Resumo

Este artigo tem por objetivo analisar discursivamente como se constroem novas formas de representar a obra O Dialeto Caipira de Amadeu Amaral (1920) a partir de um funcionamento discursivo próprio de cada narrador-produtor – Castro (2006) e Rodrigues 1974) – tomando como base teórica a noção de narrativa do acontecimento de Guilhaumou (2009). 

Introdução

Amadeu Amaral é considerado, entre muitos estudiosos, um dos “fundadores” da dialetologia brasileira isto porque um de seus mais relevantes trabalhos é O Dialeto Caipira publicado em 1920. Trata-se de uma obra de referência na história da dialetologia brasileira, pois sua presença contribuiu para que especialistas da área acentuassem a importância de uma nova orientação nos estudos da língua, a nosso ver, um verdadeiro acontecimento na história da linguística no Brasil.

Ademais, a obra empreende um metodologia orientada por princípios rigorosos que o estudioso considerou indispensáveis na investigação dialetológica e que conferiram confiabilidade à sua descrição, como, por exemplo, a rejeição de dados não verificados pessoalmente por ele que, vale ressaltar, era um autodidata e desenvolveu seu estudo sem o respaldo de centro universitário de pesquisa em São Paulo, ainda não implementado na época. Além disso, não podia contar com um instrumento de pesquisa, pela falta de invenção, que praticamente revolucionou o modo de produção das pesquisas científicas linguísticas, sobretudo as que lidavam e lidam com os aspectos fonológicos das línguas, a partir dos anos 1950: trata-se dos gravadores de áudio.

Um dos objetivos do autor era o de descrever o falar caipira em seus diferentes aspectos: fonético, lexical, morfológico e sintático, a fim de retratar de forma mais abrangente um falar regional brasileiro. Sua importância é indiscutível por ter a língua falada do Brasil o principal material de análise e descrição.

Com o intuito de contribuir para que seu trabalho seja sedimentado de modo biográfico como um acontecimento discursivo arraigado de situações históricas peculiares, por meio de (re)leituras de sua obra primeira, datada de 1920, objetivamos, nesse artigo, (a)compreender como duas narrativas (re)construíram esse acontecimento histórico – O Dialeto Caipira; (b) analisar como se constroem novas formas de representar as contribuições de Amaral a partir de um funcionamento discursivo próprio de cada autor tomando como base teórica a noção de narrativa do acontecimento de Guilhaumou (2009); (c) compreender como cada novo dizer (re)constrói os discursos ditos anteriormente e verificar como essas (re)construções passam a circular e adquirir efeitos de sentidos diferentes a partir de narrativas do acontecimento;

Na primeira parte desse texto, trouxemos o embasamento teórico metodológico que está alicerçado na Análise do Discurso de orientação francesa, para tanto, iremos expor, resumidamente, as noções de acontecimento linguístico, discursivo e narrativa do acontecimento do professor Jacques Guilhaumou (2009), em seguida, descreveremos o material de análise que (re)constrói o acontecimento discursivo O Dialeto Caipira para então partimos para a análise norteada pela seguinte pergunta de pesquisa: como O Dialeto Caipira tomado como um acontecimento linguístico, histórico e discursivo seria (re)construído e (res)significado em diferentes narrativas promove e emergência de diferentes efeitos de sentido?

1. Acontecimento Discursivo

Guilhaumou, considerado um historiador-linguista, é um dos expoentes do campo da Análise do Discurso – doravante, vez ou outra, AD –, tendo frequentado os primeiros círculos de discussão ainda nos tempos de Michel Pêcheux. Foi um dos responsáveis por trazer em seus trabalhos alguns conceitos foucaultianos que se tornaram elucidativos nos estudos da AD, primordialmente os conceitos de enunciado, arquivo, história e acontecimento; mostra-nos que o acontecimento não é mais redutível somente à situação enunciativa nem ao chamado contexto histórico.

Em sua obra, o autor afirma “o que é dito está carregado de acontecimentalidade, de uma singularidade em constante renovação” (GUILHAUMOU, 2009: 10).

