Resumo

O artigo analisa estilos de fala diferentes usados por participantes da comunidade de fala alemã em contraposição á comunidade de fala brasileira. Para isso, baseia-se em exemplos de entrevistas realizadas nas duas culturas. Os resultados mostram que as funções fática, apelativa, poética e expressiva têm mais destaque na fala brasileira, ao passo que as funções referencial e metalinguística têm mais visibilidade nas enunciações alemãs. 

Introdução

Tanto em extensão como em importância, os contatos entre membros de culturas diferentes aumentam constantemente devido ao desenvolvimento econômicoglobal, aos meios de comunicaçãomodernos, às facilidades crescentes para viajar e à cooperação cada vez mais intensa nas áreas da educação, da ciência e da política. Neste contexto também cresce a necessidade de um conhecimento profundo sobre os padrões de perceber, pensar, falar e atuar em outras culturas. Contudo, ainda que existam inúmeros estudos comparativos nas áreas da literatura, da tradução e da arte na área da literatura, tradução ou da arte, assim como incontáveis investigações etnológicas sobre tribos indígenas, o mesmo não acontece com estudos que focalizam as diferenças relevantes quanto aos hábitos cotidianos de falar entre diversas sociedades modernas. Por isso, a presente pesquisa dedica-se a uma comparação intercultural, e ilustra as divergentes funções da linguagem que se encontram nos estilos de fala nos cotidianos alemão e brasileiro com base nos extratos das entrevistas da pesquisa Brasilianische und deutsche Wirklichkeiten – eine vergleichende Fallstudie zu kommunikativ erzeugten Sinnwelten (Realidades brasileiras e alemãs – um estudo de campo comparativo sobre mundos significativos gerados de forma comunicativa).

1 Procedimento metodológico

Partindo das construções que são responsáveis pela criação da vida cotidiana, o sociólogo Alfred Schütz afirma que nem mesmo as ciências têm um acesso privilegiado à realidade. Ele fala de construções de segundo grau para dar realce àquelas declarações que não são feitas de um ponto de referência externo, mas têm raízes que devem ser procuradas na vida cotidiana. Todo método posto a serviço de uma investigação de conceitos significativos de uma cultura ou subcultura baseia-se nessa diferenciação propondo que, primeiramente, é preciso voltar-se para a perspectiva do entrevistado. Como Schütz formulou claramente, numa superação da perspectiva objetivista, a questão central deveria passar da pergunta O que o mundo social significa para o observador? para a pergunta O que o mundo social significa para o ator observado dentro desse mundo, e o que ele mesmo quis dizer com sua atividade nele?:

“The safeguarding of the subjective point of view is the only but sufficient guarantee that the world of social reality will not be replaced by a fictional non-existing world constructed by the scientific observer.” (Schütz 1971: 8)

Assim, as perguntas dos questionários deste estudo de campo comparativo, assim como as entrevistas, foram fundamentadas nesse procedimento qualitativo: foram elaboradas perguntas abrangentes como, por exemplo, O que significa família para você? para as pessoas darem respostas dissertativas a partir das quais poderia ser feita uma análise dos conceitos, metáforas, estruturas etc. divergentes. Havia quatro grupos de entrevistados: o grupo dos estudantes alemães, o dos estudantes brasileiros, o dos não-estudantes brasileiros e o dos não- estudantes alemães. A condição para o grupo dos não-estudantes era que eles não estudassem e nunca tivessem estudado numa universidade. Os entrevistados foram escolhidos aleatoriamente, mas era necessário obedecer a alguns critérios: todos tinham entre 20 e 30 anos, metade mulheres, metade homens, e foi importante que eles viessem de regiões diversas do respectivo país. No total, foram aplicados 800 questionários (200 em cada grupo) e realizadas 40 entrevistas (10 em cada grupo). No centro da pesquisa, estabeleceu-se uma comparação entre conceitos brasileiros e alemães quanto a mundos simbólicos como família, trabalho, amizade, amor, passado, futuro etc., considerando a criação e estruturação comunicativas desses universos pelos entrevistados. No foco da presente abordagem encontra-se um aspecto específico desse estudo: as funções da linguagem distintas vislumbradas nas respostas das entrevistas realizadas.

