Resumo

Ao mesmo tempo em que pertence ainda à hermenêutica kantiana do Besserverstehen, ou seja, do entender um autor melhor do que ele mesmo se entendeu, a teoria da tradução de Friedrich Schlegel postula a necessidade do rigor filológico e da observação da letra e do espírito do texto a ser traduzido. O artigo investiga e discute a aproximação entre a filologia e as teorias da tradução do Primeiro Romantismo Alemão, sobretudo nas teorizações de Friedrich Schlegel, Friedrich von Hardenberg, Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher e August Wilhelm Schlegel. 

Introdução

O cuidado no trato com textos, sejam literários, filosóficos ou teológicos tem uma longa tradição na Alemanha. Isso explica porque foi naquele país que surgiram diversas escolas filológicas tradicionais da modernidade, como a escola de Ulrich von Wilamowitz Moellendorf, e importantes estudiosos da filologia, tais como Werner Jäger, Hermann Fränkel, Paul Friedländer, Wolfgang Schadewaldt, Felix Jacoby, os quais encontram-se em uma linha que chega até Bruno Snell, Ernst Robert Curtius, Erich Auerbach, Leo Spitzer, entre muitos outros. Do mesmo modo, aquele que é considerado um dos precursores dos estudos filológicos na Alemanha, Friedrich August Wolf, influenciou a visão histórica, filológica e tradutológica da geração dos primeiros românticos, como os irmãos Schlegel, Novalis, Schleiermacher e Ludwig Tieck. Foi principalmente a partir do rigor acadêmico e da atenção filológica ao texto literário, aprendidos na escola de F. A. Wolf, que Friedrich Schlegel desenvolveu seu modo sui generis de estudar os fenômenos literários e sua historiografia da literatura.

A tradição do cuidado com os textos remonta ao século XVI, e a tradução que Martinho Lutero realizou da Bíblia no ano de 1530. Desde então, gerações de estudiosos praticaram o que pode ser considerado a pré-história da filologia e da hermenêutica modernas. O movimento que vai de Lutero até a época dos românticos é essencial não apenas para as teorias da tradução, a filologia, mas ao desenvolvimento da língua e da literatura alemã (MILTON 1998: 61). Os jovens do primeiro romantismo alemão, foram precedidos por estudiosos que deram novos limites qualitativos ao ato de traduzir. Já nas décadas de 1760 e 1770, Ephraim Gotthold Lessing ou Johann Gottfried Herder teorizaram sobre a tradução, embora Herder (1985: 205) não tenha se mostrado muito otimista sobre a tradução dos antigos em alemão, como afirma em sua coleção de textos intitulada Über die neuere deutsche Literatur, [ Sobre a mais recente literatura alemã], publicada no ano de 1767.

O pai dos irmãos Schlegel, Johann Adolf Schlegel, traduziu em 1770 a obra de Charles Batteux As belas-artes reduzidas a um mesmo princípio, inserindo a necessidade de se conhecer profundamente os aspectos teóricos de um autor para realizar uma tradução a contento. O esforço em levar o autor até o leitor (uma das formas que Schleiermacher considera possíveis à tradução), é parte do programa iluminista que se fundamenta na ideia de formação ou cultivo do homem. No contexto do primeiro romantismo alemão, o conceito de Bildung [formação] significava a crença de que era possível formar não apenas a camada média alemã no século XVIII, mas toda a humanidade. Um dos meios pelos quais teóricos como Novalis - o qual acreditava estar em uma missão de formação do homem – ou mesmo Schlegel1 buscavam romantizar o mundo era através da tradução, possibilitando o acesso a obras de épocas e culturas as mais diversas.

Em um de seus Fragmentos sobre Poesia e Literatura (1797), Schlegel denomina a tentativa de transpor o espírito da Antiguidade para seu tempo de “filosofia da tradução combinatória” (SCHLEGEL 1981: 177)2. O crítico tinha consciência de que as técnicas de tradução de sua época ainda precisavam se desenvolver bastante, pois, em sua opinião, “toda tradução é uma tarefa indeterminada e infinita” (SCHLEGEL 1981: 60).

