Resumo

 Analisa-se a tradição do texto teatral Apareceu a Margarida, materializada em um conjunto de versões produzidas em diferentes períodos e cidades brasileiras, a fim de propor um modelo editorial que considere os diferentes momentos/estados do texto e sua história. Por compreender os testemunhos de uma obra como indivíduos históricos, inseridos em uma determinada configuração sociocultural, propõe-se, no campo da Crítica Textual em perspectiva sociológica, a elaboração de uma edição sinóptica (em suporte papel e eletrônico), cujos critérios se apresentam neste trabalho, buscando evidenciar as diferentes versões de Apareceu a Margarida em confronto e cada testemunho tomado em sua especificidade. 


 

Introdução

Em 1971, auge da ação censória do regime ditatorial brasileiro, retornou ao Brasil Roberto Athayde, (aos vinte e um anos de idade) que contava com vinte e um anos. Nascido em uma família de escritores cariocas (destacando-se seu pai, o cronista imortal Austregésilo de Athayde, presidente da Academia Brasileira de Letras), Roberto Athayde viveu nos Estados Unidos desde os seus dezessete anos onde teve oportunidade de estudar música, chegando a almejar a carreira de compositor. A sua experiência na faculdade de música da Universidade de Michigan apontou-lhe, entretanto, outro talento: a escrita dramática. Avaliada como uma das peças teatrais de maior penetração internacional da história da língua portuguesa (ATHAYDE, 2003), Apareceu a Margarida é considerada a obra-prima do autor, com mais de duzentas produções ao redor do mundo, com traduções para cinco línguas1. Neste monólogo, apresenta-se uma professora autoritária e intempestiva que subjuga a sua turma (a plateia), propondo-lhes ensinar “os fatos da vida” (ATHAYDE, 2003: 122). A personagem personifica instituições repressoras e, no contexto da sua produção, o próprio regime militar, apresentando suas contradições e impondo-se diante da plateia violentamente. Seu discurso é entrecortado por picos de agressividade e de candura, o que caracteriza o perfil esquizofrênico e contraditório das escolas, desconectadas da realidade político-social do país.

Da ampla tradição de Apareceu a Margarida, selecionaram-se, para a realização deste trabalho, sete testemunhos: dois impressos, dois datiloscritos produzidos no Rio de Janeiro, anteriores à primeira publicação e à primeira encenação da peça, e três datiloscritos identificados na Bahia (em Salvador e em Feira de Santana). Todos os testemunhos são identificados através de siglas formadas pela categoria do texto (obra publicada/OP, ou datiloscrito/D), seguida dos dois últimos algarismos do ano de produção/publicação, com indicação da sigla da cidade de produção do datiloscrito (optou-se por não indicar a cidade no caso das obras publicadas por considerá-las de repercussão nacional).

Assim, têm-se duas publicações em livro: uma datada de 1973, pela Editora Brasília (OP73), e outra mais recente, de 2003, na coletânea As peças precoces: Apareceu a Margarida e outras, publicada pela Editora Nova Fronteira (OP03). Registram-se também dois datiloscritos produzidos no Rio de Janeiro: o primeiro, datado de setembro de 1971, tem o título A Esquisofazia Didática ou Do que Aterra, Margarida com assinatura de punho do próprio autor, com o endereço da residência de seus pais, no Cosme Velho (D71RJ); o segundo, encadernado como livro, ainda com o mesmo título de D71RJ, produzido pela Alpha Produções Artísticas (D73RJ). Observa-se a existência de três scripts datiloscritos produzidos na Bahia: um datiloscrito de 32 folhas, com cortes, em que se registra, na primeira folha, “Salvador, abril de 1975 / Bahia” (D75SA); um datiloscrito com 13 folhas, com texto em reto e verso, cujos certificados de censura indicam ser de Feira de Santana, datado de 1980 (D80FS); e um datiloscrito de 20 folhas, cuja data e localização também foram recuperadas pelos certificados de censura, que indicam ser de Salvador, ano de 1983 (D83SA).

