Resumo

Por meio da coleta das variações apresentadas em documentos referentes à cidade de Capivari, interior de São Paulo e localidade de pesquisa pertencente ao Projeto Caipira, foi realizado um estudo fonético-fonológico das realizações de variantes da Língua Portuguesa, de modo a explicar de maneira conceitual o motivo de os metaplasmos ainda participarem do processo de articulação linguística. Por meio da documentação histórica e dos registros de nossos dias, perceber-se-á que, mesmo diante da alfabetização e letramento de seus falantes, as mesmas realizações já observadas por Amaral (1920) e demais estudiosos da língua, como Bueno (1967), continuam presentes em nossos tempos, o que demonstra que a afirmação de Amaral de que a escolarização poderia pôr fim ao dialeto caipira não é percebida ainda em nosso século. Desta maneira, o estudo demonstra que a imposição da escrita, por mais efetiva que pareça, não poderá eliminar ações naturais que são efetivadas pelo processo da fala, que, por vezes, acaba incutindo diretamente na escrita; e a pesquisa diacrônica reafirma essa percepção.

Introdução

Os estudos de filologia buscam na história a resposta para variadas condições da língua materna, de modo a compreender o motivo da ocorrência de diversos assuntos, dentre eles, as variações, sejam lexicais, sintáticas ou fonéticas.

Todavia, os estudos em filologia relacionados à fonética são, geralmente, realizados por meio de hipóteses, pois é mais do que sabido de que não havia meios de registro oral, a não ser pela escrita. E, como a escrita somente conseguiu se estabelecer quase que efetivamente como etimológica a partir do século XX, é possível buscar em documentação oficial, produzida por escrivães e secretários dos períodos anteriores, algumas variações ortográficas de vocábulos que já haviam sido convencionadas por dicionários e cartilhas do período. Dessa forma, em documentos manuscritos oficiais, vemos algumas inadequações em relação à norma culta provocadas pela influência da oralidade.

Sendo assim, para se estabelecer estudos diacrônicos fonéticos, fazemos uso dos documentos de época e de obras que registraram as variações de seu período, como o fez Amaral, em 1920, por meio de seu O dialeto caipira. Seu tratado sobre o falar dos moradores do interior de São Paulo fez-nos compreender que tal dialeto traz representações do próprio português brasileiro, pois o rol de metaplasmos por ele organizado demonstrou que os processos linguísticos não se distanciam tanto do que hoje é conhecido em termos de variações. E estas ocorrem em todo o país.

Embora haja a crença de que a escolarização, o maior contato com os termos escritos, o letramento de forma geral sejam capazes de interromper bruscamente o surgimento de variações linguísticas - a ponto de o próprio Amaral (1955: 42) dizer que o dialeto caipira estava “condenado a desaparecer em prazo mais ou menos breve” -, vemos, por meio de estudos contemporâneos, que essa afirmação não é inteiramente um postulado. Pesquisas, como esta que será mostrada, revelam que diversos processos linguísticos são inerentes à língua, repetindo-se através dos séculos, mesmo que tenhamos, atualmente, a forte presença da escrita em praticamente todos os sistemas de comunicação, além de um alto número de pessoas alfabetizadas em comparação aos períodos anteriores.

A pesquisa ora proposta demonstrará que as implicações fonéticas- fonológicas são os principais fatores para que haja variações, incluindo-as em registros ortográficos. Desta forma, propôs-se um estudo comparativo entre as variações fonéticas-ortográficas presentes em alguns ofícios da cidade Capivari (interior de São Paulo), e de registros realizados por pessoas em fase de escolarização ou que tenham apresentado um baixo grau de escolaridade, já que estas compartilham uma escrita mais próxima da oralidade, e demonstram como essas variantes estão ainda presentes, não se distanciando tanto do século XIX – o nosso principal objeto de pesquisa.

1. Metodologia, processo de recensio e edição

Para se fazer este levantamento, foram realizadas edições justalineares semidiplomáticas de 72 documentos, constituídos por 184 fólios. A documentação é formada por requerimentos, atas, atestados, registros diversos, informações, petições, abaixo-assinado, e cartas enviadas aos presidentes da província em exercício. Os fólios foram selecionados, em sua maioria, no Arquivo de São Paulo, também havendo ofícios pesquisados no Museu Republicano de Itu e no MAHMI (Museu e Arquivo Histórico Municipal de Itu).