2      Quadro teórico

Baseando-se no gênero entrevista que, na verdade, representa uma situação comunicativa artificial, embora mostre cruzamentos com a conversação cotidiana não-pragmática devido às perguntas que serviam como estímulo para falar livremente, a questão que foi tema desta pesquisa refere-se exclusivamente aos estilos de fala divergentes e à sua função cultural nas comunidades de fala brasileira e alemã, e não a outros aspectos de conteúdo ou linguísticos. Refere-se a estilo de fala e não a estilo comunicativo, para realçar que a presente abordagem se limita a uma análise do comportamento verbal-vocal. Falar em ‘ponto de partida para uma análise do estilo de fala’ remete à classificação das seis funções da linguagem segundo Dell Hymes (1961):

Ø Expressive (emotiva)

Ø Directive (imperativa ou injuntiva)

Ø Referential (referencial, cognitiva ou denotativa)

Ø Poetic (poética)

Ø Phatic (fática)

Ø Metalinguistic (metalinguística ou autoreferencial)

Essas seis funções da linguagem, primeiramente, são descritas por Roman Jakobson (1960/1971) que amplia o quadro de três funções – a referencial, a expressiva e a apelativa – do modelo organon da linguagem de Karl Bühler (1982/1934: 28) considerando seis fatores constituintes no processo da comunicação. Sendo assim, as funções correspondem a um elemento específico da situação comunicacional e são denominadas segundo sua orientação do emissor ao receptor:

Ø emissor (função expressiva/emotiva)

Ø receptor (função conativa)

Ø mensagem (função poética)

Ø contato/canal (função fática)

Ø código (função metalinguística)

Ø contexto (função referencial)

Jakobson adota o princípio de dominância usado anteriormente por Karl Bühler, de acordo com o qual cada enunciação pode incluir mais do que apenas uma função da linguagem; não obstante, muitas vezes, uma função destaca-se. Em sintonia com o movimento estruturalista, pode- se afirmar que esse modelo veicula uma concepção de linguagem que vê a língua como um código capaz de transmitir ao receptor uma certa mensagem, reduzindo, desse modo, o papel construtivo do ouvinte. Esse reducionismo não surpreende, tendo em vista que Jakobson pretendeu estabelecer um modelo que se aplicasse à ciência textual e, com isso, à literatura.

Por isso, a classificação de Hymes atende melhor às necessidades da presente abordagem, por dirigir sua atenção a processos comunicativos na fala cotidiana, integrando fatores contextuais. Por exemplo, a função fática, no esquema de Jakobson, limita-se a garantir a continuidade da troca por um feedback interno. Contudo, na perspectiva etnológica, o termo phatic communion agrega ao termo um elemento social, no qual são consideradas todas as formas comunicativas que servem a uma afirmação das ligações sociais. Em conformidade com isto, Malinoswki já antecipava o termo, definindo phatic communion como “type of speech in which ties of union are created by a mere exchange of words” (1930/1972: 315). Por conseguinte, segundo Hymes, os termos função fática e função meta- comunicativa abrangem muito mais do que apenas a transmissão de uma mensagem em um enunciado dado, como será demonstrado a seguir1.

Embora o modelo das seis funções da linguagem tenha sido desenvolvido há mais de cinquenta anos, não perdeu sua importância fundamental como quadro teórico básico para designar diferenças- chave que se encontram na fala cotidiana de duas comunidades culturais distintas. Dessarte, o ponto decisivo para esta análise é a averiguação de que, nas contribuições brasileiras, obviamente vêm à luz funções da linguagem outras que nas conribuições dos alemães. Os exemplos dados apresentam uma tendência observada em todas as entrevistas.