Os três datiloscritos da Bahia estão arquivados em acervos teatrais de Salvador, como o Núcleo de Acervo do Espaço Xisto Bahia e o Acervo da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, além de estarem inseridos do Arquivo Textos Teatrais Censurados, organizado pela Equipe Textos Teatrais Censurados2. O script D73RJ consta no acervo pessoal de Roberto Athayde e foi disponibilizado pelo próprio autor. Das duas publicações, adquiriu-se OP73 através de compra em sebos virtuais, ao passo que OP03 é facilmente encontrada em livrarias. O datiloscrito de 1971 foi localizado em pesquisa encomendada ao Arquivo Nacional – DF, que disponibilizou os certificados de censura, documentos federais relativos ao texto e cópias de todas as versões produzidas no Brasil e encaminhadas aos órgãos de censura até o ano de 1988, quando houve a alteração da Constituição Federal e revogou-se a censura prévia.

Por atravessar a história e permanecer em cena em diferentes países após quatro décadas, a obra de Roberto Athayde universaliza-se em seu processo de transmissão, justificando-se como corpus de um estudo que evidencia o texto na história, em diferentes lugares e momentos. Contribuindo para os estudos no âmbito da Crítica Textual, defendendo sua natureza interdisciplinar e em perspectiva sociológica, justifica-se a relevância do trabalho aqui proposto por dois motivos: primeiro, por desenvolver o estudo do texto como processo que se realiza ao longo de uma história, sugerindo a utilização de novas técnicas de trabalho e mudanças de atitude do editor; segundo, por possibilitar a recuperação do patrimônio cultural escrito, através de atividades filológicas.

1. O texto como evento social: a Crítica Textual em perspectiva sociológica

Diante da preocupação em compreender a historicidade dos textos, consideram-se abordagens distintas sobre o escopo de trabalho filológico, o que promoverá profundas modificações nas teorias editoriais formuladas pela Crítica Textual, de tal modo que, pela caracterização de seus objetos, distinguem-se Crítica Textual Tradicional e Crítica Textual Moderna. No primeiro caso, o crítico trabalha com textos desprovidos de um original, como afirma Castro (1990: 98), “removidos da forma autoral por numerosas operações de cópia, cujas sucessivas actualizações procura identificar e neutralizar”; no segundo caso, trabalha-se com textos com múltiplos originais, considerando tratar-se de um período (século XVIII em diante) em que se estabelece uma noção de autoria e os escritores passam a guardar os documentos referentes ao seu processo de criação. Além disso, a imprensa ampliou a sua produtividade e passou a ser responsável pela circulação e transmissão de muitos textos, criando, frequentemente, novas versões.

Observa-se que, para as duas críticas, têm-se métodos e objetivos distintos de trabalho. À Crítica Textual Tradicional interessa a busca por um arquétipo inexistente, reconstituído a partir de sucessivas aproximações e comparações entre os textos de que dispõe o crítico, resignado “a não publicar mais que um arquétipo hibridado da tradição restante, cuja distância em relação ao original não se pode avaliar” (CASTRO, 1990, p.98). A Crítica Textual Moderna, por sua vez, ao tomar para análise textos cujos originais abundam, interessa-se pelo processo histórico de construção e divulgação das obras, pondo em questão a noção de autoridade e de texto como objeto estanque, buscando compreender a dinâmica da textualidade através do estabelecimento de uma cronologia da gênese e de transmissão. Assim, do trabalho das duas modalidades da Crítica Textual, resultam produtos editoriais diversos, seguindo métodos que, ao longo do tempo, são modificados e/ou refutados.

O modelo editorial clássico, proposto pelo alemão Karl Lachmann (1850), foi fundamental para o estabelecimento do método filológico, cujas etapas se apresentam como recensio, collatio, emendatio e constitutio textus. Da crítica aos critérios lachmannianos emergiram novas proposições metodológicas, como a de Joseph Bédier (1889), que identificou que, em alguns casos, o stemma codicum não é aplicável para a escolha do texto de base, de modo que esse deverá ser selecionado segundo a sua teoria do “bom manuscrito”, desapegada da busca lachmanniana pelo testemunho mais antigo.

