Resumo

Este artigo tem por objetivo demonstrar, através da análise das cartas de D. Catarina de Bragança a D. Pedro II, do século XVII, a intersecção entre forma e conteúdo que pode estar em jogo na edição de um texto manuscrito de épocas pretéritas. 

Introdução

Neste artigo, damos continuidade a notícias anteriores (COHEN, 1995, 1998) sobre a edição das cartas da rainha Catarina de Bragança (1638-1705), a seu irmão D. Pedro II, rei de Portugal, ainda em elaboração (LIMA, 2009; CATÃO, MELO, COHEN, 2012) . Escritas em português entre 1662 a 1685, essas cartas são um raro testemunho da escrita feminina dessa época. Catarina foi a rainha de Carlos II, da dinastia de Stuart, ou seja, rainha da Inglaterra, de 1662, ano de seu casamento a 1685, ano da morte do monarca. As cartas que aqui se analisam são circunscritas a esse período.

Como já observado por outros, foi um hábito raro das senhoras portuguesas registrarem, seja por diários, como por cartas, seus anseios e aspirações. Muito pouco nos chegou dessas damas, principalmente desse século, que contando com expoentes como o Padre Antônio Vieira, tão pouco deixa de escrita feminina.

Além de seu valor como escrita feminina, as cartas são redigidas em um não menos raro registro linguístico da língua portuguesa do século XVII. Uma vez serem cartas missivas, em que muito dos problemas particulares de Catarina são endereçados a seu irmão, de quem ela espera ajuda, seu estilo é bastante informal. Revela alguns padrões interessantes da língua da época, período muito pouco explorado linguisticamente, como a predominância da próclise, cujo estudo está em andamento.

Essas cartas estão guardadas no Department of Manuscripts, do British Museum, Inglaterra, sob o no. 1534 da coleção Egerton. Trabalhamos, para sua transcrição, com 1 cópia microfilmada e 1 digitalizada, além de termos feito duas visitas de reconhecimento do original. Embora tenha coletado dados desse manuscrito há mais tempo, - fizemos de fato uma cópia manual de 1/3 das cartas nos anos 1980, quando coletávamos dados linguísticos do português do século XVII-, somente após o advento das facilidades da informática, da digitalização, nos foi possível dar um tratamento adequado à transcrição e edição desse manuscrito.

Nesse códice há 88 cartas: 83 são autógrafas de Catarina, 3 são de D. Pedro à Catarina, 2 são do Padre Manoel Dias, seu capelão.

Catarina casa-se com Carlos como parte do acordo feito entre Portugal e Inglaterra, por iniciativa de D. Luísa de Gusmão, mãe de Catarina. Como explicitamos anteriormente, em Cohen (1998:92): “Foi parte de um tratado entre os dois países, quando se restaurou a monarquia na Inglaterra após onze anos da república de Cromwell- e resolveu os problemas financeiros de Carlos II, até então exilado e tentando reaver seu direito ao trono. Ao embarcar a infanta, segundo Livermore (1947) e outros historiadores, esta leva de dote um milhão de cruzados (correspondentes a 300.000 libras), e outro milhão após um ano.(...) Além desse dote, Inglaterra recebia Bombaim e Tânger, pontos estratégicos importantes e comércio livre no Brasil- na Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro-, e na Índia- em Goa, Cochim e Diu. Em troca, Catarina teria liberdade de credo e Portugal teria reforço por mar e terra em caso de ataque da parte de Espanha e Holanda.

A aliança foi, portanto, vantajosa para a Inglaterra, que, segundo consta, nunca ofereceu real proteção a Portugal, tendo a corte inglesa abertamente hostilizado a rainha católica, chegando a mesma a ser injustamente denunciada ao Parlamento sob a alegação de armar uma conspiração para matar o rei e os católicos tomarem o poder, por volt de 1678.”

Sua vida tem sido narrada, embora bastante romanceada, em várias publicações recentes e mesmo mais antigas. Há uma boa iconografia espalhada em museus e castelos pela Inglaterra, Escócia e Portugal. São pinturas de várias fases de sua vida, desde mais jovem até mais madura. Em Lisboa encontram-se estátuas da rainha, como a do Largo da Bem- Posta e uma outra doada pela comunidade portuguesa do bairro Queens em Nova Iorque.

