Resumo

O presente artigo vem trazer à luz considerações e resultados alcançados a partir de pesquisas realizadas anteriormente com o intuito de levantar entradas lexicais advindas da língua grega que foram utilizadas para nomear artefatos tecnológicos que se popularizaram, principalmente, nas últimas décadas do século XIX. Importante, aqui, é salientar que o corpus fora retirado de artigos de jornais correntes à época por considerarmos os textos desses periódicos a exemplificação ideal do teor popular que algumas tecnologias incorporam.

Introdução

Quando investigamos os processos civilizatórios pelos quais a humanidade passou, nos é dado a conhecer por estudiosos anteriores a nós a íntima relação entre o fomento tecnológico, seja ele de que área seja, e os degraus alçados rumo a patamares cada vez mais distantes da barbárie. O advento da língua escrita, segundo Darcy Ribeiro, vem estabelecer a cisão primeira entre o ente bárbaro e o civilizado. Posteriormente, segundo a visão de Leite (2007), um aparato tecnológico vem trazer poder à humanidade que é o refletir sobre sua língua e, assim, nascem as primeiras concepções gramaticais, graças, claro, a possibilidade do registro escrito. Olhar criticamente para esses registros, então, faz nascer uma nova ciência, a filologia.

A intenção aqui não é fazer uma explanação demorada, tampouco alguma cronologia acerca da filologia, mas trazer à luz alguns resultados obtidos a partir de investigações realizadas em pesquisas anteriores que deram certos frutos e que julgamos dignos de serem compartilhados.

A pesquisa iniciou-se em agosto de 2010 com o levantamento sistemático de anúncios de jornais impressos no século XIX que apresentassem usos de lexemas que possuíssem radicais de origem grega. A primeira ferramenta realmente útil foi a obra da série: “Diachronica”, “E Os Preços Eram Commodos... – Anúncios de Jornais Brasileiros do Século XIX”, impresso no ano 2000 pela Copyright 2000 da Humanitas FFLCH/ SP, organizada por Marymarcia Guedes e Rosana de Andrade Berlink. Nesta obra as organizadoras dispõem de forma sistemática anúncios transcritos retirados de jornais de algumas regiões do Brasil. Compõe este compêndio: 310 anúncios do estado da Bahia; 142 anúncios do estado de Minas Gerais; 90 anúncios do estado do Paraná; 66 anúncios do estado do Pernambuco; 146 anúncios do estado do Rio de Janeiro; 106 anúncios do estado de Santa Catarina; e 783 anúncios do estado de São Paulo, totalizando 1643 anúncios impressos em jornais do século XIX.

Chegou-se à conclusão de que, com as dificuldades impostas pela geografia, o trabalho seria melhormente desenvolvido se restringíssemos as cidades que serviriam como fonte de informações. Desta sorte, os anúncios que utilizaríamos seriam os das cidades de Campinas, São Paulo e Sorocaba, cidades estas em franco desenvolvimento no século XIX devido à produção cafeeira, e que se enquadrariam perfeitamente na proposta do trabalho por figurar muito bem a dicotomia rural/ urbano e o processo civilizatório. Assim, da obra de Guedes & Belink foram utilizados, para fazer parte de nosso corpus, 523 anúncios, e a esses foram adicionados mais 61 anúncios levantados a partir do site do Arquivo Público do Estado de São Paulo, que disponibiliza periódicos digitalizados. Desses 584 anúncios analisados foram levantados 74 lexemas construídos a partir de raízes gregas. Essas 74 ocorrências figuram em exatos 181 anúncios dos 584 analisados. E se dividem em 42 lexemas que se ligam à linguagem médica, ou relacionada à saúde; 26 nominam objetos de tecnologia maquinal; e, 6 desses se relacionam com questões culturais, ou faziam parte das classes estritamente gramaticais, como se poderá notar nos apêndices do trabalho onde estão digitados todos os anúncios integralmente.

Após a coleta do corpus foi efetuada a análise de cada um dos lexemas de modo a tabelá-los dando a conhecer o periódico de onde foi extraído, a data em que o anúncio foi publicado e a cidade; assim como as entradas das palavras em dicionário etimológico e entrada em dicionário escolar, de modo a se ter um quadro sinótico de cada um dos lexemas.

A isso se seguiu o estudo mais detalhado dos lexemas que deu origem aos textos analíticos que constituem o trabalho.

1. Retrato (3/4) da imprensa

Nosso trabalho buscou nos anúncios de jornais brasileiros oitocentistas seu corpus, pois este é um dos suportes em que poderíamos encontrar, de forma mais difusa quanto possível, os lexemas que nos interessavam, lexemas que nominam as tecnologias e seus avanços.

A imprensa, ou tipografia, é em si uma ferramenta tecnológica que trouxe grandes benefícios às sociedades, sendo essencial para a demanda de um mundo em franco progresso.

O século XI é um marco para as mudanças necessárias para novas configurações sociais na Europa. Após anos de estagnação imposta pelas conquistas bárbaras e a invasão dos serracenos, as cruzadas são o que abre novos rumos a serem trilhados pelo continente.

O comércio europeu renasce havendo transações de mercadorias, seja por vias aquáticas, seja por vias terrestres que invadem os castelos e os burgos oferecendo os mais diversos produtos estrangeiros. Com isso originam-se as feiras e funda-se o mercado. Um novo grupo social estabelece-se nas cidades.

Essa nova classe, homens livres, visando a ascensão social e econômica, põe em prática seu gênio inventivo melhorando suas produções qualitativa e quantitativamente, aperfeiçoam suas técnicas para melhor servir o público. Melo nos ensina:

A partir do século XI, com a expansão e o renascimento do comércio europeu, os mecanismos da atividade mercantil apresentam-se mais e mais complexos (começam a circular as letras de câmbio, surgem as agências bancárias e várias outras formas de agências comerciais), que exigem a escrituração contábil, a correspondência comercial, as informações sobre as flutuações do mercado, como recursos indispensáveis às grandes empresas já constituídas”1.

O serviço burocrático era realizado pelos estudantes das escolas leigas, fundadas por comerciantes ricos justamente para gerar “jovens adestrados para o comércio ou a burocracia”.