Nesse sentido, traduzir significava compreender um autor ainda melhor do que ele se entendeu. Schlegel deixa claro esse movimento ao indicar que “para entender alguém que se entende apenas pela metade é necessário o compreender ainda melhor do que ele mesmo se entendeu” (SCHLEGEL 1967: 241). Ao mesmo tempo em que pertence ainda à tópica de Immanuel Kant sobre o Besserverstehen, ou seja, entender um autor melhor do que ele mesmo se entendeu, a teoria da tradução de Friedrich Schlegel postula a necessidade do rigor filológico e da observação da letra e do espírito do texto a ser traduzido. Este artigo analisa e discute a importância dos estudos filológicos no desenvolvimento da prática de tradução no final do século XVIII e princípio do XIX na Alemanha, sobretudo nas teorizações de Friedrich Schlegel, Friedrich von Hardenberg, Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher e August Wilhelm Schlegel.

1. A tradução como diaskeuase infinita

Um dos aspectos mais interessantes das teorias sobre a crítica literária, a filologia e a tradução, elaboradas por Friedrich Schlegel, é a constante referência ao trabalho de exegese e reposição do texto, executado pelos antigos estudiosos gregos, os quais ficaram conhecidos pelo nome de diaskeuastas. Em seu significado original, a palavra diaskeuase indicava o ato de organizar, revestir alguém, no sentido de preparação para a guerra ou para uma ação qualquer (BEEKS 2010: 45). Mais tarde, o termo passou a denotar a organização textual realizada pelos diaskeuastas ou kritikoi, os estudiosos responsáveis por reestabelecer os textos homéricos a partir de fragmentos antigos. Segundo Ulrich Breuer, a compreensão de Schlegel sobre a atividade dos diaskeuastas surge no bojo de seus estudos com o filólogo Friedrich August Wolf, o qual estabeleceu que o trabalho filológico e textual dos estudiosos gregos era a reposição ou reestabelecimento de textos homéricos entre os séculos VI e II a. C (BREUER 2011: 85). Entre os mais eminentes representantes dos diaskeuastas figuram personalidades como Pisistrato ( séc. VI a. C.), Apolônio de Díscolo (270 a. C.) e Calímaco (260 a. C.).

A partir da ideia da reposição do texto original, Schlegel insere em suas teorias sobre o trabalho do crítico de literatura e do tradutor a concepção de que a transposição de um texto de uma época a outra deve ser como o trabalho dos antigos diaskeuastas: uma tarefa infinita. Assim, o estudioso alemão parte da concepção de diaskeuase como interpretação constante para o estabelecimento de uma crítica filológica que desponta no final do século XVIII e começo do XIX.

Entre os postulados teóricos dos românticos sobre o trabalho filológico do tradutor e do crítico encontram-se: a busca pelo entendimento da história do texto (o que hoje em dia é denominado de crítica genética), ou seja, as condições materiais de seu estabelecimento; o entendimento de que todo texto literário é uma obra aberta e infinita; a noção de que a obra deve ser reiteradamente estudada através da exegese constante; a utilização de instrumentos da filologia e da filosofia para concretizar a tradução de textos antigos e inacessíveis; a concepção de que a arte não poderia prescindir da atividade do tradutor, do crítico e do filólogo; a proximidade entre o conhecimento e a produção textual (algo que remete às modernas considerações sobre a leitura de Roger Chartier); e, por último, a percepção de que a tradução deve levar em consideração o fato de que não apenas alguns textos são obscuros e difíceis, mas que todo texto guarda algo de impenetrável, de intraduzível, de ininteligível.

Em um ensaio intitulado Über die Unverständlichkeit [Sobre a Ininteligibilidade], publicado no ano de 1800, Schlegel afirma que grande parte da ininteligibilidade de textos, sobretudo os literários, “tinha origem na incompreensão da ironia” (SCHLEGEL 1967: 368). O tradutor capaz de compreender toda a sutileza da ironia e da cultura do texto de partida concretizaria o que Novalis classificava como tradução mítica, a mais complexa das três formas de traduzir. Para Hardenberg tudo poderia ser traduzido de acordo com três modos de tradução, a gramatical, a modificadora e a mítica (NOVALIS apud HEIDERMANN 2010: 23), sendo a mítica a mais elevada. Encontrando um paralelo no trabalho dos diaskeuastas gregos, em sua tarefa de reposição dos antigos textos homéricos, as técnicas de tradução que passam a ser desenvolvidas no final do século XVIII são parte de uma longa tradição.