Nesse caminho, assumimos a concepção de acontecimento de Guilhaumou (2009), como algo que se dá no interior do arquivo, isto é, que permanece perpetuamente reinterpretável juridicamente e, por conseguinte, atual ao próprio sentido. O arquivo, segundo Guilhaumou (2009), não é simplesmente um conjunto de textos que são produzidos e circulam na sociedade, como práticas documentais, é composto por saberes que se constituem ao longo dos tempos, nas mais distintas formações sociais, e que se articulam por meio de gestos de leitura que atualizam as configurações significantes, os dispositivos de significações de enunciados atestados. Em outras palavras, o arquivo não pode ser descrito em sua totalidade, mas se dá a ler por fragmentos de enunciados que se configuram em novas instâncias de enunciação e têm por consequência o surgimento de novos acontecimentos discursivos.

A situação, quer se trate de um elemento do mundo real, quer se trate, mais simplesmente, de uma situação dita de enunciação, é conjuntamente momento genético da realidade e lugar de sentido. O acontecimento, portanto, é formulado por um conjunto heterogêneo de enunciados constitutivos do acontecimento discursivo, no interior do arquivo. Para dar conta do exposto, na perspectiva do autor, o acontecimento deve ser vislumbrado enquanto enunciado de arquivo, no qual os textos e a produção dos sentidos se dão no interior de uma historicidade. Desse modo, propõe que o acontecimento seja abordado e descrito a partir de uma ordem racional: i) acontecimento linguístico; ii) acontecimento discursivo e; iii) narrativa do acontecimento. Segundo ele,

ao se considerar o acontecimento linguístico estamos interessados em problemas de gradação do concreto ao abstrato, da norma referencial de língua, da tipificação histórica de sujeitos e objetos cognitivos. Diferentemente, em se tratando de acontecimento discursivo, consideraremos, na perspectiva aberta por Michel Foucault (1969), apenas a simples inscrição do que é dito como elemento atestado do enunciado (...) saímos do mundo dos nomes e dos referentes para entrar no universo da reflexividade do discurso, dos recursos próprios dos sujeitos da enunciação implicados no acontecimento (GUILHAUMOU, 2009: 124).

A partir dessas reflexões, o pesquisador francês contempla a noção de acontecimentalidade, sendo que esta se concretiza a partir do que ele chama de narrativa do acontecimento:

a narrativa do acontecimento relança, então, a ação infinita da interpretação, permite uma abertura máxima das narrações, assimila ação e pensamento, associa o ato e a revelação, torna memorável a vida da heroína e do herói. Introduz-nos no agir político verdadeiro, no sentido em que a ação política é trazida ao julgamento desinteressado da dimensão universal do acontecimento singular, a exemplo de Kant ao julgar com entusiasmo a Revolução Francesa (GUILHAUMOU, 2009: 137).

O acontecimento parte do linguístico ao discursivo e, deste, à narrativa do acontecimento. O acontecimento linguístico relaciona-se com a norma referencial da língua, ou seja, se inscreve na perspectiva referencial, o mundo dos nomes, em que o sujeito já é constituído, tratado como sujeito cognitivo. Por sua vez, o acontecimento discursivo é considerado na perspectiva de Foucault, em A Arqueologia do Saber, em que a simples inscrição do que é dito como elemento é atestado pelo enunciado. O estudioso considera necessário pensar o arquivo não como um amontoado de documentos fechados, mas sim, o arquivo como algo que participa de um gesto de leitura: “saímos do mundo dos nomes e de seus referentes para entrar no universo da reflexividade do discurso, dos recursos próprios dos sujeitos da enunciação implicados no acontecimento” (1969: 124).

De acordo com o Guilhaumou (2009), é preciso pensar em avançar sobre o sujeito cognitivo, responsável pelo acontecimento que se produz, e também o sujeito que irrompe na enunciação do acontecimento para um sujeito histórico, portador de emancipação, que busca autonomia. Para pensar nessa nova perspectiva, é necessário trazer a noção da narrativa do acontecimento:

Na realidade, a efetividade da narrativa do acontecimento, mais especificamente da ação que descreve, é ainda maior quando ela revela a vontade de independência de um sujeito, em geral coletivo e tornado aquele que age no interior da narração...Certamente estamos já distantes desse alguém que permite ao sentido chegar ao acontecimento linguístico, e até mesmo do universo auto constituído desse aquilo que ocorreu no interior do acontecimento discursivo, mas estamos, ainda assim, prontos para conceber que a intriga vinda das profundezas dos tempos termina pela presença de um sujeito emancipado que dispõe plenamente de sua inteligência narrativa (2009: 137).

