo

Este artigo apresenta uma análise sociolinguística (Labov, 1994, 2001, 2010) da posição variável do constituinte interrogativo – “Onde (que/é que) você mora?” vs. “Você mora onde?” –, em um corpus contemporâneo do português paulistano. O envelope de variação é definido com base no conceito de “competência comunicativa” (Hymes, 1991 [1979]), através de análises de gramaticalidade, viabilidade, adequação pragmática e produtividade das formas alternantes na língua em uso. Os resultados de análises quantitativas mostram que a posição do constituinte é condicionada por fatores de natureza prosódica, sintática e discursivo-pragmática. Além de contribuir para o debate sobre os critérios para o estudo de variáveis (morfo)sintáticas (Labov, 1978; Lavandera, 1978), este trabalho ressalta o caráter multivariado da variação linguística, que não se restringe a um único nível de análise.

Introdução1

Interrogativas-Q têm sido extensivamente estudadas nos últimos vinte e cinco anos, no português brasileiro (PB) e em outras línguas, sobretudo a partir de propostas formalistas, com especial atenção à sua estruturação sintática (Cf. p.ex. KATO 1987, MIOTO 1989, LOPES- ROSSI 1993, 1996, Mioto; FIGUEIREDO SILVA 1995, MIOTO 1997, CHENG; ROORYCK 2000, AMBAR et alii 2001, KATO; MIOTO 2005, PIRES; TAYLOR 2007). No PB atual, existem pelo menos quatro possibilidades de estruturação dessas interrogativas: as interrogativas-qu (1a), as interrogativas qu-que (1b), as interrogativas é-que (1c) e as interrogativas qu-in-situ (1d).2 Todas elas podem ser definidas pela presença de um pronome, advérbio ou adjetivo interrogativo: (o) que, que + NP, qual(- is), qual(-is) + NP, quanto(-a, -os, -as), quanto(-a, -os, -as) + NP, quem, como, quando, onde e por que.

Figure 1.

Este trabalho se volta para o emprego de interrogativas qu-in-situ (1d), em contraste com as três estruturas com constituinte interrogativo pré-verbal (1a-1c).3,? Essas estruturas são analisadas da perspectiva da variação e dos usos linguísticos, com base nos pressupostos teórico- metodológicos da Sociolinguística Variacionista (LABOV, 1994, 2001, 2010), a partir de um corpus contemporâneo do português paulistano.

Ainda que muitos estudos prévios tenham se debruçado sobre corpora de língua oral e escrita do PB, a maior parte, até o momento, dedica-se à descrição e à análise das propriedades formais dessas estruturas em comparação com aquelas do português europeu (PE). No entanto, tais generalizações muitas vezes não atentam a particularidades da língua em uso em diferentes comunidades de fala, cada qual com suas variações internas. Tais variações são aqui entendidas como um fenômeno intrínseco à gramática (WEINREICH et alii 1968), de modo que a alternância entre diferentes formas, verificável em todas as línguas e em diversos níveis de análise, faz parte da competência comunicativa (HYMES, 1991 [1979]) dos falantes.

Através de uma análise sistemática dos usos das formas interrogativas, este artigo argumenta que as interrogativas-qu, qu-que, é-que e qu-in-situ podem ser consideradas, em determinados contextos, variantes de uma variável sociolinguística, e que a posição variável do constituinte interrogativo é influenciada por fatores de natureza prosódica, sintática e discursivo-pragmática. O termo “contexto” é aqui empregado de modo a remeter não apenas a restrições gramaticais, mas também a possibilidades de emprego dessas formas de acordo com análises de viabilidade, de adequação pragmática e de produtividade na língua em uso.

Apresenta-se, inicialmente, uma breve revisão bibliográfica de certas questões que se levantam sobre a análise de uma variável sintática e sobre as formas interrogativas que concernem a esta análise (seção 1). Em seguida, descrevem-se o corpus e os critérios empregados para a definição do envelope de variação (seção 2). O artigo segue com a apresentação das hipóteses levantadas (operacionalizadas na forma de grupos de fatores) acerca dos usos variáveis de interrogativas de constituinte, e com a discussão dos resultados de análises quantitativas de covariação, realizadas com o programa GoldVarb X (seção 3). Por fim, conclui- se com uma síntese das principais contribuições deste trabalho para o estudo da variação sintática e da língua em uso.

1. Interrogativas qu-in-situ e opcionalidade

A literatura gerativista aponta para o fato de que interrogativas qu-in- situ são pouco produtivas no PE (LOPES-ROSSI, 1993, 1996, AMBAR et alii 2001, MIOTO; KATO 2005), o que normalmente é explicado por uma restrição pragmática ao emprego dessa forma na variedade europeia: no PE, ela só poderia ocorrer em contexto de pergunta-eco, com entonação ascendente, quando se busca a repetição de algo já mencionado (2). No PB, diferentemente, as interrogativas qu-in-situ também são empregadas com entonação descendente e podem ser interpretadas como interrogativas comuns (3):

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(2) O João viu QUEM? (entonação ascendente) PE/PB

(3) O João viu quem? (entonação descendente) *PE/PB

(Exemplos extraídos de KATO, 2004:1)

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Vale notar que certas análises dentro do arcabouço da Teoria Gerativa (p.ex. CHENG; ROORYCK 2000, KATO 2004) argumentam que, em perguntas regulares como em (3) (i.e., não-eco), o constituinte interrogativo encontra-se apenas aparentemente in situ, tendo-se movido para uma projeção em CP, assim como os demais constituintes. De fato, dentro desse paradigma, o ponto de partida é a expectativa de que uma determinada gramática não exiba opcionalidade (ROUSSOU; VLACHOS 2011). No paradigma variacionista, no entanto, o fato de o constituinte interrogativo “quem” em (3) estar ou não in situ se coloca como uma falsa questão: interessa aqui que uma sentença como “O João viu quem?” é uma forma diferente de “Quem (que/é que) o João viu?”, de modo que as estruturas se apresentam como candidatas a “formas alternativas de dizer a mesma coisa” (LABOV, 1978).4,? Assim, cabe perguntar se tais formas têm equivalência semântica e em quais contextos isso se observa, de modo que possam ser empregadas alternativamente. Nos estudos sociolinguísticos, a análise de variáveis (morfo)sintáticas também desperta a questão sobre a factual opcionalidade de emprego entre as estruturas, embora de modo distinto. Lavandera (1978) propõe que não é possível manter o requisito de equivalência semântica para unidades além do nível fonológico, uma vez que morfemas, itens lexicais ou construções sintáticas possuem, por definição, um significado, ao contrário de fonemas que, igualmente por definição, não possuem uma “constância de referência”. Assim, é muito menos problemático argumentar que “m[e]nino” e “m[i]nino” têm o mesmo significado do que um par de construções sintáticas como voz ativa/voz passiva (WEINER; LABOV, 1983 [1977], LAVANDERA, 1978). De uma maneira geral, tal questão deixa o estudo da variação morfossintática em situação menos privilegiada do que o da variação fonológica na formulação de amplas generalizações (ver p.ex. LABOV 1994, 2001; LABOV et alii 2006).