O trabalho do filólogo italiano Giorgio Pasquali (1934) merece destaque ao se propor a observar os testemunhos como indivíduos históricos que “poseen uma específica fiosionomía cultural, razón por la cual la crítica del texto há de ir acompañada de la historia de la tradición”3 (PÉREZ PRIEGO, 1997: 36). Pasquali construiu um novo olhar sobre as variantes, que passaram a se distinguir entre variantes de copistas e variantes autorais, na chamada crítica das variantes, cuja fundamentação foi desenvolvida por Gianfranco Contini (1947) e nos estudos de Michele Barbi (1994[1938]), que propôs uma “nova filologia” que tomasse como objeto de estudo não apenas autores medievais, mas também modernos.

Deste ponto em diante, é possível observar uma tendência das escolas francesa e alemã, que, através da Crítica Genética, vêm buscando estudar a gênese e o desenvolvimento textuais, o que as distingue da escola anglo-americana, a qual busca fixar texto na edição. A respeito dessa última, abordam-se duas teorias editoriais que polarizam os trabalhos nesse campo: a teoria intencionalista, de Walter Greg (1950); e a sociológica, de Donald Francis McKenzie (1985) e Jerome McGann (1983).

1.1 A Teoria Intencionalista

Conhecida como teoria do copy-text, a proposta fixada por Greg (1966 [1950]) objetiva tomar como texto de base o modelo que melhor se aproxima da intenção final do autor. McGann (1983) aponta para os problemas e armadilhas que se evidenciam no caminho da crítica intencionalista, destacando que

[…] authors demonstrated a number of different wishes and intentions about what text they wanted to be presented to public, and these differences reflect accomodations to changed circumstances, and sometimes to changed publics4 (MCGANN, 1983: 32).

Nesse caso, é possível pensar que as intenções autorais estão sujeitas a uma série de fatores sócio-históricos, de modo que se pode falar em múltiplas intenções, ou, como afirma o próprio Greg (apud MCGANN, 1983: 30): “authority is never absolute, but only relative”5. Assim, distinguem-se as variantes de transmissão entre accidentals (não intencionais) e substantives (modificações inseridas no texto com objetivo de modificá-lo).

Em 1975, Fredson Bowers, dando continuidade ao trabalho empreendido por Greg, desenvolveu a teoria da intenção autoral final, enquanto Thomas Tanselle, em 1975, problematizou a necessidade de se seguir o copy-text de modo estrito.

Philip Gaskell (1972), por sua vez, analisou que o texto final pode corresponder a apenas mais uma fase do processo de redação, afirmando que, em alguns casos, o manuscrito primeiro pode ser mais próximo da vontade autoral que o texto final, em que se percebe a possibilidade de submissão à ação de revisores e críticos diversos. Por isso, Gaskell admitiu a correção da pontuação e grafia, apesar de portar-se como historicista (LOURENÇO, 2009: 213).

Diante disso, Hans Zeller (1975) defendeu que as fases de redação não se organizam necessariamente em uma ordem hierárquica e cunhou o termo versão, sugerindo que “[...] texts frequently exist in several versions no one of which can be said to constitute itself the ‘final’ one”6 (MCGANN, 1983: 32). Para Zeller, a cada nova versão, observa-se uma nova intenção, de modo que “a regra da intenção final não pode ser seguida em todas as circunstâncias” (LOURENÇO, 2009: 217).

As questões levantadas por Gaskell e Zeller fazem germinar duas ideias que se enraizaram no desenvolvimento da crítica sociológica: primeiro, a de que diferentes agentes atuam no processo de produção e inserem elementos no texto ao longo do processo de transmissão; segundo, a de que as intenções autorais mudam a depender do contexto. Assim, buscar a intenção final do autor evidencia uma visão teleológica das obras, própria da crença de que o texto é produzido para um fim específico que consolidará uma forma fixa a ser difundida (DUARTE, 1995).