A criação das universidades europeias vem contribuir para a formação efetiva de uma elite intelectual. No século XII fundaram-se as universidades de Bolonha e a de Paris. No século seguinte surgem as de Cambridge, Oxford e Salamanca. O homem livre, capitalista tinha sede de conhecimento. Por um curto espaço de tempo, mas o bastante para impactar essa nova Europa, as universidades foram gratuitas.

Com efervescência cultural, a demanda de livros manuscritos alcançou um patamar impossível de se sanar. E o comércio editorial elevou os preços de suas obras que eram disputados por estudantes e colecionadores.

Com tantas obras e documentos sendo manuscritos na Europa, livros para os ávidos por conhecimento, papéis burocráticos para os ávidos pelo comércio, a invenção de Gutenberg, a Tipografia, permitiu “a reprodução rápida de um mesmo texto e ofereceu à linguagem escrita as possibilidades de uma difusão que o manuscrito não tinha2.

E, então, chegamos à parte que nos interessa. Além das necessidades institucionais, naquele momento a população tinha a necessidade de se manter informado acerca dos acontecimentos de sua época. Muito bem sintetizada por Madeleine D’Ainvelle, citada por Melo, essa necessidade:

se faz sentir nos diversos meios sociais: o citadino que deseja conhecer a vida do grande corpo social ao qual ele pertence e que ultrapassa sua relações primárias; o comerciante burguês e banqueiro que não pode ter sucesso em seus negócios se não estiver bem informado dos preços das mercadorias e da sua acessibilidade, que depende da conjuntura política; os cidadãos, ansiosos por sua participação no exército da Itália que têm sede de informações precisas; o Rei, para defender sua política, que procura atingir a opinião.

Dessa forma, o ficar informado sobre a realidade é mais que uma mera curiosidade, mas tem um fim prático, tornou-se uma necessidade para que se obtenha sucesso na vida pública, profissional, política e religiosa.

A rapidez com que a nova técnica de impressão difunde- se por toda a Europa indica a significação social do feito gutembergiano e a sua repercussão como instrumento útil à vida do Continente3.

Em Portuga,l a primeira tipografia é instalada em 1487 na cidade do Faro. Com a vinda da família real portuguesa para o Brasil em 1808 e a necessidade de se imprimir uma infraestrutura que pudesse dar conta dos velhos mecanismos políticos na nova corte, foi implantada oficialmente a imprensa no novo Reino Unido em conjunto com outras importantes ferramentas administrativas, como o Banco Nacional do Rio de Janeiro e tribunais para a administração das finanças e da justiça.

A Imprensa Régia, num primeiro momento, tinha como foco executar serviços da administração real. Contudo, com os acontecimentos que se desenvolviam na Europa, não se podia condenar os novos habitantes a total ignorância dos fatos, assim como sobre os fatos ocorridos na nova sede do governo português. Ainda a implantação de escolas de ensino superior, assim como outras instituições culturais, exigiam a produção de livros e diferentes tipos de expedientes, forçando a Imprensa Régia a sanar essa demanda.

Em 10 de setembro de 1808, ocorre a circulação do primeiro jornal produzido e impresso em terras brasileiras, a Gazeta do Rio de Janeiro. Entre os anos de 1808 e 1821 a produção da imprensa no Brasil foi muito pequena, devido a decretos que forçavam as tipografias a dar prioridade aos papéis administrativos, imprimindo, inclusive, uma face censória ao trabalho da imprensa. Em 1821, quando é abolida a censura prévia no Reino em consequência da Revolução do Porto4, o número de trabalhos editados aumenta exponencialmente. Assim como o número de trabalhos editados, o número de Tipografias em território brasileiro também aumentou significantemente após 1821. Até o ano existiam duas instituições do tipo no Brasil: a do Rio de Janeiro e a de Salvador. A partir daquela data, quatro outras mais seriam instaladas: em Recife (PE), em São Luíz (MA), em Belém (PA) e em Vila Rica (MG). Entre 1824 e 1852 quinze outros estados puderam ter em seus territórios tipografias, dentre eles o estado de São Paulo que tem a implantação oficial datada de 18275.

Dessa forma, o estado de São Paulo tinha um jornal que tratava de coisas pertencentes a sua realidade, visto que a vida na corte nada tinha de similar aos viveres paulistas. Apesar do grande desenvolvimento experimentado pelo estado no século XIX devido à produção cafeeira, a elite paulista não usufruía das mesmas prerrogativas da elite carioca. Mas se constituía como um mercado ávido por bens de consumo que participavam ativamente do pensamento de desruralização, apesar de ter no rural sua maior força, mas mesmo no campo devia-se ser civilizado e para ser civilizado é imperioso que se faça parte do jogo adotando bens simbólicos.

2. Alguns resultados

Quando o projeto de pesquisa foi escrito a ideia era focar as entradas lexicais gregas no português fechada em um período somente, o século XIX, momento em que houve um salto grande em direção à era tecnológica; quando a medicina, acompanhando o movimento, também evoluía com rapidez; assim como a vida cultural da sociedade brasileira fervilhava, ou melhor dizendo, quando a ideia de se formar uma sociedade civilizada no país eclodiu, dados os acontecimentos históricos da época, como a já citada vinda da corte portuguesa para o Brasil, que para suprir sua necessidades europeias fundaram um novo estilo de vida no Brasil, junto com a instalação de bibliotecas, museus, teatros e, o que mais interessa para essa pesquisa, a imprensa. Porém, há dentre as formas lexicais levantadas algumas que já faziam parte do léxico da língua portuguesa, as que foram incorporadas à língua em momentos anteriores ao período o qual primeiramente nos chamou a atenção e que tencionávamos analisar. Essas entradas são tão importantes e impossíveis de serem ignoradas por figurarem entre as novidades do século XIX, se não com sentidos diferentes, ao menos com significados expandidos, que não podíamos ignorá-las. Logo, citarei, neste artigo, talvez o lexema mais emblemático dentre todos os pesquisados que melhor exemplificará o tipo de trabalho feito.

3. Machina

Máquina é uma forma que já fazia parte do léxico latino e que não sofreu mudanças de sentido até ser incorporada ao português, quando seu sentido foi reduzido.