A respeito das construções interrogativas, Pires e Taylor (2007) argumentam que as interrogativas qu-in-situ sofrem certas restrições semânticas e pragmáticas não só no PE, mas também no PB – hipótese que colocaria em xeque a sua intercambialidade com as interrogativas-qu, qu-que e é-que. De acordo com os autores, elas só poderiam ocorrer em contextos em que a pressuposição da interrogativa já faz parte do fundo comum (STALNAKER, 1978) entre os interlocutores; perguntas “de sopetão”, que carecem de informações compartilhadas, seriam consideradas pragmaticamente infelizes (#) se empregadas com o constituinte interrogativo in situ (4a), mas não se construídas com um constituinte interrogativo movido (4b):

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(4) Você está conversando com um estudante que disse ter interesse em viajar (mas não disse se já viajou para qualquer lugar). Você pergunta:

a. #Você (já) visitou que/quais países europeus?

b. Que/quais países europeus você (já) visitou?

(Exemplos extraídos de PIRES; TAYLOR, 2007:6-7)

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Oushiro (2010) apresenta uma leitura distinta do conceito de fundo comum (STALNAKER, 1978, 2002; CLARK, 1996) quando aplicado à análise de pressuposições em interrogativas: a pressuposição não é propriedade da sentença, mas do ato comunicativo, que necessariamente leva em conta não apenas o contexto discursivo imediato mas também todo o conjunto de informações compartilhadas cultural ou “universalmente” entre os interlocutores.5,? É possível, desse modo, entrever diferentes graus de fundo comum a depender da fonte da pressuposição: (i) discursiva (5a), geralmente compartilhada através de expressão verbal; (ii) cultural (5b), em que se espera que a pressuposição seja verdadeira por normas sociais (embora possa não sê-lo); e (iii) “universal” (5c), cuja expectativa é que sempre seja verdadeira:

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(5) a.

A: (...) meu filho fazia remo... e tava todos os domingos na Cidade Universitária e cedo (...) quatro e meia da manhã e a gente ia pro... pra Cidade Universitária e aí ele fazia o remo né?

B: nossa por que ele começou a fazer remo?

A: porque ele gostava né?

b. e ela trabalha com o quê... a sua irmã?

c. e cê tá morando onde agora?

(Exemplos extraídos de OUSHIRO, 2010:635)

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Em (5a), B pergunta “por que ele começou a fazer remo” somente depois que A introduz a pressuposição no discurso, caso contrário a sua pergunta poderia ser considerada pragmaticamente anômala. Em (5b), diferentemente, a pergunta pode ser feita sem que haja a menção prévia de que a irmã do interlocutor trabalhe, uma vez que a expectativa cultural de que pessoas de certa idade estejam no mercado de trabalho justifica a pressuposição. Nesse caso, pode haver diferentes pressuposições culturais em diferentes comunidades. Por fim, perguntas como em (5c) têm uma probabilidade bastante baixa de que a pressuposição seja negada (“Eu não moro em lugar nenhum!”), já que tais asserções gerariam implicaturas ao violar a máxima de qualidade (GRICE, 1975).

Para verificar a equivalência semântica entre as formas interrogativas, o presente estudo se baseia no conceito de pressuposição do falante, de Stalnaker (2002), intimamente relacionado com o seu conceito de fundo comum. Segundo o autor,

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Pressupor algo é assumi-lo como dado, ou ao menos agir como se fosse dado, como informações de base – como fundo comum entre os participantes da conversação. (Stalnaker 2002:701. Grifo do autor. Tradução própria.6,?)

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Considera-se, então, que a pressuposição de uma interrogativa como em (5a) é “ele começou a fazer remo”, e que a pressuposição seria a mesma caso a pergunta houvesse sido realizada como uma interrogativa qu-que (“por que que ele começou a fazer remo?”), como uma interrogativa é-que (“por que é que ele começou a fazer remo?”) ou como uma interrogativa qu-in-situ (“ele começou a fazer remo por quê?”). Essa equivalência semântica permite considerar tais estruturas como “formas alternativas de dizer a mesma coisa” (LABOV, 1978).

2. Corpus e Metodologia

O material analisado neste trabalho consiste em uma amostra do português paulistano contemporâneo, composta de 53 entrevistas sociolinguísticas, coletadas entre 2003 e 2008 pelos alunos do curso de Sociolinguística da USP. Os informantes foram estratificados de acordo com três variáveis sociais: (i) sexo/gênero (masculino, feminino); (ii) faixa etária (de 20 a 30 anos, de 35 a 45 anos, mais de 50 anos); e (iii) nível de escolaridade (até Ensino Fundamental II, curso superior). A combinação desses fatores resulta em 12 perfis sociolinguísticos, para cada um dos quais a amostra conta com 4–5 informantes.

Além da fala dos informantes, decidiu-se analisar também a dos documentadores. Em virtude do próprio papel que desempenham na entrevista, muitas ocorrências de interrogativas de constituinte se encontram em sua fala. Tirando vantagem do fato de que o corpus foi coletado por dezenas de alunos, a eles foi enviado um questionário, que teve o duplo objetivo de obter a autorização para o uso/análise dos dados de sua fala, assim como maiores informações a respeito de seu perfil sociolinguístico (idade, cidade de nascimento, bairros/locais em que já morou, ocupação, escolaridade e profissão dos pais e irmãos) e da situação da entrevista gravada (grau de relação com o informante, local da gravação). Dos alunos contactados, 19 são paulistanos. Os dados desses últimos foram incluídos na análise quantitativa. É interessante notar que, embora se trate de uma fala possivelmente mais planejada e monitorada em relação àquela dos informantes, os documentadores empregam as quatro estruturas de interrogativas de constituinte, o que evidencia o seu caráter variável na língua.7,?

Os contextos em que as quatro estruturas interrogativas de constituinte factualmente se alternam foi definido através do exame do funcionamento das formas na língua em uso. Um contexto é considerado variável a partir do conceito de competência comunicativa (HYMES, 1991 [1979]), segundo o qual os falantes de uma língua possuem conhecimento não apenas de suas regras gramaticais, mas também dos modos apropriados de aplicá-las, de forma semelhante ao conhecimento de outras regras culturais que são empregadas em outros aspectos da vida social. Em situações conversacionais, os falantes sabem, de acordo com a competência adquirida no convívio social, quando e o que falar, e para quem, onde, de que modo. Curiosamente, Hymes (1991 [1979]) fornece exemplos a respeito de comportamentos apropriados, em diferentes grupos, do emprego de perguntas:

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(...) entre os araucanos do Chile, repetir uma pergunta é insultar; entre os tseltalanos de Chiapas, México, não se deve fazer uma pergunta direta (e esta não deve ser respondida); entre os caxinauás do Brasil, uma resposta direta para uma primeira pergunta implica que aquele que responde não tem tempo para conversar, enquanto uma resposta vaga implica que a pergunta será respondida diretamente da segunda vez, e que a conversa pode continuar. (HYMES, 1991 [1979]:16. Tradução própria.8,?)

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Desse modo, o conhecimento do falante compreende não apenas julgamentos de gramaticalidade e aceitabilidade de sentenças, mas quatro tipos de distinções:

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(i) se (e até que ponto) algo é formalmente possível;

(ii) se (e até que ponto) algo é factível em virtude dos meios disponíveis de implementação;

(iii) se (e até que ponto) algo é apropriado (adequado, feliz, bem sucedido) em relação ao contexto em que é usado e avaliado;

(iv) se (e até que ponto) algo é, de fato, feito, empregado, e o que a sua realização acarreta. (HYMES, 1991 [1979]:19. Grifos do autor. Tradução própria.9,?)

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Uma sentença pode ser gramatical, mas estranha, cuidadosa e pouco frequente. Neste estudo, uma forma é considerada opcional se de fato for (a) possível; (b) factível; (c) apropriada; e (d) empregada, em um mesmo conjunto de contextos. Esses critérios remetem, respectivamente, a análises de gramaticalidade, viabilidade, adequação pragmática e produtividade.