1.2 A Teoria Sociológica

A noção de texto como evento social emergiu na perspectiva da Crítica Sociológica, a partir da noção de que “the dynamics social relations […] always exist in literary production”7 (MCGANN, 1983: 81). Percebendo os problemas da teoria no trabalho com as instabilidades textuais, McGann (1983) avaliou a necessidade de construir uma noção de autoria ligada a um contexto social e cultural8.

McGann concebeu a obra como um conjunto de textos de autoria de diferentes intervenientes que não deve ser considerada desvinculada de um contexto histórico e cultural (LOURENÇO, 2009). Em sua percepção, o trabalho do crítico textual é constituído de um estudo em perspectiva histórica e o resultado do seu trabalho é também histórico:

The critical edition is a historical edition, as we are often reminded. This means that (a) the method of investigating the text is carried out along historical lines, and (b) the actual edition will present, in its formatting operations, the evidence showing the historical development of the work from its originary moment to the present9 (MCGANN, 1983: 90).

Na concepção de Marquilhas (2010), a Filologia, desde sua perspectiva mais tradicional, tem caráter historicista, o que se observa pela tarefa de “desfazer, remontando à origem, a acumulação das memórias que transpareciam na tradição textual” e buscar a genealogia do texto. A seu ver, a Sociologia dos Textos e a Crítica Genética conservam esse caráter histórico, valorizando o processo de transmissão e/ou criação, respectivamente, evidenciados na materialidade dos textos.

A discussão iniciada por McGann ganhou forma com McKenzie (1999 [1985]) que definiu a Sociologia dos Textos como disciplina “that studies texts as recorded forms, and the processes of their transmission, including their production and reception”10 (MCKENZIE, 1999 [1985]: 12). No campo dos estudos bibliográficos, McKenzie identificou a bibliografia com “the study of the sociology of texts”11 (1999 [1985]: 13), tomando para análise todas as formas de textos para estudar

[…] the reasons why texts were written and read as they were, why they were rewritten and redesigned, or allowed to die12 (MCKENZIE, 1999 [1985]: 13).

Para McKenzie (1999 [1985]), a sociologia dos textos evidencia a ação humana sobre os textos, reconhecidos como produtos sociais. Essa disciplina faz emergir um novo conceito de texto, que admite as mudanças e as adaptações textuais como condições para que os textos possam ser lidos e inseridos em diferentes tempos e espaços, pois “las diferentes formas materiales de um texto y las intenciones a las que sirven, los textos tienen que ver com personas, lugares y tempos específicos”13 (MCKENZIE, 2005 [1985]:.74). Dessa forma, reconhecer a relação entre materialidade e discursividade é pressuposto para a escolha de modelos editoriais que contemplem a materialidade do texto em perspectiva sócio-histórica, conforme se verifica a seguir.

2. A edição sinóptica em meio digital

As discussões a respeito das teorias editoriais põem em questão a prática editorial sobre os textos com múltiplas versões. Propondo-se ao estudo da obra como um produto social inscrito na história através do seu processo de transmissão, aprecia-se a possibilidade de “dar a ler todas as redações14” transmitidas pelas versões e de as colocar lado a lado (DIONÍSIO, 2006), em confronto sinóptico.

As novas abordagens surgem da impossibilidade de estabelecer textos cujas versões apresentam diferenças muito significantes (MOREIRA, 2011). Nesse sentido, a edição sinóptica (também chamada sinóptico- crítica) parece melhor se adaptar ao desejo de expor toda a história da tradição textual, sem hierarquização dos estados do texto. Através do confronto das versões, esse modelo editorial consiste

En la reproducción simultânea (normalmente em páginas contrastadas o em columnas paralelas, verticales u horizontales) de la transcripción diplomática de todos y cada uno de los testimonios de la tradición de una obra15 (PÉREZ PRIEGO, 1997: 44).

Esse método não exclui, de todo, o modelo lachmanniano, pois comporta as atividades de recensio (coleta de testemunhos) e collatio (cotejo dos testemunhos para identificar os pontos em que há variação), embora não se considere adequado proceder às emendas (emendatio) em testemunhos que, de tão diversificados e autênticos, são mais bem definidos como versões (SOUZA, 2012: 189).