Os exemplares são, em sua maioria, autógrafos, havendo pouquíssimos apógrafos. Nestes, geralmente estava escrito “cópia” em uma das margens, todavia, o documento foi considerado, pois, de acordo com o estudo paleográfico e codicológico realizado, reconheceu-se que tais fólios também pertenciam ao mesmo período, e, como o nosso interesse era linguístico, eles se tornavam relevantes para a pesquisa.

Em se tratando do aspecto codicológico, grande parte dos fólios foi escrita em folhas de almaço para documentos cartoriais, em sua maioria da empresa Bath e Canson. De modo geral, os suportes estavam bem conservados, danificados com amassados ou pequenos rasgos apenas em suas pontas devido ao acondicionamento do arquivo e ao tamanho do papel. E os exemplos aqui utilizados serão próprios de trechos sem nenhum tipo de avaria.

Os critérios das edições tiveram como base as Normas para transcrição de documentos manuscritos para a História do Português do Brasil¸ estabelecidos no II Seminário para a História do Português Brasileiro de 1998 (CUNHA; CAMBRAIA; MEGALE, 2001). E, para demonstrar as variantes, serão apresentados trechos dos documentos reproduzidos em formato fac- similar digitalizados no quadro montado a seguir.

Em relação aos registros atuais, estes foram coletados por meio de imagens de placas e anúncios de rua. Eles foram colhidos por meio de pesquisa via redes sociais, e de arquivo pessoal: muitas variações foram fotografadas em espaços públicos.

Também haverá uma coleção de variantes produzidas por alunos do 7º ano do ensino fundamental e da 1ª e 2ª série do ensino médio. Os jovens pertencem à rede particular de ensino, com idades entre 12 a 16 anos, pertencentes à classe média. Tais registros foram obtidos por meio de avaliações e atividades realizadas em sala de aula.

2. Da oralidade para a escrita

Segundo DUBOIS et al (2001), a escrita “é uma representação da língua falada por meio de signos gráficos”. No entanto, há de se admitir que, ao se realizar a forma gráfica de uma ação sonora, uma série de procedimentos convencionados será utilizada. Marcuschi (2010) traz- nos essa informação ao considerar a transcrição do texto oral, todavia, sabemos que tal execução é realizada todo o tempo enquanto realizamos a escrita, já que seguimos uma convenção pré-estabelecida por meio dos Acordos Ortográficos e Manuais Gramaticais.

O fato é que, entre a formação da consciência fonológica e o ato da escrita convencionada, há um desnível. Isso ocorre porque as representações fonéticas da nossa escrita são limitadas em relação à nossa fala. Em outras palavras, nosso sistema de formação fonológica da língua portuguesa prevê cerca de 50 fonemas (vide tabela 1), enquanto o nosso alfabeto é constituído por 26 letras. Embora haja a combinação de grafemas para constituição de alguns fonemas (por exemplo, ch por [ʃ], nh por [ɲ], lh por [ʎ]), nosso sistema ortográfico não é completamente representativo, o que provoca confusão na escrita em usuários da língua, cuja consciência fonológica fora formada, todavia, a ortográfica pode apresentar deficiências.

Em contrapartida, é importante ressaltar que tal percepção não justifica um tratado para a escrita fonética na Língua Portuguesa. É necessário haver uma padronização, do contrário, teríamos mais de uma forma de escrita para um mesmo vocábulo como tia, que é pronunciado [tía] em algumas regiões e [tʃía] em outras.

Porém, sabe-se que a similaridade fonética é a responsável pela confusão, pois, como exemplo, para o segmento [s] temos 8 representações gráficas, sendo elas c, ss, s, ç, sc, xc, xç, x. Desta forma, torna-se compreensível que encontremos em registros de pessoas eruditas alguma inadequação gramatical, por menor que esta seja.

Figure 1.

TABELA 1: Formação fonológica da Língua Portuguesa (FERREIRA NETTO, 2011: 63

3. Variações presentes no século XIX e no XXI

Para iniciarmos os estudos, nas páginas a seguir há um quadro com as amostragens referentes ao século XIX e os exemplos encontrados no XXI. Haverá uma numeração referida às variações (01, 02, 03, assim por diante), as quais serão mencionadas durante as explicações para tais ocorrências. Frente às imagens selecionadas, o quadro apresentará a descrição dos vocábulos e sua catalogação. Da mesma forma, estão apresentadas as imagens colhidas no século XXI, sua descrição e o local de coleta.