3 Análise

3.1 Funções da linguagem enfatizadas nas entrevistas brasileiras

O fato de que no Brasil uma “schleifenlose Realisierung” (“realização sem voltas”) de comunicação que pretende “optimale Kürze und Effektivität” (“concisão e eficiência ótimas”) (Sandig 1986: 193) não apresenta a mesma importância que na Alemanha já explica o tamanho médio duas vezes maior das entrevistas brasileiras em comparação com as alemãs. No Brasil, o modo de se exprimir chama a atenção devido a um estilo muito mais carregado de elementos dramáticos e poéticos, de jogos de palavras, provérbios e inúmeras variantes estilísticas dos universos de contos de fadas, mitos e sagas. Nesse ponto, as funções poética, expressiva e fática da linguagem alcançam o primeiro plano. Desta forma, muitas falas das entrevistas são impregnadas por um estilo salientemente enfático, o que dramatiza o dito, e se servem da força persuasiva da língua, sobretudo, ao tentar convencer o outro do que é dito:

“Acho que ser amigo – as pessoas falam que ninguém tem. Eu digo para você que tenho, porque até hoje estive passando dificuldades, coisas ruins. Até hoje, até agora, ainda tô arrumando a minha vida, e tem pessoas que se colocam no meu lado, sabe. Que na hora que eu mais precisei tavam lá comigo, me deu uma força, sabe, me apoiou, me apoiou, sabe, me apoiou. Então, eu tenho pessoas, colegas e amigos. Eu falo para você quem é amigo e quem é colega. Eu tenho isso aí. Eu tenho.” (Schröder 2003: 176)

O entrevistado é invocado de maneira direta e reiterada por meio das expressões “Eu digo para você...”, “Eu falo para você...” e das redundâncias. Com isso, a força persuasiva do dito é aumentada; ademais, devido à presença desses elementos estilísticos, o gênero textual entrevista impessoal ganha o caráter de uma conversação fictícia na qual a função fática vem à tona.

Meios estilísticos que servem a uma interpretação alegórica ou formulativa do mundo e da realidade, na qual a idéia não é transmitida de modo direto, mas sim, de modo cifrado – por exemplo, através de provérbios ou ditados (exemplo 1) –, têm um efeito transfigurativo. Diferentemente das entrevistas alemãs, figuras retóricas diversas encontram-se em aproximadamente todas as entrevistas brasileiras; nelas observam-se o símile (exemplo 2), a gradação com epístrofe (exemplo 3), a anáfora (exemplo 4), o quiasmo (exemplo 5) e o assíndeto, bem como uma antítese ‘em preto-branco’ (exemplo 6).

exemplo 1

“Tudo mundo tem assim, um jardim do bem e um do mal onde florescem as coisas, né. Vai depender do que você quer cultivar, né.” (Schröder 2003: 177)

exemplo 2

“Boa amizade é uma coisa muito boa porque amizade é como uma flor, precisa de muito trato e muito amor.” (Schröder 2003: 178)

exemplo 3

“Onde tô, tô legal. Me sinto bem na casa, no lugar onde eu moro. No estado onde eu moro. No mundo onde eu moro.” (Schröder 2003: 179)

exemplo 4

“Eu não faço não, nem assim: de amigo e conhecido. Eu faço assim: de gostar e não gostar. [...] Eu sou muito sensitiva. Eu sou espírita. Eu sou muito sensitiva. Quando eu sinto uma pessoa, eu a chamo, quando não sinto, eu não a chamo.” (Schröder 2003: 179)

exemplo 5

“Às vezes, eu faço coisas que eu não sou. E às vezes, eu sou coisas que eu não faço.” (Schröder 2003: 179)

exemplo 6

“Porque eu olhava para a minha mãe, falava: -Mas como? Se eu olho para ela, vejo o bem, se olho para ele, vejo o mal.” (Schröder 2003: 180)