Se a edição sinóptica intenta reproduzir, “lado a lado, as lições de pelo menos dois diferentes testemunhos, com o objetivo expresso de as comparar” (DUARTE, [1997-], s.v. Edição Sinóptica), é a variação e a história do texto que são postas em evidência neste modelo. Trata- se, desse modo, de uma edição que é crítica e também histórica, “nela buscando-se demonstrar pontos em que tais versões se aproximam e se afastam” (BORGES; SOUZA, 2012: 38) através de notas e comentários explicativos, como o fez Barata (1979), em Esopaida ou Vida de Esopo: Edição sinóptica e interpretativa.

2.1 O meio digital e a utilização do Prezi

A complexidade desta proposta esbarra na dificuldade de apresentar um número grande de redações em formato de livro, cujos recursos tipográficos necessários para tanto refletiriam no preço de venda. É assim que Maria Morrás (1999) e João Dionísio (2006) propõem a relação entre Informática e Crítica Textual, sugerindo a edição sob a forma de Hipertexto, defendendo a sua “capacidade de armazenamento muito superior à do livro tradicional, leitura em confronto garantida pela formação de janelas, baixo preço” além da “possibilidade de resolver a pouca legibilidade do aparato, habitualmente impresso em corpo demasiado pequeno para a importância que tem” (DIONÍSIO, 2006).

Ressalte-se que não se trata de propor, para este trabalho, uma edição eletrônica, a qual é produzida com recursos tecnológicos que visam à construção de uma nova versão do texto (DEEGAN, 2006 apud LOURENÇO, 2009). A edição em meio digital, antes disso, é um trabalho filológico, que se realiza na ação do crítico sobre o texto e sua apresentação em meio eletrônico. Assim, busca-se a apropriação das ferramentas que o suporte eletrônico disponibiliza, indo além da utilização do meio digital como substituto do papel. Mais do que um novo suporte, o recurso eletrônico afeta as práticas de leitura contemporâneas, interferindo nas relações do objeto com seu leitor, que passa a ser interativo, bem como as práticas editoriais (CHARTIER, 2002).

A respeito das possibilidades oferecidas pelas tecnologias da comunicação e da informação, Lourenço (2009) destaca a plasticidade do arquivo eletrônico, que busca

favorecer a metaleitura e, por esse motivo, constituir o formato mais adequado à “radial reading”, permitindo representar a história da produção, transmissão e recepção dos textos de uma obra e de outros tipos de documentos (LOURENÇO, 2009: 251).

Não há dúvidas a respeito dos modos como um arquivo digital afeta as relações entre texto e leitor, e, consequentemente, criam uma nova prática de leitura, uma vez que possibilitam “la presentación sincronizada de textos, e imágenes y la creación de ediciones virtuales a través de la Internet, de manera flexible y dinâmica”16 (URBINA et al, 2005: 225).

O desejo de propor essa leitura radial, que expõe todas as versões do texto em relação, conduziu ao estabelecimento de um novo software como suporte para a realização dessa edição: o Prezi, que apresenta a possibilidade de exposição do conteúdo sob a estrutura de diagramas, permitindo a sistematização de informações e a realização de conexões entre eles. Semelhante ao formato de mapa mental, o Prezi permite que se exponha uma ideia nuclear no centro e apresentem-se suas irradiações com ideias associadas ao tema principal nas ramificações.

No preparo de uma edição de um texto com indícios de derivação radial, a exposição das versões de forma ramificada evidencia, ao mesmo tempo, a independência de cada versão e a conexão que ela estabelece com outras. Para essa proposta, o Prezi se apresentou como um dos suportes mais completos, por apresentar recursos diferenciais em relação aos demais softwares de apresentação de conteúdos, tais como a possibilidade de zoom, que permite que se explore a profundidade do documento, selecionando trechos que se desejam destacar; a constituição de um percurso de exposição dos conteúdos que seleciona as informações que serão expostas de cada vez, evitando que os elementos do texto sejam todos apresentados simultaneamente, de modo a sobrecarregar a página com informações; e o estabelecimento de conexões entre os conteúdos, que permite a exposição de duas ou mais informações que se desejam ver relacionadas.

