Resumo

Resenha.

Epígrafe

Um número crescente de livros a respeito da história dos estudos sobre línguas e linguagem vem sendo publicado no Brasil, caracterizando um momento de maior interesse sobre o passado, o desenvolvimento e os estágios atuais da lingüística. Tal fato aparece em boa hora, uma vez que é necessário, sempre, recolocar a importância, para o lingüista, do conhecimento dos períodos iniciais e do desenvolvimento, ao longo do tempo, de seu campo de estudos.

A publicação da cuidadosa tradução do livro de Barbara Weedwood, professora e pesquisadora neozelandesa nas áreas da história da lingüística e da lingüística antropológica, insere-se nessa corrente de publicações.

História Concisa da Lingüística é um manual de introdução à história da lingüística, como o próprio título evidencia. No entanto, não se deve pensar de antemão que a história proposta é realizada longe de pesquisas e acuradas observações, as quais acabam por revelar o amplo trabalho e a experiência da pesquisadora na área. Mesmo seguindo o objetivo da concisão, o livro de Barbara Weedwood consegue transmitir não só a segurança das afirmações precisas a respeito de momentos-chave nos estudos sobre línguas e linguagem, como também consegue incitar nossa curiosidade, abrindo um canal para que o leitor passe a se interessar mais pela história da lingüística, cumprindo, dessa maneira, o que deve ser o papel dos manuais introdutórios: incentivar pesquisas e leituras posteriores.

Num estilo claro e preciso, conservado pela tradução (que teve o cuidado de adaptar exemplos para melhor compreensão do leitor brasileiro), a autora nos leva a reflexões sobre os períodos conhecidos como fundamentais no desenvolvimento de teorias lingüísticas. Mas, diferentemente de diversos manuais de história da lingüística, a autora não deixa de lado a reflexão sobre o trabalho historiográfico, com breves, mas precisas, considerações. Nesse sentido é que vemos colocações a respeito do tratamento reduzido, nas pesquisas do mundo ocidental, das tradições não-ocidentais nos estudos sobre a história da lingüística. Se a autora não aprofunda tal reflexão, ela nos deixa a afirmativa certeira, mas incrivelmente ausente em muitos manuais, de que a escassez de abordagens sobre essas tradições não-ocidentais é derivada do fato, simples mas nem sempre dito, de que estudos como os dos chineses, árabes e indianos (em períodos anteriores à era cristã) tiveram influência quase nula sobre nossa tradição lingüística.

Nos comentários introdutórios, a autora nos indica sua maneira de fazer história da lingüística, situada num campo reconhecidamente dividido em três formas diversas de realização (complementares, na opinião de Barbara Weedwood): os estudos anglo-americanos (mais dedicados à relação entre estudos lingüísticos e os ambientes históricos e socioculturais); os estudos franceses (concentrados na pesquisa das idéias lingüísticas inseridas na história cultural); os trabalhos alemães (interessados numa aplicação dos instrumentais da filosofia à história da lingüística).

Após os comentários introdutórios (pp.9-20), a autora inicia sua história da lingüística, dividindo-a pelos aspectos que considera mais importantes em cada época.

O início, como não podia deixar de ser para a tradição ocidental dos estudos lingüísticos, é na Grécia e na Roma clássicas, na parte chamada A tradição ocidental até 1900 (pp.21-101). A autora trata da importância da linguagem para os filósofos gregos como meio de compreensão da realidade, com abordagens a respeito da ‘teoria da letra’ (que tanta influência exerceria em todo o processo de ‘gramatização’ ocidental), dos estudos etimológicos (com elucidativos comentários sobre o Crátilo de Platão) e de que forma essa tradição greco-romana chegou na Idade Média e se diversificou na tradição de estudos especulativos.

É preciso ressaltar que a autora faz afirmações de forma direta e didática, mas sempre abrangentes o suficiente para nos iluminar a compreensão, como na passagem que destacamos a seguir, sobre a influência da gramaticografia grega sobre a romana: “Uma importantíssima conseqüência da filtragem da doutrina gramatical grega pelos romanos, conseqüência visível até hoje nos compêndios gramaticais normativos, é o que poderíamos chamar de ‘teoria da frase auto-suficiente’” (p. 34). Se a afirmação não nos diz algo original sobre o tema, indica-nos uma reflexão importante e que deve estar presente em histórias da lingüística, mas nem sempre está, uma vez que é comum ver comentários superficiais sobre a transferência de saberes gramaticais entre Grécia e Roma. Ainda na análise da tradição clássica ocidental, Barbara Weedwood informa sobre aspectos particulares dos estudos que aborda, o que acaba conferindo um sabor especial à sua história da lingüística, oferecendo em meio a abrangências dados mais específicos que podem motivar leituras futuras. Tal característica pode ser observada no comentário breve que faz sobre o fato de ter sido introduzido apenas no século XIX o hábito de colocar exercícios em gramáticas normativas (p. 39).