A narrativa do acontecimento, tida como algo prospectivo, isto é, apreendida em julgamentos universalizáveis dos atos da vida de cada um na relação com os outros, permite investigar “[...] as expectativas vividas e as expectativas dos homens atuantes e sofredores, a tematização do tempo histórico em adequação com ele mesmo introduz a transformação no curso das ações humanas” (GUILHAUMOU, 2009:135). Ademais, ela visa a apresentar o percurso de um acontecimento que produz historicidade sobre os fatos, levando em consideração a lógica sequencial e sua dimensão configurante. A narrativa do acontecimento é algo universalizante, é relato do coletivo para o movimento de interpretação do acontecimento.

2. O dialeto desacantoado: reflexões discursivas

Com base em Guilhaumou (2009), entendemos que os dizeres sobre O Dialeto Caipira e Amadeu Amaral se constituíram com base em diferentes narrativas em que os sujeitos a partir de diferentes condições históricas foram paulatinamente construindo os acontecimentos, isto é, foram dando legitimidade institucional por meio dos mais variados trabalhos e pesquisas acadêmicas.

Assim, diante desse conjunto de enunciados, no interior de práticas discursivas, muito pôde ser (re)dito, (re)visitado e, principalmente, (res) significado, e, por consequência, é possível pensar na transformação dos grandes feitos da história, os episódios do passado em acontecimentos que marcam uma época, uma sociedade.

Os sujeitos, inseridos num lugar institucional e determinados por certas regras sócio-históricas, constroem diferentes narrativas em torno de um acontecimento marcante na história, proporcionando (re)visitar um pensamento e trazer novas instâncias discursivas, novos gestos de intepretação. Pode-se afirmar, com isso, sob a perspectiva de Guilhaumou (2009), que determinadas narrativas, “sob sua forma singular e/ou coletiva, seriam a forma histórica mais acabada de experimentação do real ao longo da existência da humanidade” (2009:138). Elas tematizariam também, em seu percurso, formas sociais particulares que dão consistência universal a uma narração de vida, a uma representação histórica num determinado contexto de transformações heroicas.

Para efeito de análise, apresentaremos duas narrativas produzidas sobre o falar caipira após a publicação d’O Dialeto Caipira de Amadeu Amaral. Diante de sua obra, publicada em 1920, pôde-se pensar no desenvolvimento de um campo de saber importante, a dialetologia, tomando como objeto de estudos as diferentes variações da língua portuguesa em solo brasílico. Muitos estudos e pesquisas surgiram e contribuem para a construção do cenário dialetológico brasileiro; assim, foi possível a promoção de diferentes narrativas que retomassem o discurso primeiro formulado pelo autor paulista, reforçando a importância de sua pesquisa.

A partir do surgimento dessas narrativas, presentes em diferentes materiais de estudo, é que propomos pensar os efeitos de sentidos produzidos por duas delas, que ora refletem uma dada história já contada ora contribuem para a (re)escritura dos fatos conforme novas reflexões e, com isso, novas possibilidades de (re)leituras. Para a promoção dessas narrativas, tomamos dois sujeitos estudiosos como narradores-produtores cuja função é (re)visitar as reflexões de Amaral acerca do dialeto caipira e (re)dizê-las a partir de novos acontecimentos discursivos. Podemos pensar no narrador-produtor como aquele cujo sujeito narra e descreve os fatos, produz julgamentos, avaliações e, principalmente, atribui aos enunciados diferentes gestos de interpretação. O narrador-produtor torna- se autorizado a falar não apenas sobre o dialeto caipira e sobre Amadeu Amaral, mas também, muitas vezes, como Amaral.

Importante ressaltar que os discursos produzidos pelo material que selecionamos devem ser encarados como conjuntos de acontecimentos discursivos que retomam em forma de narrativas um acontecimento na história. Assim, a partir de Amaral (1920) com O Dialeto Caipira, trouxemos para essa análise a obra de Rodrigues (1974) O dialeto caipira na região de Piracicaba e a tese de doutoramento de Castro (2006) A Resistência de Traços do Dialeto Caipira.