Ao conceber a tradução como uma transposição do espírito de um autor, obra ou época para outra, Schlegel tinha em mente o fato de que o trabalho de tradução pressupunha um profundo conhecimento filológico e cultural. Essa caracterização do tradutor como um polígrafo, capaz de transplantar uma cultura para outra, está implícita no conceito de tradução mítica postulada por Novalis, ou seja, o trabalho que suplanta a mera tradução gramatical ou modificadora. Márcio Seligmann-Silva chama a atenção para a filiação platônica da ideia de que, para os românticos alemães, tudo pode ser traduzido:

Deste modo, vemos o próprio platonismo, como sua concepção do mundo como cópia das Ideias eternas e imutáveis, sendo transformado criticamente por meio do pensamento tradutório. Tudo pode ser übersetzt, ou seja, traduzido e elevado (über-setzen) destes três modos: um mais literal (que envolve a capacidade técnica e erudição); um que exige ser “o poeta do poeta” e o terceiro, de estilo mais elevado, que apresenta o próprio ideal da obra [...] A tradução seria assim um modo de se pensar a diferença histórica e cultural (SELIGMANN-SILVA apud HEIDERMANN 2010: 25).

A noção de tradução como tarefa infinita, através da qual o tradutor busca compreender as diferenças culturais entre as épocas, nações, obras e autores remete ao fato de que, para Schlegel (1981: 177), “o traduzir também joga muito com o instinto e a intenção”. Isso significa que o tradutor, assim como o crítico de literatura, deve observar não apenas o que está escrito na letra do texto, mas também o que se desenvolve em seu espírito, captando as nuances do estilo e da intenção do autor. É nesse sentido que Schlegel observa que a tradução de Shakespeare realizada por seu irmão August Wilhelm, e a de Ludwig Tieck sobre o Dom Quixote, de Miguel de Cervantes são exemplos de traduções filosóficas e míticas (SCHLEGEL 1981: 177).

O debate sobre as técnicas de tradução que se abre a partir da geração dos primeiros românticos leva em consideração o apreço à manutenção do sentido do texto original. Todavia, o sentido do texto deve ser o resultado de uma hermenêutica que observe a letra e o espírito, destoando assim tanto das denominadas traduções literais, quanto das traduções infiéis, as belles infidèles. Afastando-se desses tipos de traduções, a atividade tradutória dos românticos pressupunha uma relação sui generis entre o texto traduzido e o original, o qual seria restituído pela força criativa do gênio romântico e a seriedade filológica no trato com os textos.

2. Friedrich von Hardenberg (Novalis) e Friedrich Schlegel: a tradução e a tópica do Besserverstehen

Outro membro do primeiro romantismo alemão que teorizou sobre a tradução foi um dos pensadores mais enigmáticos dessa geração, Friedrich von Hardenberg, conhecido como Novalis (1772-1801), cuja breve existência inspirou a partir de então gerações de românticos no mundo inteiro. Ao lado de Friedrich Schlegel, o autor de Heinrich von Ofterdingen foi um dos principais teóricos do romantismo alemão. Como foi dito, Novalis dividia as traduções em três tipos, a gramatical, a modificadora e a mítica. Por traduções gramaticais ele entendia as tradicionais, cuja principal característica era a habilidade linguística do tradutor e sua erudição, ou seja, aquela que exigia apenas destreza discursiva. O segundo tipo de traduções, as modificadoras, tendiam levemente para a paródia, como as traduções francesas de um modo geral, conhecidas como as belles infidèles. O terceiro tipo de tradução para Hardenberg era a do tipo mais elevado, a tradução mítica, a qual, de acordo com o filósofo alemão, “expõe o caráter puro e completo da obra de arte individual” (NOVALIS apud HEIDERMANN 2010: 23). Quando comparamos a taxonomia da tradução de Novalis à de

Johann Wolfgang Goethe notamos certa semelhança entre alguns aspectos. Para Goethe, as traduções pertenciam a três tipos, a primeira, a tradução simples e prosaica, buscava familiarizar o leitor com a obra estrangeira; o segundo tipo correspondia à apropriação de obra estrangeira por intermédio da tradução, como no caso das imitações e paródias; já o terceiro tipo de tradução, considerada por Goethe a mais elevada, buscava aproximar ao máximo a tradução do original (GOETHE apud HEIDERMANN 2010: 31). Os modos de aproximação entre o texto de partida e o de chegada obedeceriam às duas máximas da tradução: “uma exige que o autor de uma nação desconhecida seja trazida até nós, de tal maneira que possamos considerá-lo nosso; a outra, ao contrário, requer de nós, que nos voltemos ao estrangeiro e nos sujeitemos às suas condições, sua maneira de falar, suas particularidades” (GOETHE apud HEIDERMANN 2010: 31).