No grego antigo, temos o sentido que foi transmitido ao latim:

μηχανή, Dor. μαχανά, ἡ, (μῆχος) – Lat. machina: I. an instrument, machine for lifting weights and the like, Hdt.; μ. Ποσειδνος, of the trident, Aesch.; λαοπροις μ., of Xerxes’ bridge of boats, Id. 2. an engine of war, Thuc. 3. a theatrical machine, by which gods were made to appear in the air, Plat.: hence proverb. Of any sudden appearance, σπερ πμηχανς (cf. Lat. deus ex machine), Dem. II. any contrivance for doing a thing, Hdt. etc.: in pl. μηχαναί, shifts, devices, arts, wiles, Hes., Att,; μηχανας Δις by the arts of Zeus, Aesch.; proverb., μηχαναΣιςφου Ar.: - phrases, μηχανν or μηχανς προσφρειν Eur.; ερισκειν Aesch., etc.: - c. gen., μ. κακν a contrivance against ills, Eur.; but, μ. σωτηρας a way of providing safety, Aesch. 2. οδεμα μηχαν [έστι] πως ού, c. fut., Hdt.; also, μ ού, c. inf., Id. 3. in adverb. phrases, κ μηχανς τινος in some way or other, Id.; μεδεμιι μηχανι by no means whatsoever, Id. (Liddle & Scott, Greek-English Lexicon)

O dicionário usado é especializado em grego antigo.

Devemos, antes de tudo, notar as diferentes formas dialetais μηχανή (mechané) e μαχανά (machaná), a primeira pertencente ao dialeto ático e o segundo ao dialeto dórico. A diferença principal entre esses dois dialetos é, como podemos notar, a predominância no dialeto dórico da vogal α, que equivale em português ao nosso /a/, enquanto no ático a vogal predominante é o η, que equivale em português ao nosso /ε/.

Notamos que, em grego antigo, o significado para μηχανή (mechané) liga-se ao engenho mental, método o qual se aplica para alcançar determinado fim independentemente se esse meio é físico ou não, podendo ser traduzido por wiles (logro, engano) ou arts (arte, indústria, habilidade, manha), como vemos em alguns exemplos de frases dadas pelo próprio dicionário: “μηχαναῖς Διός (mechanáis Diós = pela arte de Zeus)”; a forma, no grego, não se dissocia, como no português, do sentido intrínseco de mecanismo, maneira, meio (way). E junto a esse sentido está o que foi acolhido pelo léxico português de utensílio físico o qual se usa para alcançar determinado fim, como os mecanismos de guerra, como instrumentos em geral, máquinas. O dicionário Liddell and Scott dá o exemplo do artifício que Xerxes usou para alcançar a Hélade, quando, para da Ásia chegar à Grécia, construiu uma ponte feita de barcos interligados por cordas ligando as duas porções de terra no Helesponto. Para isso Heródoto, o historiador que relatou a invasão persa à Grécia, denomina essa indústria de Xerxes: λαοπόροις μαχαναί (laopórois machanaí). “Λαοπόρος” (laopóros) dicionariza-se como: “que serve como uma passagem para um povo, condutor de homens”. Dessa forma o sintagma pode ser entendido porque foi esse o mecanismo que o rei persa usou para alcançar seu alvo junto com seu imenso exército e, assim, λαοπόροις μαχαναί pode ser traduzido para o português simplesmente como “ponte”. Esse sentindo amplo do morfema μηχανή (mechané) passa ao latim com exatidão:

machina,ae f. Cic. a machina militar, o engenho, v g.: de levantar pesos, de moinho, etc. Cic. a catasta, ou o logar em que se expunham os escravos para se venderem. Cic. A machina, astúcia, o artifício, engano. Ulp. Jctus. O andaime do pedreiro. Machinari machinam: Plaut. Armar, machinar, ou idear, engano. Adhibere machinas as aliquid: Cic. Applicar toda a astucia para conseguir alguma cousa. Mundi machina: Lucr. A machina do mundo.(SOUZA, F. A. de. Novo Diccionario Latino-Portuguez)

O sentido com o qual máquina chegou ao português é muito reduzido se comparado com o sentido que esse morfema possuía no grego ou latim, guardando somente parte de suas possíveis traduções:

máquina. S.f. 1. Aparelho ou instrumento próprio para comunicar movimento ou para aproveitar, pôr em ação ou transformar uma energia ou agente natural. 2. O conjunto orgânico das peças dum instrumento; maquinismo, mecanismo. 3. veículo locomotor. 4. utensílio, instrumento. 5. fig. Estrutura orgânica e harmônica. 6. fig. Construção importante, complexa ou suntuosa. 7. fig. Entidade ou organismo complexo. 8. fig. Multiplicidade de coisas que se relacionam entre si. 9. fig. Pessoa sem idéias próprias e que procede como autômatO. (...) (AURÉLIO, 1988, p.?)

O uso do morfema se restringe a nomear os utensílios físicos que se usam para alcançar determinado fim, e quando usado conotativamente: “fig. Pessoa sem ideias próprias e que procede como autômato”, a ideia é de alguém que é usado por outro como um utensílio físico. Assim o lexema máquina geralmente vem associado a um outro que lhe dê sentido ou algum sintagma que o explique, que instrumentalize o lexema máquina, pois nota-se que esse lexema torna-se geral como um determinante de algo mutável, que não possui um sentido restrito por haver várias espécies e tipos de máquinas.

Temos como exemplo os anúncios de jornal recolhidos que caracterizam nosso corpus:

- 14 de junho de 1870. Campinas. Gazeta de Campinas. KX|Vende-se uma machina propria para marcar papel, cartão de visita e casamento, e bem assim um sortimento de cartões bordados e dourados tudo de 1ª qualidade. Para tratar com o QUIM SIMÕES.

Este anúncio, retirado de um jornal de Campinas, põe à venda uma máquina que exerce uma função para a qual foi, no momento de sua fabricação, pensada. Esta máquina é “própria para marcar papel, cartão de visitas e casamento”. Os que se interessassem pela máquina de marcar papel e cartões deveriam procurar Quim Simões, provavelmente alguém muito conhecido na cidade.