Embora as perguntas feitas tratem de opiniões e atitudes pessoais quanto a amor, trabalho, família, amizade, passado ou futuro etc., em muitas entrevistas, como também na conversação cotidiana, transparece um estilo de discurso professoral, no qual palavras pertencentes a discursos prontos ocupam o lugar de respostas que chegam diretamente à pergunta:

“I: O que significa fazer algo da sua vida para você? P: Então, eu vejo cada um tem o seu plano de vida. Cada um tem – cada um vive de uma forma diferente. Vamos estar de classe média, baixa, alta. Mas, na alta, cada um é diferente do outro. Da baixa, tem um diferente do outro, da média tem um diferente do outro.” (Schröder 2003: 185)

Muitas das atitudes apresentadas radicam-se na religião (exemplo 7)2, filosofia (exemplo 8)3 ou movimentos sociais como o movimento Hip Hop (exemplo 9)4 e são integradas ao ‘discurso’ no qual a recitação dos mosaicos do respectivo domínio lembra as amostras mnemônicas típicas das culturas orais. Desta forma, o dito não surge como um produto de pensamentos individuais, mas sim, como uma rapsódia de fragmentos textuais colecionados.

exemplo 7

“Se Deus preparar, se Deus quiser, eu vou fazer. Se ele me dar força, eu vou fazer.” (Schröder 2003: 186)

exemplo 8

“E Nietzsche porque – eu acho que jamais houve um cara que chegasse tão perto do absurdo do humano quanto Nietzsche. Ele virou as coisas de cabeça para baixo.” (Schröder 2003: 186)

exemplo 9

“Mas o que é legal para mim, é fazer o povo abrir o olho e saber que eles são a maioria. É a mensagem que eu deixo. A realidade do mundo sempre foi e sempre vai ser a nossa periferia. Se a periferia não abre o olho, o mundo vai ter a tendência de cair. [...] A gente não é boneca, a gente não é marionete, entendeu. A gente é livre, fazendo o que a gente quer.” (Schröder 2003: 186)

Um instrumento estilístico que se refere exclusivamente à função fática é o jogo de pergunta e (auto-)resposta, também presente em todo o cotidiano, que serve a um apaziguamento ritualístico de tensão que falta na Alemanha5:

“Bom. Tem um detalhe que marca a minha vida. Por quê? Porque me influenciou bastante...” (Schröder 2003: 187)

Estreitamente entrelaçada com este estilo de fala é a compreensão do sujeito, cristalizado nas apresentações de si mesmo e correspondente ao papel da personagem heróica. Como peça encenada, o ‘verdadeiro’ Eu continua oculto ou fragmentário, ao passo que o Eu apresentado cresce de modo cênico em temas como orgulho familiar e código de honra (exemplo 10)6 ou como o grande lutador (exemplo 11)7:

exemplo 10

“A minha família é uma família de caráter. A minha mãe, o meu pai, a minha avó, os tios, são pessoas honestas assim. Não há um exemplo de desonestidade na minha família. Eles me deram muita segurança para poder, querer ser honesto.” (Schröder 2003: 182)

exemplo 11

“Eu participei na seleção do SENAC. O SENAC é uma das empresas mais bem conceituadas nesse país. E eu consegui sozinha. Eu participei em todas as entrevistas. Eu passei em todas as etapas e eu fui aprovada. Então, para mim – é sempre um desafio. Eu adoro desafios. Eu adoro.” (Schröder 2003: 182)