Uma ideia muito singular dessa época romântica era a de que a tradução mítica pode até mesmo ultrapassar o original. A tópica kantiana do Besserverstehen, ou seja, do compreender alguém melhor do que ele mesmo se entendeu perpassa os escritos de Novalis e de Schlegel, podendo ser encontrada em diversos fragmentos e textos. O tema aproxima Schlegel também a Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher, considerado um dos fundadores da moderna hermenêutica. Como demonstra igualmente Márcio Suzuki (1998: 178) compreender um autor ainda melhor do que ele mesmo se entendeu indica um dialogismo e uma pluralidade que habilitam a transcendência do individual para o coletivo, concretizando a máxima kantiana no campo da atividade de tradução e de interpretação.

Ainda sobre o terceiro tipo de tradução para Novalis, a tradução mítica, (considerada a mais elevada por Schlegel), é preciso compreender que esse tipo de tradução requereria algo mais que a compreensão linguística do texto a ser traduzido ou o conhecimento cultural do tempo histórico ou da cultura envolvida. Assim como a crítica de literatura postulada por esses teóricos inclui o que denominavam de atitude divinatória, o tradutor equipado com as prerrogativas de buscar a tradução mítica deve ser capaz de compreender não apenas a letra e o espírito do texto, mas aquilo que figura em seu intermezzo, e que apenas uma tradução divinatória é capaz de realizar. Para tal fim, grande dose de intuição artística é necessária, além de todas as habilidades linguísticas e culturais. A palavra intuição é central não apenas no pensamento dos primeiros românticos, mas está inserida inclusive na Doutrina da ciência de Fichte como um dos modos de conhecimento do Eu (FICHTE 1971: 38). A intuição possibilita a esse tradutor, polímata e filólogo, um verdadeiro amante do discurso, na expressão mais originária do termo, ultrapassar o autor. A tradução mítica se acerca da obra ideal.

Aproximando o conceito de crítica divinatória ao próprio ato de traduzir, Márcio Seligmann-Silva (2010: 24) demonstra que, na concepção dos românticos, assim como cabe ao poeta a tarefa de recriar a linguagem cotidiana, o tradutor tem a tarefa infinita de aproximar-se da obra ideal, elevando, de certo modo, a obra traduzida (SELIGMANN- SILVA apud HEIDERMANN 2010: 24).

Através da junção entre a análise rigorosa, de base filológica, do texto original, e o ato de intuição e divinação, o tradutor alça a tradução a um outro patamar. Ao concretizar a máxima romântica de que apenas a poesia pode falar da poesia, o tradutor torna-se um artista em segunda potência. Deduzido da filosofia idealista de Johann Gottlieb Fichte, o conceito de elevação à segunda potência (em Fichte, a reflexão apontava para um pensar sobre o pensar) indica que a atividade tradutológica deve ir além da transposição textual, da paráfrase ou da aproximação cultural. Assim, traduzir, para esses jovens idealistas, era concretizar uma criação em segunda potência. (E todos foram todos exímios tradutores). August Wilhelm Schlegel, irmão mais velho de Friedrich Schlegel, realizou uma das mais belas traduções de Shakespeare para o alemão até os dias atuais; Ludwig Tieck, outro membro do grupo, traduziu o “Dom Quixote” de Cervantes em obra magistral.

Em carta escrita no ano de 1794, quando ainda se encontrava em Dresden, Friedrich Schlegel (1987: 218) aconselha o irmão August Wilhelm a se aproximar mais dos denominados “antigos românticos” (Dante, Petrarca, Boccaccio, Cervantes e Shakespeare) de modo a realizar a contento sua tradução de William Shakespeare. A proximidade ao Zeitgeist [espírito da época] desses autores, de acordo com Friedrich, abriria ao irmão a possibilidade de traduzi-los com maior precisão. O nível de precisão das traduções ao final do século XVIII acompanhará o desenvolvimento intelectual dessa camada de eruditos que circunda os irmãos Schlegel, de modo que se pode considerar esse avanço como parte integrante das alterações dessa época. Werner Heidermann (2010) indica que August Wilhelm Schlegel, assim como seu irmão Friedrich e Novalis, compreendia a atividade do tradutor como algo muito mais amplo que a mera transposição textual de uma língua para outra:

Como Schleiermacher e Humboldt, August Wilhelm von Schlegel (1767-1845) entende a tradução como uma mediação de culturas no sentido mais abrangente possível. Para Schlegel, “o tradutor é um mensageiro de uma nação a outra, um mediador de respeito e admiração mútua, sendo que, sem ele, haveria indiferença ou mesmo aversão”. Schleiermacher também pressupõe essa admiração, esse respeito quando fala de “uma tendência definida a apropriar-se do estranho.” (HEIDERMANN 2010: 13)3.

Analisando a correspondência entre Friedrich Schlegel e seu irmão August, sobretudo nos anos que vão de 1797 a 1801, é possível perceber como o perfil do tradutor irá se alterar no final do século XVIII na Alemanha. Mas, à época dos românticos, o mercado de publicações de traduções ainda precisava lidar com a pouca experiência dos tradutores no contexto histórico e social das obras traduzidas. Como demonstra Schlegel (1987: 219) a intensa concorrência editorial tinha como resultado traduções muito mal feitas. Esse fato o leva a indicar a August Wilhelm o referido estudo das obras antigas em seu contexto histórico e social.

Diferentemente da prática de tradução na França, onde as denominadas belles infidèles, as traduções repletas de improvisações e licenças poéticas eram a regra, na Alemanha a tradição filológica inaugurada pelos irmãos Schlegel, Schleiermacher, Tieck ou mesmo um tradutor de renome como Wilhelm von Humboldt (tradutor de Platão) apontava para novos rumos na qualidade da tradução.

3. O Iluminismo e a tradução como caminho para a Bildung: a formação do homem burguês

Embora historicamente estejam situados na esteira dos pensadores do Iluminismo, os jovens do primeiro romantismo alemão não foram meros refutadores de suas concepções teóricas e de suas práticas sobre a arte e a vida. Primeira geração de leitores de Immanuel Kant e Johann Gottlieb Fichte, eles concebiam a literatura como locus privilegiado para a formação do homem, o que não os distancia completamente da Aufklärung, como se costuma afirmar. Todavia, a concepção eminentemente iluminista de formação e aperfeiçoamento infinito do homem – deduzida sobretudo dos ensinamentos de Fichte – diferencia- se entre os românticos pelo fato de que a razão que deve guiar o processo de aprendizado e crescimento intelectual e espiritual deve ser uma razão sentimental. É o sentimento moldado pela arte, como verdadeira religião do Absoluto, o que conduzirá o homem à formação. Esse paradoxo em relação aos ditames racionalistas da Aufklärung dá-se igualmente no campo da tradução. Uma das maiores preocupações do Iluminismo era com a formação do homem. Através da palavra Bildung, que em alemão tem um vasto campo semântico, significando entre outras coisas formação, cultivo, desenvolvimento, buscava-se formar a classe burguesa. Entre os meios utilizados pelos doutrinadores do Iluminismo para formar o espírito das classes burguesas encontrava-se a tradução de textos a partir de línguas inacessíveis para o vernáculo. Enquanto a camada erudita da população, como no caso dos jovens românticos, lia e escrevia com fluência em diversas línguas, grande parte da população continuava iletrada ou era capaz de ler apenas em sua língua materna. Como indica Klaus L. Berghahn (1985: 17), estatísticas demonstram que, na região de Dresden, no ano de 1770, apenas 15% da população tinha acesso à leitura, o que indica que a denominada revolução da leitura, que se imputa a essa época, se restringe na verdade a uma pequena camada da sociedade (BERGHAHN, 1985: 18). Essa pequena camada da sociedade representa a mesma intelligentsia alemã que Norbert Elias (1994) descreve como a portadora da cultura universal e cosmopolita no século XVIII.

A intelligentsia de que trata o autor de O processo civilizatório não passa de um pequeno contingente de letrados. É por essa razão que um estudioso como Friedrich Nicolai, no ano de 1773, afirma ironicamente que “o povinho [Völkchen] de eruditos, que ensina e aprende, composto de 20 mil pessoas, despreza de tal forma os 20 milhões restantes, que também falam alemão como eles, que não se dá ao trabalho de escrever para eles” (NICOLAI apud BERGHAHN 1985: 17).