O estudo começa abordando para o fato da epêntese vocálica do exemplo 01. Bueno (1967) menciona que o encontro consonantal do grupo gn teve sua pronúncia simplificada, e por algum tempo vocábulos como “maligno” foi dito como malino por não se pronunciar o /g/. Entretanto, a grafia foi restaurada no Renascimento e, por fim, influenciou a fonética, fazendo com que a oclusiva vozeada voltasse a ser pronunciada.

Viaro (2004: 194), porém, informa-nos que existem encontros consonantais “considerados difíceis para o português”, o que faz com que o falante realize uma epêntese, separando, assim, esse encontro com uma vogal, tal qual aparece em “digino”, proveniente de um bilhete fixado ao ofício enviado ao inspetor de estradas de 1860.

Além desses exemplos, também se encontram registros em que a consciência fonológica tenta sistematizar-se por meio dos códigos ortográficos, de modo que o escrevente acabe registrando a epêntese com acompanhamento do dígrafo GU-, conforme visto a seguir no exemplo do vocábulo “digueno” encontrado num fólio de 1865.

No mesmo exemplo da figura 1 de 1860, também é notado que a execução do dígrafo SS é simplificada. Embora BUENO informe que a sibilante dupla tenha permanecido no idioma para conservar o valor fonético, na escrita tal valor às vezes desaparece, pois a consciência fonológica da pessoa que transcreve uma palavra com base em pouco conhecimento ortográfico tende a acreditar que apenas a escrita de um /s/ seja suficiente para indicar a presença do fonema, tendo em vista que as palavras que se iniciam com a mesma ocorrência são grafadas com apenas uma letra. Assim, tomando essa concepção, no interior de uma palavra, acredita-se que ela obtenha o mesmo valor fonético.

Figure 2.

QUADRO 1: Amostras de variações ortográficas presentes em documentos novecentistas e atuais

Figure 3.

QUADRO 1: Amostras de variações ortográficas presentes em documentos novecentistas e atuais (continuação)

Figure 4.

QUADRO 1: Amostras de variações ortográficas presentes em documentos novecentistas e atuais (continuação)

Figure 5.

QUADRO 1: Amostras de variações ortográficas presentes em documentos novecentistas e atuais (continuação)

Figure 6.

QUADRO 1: Amostras de variações ortográficas presentes em documentos novecentistas e atuais (continuação)

Figure 7.

QUADRO 1: Amostras de variações ortográficas presentes em documentos novecentistas e atuais (continuação)

Nos exemplos contemporâneos de 02, podemos observar o equívoco não somente transcrito no interior da palavra, mas um exemplo raro em que o escrevente anotou uma inadequação, por meio do dobre da consoante /s/ logo no início do vocábulo, indo de encontro ao que foi mencionado no parágrafo anterior sobre a confusão de que o /s/ intervocálico possua a sonoridade da fricativa coronal alveolar [s].

Em 03, aborda-se a mesma questão de dígrafos formados por duplicidade consonantal, porém, direcionando o olhar para as ocorrências com RR. Devido à sua similaridade normativa, é comum encontrarmos a redução gráfica desse dígrafo, em que foram encontrados exemplos com a escrita de apenas um /r/ em fólios de 1835 (documento 47) e 1843 (documento 7).

Sobre o assunto, poder-se-ia haver a hipótese de que tal fonema fosse pronunciado de forma vibrante ou vibrante dupla, tendo em vista que é comum encontrar, pela região do Médio Tietê, pessoas que trazem essa variação fonética. E, devido a essa pronúncia, o escrevente utilizaria a anotação de apenas um /r/. No entanto, este não é o caso do registro contemporâneo em 03, pois o aluno que produziu o exemplo o fez como fricativa dorso-velar sonora [x]. Desta forma, é possível supor que, da mesma forma que havia a transcrição em 02 do uso de apenas um grafema para identificação da fricativa coronal alveolar, o mesmo possa ter ocorrido com o rótico.