Trazemos aqui a imagem de uma dessas estátuas1:

Figure 1.

FIGURA 1: Catarina de Bragança, no Largo da Bem-Posta, em Lisboa 2 .

Há crônicas coetâneas a seu casamento pela Officina de Henrique Valente de Oliueira, 16623, que relatam a jornada da rainha depois de seu casamento em abril de 1662 até sua entrada em Londres, acompanhada do rei, em setembro do mesmo ano. Ela aí vive, como rainha, de 1662, com alguns poucos deslocamentos, até 1685, quando lhe falece o rei, e desse ano até 1692, quando retorna à sua terra natal, como a rainha viúva.

As cartas que examinamos são desse período de viuvez, em que ela plangentemente pede ao irmão que facilite seu retorno a Portugal. Ela temia causar uma crise nas relações entre Portugal e Inglaterra se retornasse à sua pátria sem a anuência e apoio de seu irmão, D. Pedro, o rei de Portugal. Também como portuguesa não poderia partir sem o concurso de um embaixador português, que a assistisse no necessário para sua volta; a etiqueta portuguesa não lhe teria permitido essa liberdade. A animosidade dos ingleses para com ela, acentuada depois da morte do rei, o precário estado de sua saúde, o clima, tudo tornou-se desfavorável à vida de Catarina na corte inglesa. Portanto, nesses 7 anos ela insistentemente roga ao irmão que lhe facilite a volta a Portugal; as cartas se sucedem umas às outras.

Catarina conquistou o respeito da corte inglesa, a despeito das características que não a favoreciam: era morena, católica, e não deu filhos ao rei. Seus hábitos rigorosos de vida em nada combinavam com os de uma das mais dissolutas cortes da época e ela, tendo sido criada em um convento, era de todo despreparada para esse ambiente. O rei não lhe era fiel e tomava suas damas de companhia como amantes. Mesmo assim sendo, teve o respeito e amor dele e aos poucos integrou-se à sociedade inglesa, assistindo-o como uma secretária, participando das decisões que ele tomava. Há testemunhos de que se interessava por teatro, jogava cartas e era exímia jogadora de arco e flecha.

A cartas são, no entanto, silenciosas quanto a esses aspectos de sua vida, de sua personalidade, uma vez serem de seu período de viuvez, de quando já não atuava na corte como rainha. Os temas que conseguimos extrair de sua leitura são: lamento/tristeza; desejo de retornar a Portugal; afeto/ amor pelo irmão; referência a fatos históricos.

O trabalho de transcrição está em fase de revisão final e dentre muitos outros aspectos passíveis de análise escolhemos trazer o problema da datação dessas cartas, pois temos o intuito de coloca-las em ordem cronológica.

1. A datação das cartas

A datação das cartas é tarefa que nos propusemos e que depende de outras etapas da edição estarem avançadas, como a de sua completa transcrição. Como já mencionamos em trabalhos anteriores (COHEN, 1995, 1998), as cartas de Catarina de Bragança não são datadas, ou completamente datadas. Muitas não possuem nenhuma indicação do dia, mês ou ano em que foram escritas. Outras têm apenas o dia e o mês, mas não o ano, como a que copiamos abaixo, em que a rainha escreve: “oje, 28 de outubro”, mas não coloca o ano:

Figure 2.

Apenas a carta no. 105 (numeração do BM, Imagem 166r) tem a data completa: junho 4 1690, ou seja, 4 de junho de 1690. Consequentemente a sequência em que foram encadernadas não reflete a diacronia das cartas. Nossa tentativa é de datá-las e assim conseguir colocá-las na diacronia correta.

Figure 3.

FIGURA 3: Carta de 4 de junho de 1690 (Imagem 166r)

Antes de abordarmos a diacronia da datação das cartas, uma explicitação sobre a parte material do documento é necessária.

A cópia digitalizada que utilizamos tem 266 imagens, com 176 fólios que contêm as cartas propriamente (88), os resumos, alguns envelopes e fólios em branco. A informação de que são 176 fólios é manuscrita, depois do último fólio. A capa é em couro, a lombada, dourada.