- 28 de janeiro de 1872. Campinas. Gazeta de Campinas. BÉLIER HIDRAULIQUE (Machinas para suspender agua) ||Na Imperial Officina Machina de A.C. Sampaio Peixoto construe-se as machinas acima, de diversos tamanhos para suspender agua a qualquer altura.|Estas Machinas são de muita vantagem para quem tem agua distante da moradia, podendo com o emprego d’ellas, trazel-a para aonde quizer, e trabalham noite e dia sem ser necessario meio algum para movel-a. se não a propria agua que entrando por um tubo escapa parte, e pela compressão do ar dá impulso a que fica em outro fazendo-a subir a altura desejada.|São de contrução simples e duravel, o que se garante.| Na officina acima construiu-se uma muito pequena que está exposta ali, para quem quizer vêr, e trabalha perfeitamente bem, suspendendo 23 pollegadas cubicas de agua por minuto á altura de 18 pés (25 palmos)

Neste outro anúncio o tipo de máquina à venda é uma utilizada para “suspender agua a qualquer altura”. Provavelmente um tipo de máquina que hoje chamamos bomba hidráulica, uma máquina “para suspender agua”. Em um momento em que o país sofria um movimento civilizatório, um ponto importante é o facilitar a vida dos cidadãos utilizando-se de inovações tecnológicas para tal, assim como uma ruptura entre o rural e o urbano. Esse movimento de urbanização prevê certa mecanização das tarefas que até então eram estritamente manuais, desta forma não é mais preciso o trabalho árduo de buscar água com baldes e afins para quem pode comprar uma máquina que “para quem tem água distante da moradia” pode trazê-la “para onde quizer”.

Como dito acima o lexema vem acompanhado ou por uma explicação que se constrói com o uso do lexema + a preposição ‘para’ + infinitivo, neste caso a preposição denota a finalidade do instrumento; ou a construção se dá com o uso do lexema máquina + a preposição ‘de’ formando uma palavra complexa para especificar o tipo de máquina de que se trata:

- 29 de julho de 1887. São Paulo. Correio Paulistano. Machinas de costura|A. Frederico Schulze & Companhia|Importadores de Machinas de Costura.|Pedem ao respeitavel publico se digne visitar o seu estabele|cimento para examinar o que há de melhor em machinas de|costura dos afamados auctores e com todos os aperfeiçoamentos|úteis adoptados pela technica moderna.| Os seus preços são extremamente módicos e ao alcance de|todas as bolsas. Aqui encontrará sempre o publico grande sortimento|de machinas para tocar á mão, á pé, á|pé e mão, com caixa ou sem| caixa, próprias e perfeitas para todas as costuras, desde a mais fina|cambraia até o mais en corpado algodão.|Os Senhores Alfaiates, sapateiros, selleiros, correeiros, etc.,| tambem encontrarão nesta casa as mais aperfeiçoadas machinas, já|com accessorios que só a mechanica do progresso hodierno|poderia adeptar para que taes machinas produzam trabalhos|maravilhosos, não só pela perfeição como pelo pouco tempo comsumido|e pelo pequeno incommodo de quem as menejar para produzirem|taes resultados. Todas as machinas de nosso estabelecimento são garan|tidas, porque só importaremos o que houver de bom, solido, elegante|e perfeito nesta industria. Também ahi encontrará o respeitavel|publico artigos concernento ás machinas de costura, como agulhas,|retroz, oleo, almotolias, correias, peças avulsas, etc., tudo de | superior qualidade a preço módico.| Rua de São Bento, 62| São Paulo.

Neste anúncio temos o exemplo da oferta de um tipo de máquina específica: “máquina de costura”. A empresa que anuncia o artefato é especializada em importações de máquinas deste tipo, trazendo a especificação no nome fantasia da firma: “A. Frederico Schulze & Companhia. Importadores de Machinas de Costura”, desta sorte essa empresa tem todos os artefatos necessários para a manutenção e funcionamento deste tipo de máquina.

As construções sintáticas podem ser lidas equivalentemente. De tal modo que parafraseando ‘machina de costura’, temos em bom português: ‘machina para costurar’, ou no sentido contrário para ‘machina para suspender água, temos como frase equivalente: ‘machina de suspensão de água’.

Quando o lexema machina aparece isolado, sem qualquer tipo de associação para a formação de palavras complexas, ou sintagmas que expliquem o seu uso, se refere a uma gama de tipos desse artefato, ou a retomadas reduzidas do tipo de máquina já mencionada no texto dos anúncios. Para exemplificar essa última afirmação, podemos tomar parte do anúncio logo acima transcrito:

- 29 de julho de 1887. São Paulo. Correio Paulistano. (...)Aqui encontrará sempre o publico grande sortimento|de machinas para tocar á mão, á pé, á|pé e mão, com caixa ou sem| caixa, próprias e perfeitas para todas as costuras, desde a mais fina|cambraia até o mais en corpado algodão (...)

Neste trecho o lexema máchina aparece retomado reduzidamente, mas que se entende como em sua forma complexa, machina de costura. Esse tipo de máquina possui formas variantes de funcionamento, elas podem funcionar tendo como motor propulsional as mãos ou os pés; podem ser montadas sob um móvel, uma caixa ou, a critério do comprador, vir solta.

Abrindo aqui um parêntese, Alencastro6 nos atesta uma tentativa do Brasil do século XIX de tentar se espelhar em certas nações já constituídas na Europa, principalmente a França. O autor nos fala sobre um “franceismo” experimentado pela sociedade brasileira tanto no que tange a vida urbana quanto à vida rural.

Um modo de vida caracterizado por uma cultura rica, menos desequilibrada que a da Itália, menos rústica que a da Espanha e Portugal, mais densa que a da Inglaterra, mais presente do que a da América no Norte7.

Há de se ter em mente que a população urbana em comparação à rural no Brasil do século XIX era, em termos de grandeza numérica, menor, e por isso mais presente na vida enquanto sociedade. Tendo então como fonte de parâmetro civilizado a França, através de folhetins, operetas e romances que desembarcavam no Império, a elite brasileira se mostrava uma grande consumidora do modelo escolhido. Assim, os modelos de máquinas de costura vinham para incrementar “as atividades domésticas das mulheres livres e escravas8. Fecho aqui o parêntese.