De qualquer maneira, antes do domínio da ortografia, veem-se dúvidas quanto à grafia adequada, como demonstrada no apontamento do escrivão em “a roinou”. O pressuposto da falta de clareza para a escrita por parte do autor dá-se porque o registro da palavra apresenta-se com a vogal /a/ fazendo fronteira com o restante do vocábulo; todavia, o escrevente sabia da existência do dígrafo, tendo em vista que seu sobrenome, “Ferras”, apresenta-se assim escrito no fim do fólio. Dessa forma, compreendemos que a pronúncia de /r/ em posição inicial ou intervocálica era semelhante.

Retomando o processo ortográfico a que o fonema [s] é submetido, percebemos que no século XIX sua pronúncia de c, ç, s ou x já haviam se equiparado, conforme visto em documentos 54, 51 e 72, de 1821, 1841 e 1860, respectivamente. Embora no século XIX tais trocas sejam comuns a ponto de não impressionar quando fazemos as edições dos documentos, é importante lembrar que a escrita etimológica apenas se estabeleceu efetivamente no século XX com a grande demanda editorial, aumento da circulação de meios de comunicação escritos, como jornais e revistas, e democratização do ensino. Não obstante, ainda que haja a crença de que a introdução de uma gramática regulamentadora faria com que o usuário do idioma tivesse domínio completo de sua escrita, encontramos em grupos de pessoas plenamente alfabetizadas a troca de grafemas, pois a consciência fonológica por vezes torna-se mais proeminente do que a ortográfica. Nos exemplos contemporâneos de 09, encontramos dois registros, um de um garoto do ensino fundamental, com 13 anos de idade, outro de um rapaz de 15 anos do ensino médio: suas transcrições demonstram que, mesmo pertencente a um sistema regularizador eficiente, a plena igualdade fonética entre os grafemas citados trazem imprecisões de uso aos seus usuários.

A outra imagem relacionada (“cervisos” por serviço) refere-se a uma placa divulgada no comércio popular, realizada por adultos. Tendo em vista o desenvolvimento escrito, conjectura-se que o exemplo apresentado foi realizado por uma pessoa alfabetizada, mas sem completo domínio ortográfico. Portanto, vemos que a situação da troca de grafemas apenas se acentua em relação ao nível de escolaridade.

Em relação à nasalação do exemplo 05, nos documentos 72 e 93, de 1860 e 1843, vê-se uma dificuldade de grafarem-se os termos “inspetor” e “demonstrar”. Na primeira ocorrência, o escrevente, além de desnasalar o vocábulo, produziu um rebaixamento de vogal. Quanto à desnasalação, o processo explica-se por meio da ausência da execução da vogal nasal. A prática de desnasalar é comum à língua, tendo em vista os diversos vocábulos latinos que passaram pelo processo no decorrer da história, como lua (luna > lũa > lua) e aveia (avena > avẽa > avea > aveia), em que a vogal em posição tônica dissolveu a nasalidade da sílaba posterior de modo a inibi-la, em lua; e, em aveia, transformou o segmento nasal em ressonância vocálica, transmutando-o em uma semivogal sem nasalidade. Tendo em vista esses pré-conhecimentos, no caso demostrar, é possível conjecturar duas ocorrências: a possibilidade de uma analogia ao termo “mostrar”, que não possui nasalidade vocálica e é proveniente da mesma raiz latina do verbo em questão (monstro, -a; demonstro, -a), ou, ainda, uma dissimilação da sílaba nasal, como ocorreu em lua e no próprio termo latino ora mencionado.

No termo “ecomenda”, exemplo mais contemporâneo que possui similaridade de variação com o termo “espetor”, vemos a desnasalação vocálica. Da mesma maneira, observa-se o registro “inveja” como iveja. Nota-se que tal apontamento retoma alguns registros já reconhecidos no século XIV em ivega. Sobre o mesmo termo, também possuímos o apontamento de enveja datado no XIII (HOUAISS, 2007).

Sobre o rebaixamento de vogais dos casos “vezivel” e “seos”, visto em 06, percebe-se que exista um engano quanto ao uso devido à imposição de escrita, que define quando usarmos determinados grafemas. Mattos e Silva (2006), em seu estudo proposto observando documentos do século XIII a XVI, afirmou que existe uma flutuação entre os fonemas e/i e o/u, o que também se confirma em Oliveira (1536: 54), quando diz que “das vogais, entre u e o pequeno há tanta vizinhança, que quase nos confundimos, dizendo uns somir e outros sumir e dormir ou durmir, bolir ou bulir. E outro tanto entre i e e pequeno, como memória ou memórea, glória ou glórea”.