3.2  Funções da linguagem destacadas nas entrevistas alemãs

Ao contrário das entrevistas brasileiras, as respostas alemãs indicam um ponto de vista mais distante de um (auto)-observador que comenta mais sua vida em vez de revivê-la através da fala. Essa tendência torna-se óbvia através do uso bem codificado de expressões de segunda ordem. Aí, especialmente as palavras compostas ad hoc marcam uma característica estilística. Pois elas têm a força de designar cada fato ainda não denominado, no qual se encontra o desejo de uma reflexão e explicação tão detalhada quanto possível da experiência do mundo. De acordo com isto, por exemplo, a apresentação de si mesmo efetua-se a partir de um desdobramento da originalidade mental por meio das palavras compostas, utilizadas metaforicamente ou em forma de valorizações: um entrevistado, por exemplo, faz questão de dizer que é diferente dos “Klischee-Informatikern” (“informáticos típicos”), que querem “dicke Knete machen” (“fazer muita grana”) ou “Prestigepositionen bekleiden” (“estar em posições de prestígio”); outros, de estudantes que cultivam “Pseudointellektualismus” (“pseudo-intelectualismo”), ou que são “Stubenhocker” (“pessoa que nunca sai de casa”) ou “Mamasöhnchen” (“filhinho da mamãe”); outros, de colegas de trabalho que adoram “gutbürgerlichen Urlaub” (“férias burguesas”) e não fazem nada além de passar o ano inteiro poupando “um in den Spießerurlaub zu fahren” (“para sair de férias burguesas”), o que parece ser “völliger Schwachsinn” (“imbecilidade total”) (Schröder 2003: 189)8.

Partindo da função referencial da linguagem, a linguagem serve à diferenciação, abstração e (auto)reflexão. Vista por este ângulo, a entrevista parece menos uma conversação, e mais um monólogo introspectivo, no qual também ocorrem comentários autocríticos e auto- irônicos, apontando que os entrevistados se auto-examinam num nível de observação de segundo grau: um entrevistado considera-se “spießig” (“burguês”) demais para ter um trabalho sem estabilidade; uma outra entrevistada não se considera bastante “straight” para cumprir as exigências do curso de jornalismo; uma outra faz piadas sobre as próprias “Selbstmitleidsphasen” (“fases de auto-compaixão”) e titula-se como “Dickkopf ” (“cabeçuda”). Muitos relativizam suas declarações através de comentários como “hört sich vielleicht’n bisschen arrogant jetzt an” (“isso agora parece um pouco arrogante, mas”), “nein, Quatsch” (“não, é bobagem”) ou “das hört sich jetzt blöd an” (“parece estúpido”) (Schröder 2003: 189)9. Tais declarações representam uma relativização antecipada do dito como resposta a uma possível reação apenas imaginada do outro: por um lado, cumprem uma função meta-comunicativa por sua auto- referência às próprias enunciações, e, por outro lado, também podem ser lidas como estratégias de Face-work10. Um estudante diz:

“Wann mir was unangenehm ist? [...] Vielleicht, wenn ich’nen neuen Job antrete und die Leute nicht kenne. Aber ich denk mal, das ist ganz normal – dass man vielleicht’n bisschen Angst davor hat, vor neuen Sachen, obwohl, das heißt nicht, dass ich neue Sachen deswegen nicht machen würde.” (Schröder 2003: 190)

“Quando eu acho algo desagradável? [...] Talvez quando começo um novo trabalho e não conheço as pessoas lá. Mas acho normal isso, que talvez se tem um pouco medo perante coisas novas, embora isso não queira dizer que não faria coisas novas por causa disso.”

Sem que ninguém tivesse insinuado que o entrevistado não está aberto para coisas novas, ele já apresenta uma defesa apropriada para uma repreensão tipificada. Então, furtivamente introduz-se o pronome indefinido man, que atribui tacitamente a um grupo inteiro os mesmos padrões de agir e reagir.

Os comentários do meta-nível podem referir-se a uma classificação das próprias palavras em uma tipificação conhecida. Neste caso, o dito passa por uma objetivação e é submetido a uma reflexão que também tem a função de preservar a face perante o entrevistador:

“I: Möchtest du denn mal mit ihr [seiner Freundin, US] zusammenleben?

E: Also ich mach mir da jetzt keine konkreten Gedanken, – also find ich nicht unattraktiv den Gedanken – ich wüsst jetzt auch nicht, welche Lebensform, also getrennt, zusammen, bla bla [...]” (Schröder 2003: 191)

“I: Você gostaria de morar junto com ela [a namorada dele, US] um dia?