Gramaticalmente, interrogativas qu-que e é-que não ocorrem em sentenças com verbo não-finito (6) ou sem verbo (7):10,?

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(6)

a. Eduardo: se ele cumpriu com o que ele prometeu... por que não ter a reeleição? (M2S-INF)

b. não ter a reeleição por quê?

c. *por que que não ter a reeleição?

d. *por que é que não ter a reeleição?

(7)

a. Clara: taxa do lixo por quê? cê já tá pagando... (F3G-INF)

b. por que taxa do lixo?

c. *por que que taxa do lixo?

d. *por que é que taxa do lixo?

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Em orações encaixadas sem complementizador (demarcadas por [ ] nos exemplos abaixo), o constituinte interrogativo não pode ocorrer in situ (8b), diferentemente das outras três formas (8a). A alternância é possível quando a oração encaixada é introduzida por um complementizador que ou se (9a-b):

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(8)

a. Renata: você já sabe [em quem (que/é que) vai votar nas próximas eleições]? (F2S-DOC)

b. *você já sabe [vai votar em quem nas próximas eleições]?

(9)

a. Suzana: e por que (que/é que) a senhora acha [que o público é tão diferente]?

b. e a senhora acha [que o público é tão diferente por quê]?

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Quando o constituinte interrogativo exerce a função sintática de sujeito (10a-b), há uma ambiguidade estrutural entre interrogativas-qu e qu-in-situ; trata-se de um contexto de neutralização em que não é possível determinar qual forma interrogativa foi produzida pelo falante.11,?

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(10)

a. Claudia: o que mais marcou na minha infância?... (F1G- INF)

b. Jefferson: e quem paga essa conta? (M2G-INF)

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Quanto à viabilidade, verifica-se que certas formas linguísticas, ainda que sejam gramaticais, não são factualmente possíveis. A aplicação sem fim de uma regra recursiva como o encaixamento de orações relativas (“O menino que viu a vizinha que comprou um carro que foi roubado pelo homem que...”) é um bom exemplo: ainda que se saiba que tal sentença pode continuar indefinidamente, nenhum falante o faz. Para as Interrogativas-Q, a extensão dos enunciados parece ser mais restrita para as interrogativas qu-in-situ. Observe-se a ocorrência (11a), formulada como uma interrogativa-qu:

(11)

a. Cecília: por que você vai ser contra a transformação de uma língua que é algo tão... tão... enraizado no indivíduo né?... (F2S-INF)

b. Você vai ser contra a transformação de uma língua que é algo tão enraizado no indivíduo por quê?

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A forma equivalente (11b) é perfeitamente gramatical, mas pode-se prever que, quanto mais longa a sentença, mais inviável ela se torna com a estrutura de uma interrogativa qu-in-situ. A definição de um “limite” no número de palavras ou constituintes da sentença não deixa de ser arbitrária pois, como se apontou, não se trata de uma questão de agramaticalidade. Neste estudo, toma-se como critério de extensão a sentença mais longa encontrada no corpus com a estrutura de uma interrogativa qu-in-situ, que conta com 20 palavras.

Quanto à adequação pragmática, já se mencionou o questionamento de Pires e Taylor (2007) a respeito do emprego de interrogativas qu-in-situ em perguntas “de sopetão”, em perguntas cuja pressuposição não fazia parte do fundo comum entre os interlocutores (ver seção 1). Desse modo, procedeu-se a uma análise dos dados deste corpus quanto à presença ou não de pressuposição prévia entre os interlocutores, a fim de verificar se interrogativas qu-in-situ poderiam ocorrer nesse contexto. No entanto, não houve nenhuma ocorrência de pergunta “de sopetão” nas 53 entrevistas sociolinguísticas, qualquer que fosse a sua estrutura sintática. Por um lado, é possível que esse fato decorra da natureza do corpus, ou seja, que a própria situação de entrevista sociolinguística nos moldes labovianos não seja propícia à ocorrência desse tipo de perguntas; por outro lado, é difícil imaginar contextos em que, de fato, não haja qualquer grau de fundo comum: como vivemos em sociedade, há muitas crenças mútuas que os falantes podem projetar sobre seus interlocutores pelo simples fato de pertencerem a uma determinada comunidade, serem de determinado sexo/gênero, idade, classe social. Da perspectiva da língua em uso por uma comunidade real, é mais adequado considerar que sempre há algum grau de compartilhamento de crenças e informações entre seus membros (CLARK, 1996, OUSHIRO, 2010). Desse modo, a observação feita por Pires e Taylor (2007) não é tratada aqui como uma restrição categórica e, portanto, não tem consequências restritivas para o envelope de variação. A questão do fundo comum é tratada na forma de hipóteses de correlação, operacionalizadas em grupos de fatores, que serão apresentados na próxima seção.

Por fim, a análise qualitativa também verificou se certas formas, ainda que gramaticais, factíveis e pragmaticamente adequadas, de fato ocorrem no corpus analisado ou, ao contrário, se ocorrem com muita frequência. Na literatura sociolinguística, um tipo similar de análise tem sido chamado de questão type-token (TAGLIAMONTE, 2006:95): a inclusão de todas as ocorrências de um tipo lexical frequente pode enviesar os resultados da análise quantitativa. Por exemplo, em estudos sobre o apagamento de /-t, -d/ no inglês (Cf. p.ex. WOLFRAM, 1993), costuma-se excluir ou limitar o número de ocorrências de itens lexicais como and ‘e’, n’t (morfema de negação) e just ‘somente’, em que /-t, -d/ muito frequentemente não são realizados.

No caso de interrogativas de constituinte, há certas expressões bastante cristalizadas que, ainda que possam apresentar variação, dificilmente ocorrem com outra forma interrogativa no corpus. É o caso de ocorrências como em (12), que foram, portanto, excluídas do envelope de variação:

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(12)

a. Valquíria: mas não é? onde já se viu... cê pagar cinco reais num pacotinho de feijão! o arroz nove dez...(F3G-INF)

b. Karina: ah e o que que tem? ah não tem nada demais (F1S- DOC)

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Desse modo, a partir dos critérios de gramaticalidade, viabilidade, adequação pragmática e produção, define-se o envelope de variação da variável Posição do Constituinte Interrogativo do seguinte modo:

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(13) Sentenças completas com até 20 palavras que contêm um constituinte interrogativo em uma oração finita independente ou em uma oração encaixada com complementizador, excetuando-se expressões cristalizadas ou semilexicalizadas e os casos de interrogativas-qu/qu-in-situ em que o constituinte interrogativo exerce a função sintática de sujeito.

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Interessa ainda mencionar que, dada a definição dos contextos variáveis acima, todas as ocorrências de interrogativas de constituinte que nele se enquadram são também perguntas, muito embora os termos “interrogativas” e “perguntas” não sejam sinônimos.12,?

A tabela 1 informa o número de ocorrências e a distribuição das quatro estruturas de Interrogativas-Q no corpus de 53 entrevistas sociolinguísticas, de acordo com a definição do envelope de variação.

Table 1.