Para exemplificar a ocorrência de machina para referir-se a uma gama de tipos de máquinas temos o anúncio que segue:

- 22 de janeiro de 1879. São Paulo. Correio Paulistano. PHOTOGRAFIA|AMERICANA|RUA DA IMPERATRIZ|São PAULO| O propretário deste estabelecimento, de volta de sua viagem á Europa, continua a trabalhar no mesmo estabelecimento, o qual se acha augmentado com machinas e utensílios os| mais modernos.|Neste estabelecimento, que conta 16 annos de existencia (o mais antigo deste província) continua-se a trabalhar por todos|os sistemas de photografias, desde o retrato em a|mais pequena miniatura até o tamanho natural.|Encarrega-se de mandar pintar em Pariz pelos melhores pintores, qualquer retrato em|busto, ou corpo inteiro, a oleo, pastel ou aquarella, bastando para isso um pequeno retrato|da pessoa que se quizer retratar.|Trabalhar-se todos os dias, das 10 horas da manhã, ás 4 horas da tarde, não importa o tempo chuvoso.|OS SENHORES PHOTOGRAFOS|encontrarão neste estabelecimento tudo que é mister á mesma arte, e pelos preços do Rio de Janeiro|Retratos de até Réis 5$ a dúzia!!!

Textualmente a ocorrência do lexema machina não pode retomar seu sentido em nenhuma outra ocorrência, pois não há menção ao tipo de máquina a que se refere essa ocorrência. Desta sorte entende-se que este estabelecimento possui máquinas de diferentes tipos. Mas que tipo de machinas seriam essas? Pode-se depreender que essas máquinas são machinas photograficas, porém esse dado não aparece explicitado, talvez por não respeitar as construções sintáticas até o momento encontradas. A photografia era uma arte em franco desenvolvimento no que diz respeito aos sistemas pelos quais se poderiam adotar para aperfeiçoar o trabalho.

Photografia foi um lexema adotado pela língua portuguesa em 18589, sendo grande a aceitação pública dessa nova tecnologia no Brasil oitocentista como podemos notar pela quantidade de anúncios que se fizeram na época de casas especializadas nessa arte.

- 24 de abril de 1870. Campinas. Gazeta de Campinas. PHOTOGRAPHIA CAMPINENSE DE HENRIQUE ROSEN|| 28-RUA DIREITA-28||Tira retratos todos os dias e por todos os systemas. Para familia - os preços são reduzidos consideravelmente.

Os photografos brasileiros procuravam, por fina força, se especializar a ponto de procurarem na Europa os novos sistemas para sanar as demandas no país de origem, como podemos notar no anúncio anterior a esse citado logo acima. Naquele anúncio se diz: “O propretário deste estabelecimento, de volta de sua viagem á Europa, continua a trabalhar no mesmo estabelecimento, o qual se acha augmentado com machinas e utensílios os| mais modernos”. Assim a modernidade se liga tanto ao lexema machina quanto à photografia.

O lexema machina não é um neologismo adotado no século XIX, mas, sim, uma palavra já há muito incorporada na língua portuguesa, teve sua primeira ocorrência registrada em 1572, segundo Antônio Geraldo da Cunha em seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (2010). Mas a importância de machina para o nosso estudo se dá pela associação deste lexema com outras invenções da época que primeiro nos chamou a atenção, o século XIX, como no exemplo do invento “machina para suspender água”; ainda como a “machina própria para marcar papel”. O lexema intimamente liga-se a denominações de novos artefatos tecnológicos, logo, ligado à modernidade.

- 29 de julho de 1887. São Paulo. Correio Paulistano. (...) Pedem ao respeitavel publico se digne visitar o seu estabele|cimento para examinar o que há de melhor em machinas de|costura dos afamados auctores e com todos os aperfeiçoamentos|úteis adoptados pela technica moderna.(...)

- 22 de janeiro de 1879. São Paulo. Correio Paulistano. (...) O propretário deste estabelecimento, de volta de sua viagem á Europa, continua a trabalhar no mesmo estabelecimento, o qual se acha augmentado com machinas e utensílios os| mais modernos.(...)

Como se vê nos exemplos dados, machina e modernidade se expõem de forma associada.

Uma vez incorporado o lexema à língua, inevitavelmente, sofre fenômenos morfológicos, principalmente por fazer parte de uma área tão produtiva quanto o campo de novas tecnologias. Dessa forma a partir do lexema machina e do fenômeno derivacional, que “consiste em formar palavras de outra primitiva por meio de afixos” (Bechara, 2007), novas palavras são criadas (neologismos) para dar conta das novas áreas que surgem a partir da adoção de novas tecnologias. Assim da “palavra simples” machina com a adição do sufixo derivacional agentivo –ista temos a denominação da pessoa que opera máquinas, o machinista. Segundo Cunha (2010), a adoção deste neologismo se deu em 1813:

máquina sf. Qualquer utensílio ou instrumento’ | machina 1572 | do lat. Machina, deriv. Do gr. Dor. Machana ‘meio engenhoso para se conseguir um fim (...) maquinista 1813. do fr. Machiniste(...) (CUNHA, 2010, p.?)

Logo o sentido dicionarizado para a nova palavra é:

maquinista s. 2 g. 1. Pessoa que inventa, constrói ou conduz máquinas, principalmente locomotivas e máquinas de navios a vapor. 2. Teat. Contra-regra ou operário encarregado da manipulação dos maquinismos de um teatro (AURÉLIO, 1988, p.?).

Temos assim o exemplo dessa nova palavra em nosso corpus:

- 27 de fevereiro de 1889. São Paulo. Correio Paulistano. Engelberg, Siciliano & Companhia|Machinas para lavoura|privilegiadas pelo governo imperial|São Paulo|No empenho de tornar cada vez mais conhecidas as vantagens que sobre|quaesquer outras offerecam as nossas excellentes machinas para a lavoura,|chamamos a atenção do senhores fazendeiros para o seguinte:|descascador de café do “engelberg”|O descascador “Engelberg” é o unico que absolutamente não quebra café,|apresentando, além desta incontestavel vantagem, outras muitas, taes como:--|grande simplicidade e solidez, dispensando os tantos concertos que são|precisos em outras; beneficio perfeitissimo, devido ao seu excepcional e |unico systema, pelo qual o café se descasca brandamente, sem estragar- se, conservando por muito tempo a sua côr natural e sendo por isso muito apreciado e procurado em todos os mercados; não se perde nenhum grão de café porque a palha sahe de tal modo moída que é impossivel envolver café algum,|não acontecendo o mesmo com outros descascadores, os quaes, apezar de|moerem o café, deixam a palha quase inteira, envolvendo-se nella grande|quantidade de grãos que afinal se perdem por na poderem ser separados;|occupa menor força do que qualquer outro descascador para beneficiar a|mesma quantidade, havendo além disso grande economia de lenha e tempo.| Enfim, os numerosos attestados que recebemos diariamente de illustrados|fazendeiros e as experiencias feitas por muitas vezes em cotejo com outras|machinas, em cujas experiencias tem-se observado que os nossos descascadores|sugmentam a safra até dez por cento, são elementos mais que sufficientes para | comprovar o que dizemos.|E se isso ainda não fôr bastanto, nos obrigamos a pagar a quantia de réis 50$000|por arroba de café que sahir quebrado de nossa machina, condição essa que nos | poderá impor qualquer comprador.|Ainda mais: -- faremos prezente de um descascador de qualquer tamanho|dos de nossa invenção, a quem quizer nos dar em troca o café que sobrar do cotejo com outro descascador de differente systema, tomando-se como base|quantidade egual de café em côco, calculada para dar dez mil arrobas|beneficiadas.|Quer isto dizer que o nosso descascador, nas primeiras mil arrobas de café que | beneficia, já proporciona para o fazendeiro uma economia cujo valor é superior|ao seu custo.|Diante de vantagem tão reaes e incontestaveis, excusado é encarecer os meritos desta machina, e para sua significativa importancia nos limitamos a reclamar em|geral a attenção da lavoura do paiz, a favor da qual revertem os seus beneficios.|Ventilador de café em côco|Apartador de pedras|Esta machina, tambem muito simples de tão solida construcção como a|precedente, torna se egualmente necessaria por ser de grande vantagem e de|reconhecia utilidade, notadamente nas fazendas situadas em terrenos|pedregosos.|Atenuando consideravelmente a penosa lide da lavagem do café, proporciona ao|fazendeiro uma grande economia de tempo em relação áquelle prejudicial|systema.|O nosso – Ventilador para café em côco “Apartador de pedras,” duas machinas|adaptadas n’uma só peça, pelo que dispensa completamente o antigo ventilador|para café em côco, preencheu perfeitamente a lacuna que existia na lavoura,|e tanto é isso verdade, que continuamos a receber constantemente pedidos dessa excellente, única e tão invejada machina.|Machina de beneficiar arroz Evaristo Conrado|Este prodigioso producto da machina é superior a todo o encômio que se lhe|possa fazer, e para comprovar o que avançamos basta nos-á lembrar o imenso|sucesso que acaba de obter nos Estados Unidos da America, onde cauzou|assombro a sua apresentação um publico, organizando-se desde logo uma|companhia com o elevado capital de um milhão de dollars para desenvolver o|seu fabrico em grande escala, conforme reclama a procura.|A superioridade desta machina sobre qualquer outra é tão sensível, que a torna unica no mundo. De uma solidez e simplicidade extremas, dispensa o serviço|de machinista profissional para dirigil-a, sem prejudicar nem mesmo de leve|este resultado:-- não quebra arroz, brune-o com admirável perfeição e|toda a casca, pondo-a em condições de prestar-se a diversos msisteres de grande|utilidade.|Além disto a machina “Evaristo Conrado” só occupa um pequeno espaço para | seu funccionamento, quando as outras existentes, sobre serem deficientes em|seus resultados são de grandes complicações e de preço extraordinariamente|maior, sendo ainda de dispendiosissima montagem.

O anúncio de um tipo de máquina que de tão moderna e de tal autonomia que “dispensa o serviço de machinista profissional para dirigil-a”. Lê- se nas entrelinhas algo que vai além. Nesse momento há um profissional especializado em “dirigir” esse tipo de máquina, mas que com a evolução tecnológica, se torna dispensável.

Quando acima chamei a atenção para as duas formas dialetais para machina (μηχανή e μαχανά) no grego, não foi de maneira nenhuma despropositada. Ambas as formas influenciaram o léxico da língua portuguesa incutindo-se em momentos distintos e formando radicais distintos, mas logicamente associados quanto ao sentido. A forma dórica, μαχανά, como pode parecer claro, influenciou a adoção no léxico latino e ao radical que forma o lexema machina, assim como palavras que dela derivaram. A forma faz parte de uma gama de outros lexemas que serviram de empréstimos dos mais antigos no fluxo grego > latim por questões histórico-geográficas. As colônias dóricas situavam-se na Grécia ocidental, parte dela mais precisamente no sul da Itália na antiguidade; e a forma ática, μηχανή (mechané), que já no grego era muito mais produtiva na formação de palavras, influenciou outro ramo lexicográfico, como mechanica, que também faz parte do nosso corpus. Essa segunda forma dialetal pôde ser mais produtiva devido a sua origem. No século IV a.C. o dialeto falado em Atenas sofreu uma promoção à língua modelo, como o francês de Paris10, em um grau reduzido podemos exemplificar esse dado fazendo uma associação com o português falado no Brasil e o dialeto do sudeste que pode não ser tido como modelo explicitamente, mas ainda hoje é o dialeto no território nacional com maior prestígio, o dialeto preferencial para o uso na televisão, por exemplo, sendo o mais difundido.

Do lexema machina já tratamos, portanto tratemos agora do lexema mechanica.