As pesquisas de Amadeu Amaral sistematizaram um dos falares mais característicos do Brasil, o dialeto caipira que, como defende o autor, estava bem sedimentado até o século XIX, no território da antiga província de São Paulo. Era este dialeto “bastante característico para ser notado pelos mais desprevenidos como um sistema distinto e inconfundível”, e que

dominava em absoluto a grande maioria da população e estendia a sua influência até outros grupos, inclusive os de grupos mais culto, a minoria da população, da época. No entanto, já àquela época, era possível notar que o estabelecimento de padrões cultos no ensino estavam afastando as características típicas desse dialeto caipira, algo que Amaral descreve bem (1920: 1).

Entendemos O Dialeto Caipira (AMARAL, 1920) como é um acontecimento histórico que reflete as mudanças sobre o modo de falar caipira, à época da província de São Paulo, mobilizando modificações não apenas no âmbito lexicográfico, mas também na observação da língua em uma determinada área, procurando caracterizá-la por meio de termos léxico-semânticos, fonético-fonológico e morfossintático. Segundo o autor,

tivemos, até cerca de vinte e cinco a trinta anos atrás, um dialeto bem pronunciado”, no território da antiga província. É de todos sabido que o nosso falar caipira – bastante característico para não ser notado pelos mais desprevenidos como um sistema distinto e inconfundível – dominava em absoluto a grande maioria da população e estendia a sua influência à minoria culta. As mesmas pessoas educadas e bem falantes não se podiam esquivar a essa influência. Foi o que criou aos paulistas, há bastante tempo, a fama de corromperem o vernáculo com muitos e feios vícios de linguagem. Quando se tratou, no Senado do Império, de criar os cursos jurídicos no Brasil, tendo- se proposto São Paulo para sede de um deles, houve quem alegasse contra isso o linguajar dos naturais que poderia contaminar de modo inconveniente os futuros bacharéis que vinham de diferentes circunscrições do país (1920: 1).

Amaral contribuiu para uma nova fase da dialetologia brasileira, pois preocupou-se em observar os dados in loco levando em consideração os diferentes aspectos da realidade observada. Dentre eles, destacamos: o “R” caipira - O fonema /r/, em fim de sílaba ou em posição intervocálica, assume as características aproximante alveolar [ɹ], retroflexo [ɻ], e a rotacização do “L”- a permutação, em fim de sílaba, da aproximante lateral [l] pelo fonema /r/ (enxoval > enxovar, claro > craro). Pode-se dizer que esses traços não são exclusivos do dialeto caipira, mas se fazem presentes em todo país, sendo menos comum na linguagem culta.

Após a leitura da obra de Amaral (1920), partimos para a investigação acerca dos dizeres outros produzidos por Rodrigues (1974) e Castro (2006) nas respectivas obras selecionadas. Esses narradores-produtores permitiram visualizar a produção de novos percursos narrativos sobre a obra de Amaral, possibilitando outras leituras e gestos de interpretação. Na narrativa de Rodrigues (1974) e Castro (1920), o dialeto caipira permanece forte em determinadas regiões do país, ao contrário do que pensava Amaral quando afirma que em pouco tempo esse “caipirismo” deixaria de existir.

Este [o dialeto caipira] acha-se condenado a desaparecer em prazo mais ou menos breve. Legará, sem dúvida, alguma bagagem ao seu substituto, mas o processo novo se guiará por outras determinantes e por outras leis particulares (1920: 2).

Ao retomar os enunciados de Amaral, novas instâncias de sentidos são atualizadas com base em novos desdobramentos da língua no contexto atual de observação. A presença do falar caipira torna-se tão forte que é constantemente retomada em piadas, novelas e sátiras, cujo objetivo é (de)marcar expressivamente as características de um modo de falar brasileiro em virtude das condições de enunciabilidade.