TABELA 1 - Distribuição de Interrogativas-Q no corpus

Interrogativas-Q N %
Interrogativas-qu 289 28,9
Interrogativas qu-que 408 40,8
Interrogativas é-que 75 7,5
Interrogativas qu-in-situ 227 22,7
Total 999 100,0

A partir dessa distribuição, definida em frequências, percebe-se que as interrogativas qu-in-situ são bastante produtivas na língua oral quando se consideram os contextos em que a estrutura é factualmente opcional, uma vez que seu emprego corresponde a quase um quarto (22,7%) do total de 999 dados. Tal frequência é evidência adicional de que a estrutura está em alternância com aquelas com constituinte interrogativo pré-verbal no português paulistano contemporâneo; uma estrutura marcada ou com fortes restrições discursivo-pragmáticas dificilmente seria tão produtiva na língua em uso. Desse modo, considerando-se que essas formas são variantes de uma variável nos contextos definidos, a atenção se volta a seguir para as análises quantitativas de covariação, com o intuito de entrever quais fatores sociais e linguísticos influenciam o emprego de interrogativas qu-in-situ.13,?

3. Análise

3.1. Grupos de fatores

As hipóteses sobre correlações entre a variável dependente e outras variáveis foram operacionalizadas em seis grupos de fatores sociais e oito grupos de fatores linguísticos, apresentados resumidamente no Quadro 1 e descritos adiante.

Figure 2.

As hipóteses de natureza extralinguística incluem, além das variáveis usadas para a composição da amostra (Sexo/Gênero, Faixa Etária e Escolaridade), outros três grupos de fatores que podem ter uma influência no emprego variável de Interrogativas-Q: Quem Fala, Grau de Relação entre Documentador e Informante, e Espontaneidade da Pergunta.

Quem fala: Como esta pesquisa também analisa os dados de documentadores, é importante que a variável “Quem Fala” (documentador ou informante) seja controlada, com vistas a verificar se há diferenças significativas no emprego de formas interrogativas a depender do papel desempenhado pelo falante na situação de entrevista sociolinguística.

Grau de Relação entre Documentador e Informante: Essa informação foi coletada juntamente ao formulário enviado aos documentadores. Quanto mais próximo o grau de relação entre os interlocutores, é de se esperar que o conjunto de informações compartilhadas ou o fundo comum (STALNAKER 2002, CLARK 1996) entre eles também seja maior. Haveria maior tendência de emprego de interrogativas qu-in-situ quanto mais próximo o grau de relação entre os falantes?

Espontaneidade da Pergunta: Este grupo de fatores aplica- se ao subconjunto de perguntas de constituinte produzidas pelos documentadores.14,? Considerando-se que a fala do documentador é ensaiada ou menos espontânea pelo fato de haver um roteiro de entrevista, esse grupo de fatores investiga se as perguntas do roteiro, todas formuladas como interrogativas-qu, têm uma tendência menor a apresentar variação ou, em outras palavras, se as interrogativas qu-in-situ seriam menos empregadas nesse contexto. Os fatores se organizam em um contínuo de espontaneidade, de acordo com as instruções recebidas pelos alunos-documentadores: as perguntas do roteiro (14a) deveriam ser feitas obrigatoriamente ao fim da entrevista, em uma ordem pré- determinada; as temáticas (14b) incluíam um conjunto de perguntas dentre as quais os alunos deveriam selecionar algumas; aquelas de dados pessoais (14c) eram opcionais durante a gravação; por fim, há perguntas que surgiram da própria interação (14d) e que, assume-se, não foram formuladas previamente.15

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(14) Espontaneidade da pergunta

a. roteiro

  • (i) Ligia: tá... e quando você tá conversando com alguém... qual que você fala mais... “nós” ou “a gente”? (F1S-DOC)
  • (ii) Carlos: entendi... é... quando você está falando sobre você junto com mais alguém... você usa mais que palavra “nós”... ou “a gente”? (M3S-DOC)
  • b. temática (educação, transporte, saúde)

  • (i) Mariana: e o que que você acha que seria uma solução... pro transporte? (F1S-DOC)
  • (ii) Rafael: aqui perto tem quantas escolas aqui... na região... assim? (M1S-DOC)
  • c. de dados pessoais

  • (i) Renata: que escola você estudou? (F1S-DOC)
  • (ii) Rafael: e:: o senhor estudou em que escolas? (M1S- DOC)
  • d. espontânea

  • (i) Fernanda: e como que é esse curso? explica um pouquinho (F1S-DOC)
  • (ii) Regina: você aluga mais ou menos quantos filmes assim por... por mês? (F1S-DOC)
  • .

    Os grupos de fatores linguísticos encerram hipóteses de natureza prosódica (Número de palavras na oração), morfológica (Constituinte Interrogativo), sintática (Tipo de Verbo, Função Sintática, Presença de Elementos antes da Oração Independente), e discursivo-pragmática (Sinceridade Pragmática da Pergunta, Conjunto de Respostas Previstas, Grau de Ativação do Fundo Comum).

    Número de palavras na oração: As ocorrências foram codificadas de acordo com o número de palavras na sentença, desde duas até vinte.16 A questão que se coloca é se as interrogativas qu-in-situ teriam uma tendência a ser mais curtas a fim de facilitar a entonação de pergunta. Alternativamente, pode-se levantar a hipótese de que a correlação seja a inversa: não seriam as interrogativas qu-in-situ que tenderiam a ser curtas, mas sim as interrogativas com constituinte pré-verbal que favoreceriam o “alongamento” da sentença. Ambas as hipóteses são testadas na análise quantitativa.

    Constituinte Interrogativo: Todas as ocorrências de Interrogativas-Q foram codificadas de acordo com o constituinte interrogativo. Inicialmente, foi feita uma classificação bastante detalhada (p.ex. que foi separado de o que e de que + NP), mas o número de ocorrências por variante acabou determinando a amalgamação posterior de certos fatores.17

    Função Sintática: Esse grupo de fatores objetiva testar a hipótese de que a “distância” do movimento do constituinte ao início da oração, relativa à sua posição canônica na sentença, pode estar correlacionada ao emprego de interrogativas qu-in-situ. Assim como Constituinte Interrogativo, a codificação inicial foi detalhada e, posteriormente, simplificada, amalgamando-se fatores com funções sintáticas e comportamentos semelhantes a fim de viabilizar as análises quantitativas.18

    Tipo de Verbo: Este é considerado um grupo de fatores sintático pois objetiva investigar se as diferentes estruturas de sentença, de acordo com os argumentos e os adjuntos do verbo, têm um peso sobre o uso de diferentes formas interrogativas. Os fatores incluem verbos de ligação, modais, intransitivos, transitivos diretos, transitivos indiretos e bitransitivos. A diátese de cada verbo foi determinada a partir do modo como foi empregado em cada ocorrência; assim, um mesmo verbo como “trabalhar”, por exemplo, foi considerado intransitivo em (15a), transitivo em (15b), e transitivo indireto em (15c).

    .

    (15) Tipo de Verbo

    a. Rafael: e cês trabalhavam em quantas pessoas? (M1S- DOC)

    b. Fabiana: o que que vocês vão- né?... o que que vocês vão- a gente vai trabalhar (F1S-INF)

    c. Jorge: é::... então... seus irmãos também trabalharam com o quê? (M1S-DOC)

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    Presença de Elementos antes da Oração Independente: A hipótese concerne à organização de informações no fluxo conversacional, que pode ter motivações discursivo-pragmáticas: a presença de outros elementos antes da oração independente (tópicos ou orações subordinadas) tem influência na estruturação sintática de Interrogativas-Q? Para codificar os dados de acordo com esse grupo de fatores, verificou-se a entonação de cada sentença para que se diferenciassem elementos topicalizados de outros constituintes oracionais (sobretudo sujeitos).

    .