As cartas foram acondicionadas em um volume de folhas duras (cartolina), que deixam uma aba de tamanho variável ao meio. Na extremidade dessa a carta é colada (e/ou presa por um fio de linha vermelha).

Da compulsão do manuscrito fica evidente que pelo menos duas tentativas de numeração das cartas foram feitas. À atual numeração superpõe-se a uma outra. A partir da carta no.55 (Imagem 085) isso fica claro, pois há um número riscado e abaixo um outro, com esta no. 55 (com 39 riscado):

Figure 4.

FIGURA 4: Numeração da carta 55 (Imagem 085)

Na carta 59 um número foi sobrescrito a outro, que não se consegue decifrar. A de número 66 tem um 44 bem desbotado acima. A de número 70 também se superpõe a outro número. A de número 110 tem claramente um outro número riscado com dois traços, como também a 115, a 116, a 118, a 121, 124, 126, 127, 132, 140, 147, 165 e outras.

Figure 5.

FIGURA 5: Numeração da carta 116 (Imagem 174)

A 1ª. pessoa que numerou as cartas parece ter marcado apenas o primeiro fólio de cada uma, enquanto a numeração mais recente leva em conta o recto dos fólios, incluindo os em branco, perfazendo o total dos 176 fólios. Nenhuma das numerações guarda a ordem cronológica das cartas. Na proposta de numeração que apresentamos consideraremos os versos dos fólios também e colocaremos as cartas em sua ordenação cronológica.

Para procedermos a essa diacronia, e antes de efetivá-la, foi necessária a identificação dos cadernos em que as cartas se organizam.

O caderno básico é composto da seguinte forma:

1. Caderno modelo

1.1. 1 recto: escrito

1.2. 1 verso: em branco

1.3. 1 recto: em branco

1.4. 2 verso: com o resumo do conteúdo da carta.

Portanto, o padrão básico da carta é ter 4 fólios em 1 caderno.

Há variações: algumas vezes o 1v tem ou a continuação da carta de 1r ou uma outra, que continua no fólio seguinte: 2r.

Mostramos abaixo uma carta, a título de exemplificação do trabalho de reordenação/edição elaborado.

Esta carta, numerada no canto superior direito como no. 4, é a imagem 008 da cópia digitalizada do ms. Egerton 1534 do BM. A 1ª. imagem ocupa o fólio 4r.

Figure 6.

FIGURA 6: Fólio 4r, à direita (Imagem 008)

A seguinte é a imagem dos Fólios 4v e 5r, respectivamente, que estão em branco, (imagem 009): no fólio 4v há apenas um carimbo do Museu Britânico. O 5r está em branco, sem data

Figure 7.

FIGURA 7: Fólios 4v e 5r (Imagem 009)

Em seguida, apresenta-se o fólio 5v (Imagem 010): com o resumo da carta, que reproduzimos em transcrição modernizadora: “Pede a brevidade da sua jornada, a despeito de seus achaques”.

Figure 8.

FIGURA 8: Fólio 5v

Segue a transcrição conservadora desta carta, a título de exemplificação das transcrições feitas. As normas de transcrição utilizadas são as que constam de COHEN (2010), que são por sua vez uma adaptação de normas correntes no Brasil. A principal diferença refere-se ao tratamento das abreviaturas que em nossas transcrições não são desenvolvidas no texto, mas num glossário à parte.

L

Meu bom Irmão ja la vos tera che gado a ultima que vos escrevi da data de 7 de Abrill e porque naquella

5 occazião vos manifestei ao largo o que por vezes vos tenho reprezentado,

e faltando me a vossa resposta effetiva,

o torno a fazer lembrandovos, q os meus achaques são tão rixos e ariscados

10 q’ não permitem dilações, não mos di- minuindo a grande violencia q’ a

mi mesma me faço vivendo aqui, peçovos q’ considereis esta verdade consultando o so com muito q’ o meu

15 affecto [vem] vos merece q’ se asi o fizer des eu me seguro de melhor rezulução

q’ a de me ver aqui no perigo em que a mi nha vida se acha asi por falta de gos

to como por o clima ser encontrado a

20 minha indisposição se ela me conse dera o poder dillatar me mais eu o fi- zera mas ja me falta a respiração, fican do me so para vos pedir as novas da vossa saude 2 de mayo I Amantissima C

Figure 9.

