A demarcação de terras indígenas como política linguística
Resumo
Este artigo tem como objetivo ilustrar um exercício de construção teórica a partir dos princípios da pesquisa etnográfica no âmbito da Linguística Aplicada indisciplinar. Em específico, disserto, num relato autoetnográfico, a respeito de como desenvolver trabalho de campo durante oito anos no universo indígena de Santa Catarina, particularmente em comunidades e escolas Guarani, Kaingang e Laklãnõ-Xokleng, assim como em programas de formação de professores da Universidade Federal de Santa Catarina para essas comunidades, tem me levado a fundamentar teoricamente as línguas indígenas enquanto processos sociais, construindo uma resposta à seguinte pergunta: de que forma é possível fundamentar teoricamente a demarcação de terras enquanto política indispensável para o fortalecimento das línguas indígenas?
Referências
AFFONSO, A. M. R. Y. De pessoas e palavras entre os Guarani-Mbya. 2014. 380 f. Tese (Doutorado em Antropologia) - Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Niterói/RJ.
BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São Paulo: Hucitec, 2006.
BLOMMAERT, J. Ethnography and democracy: Hymes’s political theory of language. Text & Talk, v. 29, n. 3, p. 257–276, 2009.
BLOMMAERT, J.; DONG J. Ethnographic fieldwork: a beginner’s guide. Bristol: Multilingual Matters, 2010.
BORGES, L. C. Os Guarani Mbyá e a categoria tempo. Tellus, v. 2, n. 2, p. 105- 122, 2002. Disponível em: http://www.tellus.ucdb.br/index.php/tellus/article/view/14/24. Acesso em: 29 jan. 2019.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Texto constitucional promulgado em 5 de outubro de 1988, com as alterações determinadas pelas Emendas Constitucionais de Revisão nos 1 a 6/94, pelas Emendas Constitucionais nos 1/92 a 91/2016 e pelo Decreto Legislativo no 186/2008. Brasília: Senado Federal, Coordenação de Edições Técnicas, 2016. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/518231/CF88_Livro_EC91_2016.pdf. Acesso em: 29 jan. 2019.
BRIGHENTI, C. A. Terras Indígenas em Santa Catarina. In: NÖTZOLD, A. L. V.; ROSA, H. A.; BRINGMANN, S. F. (eds.). Etnohistória, história indígena e educação: contribuições ao debate. Porto Alegre: Pallotti, 2012. p. 255-277.
BRIGHENTI, C. A.; NÖTZOLD, A. L. V. Educação guarani e educação escolar: Desafios da experiência mbya e nhandeva. Cadernos do LEME, v. 2, n. 2, p. 22–40, 2010. Disponível em: http://www.leme.ufcg.edu.br/cadernosdoleme/index.php/e-leme/article/view/24/22. Acesso em: 29 jan. 2019.
CAVALCANTI, M. C. Applied Linguistics: Brazilian perspectives. AILA Review, v. 17, p. 23-30, 2004.
CIMI - Conselho Indigenista Missionário. Relatório violência contra os povos indígenas no Brasil – dados de 2016. Disponível em: https://www.cimi.org.br/pub/relatorio/Relatorio-violencia-contra-povos-indigenas_2016-Cimi.pdf. Acesso em: 29 jan. 2019.
CLIFFORD, J. Introduction: partial truths. In: CLIFFORD, J.; MARCUS, G. E. (eds.). Writing culture: the poetics and politics of ethnography. Berkeley & Los Angeles: University of California Press, 1986. p. 1-26.
D’ANGELIS, W. R. Aprisionando sonhos: a educação escolar indígena no Brasil. Campinas: Curt Nimuendajú, 2012.
DAVIES, C. A. Reflexive ethnography: a guide to researching selves and others. Londres; Nova Iorque: Routledge, 1999.
ERICKSON, F. Qualitative methods. In: LINN, R. L.; ERICKSON, F. (eds.). Qualitative methods: a project of the American Educational Research Association. Londres; Nova Iorque: Macmillan Publishing Company, 1990. p. 75-194.
FERNANDES, R. C.; PIOVEZANA, L. Perspectivas kaingang sobre o direito territorial e ambiental no sul do Brasil. Ambiente & Sociedade, v. 18, n. 2, p. 115-132, 2015.