Tal processo de flutuação continuou a ser encontrado no século XIX e ainda no XXI, nos casos em que vemos “verefique” (verifique) e “grates” (grátis) registrados em placas, e “sentio” e “vio”, produzido pelo garoto de 13 anos do ensino fundamental.

Também é possível reconhecermos casos de alteamentos em vogais nasais em posição final, como visto em “capoins” e “cains”, de 1841 e 1835. Na escrita, nota-se que os escreventes apenas nasalaram a semivogal, deixando registrado o alteamento. Tais apontamentos convergem ao observado por Ferreira Netto (2011: 144), que reconhece haver indícios de que a nasalidade em ditongos nasais seja um segmento, havendo dificuldade na localização dele. Conforme o autor, “tomando-se V para vogais, S para semivogais e N para nasalidade, as possibilidades são VNS, VSN”. Considerando que esses conceitos possam ser verificados na escrita por meio de suas variações, justificam-se os usos nos exemplos

07. Observando o registro contemporâneo, encontrado em uma placa na zona rural, notamos que seu escrevente retirou qualquer elemento que demonstrasse a nasalidade da sílaba final, trazendo apenas o alteamento. Retomando o exemplo 04, do documento 51 do fólio de 1841, vemos a ditongação no termo “eispressivo”. Nunes (1989) informa que esse processo é arcaico, e Mattos e Silva (2006) diz-nos que a ocorrência é uma derivação dialetal. O fato é que dentre os alfabetizados do século XIX, além do exemplo mencionado, chegamos a encontrar mais ocorrências, como o termo “feixar” de 1835, e “veixames” também de 1841. E observa-se que a mesma ocorrência de ditongação anterior ao fonema /ʃ / foi produzida por um aluno de ensino médio, conforme visto em 08.

Ferreira Netto (2011: 141) informa que há inserção do segmento [i] quando o primeiro elemento do encontro vocálico torna-se tônico. Segundo o autor, as inserções ocorrem tanto da ressonância nasal, quanto da “antecipação de articulação coronal de segmentos consonantais em posição margem direita de sílaba tônica final”. Desta forma, não haveria diferença fonética entre um encontro tautossilábico formado por duas vogais (grau, reino) e outro formado pela inserção do segmento (bo[u]a, co[i]xa, ge[i]nte).

Em consonância com a discussão aqui levantada, notamos que os mesmos processos continuam a ser administrados na língua. Coletando exemplos etimológicos como o termo “peixe”, percebe-se que o processo admitido foi o mesmo: do latim piscis, os segmentos [s], de sua origem latina, e [ʃ], formação atual, possuem o mesmo articulador ativo coroa, distinguindo-se por seu articulador passivo, o que explica a mudança no decorrer dos séculos. Entretanto, a ditongação foi oscilante até consagrar- se o modo peixe, já que se encontram as variações “pexe” e “peixe” nos séculos XIII, “pez” no XIV e “pexees” no XV. Desta forma, a oscilação será encontrada em diversos outros vocábulos da língua portuguesa, como ocorre no exemplo 09 de 1888, e nos contemporâneos – em que se traz a mesma ocorrência do século XIII.

Assim como a monotongação dos encontros vocálicos, já mencionadas aos exemplos relacionados ao exemplo 09, Ferreira Netto (2011:142) defende que “a padronização da escrita da língua portuguesa não teve o mesmo critério na representação desses segmentos”, pois se registra, no século XV, os vocábulos “caxa” e “caixa”. Segundo o autor, a supressão do segmento [i] pode estar diretamente ligado ao segmento consonantal que segue. No caso, “o que parece definir que as articulações coronais pré-palatais contínuas propiciam a ocorrência e a incorporação de um segmento vocálico igualmente coronal pré-palatal com o mínimo grau de abertura”. Por essa definição, compreende-se a variação no exemplo 10 de 1836.