    (16) Presença de Elementos antes da Oração Independente

    a. nenhum

    (i) Iara: ah mas como você fez o segundo grau se você não sabe essa matéria?... essa matéria é de segundo grau (F1G-INF)

    (ii) Rafael: o senhor tinha que idade em setenta? (M1S- DOC)

    b. tópicos/orações subordinadas

    (i) Paula: e [os outros professores]i por que ti não ofereciam? (F1S-INF)

    (ii) Karina: e [a sua mãe]k é... tk estudou até que:... que série? (F1S-DOC)

    (iii) Jefferson: [se é uma democracia]... por que que o voto é obrigatório? (M2G-INF)

    (iv) João: você:: [se pudesse financeiramente... por numa escola particular]... você optaria por qual? pública ou privada? (M2S-DOC)

    .

    Sinceridade Pragmática da Pergunta: Nem todas as perguntas buscam uma informação de fato. Oushiro e Nasser (2010) propõem uma tipologia de perguntas de acordo com o mecanismo de troca de turnos (SACKS et alii 1974) e a atualização do fundo comum entre os interlocutores (CLARK, 1996; STALNAKER, 2002), que foi utilizada na codificação desse grupo de fatores. Perguntas pragmaticamente “sinceras” correspondem ao protótipo de pergunta (17a); perguntas retóricas funcionam como asserções pela obviedade da resposta (ROHDE, 2006) (17b); perguntas de estruturação do discurso são aquelas para as quais o falante corrente fornece uma resposta (17c).

    (17) Sinceridade pragmática da pergunta

    a. perguntas pragmaticamente “sinceras”

    (i) Carla: há quanto tempo ele tá lá? (F1S-DOC)

    (ii) Fabiana: sua fita tem quantos minutos? (F1S-INF)

    a. perguntas retóricas

    (i) José: então a gente tá gastando... com duas eleições... quanto é que você gasta aí nesses dois turnos? quanto que vai em dinheiro? (M3S-INF)

    (ii) Clara: eu tenho que ter um carro... dá alguma coisa nela de noite eu vou aonde? (F3G-INF)

    b. perguntas de estruturação do discurso

    (i) Cecília: vale a pena... é:: por que que vale a pena? porque nós raramente vamos ao cinema durante o ano... (F2S-INF)

    (ii) Marco: sim a televisão e a televisão te traz o quê?... só te traz coisa errada... é novela... ensina o quê?... ensina o camarada a beber... (M3G-INF)

    .

    Conjunto de Respostas Previstas: Enquanto algumas perguntas deixam as possibilidades de resposta em aberto (18a), outras são formuladas já com uma expectativa de resposta, seja com múltiplas opções ou apenas uma (18b). A hipótese aqui levantada tem a ver com o fundo comum (CLARK, 1996; STALNAKER, 2002): quanto menor o conjunto de respostas previstas pelo falante, i.e. quanto maior a previsibilidade da resposta, pode-se supor que há um maior grau de informações compartilhadas; haveria, então, maior tendência de emprego de interrogativas qu-in-situ nesse caso?19

    .

    (18) Conjunto de Respostas Previstas

    a. aberto

    (i) Fernanda: e em que rua que você mora? (F1S-DOC)

    (ii) Carolina: e você mora em que lugar de São Paulo? (F1S-DOC)

    b. fechado

    (i) Jefferson: do que que você tem mais medo... da polícia ou do ladrão? (M2G-INF)

    (ii) Jorge: sua mãe trabalhava com o quê? assim ela... era dona de casa? (M1S-DOC)

    .

    Grau de Ativação do fundo Comum: Weiner e Labov (1983 [1977]), em seu estudo sobre a alternância entre voz ativa e voz passiva sem agente no inglês, investigam se a ativação de referentes no discurso tem uma influência no emprego das diferentes estruturas sintáticas. De modo semelhante, este grupo de fatores tem o objetivo de investigar a influência de pressuposições e referentes recentemente ativados no discurso no emprego variável de Interrogativas-Q. Os fatores em (19) organizam-se em diferentes graus de ativação, desde as duas sentenças anteriores (máximo grau de ativação) até a não menção até aquele momento da entrevista (mínimo grau de ativação).20

    .

    (19) Grau de Ativação do Fundo Comum

    a. ativado na 1ª ou 2ª sentença anterior

    (i) Pedro: eu acho horrível... (1) acho horrível Carla: por que você acha horrível? (F1S-DOC)

    (ii) Aline: (1) eles tão falando muito da saúde...

    Marcio: é né?

    Aline: mas tão falando da saúde por quê? (F1G-INF)

    b. ativado na 3ª sentença anterior ou antes

    (i) Beatriz: “eu sou bandido tô cumprindo prisão perpétua e (4) hoje eu resolvi por minha bola e minha corrente no pé” aí (3) eu falei assim “(2) não mas eu achei interessante... (1) eu não vim criticar... por que que o senhor tá usando isso?” (F3S-INF)

    (ii) Valter: ele morreu dentro d- (3) esse meu irmão que morreu morreu dentro da da casa dele dentro do banheiro... (2) ele falava que nunca tinha problema de saúde nenhuma... e (1) ele não ia no médico

    Rafael: morreu com quantos anos? (M1S-DOC)

    c. não ativado anteriormente

    (i) Carlos: que que cê faz como lazer assim? (M3S-DOC)

    (ii) Marina: você vem de que canto pra cá? (F1G-INF)

    .

    3.2. Resultados

    A tabela 2 apresenta os resultados para os grupos de fatores extralinguísticos, dentre os quais Quem Fala, Escolaridade e Sexo/ Gênero não são selecionados como significativos.

    Table 2.

    TABELA 2 - Tendências de emprego de interrogativas qu-in-situ em relação a grupos de fatores extralinguísticos (N in situ = 227; N total = 999) a

    P. R % N in-situ N total
    Quem fala b
    informante [.50] 23,0 117 509
    documentador [.50] 22,4 110 490
    Escolaridade c
    até Ens. Fund. II [.54] 25,4 67 264
    ensino superior [.49] 21,8 160 735
    Sexo/Gênero d
    masculino [.54] 25,7 97 378
    feminino [.48] 20,9 130 621
    Faixa etária e
    de 20 a 30 anos .53 21,4 108 504
    de 35 a 45 anos .37 15,2 30 198
    mais de 50 .54 30,0 89 297
    Range: 17
    Grau de relação entre documentador e informante f
    distante .54 24,1 186 771
    próximo .36 18,0 41 228
    Range: 18
    Espontaneidade da pergunta g
    de dados pessoais .80 52,6 51 97
    espontânea .56 22,6 47 208
    do roteiro .30 6,8 8 117
    temática .22 5,9 4 68
    Range: 58 (T = 490)
    a [ ] indica a não-seleção dos grupos de fatores como significativos. Pesos relativos correspondentes a rodada one-level . bInput: 0,227; p = 0,849. cInput: 0,227; p = 0,239. dInput: 0,226; p = 0,089. eInput: 0,147; p < 0,01. fInput: 0,115; p < 0,05.