E: Então, não estou pensando nisso concretamente, aí, não acho ruim esta idéia, mas não sei que estilo de vida, ou seja, separado, junto, blá, blá [...]”

Neste exemplo, o entrevistado imita a si mesmo preventivamente e com isso se estabelece uma distância em relação ao dito. Com isto, já pode ser tirada do caminho a suspeita, eventualmente surgida no entrevistador, de que o entrevistado poderia tentar enrolar o outro.

O conjunto de mais níveis de reflexão e, juntamente com isso, a auto- referencialidade na qual interagem a função referencial, sob a forma de explicações, e a função metalinguística11, são ilustrados no próximo exemplo, onde uma estudante informa sobre as influências que marcaram sua infância da seguinte forma:

“Ja, also als Kind hab ich viel gelesen und viel Fernsehen geguckt. Also das waren so zwei Sachen. Und ansonsten viel mit meinen Geschwistern gemacht. Meine Eltern waren nicht ganz so präsent. Die waren beide berufstätig und selbstständig und irgendwie am Arbeiten.” (Schröder 2003: 192)

“Então, quando criança eu lia bastante e assistia bastante tevê. Aí, eram duas coisas. Além disso, fazia muitas coisas com meus irmãos.

Meus pais não eram muito presentes. Ambos tinham uma profissão, seu próprio negócio e estavam trabalhando.”

A primeira e a terceira frases representam reflexões de primeiro nível. A segunda frase é um comentário que sintetiza a primeira, dando-lhe uma forma final fechada e etiquetando-a como resposta à pergunta feita. Já, a quarta e a quinta frase referem-se à suposição tácita de que, na verdade, neste lugar devem ser mencionados os pais, que, no entanto, não tinham relevância. Com isto, ambas as frases representam um nível de reflexão completamente diferente por se referirem apenas a suposições imaginadas do outro.

Além disso, em muitas entrevistas observa-se uma frequente utilização de atos de fala assertivos como denken / glauben / meinen / schätzen / annehmen / vermuten (pensar / acreditar / achar / supor / presumir) etc., que, através do acréscimo de uma oração principal performativa, alargam a sintaxe e aceleram o distanciamento do dito, promovendo, dessa forma, o falar meta-comunicativo, menos presente nas entrevistas brasileiras.

4 Reflexão sobre um possível enquadramento histórico- cultural dos resultados

Os resultados revelados, sem dúvida, poderiam ser ligados à influência de diversos fatores, de forma que não é possível dar uma explicação monocausal para as diferenças ilustradas porque sempre se observa um jogo recíproco de elementos variados que são interligados um ao outro. Em seguida, devem ser abordados alguns desses fatores que podem explicar, em parte, as tendências descritas.

Evidentemente, a tendência própria das entrevistas brasileiras para ressaltar mais as funções poética, apelativa e expressiva pode estar ligada ao topos do barroco que se vê atuando na fala cotidiana.

Quando chega no Brasil cerca de cem anos depois da sua florescência na Europa, o barroco entra em cena, inicialmente, vestido como arte erudita. Entretanto, logo a seguir, a tensão alegórica entre a ‘fuga do mundo’ e o ‘prazer do mundo’ absorve mais e mais elementos índio- africanos: é isto que, dentre outros aspectos, a arquitetura tropical testemunha com seus ingredientes místicos, sexuais e brincalhões12. Depois da chegada do classicismo nas classes altas, o barroco emigra pouco a pouco até o povo, que enriquece seu folclore com motivos barrocos como, por exemplo, a figura da Virgem Santa:

“No Brasil, sobretudo naqueles séculos, esse estilo equivalia a uma visão – graças à qual foi possível ampliar o domínio do espírito sobre a realidade, atribuindo sentido alegórico à flora, magia à fauna, grandeza sobre-humana aos atos. Poderoso fator ideológico, ele compensa de certo modo a pobreza dos recursos e das realizações; e ao dar transcendência às coisas, fatores e pessoas, transpõe a realidade local à escala do sonho.” (Cândido 2000a: 169)