FIGURA 9: Realçando a imagem original, à esquerda: 2 de mayo

Como se vê, seja no original e seja em sua transcrição, ao final, à linha 24, a data é 2 de maio, mas não há o ano. A hipótese é de que seja de 1687, sendo uma das primeiras cartas enviadas pela rainha.

Estamos elaborando uma datação e consequente ordenação aproximada para essas cartas. Dentro desse período conseguimos identificar blocos de cartas, pertencentes a determinados períodos de tempo, tomando uma combinação de fatores como parâmetro norteador. O primeiro deles é a presença das 3 cartas datadas de D. Pedro a Catarina : 17 de dezembro de 1685, 1 de março de 1689, 24 de fevereiro de 1690.O segundo é a existência de um bloco de 13 cartas todas escritas de Windsor e de Somerset House que são numeradas pela própria Catarina, cujas datas podem ser deduzidas de referências a fatos históricos; o terceiro é interno às próprias cartas, relativo ao seu conteúdo associado ao que delas se diz na obra de Augusto Casimiro (1954); o quarto são as cartas já de sua viagem de volta a Portugal, em 1992, cujos lugares onde foram escritas e o tema nos indicam de que período são (Mullins, na França, Avignon, na França, Almeida, Portugal).Observe-se que no códice do Museu Britânico, a de Almeida é a Imagem no. 030, no. 19 na numeração manuscrita no canto direito, logo do início da coletânea. Na nossa proposta, será a última.

Umas das de D. Pedro, de 17 de dezembro 1865, vai abrir a coleção. Este é o ano da morte de Carlos II, em 6 de fevereiro deste mesmo ano. A de Almeida, Portugal, será a última da jornada de Catarina de volta à sua terra natal, de dezembro de 1692. Assim começa: “Almeida 30 de Dezembro/o grande Alvorosso, com q’me/ acho he inexplicável (...)”

Até o momento conseguimos colocar em ordem cronológica 55 das 88 cartas do ms. Egerton 1534. Muito mais será elucidado no decorrer desse trabalho, e espero possamos entender a saga de Catarina através de suas cartas pessoais, a seu irmão, através da leitura das cartas devidamente ordenadas em sua ordem cronológica.

Conclusão

Constatamos que a análise do conteúdo das cartas é de fundamental importância para resolver este quebra-cabeças aparentemente formal, o da sua numeração numa sequência cronológica, para que o futuro leitor possa entender a trama da narrativa. O que parecia ser um dos aspectos exclusivamente materiais do manuscrito revelou-se dependente de uma interpretação do conteúdo das cartas, um problema de forma e conteúdo, portanto, de como o material associa-se ao conteúdo nesse tipo de análise.

Referências

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CATÃO, Cíntia; MELO, Lívia, COHEN, M A. Edição de documento inédito do século XVii: Revisão e contextualização. SIC Conhecimento e Cultura. UFMG. 2012.

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COSTA, Pe. Avelino de Jesus da. Normas Gerais de transcrição e publicação de documentos e textos medievais e modernos. 3ª. Ed., Coimbra, 1993.

LIMA, Cassandra C. & Cohen. M. A. Preparação de material para o estudo lingüístico da língua portuguesa seiscentista através da edição das Cartas inéditas de Catarina de Bragança. XVIII SIC. UFMG. 2009.

OLIVEIRA, Henrique Valente de. Relaçam diaria da Jornada qve a serenissima raynha da Gram Bretanha D. Catherina fez de Lisboa a Londres, jndo já desposada com Carlos IJ, rey daquelle reyno e das festas, qve se fizeram até entrar em seu palácio, Anno de 1662. Lisboa, 1662.

PEARSON, Hesketh. Charles ii, his life and likeness. London: Heineman, 1960.

RAU, Virgínia. Dona Catarina de Bragança. Rainha de Inglaterra. Coimbra: Coimbra Editora, 1945.

SANTOS, Diana F. dos santos et al. D. Catarina de Bragança e o Paço da Rainha [1705-2005]. Lisboa: Europress, 2005.

Recebido em 10/10/2016 e aceito em 06/12/2016.