Há ainda outras características de uso do Prezi que justificam a escolha desse suporte de edição. Além de possibilitar uma exposição radial dos conteúdos e de ter uma ampla dimensão lateral, vertical, e profundidade, o programa permite que se utilize a “página” em múltiplas orientações (vertical, horizontal, diagonal, circular etc.) e admite coexistência de múltiplas mídias (música, imagem, vídeo e texto) simultâneas.

No trabalho de edição de AM, foram produzidos, entre outros materiais17, dois arquivos em formato Prezi, nos quais constam as edições sinópticas do primeiro e segundo atos do texto:

Figure 1.

FIGURA 1: Fac-símiles da edição sinóptica em Prezi:

Figure 2.

A elaboração da edição em meio digital e impresso compreendeu algumas etapas específicas:

a) Digitalização de imagens, textos e documentos diversos relativos à AM;

b) Comparação das versões de AM com vistas ao estabelecimento de uma genealogia das versões;

c) Descrição de todos os fac-símiles dos testemunhos;

d) Apresentação e organização dos fac-símiles em ordem cronológica, utilizando-se da ferramenta de zoom para a exposição de todas as imagens simultaneamente;

e) Transcrição dos testemunhos de AM;

f) Organização das transcrições em forma de edição sinóptica, com confronto das versões, expostas lado a lado, em forma de diagrama;

g) Preparo de notas de esclarecimento e destaque de trechos censurados, relacionando conteúdos dos arquivos através de miniaturas e utilização da ferramenta de zoom;

h) Criação de percurso de leitura, que seleciona uma ordem lógica de exposição dos itens que compõem o arquivo.

Na edição sinóptica, optou-se por mostrar a diversidade textual em seus aspectos substantivos, tendo em vista o limite de tempo hábil para a pesquisa desenvolvida. Assim, apesar da edição aqui exposta apresentar as transcrições das versões lado a lado, sem hierarquizá-las, as únicas diferenças destacadas são as que se referem ao conteúdo do texto, desprezando-se, portanto, a diversidade de grafias. Por essa razão, realiza-se uma transcrição modernizadora das versões, obedecendo- se às convenções ortográficas atuais, evidenciadas em OP03 que é a versão mais atual do texto. Os fac-símiles disponíveis em meio digital permitiram ao leitor/navegador a possibilidade de leitura para verificar as características de cada testemunho de AM.

Considerações Finais

Através da concepção de textos como eventos sociais – e, por isso, inscritos e reinscritos em uma sociedade e em uma cultura em diferentes momentos da história, por meio das múltiplas versões – emergiram novas práticas editoriais e críticas que se consolidaram na ideia de que as variações que surgem no processo de transmissão devem ser compreendidas como modos de recepção (MOREIRA, 2011) das obras em determinado momento histórico.

Nesse sentido, o exercício da Crítica Textual, em perspectiva sociológica, contempla edições que considerem as particularidades de cada versão. Fez-se pertinente, então, preparar uma edição de AM que expõe as versões do texto em confronto sinóptico. Para isso, a utilização do recurso digital foi uma alternativa que possibilitou a exposição de uma grande quantidade de dados sincronizados e relacionados. A opção pelo software Prezi para a edição sinóptica de Apareceu a Margarida possibilitou ao usuário uma exposição de conteúdos dinâmicos e em interação, sem que isso sobrecarregasse a página de leitura, pois os dados são apresentados um a um, conforme percurso de exposição configurado pelo editor ou pelo leitor.

Por fim, frente aos estudos aqui desenvolvidos, faz-se uma defesa da ideia de que “tudo é histórico, social e político, mormente os textos, que são sempre de um lugar e de um momento” (BARBÉRIS, 2006 [1990]: 181). Este pressuposto sustenta a existência da historicidade e da socialidade das produções humanas, que ensejam a prática filológica como crítica humanística orientada por diretrizes histórico-culturais, que fazem da Filologia uma disciplina histórica, social e política.