Dessa forma, chegando no novo mundo, o barroco ibérico perde sua virulência como uma reafirmação gnóstica de um universo institucional pré-existente. A tentativa de uma cristianização do Brasil leva a várias formas de imitação, sincretismo e simulação. Esses fenômenos formam as novas raízes do barroco americano. A cultura brasileira esmaga todas as identidades pré-existentes e não oferece nenhum horizonte para a reconstrução de uma nova identidade. A despeito do barroco ibérico, o barroco brasileiro não recorre a um pano de fundo metafísico, tendendo a fixar os objetos mais pelo uso, como expressão de uma sociedade sem transparência ou uma gramática de valores. Pelo contrário, enfatiza o caráter provisório da vida dispensando qualquer tipo de auto-explicação (Barboza Filho 2006).

Nessa transculturação, o barroco adentra a vida brasileira por completo; carregado por elementos mágicos, ele torna-se estilo cotidiano que domina conversações habituais até hoje. A força da apresentação, transfiguração e transformação favorece as funções poéticas, fáticas e emotivas que dirigem mais do que na Alemanha os acontecimentos conversacionais no Brasil. A inversão no irreal, fantástico, paradoxo e não-autêntico, que, justamente, por sua vez, torna a identidade brasileira autêntica, enfrenta a vida como um ato de equilibrar-se entre diversos papéis e múltiplos universos: neste ponto o malandro, o jeitinho, o jogo de cintura e o cordel de bamba entram em cena. Obviamente, essa tendência a interpretar a vida reflete-se em funções da linguagem voltadas mais para destacar o como da palavra em prejuízo do o quê.

Em contrapartida, nas entrevistas alemãs, despontam outras funções da linguagem que dominam as enunciações: as funções referencial e meta-comunicativa, o que corresponde a uma visão da língua como instrumento que reflete e estabelece uma realidade unicamente válida. Essa ambição pré-forma também o universo de linguagem de modo muito mais agudo do que no português do Brasil, que é mais abstrato. Em alemão, quando ao invés de ir a pé / ir de carro / ir de avião e ir de cavalo se fala de gehen / fahren / fliegen e reiten, quando são gerados substantivos compostos – Schlafzimmer (quarto de dormir), Hörsaal (sala de ouvir), Schlachthaus (casa de matar animais), Schwimmbad (banheiro de nadar), Brutkasten (caixa de chocar) e Waschküche (cozinha de lavar)13 – para definir mais concretamente a característica de um local, quando são criadas palavras compostas metafóricas e valorizadoras que permitem ao sujeito da fala delimitar-se dos outros, em tudo isso articula-se o desejo de ontologizar por meio da língua (cf. Weisgerber 1950: 198-211).

Essa dupla função que a língua deveria cumprir, referencial e reflexiva, pode ser encontrada voltando atrás na história até na época do iluminismo e da crescente literalização; destarte, a porcentagem média de substantivos compostos dentro de um texto aumenta de 6,8% na segunda parte do século doze para 18,4% na segunda metade do século dezessete. Isto acontece porque as palavras compostas tendem a descontextualizar e objetivar os significados das palavras pelo fato de que o conceito relacionado à palavra não continua dependente da situação, mas sim, é prescrito junto com o composto (cf. Solms 1999: 241). Àgel (1999: 215) vê nessas tendências um despertar da exigência racionalista de uma relação contínua de correspondência entre coisas/ fatos, idéias e signos linguísticos que se consolida quando o ideal de agudeza, de clareza e de decomposição surge em virtude do iluminismo e da literalização da língua. Em contrapartida, a sinonímia e a polissemia, símbolos do barroco, são desvalorizadas pelos iluministas.

Nesse ponto, as funções das línguas alemã e brasileira separam-se. Em vista de uma pluralidade de possíveis realidades que resultam de uma cultura heterogênea, não parece adequado aproveitar a língua como instrumento para copiar uma única realidade; as funções poética e fática substituem a descritiva e explicativa no caso brasileiro14.