Amaral, de forma pessimista, afirma que esse dialeto característico da região achava-se condenado a desaparecer em prazo mais ou menos breve. Dizia o autor que o falar caipira se achava “acantoado em pequenas localidades” que ficaram à margem do progresso, existindo apenas “na boca de pessoas idosas” (1920: 1). Tal afirmação se dava em virtude dos fatores que alteraram o meio social da época, como a libertação dos escravos, o crescimento da população, a imigração e a ampliação das vias de comunicação e intensificação do comércio, os “genuínos caipiras”, “os roceiros ignorantes e atrasados” e o “caipirismo” vão perdendo espaço de influência. Notamos nas afirmações de Amaral que ele baseia- se nos dados e fatos que tinha à época de sua investigação, ou seja, as condições de produção e enunciabilidade.

Já na narrativa de Rodrigues (1974), que delimita-se a investigar o dialeto caipira apenas na região de Piracicaba, os estudos de Amaral não poderiam observar com afinco o quanto o dialeto poderia perdurar, pois o estudioso não teria demarcado sua coleta de dados a partir de uma localização precisa. Segundo Rodrigues:

Amaral não delimita a área de suas investigações. Diz apenas que ‘O falar do norte do país não é o mesmo que o do Centro ou do Sul. O de São Paulo não é igual ao de Minas. No próprio interior deste Estado se pode distinguir, sem grande esforço, zonas de diferentes matiz dialetal – o Litoral, o chamado “Norte”, o Sul, a parte confinante com o Triângulo Mineiro (AMARAL, 1920: 14-15 apud RODRIGUES, 1974: 22).

Nesse caminho, Rodrigues atesta a vitalidade do “caipirismo” que ainda perdura no Estado de São Paulo, sobretudo na região de Piracicaba, mostrando que ainda hoje, após vários anos de estudos promovidos por Amaral, continua forte a presença do dialeto caipira e que ele não se esgotou ou desapareceu, pelo contrário, continua vivo.

Em estudos posteriores, como os da Profa. Dra. Vandersi Castro (2006), o dialeto sobreviveu e em algumas regiões ainda seria forte e marcante:

A previsão do autor todavia não parece ter se concretizado e é esse justamente o nosso ponto de interesse. Cerca de 50 anos após a publicação do estudo de Amadeu Amaral, Rodrigues (1974) atesta a vitalidade do dialeto caipira na região de Piracicaba (CASTRO, 2006: 19).

Para mostrar a resistência do dialeto caipira, a pesquisadora traz a descrição fonética do “r retroflexo” como um dos traços mais marcantes do falar caipira que sobreviveu ao tempo e também influenciou várias regiões do país.

Uma das peculiaridades mais marcantes do dialeto descrito por Amaral (1920) é o “r retroflexo” ou também chamado “r caipira”, expressão tomada do próprio Amaral (CASTRO, 2006: 80).

Castro (2006) afirma que a descrição que Amaral faz do “r caipira” é minuciosa, porém pudemos constatar que ela é mais uma das inúmeras características descritas com rigor metodológico na obra de Amaral. Já a Profa. Vandersi Castro, quando compila os estudos iniciados por Amaral, tenta mostrar que hoje o dialeto permanece e uma de suas características que resistiram ao tempo e as mudanças históricas foi o /r/ retroflexo.

Essas diferentes narrativas do acontecimento emergem a partir do trabalho de Amadeu Amaral, porém elas se consolidam para além de um acontecimento linguístico, mas também como acontecimentos discursivos quando são retomadas e, muitas vezes, (re)significadas pelos narradores-produtores. A medida que diferentes discursos são trazidos e (re)visitados possibilitam que novos gestos de interpretação sobre o dialeto surjam e adquiram novos efeitos de sentido. Dizendo de outro modo, Rodrigues (1974) possibilita a emergência de um discurso outro ao asseverar que Amaral não delimita o espaço observado, não tece um recorte territorial mais preciso e esse fato o impede de prever a sobrevivência do dialeto, diferentemente de Rodrigues que se detém a região de Piracicaba, demarcando o espaço de estudo na tentativa de recontar a história do dialeto na região.