GARCÉS, F. Las políticas del conocimiento y la colonialidad lingüística y epistémica. In: CASTRO-GÓMEZ, S.; GROSFOGUEL, R. (eds.). El giro decolonial. Reflexiones para una diversidad epistémica más allá del capitalismo global. Bogotá: Siglo del Hombre Editores, Universidad Central, Instituto de Estudios Sociales Contemporáneos, Pontificia Universidad Javeriana, & Instituto Pensar, 2007. p. 217-242.
GARCÍA, O. Bilingual education in the 21st century: a global perspective. West Sussex: Wiley Blackwell, 2009.
GEERTZ, C. The interpretation of cultures: selected essays by Clifford Geertz. Nova Iorque: Basic Books, 1973.
GUEROLA, C. M. “Às vezes tem pessoas que não querem nem ouvir, que não dão direito de falar pro indígena”: A reconstrução intercultural dos direitos humanos linguísticos na escola Itaty da aldeia guarani do Morro dos Cavalos. 2012. (Dissertação em Linguística) – Centro de Comunicação e Expressão, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. Disponível em: http://www.bu.ufsc.br/teses/PLLG0513-D.pdf. Acesso em: 28 jan. 2019.
GUEROLA, C. M. A reconstrução intercultural dos direitos humanos linguísticos escolares guarani: horizontes sociais e letramento. Trabalhos em Linguística Aplicada, v. 53, p. 225-241, 2014. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S0103-18132014000100012. Acesso em: 28 jan. 2019.
GUEROLA, C. M. A disciplinarização letrada das línguas indígenas no Sul do Brasil: uma abordagem discursiva. Estudos Linguísticos, v. 44, p. 559-573, 2015a. Disponível em: https://revistas.gel.org.br/estudoslinguisticos/article/view/994/576. Acesso em: 28 jan. 2019.
GUEROLA, C. M. Proporcionar aos índios a valorização das suas línguas?! Problemas discursivos na diferenciação da escola indígena. Revista Brasileira de Linguística Aplicada, v. 15, p. 779-807, 2015b. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/1984-639820156311. Acesso em: 28 jan. 2019.
GUEROLA, C. M. “Os alunos teriam que estudar para poder comprar comida”: a escola guarani como necessidade, obrigação e direito. Revista Brasileira de Educação, v. 22, p. 1-25, 2017a. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/s1413-24782017227159. Acesso em: 28 jan. 2019.
GUEROLA, C. M. “Se nós não fosse guerreiro nós não existia mais aqui”: ensinoaprendizagem de línguas para fortalecimento da luta Guarani, Kaingang e Laklãnõ-Xokleng. 2017b. Tese (Doutorado em Linguística) – Centro de Comunicação e Expressão, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. Disponível em: http://tede.ufsc.br/teses/PLLG0674-T.pdf. Acesso em: 28 jan. 2019.
GUEROLA, C. M. Guarani, Kaingang e Laklãnõ-Xokleng em Santa Catarina: Terra, história e política linguística. PAPIA, v. 28, p. 51-81, 2018. Disponível em: http://revistas.fflch.usp.br/papia/article/view/3031/pdf. Acesso em: 29 jan. 2019.
HARRIS, R. Integrationism: a very brief introduction. 2010. Disponível em: http://www.royharrisonline.com/integrational_linguistics/integrationism_introduction.html. Acesso em: 29 jan. 2019.
HARVEY, D. Justice, nature and the geography of difference. Oxford: Blackwell, 1996.
HEATH, S. B.; STREET, B. On ethnography: approaches to language and literacy research. New York: Teachers College Press, 2008.
KLEIMAN, A. O estatuto disciplinar da Linguística Aplicada: o traçado de um percurso, um rumo para o debate. In: SIGNORINI, I.; CAVALCANTI, M. C. (eds.). Linguística Aplicada e transdisciplinaridade. Campinas: Mercado de Letras, 1998. p. 51-77.
KLEIMAN, A. ; CAVALCANTI, M. C. O DLA: uma história de muitas faces, um mosaico de muitas histórias. In: KLEIMAN, A.; CAVALCANTI, M. C. (eds.). Linguística Aplicada: suas faces e interfaces. Campinas: Mercado de Letras, 2007. p. 9-26.
KLEIMAN, A. Agenda de pesquisa e ação em Linguística Aplicada: problematizações. In: MOITA LOPES, L. P. (ed.). Linguística aplicada na modernidade recente: Festschrift para Antonieta Celani. São Paulo: Parábola, 2013. p. 39-58.
LOCH, S. Arquiteturas xoklengs contemporâneas: uma introdução à antropologia do espaço na Terra Indígena de Ibirama. 2004. Dissertação (Doutorado em Antropologia Social) - Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/88156/205561.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 29 jan. 2019.