4. Mechanica

Como dito acima, a forma ática era muito mais produtiva do que a forma dórica no próprio grego antigo dando origem a palavras como: μηχάνημα (mechánema), μηχανητέον (mechanetéon), μηχανητικός (mechanetikós), μηχανικός (mechanikós), μηχανική (mechaniké), etc., atentemos para este último. Este lexema faz parte de uma área específica de substantivos criados no grego para nomear artes, técnicas. O sufixo κή () foi amplamente utilizado por Platão e seus discípulos, como Aristóteles, para nomear áreas de estudo que abrangiam campos de conhecimento e esse conhecimento deveria ser focado e especificado, para que dessa forma esse conhecimento pudesse ser transmitido. Assim vários outros neologismos foram adotados ainda no grego por volta do século V a partir dessa sufixação como: γραμματική (gramatiké), ποιητική (poietiké), ῥητορική (retoriké), e o caso que nos interessa μηχανική (mechaniké), entre outros, que se dicionarizam, respectivamente, arte gramática, arte poética, arte retórica e, consequentemente, arte mecânica. É fato que a adoção μηχανική (mechaniké) é posterior à grande profusão de neologismos utilizada por Platão, mas que segue as mesmas diretrizes para a criação de novos lexemas. Sendo uma matéria de estudo, naturalmente, surgiram tratados e compêndios sobre os assuntos, ainda na Grécia clássica e posteriormente, visto que toda τέχνη (téchne) pressupõe ensinamento e aprendizado. Desta sorte, o sentido já presente no grego chega, através do latim, ao português:

mecânica s.f. 1. Ciência que investiga os movimentos e as forças que os provocam. 2. obra, atividade ou teoria que trata de tal ciência.3. o conjunto das leis do movimento 4. estrutura e funcionamento orgânico. 5. aplicação prática dos princípios de uma arte ou ciência. 6. tratado ou compêndio de mecânica. 7. exemplar de um desses tratos ou compêndios. 8. fig. combinação de meios, de recursos; mecanismo. (...)(AURÉLIO, 1988, p.?).

O termo, segundo Cunha, em seu “Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa”, teve sua primeira ocorrência no século XVI:

mecânico adj. ‘relativo à Mecânica, parte da Física’ ‘maquinal’ ‘versado em Mecânica’ ‘operário que se ocupa da conservação e conserto de motores’ ‘artista, artesão’. (...) mecânica XVI. Do lat. mechanica, deriv. do gr. Mechaniké (CUNHA, 2010, p.?).

Assim como o lexema machina, mechanica vem acompanhada de um peso grande, difícil de dissociar da ideia de modernidade, por serem, obviamente associados no que tange ao campo de aplicação e familiaridade. A ciência mecânica desdobra-se acompanhando lado a lado os novos inventos, sempre se ampliando para dar conta de novos movimentos, movimentos que vão ao encontro da modernidade. Pois é por essa técnica, por essa arte, por essa ciência que os novos inventos, inventos mecânicos, podem vir à luz. É fato que a palavra já fazia parte do léxico da língua portuguesa para definir uma ciência que evoluía a passos lentos. Contudo é no século XVIII, na Inglaterra, com a dita “Revolução Industrial”, e depois no século XIX com a propagação desta revolução pelo mundo numa segunda onda, foi que esse lexema toma novas cores, também se associando a palavra revolução, em voga na época, chegando-se mais à ideia de inovação, modernidade. Podemos notar o discurso ufanista em relação às novidades tecnológicas e à ciência que as possibilita nos anúncios que analisamos:

- 29 de julho de 1887. São Paulo. Correio Paulistano. Machinas de costura|A. Frederico Schulze & Companhia|Impotadores de Machinas de Costura.|Pedem ao respeitavel publico se digne visitar o seu estabele|cimento para examinar o que há de melhor em machinas de|costura dos afamados auctores e com todos os aperfeiçoamentos|úteis adoptados pela technica moderna.| Os seus preços são extremamente módicos e ao alcance de|todas as bolsas. Aqui encontrará sempre o publico grande sortimento|de machinas para tocar á mão, á pé, á|pé e mão, com caixa ou sem| caixa, próprias e perfeitas para todas as costuras, desde a mais fina|cambraia até o mais en corpado algodão.|Os Senhores Alfaiates, sapateiros, selleiros, correeiros, etc.,| tambem encontrarão nesta casa as mais aperfeiçoadas machinas, já|com accessorios que só a mechanica do progresso hodierno|poderia adoptar para que taes machinas produzam trabalhos|maravilhosos, não só pela perfeição como pelo pouco tempo comsumido|e pelo pequeno incommodo de quem as menejar para produzirem|taes resultados. Todas as machinas de nosso estabelecimento são garan|tidas, porque só importaremos o que houver de bom, solido, elegante|e perfeito nesta industria. Também ahi encontrará o respeitavel|publico artigos concerneto ás machinas de costura, como agulhas,|retroz, oleo, almotolias, correias, peças avulsas, etc., tudo de | superior qualidade a preço módico.| Rua de São Bento, 62| São Paulo.

Notamos neste anúncio a ocorrência do lexema mechanica, que vem antecipado parafrasticamente pelo período: “...os aperfeiçoamentos úteis adoptados pela technica moderna...”. Esta “technica moderna” remete, automaticamente, à ciência que possibilita a produção de “aperfeiçoamentos úteis ”, a mecânica, que vem claramente expressa mais adiante, com todas as letras: “...encontrarão nesta casa as mais aperfeiçoadas machinas, já com accessorios que só a mechanica do progresso hodierno poderia adoptar para que taes machinas produzam trabalhos maravilhosos...”. Somente com as excepcionais evoluções da ciência mecânica daqueles dias é que se poderia produzir um artigo que realizasse trabalhos tão maravilhosos. Como bem nos explica Ribeiro, os processos tecnológicos são os motores que propulsionam os avanços culturais e sociais. Notamos neste anúncio a consciência deste pensamento, o que leva ao anunciante a valorar os avanços “hodiernos” em comparação aos passados. Os avanços tecnológicos eram sentidos e racionalizados a partir de um discurso civilizatório, que pairava sobre o Brasil do século XIX. Era necessário pegar o bonde para a civilidade proporcionada pelos avanços daqueles dias.

Além dos avanços tecnológicos práticos, que podem ser usados como ferramentas para um maior conforto, seja no momento do trabalho, seja na organização social pregada na época, o Brasil se punha a consumir o que há de inovação cultural, ou ferramenta cultural, como é o caso do nosso próximo exemplo do uso do lexema mechanica:

- 12 de julho de 1828. São Paulo. O Farol Paulistano. João Pedro Latzon tem a honra de participar| ao respeitavel Publico, que elle proximamente che|gou de Londres á esta Capital, onde pertende exhi|bir algumas Artes Liberaes, ou Optica Mechanica,| com toda subtileza, perfeição, e delicadeza a que| é possível chegar, na casa da Opera d’esta mesma| Cidade, no dia 13 do corrente mez de Julho. Todos| os Senhores e Senhoras que quizerem honrar o dic|to espectaculo com as suas presenças, queirão se| dirigir á casa do Senhor Guilherme Hopkins, morador| na Ponte de Lorena, d’esde as 10 horas da manhã| até as 4 da tarde do referido dia 13, onde acharáõ| os Bilhetes não só dos Camarotes, como da Pla|tea; em cuja occasião espera o Reprezentante rece|ber a competente esportula_Principiará às 8 horas.| NoteBem A esportula dos Camarotes, Platea,| e Varanda é a do costume.