Além da inserção do iode ou da sua redução provocada pelo segmento consonantal que segue, como comentados anteriormente, também é possível perceber casos em que há a assimilação do segmento vocálico alto [i] ou [u] pela vogal média alta [e] ou [o] em posição tônica, como tidas no exemplo 11, nos documentos 51 e 38, de 1841 e 1871. Segundo Bisol (1989), existe a distinção entre ditongos leves ou falsos, e pesados ou verdadeiros. Os ditongos leves ou falsos seriam realizados como formas fonéticas superficiais, por vezes pouco perceptíveis na produção da fala. Nos exemplos contemporâneos ou novecentistas, percebemos que existe a aproximação do modo de articulação entre as vogais altas e médias altas – sendo [i] e [e] coronal pré-palatal, e [u] e [o] dorso-velares – o que justificaria suas assimilações.

No exemplo 13, voltamos a notar casos em que a imposição da escrita faz com que o escrevente traga dúvidas no momento do registro. Na oralidade, por exemplo, a pronúncia da vogal nasal – am em posição final faz a ressonância de um segmento vocálico [w], confundindo-se com a produção – ão. Sabe-se que se convencionou que substantivos e verbos do futuro seriam grafados com a terminação –ão, enquanto os verbos do presente e pretérito têm sua correspondência em –am. Todavia, mesmo para os falantes alfabetizados, tal diferenciação pode trazer confusão, como são os casos encontrados nos documentos 46 e o do livro de notas dos anos de 1872 e 1843. A troca de ambos os sistemas são muito comuns nos anos escolares de fundamentação da escrita, conforme se observa nos exemplos contemporâneos produzidos por um aluno de 15 anos e uma menina de 13. Embora se tente estabelecer uma relação lógica entre futuro, presente, pretérito e substantivos, elementos registrados na língua como são e estão, que constituem verbos no presente do indicativo, por vezes confundem ainda mais os alunos que, inconscientemente, estão contrapondo sua consciência fonológica com as imposições ortográficas. Sendo assim, não se pode generalizar a explicação de que “sempre” os verbos no presente serão escritos com finalização em m, pois tal afirmação não tem apoio fonético nem ortográfico.

Em se tratando de síncope, o exemplo 13 traz-nos dois casos, “priudo” de 1864, e “antrior” de 1841. A síncope vocálica repete-se nos registros contemporâneos “prigo” e “esprimente”. Considerada por Bueno (1967: 76) uma das “figuras mais empregadas em fonética histórica”, o desaparecimento do segmento [e] se dá devido à sua proximidade com a vibrante apicoalveolar. Segundo Ferreira Netto (2011: 107), “o segmento [ɾ] apicoalveolar, em início de sílaba, parece ser uma forma imanente na língua portuguesa desde suas primeiras manifestações”, e, tendo em vista os casos selecionados, sua realização parece incentivar a supressão vocálica.

Sobre a realização dos róticos na língua portuguesa, o exemplo 14 traz registros de rotacismo de /r/ por /l/, e vice-versa. Ainda que se tenha encontrado apenas a troca de R por L no século XIX, como exemplificado nos documentos 13, 92 e 30 de 1836, 1850 e 1865, nos apontamentos “clokete” e “malmitex” percebem-se duas hipóteses: a primeira deve-se à dúvida promovida pelo escrevente em referência ao seu próprio domínio linguístico, pois o pré-conhecimento de que é natural a ocorrência de processo de troca dos fonema vibrante [ɾ] pela lateral [l] faz com que o usuário cometa o erro da hipercorreção e transcreva a forma inadequada do termo. Outra hipótese é que haja realmente o registro da forma oral.

No entanto, Ferreira Netto (2011: 108) observa que “os cognatos latinos que apresentam encontros consonantais em que o segundo elemento é a lâmino-alveolar [l] têm equivalência no Português com formas cujo segundo elemento é [ɾ]”. Desta maneira, formas como cravo (do latim clavu) e empregar (do latim implicare) justificariam a ocorrência de “fragante” e “brusa”.

Em posição de coda silábica, a troca de /r/ por /l/ dá-se pela articulação apicopalatal, ou retroflexa. De acordo com Ferreira Netto (2011: 112), a articulação apicopalatal é característica dos falantes mais idosos de dialetos como o caipira e, ao comparar as realizações da vibrante em posição intervocálica ou inicial com as realizações de “l”, o autor diz que “bem como vibrantes em final de sílaba é notável que a haja um paralelo entre a ocorrência de [r], ainda que como forma alternativa, e de [ɻ] exatamente nas mesmas condições”.