    O fato de o grupo de fatores Quem Fala não ser selecionado indica que o papel desempenhado pelo falante na entrevista sociolinguística não tem uma influência no emprego variável de Interrogativas-Q. Diante desse resultado, esse grupo de fatores foi excluído de rodadas subsequentes, e manteve-se a análise conjunta dos dados de documentadores e de informantes, em vez de separá-los em arquivos de dados distintos. Escolaridade, por sua vez, provavelmente não foi selecionado devido ao fato de que nenhuma das formas investigadas é negativamente avaliada, nem tampouco tem prestígio encoberto. A neutralidade do grupo de fatores Sexo/Gênero também segue um padrão esperado para variáveis sintáticas, à semelhança de outros estudos (p.ex. WEINER; LABOV, 1983 [1977], MENDES, 2005). Esse resultado não surpreende sobretudo quando se levam em conta os resultados dos grupos de fatores Escolaridade (não selecionado) e Faixa Etária, que aponta para um caso de variação estável na comunidade (ver adiante). Em muitos estudos sociolinguísticos prévios (CHAMBERS, 1995; LABOV, 2001; CHESHIRE, 2004), constatou-se que mulheres tendem a empregar as formas socialmente prestigiadas e a liderar processos de mudança linguística; como nenhum desses parâmetros parece estar em jogo aqui, a não-seleção do grupo de fatores Sexo/Gênero se alinha com padrões mais gerais de variação verificados em outras comunidades.

    Os demais grupos de fatores extralinguísticos são selecionados como significativos. O resultado para Faixa Etária aponta para um caso de variação estável na comunidade paulistana. Diferentemente do que se esperaria em um caso de mudança em progresso em tempo aparente, em que os falantes mais jovens favoreceriam a forma inovadora, as interrogativas qu-in-situ são levemente favorecidas tanto pelos mais jovens (P.R. 0,53) quanto pelos mais idosos (P.R. 0,54), e são desfavorecidas pelos falantes da faixa etária intermediária (P.R. 0,37).

    O grupo de fatores Grau de Relação ente Documentador e Informante revela uma correlação inversa àquela esperada inicialmente: a hipótese previa, com base em Pires e Taylor (2007), que graus de relação mais próximos – ou seja, a suposta existência de maior fundo comum entre os interlocutores – levariam a uma tendência maior de emprego de interrogativas qu-in-situ. A tabela 2, no entanto, indica justamente o oposto: desfavorecimento de interrogativas qu-in-situ (P.R. 0,36) para graus mais próximos e pequeno favorecimento (P.R. 0,54) para graus mais distantes. Desse modo, faz-se necessário um exame mais detalhado dos dados e da situação discursiva: aqui, interpreta-se que quando os interlocutores têm um grau de relação mais distante, o fundo comum entre eles depende mais diretamente da situação interacional em que se encontram, diferentemente do que pode ocorrer em interações conversacionais entre pessoas mais próximas, cujo fundo comum engloba conversações prévias. A análise de Espontaneidade da Pergunta, Conjunto de Respostas Previstas e Grau de Ativação do Fundo Comum (ver adiante) fornece evidências de que o emprego de interrogativas qu- in-situ depende fundamentalmente do fluxo de informações no aqui-e- agora da conversa.

    Em Espontaneidade da Pergunta,21 como esperado, as perguntas espontâneas favorecem o emprego de interrogativas qu-in-situ (P.R. 0,56), enquanto perguntas relacionadas ao roteiro as desfavorecem consideralmente (P.R.s abaixo de 0,30). Em princípio, esse resultado pode sugerir que o emprego variável de interrogativas é condicionado pelo grau de monitoramento ou planejamento da fala. No entanto, verifica-se também que as perguntas de dados pessoais (p.ex. “Você mora onde?”, “Você faz o quê?”) são aquelas que mais favorecem o emprego de interrogativas qu-in-situ (P.R. 0,80). Se se tratasse de uma questão de monitoramento ou planejamento da fala, era de se esperar que perguntas de dados pessoais também desfavorecessem o emprego das interrogativas qu-in-situ, pois a obtenção desses dados era prevista na coleta de entrevistas.

    Aqui se faz necessária uma interpretação alternativa. Os dois fatores que mais favorecem qu-in-situ, perguntas de dados pessoais e espontâneas, têm em comum o fato de serem mais previsíveis: em situação de entrevista é natural que se pergunte sobre a profissão, local de residência, família. Aliás, mesmo que não se tratasse de uma entrevista gravada, esses seriam tópicos bastante propícios para a condução de uma conversa “natural”. De modo semelhante, as perguntas espontâneas, que surgem da interação conversacional, estão mais diretamente ancoradas no fluxo de informações da conversação e, portanto, também podem ser consideradas mais esperadas. Assim, o grupo de fatores Espontaneidade da pergunta, cujo objetivo inicial era testar a influência do grau de planejamento da fala, acaba revelando mais propriamente o papel da previsibilidade da pergunta: quanto mais previsível, maior a tendência de se empregar qu-in-situ. Possivelmente é daí que decorra a intuição de Pires e Taylor (2007) sobre a inadequação pragmática de interrogativas qu-in-situ em perguntas “de sopetão”, dado que elas teriam um grau mínimo de previsibilidade.

    Com efeito, os resultados para o grupo de fatores Conjunto de Respostas Previstas (ver tabela 3) reforçam essa interpretação: as perguntas de resposta “fechada” favorecem fortemente o emprego de qu-in-situ (P.R. 0,84), em relação às perguntas de resposta “aberta” (P.R. 0,46). Desse modo, quanto mais previsível a resposta, maior a tendência de emprego dessa forma interrogativa.

    Table 3.

    TABELA 3 - Tendências de emprego de interrogativas qu-in-situ em relação a grupos de fatores linguísticos a

    P. R % N in-situ N total
    Conjunto de Respostas Previstas
    fechado .54 37,7 20 53
    aberto .46 20,0 109 544
    Range : 38 21,6 129 597
    Grau de ativação do Fundo Comum
    - pressup. ou referente ativado na 1ª ou 2ª sentença anterior .63 34,0 89 262
    - pressup. ou referente ativado na 3ª sentença anterior ou antes .51 21,2 29 137
    - pressuposição não ativada .38 18,0 62 345
    Range: 25 24,2 180 744
    Presença de Elementos antes da Oração Independente
    tópicos/orações subordinadas .66 28,9 44 152
    não .47 21,6 183 847
    Range: 19 22,7 227 999
    Númerode Palavras da Oração
    de 2 a 6 palavras .54 27,3 183 670
    de 7 a 20 palavras .42 13,4 44 329
    Range: 12 22,7 227 999
    a Input: 0,115; p < 0,05.

    Em Grau de Ativação do Fundo Comum, os resultados se alinham com a hipótese inicial, que previa maior tendência ao emprego de qu-in-situ quando a pressuposição ou um dos referentes havia sido recentemente ativado (P.R. 0,63). Os demais fatores se conformam à hierarquia de ativação, pois pressuposições ou referentes ativados a partir da terceira sentença anterior apresentam um peso relativo menor para o emprego de qu-in-situ, próximo do ponto neutro (P.R. 0,51), enquanto pressuposições não ativadas anteriormente desfavorecem a estrutura (P.R. 0,38). Nota-se, novamente, um fato que aponta para a importância do aqui-e-agora na conversa para o emprego de interrogativas qu-in-situ: há uma diferença relevante para a ativação de pressuposições e referentes em uma das últimas duas sentenças, o que sugere que o “gerenciamento” da conversação (nos termos de SACKS et alii 1974) ocorre localmente e que os falantes são bastante sensíveis ao fluxo de informações, fato que se reflete no emprego de diferentes estruturas sintáticas.

    Os resultados para o grupo de fatores Presença de Elementos antes da Oração Independente indicam que, na presença de tópico ou de uma oração subordinada, é maior a tendência ao emprego de interrogativas qu-in-situ (P.R. 0,66). Essa tendência pode ser entendida como uma estratégia de organização do discurso, a fim de manter o constituinte interrogativo em uma posição de proeminência prosódica na sentença: quando há elementos à esquerda da oração independente, tende-se a realizar o constituinte interrogativo à direita, em posição pós-verbal.