Neste caso o lexema, diferentemente do exemplo anterior, vem adjetivando o substantivo “optica”: “João Pedro Latzon tem a honra de participar| ao respeitavel Publico, que elle proximamente che|gou de Londres á esta Capital, onde pertende exhi|bir algumas Artes Liberaes, ou Optica Mechanica. Podemos deduzir, a partir da raiz, que o uso do lexema como adjetivo é posterior ao uso do mesmo como substantivo, e uma vez adjetivado se põe no jogo gramatical podendo sofrer todas as operações no que diz respeito ao uso de um adjetivo, como, por exemplo, as flexões de gênero e número. Dessa forma o adjetivo, mechanica, é flexionado respeitando o gênero do substantivo o qual determina. Sendo um adjetivo com tema em -o, a alternância de gênero para o feminino se faz com a adição do sufixo flexional -a.

Notemos que o sintagma vem parafraseado anteriormente por “artes liberais”, um tipo de arte específico que visa o ensinamento, a formação pessoal do indivíduo. Esse pensamento acompanha as ideias de formação de nação em voga na época. Para se construir uma nação é importante formar cidadãos. Assim a arte liberal é uma ferramenta que deve ser usada para essa formação, arte liberal ou “optica mechanica”, um mecanismo.

O anúncio não nos dá detalhes do que seja essa “optica mechanica”, ou arte liberal, mas tendo como base o pensamento proposto pela filosofia da arte liberal, podemos deduzir que seja uma peça teatral ou musical que faz uso de algum maquinário que possibilite a sua visualização, levando em consideração também o ambiente que essa apresentação se daria, na “casa da Opera”. Se for isso, devemos refletir sobre o uso do lexema na formação do sintagma.

Acredito que este seja o momento de explanarmos que esse sintagma é construído a partir de duas palavras que possuem raízes gregas. “Optica” tem sua raiz em ὄψις (ópsis) e esta se dicionariza da seguinte forma:

ψις, , gen. εως Ion. ιος: (from ΟΠ, Root of ψομαι): I. look, appearance, aspect of a person or thing, Lat. Species oris, aspectus, II., Soph.; εκζεσθαι απτς φανεπς ψεως Thuc.: - acc. Absol. In appearance, Pind., Att. 2. the countenance, face, Eur., etc. 3. = θαμα, a sight, Aesch., Eur., etc.; λλην ψιν οκοδομημτων other architectural sight, Hdt.; τι ψει from what they saw, Thuc. 4. a vision, apparition, Hdt., Trag. II. Eyesight, vision, Hom., Hdt., Att.: in pl. the organs of sight, the eye, Soph., Xen. 2. view, sight, Lat. Conspectus, πικσθαι ς ψιν τινto come into one’s sight, i.e. presence, Hdt.; ες ψιν τινς or τινί ἥκειν, μολεν, ελθεν, περν Aesch., Eur. (Liddle & Scott, Greek-English Lexicon)

A partir da raiz, assim como é o caso de μηχανή (machina) e μηχανική (mechanica) um substantivo derivado, se formou o neologismo ὀπτική (οptiké) a partir do uso do sufixo κή (). Como explicado anteriormente, a esse sufixo agrega-se o sentido de arte, técnica. Essa palavra foi adotada pelo latim médio com o sentido de arte:

optice, es f. Vitr. a óptica: parte da mathematica que trata da luz e da visão directa. (SOUZA, F. A. de. Novo Diccionario Latino-Portuguez)

Uma vez constituinte da língua latina e com o passar dos anos o lexema sofreu algumas alterações no que tange ao sentido, aumentando o seu campo de conceitualização e dessa forma é dicionarizado por Aurélio:

óptica. S.f. 1. parte da física que investiga os fenômenos de produção, transmissão e detecção eletromagnética de comprimento de onda compreendido aproximadamente entre 10 Å e 1 mm. 2. tratado ou compêndio acerca dessa matéria. 3. exemplar de um desses tratados ou compêndios. 4. aspecto ou perspectiva dos objetos vistos. 5. estabelecimento onde se vendem e/ou fabricam instrumentos ópticos, sobretudo óculos ou lunetas. 6. fig. Maneira de ver, de julgar, de sentir; conceito ou idéia particular (AURÉLIO, 1988, p.?).

Cunha atesta que a primeira ocorrência deste lexema no português se deu em 1813, o que dá a certeza de que a arte mecânica daquele tempo, realmente fazia uso de tudo o que era de novo para a época e se disseminava com uma considerável velocidade, como dito pelo anunciante no anúncio anterior ao que estamos analisando por ora: “accessorios que só a mechanica do progresso hodierno poderia adoptar”.

Conclusão

O foco do trabalho, como se pode notar, é muito mais lexical do que filológico a depender da perspectiva adotada. Contudo, fato é que não há outro caminho para se analisar melhormente as entradas e difusão lexical senão por documentos escritos.

Comungamos da crença muito bem esplanada por Kristeva, em sua História da Linguagem, quando esta dizendo sobre as novas formas de entendermos o homem temos uma nova ferramenta, a linguagem, nos ensina:

“Quanto à concepção da linguagem como <> do homem e da história social, como via de acesso às leis do funcionamento da sociedade, essa talves constitua uma das mais importantes caracteristicas da nossa época”

Então, através dos discursos ocorridos no século XIX, tentamos esplanar um pouco da história social brasileira. Notamos as passagens do velho para novo, quando as leis que se faziam operantes não deixam de existir, mas se modificam, ora se modificando totalmente, ora se complementando. Artefatos novos para velhos trabalhos, palavras formadas por raízes morfologiscas antigas para nomear a novidade. E dessa forma temos pelo estudo da linguagem uma possibilidade de leitura de um mundo.

Esperamos ter deixado essa perspectiva clara e a contento.

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Recebido em 10/10/2016 e aceito em 06/12/2016