A análise dos estudos gramaticais do Renascimento segue a da tradição clássica. A autora destaca o período renascentista por achar que nesse momento histórico foram feitas importantes conquistas nos estudos sobre as línguas, principalmente na caracterização de uma gramaticografia dividida entre descrições que buscavam particularidades das diversas línguas (matriz da futura tradição dos estudos histórico-comparativos) e as que procuravam princípios universais manifestados também em diversas línguas (a gramática geral).

Como não poderia deixar de ser, o capítulo A Lingüística no século XIX (pp.103-123) trata dos estudos reconhecidos consensualmente pela historiografia como sendo o marco do início dos estudos científicos da lingüística. Vemos nesta parte as já tradicionais abordagens dos trabalhos de Humboldt, dos neogramáticos, e também uma didática exposição do que seria o método comparativo de análise lingüística. Entre as descrições dos estudos lingüísticos do século XIX, pode-se observar uma característica necessária aos estudos de caráter histórico (evidenciando mais um cuidado no trabalho da autora): a elucidação da metalinguagem de períodos anteriores ao contemporâneo. Diz Barbara Weedwood sobre o termo ‘aspirado’, tão utilizado na lingüística antes de seu chamado período científico: “É bom notar que o termo ‘aspirada’ usado por Grimm cobria categorias tão foneticamente distintas quanto oclusivas aspiradas (BH,PH), produzidas com uma emissão de ar audível, e fricativas (F), produzidas com uma fricção audível em conseqüência da oclusão incompleta do ar vocal” (p.105).

A quarta e última parte, A Lingüística no século XX (pp.125-155), trata dos estudos estruturalistas, divididos nas correntes européia (iniciada com Saussure) e americana (os trabalhos de Boas, Sapir e Bloomfield). Também são abordados os estudos da gramática gerativo-transformacional, as reações ao trabalho de Chomsky, a Escola de Praga e o funcionalismo. A autora ainda faz referência, conferindo um inevitável aspecto de atualização ao livro, aos estudos pragmáticos e ao trabalho de Bakhtin.

O tratamento dos estudos lingüísticos do século XX tem início com a autora destacando o aspecto de continuidade na lingüística no tratamento de algumas questões, ao afirmar que “[n]a lingüística do século XX, vamos encontrar a mesma tensão das épocas anteriores entre o foco ‘universalista’ e o foco ‘particularista’ na abordagem dos fenômenos da língua e da linguagem” (p.125). Tal aspecto já podia ser verificado, com destaque, na produção de gramáticas no período renascentista. Também o surgimento de outros campos da pesquisa lingüística é apontado pela autora como uma das características da ciência lingüística do século XX; ao lado da chamada ‘lingüística dura’, há as pesquisas associadas a outros campos de saber das ciências humanas, como os estudos sociolingüísticos, psicolingüísticos, da lingüística antropológica, da filosofia da linguagem e os de análise do discurso.

Seria interessante que a autora tivesse escrito uma conclusão deste estudo introdutório, destacando aqueles períodos da lingüística que se caracterizaram como momentos de continuidade ou de descontinuidade no tratamento de questões centrais dos estudos sobre línguas e linguagem, uma vez que esse tipo de comentário é sugerido em algumas passagens do livro.

Um Guia de Leitura (pp.157-160), indicando outros manuais de história da lingüística e também estudos mais específicos, e um funcional “índice de autores e obras fundamentais” (pp.161-165) encerram o livro.

A leitura da história da lingüística de Barbara Weedwood, além de ser feita com prazer, pode nos indicar uma forma de fazer um manual introdutório sobre o desenvolvimento dos estudos sobre línguas e linguagem. Importante destacar, mais uma vez, os breves e precisos comentários analíticos da autora, fornecendo evidências ao leitor do que de mais importante se deve saber sobre as fases da história da lingüística. Além do fato de que são exatamente as pertinentes observações analíticas que instigam a curiosidade do leitor para a busca de informações mais aprofundadas. Nesse sentido, é louvável a decisão da tradução brasileira de fazer um guia de leitura, orientando aquele que se interessar pela história dos estudos lingüísticos.

Referências

  1. História Concisa da Lingüística Webwood B.. São Paulo: Parábola; 2002.