    Em Número de Palavras na Oração, verifica-se que a forma in situ é desfavorecida quanto maior for a sentença (P.R. 0,42).22 No entanto, é possível que aqui a correlação seja a inversa, ou seja, que é a construção com constituinte pré-verbal que favorece o “alongamento” da sentença (p.ex. com o encaixamento de outras orações) ou, colocado de outro modo, que é a estrutura in situ que favorece a concisão da pergunta. Em uma análise alternativa, que inverte o direcionamento da correlação – Número de palavras como variável dependente e Posição do Constituinte Interrogativo como variável independente – o efeito parece ser mais significativo (range = 21), visto que há um forte desfavorecimento de sentenças mais extensas com as interrogativas qu-in-situ (ver tabela 4).

    Table 4.

    TABELA 4 - Correlação entre Número de Palavras na Oração e Posição do Constituinte Interrogativo a

    P. R % N sentenças longas N total
    Posição do constintuinte interrogativo
    Q pré-verbal .55 36,9 285 772
    qu-in-situ .34 19,4 55 227
    Range: 21 32,9 329 999
    a Input: 0,323; p < 0,001.

    Para o grupo de fatores Sinceridade Pragmática da Pergunta (tabela 5), os resultados mostram que as interrogativas qu-in-situ são favorecidas em perguntas de estruturação do discurso (P.R. 0,68), e levemente desfavorecidas em perguntas “sinceras” e retóricas (P.R.s 0,47 e 0,45 respectivamente). Embora os pesos relativos desses dois últimos tipos de perguntas não sejam muito diferentes, nota-se também que as perguntas retóricas são aquelas que menos favorecem a forma in situ, o que indica que perguntas de estruturação do discurso e perguntas retóricas, em geral classificadas como um mesmo tipo de pergunta, comportam-se de forma algo distinta em relação à estruturação da sentença e de fato merecem ser caracterizadas diferentemente (OUSHIRO; NASSER, 2010).

    O favorecimento de in situ em perguntas de estruturação do discurso pode ser manifestação de uma estratégia de manutenção de turno por parte do falante que o detém. Segundo Sacks et alii (1974:706-7), os falantes projetam o fim de cada turno conversacional através da identificação de unidades linguísticas (que podem ser uma palavra ou toda uma sentença); o emprego de um constituinte interrogativo no início da oração pode criar a expectativa no interlocutor de que seu próximo turno deva ser uma resposta à pergunta colocada; como as perguntas de estruturação do discurso não têm o objetivo de obter uma informação do interlocutor – ao contrário, impõem uma obrigatoriedade de resposta pelo falante corrente – as interrogativas qu-in-situ podem servir melhor ao propósito de manutenção de turno.22

    Table 5.

    TABELA 5 - Correlação entre interrogativas qu-in-situ e Sinceridade Pragmática da Pergunta (N in situ = 227; N total = 999) a

    P. R % N in-situ N total
    Sinceridade pragmática da pergunta
    de estruturação do discurso .68 34,7 51 147
    "sincera" .47 21,6 129 597
    retórica .45 18,4 47 255
    Range: 23
    a Input: 0,165; p < 0,02.

    O emprego de interrogativas qu-in-situ em perguntas de estruturação do discurso também pode ser uma estratégia cognitiva para o processamento de informações. Observe-se o exemplo (20), retomado a partir de (17c-ii):

    .

    (20) Marco: sim a televisão e a televisão te traz o quê?... só te traz coisa errada... é novela... ensina o quê?... ensina o camarada a beber... (M3G-INF)

    .

    O falante Marco poderia ter dito “a televisão... só te traz coisa errada... novela ensina o camarada a beber...”, sem os constituintes interrogativos. No entanto, ao empregar a palavra o quê no lugar de sua complementação correspondente, o falante atualiza o fundo comum em dois tempos: primeiro com o constituinte interrogativo e depois com a informação nova propriamente. De fato, estudos sobre a organização do discurso indicam a preferência por postergar a introdução de dados novos para a última parte da sentença (Cf. p.ex. CHAFE, 1974, WEINER & LABOV, 1983 [1977]). Como o objetivo de perguntas de estruturação do discurso é a atualização do fundo comum pelo falante corrente, a preferência por interrogativas qu-in-situ nesse contexto também pode ser reflexo de tendências mais gerais de organização do discurso.

    Analisam-se, por fim, os grupos de fatores de natureza morfossintática (tabela 6). Tipo de Verbo, Constituinte Interrogativo e Função Sintática foram analisados em rodadas distintas, uma vez que interagem entre si (Guy e Zilles 2007:52).

    Em Tipo de Verbo, foram amalgamados os verbos transitivos diretos e bitransitivos, e os verbos de ligação e modais – agora chamados de “verbos auxiliares” (χ2 = 1,27(2), p > 0,50). Os verbos transitivos indiretos e os verbos intransitivos favorecem o emprego de interrogativas qu-in-situ (P.R. 0,67 e 0,62 respectivamente), enquanto os verbos auxiliares o desfavorecem (P.R. 0,40). De modo geral, esse padrão indica que o emprego de interrogativas qu-in-situ está relacionado com a estrutura da sentença quanto à presença de argumentos e adjuntos adverbiais – relação que será discutida com mais detalhes para o grupo de fatores Função sintática.

    Table 6.

    TABELA 6 - Correlação entre interrogativas qu-in-situ e grupos de fatores morfossintáticos a

    P. R % N in-situ N total
    Tipo de verbo
    transitivo indireto .67 39,1 43 110
    intransitivo .62 34,6 36 104
    +transitivo direto e bitransitivo .50 21,2 107 505
    +auxiliar (ligação e modal) .40 14,6 41 280
    Range: 27 22,7 227 999
    Sinceridade pragmática da pergunta
    quando .85 62,5 5 8
    onde .80 47,4 36 76
    o que .74 33,7 85 252
    quem .72 29,2 14 48
    +quanto/quanto+NP .71 39,2 20 51
    que+NP .63 28,6 24 84
    +por que/pra que .61 22,3 27 121
    Que .27 7,3 9 124
    +qual/qual+NP .21 4,5 4 89
    como .09 2,1 3 146
    Range: 76 22,7 227 999
    Sinceridade pragmática da pergunta
    +outros adj. adverbiais .83 55,0 72 131
    objeto indireto .79 48,1 26 54
    objeto direto .58 24,4 81 332
    +adj. adv. causa/finalidade .53 22,0 27 123
    constituinte de small clause .29 8,6 14 162
    adj. adv. modo .19 4,5 5 110
    sujeito .16 3,6 2 56
    Range : 67 23,5 227 968
    a+ indica que houve amalgamação de fatores. bInput: 0,147; p < 0,01; log-likelihood = -431,565. cInput: 0,112; p < 0,05; log-likelihood = -385,845. Divergência entre P.R.s e porcentagens nos valores sombreados indica interação. dInput: 0,115; p < 0,05.