MAANEN, J. Tales of the field. On writing ethnography. Chicago: The University of Chicago Press, 1988.
MAKONI, S.; PENNYCOOK, A. Disinventing and reconstituting languages. In: MAKONI, S.; PENNYCOOK, A. (eds.). Disinventing and reconstituting languages. Clevedon: Multilingual Matters, 2006. p. 1-41.
MASON, J. Qualitative researching. London: SAGE, 1996.
MOITA LOPES, L. P. A transdisciplinaridade é possível em Linguística Aplicada? In: SIGNORINI, I.; CAVALCANTI, M. C. (eds.). Linguística Aplicada e transdisciplinaridade. Campinas: Mercado de Letras, 1998. p. 113-128.
MOITA LOPES, L. P. Linguística aplicada e vida contemporânea: problematização dos construtos que têm orientado a pesquisa. In: MOITA LOPES, L. P. (ed.). Por uma Linguística Aplicada indisciplinar. São Paulo: Parábola, 2006a. p. 85-107.
MOITA LOPES, L. P. Uma linguística aplicada mestiça e ideológica: interrogando o campo como linguista aplicado. In: MOITA LOPES, L. P. (ed.). Por uma Linguística Aplicada indisciplinar. São Paulo: Parábola, 2006b. p. 13-44.
NACKE, A.; BLOEMER, N. M. S. As áreas indígenas Kaingang no oeste catarinense. In: NACKE, A. (ed.). Os Kaingang no Oeste Catarinense: tradição e atualidade. Chapecó: Argos, 2007. p. 43-77.
PENNYCOOK, A. Language as a local practice. Abingdom & New York: Routledge, 2010.
SALVARO, T. D. De geração em geração e o lápis na mão: o processo de revitalização da língua kaingang na educação escolar indígena/Terra Indígena Xapecó - SC. 2009. Dissertação (Mestrado em história) - Centro de Filosofia e Ciências Humanas - Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/xmlui/bitstream/handle/123456789/93325/263916.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 29 jan. 2019.
SANTOS, S. C. A barragem de Ibirama e os índios. Geosul, v. 2, n. 4, p. 42-47, 1987. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/geosul/article/view/12673. Acesso em: 29 jan. 2019.
SIGNORINI, I. Do residual ao múltiplo e ao complexo: o objeto da pesquisa em Linguística Aplicada. In: SIGNORINI, I.; CAVALCANTI, M. C. (eds.). Linguística Aplicada e transdisciplinaridade. Campinas: Mercado de Letras, 1998. p. 99-110.
SILVA, S. B. Dualismo e cosmologia kaingang: o xamã e o domínio da floresta. Horizontes Antropológicos, v. 8, n. 18, p. 189-209, 2002. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ha/v8n18/19062.pdf. Acesso em: 29 jan. 2019.
SOUSA SANTOS, B. Descolonizar el saber, reinventar el poder. Montevideo: Trilce, 2010.
SOUZA, L. M. T. M. Entering a culture quietly: writing and cultural survival in indigenous education in Brazil. In: MAKONI, S.; PENNYCOOK, A. (eds.). Disinventing and reconstituting languages. Clevedon: Multilingual Matters, 2006. p. 135-169.
SPRY, T. Performing autoethnography: an embodied methodological praxis. Qualitative Inquiry, v. 7, n. 6, p. 706-732, 2001. Disponível em: http://www.nyu.edu/pages/classes/bkg/methods/spry.pdf. Acesso em: 29 jan. 2019.
WEBER, C. Tornar-se professora Xokleng/Laklãnõ: escolarização, ensino superior e identidade étnica. 2007. Dissertação (Mestrado em Educação) - Centro de Ciências da Educação - Universidade Federal de Santa Catarina,
Florianópolis. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/90249/247688.pdfsequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 29 jan. 2019.
WIIK, F. B. Doenças e transformação sociocultural entre os índios Xokleng. Revista de Divulgação Cultural, v. 20, n. 64, p. 59-67, 1998.
WITTMANN, L. T. Atos do contato: histórias do povo indígena Xokleng no Vale do Itajaí/SC (1850-1926). 2005. Dissertação (Mestrado em História) - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Campinas. Disponível em: http://repositorio.unicamp.br/bitstream/REPOSIP/281423/1/Wittmann_LuisaTombini_M.pdf. Acesso em: 29 jan. 2019.