Além de contribuir para a formação das classes burguesas, a tradução cumpria o papel de afastar de vez a importância do classicismo francês entre o público alemão. Assim, o pedantismo da utilização da língua francesa em solo alemão, vigente sobretudo nas cortes por grande parte do século, é substituído por textos em língua materna. Se por quase toda a época de Frederico II, Rei da Prússia (1712- 1786), a língua francesa foi preponderante entre as camadas aristocráticas da Alemanha, com a ascensão da burguesia esse quadro se altera. A obra dos franceses no âmbito da dramaturgia permanece como regra por quase toda a metade do século XVIII, quando teóricos como Johann Christoph Gottsched aplicam ao teatro alemão a mesma afetação das cortes francesas. A liberdade desse julgo só começa após a época de Gotthold Ephraim Lessing e a inserção de caracteres burgueses no drama.

Alguns pensadores do século XVIII acreditam que a tradução tem importância vital no desenvolvimento intelectual do homem. Ao levar a cultura de outros lugares, povos, autores e épocas ao encontro da camada média alemã, o tradutor realiza um dos dois modos de tradução descritos por Goethe ou Schleiermacher. Como foi dito, a grande maioria da população não possuía proficiência em línguas clássicas ou mesmo em inglês ou francês, de modo que a alternativa de trazer a cultura estrangeira através da tradução parece mais concretizável e realista no contexto do final do século XVIII na Alemanha. Como assevera John Milton (1998: 62), “os escritores alemães consideram a tradução como sendo de grande valor para o desenvolvimento do indivíduo. Para Johann Breitinger (1701-1776) é a melhor maneira de se aprender a pensar”. Ainda no âmbito das teorias de tradução do século XVIII, são muito sugestivas as descrições e definições do tradutor arroladas por John Milton:

Wilhelm von Humboldt (1767 -1835) considera a tradução como uma maneira de proporcionar ao indivíduo experiências com as quais ele nunca teria tido contato. Tanto o indivíduo como a nação passam por algo mais nobre e mais complexo. O tradutor também é descrito de uma maneira muito distinta. Não encontraremos a degradação do tradutor, tão comum em outros lugares. Friedrich Schlegel (1772-1829) vê o tradutor como o introdutor de novas formas. Para Herder é a “estrela da manhã” de uma nova era na literatura. Goethe considera-o “o mediador nesse comércio espiritual geral” [...] A própria tradução é, segundo A. W. Schlegel “a verdadeira escritura, a criação artística mais elevada” [...] O tradutor é o profeta, o mensageiro, o escolhido. Não admira que Novalis (1772-1801) até mesmo exalte a tradução acima da escrita original (MILTON, 1998: 62).

A preocupação com a formação da classe médias alemã no final do século XVIII, e o consequente esforço da intelligentsia para divulgar obras inacessíveis em língua vernácula levam as técnicas de tradução a um novo patamar. A geração de Schlegel acreditava em uma união mística da comunidade dos homens através da arte literária enquanto tradução do Absoluto. Nesse sentido, traduzir não era apenas verter de uma língua a outra, mas realizar uma leitura de mundo, a qual contemplava tanto o rigor filosófico e filológico, quanto a crítica e a interpretação divinatória.

4. O distanciamento das belles infidèles francesas e a autonomia da teoria da tradução no primeiro romantismo alemão

Como consequência da maior autonomia de espírito conseguida no decorrer da segunda metade do século XVIII, a Alemanha buscou libertar-se completamente da dominação ideológica e cultural da França. No campo da dramaturgia, teóricos como Lessing evidenciaram desde a década de 1760 a necessidade de refutar o caráter empolado da aristocracia francesa no palco alemão, chamando a atenção para personagens que representavam o homem burguês. A representação burguesa do drama também se faz acompanhar pela criação romanesca de temas que evidenciavam a vida e os costumes dessa classe que ascendia. Ao final do século, a geração de Friedrich Schlegel toma como ponto de referência romances como Os anos de formação de Wilhelm Meister, de Johann Wolfgang Goethe (1795), nos quais é possível perceber o distanciamento estético da cultura aristocrática francesa e a exaltação do modo de vida burguês.