    Para a variável Constituinte Interrogativo, devido ao número reduzido de ocorrências em determinadas células, amalgamaram-se os fatores quanto(-a, -os, -as) com quanto(-a, -os, -as) + NP, qual(-is) com qual(-is) + NP e por que com pra que (χ2 = 0,71(3), p > 0,80). Outras amalgamações, no entanto, não são desejáveis, dado que essas provavelmente juntariam fatores com função sintática semelhante – hipótese para qual há outro grupo de fatores. Em Função Sintática, também foi necessário amalgamar dados para que se pudessem realizar testes quantitativos. Foram amalgamados alguns dos adjuntos adverbiais (tempo, lugar, companhia, outros) que exibiram distribuição semelhante (χ2 = 1,06(3), p > 0,70), mas os adjuntos adverbiais de causa, de finalidade e de modo encontram-se separados por apresentarem pesos relativos bastante distintos dos demais adjuntos adverbiais.23

    Dentre os três grupos de fatores morfossintáticos, Função Sintática pode ser considerado o mais importante, ainda que o seu range (diferença entre maior e menor pesos relativos) seja menor do que aquele para Constituinte Interrogativo (67 vs. 76). Além de a hierarquia de restrições em Constituinte Interrogativo seguir aquela de Função sintática, o range mais amplo do primeiro provavelmente é decorrência de seu grande número de fatores (10 no total, contra 7 para Função Sintática). Ademais, alguns fatores de Constituinte Interrogativo, tais como quando e quanto, possuem um número reduzido de dados, o que dificulta a interpretação de seu efeito na variação.

    Uma análise com ambos os grupos Constituinte Interrogativo e Função Sintática na mesma rodada pode ser mais elucidativa (ver tabela 7). Para tanto, foram mantidos apenas os dados de constituintes interrogativos que podem exercer mais de uma função sintática, para que houvesse ortogonalidade entre os grupos de fatores. Assim, incluíram-se os dados de quem, que, o que, que + NP, qual e qual + NP, e excluíram-se aqueles para os quais a relação era (quase) biunívoca: por que (= adjunto adverbial de causa), pra que (=adjunto adverbial de finalidade), quando (= adjunto adverbial de tempo), onde (muitas vezes adjunto adverbial de lugar), como (muitas vezes adjunto adverbial de modo) e quanto/quanto+ NP (muitas vezes objeto direto). Nessa análise, Função Sintática tem range maior do que Constituinte Interrogativo (77 e 56 respectivamente) e é o primeiro grupo de fatores a ser selecionado.

    Table 7.

    TABELA 7 - Correlação entre interrogativas qu-in-situ e grupos de fatores Função Sintática e Constituinte Interrogativo recodificados a

    P. R % N in-situ N total
    Função Sintática
    transitivo indireto .87 55,0 72 131
    intransitivo .84 48,1 26 54
    +transitivo direto e bitransitivo .51 24,4 81 332
    +auxiliar (ligação e modal) .24 7,3 14 193
    .10 3,6 2 56
    Range: 77 25,5 195 766
    Constituinte Interrogativo
    transitivo indireto .76 33,7 85 252
    intransitivo .74 29,2 14 48
    +transitivo direto e bitransitivo .41 28,6 24 84
    +auxiliar (ligação e modal) .21 7,3 9 124
    .20 4,5 4 89
    Range: 56 22,8 136 597
    a Input: 0,121; p < 0,05.

    De modo geral, observa-se que a hierarquia geral de tendências de emprego de interrogativas qu-in-situ corresponde à “obrigatoriedade” ou não do constituinte na sentença: adjuntos adverbiais, argumentos “acessórios” na sentença, apresentam um peso relativo bastante alto (P.R. 0,87); em seguida vêm objetos indiretos (P.R. 0,84) e objetos diretos (P.R 0,51), e por fim argumentos com função sintática de constituinte de small clause (P.R. 0,24) e sujeito (0,10). A hierarquia verificada diz respeito também à “distância” entre a posição canônica do constituinte em relação ao início da sentença. Tanto a hierarquia de “obrigatoriedade” quanto de “distância” estão representadas no contínuo abaixo:

    .

    (21) adjuntos adverbiais (0,87) > objeto indireto (0,84) > objeto direto (0,51) > constituinte de small clause (0,24) > sujeito (0,10)

    .

    Percebe-se que esse resultado é paralelo ao que se verificou em Tipo de Verbo (tabela 6), visto que diferentes tipos de verbos permitem a presença de diferentes argumentos ou adjuntos.

    .

    (22) verbos transitivos indiretos (0,67) > verbos intransitivos (0,62) > verbos transitivo diretos e bitransitivos (0,50) > verbos auxiliares (0,40)

    .

    Os verbos auxiliares desta análise englobam os verbos de ligação, que coocorrem com constituintes de small clause; verbos transitivos coocorrem com objetos diretos e indiretos; e verbos intrasitivos, por sua vez, muitas vezes coocorrem com adjuntos adverbiais. Assim, os efeitos verificados no grupo de fatores Tipo de Verbo também podem ser atribuídos a Função Sintática, já que a função desempenhada pelo constituinte interrogativo cria relações necessárias com o tipo de verbo. Explica-se: o uso de um verbo transitivo indireto, por exemplo, não necessariamente obriga que o constituinte interrogativo daquela sentença tenha sido o objeto indireto correspondente; no entanto, um constituinte interrogativo com função de objeto indireto implica na presença de um verbo transitivo indireto ou bitransitivo.

    O fato de adjuntos adverbiais e objetos indiretos favorecerem o emprego de interrogativas qu-in-situ revela que o constituinte interrogativo tende a ficar próximo de sua posição canônica na sentença: quanto maior seria o movimento, maior a tendência de realizá-lo in situ.

    Conclusões

    Este artigo apresenta uma análise global dos usos variáveis de Interrogativas-Q em um corpus contemporâneo do português paulistano. Os resultados, em conjunto, evidenciam o caráter multifacetado de fenômenos de variação linguística: os condicionamentos para o emprego de Interrogativas-Q não se restringem a um único nível de análise.

    Quanto à morfossintaxe, a variação está correlacionada à distância de movimento do constituinte interrogativo (quanto maior seria o movimento, maior a tendência de o constituinte interrogativo permanecer in situ) e à sua “obrigatoriedade” ou não na estrutura argumental (quanto menor a “obrigatoriedade”, maior a tendência de emprego de qu-in-situ).

    Os grupos de fatores discursivo-pragmáticos mostram a importância do fluxo de informações no aqui-e-agora da conversação para a alternância entre diferentes estruturas sintáticas: qu-in-situ é favorecido em contextos em que há maior previsibilidade da pergunta e, de modo semelhante aos resultados de Weiner e Labov (1983 [1977]), naqueles em que a pressuposição ou um dos referentes estão mais ativados; nesta pesquisa, atribui-se a seleção desses fatores ao papel do fundo comum entre os interlocutores, que deve ser examinado em sua dinamicidade: os interlocutores se baseiam em seu conjunto de crenças compartilhadas para organizar o discurso, o que evidencia o caráter cooperativo da conversação face-a-face (CLARK, 1996). Outros fatores da oralidade também se mostram relevantes: qu-in-situ é favorecido em sentenças curtas, embora, nesse caso, a correlação provavelmente seja inversa: a estrutura in situ é que favorece a concisão da sentença.

    Este artigo também apresenta uma proposta de critérios para a definição do envelope de variação de variáveis além do nível fonológico, com base no conceito de competência comunicativa (HYMES, 1991 [1979]). Essa questão metodológica, em geral, é relegada a segundo plano: cada pesquisador reporta as decisões tomadas em seu estudo específico, a fim de se concentrar na discussão de resultados quantitativos. Os quatro critérios (análises de gramaticalidade, viabilidade, adequação pragmática e produtividade), propostos aqui para o estudo de uma variável sintática, possivelmente são aplicáveis a qualquer estudo de variação. A Sociolinguística Variacionista sempre teve como princípios de análise a empiricidade e a possibilidade de replicação e comparação de estudos. Nesse sentido, a sistematização dos procedimentos não apenas das análises quantitativas, mas também qualitativas, é central para o avanço do campo.

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