Referências

ATHAYDE, Roberto. As peças precoces: Apareceu a Margarida e outras. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003.

BARATA, José Oliveira. Esopaida ou Vida de Esopo: edição sinóptica e interpretativa. Coimbra: Acta, 1979.

BARBÉRIS, Pierre. A sociocrítica. In: BERGEZ, Daniel et al. Métodos críticos para a análise literária. Tradução Olinda Maria Rodrigues Prata. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006 [1990]. cap. 4. p. 143-182.

BORGES, Rosa; SOUZA, Arivaldo Sacramento. Filologia e Edição de Texto. In: BORGES, Rosa et al. Edição de texto e crítica filológica. Salvador: EDUFBA, 2012. p. 15-59.

CASTRO, Ivo. Enquanto os escritores escreverem... (Situação da crítica textual moderna). In: CONGRESSO DA AFAL, 9., Campinas, 1990. Conferência... Campinas: UNICAMP.

CONTINI, Gianfranco. Esercizî di lettura sopra autori contemporanei con n’appendice su testi non contemporanei. Firenze: F. Le Monnier, 1947.

CHARTIER, Roger. Os desafios da escrita. Tradução Fulvia M. L. Moretto. São Paulo: UNESP, 2002.

DIONÍSIO, João. Ab la dolchor del temps novel ?. In: ENCICLOPÉDIA E HIPERTEXTO. Lisboa: Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2006. Disponível em: . Acesso em: 16 fev. 2013.

DUARTE, Luiz Fagundes. A maldição do manuscrito autógrafo. Qvinto Império: Revista de Cultura e Literatura de Língua Portuguesa, Salvador, n. 5, p.87-96, 2. sem. 1995.

GASKELL, Philip. A New Introduction to Bibliography. Oxford: University Press, 1972.

GREG, Walter. The Rationale of Copy-Text. Oxford: Maxwell, 1966 [1950].

LOURENÇO, Isabel Maria Graça. The William Blake Archive: da gravura iluminada à edição eletrónica. 2009. 490 f. Tese (Doutorado em Letras) – Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Coimbra, Cap. 3. p. 181-247.

MARQUILHAS, Rita. Filologia oitocentista e crítica textual. In: ALVES,Fernanda Mota et al. (Org.). Filologia, Memória e Esquecimento. Act. 20. Lisboa: Húmus, 2010. p. 355-367.

MCGANN, Jerome. A Critique of Modern Textual Criticism. Chicago, University of Chicago Press, 1983.

MCKENZIE, Donald Francis. Bibliography and the Sociology of texts. United Kingdom: Cambridge Univerity Press, 1999 [1985].

MOREIRA, Marcelo. Critica Textualis in Caelum Revocata?: uma proposta para edição e estudo da tradição de Gregório de Matos e Guerra. São Paulo: EDUSP, 2011.

PASQUALI, Giorgio. Storia della tradizione e critica del testo. 2. ed. Milão: Mondadori, 1952 [1934].

PÉREZ PRIEGO, Miguel Ángel. La edición de textos. Madrid: Síntesis, 1997.

SOUZA, Arivaldo Sacramento. Edição sinóptica. In: BORGES, Rosa et al. Edição de texto e crítica filológica. Salvador: EDUFBA, 2012. p. 185-217.

URBINA, Eduardo et al. La edición variorum eletrônica del “Quijote”. Castilla: Universidad de Castilla – La Mancha.; Texas: Center for the Study of Digital Libraries, Texas A&M University, 2005. Disponível em: . Acesso em: 16 fev. 2013.

ZELLER, Hans. A New Approach to the Critical Constitution of Literary Texts. Studies in Bibliography, v. 28. Virginia: University of Virginia Library, 1975. p. 231-264. Disponível em: < http://etext.lib.virginia. edu/etcbin/toccersb?id=sibv028&images=bsuva/sb/images&data=/ texts/english/bibliog/SB&tag=public&part=9&division=div>. Acesso em: 20 dez. 2012.

Recebido em 10/10/2016 e aceito em 06/12/2016.