No que concerne as teorias da tradução, as denominadas belles infidèles, as traduções modificadoras, haviam tido seu esplendor durante a época barroca, permanecendo desde 1600 até a década de 1740 como um modo natural de verter para a língua de chegada a obra traduzida. Como afirma Jörn Albrecht, na época das belles infidèles o texto de partida foi desrespeitado de todas as formas possíveis: “rabiscou-se, arranhou- se, retirou-se passagens importantes, inseriu-se outros trechos que não constavam do original” (ALBRECHT 1998: 27).

No decorrer do século XVIII, o Iluminismo vai aos poucos se distanciando desse tipo de tradução, ao mesmo tempo em que o rigor filológico, a atenção ao texto e o declínio da ideia de representação fiel da realidade passam a vigorar. É o tempo do gênio criativo, o qual substitui aos poucos a necessidade de repetir modelos da tradição literária. Embora seja patente a maior liberdade criativa que se inaugura na época dos primeiros românticos alemães, no campo das traduções o resultado é uma atenção redobrada com o texto de partida e o texto de chegada. Isso significa que, ainda que possua toda liberdade criativa advinda da quebra dos dogmas que regulavam a criação e a crítica literárias, o tradutor deve utilizar sua criatividade de espírito para encontrar o meio ajustado entre o espírito e a letra do texto a ser traduzido, sem desfigurar o texto conforme a sua vontade. O que passa a ser importante é reproduzir o original, tanto em sua forma como em seu espírito, o que requer uma atenção redobrada aos aspectos linguísticos, literários e culturais do texto de partida.

Entre os exemplos mais acabados de teórico da tradução que se preocupava com a criatividade artística, a liberdade de criação, e o rigor filológico e hermenêutico, encontra-se Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher (1768-1834). Seu ensaio Ueber die verschiedenen Methoden des Uebersezens [Sobre os diferentes métodos de tradução], proferido na Academia Real de Ciências de Berlim em 1813, é um marco nas teorias de tradução do primeiro romantismo alemão. Esse documento revela as preocupações filológicas e tradutológicas dessa geração, sendo de suma importância para os estudos de tradução. John Milton (1998 : 68) indica que o esquema descritivo de Schleiermacher é singular na história da teoria da tradução literária. A tradução é vista nesse texto como um instrumento poderoso de aproximação entre povos, culturas e regiões e tempos históricos:

O fato, que um discurso em uma língua seja traduzido em uma outra, apresenta-se a nós sob as mais variadas formas por toda a parte. Por um lado, desse modo podem entrar em contato homens geograficamente muito afastados, e podem ser transpostas em uma língua obras de uma outra extinta já há muitos séculos (SCHLEIERMACHER apud HEIDERMANN 2010: 39).

Nesse ponto, a especialização no ramo da tradução, ocorrida na época dos românticos, aponta para o fato de que o tradutor deixa de ser um mero conhecedor de duas línguas, ou seja, do texto de chegada e do texto de partida, e passa a ser um profundo conhecedor de diferentes culturas e povos, um filósofo-filólogo, possuidor não apenas de um conhecimento linguístico profundo, mas igualmente proficiente na cultura de diferentes nações. Outro fator importante na concepção dos primeiros românticos alemães é o de que o tradutor deve reestabelecer da maneira mais próxima o texto original. Antecipando preceitos da Estética da Recepção, Friedrich Schlegel e Schleiermacher pressupunham o leitor como criador em segunda potência, como um continuador daquele texto original, daí a importância do respeito à obra a ser traduzida. Na preleção realizada em Berlim, Schleiermacher faz uma clara distinção entre o tradutor genuíno (aquele que além dos conhecimentos linguísticos deve ter o conhecimento cultural dos povos) e o mero intérprete comercial. O teórico alemão classifica esses dois tipos de tradução em tradução mecânica e a tradução artística, ou ainda em tradução genuína e simples interpretação (SCHLEIERMACHER apud HEIDERMANN 2010: 45).

A tradução genuína leva em consideração dois aspectos. O primeiro é que a língua é arbitrária – e Schleiermacher demonstra isso em seu texto muitos anos antes de Ferdinand de Saussure o haver teorizado.