Para Castro (2006), que também confirma a existência nos dias atuais do dialeto, ele teria sobrevivido em virtude de uma de suas características ser demasiadamente marcante e influente, mas que não foi perceptível para Amaral na época de suas pesquisas. Tais retomadas contribuem para que a memória de Amaral seja (re)produzida discursivamente e seu papel, num cenário tão importante e pouco estudado na década de 1920, seja reconhecido como um dos primeiros estudiosos a abordar questões de certa forma, brasileiras, tais como os diferentes dialetos regionais, sobretudo o caipira.

Considerações Finais

As reflexões analítico-discursivas trazidas para esse artigo fazem parte de nossa pesquisa de pós-doutoramento no Programa de Pós-graduação em Linguística e Filologia da Universidade de São Paulo supervisionada pelo Prof. Dr. Manoel Mourivaldo Santiago Almeida, fato que nos permite afirmar que muitos são os trabalhos já empreendidos acerca do dialeto caipira, principalmente pelas pesquisas que compõem o Projeto História do Português Paulista – PHPP Projeto Caipira –, portanto, a análise trazida é apenas uma parte do olhar linguístico-discursivo voltado para a obra de Amadeu Amaral (1920) e seus respectivos narradores-produtores. É possível ainda empreender outros recortes por meio do levantamento de diferentes regularidades e singularidades. Nesse sentido, voltar à tais conceituações e pressupostos teóricos da obra de Amadeu Amaral pode contribuir para que um arcabouço seja fortificado com base nas (re)leituras de sua obra primeira.

Tais (re)leituras, postas em circulação, contribuem e tornam ainda mais visíveis uma história importante do desenvolvimento da língua portuguesa no Brasil numa época “marginalizada”, em que a linguística, no seu stricto senso, ainda não adquiria espaço e determinação, cujo único modo era a descrição empírica dos fatos. Era necessário, pois, mostrar para toda sociedade contemporânea os caminhos que tais estudos, resquícios de uma primeira tomada científica sobre a língua, despontavam e principalmente a importância para o desenvolvimento social. Ou seja, a essência do estudos de Amadeu Amaral é entender certas características tidas como “genuinamente” brasileiras, além de trazer certa identidade ao nosso país à respeito da língua falada.

Tudo isso constitui-se terreno fértil para estudos como de Castro (2006) e Rodrigues (1974) quando tecem uma releitura do que previa Amaral na escrita da história dos estudos da linguagem no Brasil e permitem a circulação de suas ideias, a partir de novas narrativas, proporcionam uma nova maneira de se olhar o período dialetológico, identificando-o por meio de características oriundas do povo brasileiro. A partir de nossa pergunta de pesquisa: como O Dialeto Caipira tomado como um acontecimento linguístico, histórico e discursivo seria (re)construído e (res)significado em diferentes narrativas promove e emergência de diferentes efeitos de sentido? Arriscaríamos dizer que essas duas narrativas, Rodrigues (1974) e Castro (2006) confirmam a singularidade da obra de Amadeu Amaral assim como sua relevância e nos possibilitam pensar que é preciso a cada dia não tomar os estudos linguísticos como apartados de suas condições históricas e ideológicas já que são elas que poderiam nos aclarar acerca dos estereótipos e as memórias de uma língua; em outras palavras, poderíamos pensar em como certo momento foi afirmado que o dialeto iria desaparecer e, posteriormente, retomado e (re)afirmado, ainda vivo, refletindo a realidade da língua portuguesa no Brasil. Influenciados por este pensamento tão profícuo e estimulador é que buscamos (re)montar a este importante estudioso e sua obra tecendo alguns caminhos que proporcione-nos observar um cenário linguístico talvez pouco conhecido e divulgado nas grandes mídias, mas fortemente presente e herança de todo povo brasileiro.

Referências

AMARAL, A. O dialeto caipira. 3. ed. São Paulo: Hucitec-SCET-CEC, 1976. [1920].

CASTRO, V. A Resistência de Traços do Dialeto Caipira: estudo com base em Atlas Linguísticos Regionais Brasileiros. Tese apresentada ao Curso de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, 2006.

FOUCAULT, M. A Arqueologia do saber. 6ª ed. RJ: Forense Universitária, 2000 [1969].

RODRIGUES, A. O dialeto caipira na região de Piracicaba. São Paulo: Ática, 1974.

Recebido em 10/10/2016 e aceito em 06/12/2016.