As ocorrências e formação do r-retroflexo ainda é objeto de amplo estudo, mas é interessante verificar seus apontamentos ainda no século XIX, e de como sua ocorrência permanece nos dias de hoje. Considerando o século XXI, percebe-se que o registro de R em coda silábica seja a continuidade de uma tradição linguística, tendo em vista que a realização da lateral [l] como retroflexa foi claramente substituída pela vocalização em [u] em diversos estados brasileiros. Sendo assim, não há hoje indícios de que a realização do r retroflexo dependa de [l].

A continuidade desses processos é perceptível também nos exemplos 15 e 16, em que encontramos casos de epênteses consonantais em vocábulos de 1884 e 1882 (documentos 88 e 70), e de metátese, em “porcuraçaõ”, de 1808, e “percisa” de 1857, e “permorção”, “iorgurte” e “barsil” no século XXI. Viaro (2003: 139) menciona que o fenômeno da metátese é antigo e repleto de exemplos do latim, como o advérbio sempre que provém da forma latina “semper”.

Porém, quanto aos casos do exemplo 15, estes devem merecer um olhar mais atento. Embora registrado desde o século XIX, não há outros relatos científicos sobre o estudo desse processo linguístico. O epêntese de [ɻ] parece ocorrer por analogia ou assimilação em sílaba pré- tônica, como acontece em “iorgurte” e “permorção”. Não obstante, é necessário um estudo particularizado sobre o assunto, ficando, por ora, reafirmada sua existência.

Conclusões

Como dito na introdução, muitos autores, dentre eles Amaral (1920) e Bueno (1967), acreditavam que o processo de alfabetização pelos quais passariam nossos jovens faria com que diversas variações deixassem de fazer parte de nosso cotidiano linguístico, ficando restrito, se muito, a questões sociais. No entanto, este artigo demonstra que a língua, independentemente dos valores pelos quais seu povo passa no decorrer dos anos, mantém viva formas e estruturas que nem o letramento é capaz de normatizar plenamente pela variante padrão.

Todos os processos estudados estão presentes desde o latim e são responsáveis pela construção de novas palavras, conceitos e formas. Todavia, até uma palavra modificada ser e aceita nos padrões da gramática normativa, as variações são geralmente consideradas erros pela sociedade — mesmo explicando-se sobre o preconceito linguístico para que as pessoas sejam mais tolerantes com tais variantes, as quais representam a composição do próprio idioma, mantendo-o vivo.

Embora o trabalho aqui realizado tenha feito uso de documentos produzidos por pessoas ainda em fase de desenvolvimento linguístico — excetuando-se os exemplos novecentistas, que pertenciam ao período fonético-etimológico —, perguntamo-nos no que consistiria esse desenvolvimento, sabendo-se que todos são falantes de língua portuguesa. Tal questionamento é realizado tendo em vista modelos de alfabetização atuais que buscam a construção da escrita por meio do reconhecimento dos elementos lexicais. Ferreiro (2010: 65) menciona que “a construção de um objeto de conhecimento implica muito mais que mera coleção de informações. Implica na construção de um esquema conceitual que permita interpretar dados prévios e dados novos”. No entanto, indaga-se: como elaborar interpretações prévias em um modelo cuja consciência fonológica poderá ser diferente da que foi estabelecida como padronização ortográfica?

Ferreiro, pensando na alfabetização de crianças, na mesma obra (2010: 92) afirma que para compreender a natureza do sistema de escrita que a sociedade oferece à criança, é necessário que esta a reconstrua internamente, invés de recebê-la como um conhecimento pré-elaborado.

No entanto, vimos, por meio dos estudos fonéticos, que algumas construções que ocorrem na língua não são amplamente respeitadas pelo sistema ortográfico que, por ora, necessita que a língua respeite sua etimologia — mesmo por não sabermos qual será o futuro dela.

Logo, além de conceituar as formas fonéticas na produção dos metaplasmos, este estudo também visa fomentar a discussão acerca do desenvolvimento da alfabetização, de como preparar uma educação que seja efetiva mediante tantas variações inerentes ao desenvolvimento do idioma, de forma que a aquisição da escrita produza mais soluções do que dúvidas em seus usuários.

Referências

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Recebido em 10/10/2016 e aceito em 06/12/2016