Isso significa que para Schleiermacher o tradutor nem sempre encontra palavras exatamente equivalentes na língua de chegada como as encontrava na língua de partida, ou seja, que era quase impossível traduzir palavra por palavra. A preocupação do teórico com as questões linguísticas, discursivas, filológicas e filosóficas relacionadas à linguagem o tornam – com todo mérito – um dos fundadores da hermenêutica moderna. Suas reflexões sobre a relação entre o pensamento e a linguagem são espantosamente modernas, como quando aproxima pensamento e linguagem:

Onde quer que o falante pense mais ou menos espontaneamente, onde quer que se expresse, o falante se encontra em dupla relação com a língua, e seu discurso agora apenas pode ser corretamente compreendido na medida em que essa relação seja corretamente apreendida. Por um lado , cada homem está sob o poder da língua que ele fala; ele e seu pensamento são um produto dela. Ele não pode pensar com total determinação nada que esteja fora dos limites da sua língua. A configuração de seus conceitos, o tipo e os limites de suas articulações estão previamente traçados para ele pela língua em que ele nasceu e foi educado; o entendimento e a fantasia estão ligados por ela (SCHLEIERMACHER apud HEIDERMANN 2010: 49)

No que concerne à aproximação entre tradução e hermenêutica, Schleiermacher afirma que a dificuldade em se traduzir um texto acontece porque todo texto envolve duas dimensões que mesmo para o falante da língua materna são muitas vezes impenetráveis, ou seja, o próprio espírito da língua e o ânimo do falante (SCHLEIERMACHER apud HEIDERMANN 2010: 51). O teórico alemão concebe duas maneiras de se evitar essa intransponibilidade ou intraduzibilidade de uma língua para outra, as quais estão intimamente relacionadas com as pessoas do autor e do leitor. Ao tradutor resta apenas duas possibilidades de aproximar o autor e o leitor, seja levando o leitor ao encontro do autor, ou, ao contrário, levando o autor ao encontro do leitor. Uma das maiores dificuldades do tradutor, para Schleiermacher, é transpor essa distância entre as culturas e línguas e aproximar ambos, o universo do autor e aquele do leitor. O pensador alemão critica a tradução fácil e enganosa, que faz desaparecer a mágica de se encontrar perante uma obra estrangeira. Observando que a tradução não era a mera imitação da obra traduzida, mas o espaço para a criatividade filológica do tradutor, Schleiermacher chama a atenção para a tradução como atividade do espírito, enquanto Denkaufgabe [tarefa de pensar], como a define mais tarde Manfred Frank (1997: 430).

Conclusão

No primeiro romantismo alemão, a tradução se aproxima da filosofia e da filologia, em uma espécie de reflexão e criação em segunda potência. Os românticos alemães antecipam a valorização do tradutor na modernidade. Apontando a necessidade do rigor e da seriedade no trato com as palavras, ao mesmo tempo em que deixam o espaço para a originalidade e a criatividade da reflexão do tradutor, as teorias sobre a tradução do primeiro romantismo alemão representam um importante passo na história das teorias da tradução. Na visão de Friedrich Schlegel, o rigor filológico na tradução, e a atitude crítica no trato com o texto literário, também concebidos como uma espécie de filosofia da filologia, aproximavam os românticos dos antigos kritikoi ou diaskeuastas, os eruditos de Alexandria responsáveis pela reposição dos textos homéricos.

Como os antigos estudiosos gregos, os jovens do primeiro romantismo contemplavam na atividade crítico-literária e tradutológica uma tarefa infinita. Schlegel define esse sentimento como uma Sehnsuch nach dem Unendlichen [Ânsia de infinito], pois, para os românticos, através da ação do gênio criativo, a tradução poderia até mesmo superar o próprio original. Como assevera Márcio Seligmann-Silva (apud HEIDERMANN 2010: 24), com as teorizações dos jovens românticos alemães cai por terra a hierarquia entre modelo e copia, típica da estética clássica e da tradução pré-romântica.

Referências

ALBRECHT, Jörn. Literarische Übersetzung. Geschichte, Theorie, kulturelle Wirkung. Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1998.

BATTEUX, Charles. As belas-artes reduzidas a um mesmo princípio. São Paulo: Humanitas/Imprensa Oficial, 2009. Tradução de Natalia Maruyama.

BEEKS, Robert. Etymological Dictionary of Greek. Boston: Brill, 2010.

BERGHAHN, Klaus L. (Hrsg.) Geschichte der deutschen Literaturkritik (1730-1980). Stuttgart: J. B. Metzlersche Verlagsbuchhandlung, 1985.

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Recebido em 10/10/2016 e aceito em 06/12/2016.