Nesse contraste, um outro aspecto vem à luz: a fala brasileira parece ser mais voltada para o diálogo e, por conseguinte, para o público, ao passo que a fala alemã parece ser mais voltada para o monólogo e, com isso, para si mesmo. Segundo o sociólogo norte americano Richard Sennett (1977), a retirada da vida pública é uma consequência que se observa em muitas sociedades modernas e que resulta da invenção da individualidade e do avanço da personalidade de modo que a identidade do homem público divide-se em duas partes: no ator e no espectador. O último aparece como um indivíduo isolado, sem papéis, aspirando à autenticidade:

“By contrast, under a system of expression as the presentation of emotion, the man in public has an identity as an actor - an enactor, if you like - and this identity involves him and others in a social bond. Expressions as a presentation of emotion is the actor’s job - if for the moment we take that word in a very broad sense; his identity is based on making expression as presentation work. When a culture shifts from believing in presentation of emotion to representation of it, so that individual experiences reported accurately come to seem expressive, then the public man loses a function, and so an identity. As he loses a meaningful identity, expression itself becomes less and less social.” (Sennett 1977:108)

Ora, o lado social da expressão é muito mais presente no Brasil do que na Alemanha. Dramatizar, exagerar, citar provérbios e palestrar sobre a vida são todos meios estilísticos que obedecem a regras públicas e que são ritualizados em alto grau no Brasil. Em contraposição a isto, na Alemanha, por um lado, percebe-se a análise da realidade a partir do ponto de vista do observador; por outro lado, a introspecção e a auto-reflexão ocupam o lugar desse estilo brasileiro. Essas tendências alemãs são influenciadas por mais dois fatores histórico-culturais que acompanham a diferenciação funcional da sociedade desde a época do renascimento: a repercussão contínua da escrita sobre a fala e os processos da interiorização que, além da dicotomização descrita da vida privada e pública, também apresentam raízes no protestantismo. Ao invés de um envolvimento em situações naturais, a escrita, como também a auto- observação protestante (cf. Weber 1991), sugerem uma diferença entre o pensar e o ser. A consciência e as fontes do pensamento inconscientes são ontologizadas e entendidas como espaço estável e mental. Com isto, o homem consegue ocupar-se cada vez mais consigo mesmo, uma tendência que é mais salientada nas entrevistas alemãs em comparação com as brasileiras. Desse modo, também Sennett descreve o novo mundo da privacidade como um universo tingido psicologicamente, no qual as gratificações do Eu aumentam porque as ligações emocionais são desengatadas de outras redes sociais e existem apenas como próprio propósito do individualismo (1977: 31). A teatralidade posiciona-se em uma relação hostil à intimidade, as emoções não devem ser mais apenas apresentadas, mas sim, também devem ser sentidas; aí, a expressão pode ser interpretada como signo para o respectivo caráter individual. Linguisticamente, este retorno à comunidade de fala alemã abate-se no “Weg von der höfisch-repräsentativen zur bürgerlich-individualistischen Literatursprache” (“caminho da língua da literatura representativa da corte àquela individualista da burguesia”), com seu auge no romantismo alemão (Polenz 1991: 312).

5 Conclusão

Com base em entrevistas nas duas comunidades de fala, foi ilustrada a aplicação diferente das funções da linguagem nos estilos da fala alemão e brasileiro. Revelou-se que, na fala brasileira, predominam mais as funções fática, poética e expressiva, enquanto, na fala alemã, as funções referencial e metalinguística são mais presentes. O enquadramento desses resultados em um pano de fundo histórico-cultural trouxe à luz a existência de um interjogo de vários fatores culturais – a interação entre protestantismo, literalização, iluminismo e romantismo no caso alemão, e a interação entre o encontro de três etnias distintas, o sincretismo, a vida pública e o estilo barroco no caso brasileiro – que constituem preferências distintas com relação à saliência de certas funções da linguagem.

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